sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Réveillon

Nos outros dias do ano, pouco se lembra. Mas todo 31 de dezembro, quando vai se aproximando a meia-noite e o momento de brindar com champanhe, ele recorda um réveillon antigo, quando o ímpeto da juventude o fez duelar por uma mulher com outro rapaz, cada um segurando na mão um gargalo de garrafa espatifada. Passa a mão no rosto, sobre a cicatriz, e lembra-se, quase sem rancor, da expressão tripudiante do rapaz. Mas não se lembra do nome da mulher por quem duelou. Era alguma coisa assim como Ísis ou Tamíris. Ou Magnólia.

Thank you

Quando analisa sua felicidade e a põe em números, acha que se sua sorte fosse expressar-se em termos de probabilidades, sua chance seria de uma em um milhão. Mais ou menos como se, andando no meio de uma multidão no centro de São Paulo, alguém lhe batesse no ombro e perguntasse se não era por acaso John Smith Palmer, cidadão dos EUA, procurado por quase um ano em todo o mundo para receber um prêmio de dois milhões de dólares de uma loteria de Nova York. E ele, João Dario dos Santos, morador do Bexiga, seria, sabe-se lá como, John Smith Palmer e agradeceria ao homem: thank you.

A tarefa

A primeira coisa que faz é abrir a janela e pedir ao sol que vá acordar a bem-amada. O sol se habituou tanto a essa tarefa que o homem, quando abre a janela e não o vê, nos dias cinzentos, já sabe: ele foi por conta própria.

Soneto do amor duvidoso

Pensaram: talvez pudessem
Da antiga crença descrer
E até dela se esquecer.
Pensaram, mas não esquecem.

E vivem assim: enquanto
Se empenham em deslembrar,
Conseguem só recordar
E reviver todo o encanto.

Talvez prossigam tentando
Negar o amor, procurando
Matar a fúlgida chama.

Irão tentar, se esforçar,
Para no fim confirmar
Que ele ainda a ama e que ela o ama.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Nós

Nasceu de nós, e cresceu.
Se é frio, cálido, terno,
Se é fraco, efêmero, eterno
Quem sabe és tu, ou sou eu.

Ainda não

Nada é como ele previa.
Espera vir a razão.
Chegou a idade, mas não
Chegou a sabedoria.

Beijos

Ele a beijava de manhã, antes de ir ao trabalho, e à noite, quando voltava. De manhã, um beijo rápido. À noite, muitos, e demorados. Com o tempo, isso passou a não lhe bastar. Faltava um pouco de aventura, de risco, da excitação provocada pelo perigo. Ele agora já a beija na rua, no metrô, no trabalho. Alguns sorriem, outros balançam a cabeça e fazem gestos: é doido. Para evitar isso, ele está aperfeiçoando beijos furtivos. Começou tirando uma cópia da foto. A original, com sua moldura, atrapalhava e chamava muito a atenção.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Declaração

É tão difícil assim,
Me diz, se a ti me declaro
De modo tão firme e claro,
Acreditares em mim?

Doidinha

Doidinha, não sei o que você viu em mim. Eu vou até o espelho, olho, olho, e palavra que não vejo nada que possa merecer uma segunda espiada. Mesmo assim, deixo passar cinco minutos, reúno toda a autocondescendência, volto ao espelho e... vejo o que já tinha visto: um rosto rabiscado pela vida e pelo tempo, um sorriso que, quando se abre, se abre de má vontade e, nos olhos, sempre aquela disposição de captar toda a melancolia possível e conservá-la. Não sei, doidinha, o que você pode ter visto em mim. Há de ser algo interior, que só a alma seja capaz de apreender. Só pode ser isso. E o que eu vi em você, doidinha? Ah, não me pergunte. Eu sou um jarro velho e furado e, mesmo querendo muito, me sinto incapaz de reter, por mais de um momento, seja o que for vertido em mim, mesmo que em mim você verta esse mel, esse ouro, isso que eu, antigo, ainda me atrevo a chamar de néctar, por não ter aprendido palavra melhor, por não me haver preparado para algo ainda mais doce que o néctar e a ambrosia.

Menino

A prostituta disse três vezes ao menino que o preço era aquele mesmo, sem discussão. Na quarta, os olhos dele, pedinchantes, conseguiram o abatimento, e por metade do preço ele a cavalgou na deprimente cama do hotel e ela deixou que ele a chamasse
de puta, puta, puta, porque, talvez por descuido da sua grosseria, ele de vez em quando ofegava também um adjetivo: querida, boa, gostosa. Ela aceitou os adjetivos e, estranhamente, também o substantivo, que ele repetia como se quisesse com seu hálito em fogo marcar a palavra na orelha que ia mordendo como se fosse um bebê afogando-se num seio. E foi assim, como bebê, que a mulher o viu na meia hora em que ele se debateu em cima dela, cavando-a, e depois, quando, com aqueles olhos esmoleiros, ele conseguiu ainda mais um desconto além do acertado e se foi, sem olhar uma vez, ao caminhar pela calçada. Ele não acenou, não disse uma palavra e dobrou a esquina. Ela, porém, disse baixo: "Pode voltar quando quiser, meu menino." E soprou um beijo.

Soneto da trama em que nos enredamos

O que temos é um mistério.
Talvez tudo, talvez nada.
Será um enredo sério
Ou uma história gorada?

O destino escreve o enredo
E o acaso sugere a trama
Mas ambos mantêm segredo:
Tem mesmo amor quem diz que ama?

E ora rindo, ora chorando,
A história vamos tocando
Sem vislumbrar o final.

Um dia talvez saibamos
Dizer se nós nos amamos
Ou se é mentira, afinal.

Ser

Tu serás ou terás sido,
Já nem importa saber,
Ou belo instante a viver
Ou belo instante vivido.

No ponto

Se mais suave tu fosses,
Ah, eu sei que morreria.
Como aguentar poderia
Palavras ainda mais doces?

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Ternura

Precioso e suave momento:
A paixão dorme, saciada,
E enquanto vêm a brandura
Gostosa, refestelada,
E o doce entorpecimento,
Moroso, lento, grudento,
A silenciosa ternura,
Tão longamente aguardada,
Derrama em nós a doçura.

A voz do dia

Nunca mais eu a compararei ao dia. É injusto com ele. Para haver sentido na comparação, seria necessário que o dia tivesse olhos, cabelos, nariz, boca. E que fossem olhos, cabelos, nariz e boca como os seus. E que, quando ele falasse, o vento, sentindo um arrepio gostoso e morno, começasse a fazer voltas em torno das flores do parque. E que as flores imaginassem estar sendo chamadas para compor um buquê de noiva. Seria necessário isso. Mas me diga, amiga, o dia fala?

Previsão

Ela não é o sol. Talvez seja mais, porque toda manhã, antes de abrir a janela, ele procura no celular alguma mensagem dela que lhe diga se vai ser ensolarado o dia dele ou nublado como aqueles em que a caixa de entrada traz a terrível palavra: vazia.

Juramento

Diz sempre
nunca vou
te esquecer
nunca
e sempre
que diz isso
implora
intimamente
que se o abater
uma desgraça
que ela atinja
uma perna
as duas
um braço
os dois
algo que o faça
ser apontado
discreta ou
indiscretamente
na rua
mas jamais
uma calamidade
que corroendo
sua memória
apague nela
o juramento

Labareda

Ao homem não importa mais ter pouco tempo para a vida. Ter pouco tempo para o amor, sim, já o angustiou, mas hoje não mais. Todos os sentimentos para ele estão agora como o fogo que crepita ainda uma vez por um segundo ou dois com tal fulgor que, se um pouco mais intensa fosse a labareda, cegaria todos os olhos humanos caso não se transformasse em cinzas. O amor arderá, se contorcerá numa última reverência e morrerá em completa glória diante do homem, que se sentirá venturoso por dispor desse segundo ou dois, mesmo - ou especialmente - se forem os últimos de sua vida.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Também

Não sabem se é sortilégio,
Se é dom ou se danação,
Se é ruim ou se privilégio,
Não sabem, não saberão.

Não sabem, porém o aceitam,
Seja um mal ou seja um bem.
Se for um bem, se deleitam
E, se for um mal, também.

Soneto em que se lamenta a falta de coragem

Quisera ter a ousadia
De lhe dizer mais, bem mais
Do que palavras banais
E este surrado bom-dia.

E ao desatar a linguagem
Também o corpo soltar
E sem receio ensejar
Às mãos e aos lábios coragem.

Quisera abraçar, quisera
Depois de tamanha espera
E tanto me consumir

Livrar-me completamente
De toda amarra e corrente
E o gozo todo fruir.

Pé atrás

Brigam
por isto
ou por isso
ou por aquilo

Brigam
por isto
e por isso
e por aquilo

Desentendem-se
amuam-se
falam-se
coisas ásperas
e depois de falá-las
não se falam
mais

Passam dias
semanas meses
sem se falar
mas com a doce
incitação
da memória
e da saudade
molham
diariamente
de mel
palavras
de reconciliação

Porém,
quando voltam
a se falar
logo o mel escorre
e as palavras
voltam a soar
como pedras

Têm medo de
se entregar
ao que sentem
porque algum
orgulho ferido
ainda lhes dói
alguma lembrança
de algo que outrora
lhes pareceu merecer
as mais ternas
palavras
palavras que hoje
se arrependem de
ter pronunciado

Que cicatrizem
as feridas
e possam logo
os dois dizer
um ao outro
palavras que não
tenham receio
de se mostrar
ao sol ou
de ser ditas
quando a luz
se apaga e convida
a noite a entrar
no quarto

domingo, 26 de dezembro de 2010

Poeminha banalmente predial e onomástico

Acorda sempre
achando que
aquele será
o dia

Faz sorrir os dentes
para a escova
para o espelho
para a mulher
imaginária
que finalmente
encontrará
e que será
tal qual
a imaginou

E sorrindo
porque sempre
lhe disseram
que sorrir é
o segredo
sai para a rua
para o sol
para o ônibus
onde hoje
ela certamente
estará

E embora
só a tenha
visto na
imaginação
sabe que ela
se chamará
Rosa
Hortênsia
Margarida
ou
Maria de Fátima
Marta da Cruz
Meire do Rosário
ou
Cremilda
Romilda
Cacilda

Por um desses nomes
ele a chamará e
ela perguntará
Inácio é você
é você Cássio
Dácio é você
ou Carlinhos
Zequinha
Betinho
ou
João Rios
José Lago
Lauro Dumar
e ele responderá
sou eu meu
amor sou
eu sim
puxa você é
mais linda
muito mais
do que eu
imaginei
e ela dirá
você também
muito mais
e os dois
muito mais lindos
do que se imaginaram
descerão no mesmo ponto
e descobrirão
que trabalham
há três anos
no mesmo prédio
ele no quarto
ela no quinto andar
e que em todo
esse tempo o
Destino escondeu
um do outro
porque estava
querendo juntar
João Rios com
Luísa Pontes
do oitavo andar
e Marta da Cruz com
Honório de Jesus
do décimo
por achar que
os nomes e os
andares combinam
bem melhor
e porque
João e Marta
parecem formar
aquele tipo de
casal bobinho
que fica junto
e junto e junto
se a morte
não os separar
e que se alguma
história inspiram
é a longa
e cheia de
datas datas datas
fatos fatos fatos
fotos fotos fotos
história
da monotonia

Colheita

Saber que tudo é somente
Uma ilusão, um momento,
E, antes que fujam com o vento,
Vivê-los intensamente.

Recado

Não preciso
de muito

Algumas palavras
algumas
apenas
e a certeza plena
ou ao menos
alguma
certeza
de que as dizes
com o coração

AB e DB

Beijar-te
e ao
beijar-te
sentir
que a
vida é uma
antes
e outra
bem outra
depois de
beijar-te

Heráclito

Movimento
eterno
movimento
lento
vento
lento
movi
mento
movi
lento
movi
vento
para o
momento
do sono
lento
sonolento
e para o
esquecimento

Algo

Seria preciso
algo mais
do que esta
tarde bocejando
preguiçosamente
esperando
que o sol
baixe todo
para dormir
inteira

Seria preciso
algo
seria preciso
alguém
seria preciso
um compartilhar
um dividir
alguma coisa
algo
que ele soube fazer
que ele pôde fazer
mas há tempo
há muito
tempo
em outras
tardes

Tributo

Não lhe importaria
sorrir agora
se tivesse um motivo
que não fosse
este cansativo
tributo ao sol
e à manhã
que chegam sempre
com suas promessas
e os acenos
nos quais ele
só poderia acreditar
se não
tivesse memória

Pantomima

Envergonha-se
de haver exposto
seu sofrimento
o real e
também o fingido
buscando não
compaixão só
mas compaixão
e aplausos
e de ter tido
a pretensão de
representar seu
papel como se
fosse o de
um protagonista
de uma tragédia
de Shakespeare
quando qualquer
um na plateia
podia ver como
ele procurava
sempre
o canto escuro
do palco para
aspirar o
áspero aroma
daquela cebola
que todo
canastrão
sempre leva
no bolso

Arrepende-se
de em vez
da cebola
não ter pensado
em manter
no canto escuro
do palco um bufão
que com
uma careta
o fizesse
gargalhar
da pantomima
que foi
a história
de sua vida

São Paulo, SP

Não pode ficar
fora de São Paulo

Nunca sabe
onde ela está
se em Paris
se em Roma
se em Havana
se em Nova York

Mas ele
estando em
São Paulo
pode sempre
(ainda que a
dor tenha
feito dele
um homem
que não mais
atravessa o
portão de casa)
imaginá-la
subindo a
escadaria de
uma estação
de metrô
embora quando
assim a imagina
seja sempre
mais uma lembrança
do que uma
imaginação

Estando em
São Paulo
ele pode
fantasiar que
a chuva
dedilhando
tristemente
sua janela
possa depois ir
regar o jardim
da casa
onde ela
talvez esteja
miraculosamente
pensando nele

Melhor

Já que chegou o fim
gostaria que
ela lhe dissesse
ao menos
olha eu
não te odeio

Bastaria isso

Seria melhor
se ela
lhe dissesse
olha eu
não te odeio
pondo a mão
na dele
por um
instante
que fosse

Seria melhor
mas ele já
nem sonha
com isso

Sentimento

Se tiver
sido comum
se tiver sido
só um delírio meu
que a tua complacência
ou um fortuito descuido
do teu coração
tiverem acolhido
como se acolhe
um gato miúdo
e miento que
nos arranha a porta
numa noite de tempestade

Se tiver
sido comum
se não tiver sido
aquela emoção
que me deixou febril
e aquela comoção
que me fez engolir
meus piores silêncios
e levou aos meus lábios
as mais ensandecidas
e flamantes
palavras

Se tiver
sido comum
ah que eu me amaldiçoe
para sempre
por ter pelo meu
falso juízo
e por minha
equivocada visão
deixado gorar
a preciosa flor
os vindouros frutos
só por débil ter sido
minha emoção
flébil minha comoção
e estúpido meu
entendimento

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A história

Terá sido um
espírito
benfazejo ou talvez
um nem tanto
um espírito
arteiro
quem sabe
ou o Destino
esse escritor
de enredos
no qual sempre
os homens
põem a culpa
se não lhes satisfaz
o final

De qualquer modo
a história
um dia
começou a ser
escrita e foi
preenchendo seus
parágrafos
seus capítulos
e será injusto
dizer que tem
sido uma
história ruim
como será leviano
apesar de
minha tendência
à parcialidade
dizer que foi
uma dessas histórias
únicas
com as quais
todos sonham

É uma história
e talvez tenha
acabado
embora eu ainda
espere algo
do espírito
benfazejo ou não
do espírito arteiro
ou do Destino
que às vezes
até finais felizes
escreve

Afeto

Talvez possa
um dia
deslizar
como um rio
ou menos que
isso
um arroio
um córrego
e espelhar
sem rugas
o rosto
da lua

Mas hoje não

Hoje é mar
e se deleita
em atirar
suas ondas
para o alto
e em chamar
os tornados
para jogar
ainda mais para
o alto
todas as naus
que se atrevem
com suas
tripulações
a singrar
o azul que
ele - mar -
só pacificará
quando por ele
quiser flutuar
um barco branco
sobre o qual
manejando as velas
irá uma loira sereia

Carimbo

Às vezes
penso que
posso me acostumar
às alegrias
que imagino
viveres
sem mim

Não é fácil
mas posso
e para
minha sobrevivência
preciso
me acostumar
embora imaginar
essas alegrias
me roa
me corroa
me doa
me mate

E posso
quando sinto muita
pena de mim
fingir
menos fundos
os arranhões
do ciúme
e soprá-los
como se com o sopro
acariciasse o pelo
de uma ovelha

Posso soprá-los
carinhosamente
porque os
arranhões são
afinal
como tantas outras
prodigiosas coisas
algo que vem
de ti

Posso exortar-me
também a
ser menos
odioso e não
te contar que
em certas madrugadas
me mordo
como um cão
que ficou trancado
em casa
sem o dono

E posso ser gentil
talvez eu possa
com os sofrimentos
que por ti
me inflijo

Posso ser
devo ser gentil
com eles porque
há muito tempo
aceito como vida
só aquilo que vem
uma
duas
três vezes
carimbado
por ti

Recordações

Nem sempre
chora

Às vezes
até sorri
mas só quando
sua memória
se esquece
um pouco
de que as
recordações prediletas
dele são
aquelas que
o fazem chorar
e o repõe
num dos dias
os quatro
ou cinco
em que ele
foi feliz

E então
depois do sorriso
para essa
recordação
ele chora também
porque chorar
está na sua
natureza

À tona

Começa a se reconhecer

Apalpa-se
vai ao espelho
sorri e vê
pelo amargo sorriso
retribuído
que é ele
ele
mesmo

Outro teste
é o das tristezas
Lembra-se delas
de todas
sabe onde estão
todas
e vai buscá-las
no coração
e na alma
dolorida

Por elas sabe
que é ele
ele
mesmo
inteiro
com todas
as suas derrotas
e aquela vitória
única
que ficou só
na aspiração

Apalpa-se
olha-se e vê
que apesar de
tudo
está vivo
ou assim parece
e sorri
o sorriso
que sempre
entreabriu
ou entrecerrou
para a vida

O sorriso
daqueles que
não acreditam
nela e
sabem
por quê

Instrumento

Tenta exprimir uma dor tão dilacerante que, para aplacá-la, precisaria ter na mão não a caneta que corre lastimosa pelo papel, mas um revólver que atingisse seu coração e o atormentado centro da sua alma.

Férias

Voltou da praia
com as marcas
das lambidas
do sol na pele
um tubo
de desodorante
que foi a
maior descoberta
das férias
e que passará
a usar sempre
uns óculos escuros
que lhe ficam bem
e que conservará
uma queimadura
de estrela-do-mar
uma sandália
que o machuca
mas que ele
pretende
amaciar
e uma tristeza
aguda imensa
de não ter atendido
ao apelo das ondas
e de não ter
caminhado até onde
poderia ser
esfolado pelas
selvagens unhas
do mar
e devorado
e lançado
na rota dos
orgulhosos
transatlânticos

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Futuro

Que não te lembres de mim senão quando tua memória, já um tanto fraca e ainda mais condescendente, e tua sempre amável benevolência puderem me recordar com carinho.

Final

As paixões acabam em desamor e ódio. As que assim não terminam não merecem o nome.

Situações (224) - O brinde

No pedágio para o litoral, o motorista e os quatro passageiros receberam como brinde amostras de um biscoito, e foram elas a última coisa que comeram antes de despencar pela montanha, na quarta curva.

The end

Aceita a vida como se, indo ao cinema, fosse acompanhado por alguém que, maravilhado com o filme, se recusasse a sair no meio e o obrigasse a ficar até o instante em que o último dos intermináveis letreiros terminasse enfim.

Bênçãos

Então
o sol
apareceu
como todo dia
e o homem
sorriu
porque o ensinaram
desde cedo
a abençoar
as dádivas
da vida

Sentiu
como todo dia
certa tristeza
por não poder
caminhar
pelo parque

Mas também
como todo dia
deu graças
por ter ainda
uma perna



(Bom Natal aos possíveis leitores, com as desculpas por fazer esse voto com texto tão triste. Ele é dedicado a um menino que sofreu uma provação muito grande, uma doença da qual começa a se recuperar e tem, além desse motivo para abençoar a vida, uma disposição de abençoá-la que a mim, não tão menino, começa a faltar. Este texto é para você, C.)

Plantios

Plantou
cultivou
regou
rezou
acautelou-se
contra as
pragas e as
geadas
mas colheu
só rancores

Não queria isso
desejava flores
mas seu nome
é pronunciado
sempre como
se aos lábios
custasse
pronunciá-los
assim como
ao agricultor
abomina
dizer gafanhoto

Várias vezes
já invocou
o testemunho
de Deus
como prova
de que foram
de rosas
e de lírios
e de margaridas
sempre
seus plantios

Mas Deus parece
que não cuida
mais de flores
nem de plantios

Réveillon

Se soubesse
o que fazer
para desapertar
o nó
da agonia

se soubesse
o que fazer
para apertar
o botão
do elevador

e descer
para a praia
para os fogos
para o estampido
das rolhas
para a alegria

se soubesse
a invocação
certa invocar
e fazer oferendas
ao mar
às ondas
se ofereceria

mas sabe
que o mar
o rejeitaria

Aceno

Eu sou apenas
alguém que te acenou
numa clara manhã
de outrora

Acenaste também
e sob um sol
glorioso te foste
naquela manhã
longínqua
porque era
longo o caminho
e cheio de flores
e a vida te
aconselhava
a ir e
a seguir

Equívoco

Quando
para você
é indiferente
vir o sol
ou não vir
e você acha
até melhor
que ele não venha

Quando
para você
a treva da noite
é pouca e
você gostaria
de se esconder
embaixo da cama
como aquele gatinho louco
que você teve

Quando
você espera
do sono
um sonho
que o conduza
venturosamente
à morte
e quando
você
chora ao
despertar
por sentir que
ainda está vivo

você já
está morto
e é um
equívoco de Deus
conservá-lo
ainda aqui

Cartilha

Precisa aprender
a não falar
a não murmurar
a não dar sinal
de sua presença
a desligar a televisão
para que ninguém
seja tentado a
por amor
ou compaixão
bater à sua porta

Precisa aprender
a morrer
quieto no seu canto
para que ninguém
venha incitá-lo
com exortações
inúteis

Precisa contar
com a sorte
e morrer
sem que fique
no seu rosto
um traço sequer
que possa ser
confundido
com um último apelo
à sobrevivência
e à misericórdia

Pacto

Sem esse
pacto antigo
que tem
com a tristeza
seria diferente
sua vida

Ele não teria
essa birra
com o sol
com o riso
das crianças
com o canto
de boas-vindas
dos bem-te-vis

Ele dormiria
à noite
ele não se
emaranharia
em pesadelos
ele não acordaria
com as unhas cravadas
nas palmas das mãos
e com a sombra
do terror na alma

Se não fosse
esse pacto antigo
que tem
com a tristeza

Ele seria outro
ele sorriria
ele talvez
esperasse a
manhã inteira
se fosse preciso
para ouvir a
saudação dos bem-te-vis

Sem

Assim como a vida
a retórica
e as suas
grandes imagens
começam
a abandoná-lo

Com os pulmões fracos
não pode mais clamar
pela amada
no mar tempestuoso
e fazer ouvir
sua voz no meio
dos trovões
das imprecações
dos marujos
e do sopro
do tufão

Com os braços frouxos
não pode mais
aspirar à ventura
de abraçar sua querida
e carregá-la nos ombros
sem que ela ria
da frouxidão do abraço
ou se condoa
de sua fraqueza

Com a voz débil
como desafiará
a Morte
para a derradeira batalha
sem que ela gargalhe
e lhe diga
espere
fique esperando aí
que os incapazes
os fracotes
os inúteis
virei recolher depois?

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

No amor

No amor
não importa
ser sincero
e verdadeiro

De que adianta
esperares
dias e dias
na estrada
por um viajante
que compre
tuas belas maçãs?

Veja veja
dirás a ele
quando parar o carro
que magníficas
maçãs estas
lustrosas
e que casca lisa
e que aroma
e que saborosas

E te dirá
o viajante
apalpando uma
sim é linda
nunca vi maçã
tão maçã
assim

Mas não me
agradam maçãs
dirá ele
nunca me agradaram
e tocando o carro
tirará do bolso
e sairá mastigando
um pêssego
comum como
o mais comum
de todos
os pêssegos

Um leitor

Pensa às vezes que
escreve para ninguém
ou quase ninguém

E para saber
se é para ninguém
ou quase ninguém
costuma ser
tentado a escrever
que é um homem
sem nenhum
talento literário
um homem presunçoso
que leu muito
e julga poder
imitar os maiores
talvez até superá-los
num dia de sorte
um homem que
escreve isto agora
esperando
que um leitor
um só que seja
lhe diga amanhã
que ele não tem
mesmo nenhum talento
ou que um leitor
(um leitor,
um leitor!)
lhe diga ao menos
alguma coisa como
até que você, cara,
não escreve
tão mal assim

O tempo

É um daqueles
que para tudo
usam a frase
o tempo dirá

Para grandes coisas
para os dramas
da humanidade
e para as suas coisas
que acha também grandes
faz um ar
de sabedoria
e sentencia
o tempo dirá

Não sabe
que o tempo
nada diz
o tempo
não se importa
senão com
passar
e passando
levar tudo
e todos
sem uma palavra
sem lhes contar
a história -
grande ou pequena
que seja

Retrospecto

Sabe agora
com plena convicção
que a tristeza
e a melancolia
foram opções suas
e que as escolheu
como um modo de
parecer superior àqueles
que riam
e celebravam
a alegria
da vida

Sabe agora
que a tristeza
e a melancolia
foram como
um cachimbo
com que ele
ornou a boca
para se mostrar
importante

Sabe que isso
tem um nome
- presunção -
e que por ela
perdeu um tempo
que não recuperará

Desfez-se
do melhor da vida
pela pose
de desdém
pela máscara
de sabedoria
e altivez
e culpa-se
e amaldiçoa-se
em vão

Mereceria agora
saber que
em todo esse
tempo perdido
boa parte
dos risos daqueles
que julgava
tolos
foi causada
pelo cachimbo
imaginário
(e no entanto
tão visível)
que ele manteve
na boca durante
cada um dos
tristes anos
de sua vida

Na cruz

Quero
pedir-te perdão
pelo meu estouvamento
pela presunção
pelo refinamento
da crueldade
que usei contra ti
pelo que disse
sem pensar
e também
pelo que disse
pensando e sabendo
que não deveria
dizer
pela insanidade
que quis
compartilhar
contigo
pelo rancor
que sempre
houve em mim
e que eu quis
atribuir-te
como se o
tivesses plantado
e cultivado

E quero
pedir-te perdão
também
por ter querido
fazer dos meus
piores pensamentos
os teus
e por ter
te atormentado
e supliciado
e martirizado
e por ter
esperado de ti
sempre o o revide
para que eu
pudesse então
cravar-me na cruz
e gemer
e chorar
e suplicar
e amaldiçoar
e apontar-te
como causa
do meu tormento
e do meu martírio

Quero
pedir-te perdão
por ter tentado
matar tua alegria

Paz

Nunca mais
incitar ninguém
nem incitar-se

Sentar-se no sofá
e deixar o desvario
deitado aos seus pés
e vigiá-lo
para que não
fuja pela porta
para que não vá
contaminar
o que há de são
nos outros
nem instigar
aquele tanto
de loucura
que sempre existe
no coração
de qualquer
homem
ou mulher

Sentar-se no sofá
e ficar
agradecido
pela paz
e pela suprema vitória
que é respirar
e continuar
respirando

Teu menino

Que farás
por teu menino

Perdido
na noite
extraviado
no dia
bebendo da sarjeta
a água preta
a lata virando
e no lixo
catando o pão
que nem um cão comeria?

Que fizeste com
teu menino?

Abrigo lhe deste
e lhe mostraste
e lhe ensinaste
isto aqui
é tal coisa
isso ali
é tal coisa e
essas coisas todas
e isto tudo aqui
é o amor
é a vida

E no peito
o abrigaste
e o acalentaste
e doçuras disseste
e ele não quis dormir
nunca mais
porque no sonho
não haveria
nada mais lindo
do que aquilo que lhe deste

E depois
pela porta
por onde ele
entrou na sala
onde lhe mostraste
as maravilhas
do amor
e da vida
tu embora
o mandaste
tu o despachaste
dizendo
agora vai

Que farás
por teu menino?

Me diz
Que farás por
teu menino?

Até o fim

Fomos meninos

Choramos por
pipas desaparecidas
no céu
por bolinhas perdidas
no ralo
por presentes
não recebidos
por bicicletas
por patins
por videogames
por meninas

Nos diziam
vocês não aprendem
quando vocês
aprenderão?
E não aprendemos nunca

Depois choramos
por amor
por paixão
a mulheres
que por não termos crescido
foram para nós
meninas

E elas nos disseram
as mulheres meninas
vocês não aprendem
quando vocês aprenderão?
E como não aprendemos nunca
elas meninas
nos deixaram
por outros meninos

Somos todos meninos
sempre
e seremos
mesmo no dia
em que com
nosso rosto
cheio de rugas
e nosso melhor terno
estaremos com as
mãos cruzadas
sobre o peito
e os olhos mortos
apontados
para o teto

Catástrofe

Que como explicação
para a tua falta
de mensagens
eu ache ter havido
uma pane
nas comunicações

e que acredite
nessa pane
como se acredita
nas catástrofes
que matam
cinco mil ali
e dez mil
não sei onde

e que todas as mensagens
que continuo recebendo
as mil
as duas mil que
não vêm de ti
e não me interessam

sejam consideradas
só uma exceção
embora numerosa
à regra
da pane e
da catástrofe

Como os outros

Determinou-se a
rir
como os outros

e todo dia
se exercita
em casa
pensando em
piadas
e modulando
e encompridando
seu riso
e já ousando
até algumas
gargalhadas

Talvez um dia
se as vicissitudes
do amor
o pouparem
ele consiga
rir como riem
todos

Por enquanto
além de rir
das piadas
ri de si mesmo
como se fosse outro
rindo da estupidez
e da falta
de jeito
que ele tem
para a vida

Menino

Que dirás ao teu coração
quando ele te perguntar
por mim?

Que dirás quando
ele quiser saber
onde anda aquele homem
que pelo teu amor
se fez menino
e acreditou
já no fim da vida
ter descoberto
sua essência?

Que dirás de mim
a ele, que tanto
me recomendou a ti?
Que dirás quando
ele te perguntar
se ainda sentes
por mim aquilo
que disseste sentir
certa manhã
ou se acabaste
por te convencer
de que é ridículo
amar um homem
que voltou a
ser menino
para descobrir
no fim da vida
a razão
para mantê-la
e o motivo
para vivê-la?

Dirás a ele
ao teu coração
que todo dia
aquele homem liga
mas desligas
o telefone
imediatamente
para não ouvir
aquelas palavras
engolidas
por soluços infantis
e para não
sentires o asco
de imaginar
aquele ranho que
certamente escorrerá
do nariz dele
e que como
fazem os meninos
ele enxugará
com as costas
da mão?

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Tabuleta

Hoje gostaria de não escrever nada. Não contaminar palavras essenciais com adjetivos e verbos, não fazê-las entrelaçar-se, imiscuir-se umas com as outras, não deixá-las adquirir gosto pela promiscuidade. Distribuí-las talvez uma em cada linha, assim,
AMOR
TERNURA
AFETO
para que nenhuma proximidade possa tentá-las a trocar, uma com as demais, características que são próprias só de cada uma delas e que assim deverão continuar. Gostaria, ah, gostaria, de escrever estas palavras assim
AMOR
TERNURA
AFETO
e colocá-las em letras bem grandes e coloridas em uma tabuleta enorme e dá-la a você, para que, isentas da inaptidão que sempre tive para juntá-las com outras, cada uma diga o que podem dizer as palavras quando não modificadas pela presunção do homem.

Licença

Se um dia pensasse em se matar, teria um problema: precisaria pedir licença, porque faz tempo sua vida pertence a uma mulher, embora ela pareça não querê-la, nem embrulhada em papel de seda cor-de-rosa.

Aquele

Mais tolo é aquele
que fica em casa
e não se arrisca
do que aquele que
enfrenta o amor
onde for
com as armas que tiver e
com as que não tiver
e se dá
e se doa
e se entrega
e vive as mil
vidas do tormento
e toma os mil
venenos do ciúme
e se fere
e morre
e ressuscita
porque o amor
é na vida
a única aventura
que merece a pena
de ser vivida

Alma

Por descuido
e certamente por castigo
deixei que me
roubassem a alma

Sabia que não devia
que não podia
mas mesmo assim
saí com ela
parei numa aglomeração
cuja causa acabei
não descobrindo
e quando me afastei
onde estava a minha alma?

Foi há muito tempo
e eu talvez até já
estivesse consolado
se com a alma
não me tivessem
roubado aquela parte
dela que na verdade
era o todo
tanto que eu a chamava
de alma de minha alma

Alma de minha alma
onde estás
em que rua
em que avenida
em que manhã
em que tarde
em que noite
em que madrugada
desta imensa e triste
desta cruel São Paulo
estás?

Relação

Cada passo
em falso ou não
foi punido
e todos os passos
acabaram em fuzilamento
ou cadafalso

Tensão foi a palavra
que norteou o caminho
e também
revide e vingança
e rancor e represália

Sem ter havido
culpa houve
um culpado ou dois
e na consciência pesou
um peso desconhecido
e na alma a dor
mais desalmada

Reconheceu-se tudo
menos o que se deveria reconhecer
e o afeto negado
afundou a raiz na terra
e trouxe para um sol sombrio
o fruto mais amargo

Ainda hoje um dos dois
ainda hoje os dois
se perguntam qual seria -
porque não houve nenhuma -
para tantas acusações e
castigos e para tantas
lágrimas e sofrimento
a recompensa

Vida

Parou no tempo

Apesar da dor
do delírio
da febre
do tormento
das noites em claro
dos dias sombrios
que vieram depois
ele continua
preso à doçura
que sentiu
certa manhã
e início de tarde
doçura tamanha
que o coração
esse nem sempre
confiável conselheiro
lhe disse ter sido
(de tudo por que
ele já passou)
o que mais se aproxima
do que se costuma
chamar de vida

As flores

Que as palavras amargas
que eu te disse
possam transformar-se em flores
e se um dia me mostrares
o jardim que elas hão de formar
amplo imenso enorme
possa me matar a vergonha
porque se eu permanecer vivo
não me deixará dormir em paz
uma noite sequer
o remorso

Se tanto

Não querer
seria seu caminho
quem sabe sua salvação

Mas para não querer
é preciso querer
não querer
e nesse jogo de palavras
ou enigma filosófico
ele se bate
debate
e tenta querer
não querer
mais lembrar
da felicidade
que teve ou
pensou ter
três vezes
ou quatro
ou cinco
se tanto

Ainda mais

Não sabe como consegue, mas todo dia tem precisado ser mais triste, para receber aquilo que a vida lhe dá - e principalmente o que ela lhe nega.

Sofá

Se não fosse a ilusão
de um dia
ainda conseguir juntar as palavras
de tal forma
que elas possam
parecer literatura
não lhe restaria
senão
aquilo que ele não tem
coragem de fazer
ou - pior -
ficar o dia todo sentado no sofá
ou deitado
conforme sua disposição
ou indisposição
de espírito

Relatório

Estou bem
obrigado

Respiro regularmente
talvez não tão bem
à noite
venho caminhando
sem contratempos
a não ser a
mania de me
enternecer
com as flores do caminho
e às vezes
chorar um pouco

No mais
tenho lido
escrito
fingido que ainda
posso ser alguém
e poderia até
se não fosse
a memória
de certas coisas
certas farpas
concluir este relatório
que te faço
com uma nota seis

A faca

Continuará
a faca em meu peito
e nos meus olhos
as lágrimas
brotarão ainda
com tanta naturalidade
que parecerão
falsas

Continuarão as
insônias os
pesadelos o
veneno do ciúme e
tantas outras coisas que
não escreverei aqui
porque cada uma delas
enterra mais um pouco
em mim
a faca

Continuará ela
essa faca
que espantosamente
rasga e rasgará ainda
meu peito
como se ele fosse interminável

E continuarão vivas
estas palavras
que te digo
para que saibas
que pelo menos
um homem
talvez tenha
te dito
a verdade

Certa manhã

Já sei

Deixarás de ler
o que escrevo
todos os dias
aqui

Deixarás de ler
porque te incomodas
quando falo de amor
essa grande responsabilidade
que não queres assumir

Deixarás de ler
e o tempo passará
os dias os meses
talvez os anos
e certa manhã
por acaso ou
por incitação do destino
abrirás o blog
e lerás
como se fosse
uma rosa acabando de nascer
ou um pãozinho fresco
e estalante
aquela coisa que te incomoda
aquela responsabilidade incômoda
aquelas palavras que continuarão
falando de amor

A testemunha

Caminha no deserto

Descobriu que as ideias
e os sentimentos
até os mais pungentes
são só um assunto na pauta
um convite à comunicação
entre os homens
como a meteorologia e seus
vai-choveres e não vai-choveres

Sem ninguém para vê-lo
nem ouvi-lo
caminha como se
não tivesse corpo
nem alma
e é como se fosse
alguém que não é
ninguém

E por isso
se suporta e se tolera
e quase lhe viria
à cabeça o conceito
de felicidade
essa outra baboseira social
criada como um tema constante
para os encontros humanos

Quase lhe viria
esse conceito
se não viesse
antes a lua
e não começasse
a segui-lo

Com uma testemunha
na caminhada
ele volta a
se sentir alguém
dolorido e desgraçado
e se põe a dialogar
com a lua
sobre essa dor
e sobre essa
desgraça

Feliz

Que sejas feliz
se puderes
e que possas ser sempre
que aos teus olhos todos os dias
que aos teus sentidos
que à tua alma
só se ofereçam alegrias

Que sejas feliz
se puderes
e que possas ser sempre
para que do topo de tua felicidade
na nuvem mais alta
possas ter ao menos
uma ideia
de como sofre quem
jamais está nessa nuvem
nem em nenhuma outra
para que saibas como
é difícil ter os pés na terra
e não ver caminho
para a alma
e não saber nem
como consolá-la

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Promessa

Ainda podes salvar-me

As ondas me batem
me empurram
me tangem
sempre mais para dentro
sempre mais para fundo
e como resisto a essa força
vem do coração do mar
uma melodia
que me chama docemente
e me promete
um lugar em que a entrada
é um arco-íris
feito de mil arcos-íris

Uma voz suave me pede
que me abandone
que me deixe levar
e pergunta
por que resisto ainda
e eu respondo
que resisto por ti
e digo teu nome
e repito teu nome
e a voz diz que tu
já transpuseste
os mil e um arcos-íris
e me esperas

E eu grito que não
que não
e te chamo
e teu nome
é sufocado
na minha garganta
por ondas cada vez mais altas
mas eu sei que ainda
podes me salvar
se quiseres

E te prometo que
e te prometo
e te
e
o mar engole minha última promessa
talvez para que ao menos uma delas
de tantas
esteja isenta
da possibilidade de descumprimento

O outro

Às vezes sente tanta pena de si mesmo que gostaria de ser dois. O outro seria igual a ele em tudo. Teria os mesmos olhos e a mesma boca, mas os olhos não chorariam, a boca não se queixaria nunca e teria sempre palavras de conforto e os braços seriam doces quando o abraçassem e as mãos saberiam alisar seus cabelos lentamente, até que toda a dor nele adormecesse.

A coisa

Tem, como quase todas as pessoas, uma lista de coisas que pretende fazer - antes de morrer, naturalmente. Entre as dez indispensáveis, vem subindo de cotação uma que exige certa competência e também alguma coragem. Essa talvez o mate.

O de sempre

Perguntam-lhe
se não se cansa
de se lamuriar
de se lamentar
de se proclamar infeliz

Ele pergunta se não se cansam
de rir
de galhofar
de escarnecer
de zombar

E nesse ponto
a conversa
costuma ser
interrompida
e jogam
na cara dele
o que sempre jogam:
ele é um presunçoso
além de chato naturalmente

Possessão

De manhã
à tarde
à noite
escreve

Às vezes
de madrugada acorda e pula da cama
porque o sonho
lhe sugeriu
nova ideia

Não acreditam nele
ninguém lê
o que escreve
nem ele acredita
mas as palavras
talvez porque lhes
tenham dado o
endereço errado
continuam
a procurá-lo
como se o tivesse possuído
o espírito
do mais medíocre dos escritores

Orgulho

Não tem mais amor-próprio mas
fingindo que ainda o tem
passa cinquenta vezes por dia
perto do celular
e o deixa mudo
e tecla e destecla
um endereço no micro
e anda em volta de si mesmo
criteriosamente
como um arqueólogo
examinando ruínas

Sente vontade de dizer
de clamar
perdão pode espezinhar-me
que eu mereço
mas passa de novo diante do celular
e o deixa quieto
tecla e destecla o endereço
e se devora e
se consome e se
tritura e se esmigalha e
se destrói
e se arrasa
como se já não estivesse
devorado
consumido
triturado
esmigalhado
destruído
arrasado

A mulher

Um dia
é possível que eu veja
alguém que me pareça você
e talvez se pareça tanto
que eu a seguirei
com meu coração
ora querendo que seja você
ora querendo que não

E me aproximarei
e olharei essa mulher
que talvez seja você
e ela será tão você
que mesmo não sendo
eu ficarei com os olhos úmidos
mas reterei na garganta
as palavras que
venho guardando há tanto tempo
porque se as disser
é provável que você
se for você
reconheça enfim
o amor que tanto eu quis merecer

A razão

Haverá uma razão para esses sorrisos
e essas gargalhadas que todos os dias
ele encontra no seu caminho

Já procurou essa razão
ainda a procura
e houve tempo
em que essa era
a principal preocupação
de sua vida

Qual a razão para
esses dentes se mostrarem
e esses cacarejos
que parecem sair dos intestinos
estourarem toda manhã
no seu rosto devastado?

Já pensou que a razão
é não haver razão nenhuma
e isso
em vez de confortá-lo
cravou ainda mais fundo
a lâmina
que lhe atravessa a alma

O que precisa fazer
o que precisa
não fazer
para ter direito a essa
gargalhada gargarejante
que os outros têm
para apunhalar sua alma?

Tantos dias

A gente vai se falando
ela disse
e ele concordou
a gente vai se falando

Ele se lembra de que era uma tarde
em que a noite se demorou
e permitiu que o sol fixasse
por mais algum tempo no céu
sua presença
de laranja madura

A gente vai se falando
ela disse
e ele concordou
a gente vai se falando
e porque ele sempre foi afoito
quando o sol enfim sumiu
ele ficou perto do celular e do micro

Ela talvez não saiba
mas ele sabe que
já se passaram
vinte e seis dias
e se lhe perguntarem
agora às três horas
ele acrescentará os minutos
e se olhar o relógio
também os segundos

Ela não sabe mas hoje
desde que acordou
ele está andando
de um lado para o outro
e falando e falando
e repetindo
a gente vai se falando
a gente vai se falando
como um disse ao outro
naquela tarde

Alegrias

Assim como alguns não têm aptidão
para a matemática
ele sente certa dificuldade
com a alegria

Às vezes pensa que é
uma questão de memória
Vê ou sente tal ou qual coisa
começa a abrir um sorriso
e desconfiado se detém no meio
e teme ter exibido os dentes
em vão
(será mesmo tal ou qual coisa
algo que está na sua lista mental de alegrias?)
Precisaria escrever essa lista e
andar sempre com ela
com os itens catalogados
por ordem crescente
(ou decrescente) de importância

Tem a mania da honestidade em tudo
e quer aplicá-la também nessa área porque
receia ser injusto
e saudar com efusão
uma alegria média
e passar por uma alegria grande
sem saudá-la
por não reconhecê-la

Certos dias pensa que em vez da lista
seria melhor andar sempre com alguém (quem sabe uma mulher)
que conhecesse bem as alegrias
e assim lhe bastasse olhar nos olhos dela
para abrir entreabrir ou deixar fechados
os lábios

Mas tem dificuldade também com as mulheres
e há muito tempo nem fala mais com nenhuma
porque chegou a pensar
e talvez ainda pense
não sabe bem
que não falar com nenhuma
poderia ser talvez uma alegria
ou uma cautela contra a tristeza

Se resolver o problema da alegria
pensará no problema da felicidade
que lhe dizem ser bem mais complicado

Inefável

Talvez ela leia hoje
Talvez não leia nunca

Se ela ler
que leia o que aqui não está escrito
porque a alma não escreve
e é bom que assim seja
para que as palavras saibam
que jamais poderão traduzir aquilo
que se traduzido fosse
e dito em voz alta
paralisaria de espanto e beleza
o vento as flores
e os pássaros em seu voo

A alma

Tem medo de pegar a caneta ou o lápis
porque imediatamente a alma
se põe a exigir que ele diga
como ela sofre

Tem medo de pegar a caneta ou o lápis
porque imediatamente
começa a atender
o que lhe exige a alma

Tem medo não
de exagerar o que ela sofre e sente
mas de exprimir inadequadamente
a dor o tormento e o suplício
de sua alma
que mereciam melhor
caneta ou lápis
mais eficiente

Um menino

Sempre se sentiu
como um menino andando
por uma rua iluminada
e tocando as campainhas
casa por casa

Não dizia nada
quando vinham atender
porque era tímido
e imaginava que seus olhos tristes
explicariam tudo

Eles diziam
seus olhos
me queiram
me aceitem
me deixem entrar

Quem abria a porta dizia
que olhos lindos
menino
o que você quer?

E traziam-lhe um doce
uma balinha
uma fatia de bolo
do aniversário da véspera

E ele continuava
tocando as campainhas da rua
e dizendo com seus olhos
me amem
me amem
por favor
me amem

Até que todas as luzes
de todas as casas
de todas as ruas
se apagavam e
era inútil
tocar as campainhas

Ainda que só um punhado

Um dia
ainda olhará para os outros
como se fosse um deles
e o aceitarão
e dirão
quer um pouco de nossa alegria?

Ele pegará esse pouco
esse punhado
e sentirá como eles sempre
sentiram
o tesouro que terá na mão

E se perguntará por que custou tanto
a fazer isso
a entender essa trivialidade
e ficará passando esse pouco
de alegria da mão direita
para a esquerda
e passando e repassando extasiado

Para que as duas saibam
como foram tolas
quando se empenhavam
na colheita do sofrimento
e da melancolia

Lágrimas

Uma tarde ele chorou diante de uma mulher
e do seu coração esquivo
Chorou e deixou que ela visse suas lágrimas
porque era aquela a mais pura verdade
que ele tinha a oferecer

Chorou diante dela e chorou depois
em casa
lembrando-se do dia
em que a mãe lhe pegou o braço de menino
e apertou apertou apertou
esperando que ele chorasse
para purgar a culpa por um vaso quebrado
(e ele não chorou)

Amor
quem sabe quando derramarás tuas lágrimas?

Quebra-cabeça

Um dia
sem mais nem menos
talvez consiga entender um pouco desse mistério
que é o coração de uma mulher

Nesse dia se acabará o suplício
de suas manhãs e tardes
e o doloroso escoar de cada minuto
pingando pingando toda noite
nos olhos escancarados de sua insônia

Nesse dia sorrirá amargamente e
todo o encanto do amor
decifrado como um quebra-cabeça
ficará em cima da mesa
até que alguém piedosamente
(ele mesmo talvez)
jogue todas as peças
onde se jogam
todas as coisas inúteis

Manhã

Anda sem pressa
para ser todo possuído pelo encanto do dia

Sorri
para os pássaros, as crianças no parque
e a magnificência do sol
As árvores balançam a folhagem
e lhe dizem alguma coisa
como todo dia
e ele supõe que sejam boas palavras
senão elas ficariam mudas

Acena sempre quando imagina
que alguém lhe acenou
e olha tudo com uma condescendência
que antes não tinha

Disseram-lhe que a vida é bela
e porque ele já cansou de se debater
faz toda manhã esse exercício de reconciliação
essa tentativa de aproximação com ela
A alma lhe dói ainda
Mas ele finge que não
e cada dia finge melhor
E para não perder nada de tanta beleza
a cada dez passos se incita
a respirar

domingo, 19 de dezembro de 2010

E no entanto

Nunca mais
E no entanto que comoção me causaria receber-te sob a luz desmaiada do quarto
E fingir não ver o lento deslizar de tuas roupas
E a tua mão ajuntando-as no pé da cama antes de pousar em mim
Em alguma parte do meu corpo que depois eu precisaria esconder dos invejosos
Porque ficaria brilhando para sempre, como uma estrela.

Nunca mais
E no entanto é como se tivesses estado lá, sob a luz amena
E deixado teu corpo desenhado na cama
E o roçar dos teus cabelos em minha alma
E em minhas narinas o odor adocicado e morno de tuas axilas

O martírio

Quando pensou em se matar por amor, lembrou que tinha sido por ele tão apunhalado, cortado, triturado, esfacelado, esquartejado, ferido, esmigalhado, soterrado, estrangulado, enforcado, retalhado, queimado e carbonizado, que sua morte seria só o cumprimento de uma formalidade, a certificação de um fato mais do que consumado, e não o sagrado martírio que ao amor ele, discípulo fiel, pretendia ofertar.

A decisão

Teme que, se continuar adiando a decisão, logo não terá mais motivo para conservar o vidro cheio de pílulas no banheiro e o revólver no criado-mudo.

Madrugada

Não tem coragem. Se tivesse, não precisaria suportar os calafrios da noite e os suplícios da memória, não teria de ouvir os passarinhos nem tolerar o sol e os alegres ruídos matinais daqueles que, ao contrário dele, descobriram ou fingem ter descoberto a beleza da vida.

A cicatriz

Agora, só anda à noite, bem tarde, e mesmo assim muda de calçada ou vira o rosto rapidamente se vê alguém na rua. Anseia pelas sombras, afoga-se nas trevas e caminha horas, para cansar-se e poder dormir o dia inteiro, com a espessa cortina do quarto vedando o sol. O psicanalista, ao qual já não vai há um ano, lhe disse que a cicatriz funda que tem na alma não aparece no seu rosto, mas ele não acredita e jogou fora todos os espelhos da casa.

O lobo

Não espere cortesia do amor, minha querida. O amor, como eu o entendo, não é um fato social. O amor não se alimenta de cartõezinhos trocados. Não lhe agradam mesuras e, se ele as fizer, serão falsas, um pretexto apenas para o que ele quer. O amor quer se apossar, quer possuir, dominar, destruir. O amor é egoísta e assim há de ser, para não se constituir em mais uma efeméride no calendário familiar. O amor abomina bodas de prata e de ouro. O amor se consome rápido, às vezes nem há tempo de fotos. O amor não deixa saudade, deixa ressentimentos, ódio, marcas profundas. O amor não há de ser procurado depois nas gavetas, como uma doce reminiscência. O amor não é doce, é salgado. O amor não partilha, não compartilha, o amor não tem piedade. Quem há de esperar piedade de um lobo faminto? O amor é um lobo uivando dia e noite. Se não tiver a quem dilacerar, ele se dilacera. Se você não pensa assim, há de estar errado seu conceito de amor, minha cara, e que Deus a poupe do lobo.

A doença

Ela ficou anos sem notícias dele. Já nem contava com elas quando caiu doente, muito doente, e um dia, no hospital, entre a vida e a morte, o viu entrar no quarto. Ele ficou cinco minutos, sorriu e se foi. Recuperada, por algum tempo imaginou se a visita dele não havia sido apenas um delírio da sua febre. Isso foi há dois anos. Hoje, às vezes ela se apanha pensando que talvez uma doença, tão grave quanto a anterior, ou pior, pudesse fazê-lo aparecer de novo na porta do quarto, no hospital, com aquele sorriso com o qual ainda toda noite ela, como uma menina tonta, sonha.

Blog

Escreve alguma coisinha diariamente e coloca no blog. É agora sua única ligação com o mundo. E toda manhã, quando abre o micro, ele pensa em pedir desculpas aos eventuais leitores pelas mágoas que põe ali, pelos rancores, pelos ressentimentos. Gostaria de escrever palavras de estímulo e de louvor à vida. Não as tem, faz muito tempo, e, se de repente elas lhe viessem, não saberia mais reconhecê-las.

Misantropo

Às vezes, distrai-se e retribui o sorriso de alguém, na rua. É o que lhe basta para se repreender e prometer a si mesmo que isso nunca se repetirá.

A frase

Considera-se pragmático. Os que o conhecem têm opinião diferente. Acham que nem pessimista ele é. É pior. E citam a frase preferida dele: "Não existe nenhuma desgraça, nenhuma calamidade que um bom suicídio não resolva."

O exercício

Fazem sexo com uma amabilidade que desmente a propalada falta de educação moderna. Têm um ritmo e um método que foram aperfeiçoando com a convivência, todos os sábados, no motel. Sabem sem erro as palavras de incitação, a modulação ideal das arfadas, o número conveniente de estocadas por minuto. Entregam-se pelo tempo exato para só no sábado seguinte precisarem se encontrar. No fim, perguntam, porque a praxe pede, se foi bom, sempre acham sinceramente que sim, e despedem-se sabendo quantas calorias gastaram no exercício. Sorriem, superiores, quando alguém lhes fala das propriedades da bicicleta ergométrica e da esteira.

Primaveras

Tantos parentes já se foram - pai, mãe, irmão, irmã, os avôs, as avós - e tantos gatos e cachorros amados ficaram pelo caminho. Recorda-os com uma emoção que ainda lhe põe lágrimas nos olhos murchos. E tantos amigos. Chora-os também, mas não as primaveras - que, desde a primeira, tanto lhe prometeram e tanto o frustraram. Para elas, as primaveras, tem um sentimento raivoso que endurece o coração e amarga a boca. Quisera tê-las fruído, ao menos uma, e as amaldiçoa todas, no seu inverno desesperançado.

sábado, 18 de dezembro de 2010

A grosseria

Culturalmente, serei sempre pouco mais do que um selvagem. Filosoficamente, a palavra que me caberá com justeza será troglodita. A preparação que tive para a vida, talvez até por compulsão genética, adveio toda dos sentidos. Não tenho lógica nenhuma, assim como imagino que as paixões (às quais sempre quis me submeter) não devem tê-la, sob pena, acredito, de deixarem de ser genuinamente paixões. Quase não li nada dos filósofos e creio que nada aprenderia com eles, por minha obstinada tendência à desorganização e ao desmantelamento, além de minha natural inaptidão ao raciocínio. Tenho medo da razão, receio perder com ela meu encanto de viver - que está no tributo diário pago à exaltação quase demente dos sentidos. Gosto de Rousseau, no que ele tem não de filósofo, mas de estilista. Aprecio seus devaneios, seu sentimentalismo, a poesia que há em suas frases. Tudo isso me ocorre a propósito de uma leitura que iniciei - o Ecce Homo, de Nietzsche - e que em poucas páginas já me deu um prazer literário como poucas vezes senti. É provável que eu venha tendo, em relação a esse livro, uma atitude semelhante à de um cavalo diante de um raio de sol: vejo o brilho, não saberei dizer de onde vem. De qualquer forma, Nietzsche me proporcionou neste sábado - em que meus nervos se distenderam, como se fossem partir-se, e de minha alma se poderia dizer que está em frangalhos - momentos nos quais pude sentir, imensa e renovada, a inveja dos que conseguem percorrer a trilha da filosofia. Como incitação à leitura de Ecce Homo (publicado pela Companhia das Letras, em tradução de Paulo César de Souza), cito um trecho:

"Parece-me também que a palavra mais grosseira, a carta mais grosseira, são ainda mais humanas e mais honestas do que o silêncio. Aos que silenciam falta-lhes quase sempre finura e cortesia do coração; silenciar é uma objeção, engolir as coisas produz necessariamente mau caráter."

O programinha dos sábados

Vocês, que aos sábados se encontram (vocês dizem sair), vão ao cinema (pegar um cineminha, vocês dizem), depois jantam e, conforme a disposição de cada um e o horário, se entregam socialmente na cama, e perguntam com amabilidade se não estão transpirando muito, e no máximo uma horinha depois, quase cronometrada, se dizem amavelmente até a semana que vem, se nossa agenda der; vocês, que dormem depois o sono regular dos animais satisfeitos; vocês, que no domingo acordam cantarolando e proclamando entre bocejos que a vida é maravilhosa, respeitem ou ao menos não riam daqueles que por amor choram, e uivam lancinantemente, e andam pela noite como zumbis, porque, não tendo adquirido, como vocês, o civilizado hábito de sair aos sábados e fazer um amorzinho gostoso e saudável, se dilaceram por posses impossíveis.

Raparigas

Putinhas bobinhas
Putanas sultanas
Putonas gordonas
Puticas nanicas
Putosas gostosas
Putecas furrecas
Puticas pudicas
Putenas morenas
Putaças loiraças
Putocas bobocas

Que Satanás não vos negue
E que o bom Deus vos carregue

Molhados

Ocorre-me agora, tão tardiamente, que os teus cabelos naquela manhã pingavam não chuva, como eu imaginei, mas as gotas do banho que tomaste para, depois daqueles parcos minutos de conversa comigo, te encontrares com aquele teu rapazola. E eu sonhei tantas noites com eles, e tantas noites eu os bebi, sedento.

O mel

É velho, muito velho, mas sente-se e age como se fosse uma donzela. Por amor, tem febres, delírios, pré-desmaios, chiliques. Faz versos de manhã, à tarde, à noite e, se de madrugada o aflige a insônia amorosa, faz mais versos. Diz-se romântico. Dizem-no ridículo. Seja o que for, pobre-diabo, ele continua, dia após dia, produzindo o mel aguado da velhice.

Entre os dentes

Às vezes, depois de mais um dia amargo e uma noite maldormida, tenho vontade de te morder o braço, como faria uma garota que tivesses importunado. E, na imaginação, enterro os dentes com irado requinte, esperando aflorar teu sangue, esperando teu grito de dor, quem sabe o revide. Dura um segundo ou dois, isso. Logo me imagino com a boca mastigando um lírio, uma papoula, uma rosa.

Menina e gato

Vi a menina com o gato, no terraço, e era tão terno o olhar dela e o dele, quase adormecido, que pensei na palavra beatitude. Continuei caminhando e me sentiria feliz, se outra fosse a época, aquela em que eu me permitia ser tolo. Virando a esquina, não sendo eu nem a menina nem o gato, reassumi meu direito à infelicidade e voltei a olhar a vida com meus olhos torvos.

Febre

Gosto de me sentir assim, como se estivesse doente, prostrado, com uma imaginária febre de quarenta graus. Agrada-me estar assim e pensar em ti, como se tivesses sido chamada às pressas para debelar esta febre provocada por ti e pusesses a mão em minha testa e nela houvesse um calor e também uma febre que jamais imaginei teres.

Por aí

Fugiremos sem deixar pistas e sairemos pelo mundo. Aqui, falarão mal de nós, dirão que loucura, como é que pode, parecem duas crianças. Ficaremos rodando por aí, pelo tempo necessário para nos enfadarmos um com o outro e vermos que já nos tratamos como trataríamos qualquer pessoa. Voltaremos então, e continuarão falando mal de nós, todos dizendo que retornamos com o rabo entre as pernas e perguntando-se se terá valido a pena tanto escândalo para uma viagenzinha à toa. Só nós saberemos se terá valido, ou talvez nem nós, mas já não importará.

Sábado

Sábado é o pior dia. Não me chegam nem aquelas mensagens que me oferecem gentilmente o alargamento ou o encompridamento de nada, o método comprovado para ganhar na loteria, a fórmula para emagrecer dez quilos em duas semanas. Sábado fico sozinho comigo. E como me machuco, e como me firo, e como me doo.

Álbum

Irás virando as páginas. Esta aqui sou eu em 2009. Esta, deixe ver, é de 2010. Como eu gostava dessa blusa. Este é Fulano, estas aqui são Sicranas, dirás, com o gostoso sorriso da memória. E eu não estarei em nenhuma das fotos, nem eu nem a dor que eu sentia, a ânsia de venenos e viadutos que me sufocava naqueles momentos em que estavas posando para a câmera.

Nada

Não quero nada, nada. Nem aquele reconhecimento literário que persegui e atormentou minha vida, nem quem possa ter, como eu, a visão de que o amor nunca há de ser senão uma loucura diária que assim deverá ser mantida, e rasgar-se, e dilacerar-se, e devorar-se, e matar-se, se não quiser ser apenas mais uma banalidade para os registros de família. Não quero nada. Não quero nada. Quero o nada.

Coisas antigas

Ainda não escolhi, mas talvez o lírio seja a flor adequada para compor um soneto à moda antiga, que exprima, também à moda antiga, aquela ainda mais antiga convulsão da alma, denominada amor, e que, para ser genuína, precisava ter, outrora, aquela alegria única, aquele sofrimento, aquela angústia e aquele querer matar-se que ficariam tão bem, no soneto que pretendo escrever, com um encontro de rimas no qual estariam, por ordem de entrada na cena, lírios, delírios, martírios e por fim os círios, que era como acabavam os amores românticos - não estes amores destinados a encher de sorrisos domésticos os álbuns de fotografias.

O brinco, o colar

Por muito tempo, como não falavas de mim a ninguém, pensei que eu fosse um segredo teu, talvez o mais precioso. E me vi como um brinco ou um colar que, por amor e receio de que te fossem subtraídos, deixasses encerrado num estojo de veludo, junto com teu primeiro caderno de poesia. Assim imaginei, e fui feliz, ah, como fui, até descobrir que não era um segredo teu, mas uma vergonha que soterravas debaixo de pilhas de astúcias e artimanhas, como se ali estivesse um gato esfolado.

A pergunta

Perguntam-me sempre por que sou triste, como se a tristeza fosse uma invenção e uma convicção minhas, com as quais eu quisesse me distinguir dos demais. E recomendam-me alegrias para as quais não estou apto. Ainda hoje uma mulher me aconselhou na rua umas tantas coisas, enquanto me fitava com seus perigosos olhos castanhos. Ela falava, falava, e eu me fixei naqueles olhos, viajei neles e voltei a mim no momento em que ela repetia a pergunta: "Por que você é sempre assim tão triste?" Só então ela notou como eu me perdia venturosamente nos seus olhos, e rapidamente se despediu. Caminhei pela garoa remoendo a pergunta e, não mais que vinte passos depois, respondi com outra: e por que não?

Natal

Estarei com amigos e parentes. Não serão muitos, porque não será ainda o dia de minha morte. A rolha de uma garrafa de champanhe desatará o riso, e eu sorrirei, como tenho sorrido, sempre: o sorriso daqueles que sabem que a vida não foi feita para eles.

Pensar que

Pensar que talvez agora, no canto mais escuro da madrugada, uma rosa pode estar sendo deflorada pelo vento. Pensar que talvez agora, no silêncio trevoso, uma pequena borboleta pode estar sendo enredada na teia de uma aranha. Pensar que talvez agora, enquanto tento dormir, você pode estar...

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Qual um gato

Tive uma amiga a quem, por algum tempo, mandei todas as manhãs o sol. Não deve ter-lhe agradado a oferenda, porque sempre, no dia seguinte, ele estava de volta, e cada vez mais melancólico. Até hoje ele ainda me chama, todas as manhãs, e me pergunta se não tenho outra amiga a quem possa enviá-lo. Não, não tenho, eu digo, e ele se vai, triste como um gato rejeitado.

Tempestades

A cada manhã dura menos o encanto do sol sobre mim. Ele já nem se importa mais em me seduzir. Cumprimenta-me rapidamente e vai se exibir onde o recebem melhor. Sabendo que sou mais afeito a elas, algumas nuvens vêm me espiar, pedindo desculpas porque são clarinhas, e prometem ir chamar suas primas tempestuosas. Agradeço e espero que cumpram a promessa. Gosto das tardes plúmbeas, dos aguaceiros, das trovoadas. Fico espiando pela janela, com ar de desafio, mas já estou perdendo a esperança de um raio me fulminar.

Fragmento de diário

Chega a noite. É o tipo de frase que só a condescendência de um diário pode aceitar. Os diários tudo aceitam. Chega a noite. Escrevo isto porque me exauri tentando escrever coisas essenciais durante o dia, nenhuma das quais mudou ou mudará minha vida. Nada mais pode mudar minha vida. Minhas mensagens não têm mais destinatária. O tempo de mudar já passou. Então escrevo isto, escrevo que chega a noite sabendo que é uma coisa fútil, uma coisa que não diz nada e, no entanto, meu coração se alvoroça, talvez pela lembrança de um tempo em que chegar a noite era um acontecimento, porque havia a esperança de me alcançar um e-mail ou o nervoso toque de um celular. Chega a noite. Daqui a pouco dormirei, essa leve mas abençoada trégua depois da qual acordarei para, como todos os dias, dizer que chegou a manhã e perguntar: para quê?

Proposta de colaboração

(Do leitor Fagundes Alves, oferecendo-se para substituir o (des)afortunado autor da série Lírica.)

"Soube, consternado, da morte do autor da série Lírica, a melhor do blog. Embora um tanto constrangido, temendo ser considerado um oportunista, ofereço-me para dar continuidade à série, com o mesmo espírito, se bem que talvez sem o mesmo brilho, daquele que durante muitos meses mostrou a mim e a tantos outros leitores que o amor ainda pode - e deve - ser tratado como o mais sagrado de todos os dons da vida. Acredito no amor e nos doces martírios que ele nos proporciona. Anexo três poemas curtos, para apreciação, e aguardo esperançoso.")

Por telefone

(Recado deixado por uma voz máscula no telefone, sobre a morte do autor da série Lírica.)

"Olha, eu sempre achei que esse sujeito aí, o dos versinhos, não era sujeito, era sujeita. Homem não escreve daquele jeito afrescalhado. Se era homem, por que então vocês não publicaram o nome dele? Hem? Me expliquem. Pra mim, ele (ela) nem morreu. Acho que quem escrevia aquelas coisas era esse Raul Trombovski, chefe do blog. Esse nome só pode ser pseudônimo de alguma Dolores del Pilar ou Maria de Fátima Silva. Deve ter arranjado o sargentão que sempre quis e por isso parou com aquela frescura. Espero que não tenha uma recaída..."

E-mail

(Da leitora Célia Y. Nakamura, sobre a morte do autor da série Lírica.)

"Comunico que não lerei mais o blog, a menos que se providencie um substituto digno do falecido. Apesar (desculpe-me, sou professora de português) de algumas métricas destrambelhadas e das rimas fáceis, eu via sinceridade nele. Tomara fosse o meu o nome pronunciado por ele antes de expirar. Há alguma informação sobre isso?"

Mensagem

(De um leitor anônimo, sobre a morte do autor da série Lírica.)

"Desculpe o verso precário,
Mas esse aí que morreu,
Se foi de amor, olhe, meu,
Só pode ter sido otário."

COMUNICADO

"O responsável por este blog comunica que o autor dos textos que vinham sendo publicados sob o título Lírica morreu ontem, da mais gloriosa das mortes - a amorosa -, e que nada que aparecer a partir de agora sob essa rubrica deve ser atribuído a ele. Eventuais textos sob esse título não poderão, pois, ser creditados ou debitados ao antigo colaborador, que, como os épicos cavaleiros medievais, cumpriu heroicamente seu destino: o de morrer pronunciando o nome da amada. Em respeito à sua memória e à sua dedicação a este blog, ainda hoje publicamos suas colaborações, as últimas postadas por ele, nas quais é possível notar, sem esforço, como foi doloroso seu sofrimento e como ele, tanto quanto possível, tentou transformá-lo em orgulhosas flores de afeto."

Lírica (1.426) - Lembrança

Recordando o que vivi,
Me sangra e esfola o tormento
E morro em cada momento
Em que me lembro de ti.

Lírica (1.425) - O rio

Não, minhas lágrimas não formarão um rio. Quem me dera. Talvez ele, com suas águas, pudesse colher algumas flores e levá-las a ti. Quem sabe gostasses delas. Pode ser também que ele, em sua passagem, recolhesse uma família de alegres patinhos que cantariam para ti. Quem me dera. Minhas lágrimas são as de um homem comum. Servem só para amargar meus lábios, como se não lhes bastasse o amargor que já têm.

Lírica (1.424) - Se

Tão doce te abraçaria,
Tão doce, tão docemente,
E leve, tão levemente,
Tão leve te beijaria.

Lírica (1.423) - Ainda assim

Se souberes que estou triste, é possível que penses: eu o magoei. Se souberes que chorei, é possível que penses: eu o feri. E, se souberes que morri, é possível que penses: eu o matei. Penses ou não penses, te digo que a mais bela forma de estar triste, chorar e morrer é estar triste, chorar e morrer por ti.

Lírica (1.422) - Ternura

Colher a rosa tardia,
Colhê-la tão ternamente,
Que quase se poderia
Plantá-la ao sol, novamente.

Lírica (1.421) - Tolo

Palavras, tanta esperança
Eu pus em vós. Minha voz
Pedia doçura a vós...
Que tolo eu fui, ai, que criança.

Lírica (1.420) - Única

Beleza, só tu, beleza,
Compensas os sofrimentos,
A mágoa, a dor, os tormentos,
Da vida toda a aspereza.

Lírica (1.419) - Paz

Que um dia me caiba a sorte
De afogar esta agonia,
Mesmo que seja, esse dia,
O dia de minha morte.

Lírica (1.418) - Súplica

Ai, doce obsessão querida,
Me deixa os dias fruir,
Me deixa à noite dormir,
Me deixa viver a vida.

Lírica (1.417) - Em vão

Aos céus piedade implorando,
Querendo tudo olvidar,
E os dias nos obrigando
A recordar, recordar.

Lírica (1.416) - Cantiga

Não haverá alegrias,
Já todas mortas estão.
Machucam todos os dias
E sempre machucarão.

Lírica (1.415) - E flutuaremos

Andar. Andar semanas, meses, anos, e num dia abençoado descobrir que a esfericidade da Terra é uma balela que nos impingiram e chegar a um abismo vertiginoso no qual despencaremos sem o risco de cair em solo, em rio ou em mar. E então flutuaremos tuaremos remos mos.

Situações (223) - A última piada

Estarão todos olhando para mim. Serei o protagonista, embora, pelo meu papel, não possa mexer sequer um centímetro do meu corpo. Esperarão isso de mim, a imobilidade que convém a um morto que se preze. E não poderei espantar a mosca que tentará escarafunchar meu nariz. Ainda me ocorrerá uma piada: como é difícil a vida de um morto. Depois me compenetrarei, como se compenetraram tantos outros antes de mim.

Situações (222) - Filosofia

Desfrutava pachorrentamente a aposentadoria, decifrando palavras cruzadas. Quando elas se tornaram fáceis demais, resolveu empregar o tempo em algo mais nobre. Optou pela filosofia. Começou com os manuais e depois, escolhendo os mais representativos, entregou-se à leitura dos filósofos das diversas escolas. Dedicou dez anos a Aristóteles, a Kant, a Hegel, a Schopenhauer. Assumiu um ar mais sério - mais triste, segundo a família - e leu com uma compenetração exemplar. Na semana passada, ocorrendo-lhe fazer um balanço desses dez anos, descobriu que a filosofia é um passatempo como outro qualquer, com um inconveniente: ao contrário dos livrinhos de palavras cruzadas, não há, no final, respostas para as questões. Desiludido, voltou às palavras cruzadas, mas já não se sente feliz ao fazê-las. Se lhe perguntarem o que acha da filosofia, dirá que é isso: um quebra-cabeça sem solução. E lamenta os dez anos perdidos com ela, se bem que sua noção de tempo, com as leituras, tenha se tornado incerta, assim como tantas outras. Ouvindo seus longos suspiros, a família tem agora como última esperança fazê-lo reunir-se aos velhos que jogam dominó todos os dias, na praça.

Lírica (1.414) - Senha

Eu estou doente, não vês?
Espero apenas que venha
Do céu ou do inferno a senha
Dizendo que é minha vez.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Lírica (1.413) - In extremis

Fechar os olhos, deixar
A sombra suave descer,
Parar de se lamentar,
Gozar enfim o não ser.

Lírica (1.412) - Alívio

Não mais verei esse bando
De sórdidos impostores
Falando de alma e de amores
E eructando, e defecando.

Lírica (1.411) - Um rio

Espera no sonho um rio
No qual se possa atirar
E que o leve não ao mar,
Mas ao imenso vazio.

Lírica (1.410) - Umbra

Tudo que hoje pensa o leva,
Tudo que sente o conduz
Para onde só existe treva,
Para onde não brilha a luz.

Lírica (1.409) - Vertical

Por mais que caminhes, não
Transformarás tua sina.
A tua viagem termina
A sete palmos do chão.

Lírica (1.408) - Necrológio

Que seja a foto escolhida
Alguma em que eu, carrancudo,
Exprima como odiei tudo
E como me odiou a vida.

Lírica (1.407) - Miséria

Já fui feliz, ora veja,
Gastei o amor, perdulário,
Porém hoje, solitário,
É o desamor que sobeja.

Lírica (1.406) - Vinte e três

Ai, um urubu pousou
Na minha sorte e depois
(Afortunado que sou)
Pousaram mais vinte e dois.

Lírica (1.405) - Exclusão

Se vieres com enteléquias,
Garanto, sem nenhum erro,
Que excluída estás das exéquias
E fora do meu enterro.

Lírica (1.404) - ... por último

Que bela é a vida. Alegria
Desde o início até o final,
Embora nenhuma igual
Àquela do último dia.

Lírica (1.403) - Respeito

Ó vós, que a vida exaltais,
Dela fazei bom proveito,
Porém não zombeis jamais
Da dor que sangra meu peito.

Lírica (1.402) - Mérito

O teu desprezo mereço.
Paguei com fel teu sorriso,
Com má vontade teu riso
E com desdém teu apreço.

Lírica (1.401) - Outrora

Outrora em mim reluzia
Tão forte luz, tão intensa,
Que mesmo a noite mais densa
Brilhava em mim como dia.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Lírica (1.400) - E agora?

Não sabe sofrer, não sabe
Viver, não sabe morrer.
Não sabendo o que fazer,
Espera que o mundo acabe.

Lírica (1.399) - Marafona

De longe na esquina
Parece menina
De perto envelhece
E não apetece
Senão aos sem eira
Senão aos sem beira
Porém todo dia
Na noite vadia
Das nove até as três
A brava guerreira
A estoica rameira
Espera freguês.

Lírica (1.398) - Por falar

Naquele dia em que ouvi
Aquelas coisas amáveis,
Éreis vós mesma que vi
Ou vós ali não estáveis?

Lírica (1.397) - Na pior

Jamais se sentiu assim.
Se fosse um poste, olharia
Para os cães e pediria:
"Por favor, mijem em mim."

Lírica (1.396) - Conduta

Ao menos na hora final,
Dizer palavras amenas,
Em bem transformar o mal
E em fingimento tuas penas.

Situações (221) - Agenda

Fez uma lista das coisas que precisava resolver. À medida que as resolvia, ia riscando os itens. Quando riscou todos, suspirou, feliz, mas por um momento só. Passou-lhe pela cabeça uma desconfiança. Parecia faltar alguma coisa que ela não havia anotado. Depois de algum tempo, ela finalmente se lembrou. Era o amor. Pegou, então, o telefone.

Lírica (1.395) - Despedida

Para esquecer, ele dorme.
Porém, quando acorda sente
A dor ainda mais pungente,
Aguda, cruel, enorme.

Lírica (1.394) - Desamor

Depois do som e da fúria,
Dos lancinantes tormentos,
Dos choros e dos lamentos,
Bocejos só, só penúria.

Lírica (1.393) - Administração

Agora que o amor não mais o atormenta e não o persegue como um vira-lata, ele chegou a pensar em cuidar da vida. Descobriu que não tem do que cuidar.

Lírica (1.392) - Regenerado

Livre da obsessão do amor, sente-se como aqueles que, abandonando enfim o cigarro, começam a sentir o sabor das bebidas e dos alimentos. Olha as árvores e as vê assim como são: árvores. Olha o sol e o vê sol. Às vezes, é verdade, gostaria de ouvir as árvores falando, como antes, e o sol espalhando ouro nos cabelos de uma mulher loira. Mas, como bom regenerado, afasta a tentação de recaída e segue o seu caminho.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Lírica (1.391) - Perjúrio

Covardes sois e sereis,
Vós todos que amor jurais,
Se ao jurardes já sabeis
Que não cumprireis jamais.

Lírica (1.390) - Argumentos

Se eu tivesse nascido em 1920, 1919 ou 1918, tudo que agora me consome e suplicia já teria me consumido e supliciado. Vistas de longe, as grandes dores são quase risíveis. Tentei explicar isso hoje ao coração, mas ele, pouco dado à matemática e nada afeito à filosofia, continuou se lamuriando.

Lírica (1.389) - Ode

Mulheres fáceis, esposas
Fretadas por tanto ou quanto,
Por vós, gentis mariposas,
Eu choro, e por vós eu canto.

Lírica (1.388) - Agulha

Momentos há em que a vida
Nos fere tão fundamente
Que é coisa ou para demente
Ou então para suicida.

Lírica (1.387) - Cedo

Menino bobo, o que queres?
Joga bola, roda o pião,
Fica na tua. Mulheres?
Não, meu tolinho, ainda não.

Situações (220) - Olímpicos

E há aqueles que, alegando altruísmo e outros bons princípios, recusam o que os outros lhes oferecem, mesmo que seja a vida.

Situações (219) - Anseio

Quisera ter a coragem,
Com lâmina ou comprimido,
Com forca ou com estampido,
De fazer a última viagem.

Situações (218) - A garrafa

Falharam até agora todas as suas tentativas de comunicação. O mundo ignora onde ele está. Mas toda manhã, ainda, ele abre o micro, o blog, e procura dizer, como um náufrago lançando mais uma garrafa ao mar, que ele existe, que ele está vivo, que ele sofre, que ele necessita de amor, como todos, e talvez não seja tão desprezível quanto ele mesmo pensa.

Lírica (1.386) - Autenticação

Perguntam-lhe se receia
A morte, e ele diz que não.
Morreu já faz tempo e anseia
Só pela confirmação.

Lírica (1.385) - Assim

Não pode dizer que vive.
Caminha com seus pés fracos,
Junta aqui e ali seus cacos,
Dorme, acorda, sobrevive.

Lírica (1.384) - Metrô

De nada mais eu preciso
E nem o meu coração:
Viver lá no Paraíso,
Morrer na Consolação.

Lírica (1.383) - Ainda bem

Lembra-se agora, com uma carinhosa gratidão, das mulheres que não quiseram ouvi-lo falar de amor. Elas o pouparam de tantas decepções, de tantos maus versos, de tantas lágrimas...

Situações (217) - Como um menino

Abraça o travesseiro e finge que poderia ainda, se quisesse, que conseguiria ainda, se tentasse. Mente a si mesmo, diz que está agora exatamente como era quando menino. Sou um menino, murmura, sou um menino, repete, e, como um menino, chora sobre o travesseiro.

Situações (216) - O velho

Sonha com caçadas alucinantes. Escapa de morrer dilacerado por um leão ou asfixiado por uma sucuri. Abate búfalos e javalis. Depois, com os outros caçadores, vai comemorar em lugares aos quais só têm acesso louras sinuosas e flamantes, tão perigosas quanto os mais selvagens animais. Sabe sempre escolher a mais bela de todas e ao som de músicas guerreiras dança com ela, que lhe introduz no ouvido, com a língua áspera, palavras crepitantes como o fogo. Acorda todo mijado.

Lírica (1.382) - Frações

Seu mal é dar-se inteiro. Sofre por isso. Não conseguiu aprender que o mundo é regido por uma palavra antipática, mas indispensável: barganha. Ela está em todas as atividades humanas, até naquela tida como sagrada outrora: o amor. Não entra na sua tola cabeça, jamais entrará, que, para ter sucesso e não passar por idiota, se deve oferecer um terço, dois quintos, um sexto, um doze avos de afeto.

Situações (215) - Nota dez

Foi um doente exemplar. Deixou-se anestesiar, cortar, costurar. Não se queixou de dor nenhuma no pós-operatório. Sorriu para todos sempre: para quem o espetava com injeções, para quem arrancava sua pele ao fazer o curativo e para a mulher que lhe levava a insuportável comida. Ao receber alta, deu um litro de uísque ao médico e uma caixa de bombons a cada enfermeira. Retribuiu os tchauzinhos, entrou no elevador e sentiu-se como sempre: nojentamente falso.

Situações (214) - Cirurgia

Submeteu-se, como um cordeiro. E eles o abriram, e o cortaram, e o rasgaram, e lhe tiraram coisas, e depois o costuraram inteiro e o mandaram de volta à vida. Foi um sucesso a cirurgia. Hoje ele já anda pela rua e ninguém, vendo-o, dirá que o sangraram tanto. É um homem normal, embora lastime que, tendo-o cortado tanto, não tenham atingido sua alma, não tenham conseguido matá-la, e a tenham devolvido ainda mais triste do que era.

Situações (213) - Misantropia

Sentiu, feliz, que estava no estágio final da misantropia quando, logo no café da manhã, lhe ocorreu a frase: "Que admirável é a espécie humana. Pena que se reproduza tanto e tão rapidamente."

Situações (212) - Livre-arbítrio

Perdemos o Paraíso pelo livre-arbítrio e somos sempre tentados a execrá-lo por isso. E, no entanto, que maravilhosa aquisição foi essa, para nós: podermos dispor de nossa vida, fazê-la feliz, como a querem os comerciantes e atacadistas, ou infeliz, como a desejam os poetas. E - suprema vantagem - podermos escolher o dia e as circunstâncias da nossa morte, quando não nos seduzir mais nem a vida feliz nem a infeliz.

Situações (211) - Sapiência

É sábia a vida, e condescendente. Quando não nos quer mais, quando a enjoa nossa presença, ela pega seu manual de anatomia ilustrado e nos ataca, ora aqui, ora ali, ora um pouco à frente ou atrás: fígado, paratireoide, pulmão direito, períneo, pulmão esquerdo. É o generoso recado que dá, especialmente aos corajosos, aqueles capazes do derradeiro heroísmo: saltem do viaduto, estourem os miolos, empanturrem-se de bolinhas, ou então esperem que as doenças e os médicos façam seu trabalho.

Lírica (1.381) - Vida

Aspira agora à apatia,
Não mais do que respirar
E ter o dom de ignorar
Quando é noite, quando é dia.

Situações (210) - Professora

Já deve ter morrido a professora que elogiava o comportamento dele e chegou a lhe prever uma bonita trajetória como padre. Se ela o visse hoje, tão magoado, tão ressentido, tão colérico, tão amargo, tão indisposto com a humanidade, o que ela diria? Não seria, certamente, aquilo que matava de inveja os coleguinhas dele: "Por que vocês não são como ele?"

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Situações (209) - À trois

Ele e ela arrastaram o caso por anos e anos e, apesar de algumas lágrimas dele, tudo sempre pareceu mais pastelão do que drama. Estariam nesse lero-lero, ainda, se não fossem o providencial destino e a generosa geografia. Ele morreu atropelado e subiu talvez, embora não merecesse, para os países altos. Ela se casou com um filósofo batavo e foi morar nos Países Baixos. Com exceção do atropelado, que evidentemente não pode se manifestar, os dois outros protagonistas parecem estar muito felizes.

Situações (208) - Generosidade

Tão generosa é no seu livre-arbítrio que não o utiliza apenas para gerir a própria vida. Gere também a vida alheia, tão prestativa é em dividir seus conceitos filosóficos e sua experiência existencial.

Situações (207) - Florence

Tem vocação de salvadora. Comovem-na todos os movimentos de preservação de animais e plantas. Doa-se inteira a essas causas - e, é claro, também e principalmente à salvação do próximo, embora tenha certa predileção por salvar os próximos mais ou menos distantes.

Situações (206) - Diferentes

Têm conceitos diversos de amor. Ele é capaz de morrer por ela. Ela é capaz não talvez de cancelar uma viagem de 15 dias a Nova York por ele, mas pode ser que deixe de ir a uma excursão de três dias ao Pantanal, a não ser que esteja em jogo a salvação de meia dúzia de jacarés.

Lírica (1.380) - Vanilóquio

Morreu aquele que um dia
Juraste amar com paixão.
Morreu, e no seu caixão
Alguma flor tua havia?

Situações (205) - Lâmina

Para não se arrepender no meio, sabe que precisará vendar os olhos: jamais lhe agradou a visão do sangue. Acha também que, embora talvez seja mais eficaz e acelere o processo, renunciará à água quente, um luxo inadmissível para quem está indo embora.

Situações (204) - Corda

O que ainda o detém é o receio de ficar balançando desgraciosamente, talvez mais ridículo do que macabro, e arrancar um comentário de algum garotinho: "Ei, do que é que ele está brincando?"

Situações (203) - Anônimo

Aspira a morrer com um nome falso, num lugar longínquo: não quer que ela tenha motivos nem para chorar nem para se vangloriar.

Situações (202) - Revólver

Nunca teve um nas mãos e fica imaginando se o seguraria com a direita ou a esquerda, se fecharia os olhos, se rezaria um minuto antes, se não moveria desastradamente a cabeça na hora fatal. Tem medo de se expor duplamente ao ridículo: como atirador e como vítima.

Situações (201) - Comprimidos

Tem receio de não engolir a quantidade necessária e acordar dias depois num hospital, com alguém lhe dizendo que foi salvo com uma lavagem. Pior ainda: teme que alguém, menos delicado, diga que sobreviveu porque lhe esvaziaram as tripas, essa palavra que como outras - baço, pâncreas, rins - ele considera as irrefutáveis provas de que Deus não foi condescendente com os homens.

Situações (200) - Viaduto

Um salto, apenas. E Deus, finalmente piedoso, não lhe daria asas, não lhe suavizaria a queda, não se importaria mais com ele.

Lírica (1.379) - Reflexão

Chega um momento em que viver e morrer têm o mesmo significado. Por que, então, viver? Por que, então, não morrer?

Situações (199) - Reles

Pensou em sair para a noite rasgada pelos raios e sacudida pelos trovões. Pensou em erguer os braços e, desafiando Deus, gritar: "Me leva, me mata!" Ao chegar ao portão, recuou. Lembrou-se do desafio que Antero de Quental fez a Deus, e do desprezo com que Deus o recebeu. Por que ele, um reles Raul Drewnick, filho de obscuros imigrantes poloneses, cronista de meia-tigela e poeta de um real a dúzia, seria atendido? Voltou para dentro de casa e resignou-se a continuar sendo um mártir comum, desses condenados pela covardia a morrer vagarosamente, consumidos pelos miúdos reveses da vida.

Lírica (1.378) - Feridas

Te lembrarei com ternura. Posso fazer diferente? Ninguém antes me havia ferido com tanto amor, ninguém me havia matado com tanta doçura.

Situações (198) - Olhares

Na última vez em que nos vimos, e que viria a ser a última de todas, você pouco olhou para mim. Estava longínqua, arredia. Era como se aquele fosse mais um encontro e houvesse mil outros pela frente. Olhei para você, talvez também menos do que deveria. Eu não sabia que era a última vez. Você talvez já soubesse.

Situações (197) - Fascination

Prometeu a si mesmo jamais sair com mulheres muito mais novas do que ele. Já percebeu que é sempre um convite à decepção. Elas se espantam e sorriem ironicamente quando ele abre a porta do carro para elas, quando ele puxa a cadeira para elas no restaurante, quando ele, depois de jantar, pede ao garçom um paliteiro. Desagrada-lhe isso nelas e, mais do que tudo, a ignorância que revelam quando ele assobia um trecho de Fascination e pergunta se elas conhecem a música, sua favorita. Ah, a cara que fazem quando ele diz que dançou muito essa valsa nos bailes da década de 50...

Situações (196) - Talvez um dia

Ainda tem um resto de vida, e às vezes, quando se distrai, é tentado até a fazer projetos. Felizmente são raros esses momentos. Quando eles passam e ele volta a pensar naquilo que encara como seu destino, deplora não ter nem a convicção nem a coragem dos suicidas. Talvez um dia ele também possa. Enquanto isso, vai sonhando com viadutos propícios ao salto, comprimidos, laços, lâminas, revólveres.

Situações (195) - A janela

Não sabe por que a vida ainda o procura toda manhã, com seus costumeiros truques. Conhece todos: o sol entrando serelepe pelas frestas da janela, o convidativo canto dos pássaros na árvore do quintal, o cheiro de café que vem da casa vizinha. Todo dia, antes de abrir a janela, lembra-se dessas artimanhas, e de outras tantas de que foi vítima, e prepara-se para não cair em nenhuma tentação. Hoje, assim que abriu a janela, viu no começo da rua, andando na direção da casa dele, uma garota de cabelos loiros. Mais próxima, já não parecia tão jovem. Era, em todo caso, uns vinte anos mais moça qie ele - ou menos velha. Ao passar, ela sorriu, um sorriso como fazia muito tempo ele não recebia de alguém. O coração imediatamente lhe sugeriu coisas e ele esteve para correr até o portão e seguir a mulher por onde ela fosse. Por pouco não fez isso. Acabou saindo da janela e foi para o seu trabalho no computador, no outro quarto, seu improvisado escritório. Respirava com alívio. Tinha escapado mais uma vez ao convite da vida.

Lírica (1.377) - Passado

Hoje é um homem pragmático.
Matou as vãs esperanças,
Tornou-se cético, apático,
E vive só das lembranças.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Situações (194) - Palavras, palavras

Descobriu que não é bom ter intimidade com as palavras. Ele as conhece há tanto tempo que elas não o respeitam mais. Sente no peito a rosa, seus espinhos, suas pétalas, seu aroma e, quando escreve rosa, não há espinhos, nem pétalas, nem aroma. São quatro letras, só, como em roda, moda, soda, subalternas palavras. Sente na alma o amor, a vertigem que ele traz, o desvario, e, quando escreve amor, se sente vazio. Ultimamente, anda enternecido pela ideia de suicídio. Repete a palavra - suicídio, suicídio -, e a escreve, e a reescreve. Não viu ainda, no papel, a comoção e a esperança que o dilaceram quando diz baixo: suicídio, suicídio. Receia que, assim como as outras, também esta palavra o decepcione. Nas primeiras vezes em que a pronunciou, ela soava como um sussurro. Agora, aflito, ele chora por ela, ele a invoca, ele grita por ela, enquanto tenta passar para o papel o choro, a invocação, o grito, como tentou passar os espinhos, as pétalas, o aroma, como buscou passar a vertigem e a ânsia do amor.

Lírica (1.376) - O telefone, o celular

O homem está morto. Ainda respira, mexe as pálpebras, os dedos, mas não porque deseje. Faz vinte e quatro horas que se deitou no sofá e pretende ficar mais vinte e quatro, trinta e seis, quarenta e oito, quantas forem necessárias para os pulmões e o coração entenderem que seu funcionamento não é mais desejável. Nas primeiras doze horas, ainda lhe passou pelo cérebro a ideia de que, se o telefone tocasse, se o celular soasse, talvez ele pudesse reconsiderar a resolução. Mas, agora, morrer - que era um projeto - se tornou uma obsessão, uma questão de honra. Olha para o telefone, para o celular, agora ansiando pelo silêncio deles, pelo tempo que for necessário. A fraqueza o faz cochilar e acordar, cochilar e acordar. Toda vez que acorda, olha de novo para o telefone e o celular. Estão mortos, ele agora tem certeza de que estão, e nenhum deles se dará ao trabalho de impedir a viagem que ele decidiu fazer. A sirene de uma ambulância corta aflitamente o ar, mas ele sorri, tranquilo. Sabe que não é para ele. Nada mais é para ele, a não ser essa paz que começa enfim a sentir.

Lírica (1.375) - O som

Será um bosque, talvez. Um lugar ameno, silencioso, que até o vento respeite. Um lugar em que qualquer som seria brutal como uma heresia. Eu encherei os pulmões, teu nome gritarei e imediatamente, levantando voo de todas as árvores, passarinhos insuspeitados cobrirão por um momento o sol e, separando-se em quatro alegres grupos, irão repetir teu nome, irão chamar-te em todos os cantos da Terra.

Lírica (1.374) - Hem?

Importa acaso dizer,
Agora que te perdi,
Que sou capaz de viver
E até de morrer por ti?

Lírica (1.373) - A outra parte

Um dia descobriu que, vindo dele, a música que a mulher mais apreciava não era a dos versos, mas a do silêncio. Nesse dia, o que nele havia de homem se resignou, mas o que ele julgava haver nele de poeta sofreu um golpe do qual jamais viria a se recuperar.

Lírica (1.372) - Os lábios

Tem medo de multidões. O psicanalista lhe disse que é um mal comum, o que o deixou insatisfeito, não porque tenha algum pendor elitista, mas porque não lhe agrada aceitar como corriqueiro o fato de um homem, ouvindo talvez certa voz, recear não reconhecer, entre tantas dezenas ou centenas de pessoas, os lábios que há muito tempo ele procura em vão.

Lírica (1.371) - Mentindo

Sempre que chega dezembro,
Em nome da sanidade,
De mim escondo a verdade
E finjo que não me lembro.

E esfolo a manhã, e mato
Também a tarde em que amei
E amei tanto que pensei
Que o amor fosse mesmo um fato.

Lírica (1.370) - Dois ou três anos

Felizmente você passará num instante, apressada. Eu me lembrarei de antigas comparações entre você e o sol, da vida e da alegria que você e ele me traziam toda manhã, e pegarei o lenço. Algum pressentimento a fará olhar para trás, mas você, por especial condescendência dos deuses, não reconhecerá o homem que escreve isto agora e que, tendo sido pessimista a vida inteira, imagina como será o dia, daqui a dois ou três anos, em que você passará por mim e não me verá, como na dolorosa canção de Charles Trenet.

Lírica (1.369) - Interrogatório

Quando meu amor for te visitar, se alguma dúvida persistir em ti, podes fazer com ele o que quiseres: revistá-lo, interrogá-lo, torturá-lo até. Ele dirá, sempre, sempre e sempre, que te ama. A única novidade que poderás tirar dele, não com interrogatórios mas com beijos, é que ele te ama ainda mais, muito mais do que confessa.

Lírica (1.368) - Doçura

Quero te mandar palavras doces, que cheguem a ti gotejando mel em cada sílaba, em cada letra, e te digam que foi o amor que as mandou e se deixem apalpar, cheirar e provar, para que em ti nenhuma dúvida fique sobre a verdade e a ternura que levam. Quero te mandar palavras tão doces que quase nem acredites, ao recebê-las em alguma destas manhãs, que hajam saído de mim, este homem rude que, se alguma doçura tem, é esta, que aprendeu contigo. Quero te mandar toda esta doçura que há em mim, porque a ninguém mais ela pertence a não ser a ti.

Lírica (1.367) - O sonho

À noite, sonha com o mar.
Nas ondas mansas, na espuma,
Pensando em coisa nenhuma,
Flutua até se afogar.

Lírica (1.366) - A tarefa

Dedica-se agora ao sono.
Dorme à noite e o dia inteiro,
Um sono bom, de abandono,
Ensaio do derradeiro.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Lírica (1.365) - O velhinho

Talvez eu reconheça em você a moça que um dia - tanto tempo fará! - me disse que a vida era o tipo de atividade para o qual não convinha fezer planos. E talvez eu me lembre de como, intimamente, depreciei a frase. Eu tinha tantos planos, tantos, na época... Se a reconhecer, eu lhe elogiarei a gentileza (recordar-se de um amigo tantos anos depois). Você olhará para mim disfarçadamente, várias vezes, e eu saberei que por alguns instantes você estará pensando: será mesmo ele, este? Outros velhinhos carentes de afeto virão, tentando falar com você, e eu - como em tantas outras vezes - terei ciúme de você, um ciúme que me mandará para a cama por três dias e preocupará o médico e as enfermeiras do asilo.

Lírica (1.364) - O inútil

Escreve. Não sabe fazer outra coisa. Gostaria de ser um homem útil. Se fosse sapateiro, poderia trocar um salto, uma sola. Se fosse padeiro, produziria nas madrugadas aquele aroma morno que, assim, como o das flores, desperta as manhãs. Se fosse vendedor de detergentes, percorreria os bairros explicando às freguesas qual o melhor cloro, qual o meis eficiente sabão. Tem receio de andar pela rua, de parar num ponto de ônibus, e ver um desses homens úteis se aproximar e perguntar o que ele faz. Pode dizer a qualquer um deles que escreve, que faz poesia? Pode contar a eles que escreve desde os quinze anos e ainda não aprendeu? Pode confessar que, se precisasse ou quisesse fazer uma ode ao trabalho deles, não saberia? Pode admitir que compõe versos para as estrelas, para a lua, para o sol, para uma garota de cabelos lisos ou uma menina de tranças? Terá coragem de, olhando nos olhos deles, dizer: "Olha, gente, eu sou um inútil"?

Lírica (1.363) - Cego

No amor o tolo confia.
Não percebe que o destino,
Fio fino a fio fino,
Seu sonho todo desfia.

Lírica (1.362) - Alívio

Sentir que tudo afinal,
Por mais que demore ou doa,
Caminha, progride, voa
Para o momento final.

Situações (193) - Menino

Quando ele a apanhou na esquina, ela notou a fome de amor nos seus olhos. Percebeu também, enquanto subiam no elevador do hotel, seu nervosismo. Era pouco mais do que um menino e ela receou ter com ele um problema comum quando pegava garotos: costumavam querer duas vezes pelo preço de uma. Assim que entraram no quarto e ela, sentada na cama, tirou os sapatos, ele se sentou também, puxou o sutiã dela com rispidez, começou a mamar seus peitos e a ofegar: "Mãe, mamãe, mãe."

Lírica (1.361) - Fragores

Queria ver albatrozes,
Ouvir o som dos conveses,
Dos marinheiros as vozes,
Provar fragores, reveses.

Não este estar sempre doente,
Não esta melancolia,
Não este estar descontente
Desde que amanhece o dia.

Lírica (1.360) - Sinopse

Ansiou pela vida, amou,
A frustração conheceu,
Ansiou pela morte, orou,
Valeu-lhe a prece, morreu.

Lírica (1.359) - Tu, fonte

Se fonte pudesses ser
E minha sede matar,
Eu sei que iria morrer
Sem um só gole tomar.
Se em fonte te transformasses,
É certo que água negasses.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Lírica (1.358) - Pior

O sangue pisado
É o mesmo que nada.
Pior, meu amado,
É a alma rasgada.

Lírica (1.357) - A doença

Notando que estertorava,
Lhe deram anestesia
E vupt!, para a cirurgia.
Porém o mal que o matava
Ninguém ali pressentia
E nem sequer suspeitava.
Sofria só porque amava,
Morreu no sétimo dia.

Lírica (1.356) - Esperança

Órfão do amor e da sorte,
Projeto nenhum o anima.
Espera apenas que a morte
Seja mais do que uma rima.

Lírica (1.355) - Decadência

Buscando do amor o oblívio
Em práticas escapistas,
Encontra seu doce alívio
Nas casas de massagistas.

Lírica (1.354) - Quando

Amada, quando te calhe
Confiar no amor loucamente,
Como eu no teu, cegamente,
Que o amor, amada, não falhe.

Lírica (1.353) - Reservado

Não me darei a ninguém.
Eu fui a ti destinado,
E para outras, mal ou bem,
Estou já morto e enterrado.

Lírica (1.352) - Quem

Salvam os animais, salvam as florestas. Salvam a terra, o ar, o mar. Salvam homens, salvam mulheres, salvam crianças. Salvam monumentos, salvam documentos, salvam casamentos. Salvam tudo, acabarão salvando o planeta. E esses modestos heróis, que tudo salvam, dizem ter, como única arma para salvar pessoas, coisas e animais, o amor. Justamente o amor - ai de mim -, que me mata. Associações, entidades, movimentos, pessoas, que tudo salvam e salvarão, digam-me, por Deus, quem me salva, quem me salvará?

Lírica (1.351) - Essência

Melhor assim. Não tocar-te,
Poder manter a abstinência
E ter de ti só a essência,
Tão imortal quanto a da arte.