domingo, 28 de fevereiro de 2010

O amante de Sylvia Plath

Sylvia Plath e o suicídio eram amantes. Ela o buscou a vida inteira e ele a procurou também, sempre, e a cortejou e suspirou por ela, e a reclamou até quando ela estava entregue ao sono e aos sonhos. Sylvia celebrou esse amor ao seu amante em praticamente todas as linhas de todos os seus poemas. Fiel a ele, foi correspondida até o dia em que esse amor se consumou, em 11 de fevereiro de 1963. O poema Papoulas em Julho, traduzido por Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça e publicado pela editora Iluminuras, é, entre essas celebrações de Sylvia, uma das mais pungentes.

Pequenas papoulas, pequenas chamas do inferno,
Vocês fazem mal?

Vocês se mexem. Não posso tocá-las.
Meto as mãos entre as chamas. Nada me queima.

E me cansa ficar aqui olhando
Vocês se mexendo assim, enrugadas e rubras, como a pele de uma boca.

Uma boca sangrando.
Pequenas franjas sangrentas!

Há fumos que não posso tocar.
Onde estão seus ópios, suas cápsulas que enjoam?

Se eu pudesse sangrar, ou dormir!
Se minha boca se unisse a essa ferida!

Ou se seus licores me sedassem, nessa cápsula de vidro,
Enternecendo e acalmando.

Mas sem cor. Incolor.

Descuido (para Enrique Vila-Matas)

Sem medo foi caminhando,
Buscando o centro do mar.
Já caindo e tropeçando,
Chegou ainda a pensar
Que poderia ir nadando.
Mas não sabia nadar.

Crepúsculo

Pegando o copo, o encheu
Quase com satisfação.
Bebeu um gole, gemeu,
E teve uma hesitação.

Mas, como se fosse vinho,
Como se fosse ambrosia,
Tomou o copo inteirinho
E se despediu do dia.

Pássaro

No sexto o homem saltou.
No quinto o povo torceu:
Sim, ele conseguiria.
No quarto ele vacilou,
As asas não mais bateu
E viu-se que desistia.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Lembranças

Que tempo, aquele. Falava-se
De tudo: de Roth, de Woody,
De Sócrates e a virtude,
E Salinger comentava-se.

Foi então que o vento veio
E varreu tudo: o amor,
A vida, o apanhador
E até o campo de centeio.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

De repente

Dormiu bem. Quando acordou,
Com a luz da manhã nascida,
Ouvindo lá fora uns passos,
O pão diário buscou,
Mas o que achou foi a vida
Partida em mil estilhaços.

Poeminha insano

Se és louco, mas só um pouco,
Ou tens juízo perfeito,
Serás sempre um perdedor.
Só um autêntico louco,
Louco puro, sem defeito,
Merece o prêmio do amor.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Estar vivo e ler Coetzee

Estar vivo pode às vezes nos trazer alegrias tão intensas que nos perguntamos se somos dignos delas. Para mim, ler J.M. Coetzee, o sul-africano que ganhou o Prêmio Nobel em 2003, está entre essas experiências vitais. Seu primeiro livro eu o encontrei em um desses sebos que não merecem propriamente o nome, uma dessas lojas que compram encalhes de editoras ou livarias e os revendem. São livros novos, sem manuseio, que por algum motivo não mereceram a atenção dos leitores. Numa loja da Papelivros, na João Mendes, por volta de 2000 vi pela primeira vez o nome de Coetzee estampado na capa de uma série de romances e novelas editados pela Best Seller. Fascinou-me logo o título de um, Dostoiévski, o Mestre de Petersburgo. Comprei-o e dali a alguns dias estava de novo na João Mendes, para adquirir os outros. Todos me encantaram e transmiti essa impressão ao meu inesquecível amigo Federico Mengozzi, que na ocasião fazia para a revista Época resenhas e textos sobre arte, que ele conhecia como quase ninguém, abrangendo esse conhecimento as artes plásticas, a literatura, o teatro e o cinema. Ele compartilhou meu entusiasmo e tivemos o prazer de manter pela internet várias conversas sobre esse escritor notável que logo depois ganharia o Nobel. Infelizmente, o Federico se foi sem que pudéssemos falar do livro de Coetzee que talvez me fale mais diretamente ao coração. É Juventude, que narra as aspirações de um jovem candidato a poeta, suas desventuras, sua ingênua disponibilidade para a vida e o amor. Como o Federico apreciaria ler este trecho do livro:

"Siga quem seguir, parece-lhe, sairá perdendo. Pois não tem talento para mentir, enganar, ou driblar as regras, assim como não tem talento para o prazer ou para as roupas elegantes. Seu único talento é para a depressão, a torpe e honesta depressão. Se esta cidade não oferece nenhuma recompensa para a depressão, o que está fazendo aqui?"

(Juventude, J.M. Coetzee, Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira)

Palavras

Na placa um homem leu "norte"
E prosseguiu. Outro olhou
Também a placa, leu "morte"
E pálido recuou.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Covardia

Cansado da oscilação
Entre horas boas e más,
Anseio e desilusão,
Um passo à frente e um atrás,
Usou enfim a razão:
Trocou o amor pela paz.

Achado entre duas esquinas

Notou com resignação,
Sereno e apaziguado,
Que na teia do amor não
Estava mais enredado.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Naquele tempo

O homem lhe disse "querida",
Ela respondeu "amor".
Ela ficou retraída,
Ele escondeu o rubor.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

A velhice, segundo Borges

Hoje, procurando um texto de Jorge Luis Borges sobre Shakespeare, nos meus olhos fulgurou o ouro dos quatro primeiros versos do poema "Elogio da Sombra", publicado num dos volumes das Obras Completas, da Editora Globo:

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
Pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.

Bálsamo não é uma palavra que desfrute de bom conceito hoje, mas foi ela que me ocorreu imediatamente. Alívio, conforto -- e até bem-aventurança -- seriam também palavras possíveis para expressar o que senti ao ler os quatro versos, tão simples, tão filosóficos, tão inspiradores, tão borgianos.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Algumas palavras sobre a tanca

A tanca, tradicional forma poética japonesa, não é tão conhecida no Ocidente quanto o haicai. É constituída por cinco versos. Os três primeiros são basicamente um haicai (o primeiro e o terceiro versos têm cinco sílabas poéticas e um rima com o outro, havendo no segundo verso, de sete sílabas, rima da segunda com a sétima sílaba). O quarto e o quinto versos da tanca têm sete sílabas poéticas e há neles rimas cruzadas: a segunda sílaba do quarto verso rima com a sétima do quinto, enquanto a sétima sílaba do quarto verso rima com a segunda do quinto. Houve um tempo em que escrevi alguns haicais e me aventurei também, aos tropeções, pelas tancas. Ficou na memória uma dessas tancas, que desavergonhadamente registro aqui:

Na noite cerrada
Tombou a borrasca, e estou
Só, na encruzilhada.
A vida me deu um coice
E foi-se, rompendo a brida.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Haicai encontrado num caderno

Murchou. Não murchara
Não fosse a esperança doce,
A rosa, a mais rara.

Recolhido em algum ponto, entre duas ruas

As dores de amor nos roem,
As mágoas de amor maltratam,
Os beijos não dados doem
E os beijos dados nos matam.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O haicai no Brasil

Falei outro dia, ligeiramente, do haicai, a mais famosa expressão da poética japonesa. O haicai tem, no Brasil, quem o cultue e cultive. Como aconteceu em tantos outros casos, essa forma de arte passou aqui por modificações, algumas até radicais. Millôr Fernandes, por exemplo, usa o haicai para expressar seu refinado humor. Sânzio de Azevedo, poeta cearense, tem alguns haicais primorosos. Mas talvez o mais ilustre de todos os fazedores de haicais no Brasil seja Guilherme de Almeida, que foi também quem lhe deu roupagem brasileira, sugerindo a forma hoje consagrada. São três versos. O primeiro e o terceiro têm cinco sílabas poéticas, e um rima com o outro. O segundo verso, de sete sílabas poéticas, tem uma rima interna (a segunda sílaba rima com a sétima). No seu haicai Infância pode-se ver como funciona o esquema:

Um gosto de amora
Comida com sol: a vida
Chamava-se agora.

Andei fazendo haicais na adolescência, quando me considerava ainda digno de ser tocado pela grande poesia. Vão aqui dois deles, com as devidas desculpas:

ADEUS

Navio a zarpar.
Os lenços, pombos suspensos,
Anseiam voar.


VIDA

Na areia teu nome:
Momento que o tempo, vento
Contínuo, consome.

Para terminar este bate-papo sobre poesia, e com desculpas ainda mais fortes, vai aí uma quadrinha que fiz hoje, caminhando pelo meu querido bairro, o Jardim da Saúde:

Quando lá fora o poeta
Numa rima vacilou,
A moça, nada discreta,
Sua janela fechou.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Os joguinhos de Cabrera Infante

O cubano Guillermo Cabrera Infante deu aos jogos vocabulares e aos trocadilhos um importante papel na sua obra. Se alguém soube fazer isso com maior brilho do que ele, foi James Joyce. O amor que Cabrera Infante devotava a essas brincadeiras e a classe com que as fazia revelam-se já em títulos de livros seus: Três Tristes Tigres, Havana para um Infante Defunto, Mea Cuba. A graça que ele punha nesses exercícios de fino humor mostrava-se também quando ele narrava casos. Como este. No tempo em que, com a ascensão de Fidel Castro ao poder, viveu exilado em Londres, Cabrera resolveu um dia ver se encontrava vestígios da casa na qual viveu Bram Stoker, que em 1897 publicou Drácula. Tinha certa ideia de onde poderia localizá-la e foi andando, perguntando ali e acolá. Entrando numa rua em que as construções pareciam mais antigas que em qualquer outro lugar percorrido por ele, perguntou a uma austera senhora se ela sabia qual era a casa do criador de Drácula. A mulher o olhou com horror: "Drácula? Meu senhor, gente dessa espécie não anda por aqui."

Corr(l)eção

Tenho com a informática certas divergências que receio se deverem a desconhecimentos meus -- e às vezes a certa birra que ela demonstra nas suas relações comigo. Num dos tópicos deste blog, o que cita um poema composto por Hortelino Trocaletra, lembro-me de ter escrito que ele trocava o "r" pelo "l", embora essa informação pudesse ser descartada, pela fama do personagem. Cliquei a tecla certa, mandei o texto embora e, ao revê-lo, notei que ele havia sido editado e tinha ficado com muito melhor aspecto. Mas a informação sobre o "r" e o "l" havia sido devorada por algum perverso mecanismo. Fica o aviso, aqui. Tentarei corrigir o texto e, se conseguir, procurarei posteriormente suprimir esta ressalva. Que Deus me ajude nos dois empreendimentos e que a informática diga amém.
Gonçalves Dias, o autor da Canção do Exílio ("Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá"), era romântico na poesia e na vida. Dizem biógrafos que um de seus poemas, escrito para a mulher amada, foi por ele copiado com o próprio sangue. Outro episódio citado é o ocorrido em um baile. O poeta, caminhando para ir falar com uma moça com a qual pretendia dançar, viu que ao mesmo tempo outro cavalheiro chegava com a mesma intenção. A mulher, vendo os dois pretendentes diante dela, não sabia que decisão tomar. Gonçalves Dias, então, disse-lhe estes quatro versos que devem ser colocados entre as obras-primas da galanteria:



Senhora, já que podeis

Dizer não e dizer sim,

Dizei sim, mas não a ele,

Dizei não, mas não a mim.



Não lembro qual foi o desfecho, mas acredito que, se não foi Gonçalves Dias quem saiu a rodopiar pelo salão com a moça, essa foi uma das grandes injustiças já presenciadas no mundo.



*****



A poesia às vezes é usada a serviço do humorismo. Millôr Fernandes é um dos que melhor sabem fazer isso. Luis Fernando Verissimo também. No passado, Gregório de Matos se celebrizou por desancar autoridades e costumes com seus versos cheios de veneno. Por isso, passou a ser conhecido como Boca do Inferno. Eu, ocasionalmente, me sinto tentado a fazer uma brincadeira "poética". A mais recente é esta, que menciona filósofos gregos e teria sido escrita por Hortelino Trocaletra, aquele personagem famoso por trocar o "r" pelo "l":



Diógenes, poblezinho,

Vivia vida de cão.

Comia só um platinho,

E Sóclates, um platão.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Quando menino, achei que meu fascínio pela literatura e meu desejo de ser escritor me levariam pelo caminho da poesia. Lia tudo -- romances, novelas, contos -- mas minhas primeiras tentativas foram dirigidas aos versos, às quadrinhas. Meus ídolos eram Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Fagundes Varela, Castro Alves. A prosa não me seduzia tanto. Andei pela trilha da poesia por muito tempo, mas o que produzi foi tão insatisfatório -- alguns haicais, meia dúzia de sonetos -- que a certa altura desconfiei daquilo que no início me pareceu incontestável: minha vocação poética. Com o tempo e a frustração, fui me voltando para a prosa -- em especial crônicas e contos -- e hoje é em relação exatamente à prosa que manifesto minha desconfiança: serei mesmo capaz de escrever algo que valha a pena? Da antiga experiência poética restaram poucos textos -- alguns publicados, outros guardados em velhos cadernos. Lembrei-me hoje de dois haicais, que passo a vocês:

PAISAGEM

Silenciosamente
Flutua o cisne: outra lua
No lago dormente.

PRAIA

O vento ao passar
Furtou três folhas, lançou
Três barcos ao mar.

De vez em quando ainda me vem a vontade de me exprimir em versos. Como hoje, por exemplo. Pensando num enamorado que, mesmo tendo se declarado mil e uma vezes à amada, recebe dela a censura de não falar mais com tanto entusiasmo do seu amor, escrevi esta quadrinha:

Já disse tudo. Falar
De novo apenas faria
A flor eterna murchar
E a chama se tornar fria.

Espero falar outras vezes, aqui, de poesia. Porque ela, mesmo quando não aparece declaradamente em um texto, em uma de suas formas tradicionais, é essencial à boa prosa.

A literatura e suas possíveis distorções

Um pensamento que me ocorre com frequência se relaciona à grande paixão de minha vida: a literatura. Habituado -- talvez seja melhor dizer obsessivamente treinado -- a ver qualquer situação, até a mais corriqueira, com olhos literários, é inevitável que eu acabe distorcendo tudo, na tentativa de procurar a arte num levantar de xícara, num gesto simples, num afago, num boné sacudido em cumprimento. Carlos Drummond de Andrade sugeria a todos os que pretendessem se tornar escritores que, tomada essa decisão, passassem a olhar o mundo, a cada instante, como algo imensamente grande a ser narrado e descrito. Seria uma obrigação de cada candidato a escritor, um exercício que acabaria se incorporando à sua visão de vida. Acho precioso esse conselho e o tenho seguido dia a dia. Mas às vezes me ocorre o pensamento de que falei no início do texto: contemplar a vida com olhos literários já não é simplesmente vê-la, mas atuar para interpretá-la e transformá-la -- no fundo, talvez, uma forma presunçosa de viver, uma tentativa de recriar o mundo segundo os nossos sentimentos e ideias. Esse pensamento vem me inquietando cada vez mais e é um dos tantos provocados pela relação entre a vida e a arte. Fascina-me debater isso com leitores de meus livros, nos bate-papos que mantenho com eles em colégios de todo o Brasil. Sempre me interessa conhecer a opinião deles sobre essa e outras questões literárias. Talvez a palavra seja exagerada, mas considero uma bênção a oportunidade de falar sobre esses temas. Por isso, quando se reiniciam as aulas, fico alvoroçado com a expectativa de convites para as semanas de literatura, para as bienais de livros e outros eventos do gênero que se realizam de fevereiro a novembro.