segunda-feira, 31 de maio de 2010

Um e outro

Sempre que, dos dois, somente
Um ama e o outro disfarça,
Um é sério e o outro mente,
O amor se transforma em farsa.

domingo, 30 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (167) -- O 703

No elevador, uma súbita aflição o levou a pensar que não deveria estar indo à casa da amante num dia no qual, apesar de mínimo, havia o risco de o marido se encontrar ali, mas o invencível desejo de fazer uma surpresa manteve sua coragem, ainda que alguma coisa o advertisse de que o marido podia ser exatamente aquele que subia com ele. Por isso, no sétimo andar, ele deixou a passagem livre para ver se o homem desceria, o que ele efetivamente fez. Só então desceu também e, comportando-se como se fosse um visitante sem noção do apartamento ao qual iria, viu o homem parar na frente do 703, e o julgaria mesmo o marido se ele não tivesse tocado a campainha e se não fosse alto e belo, ao passo que sua amada dizia sempre que o marido era muito baixo e muito feio. Resolveu ir embora e ao chegar ao térreo viu entrar no elevador um homem muito baixo e muito feio e, apesar da tarde de amor frustrada e da descoberta de mais um rival, pensou que no fim das contas talvez seu prejuízo não fosse tão grande.

Pequenas alegrias urbanas (166) -- A garota

A mulher acabara de dizer que o amava como nunca e que, tendo feito o teste de gravidez, se sabia pronta para lhe dar a alegria de um filho, mas ele não ficou para encomendar uma pizza e comemorar, como ela sugeria, porque dali a meia hora ia se encontrar com uma garota que, depois de um mês de tentativas, ele achava estar finalmente disposta a ir com ele a um motel.

Pequenas alegrias urbanas (165) -- Homem ideal

"Aquele?", ela ouviu uma das amigas exclamar espantada, enquanto a outra ria, e, ao se aproximar da mesa, como elas pararam repentinamente de conversar, imaginou que falassem de um homem pelo qual estava levemente interessada, e foi nesse momento que resolveu descartá-lo, ficando com outro no qual também estava levemente interessada. Tempos depois, descobriu que naquela ocasião as duas amigas falavam justamente do segundo, aquele pelo qual ela havia optado, pois o achavam ridículo em comparação com o primeiro, mas ela já andava então com um terceiro, que as amigas diziam valer mais que os dois outros juntos, e deviam falar com conhecimento de causa, porque volta e meia as duas, sem que ela soubesse, saíam com ele.

Pequenas alegrias urbanas (164) -- Um menino

Ele era ingênuo, tolo e infantil, tão ingênuo, tolo e infantil que ela, certa vez, explicando a uma amiga a razão de não querer mais vê-lo, comentou entre gargalhadas o dia no qual ele lhe fizera uma ligação chorosa, sugerindo estar muito doente, o que a havia levado a pensar até em aids, quando afinal, depois de dez minutos de tensão extrema, ele acabara admitindo ter apanhado uma catapora.

sábado, 29 de maio de 2010

Sentido

Amor? Que significado
Tem a palavra se alguém
A diz assim como quem
Recita um verso estropiado?

Pequenas alegrias urbanas (163) -- No parque

Brincava de esconde-esconde com o avô e ficou muito feliz ao ver que ele, embora tivesse reclamado de dores a manhã inteira, se encontrava deitado atrás de uma árvore, ocultando-se. Quando, pé ante pé, chegou aonde o avô estava, teve a intuição, apesar dos seus cinco anos, de que infelizmente ele nunca mais se queixaria de dor nenhuma.

Pequenas alegrias urbanas (162) -- O coxo

Ao sair do bar tropeçou e, com uma dor aguda na perna, se pôs a pedir que o ajudassem a se levantar, mas, como sua voz estava engrolada como a de um bêbado, ninguém se prontificou a auxiliá-lo até aparecer na esquina um homenzinho que, porém, coxeava e estava demorando tanto para chegar que o acidentado acabou rindo, como se dissesse que aquele estava pior do que ele, o que fez o homenzinho, coxeando mais penosamente e agora também xingando, ir embora e deixá-lo no chão, sob abertos comentários de que bêbados não tinham mesmo vergonha na cara nem consideração por ninguém.

Pequenas alegrias urbanas (161) -- Dezoito anos

Foi só depois de responder agressivamente ao pai e de rejeitar com um empurrão o abraço da mãe que ele pegou sua mala e, esforçando-se para não denotar quanto ela lhe pesava, abriu a porta e saiu do apartamento. No corredor, precisou suportar o afeto do seu poodle, que puxava a mala como se quisesse fazê-lo voltar, mas resistiu até entrar no elevador, quando, vendo-se sozinho, deixou deslizar as lágrimas que vinha retendo. No térreo, cobriu os olhos com as mãos e menteve-se assim ao passar pelo porteiro. Começou a andar a esmo, sem noção do lugar para onde ia, ignorando em qual praça, em qual viaduto dormiria, sabendo apenas que tinha mentido aos pais e não cumpriria a ameaça de ir embora para sempre, mas antegozando o que sua ausência de dois dias, possivelmente três, iria causar e como passariam a respeitá-lo, a ponto talvez de lhe darem até o carro que com tanta persistência vinham negando.

(Des)encontro

Os dois se idealizaram,
Soltando a imaginação,
E tudo tão bem criaram,
Com tamanha perfeição,
Que quando enfim se encontraram
Atroz foi a decepção.

A palavra

É fácil de se dizer,
Tem brilho, força, calor,
Mas ai daquele que crer
Que "amor" quer dizer amor.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (160) -- Heterônimos

O rapaz, que estudava para o exame, estava falando já fazia dez minutos sobre Fernando Pessoa e quando comentou, com um sorriso benevolente, que ele costumava se embriagar, a avó disse que isso era fácil de entender, se o poeta, como tinha dito o neto, não era só Fernando Pessoa, mas também aqueles outros que eram filhos de Deus e, como ele, deviam gostar de uma bebidinha.

Pequenas alegrias urbanas (159) -- Amanhã

Atingindo uma idade na qual estavam mortos os amigos que poderiam ter alguma influência para melhorar sua vida, e descobrindo que esta já pouco lhe importava, pensou, com um humor que julgou britânico, haver chegado a hora de fazer amizade com agentes funerários e coveiros.

Pequenas alegrias urbanas (158) -- Moderno

Ao ler na apostila que o poeta Gonçalves Dias havia enviado à amada um arrebatador poema escrito com o próprio sangue, o motobói primeiro se emocionou, depois achou aquilo coisa de maluco, e foi com esta segunda convicção que mandou à namorada um e-mail no qual dizia singelamente "a gente se vê amanhã, amorzinho", deixando no teclado do micro não mais do que uma migalha de biscoito.

Reflexão

Aquele que ama sem ser
Amado, e nisso persiste,
A fama de tolo e triste
Faz tudo por merecer.

Pequenas alegrias urbanas (157) -- O crítico

Contratado para ler e avaliar o original de um nonagenário que, segundo o único filho vivo, ao receber a extrema-unção dissera ser aquele o melhor romance de todos os tempos, o escritor de quarenta anos, cinco livros publicados e nenhum sucesso já estava na sexagésima das cento e oitenta páginas, cheio de espanto, de despeito e de uma cólera intolerável, quando um erro de concordância na página 61 o fez sorrir e, com o dedo em cima da calamidade gramatical, para que ela não lhe escapasse, dizer triunfalmente às cento e oitenta páginas, como se ali estivesse o defunto: "Ah, agora eu te peguei, hem, velho sacana?"

Pequenas alegrias urbanas (156) -- Ovelha

Já estava seguindo a garota por um quarteirão e meio, como um lobo esfomeado, esgueirando-se para não ser pressentido, quando, depois de dobrar uma esquina e entrar numa rua estreita, ele viu, sem tempo para avaliar se aquilo tudo era bom ou mau, que a garota, não tão garota assim, havia parado diante de uma porta e sorria convidativa, que não faziam parte de um uniforme escolar a saia e a blusa que usava e que ao longo da viela outras mulheres, postadas à frente de outras portas, conversavam ruidosamente e abriam também sorrisos encorajadores.

Pequenas alegrias urbanas (155) -- Cordeiro

Deu carona ao rapaz, como vinha planejando, e, assim que ele se sentou encolhido e trêmulo ao seu lado, ela sentiu, pelos dóceis olhos que lhe pediam clemência, que ele estava pronto para ser levado aonde ela quisesse e para, pela primeira vez, como ela intuía, ser sacrificado ao amor.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Conduta

Quem há de querer amor?
Amor faz sofrer, constrange.
Melhor aquele suor,
Aquela cama que range
Por um momento ou por dois,
E um adeusinho depois.

Rabiscado num bloquinho

Agora não mais importa,
Mas foi tolice não ver
Que mesmo antes de nascer
A rosa já estava morta.

Pequenas alegrias urbanas (154) -- A mosca

Toda noite, quando ia dormir, fazia um exercício que considerava básico para se comportar bem no seu próprio velório. Deitava-se, fechava os olhos e buscava a imobilidade inalterável dos defuntos. Nas primeiras vezes, tentou não pensar, porque lhe pareceu adequado para um morto, mas depois descobriu ser mais proveitoso justamente o contrário: pensar que era um defunto e agir - na verdade, omitir-se - como se já fosse um. Passou a conseguir espantosas e promissoras imobilidades de cinco minutos, sem mexer sequer os cílios e até sem sentir que respirava. A prova mais difícil foi supor que aquela investigativa mosca que sempre testa a legitimidade dos defuntos o testava também. Passou com louvor por esse suplício uma, duas, três noites. Na quarta, quando a imaginou pousada no nariz, ele deu um formidável espirro, que o humilhou profundamente, mas ao mesmo tempo o levou a tomar alegremente a resolução de só voltar àquele cansativo exercício dali a um mês, quando - até pela simples lógica da matemática - estaria mais próximo e portanto mais preparado para lidar com os assuntos da morte.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Vulcão

Está extinto, porém
Quando o sol a tarde abrasa
Alguma cinza ainda vem
Impelida pelo vento
E ao menos por um momento
Assume certo ar de brasa.

Pequenas alegrias urbanas (153) -- O professor

Primeiro com jeito, depois com uma fúria que tentou levar ao extremo, ele disse à garota que nunca mais o procurasse, que jamais saísse da classe dela para ir esperá-lo na dele, depois da última aula, mas notou, com alívio e um amor que tornou suas últimas palavras ininteligíveis, que ela, como tinha feito na tarde anterior, e estava fazendo naquela, iria procurá-lo e esperá-lo sempre, e continuariam indo à casa dele, para aquela loucura que ele já imaginava quantas desgraças lhe traria, mas que pretendia aproveitar até a última gota.

Pequenas alegrias urbanas (152) -- Família

Por vinte e dois anos ficou casado com a mesma bela e cordata mulher e, quando morreu, no velório estavam naturalmente ela, os quatro filhos (dois rapazes e duas garotas), que haviam herdado os cintilantes olhos verdes dele, e também, entre outros parentes, uma mulher esquiva, sempre abraçada a um filho de uns doze anos que tinha brilhantes olhos verdes, e uma jovem que também ninguém conhecia e de vez em quando se aproximava chorosa do morto, quase roçando o ventre de grávida no caixão.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (151) -- Fome

Quando o terceiro dos homens que tinham vindo naquela manhã saiu, o garoto se cansou de obedecer à ordem de ficar quietinho na cozinha e, indo para a sala, onde a mãe guardava uma nota no sutiã, perguntou, com esperança: "Agora já tá na hora do almoço?"

Pequenas alegrias urbanas (150) -- Nunca mais

O sessentão professor de literatura vinha conseguindo acompanhar o passo rápido da garota e seu único problema, agora, era disciplinar-se para não olhar a todo instante para ela e para sua beleza insuportável. Tentou vários tipos de abstração, pensou em alamedas, árvores e flores, mas essas imagens se recusavam a fixar-se no seu cérebro, no qual fervilhavam palavras como luxúria, umidade, sedução, sexo, e, com receio de que vissem sua vergonhosa excitação, fingiu a si mesmo estar cansado e sem fôlego e, alegrando-se tristemente por sua força de vontade, viu a garota desaparecer ondulante na multidão, ao mesmo tempo em que um velho refrão mais uma vez advertia: nunca mais, nunca mais.

Pequenas alegrias urbanas (149) -- No ar

Trabalhavam numa rádio de audiência quase nula e eram tão desconhecidos que toda noite, quando liam o noticiário, cada um dizia com a empáfia própria dos locutores o nome completo do outro - Ana Sandra Borgheletti e João Lucas Benigno -, na contínua esperança de uma notoriedade que só conseguiram depois que se casaram e ela passou a ser apresentada por ele - João Lucas Benigno - como Ana Sandra Borgheletti Benigno, circunstância que por si não lhes traria fama, se certa noite não tivessem, imaginando que estivesse desligado o microfone, travado uma ferocíssima batalha verbal, por uma suposta traição dele.

Pequenas alegrias urbanas (148) -- Inversão

Por trinta anos amaldiçoou o homem que lhe havia roubado seu único amor possível e, quando a morte começou a cortejá-lo, murmurava todo dia, sem descanso, afundado no sofá: "Você acabou com a minha vida, Lauro, você acabou com a minha vida." Mas, devido à feliz ocorrência de um acidente vascular cerebral, transformou-se repentinamente em Lauro e agora dizia, sorrindo: "Acabei com a tua vida, Agostinho, acabei com a tua vida, Agostinho."

Sobre a arte

"Pois arte é infância. Arte significa não saber que o mundo já é, e fazer um. Não destruir nada que se encontra, mas simplesmente não achar nada pronto. Nada mais que possibilidades. Nada mais que desejos. E, de repente, ser realização, ser verão, ter sol. Sem que se fale disso, involuntariamente. Nunca ter terminado. Nunca ter o sétimo dia. Nunca ver que tudo é bom. Insatisfação é juventude."

(Rainer Maria Rilke, "Cartas do poeta sobre a vida", tradução de Milton Camargo Motta, editora Martins Fontes.)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (147) -- Borges vezes dois

Leu que Jorge Luis Borges tinha um duplo e, por achá-lo o maior de todos os escritores, resolveu ter um duplo também, e conseguiu, mas, como depois de um ano nem ele nem o outro haviam escrito nada que prestasse, tomou-se de antipatia por Borges, tachou-o de charlatão e começou a chamá-lo de homem falso, de duas caras, além de sexualmente ambíguo, o que causaria danos se alguém de suas relações soubesse quem era Borges.

Pequenas alegrias urbanas (146) -- Igual

Luana olhou para a mulher nua ao seu lado e, insatisfeita com o amor recebido, segurou-se para não dizer: "Seu marido, na cama, é como você. Frio como uma barra de gelo."

Pequenas alegrias urbanas (145) -- Homo eroticus

Pela terceira vez, agora ainda mais ostensivamente, ele parou diante do rapazinho sentado à mesa do café e, não vendo de novo nenhum sinal de retribuição ao seu olhar faminto, lhe disse entre dentes, mas com aguçada nitidez: "Tudo bem, um dia você aprende, machinho sonso."

Pequenas alegrias urbanas (144) -- Bigode

Separado da mulher fazia anos, porque ela o havia acusado de preferir homens, deleitava-se em pegar fotos nas quais os dois sorriam, nos tempos de noivado e casamento, e em ver como ela ficava bem mais atraente quando ele lhe desenhava no rosto um sensual bigode.

Pequenas alegrias urbanas (143) -- Castigo

Voltando mais cedo para casa, atormentado por uma feroz dor de cabeça, encontrou na cama sua mulher e o amigo que ele mais prezava - e, como era civilizado, baniu de sua vida o amigo, mas conservou a mulher. Colou porém no quarto um papel bem grande, no qual marcou o dia da traição, para que toda noite, ao ser possuída por ele, ela se lembrasse de quem mandava ali e jamais repetisse o erro.

domingo, 23 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (142) -- Versus

Discutiam tanto, reatavam tanto, que certa noite, acordando depois de um sonho que lhe atiçou uma urgência amorosa, ele decidiu ligar para ela e lhe perguntar se estavam brigados ou em paz, porque, conforme o caso, pretendia ir imediatamente à casa dela. Ela atendeu e, depois de hesitar um pouco, pois o telefonema a pegara dormindo, disse que, pelo que lembrava, estavam em paz, mas, quando ele lhe transmitiu o desejo de ir vê-la naquele momento mesmo, ela berrou um monte de palavrões, porque era um desplante acordá-la à uma da madrugada, rompeu com ele pelo menos até a manhã seguinte e desligou o telefone.

Pequenas alegrias urbanas (141) -- Guerra

Estavam no segundo mês de desavenças que ameaçavam pôr fim a um casamento prestes a completar dez anos, quando o marido tirou um mês de férias e foi para uma praia, de onde, já no primeiro dia, enviou meia dúzia de mensagens provocativas à mulher e, ao receber também meia dúzia de respostas no mesmo tom, além de um telefonema em que ela, furiosa, lhe perguntava por que não aproveitava o sol e o mar, ele respondeu com uma frase que parecia o título de uma novela: "O rancor não entra em férias."

Pequenas alegrias urbanas (140) -- Constantinopla

Professor aposentado de história, vivia seus doentios setenta anos entre seu sofá (que também lhe servia de cama) e o banheiro, trajeto que não conseguia percorrer sem a ajuda da mulher e da filha, contra as quais mantinha porém, embora dependesse delas para tudo, uma feroz má vontade que manifestava sempre, resmungando que, se houvesse nascido por volta de 1400, poderia ter combatido contra os turcos em Constantinopla e estaria venturosamente morto, se não por eles, pela natural passagem do tempo, e não precisaria aturar as duas megeras.

Pequenas alegrias urbanas (139) -- A terceira noite

E era em tâmaras, e era em pêssegos, e era em sutis olores, e era em sândalo que o estudante, embriagado de poesia, pensava naquela terceira noite, ao entrar pelos fundos da casa e observar que a amada havia outra vez deixado acesa a luz do quarto onde ele se daria todo a ela, se um revólver não cuspisse sobre seu rosto o fogo e a cólera do marido enganado.

sábado, 22 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (138) -- O exercício

Rejeitado pela amada, entregou-se a um doloroso esforço diário, com que tentava esquecê-la, e já estava no terceiro mês desse triste exercício quando uma noite, afinal, além de conseguir dormir quase instantaneamente, sonhou que a mulher, andando por uma das ruas nas quais ele tivera a ventura de acompanhá-la de mãos dadas, havia caído e quebrado os braços. Embora não lhe desejasse tão lastimável sorte, ele acordou com a convicção de que estava começando a ter êxito no seu projeto, o que lhe deu uma satisfação notável, anulada na noite seguinte ao sonhar outra vez e se ver levando flores à amada, no hospital, e ser expulso aos berros e espancado por ela com toda a força dos seus braços, surpreendentemente curados.

Pequenas alegrias urbanas (137) -- E-mail

Sei hoje quanto você me mentiu, quantas vezes você me enganou, querido, quantas esperanças falsas você me despertou, quantos sorrisos você me proporcionou sem que eu, tola, percebesse que mais apropriado seria abrir a boca não para a alegria, mas para beber as lágrimas que, no final, foram tudo que me ficou depois de tanto amor. Você me mentiu, você me enganou, ah, meu querido, mas esteve tão empenhado nisso que não notou que eu também lhe mentia e o enganava. Quantas vezes lhe disse que o amava? Mil, duas mil, três mil talvez. E em todas essas vezes, saiba, meu querido, que não era verdade. Eu não o amava, eu jamais o amei. Eu o adorava, eu o venerava, eu o idolatrava, eu sentia por você algo que as palavras jamais poderiam exprimir, e hoje encaro isso como uma superioridade, como uma riqueza afetiva, como uma felicidade que você nunca me poderá tirar.

Pequenas alegrias urbanas (136) -- 2012

No metrô, depois de abrir o jornal e ler que o mundo acabaria em 2012, ele olhou triunfalmente para os alucinados colegiais, que se estapeavam, assobiavam, rugiam, arrotavam e extravasavam estupidamente sua juventude, e sentiu ser justo que eles tivessem tão pouco tempo de vida, não lhe ocorrendo ficar com pena nem da mocinha loira que lhe havia cedido o lugar, porque sabia que ela, assim como todas as outras faziam sempre, o ridicularizaria e talvez até chamasse um guarda se ele se atrevesse a chamá-la de bonitinha.

Pequenas alegrias urbanas (135) -- Carta

Bom dia, meu querido (uso esta palavra porque ela se impôs docemente a mim em tantos anos de convívio e porque, apesar de tudo, e mesmo contra os conselhos de minha razão, eu a sinto ainda viva, forte e intensa como sempre foi). Meu querido, escrevo para lhe pedir com fervor que, embora eu há um ano haja suplicado que não entrasse mais em contato comigo e você tenha cumprido religiosamente essa condição, continue assim, alheio e distante, porque essa será a forma de eu alcançar enfim aquela que será minha maior felicidade - a de morrer e assim não precisar mais pensar em você, embora receie que no último instante eu ainda vá murmurar seu nome, querido, meu querido.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (134) -- Rival

Tendo levado o carro para o casal, o manobrista, depois de ver a formosíssima mulher apontar para o céu e, suspirando, dizer ao homem que gostaria de ter uma daquelas estrelas, ficou feliz ao notar que o homem não fez nenhum gesto para realizar a aspiração dela, e, sentindo-se superior, atreveu-se a olhar bem para a mulher - um olhar longo, cálido e cheio de promessas.

Pequenas alegrias urbanas (133) -- Anos depois

Ele era velho, bem mais velho do que ela, mas às vezes a saudade e a autorrecriminação por havê-lo banido da sua vida a afligiam tanto que, para se justificar perante si mesma, ela calculava com uma satisfação mais física do que matemática que dali a vinte anos poderia ainda estar jantando num restaurante com algum belo homem, sem deixar cair uma migalha no colo, enquanto o homem estaria derramando sopa no pijama, e, indo mais adiante, trinta anos além, imaginou que poderia ainda andar pelo seu jardim, enquanto ele, com a mão trêmula demais para acionar uma cadeira de rodas, estaria sendo empurrado numa rua esburacada por um enfermeiro de face desgostosa.

Pequenas alegrias urbanas (132) -- O marinheiro

Foi uma menina a quem jamais agradaram as fantasias. A irmã, um ano mais velha, nunca pôde fazê-la brincar com bonecas, banheirinhas, cozinhas completas, ursos fofos, gatinhos que afagados no ponto certo faziam miau. Depois dos sete anos, desistiram de dar-lhe coisas condizentes com sua idade, porque não tolerava nada, nem os livrinhos de bruxas e fadas. Rabiscava em cadernos, garatujava, fazia esboços, desenhava. Permanecia calada quase todo o tempo e a família imaginou que talvez na escola ela perdesse o laconismo, mas também essa expectativa se mostrou errada - uma contrariedade atenuada porque ela obtinha, mês a mês, as melhores notas da classe. Professores disseram que também ali ela falava só o indispensável, o sim e o não com que respondia às questões. Em casa, começou a fechar-se no quarto e ninguém sabia o que fazia lá. O apelido de bicho do mato, que lhe foi aplicado por algum tempo, atenuou-se depois para um caridoso vovó. Um psicólogo disse à família que ela parecia ter um medo obsessivo das pessoas, por julgar que só lhe queriam tomar as coisas. Passou assim pelos dez, pelos quinze e pelos dezoito, idade em que ficou célebre seu talvez mais longo diálogo. Um rapaz apaixonou-se por ela e lhe declarou isso. "O que você quer de mim?", ela perguntou, desconfiada. "Só amor", ele disse. "Amor?", ela perguntou, de novo. "É, tenho muito amor por você e...", ele começou, sentindo-se encorajado. "Muito? Amor é por acaso coisa que se possa avaliar, medir, pesar? Acho que não tenho nenhum para lhe dar." O rapaz sumiu, espalhou a história e nenhum outro jamais ousou lhe confessar amor. Se fosse possível um amor sem palavras, um amor feito de silêncios e subentendidos, talvez ela o entendesse. Aos vinte e cinco anos, a irmã, quando se despediu dela porque ia para um curso de um ano em Nova York, surpreendeu-se ao ouvi-la falar de um marinheiro dinamarquês. Fazendo perguntas sobre ele, concluiu que ela punha nisso alguma esperança. Ao voltar um ano depois, encontrou a irmã taciturna como sempre, mas soube que ela mantinha ainda alguma coisa com o marinheiro inglês. "Inglês?", ela estranhou, julgando haver entendido que era dinamarquês, e a irmã respondeu com um vago Smith. Partindo para mais um curso anual, ao retornar encontrou a irmã de luto. Havia morrido seu grande amor, o marinheiro chinês. Ao ouvir a nacionalidade do marinheiro, a irmã abraçou-a com pena, compreendendo que a fantasia repelida na infância havia se apoderado da imaginação daquela que, quando menina, afastava as bonecas com um desprezo que chegava quase ao asco. Acariciando-lhe os cabelos e enxugando-lhe as lágrimas, sentiu porém certo prazer vingativo que gostaria de ter gozado vinte e poucos anos antes.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (131) -- Vulcão

Com quinze anos iniciou-se nos mistérios da redondilha maior, aventurou-se pelos decassílabos e pelos alexandrinos, cultuou o soneto comum e o shakespeariano. Dissipou a parte mais preciosa de sua juventude assim, lendo, escrevendo e invocando as musas. Ele as queria clássicas, frias, altivas e enigmáticas, e por isso jamais lhe ocorreu dar atenção às garotas que, tendo sabido do seu labor poético, sonhavam ser incluídas, se não numa chave de ouro, ao menos num refrão de quadrinha. Ele as desdenhou tão ostensivamente que a má recepção à sua primeira coletânea de poemas - uma edição amadora de cinquenta exemplares - foi atribuída por ele às pragas dessas musas juvenis. Não esmoreceu. Continuou lendo, escrevendo e vivendo a poesia com tanta intensidade e empenho que aos quarenta anos seu rosto era encovado como o dos frades que se encerravam em celas frígidas e se submetiam ao cilício e a uma dieta de pão seco e água. Tinha enchido cadernos e mais cadernos de poemas que considerava, entretanto, meros exercícios para a grande obra que enfim se achava apto a realizar. O sinal de que havia chegado a hora lhe veio com a súbita paixão por uma musa que tinha a idade dele e lhe pareceu digna do nome: era fria, recatada, distante e revelava algum conhecimento poético. Durante os meses em que nele ardeu o fogo desse amor, escreveu um livro que o fazia chorar sempre que relia um poema, tamanha era a emoção que havia posto em todos. Ela, sua musa, naturalmente foi a primeira leitora do original. Folheou os cinquenta poemas, bocejou e avaliou: "É bonito." Lançado, o livro fez imediato e grande sucesso, e um crítico, na noite de autógrafos já da segunda edição, disse ao autor que gostaria de conhecer a inspiradora daqueles versos. "Ah, ela não está aqui", desculpou-se o autor. "Ela deve ser um vulcão, estou certo?", perguntou o crítico. "É", concordou o poeta, com um sorriso amargo. "Um vulcão extinto, numa montanha gelada."

Pequenas alegrias urbanas (130) -- Amor

No almoço do seu octogésimo aniversário, rodeado de filhos, netos e bisnetos, já meio surdo e quase cego, o homem comia seu prato predileto, arroz com lentilha, quando sua mulher começou a recordar como sofrera porque ele durante muito tempo havia sido assediado, por sua notável beleza, e tinha retribuído em pelo menos meia dúzia de casos. A voz da mulher, que soava ainda mais queixosa pelo cansaço da idade, ia buscando no passado mulheres que, perseguindo o marido dela, a haviam atormentado em diversas fases da vida. "A Laura, a Mirtes, a Joice, a Célia, a Nora", ela rememorava e, a cada nome pronunciado com um rancor ainda vivo, o velho ia dizendo, entre os risinhos espantados e maliciosos da família: "Boa, boa, boa, boa, boa." No momento em que um dos netos, já um tanto escandalizado com aquilo, ia perguntar como ele, aos oitenta anos, podia se conservar assim cínico, o velho engoliu mais um bocado de sua comida favorita e comentou, fazendo voar sobre a mesa grãos de arroz: "Boa, boa, muito boa esta lentilha. Foi você quem fez, Leonor?"

Pequenas alegrias urbanas (129) -- Ritual

Não estariam tão alvoroçadas as três garotas que, na hora de fechar a lanchonete, ouviram o freguês impressionantemente belo oferecer carona a uma delas -- aquela cujo caminho estivesse mais de acordo com o dele --, e nem estariam tão excitadamente esperançosas se pudessem pressentir que naquela noite ele mais uma vez seguiria o ritual de seduzir com seus olhos tristes uma mulher, fazê-la arder de expectativa amorosa, levá-la no carro até uma estrada e, parando no acostamento depois de uma curva, apontar uma cruz, dizer que ali havia morrido sua esposa e, soluçando, tomar o caminho de volta e perguntar à acompanhante se ela havia entendido por que ele não podia, por que ele nunca mais poderia fazer o que no percurso talvez ela tivesse esperado dele.

Ainda Rilke, ainda o amor

Do livro "Cartas do poeta sobre a vida"

"Nunca entendi como um amor genuíno, elementar, totalmente verdadeiro, pode permanecer não correspondido, pois ele não é outra coisa a não ser o apelo urgente e venturoso ao outro para que seja belo, abundante, grande, intenso, inesquecível: nada senão o transbordante compromisso de que o outro se torne alguma coisa. E, diga-me, que pessoa poderia recusar tal apelo, quando é dirigido a ela, quando a escolhe e a encontra entre milhões de seres onde talvez estivesse oculta num destino ou inabordável no meio da fama... Ninguém pode segurar, agarrar e conter em si tal amor: ele é tão completamente destinado a ser passado adiante para além do indivíduo e necessita do amado apenas para que este lhe dê o impulso mais extremo que o lançará em sua nova órbita entre as estrelas."

(Rainer Maria Rilke, tradução de Milton Camargo Motta, editora Martins Fontes.)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (128) -- Ciúme

Um dia, tendo descoberto a traição do amado, ela foi ao jardim e, colhendo com ódio a flor cuja beleza ele sempre enaltecia, começou a mastigá-la pétala por pétala, enquanto repetia "maldito, maldito, vou te matar e beber todo teu sangue". Quando voltou para dentro de casa, sentia na boca o acre sabor de um sangue que deplorou não ser o do traidor, mas o dela mesma, ou o da rosa.

Sobre o amor

Transcrevo uma reflexão de Rainer Maria Rilke sobre o amor, sem comentá-la, porque qualquer comentário seria como tocar uma rosa, quando o único afago digno de sua pureza é o sopro sutil do vento.

"O amor não é, ao lado da arte, a única licença para superar as condições humanas, para ser maior, mais generoso, mais infeliz, se necessário, do que o homem comum? Que o sejamos heroicamente -- não renunciemos a nenhuma das vantagens que nosso estado animado nos concede."

("Cartas do poeta sobre a vida", de Rainer Maria Rilke, tradução de Milton Camargo Mota, editora Martins Fontes.)

Pequenas alegrias urbanas (127) -- Recurso

Depois de uma corrida ao pronto-socorro por uma infundada suspeita de pneumonia, o rapaz, já pachorrentamente deitado em seu quarto, ouviu o pai dizer à mãe na sala que no dia seguinte iria falar com um amigo sobre um emprego talvez não muito agradável, mas medianamente remunerado, que o filho poderia ocupar quando se restabelecesse. O rapaz então convocou todo seu talento dramático e voltou a tossir agoniadamente.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (126) -- A lista

Quando sentiu estar vivendo seus últimos dias, pegou uma lista de nomes de mulher e passava todas as horas em que estava consciente dizendo Alessandra, Aline, Amanda, Antônia, Bárbara, Beatriz, Camila, Cássia, Cecília, Dalva, Dulce, Efigênia, Esmeralda, Fátima, Gisele, Heloísa e os outros quinhentos que havia anotado em ordem alfabética, para que, ao entrar nos estertores da morte, pronunciasse qualquer um, menos o daquela por quem morria.

Pequenas alegrias urbanas (125) -- Mais oitenta

Enquanto assistia à aflição da mãe do menino de cinco anos, obrigada a ouvi-lo contar até vinte para só então ir procurar onde ele se escondera, a empregada, que não aturava mais nem a mulher nem o garoto, imaginou como ficaria deliciosa aquela brincadeira quando ele aprendesse a contar até cem.

Pequenas alegrias urbanas (124) -- Melhor não

Cada sonho que conseguia realizar lhe parecia tão decepcionante, quando consumado, que - depois de conquistar todos os prêmios possíveis com sua arte, de ser citado sempre com reverência e de saber que seus bens já eram suficientes para manter três gerações de descendentes, mesmo que viessem todos a ser ociosos, libertinos e viciados em jogo - ele se sentiu feliz ao ver rejeitada sua primeira tentativa de se aproximar da jovem amada, e mais feliz ainda ao notar que essa rejeição, dura e até cruel, quase feroz, prometia repetir-se em qualquer nova tentativa que ele certamente ainda faria.

Pequenas alegrias urbanas (123) -- Engano

Não sabia que dois anos depois iria morrer naquela mesma rua, esfaqueado pelo homem que agora ele, com o doce júbilo da superioridade, espancava com gosto mas também com método, tomando cuidado para não matá-lo, para que por muito tempo seu rosto revelasse as marcas do castigo.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (122) -- Burro

Já frequentava a casa por mais de um semestre, sem que nenhum dos moradores fizesse objeção à sua presença, quando notou que o papagaio, sempre que ele chegava, desandava a berrar "chegou o tonto, chegou o tonto", ofensa que ele começou a rebater chamando o insolente de burro.

Pequenas alegrias urbanas (121) -- Autossuficiência

Aos quinze anos, tendo lido um livro de Machado de Assis e um de José de Alencar, achou este superior. Passados dez anos, mudara de opinião: Machado era um escritor, Alencar era um escrevinhador. Aos trinta, sentindo-se pronto para a aventura literária, mandou um original ao tio, professor de letras clássicas, que lhe disse jamais haver visto coisa pior: "O que você vai conseguir, no máximo, é um emprego de redator de folhetos de turismo." Aos quarenta e dois, com três romances publicados, tinha uma convicção, toda dele, inabalável, de que nenhum livro, nem de Machado, nem de Alencar, nem daquele português Saramago, valia uma frase sequer das que ele escrevia.

Pequenas alegrias urbanas (120) -- A prima

Andavam pelo shopping, tratando de um assunto imediato (o que jantariam) e um mediato (o casamento, marcado para dali a seis meses), quando ela teve a mão puxada bruscamente por ele e os dois, que estavam indo para a praça de alimentação, tomaram o rumo da escada rolante, para descer. "É minha prima, ali", ele se justificou. Enquanto ela olhava para trás e via uma mulher feiosa, nada parecida com o primo, e que dava a impressão de ter uma verruga pilosa numa das orelhas, ele se explicou: "É uma chata. Quer ver se arranjo emprego para ela." Acabaram jantando em outro lugar, onde falaram sobre o casamento -- que se realizou não um semestre depois, mas dali a três meses, e não entre ela e ele, mas entre ele e aquela que ele tinha dito ser sua prima. O consolo da noiva abandonada foi ver, na coluna social de um matutino, um dia depois do casamento, que seu ex-amor não lhe parecia agora tão belo e que a verruga da suposta prima, embora visivelmente retocada, estava ali, inteira.

domingo, 16 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (119) -- A tarefa

Depois de ler um romance antigo, no qual um jovem apaixonado perdia seu grande amor numa noite e, na madrugada seguinte, num duelo, perdia também sua curta vida, ele se felicitou por viver num tempo em que a palavra honra não era tão venerada e em que ele, tendo perdido apenas o amor, podia seguir com sua vida sem problemas, desde que conseguisse ir arrefecendo o fogo da paixão que ainda lhe ardia no peito - uma tarefa que cinicamente iniciou tentando se convencer de que sua amada era vesga e tinha orelhas grandes demais.

Pequenas alegrias urbanas (118) -- A marca

Toda manhã, antes de tomar o café, assinalava, numa folhinha em que aparecia uma garota sardenta brincando com quatro alegres cachorros, sua disposição heroica de por mais um dia se manter imune aos apelos do coração e não ligar para a mulher com quem havia rompido. Naquela manhã, já estava saindo de casa quando percebeu que não havia feito a marca diária. No primeiro momento, ele achou aquilo um sinal de que talvez nem precisasse mais de perseverança para esquecer aquele amor. Depois, retardando os passos, como se caminhasse para ser executado na forca, foi com um lápis incerto e quase desobediente que ele voltou para fazer a marca na folhinha.

sábado, 15 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (117) -- Gerações

No décimo oitavo aniversário viu, com um alívio satisfeito, que estavam ausentes, porque mortos não vão a festas, todos os tios que desde seus cinco anos lhe diziam, como conselho, que para viver bem era preciso estudar, ter compostura e, principalmente, manter bons hábitos de higiene e saúde. O último deles havia morrido numa estação de águas.

Pequenas alegrias urbanas (116) -- Amarelo e azul

Vinte e dois anos depois, ele voltou à livraria da cidade onde, quando estava com trinta anos e seu primeiro livro fora lançado, tinha ido fazer uma palestra. Achou tudo um pouco mudado, o que talvez fosse uma traição dos seus olhos míopes, mas a gerente que agora o apresentava e relembrava sua estada ali era vendedora na época da primeira visita. Ele falou por uma hora e, quando se dispôs a dar autógrafos, notou na fila uma jovem que lhe trouxe uma recordação ao mesmo tempo doce e amarga. Se não estivesse certo de que haviam se passado vinte e dois anos, ele julgaria ser a mesma loirinha de olhos azuis que o ficara esperando depois da sessão de autógrafos e tinha dito, entre ingênua e maliciosa, que às quatro iria estar numa lanchonete ali perto. Parecera um convite, e ele o aceitaria, se não tivesse sido reprimido pela ideia de que aquilo poderia redundar numa infidelidade grosseira demais para quem estava casado fazia apenas seis meses. A imagem da garota permaneceu viva durante algum tempo e tinha voltado a assediá-lo dois anos antes, quando ele havia se separado da mulher. E agora lá estava uma réplica perfeita e perturbadora diante dele, pedindo-lhe que fizesse uma dedicatória. "Seu vestido era amarelo", ele comentou, e a garota, que estava com uma calça jeans azul, ficou sem jeito. Apareceu então, atrás dela, uma mulher loira, de olhos azuis, que sorrindo disse ao escritor: "Eu estive aqui, faz vinte e dois anos. Esta é a minha filha." O vestido não devia ser o mesmo de duas décadas atrás, mas era amarelo, e, quando mãe e filha se afastaram e caminharam para a saída, o escritor se refez da súbita tristeza, e ao mesmo tempo a acentuou, ao ver que, de longe, enquanto a garota de calça azul lhe sorria, a mulher de vestido amarelo lhe soprava um beijo, com um atraso de vinte e dois anos.

Pequenas alegrias urbanas (115) -- A voz

Eram oito horas, ele estava muito atrasado para o trabalho e, quando as pessoas começaram a se empurrar para conseguir um lugarzinho no metrô que havia chegado à estação Sé, ouviu, no meio da multidão, um homem gritar "oi, Vera" e uma voz suavemente rouca responder "estou aqui". Essa voz, a da mulher dizendo as duas prosaicas palavras - "estou aqui" -, entrou-lhe pelos ouvidos, eriçou-lhe a nuca e a espinha e o deixou em tal estado de inquietação e necessidade que, olhando para trás, à procura de quem as havia pronunciado, foi impelido grosseiramente para dentro do vagão, nem lhe ocorrendo revidar, como normalmente faria. Atento ao burburinho, ficou procurando, à direita, à esquerda, em todos os lados, um rosto que pudesse ser digno daquela voz que o havia hipnotizado. Esperava que alguém, a qualquer instante, dissesse outra vez "oi, Vera" e se renovasse o milagre, mas as estações foram passando, incluindo a dele, na qual não desceu, e até o fim da linha não teve de novo a ventura de ouvir a voz rouca. Precisando voltar três estações, chegou tão tarde ao emprego que recebeu uma reprimenda muito mal-humorada do chefe. No dia seguinte, às sete já estava na estação, mas, não ouvindo nenhuma voz sequer parecida com a da manhã anterior, conservou-se lá até as oito, andando sem parar pela plataforma, ansiando, rezando até, pela repetição. Novamente chegou tarde ao escritório, nesse dia e em todos os seguintes, até ser despedido. Mas não deixou de ir todas as manhãs à estação, chegando cada vez mais cedo e indo embora cada vez mais tarde, na febre de ouvir a voz. Está assim há dois meses e os seguranças já não se importam de vê-lo andando de um lado para o outro e chamando alto: "Oi, Vera."

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (114) -- A carta

Depois de duas horas de rabiscos, de correções e mudanças, ele começou a passar a limpo, com letra maniacamente cuidadosa, a carta com que pretendia alcançar a reconciliação com sua amada. No meio da transposição, errou uma palavra e tentou consertá-la, mas, insatisfeito com o resultado, se pôs a reescrever tudo, desde as duas palavras iniciais, que lhe atropelaram as batidas do coração: querida Irene. Nessa segunda vez, conseguiu chegar ao fim sem nenhum erro. Releu o texto e achou-o perfeito, mas a lembrança do que lhe tinha dito Irene no dia do rompimento (definitivo, segundo ela) o levou a rasgar a carta. Pegou os pedacinhos para atirá-los ao lixo, na cozinha. Ao voltar à sala notou que um cantinho de papel estava caído no chão. Abaixou-se para apanhá-lo e, ao se levantar, leu a palavra que havia ficado ali: amor. Julgando isso uma incitação do destino para que fosse persistente, em estado quase febril empenhou-se em escrever novamente a carta e, sem precisar de rascunho, o texto lhe saiu fluente e sem rasuras. Quando Irene abrisse o envelope, veria que ele era diferente daqueles que, não sabendo fazer o sujeito passar pelo verbo e chegar ao complemento, só se exprimiam pela internet.

Pequenas alegrias urbanas (113) -- Chopin

Toda vez que punha seu Chopin para tocar, alguém na vizinhança feria o ar com o som de um sambão desembestado ou de um frenético e desconexo rap. Ele saía para o quintal e, sem conseguir identificar de onde vinha a ofensa, xingava para o alto e, como se fosse um pequeno aluno na aula de geografia, apontava os braços para o norte, para o sul, para leste, para oeste. Foi assim durante meses. Punha Chopin, e sua casa tremia instantaneamente com a invasão dos timbres bárbaros. Começou a ouvi-lo baixo, baixinho, e, porque não adiantou nada, tentou ver se, trancado no lavabo ou no banheiro, se livrava da represália. Depois de uma série de inúteis experiências, agora ele sai da cama às três da madrugada, sem que a mulher perceba (passou a incluí-la entre os conspiradores), ajoelha-se diante do aparelho num canto da sala, coloca seu amado Chopin num volume tão débil que parece o zumbido de uma mosca e se deleita até as lágrimas. Seu próximo passo será procurar ouvir Chopin sem ligar o aparelho. Mas ainda se sente despreparado para isso.

Pequenas alegrias urbanas (112) -- A salvação

Deram-lhe um impresso, na esquina, e ele não precisou de mais do que cinco passos e cinco segundos de leitura para, olhando com ironia para trás e rasgando espalhafatosamente o papel, perguntar por que se preocupavam em salvar os animais e não davam a mínima para ele, que, além de sofrer horrivelmente do fígado, padecia de um pertinaz mal de amor?

Pequenas alegrias urbanas (111) -- Quatro meses

Anos depois de mandar passear um homem que durante quatro longínquos meses lhe havia parecido levemente interessante, caiu-lhe nas mãos uma daquelas agendas antigas, de papel, e, vendo ali o nome dele, ela foi tomada por uma surpreendente nostalgia. Passou-lhe pela cabeça que talvez ele fosse mesmo interessante e isso a levou a pegar o telefone. Poderia, quem sabe, sentir outra vez ao menos alguns dos sinais que em dois ou três dias, dos cento e vinte nos quais convivera com o homem, a haviam feito pensar que se tratava de possíveis, embora tênues, manifestações de amor. Com o dedo já roçando uma tecla, ela imaginou: e se, como era bem provável, o homem não despertasse nela nem mais aqueles sinaizinhos? Tinha apertado duas teclas, e não apertou mais nenhuma. Disse em voz baixa mas definitiva, como algum tempo antes, "Comigo não, Sebastião", deu uma mordiscada distraída num pãozinho de queijo e pôs o telefone e a velha agenda de lado.

Pequenas alegrias urbanas (110) -- Um a um

Desenganado pelos médicos e também pelos pulmões, pelo fígado e pelo coração, que achavam já ter trabalhado demais e se negavam a continuar vivos, ele, apaixonado pelo futebol, lembrou-se de um acidente que aos doze anos o deixara em coma por cinco dias e, dirigindo-se à Morte, que acabava de entrar no quarto do hospital, disse, com o orgulho adquirido em cinquenta anos de arquibancada: "Bom, minha cara, o que você vai conseguir agora é empatar o jogo, só isso, você sabe."

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (109) -- O almoço

"Se dependesse de mim", ele começou a dizer, e ela, ao ouvir o tom lamuriento que sempre havia achado incompatível com a voz de um homem, pôs o telefone em cima da mesa e foi completar a arrumação da bolsa, porque ia sair. Olhou para fora, querendo saber se precisaria levar o guarda-chuva, e, ouvindo um pingo de torneira em cima de um prato, foi fechá-la na cozinha, onde o relógio estava adiantado cinco minutos em comparação com o da sala. O mau humor acentuou-se em seu rosto. Não queria chegar atrasada ao almoço que tinha com um rapaz possivelmente promissor. Onde tinha enfiado o celular? Abriu outra vez a bolsa, para procurá-lo. Por ele saberia a hora certa. Em cima da mesa da sala, o telefone vibrava com a voz do homem, que falava, falava, falava. Ela conhecia tão bem aqueles discursos... Ele devia estar dizendo que, se dependesse dele, tudo ainda poderia dar certo entre os dois, que ele a amava, que ele... que ele... Aquilo iria durar vinte minutos no mínimo, talvez quarenta, ela sabia. Irritada por não ter encontrado o celular e pensando com ansiedade no rapaz com quem iria se encontrar dali a pouco, ela pegou o telefone na mesa e perguntou: "Que horas são?" Apanhado no meio de uma frase que tinha estudado e achava bela, talvez até decisiva, o homem respondeu que eram onze e trinta e quatro. "Bom, outra hora a gente conversa", ela disse, desligando o telefone, e, olhando-se pela última vez no espelhinho, abriu um sorriso pleno, porque havia se livrado de mais uma tediosa ligação daquele homem e tinha enfim encontrado o celular numa das divisões da bolsa.

Pequenas alegrias urbanas (108) -- Fuga

Durante muito tempo, sua carreira de romancista não conseguiu superar uma dificuldade prosaica: a falta de assunto. Tinha publicado um livro que as resenhas haviam considerado um dos mais importantes da década. Um ano se passara, dois, três, e ele sentia diariamente que estava apto a fazer um romance melhor e mais brilhante que o primeiro, se tivesse sobre o que escrever. Vinha-lhe um tema, era fraco; surgia-lhe outro, e era ainda pior. Chegava sempre até a décima página, no máximo, e desistia, porque nada conduzia a nada. Aflito, sob o pavor crescente de que lessem no seu rosto que era um escritor a quem os temas perversamente evitavam, passou a instigar o cérebro com leituras (dez, doze, catorze horas diárias), com álcool, com drogas, com disparates de todo tipo, com imprecações, com rezas, mas continuava sem ser recompensado por uma trama, um enredo, um arremedo sequer de história que o fizesse passar da maldição da décima página. Soube, nesses dias e noites de tormento, como era verdadeira a frase segundo a qual tudo já havia sido escrito e os escritores eram gente supérflua e repetitiva. Isso o agoniou ainda mais, ao invés de tranquilizá-lo. Queria agora não mais, como no início, o tema único, reservado para ele desde a primeira juventude do mundo, mas um tema qualquer, um tema mil vezes batido e rebatido, com o qual pudesse escrever o segundo livro e depois, apaziguado, ir trabalhar na empresa do pai, como este pretendia. Numa noite em que misturou álcool e drogas com uma exacerbação que parecia destinada a terminar em suicídio, ele apagou todas as luzes do apartamento e acendeu uma vela diante da qual pronunciou palavras que ninguém entenderia, nem mesmo ele, porque eram ditadas pela insanidade que o sufocava. Deitou-se no tapete, disse frases jamais registradas por nenhuma algaravia e dormiu assombrado por visões de seres rubros que gargalhavam ao redor de uma fogueira e lhe prometiam todos os enredos do mundo. Sorriu para eles e disse algo que poderia ser entendido como um agradecimento. No dia seguinte, começou a ser perseguido na rua por esses entes da noite anterior e por centenas de outros, todos rubros e febris, que lhe narravam histórias e situações com tal rapidez e vertigem que nem a mais hábil taquigrafia seria capaz de anotar. Correu de volta para casa, mas lá não lhe deram também descanso, nem mesmo no sono. Durou isso um mês, depois do qual, certa madrugada, ele saiu furtivamente do apartamento e embrenhou-se na escuridão, para executar seu plano: mudaria de nome e tentaria atingir um lugar remoto e só a ele acessível, onde esperava não sentir novamente as tentações da literatura, não precisar mais jurar, minuto a minuto, que não era escritor e jamais havia sido, nem se desvencilhar penosamente da multidão de personagens que insistiam em segurá-lo pelo paletó e puxá-lo para dizer-lhe que estavam ali para lhe contar a história das histórias.

Pequenas alegrias urbanas (107) -- Libertação

Ao transpor os sessenta anos de uma vida quase impecavelmente pragmática, ele resvalou de repente por um sentimentalismo que em certas horas lhe trazia, além da surpresa, um profundo desassossego. Não se entregava mais com a mesma concentração ao trabalho e às vezes se apanhava tão desligado que necessitava de cinco ou dez segundos para se reassumir e ver onde estava. Buscando a origem dessa alienação, voltou aos seus catorze ou quinze anos e a uma garota, Jênifer, que por uma quinzena o havia feito tentar ser poeta, para conquistá-la. Num domingo, assediado de novo por essa sensibilidade que a cada dia se tornava mais intensa, resolveu mexer nuns cadernos antigos. No de português, da oitava série, encontrou na última folha um poema escrito naquela longínqua quinzena marcada pela paixão, não correspondida, por Jênifer. A leitura dos primeiros versos lhe provocou um sorriso, satisfação que se manteve até o final, quando ele sentiu estar liberto da inquietação que ultimamente o tomara. O poema era ridículo, como ele vingativamente esperava que fosse, já que dedicado a quem não lhe tinha dado atenção. Falava de um rouxinol que cantava para celebrar um grande amor e morria na nota mais sublime e aguda. Além disso, ele notou, e o considerou o definitivo sinal de que estava salvo, o fato de que a homenageada nos catorze mambembes versos do soneto não se chamava Jênifer, mas Juliana.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (106) -- No sofá

Sentiu uma ternura súbita, uma vontade insuportável de se dar, de se doar, de se entregar inteira, de encostar o peito em um peito ansioso como o dela e ser apertada por um abraço que, só de ser imaginado, a fez suspirar. O gato - que dormia em seu colo e desfrutava, como ela, a mornidão do sol, que havia entrado pelo janelão do apartamento e se aninhara entre os dois, no sofá -- estremeceu também, como se no sonho tivesse sido tocado pelo mesmo anseio. A mulher passou a mão no seu pelo sedoso, para acalmá-lo, mas ele se pôs em pé no colo dela e a olhou com um olhar tão terno que ela esqueceu como havia lastimado, um momento antes, quem, lá fora, talvez precisasse desesperadamente daquela ternura funda, aguda, ávida, que ela agora punha no sopro com o qual arrepiava os bigodes do gato.

Pequenas alegrias urbanas (105) -- De repente

O avô estava levando o neto de quatro anos para sua primeira volta de metrô. Quase chegando à estação, notou que ele não mostrava muito entusiasmo. "É aí que ele mora?", perguntou o garoto. "É, aí dentro", riu o avô. "Ele é que nem um trem?" O avô riu de novo: "É, bem parecido." O neto refletiu um instante e disse: "Ele solta fumaça?" Quando o avô respondeu que não, ele fez uma cara de desânimo. Iam já descer a escada da estação quando um ruído estranhíssimo, impondo-se ao dos motores e ao das buzinas, os fez olhar para a avenida. Ali, trotando magnificamente, havia aparecido um lustroso cavalo marrom que puxava uma carrocinha na qual iam sentados um homem e um menino. O garoto puxou a manga da blusa do avô: "Vô, a gente não pode ir naquilo?"

Pequenas alegrias urbanas (104) -- Aritmética

Amigos disseram, um médico diagnosticou, uma quiromante previu e a mãe - não por palavras, porque já não as falava, mas pela solidez dos seus cem anos - confirmou que ele chegaria fácil, muito fácil, aos noventa. Isso foi há cinco meses. Ontem, depois de semanas achacado por doenças e mal-estares, com o fígado repentinamente frágil e o baço irremediavelmente arruinado, além de uma tenaz obstrução pulmonar, ele sentiu que seria a última noite de sua vida e imaginou, como vingativo consolo, o que diriam todos aqueles que vissem ter errado - e errado por uma calamitosa diferença de dezenove anos -- seus prognósticos.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Numa toalha de restaurante

Pedes perdão por ferires
E escusas por maltratares.
Melhor será se os pedires
No dia em que me matares.

Pequenas alegrias urbanas (103) -- Desencanto

Quando descobriu, aos poucos, que Dickens submetia a cunhada a olhares cobiçosos, que Dostoiévski vivia preso, ou por dívidas ou por desrespeito às autoridades, que Verlaine e Rimbaud se entretinham, um com o outro, em exercícios nada poéticos, e que Byron fornicava com a irmã, ele se indispôs com a literatura e passou a dedicar-se com maior empenho àquilo que denominava enfaticamente de corretagem sexual e que um amigo advogado, alertando-o sempre para os riscos, chamava de exploração do lenocínio. Manteve respeito unicamente por Emily Dickinson, porque, pelo que sabia, ela (e mesmo isso era só uma hipótese, tão frágil que parecia uma difamação) teria sido tocada apenas, e sem a necessária malícia e habilidade exploratória, por um religioso (pastor ou assemelhado). Mas, por garantia, não quis conhecer mais coisa nenhuma da vida de Emily.

Pequenas alegrias urbanas (102) -- Quase

Decepcionou-se terrivelmente por não ter morrido naquele momento, apesar de todo seu esforço, mas sentiu-se recompensada ao se ver no chão e ouvir uma voz aflita e carinhosa implorando: "Perdão, meu amor, perdão, esquece o que eu disse. Eu te amo e vou te amar sempre, até o último dia de minha vida."

Pequenas alegrias urbanas (101) -- A mudança

Quando descobriu que havia sido montada uma academia só para mulheres, não muito longe de sua casa, Bete não hesitou: fez a matrícula e desistiu de frequentar a outra, porque estava cansada dos namoricos bestas com os musculosos Rogérios, Cássios e Otávios. Já na primeira manhã de nova academia, ela viu que tinha acertado. Deu-se bem com uma loirinha nova, meiga e magra, com quem marcou um encontro já para aquela noite, pressentindo que seria o primeiro de muitos jantares.

Pequenas alegrias urbanas (100) -- O encontro

A cachorra foi posta no quartinho de empregada, nos fundos, mas o insistente cheiro do seu cio espalhou-se pela rua. Em poucos minutos, mais de dez machos petulantes e ansiosos começaram a fazer sentinela no portão da casa, latindo, uivando, mordendo-se, dilacerando-se. A manhã toda foi assim, mas Fúlvia, que tinha motivo para estar de bom humor, não se incomodou. Ao meio-dia, os cachorros mais experientes, sentindo que a cachorra não sairia, foram cheirar outros postes e buscar outros rumos. Enquanto esperava a água ferver para preparar um miojo, Fúlvia olhou pela janela da sala e viu só um cachorrinho tolo que arranhava o portão e soltava seu apelo apaixonado. O telefone tocou. Fúlvia ficou ouvindo por um minuto, depois desligou, com raiva. Foi até a cozinha, pegou a panelinha e, com passos resolutos, andou até o portão e jogou a água fervente no cachorrinho. Enquanto ele corria ganindo para a esquina, ela voltou para dentro com a certeza de que Mateus a enganava quando se dizia apaixonado. Era o terceiro encontro que ele desmarcava naquela quinzena.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (99) -- A hora final

Talvez não tivesse dito nada, porque estrebuchava e lhe parecia que nenhuma palavra, nem um ai, conseguiria passar pelo sangue que lhe entupia a garganta, mas, quando o policial perguntou pela terceira vez quem o havia esfaqueado, ele se lembrou ainda uma vez, dolorosamente, de como lhe tinha sido roubado seu grande amor e, mesmo sabendo que era uma tentativa quase certamente destinada ao fracasso, murmurou antes de fechar os olhos o nome do menino da sétima série que talvez ainda estivesse vivo agora, quarenta anos depois, embora durante esse tempo ele não houvesse deixado um dia sequer de lançar contra ele suas pragas mais sinceras e fervorosas.

Pequenas alegrias urbanas (98) -- Futuro

Proibido pela mãe de se aproximar da mesa onde estavam os brigadeiros, porque, segundo ela, havia comido mais de uma tonelada, o menino lembrou-se de que um amiguinho lhe tinha dito que tudo no mundo morria - cavalos, cachorros, gente - e imaginou como a mãe se lastimaria quando, talvez já na festa seguinte (o aniversário dela era dali a um mês), olhasse para a mesa cheia de brigadeiros e não o visse ali, ansioso para comê-los.

Pequenas alegrias urbanas (97) -- Pingue-pingue

Saudoso das palavras doces que sua querida não mais lhe mandava, ele não parou de lhe enviar diariamente uma carta e, a certa altura, de escrever ele mesmo a resposta. Conseguiu assim, no sexto mês, marcar com a amada um encontro ao qual, por espírito de desforra, não compareceu.

Pequenas alegrias urbanas (96) -- Corcunda

Tinha passado de sete décadas e, embora os amigos ainda vivos enaltecessem seu bom aspecto e dissessem invejá-lo pela saúde que ostentava, sentia-se fraco, triste, e lhe pesavam agora as caminhadas que dois anos antes fazia com uma lepidez e uma satisfação às quais não faltavam antigas músicas assobiadas com entusiasmo juvenil. Tossia agora, a cada dez passos, o que o impedia de assobiar, e andava curvado como se fosse um agiota buscando no caminho moedas de ouro. Um dia, passando pela frente de um bar onde três homens observavam a rua e conversavam alegremente, ouviu: "Se soprar um ventinho, aquele coroa vai direto para o cemitério..." Encolheu-se mais, como se assim pudesse livrar-se das gargalhadas, e teria interrompido o passeio e voltado para casa mais infeliz se, ao olhar para trás, não houvesse visto um velho ainda mais acabado, a quem os homens chamavam de corcunda de Notre Dame.

Pequenas alegrias urbanas (95) -- Vida nova

E todo ano, quando o dia chegava, comemorava a súbita covardia que tinha se apossado dele e da mulher com quem havia feito um pacto de morte quase uma década atrás. Solitário e devagar, bebia um copo de vinho e alegrava-se por estar vivo. Fazia anos que não via a antiga amada, mas sabia que ela estava bem, havia casado com o dono de um supermercado e, se tivesse também o hábito de comemorar a data, certamente poderia naquela hora estar tomando uma taça do melhor champanhe francês.

domingo, 9 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (94) -- A alma

"Oi, estou ligando por uma coisa."
"Oi. É a Lucinha?", ele perguntou, embora soubesse muito bem quem era.
"Puxa, que bom que você ainda se lembra de mim. Já faz tanto tempo, Marcos. Três meses."
"É. Tudo bem com você?"
"O que você acha?"
"Não sei. Espero que você..."
"Que eu esteja ótima, é isso?"
"Isso."
"Foi por isso que você não ligou todos esses meses, não foi? Porque sabia que eu estava ótima."
"Bom, você também não ligou."
"E as mensagens? Pelo menos uma por dia. Você respondeu?"
"Eu andei com problemas no micro."
"Ah, foi o que eu pensei."
"Você disse que estava ligando por que mesmo?"
"Para ver se você estava bem. Já vi que está. Que bom. E por outra coisa também."
"Pode falar, Lucinha."
"É chato eu dizer isto três meses depois, mas é que você ficou com uma coisa minha que está me fazendo muita falta."
"Coisa? O que é? Algum cedê?"
"Não. Uma coisa um pouco mais importante."
"Se você me disser o que é, eu... Olhe, foi bom você falar nisso, porque eu notei a falta daquele meu cortador de unha. Por acaso está aí com você?"
"Não vi, não, Marcos. Mas, se achar, eu aviso."
"Bom, o que você queria, mesmo? Pode falar. Se encontrar, eu devolvo."
"Ah, não é nada, não. Deixa. Até esqueci o que era."
"Se você lembrar, pode ligar de novo, que eu procuro, está bom assim?"
"Está."
"Tchau, então, Lucinha. Preciso ver uma coisa aqui."
Ele desligou o telefone, Lucinha desligou também. Mas, como se Marcos estivesse ali, diante dela, na sala, deixou que os dois filetes de lágrimas descessem maciamente até a sua boca e, abrindo-a, disse alto, quase gritando:
"O que eu quero é a alma, a minha alma, que um dia eu deixei aí. Mas você jamais a acharia, Marcos, porque você não sabe o que é alma, e nunca saberá."
Embora continuasse chorando, e agora mais forte, sentia-se quase feliz, por gozar uma espécie de superioridade que, se fosse definir, chamaria de moral, e por desfrutar sozinha esse momento que, se compartilhado, pareceria um mero ato de vingança.

Pequenas alegrias urbanas (93) -- O outro

Do quinto andar, na sacada do apartamento, o homem olhava melancolicamente para baixo. Eram três horas, mas o exagero de sol na rua e a algazarra das crianças no playground, que subia em ondas cada vez mais fortes, eram um insulto à sua tristeza. Gostaria de morrer, gostaria muito, mas não o seduzia saltar para o espaço, como havia imaginado duas horas antes, ao se debruçar no parapeito. Não lhe ocorria nenhum outro meio. Não tinha revólver, nem saberia usá-lo. Arrepiava-o pensar em cortar os pulsos. O sangue lhe daria engulhos até depois de morto. O razoável talvez fosse uma dose estúpida de soníferos. Ele tinha um vidro recentemente comprado, que estava pela metade, e mais dois antigos, guardados desde o tempo de uma primeira desilusão séria. Mas estes estavam com a validade vencida e ele não queria ser conhecido como um amante inábil que acabara sobrevivendo à custa de lavagens estomacais. Fazia vinte minutos que vinha observando um casal na porta do prédio em frente. Parecia tudo normal, um enredo comum de dois apaixonados, mas repentinamente a mulher pôs-se a gesticular com fúria e entrou sozinha no prédio. Desnorteado, o rapaz ficou olhando para cima, talvez com a esperança de ver surgir em um dos apartamentos a amada. Do quinto andar, o homem notou que o rapaz chorava. No início sentiu pena, mas logo em seguida sorriu e já não se sentia tão desgraçado ao ir para a sala e ligar a tevê. Se alguém tivesse de se matar por amor, que não fosse ele, naquele domingo.

Pequenas alegrias urbanas (92) -- O dinheiro

O que o comoveu não foi a perna mecânica do menino, nem seu rosto cadavérico, nem os olhos purulentos, nem os braços cobertos de feridas, nem a voz sofrida com que ele lhe pediu dinheiro. Foi a reverência quase mística com que pegou o dinheiro, o sorriso que por um instante lhe melhorou o rosto e, mais do que tudo, o beijo que, provavelmente por instrução de quem lhe explorava a miséria, ele deu na nota velha - como se fosse um fiel encostando os fervorosos lábios na imagem de uma santa ou um menino saudável, com as duas pernas boas, que deixasse por um momento de chutar sua bola e, com ela debaixo do braço, entrasse numa sorveteria para lambiscar um sorvete de morango.

sábado, 8 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (91) -- Os moinhos

Era escritor fazia trinta anos, embora só ele ainda acreditasse nisso. Tinha uma dezena de livros publicados, nenhum recente, e o pouco sucesso que havia conseguido estava tão distante, era tão antigo que, nas suas fotos estampadas nessas edições, ninguém, a não ser ele e os parentes, o reconheceria. Continuava escrevendo, com uma obstinação que já beirava a insanidade. Durante algum tempo, ainda seguiu o roteiro antigo: acabava um romance, mandava-o a uma editora; terminava mais um, enviava-o a outra; e acabava e mandava, e terminava e enviava. Quando pedia resposta, ela era sempre "não". Não parou de escrever romances e de encaminhá-los. Mas a certa altura já não pedia respostas, nem as esperava mais. Se por acaso via na rua algum editor a quem tivesse mandado um original, encolhia-se, ocultava-se, alterava o rumo dos seus passos. Bastava-lhe agora escrever, e escrevia mais e mais, varando madrugadas. De manhã, na hora do café com a família, começou a imaginar quem -- se a mulher, se os filhos -- ligaria para que viessem buscá-lo com a camisa de força. Uma tarde, ao sair da agência de publicidade da qual era redator, foi chamado por uma senhora. "O senhor não é escritor?" Ele sorriu: "Sou." A mulher, que tinha lido um livro dele, fez elogios à história e ao estilo e, antes de se despedir com um beijo, comentou que A Sombra na Escada era um de seus romances preferidos. Ele não disse que seu livro era Um Vulto no Corredor. Acenou para a mulher que se afastava e, olhando para a outra calçada, viu mais um dos moinhos que ultimamente o atormentavam.

Pequenas alegrias urbanas (90) -- O rio

Foi no terceiro dia de uma chuva diluviana, que o jornal consideraria a maior do século, que a menina Ísis notou como era belo o rio. Ele havia transbordado e, como se todos os demônios da destruição o tivessem instigado, começou a engolir tudo que ousasse ficar à sua frente. Derrubara já dois casebres no início da rua e sacudia agora aquele onde Ísis morava. A família toda, com baldes, bacias e panelas, apelando a Deus e praguejando, tentava devolver ao rio o que ele continuava despejando sem descanso, mas todos sentiam que era inútil. Mesmo assim, concentravam o esforço nos fundos da minúscula casa, onde o rio atacava com maior fúria. Ísis não participava desse esforço. Era considerada meio boba, apática, metida a devaneios. Ela, na frente da casa, acompanhava o maravilhoso fluxo da corrente desatinada e, feliz por poder ver tanta beleza assim de perto, se encantou ainda mais quando observou que, no meio de uma porção de objetos indistinguíveis, o rio vinha trazendo, para lhe ofertar, uma boneca nua e cabeçuda. Ísis deu três passos para fora da casa e colocou a boneca no colo antes de ser puxada para o meio das águas.

Pequenas alegrias urbanas (89) -- A palavra divina

Tinham já percorrido um quarteirão longo, parando de casa em casa para pregar a palavra de Deus. Era uma dezena de homens e mulheres pálidos, vestidos sobriamente. Entre eles, uma menina de sete anos, acompanhando contrariada a mãe. Gostaria de estar com o irmão de doze anos em casa, mas a mãe tinha dito que ele não era suficientemente responsável. No sábado seguinte, quando o pai ficaria em casa, ela não precisaria sair com a mãe. Naquele dia, porém, a mãe havia achado que já era hora de ela tomar conhecimento, ainda que superficial, da beleza do trabalho de evangelização. Dali a alguns anos, a mãe esperava que ela se juntasse ao grupo, para redimir os dois irmãos descrentes e o pai. A menina estava com fome, sede, cansada. Vinha segurando a urina fazia muito tempo e, quando choramingava dizendo que não aguentava mais, a mãe a repreendia: "Você aguenta, sim." A mãe estava conversando com uma mulher no portão de uma casa enorme, mostrando livros e folhetos, quando as nuvens negras despejaram uma carga brutal de chuva. A mulher da casa enorme pediu desculpas e correu para dentro, enquanto a menina, apanhada no colo pela mãe, sorvia com delícia os grossos pingos e, já molhada, deixava escorrer pelas pernas a urina.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (88) -- Trinta anos

No velório, ele, ao dirigir palavras de consolo à viúva, ouviu dela uma pergunta: o que ele tinha querido realmente dizer trinta anos atrás, quando havia ligado uma noite para ela e, dando a entender que faria uma revelação gravíssima, acabara fazendo apenas uma consulta sobre uma questão de português. Ele hesitou novamente, como havia hesitado trinta anos antes, e não disse que tinha pretendido avisar, naquele dia longínquo, que o homem agora estendido no caixão, então um adolescente, andava espalhando no colégio a facilidade com que a encostava em cada muro ou árvore e a levava a êxtases profundos. Não disse também à viúva que a amava naquela época, que havia mantido esse amor aceso por muitos anos e que não entendia como ela podia ter se casado com aquele homem que, morto, assumira uma falsa expressão de austeridade, e ao qual, entre dentes, ele chamou de porco.

Pequenas alegrias urbanas (87) -- As notas

Na manhã em que perderia a perna esquerda, João Amaro, embora depois não se lembrasse, ainda empurrou com ela para fora de casa um folheto, ao sair para o trabalho. Depois, já na rua, com a mesma perna, espantou um cachorro que ameaçava mordê-lo e, um pouco mais adiante, chutou com precisão uma tampinha. Talvez pelo sol, talvez pela brisa de outono, talvez pelo olhar promissor de uma colega de escritório na véspera, ele caminhava mais leve nesse dia, e o sorriso, habitual nele, estava mais aberto do que nunca. A caminho do metrô, olhou para o chão e viu, sopradas pelo vento na sua direção, três notas. Apanhou-as, calculando rapidamente que um operário comum precisaria trabalhar no mínimo dois dias para ganhar aquilo, e pensou que o dinheiro vinha na hora certa, porque com ele poderia convidar a colega de escritório para um almoço numa lanchonete que tinha sido aberta naquela semana, perto de onde os dois trabalhavam. Estava começando a atravessar a rua quando alguém gritou "ei". Imaginando com pesar que poderia ser o dono das notas querendo se reapossar delas, olhou para trás e foi apanhado pelo ônibus que tinha saído bruscamente do ponto e para o qual um homem aflito, na calçada, havia tentado chamar sua atenção.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (86) -- A rosa

Era um homem desatento. Havia vivido muitas décadas, mas conhecia pouco, muito pouco, da vida. Acreditava nos livros. Achava certo tudo que lia neles, mesmo que uns contradissessem os outros. Se havia contradição, deveria existir motivo para isso. Não achava necessário olhar para o sol, para o mar, para a lua. Tinha olhado para eles pelo menos uma vez na vida e sabia, pelos livros, o que eram e como eram. Vivia assim. Um dia, aceitando um convite para almoçar na casa de uma amiga, viu uma flor. Ia passar por ela sem lhe prestar atenção, quando a amiga disse: "É linda, não é? É o tesouro do meu jardim." Ele quis saber que flor era aquela e, quando a amiga, espantada, lhe perguntou se jamais tinha visto uma rosa, ele respondeu: "Provavelmente nunca." Olhou agora com interesse para a flor. Aquilo então era uma rosa, ele se maravilhou, porque nenhum livro o tinha preparado para aquela beleza. Por alguns dias sentiu uma doçura nova, uma ternura que ele nem sabia chamar por esse nome. A lembrança da rosa, seu brilho, seu perfume e sua delicadeza o deixaram inquieto por alguns dias. Mas a amiga nunca mais o convidou e, dali a algum tempo, se ele fosse definir uma rosa, repetiria o que lhe tinham dito seus livros.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (85) -- O plano

Tinha decidido tudo, já. Havia pedido as férias para dezembro, e seria num dos seus trinta e um dias que ele executaria o plano. Receberia o salário de novembro, também o de dezembro, adiantado, e o décimo terceiro. Tinha feito as contas com cuidado quase maníaco e sabia que, quando se fosse, pelo menos de mau devedor ninguém o chamaria. Seu pai dizia sempre que um homem podia ser tudo, menos caloteiro. Caloteiros não entravam no céu. Essa lembrança o fez sorrir. Não tinha desfeito ainda o sorriso quando viu, pulando à sua frente, uma bola. Conseguiu pará-la sem dificuldade. Tinha sido um jogador razoável, quando menino. A bola havia escapado de um colégio, e alguns garotos, pendurados no muro, gritaram: "Chuta! Aqui! Chuta!" Ele pegou a bola com a mão e preparou o chute. A bola subiu, ultrapassou o muro e provocou uma saudação de vozes juvenis: "Aí, tio! Boa! Valeu!" Agradeceu e por um momento não pareceu ser o homem que num dos trinta e um dias de dezembro se mataria.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (84) -- Cada minuto

O homem desceu a rua gesticulando e parou no ponto de ônibus. Falava com alguém que só ele via. Perguntava, respondia, argumentava, contradizia. Depois de alguns instantes, ficou claro que ele falava com uma mulher chamada Nara. E em quase todas as frases, ditas com veemência quase febril, ele pronunciava com especial reverência uma palavra: amor. Uma garota disse a outra: "Viu como eu estou certa, sua tonta? O amor serve para isso aí, só para isso. Para enlouquecer uma pessoa." O homem pareceu ter ouvido, porque, gesticulando ainda mais forte e pondo maior fogo nas palavras, disse: "Mas valeu, Nara, não valeu, amor? O quê? Você acha que não, mas valeu. O amor vale sempre, Nara." O ônibus chegou e as pessoas foram subindo. O homem ficou por último e quando entrou, mesmo sob o risco de cair, ainda gesticulava: "Foi tão pouco tempo, Nara, tão pouco, amor. Mas valeu cada minuto, cada segundo. Não adianta dizer que não. Valeu, amor. O amor vale sempre."

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (83) -- A saúde

Destroçado por uma desilusão de amor, o homem caminhava pela rua procurando alívio para a alma e o orgulho feridos. Ia pensando em tudo que tinha, na sua empresa, que prosperava sem que ele precisasse sequer ir ao escritório, no seu dinheiro rendendo juros no banco, na sua pouca idade, que lhe permitia ainda esperar muitas alegrias e talvez outra grande ventura amorosa. Pensava nisso tudo e consolava-se por vinte ou trinta passos, mas logo adiante o coração se apertava de novo e chegava a doer. Olhou então para o sol e imaginou quantos homens não se contentariam em estar como ele, andando na tarde tranquila, podendo assobiar, se quisesse, e até cantar, se lhe aprouvesse, e seguir em frente, ou dobrar à esquerda, ou enveredar pela direita, sem compromisso com coisa nenhuma. Lembrou-se do que todos diziam sobre a saúde, sobre o bem supremo que ela representava, e, sentindo-se forte como um cavalo, sorveu voluptuosamente o ar primaveril. Chegou a sorrir. Mas, ao ver no ponto de ônibus um casal de adolescentes abraçado, ele fechou de novo o rosto e disse baixinho, pondo em cada sílaba seu ressentimento: "Que se dane a saúde. Eu quero amor, amor."

Pequenas alegrias urbanas (82) -- O macaco

Pela terceira vez a avó, que estava na loja com a neta para lhe comprar um presente de aniversário, procurou fazê-la desistir de uma boneca que, a cada botão apertado, abria e fechava os olhos, cantava, pedia comida, ria, chorava. Ajudada pela vendedora, a avó tinha já enaltecido os encantos de outras bonecas e tentado desviar a atenção da neta para uma cozinha linda, com fogão, geladeira, liquidificador e batedeira, mas a neta havia recusado tudo com obstinação e, agora, rejeitando também um quebra-cabeça de cem peças, tinha voltado para o lugar onde a boneca parecia chamar por ela. Novamente a avó lhe disse que não dispunha de tanto dinheiro assim e, dessa vez, como se finalmente houvesse compreendido, a menina se dirigiu a um canto da loja em que estavam os saldos, mercadorias que por um defeito qualquer podiam ser compradas por preço baixo. A avó disse que ela estava sendo malvada, que aquilo já era uma provocação, mas a neta começou a revirar os brinquedos ali amontoados, até achar um macaquinho sujo e com um olho estropiado: "Eu quero este." A avó ainda tentou convencê-la a levar outro macaco, igual ao outro mas sem nenhum aleijão aparente. Mas a neta resistiu e, enquanto a avó e a vendedora balançavam a cabeça, abraçou o macaco, beijou-o muito e esforçou-se para não chorar.

Pequenas alegrias urbanas (81) -- A pinta

Nasceu com uma pinta abaixo do olho esquerdo, bonitinha como ela. Cresceu, e a pinta, que foi crescendo com ela, não enfeou seu rosto, que continuava chamando a atenção, pelo delicado nariz e pelos grandes olhos azuis. Aos treze ou catorze anos, a pinta já era notada mais que o rosto. E aos dezoito ela sabia já a causa de nunca ter tido um namorado. Aos vinte e três, num baile, na festa de casamento de uma prima quatro anos mais jovem, um rapaz se aproximou da mesa em que ela estava e, com um sinal, convidou-a para dançar. A surpresa a fez hesitar um pouco e, quando se levantou da cadeira, o rapaz estava se afastando. Ela coçou a pinta com força, como se a castigasse, bebeu um gole de vinho e sorriu ao ver que o rapaz tinha feito um convite a uma garota , três mesas adiante, e acabava de ser rejeitado.

Pequenas alegrias urbanas (80) -- O sonho

Era um desses homens que, quando falam da vida, olham tristemente para qualquer ponto, menos para o rosto de quem os ouve, porque relatam sempre desventuras tão grandes e aflições tão agudas que temem ser tidos como mentirosos pelos outros, que, pouco ou muito, conseguem fruir algum mel aqui ou ali, na passagem dos dias. Ele não fruía mel nenhum, não desfrutava nada. Se quisesse relatar alguma alegria, precisaria inventá-la. Uma noite, sonhou que estava andando por um lugar muito verde e ensolarado. Os passarinhos cantavam e havia no caminho uma árvore embaixo da qual ele se sentou. Caiu-lhe no colo maciamente um fruto de uma espécie que ele jamais tinha visto. Ele deu uma mordida, duas, sem acreditar que pudesse estar gozando tanta delícia. Com o fruto pela metade, fez um esforço enorme, desesperado, e acordou, porque nem sonhando se julgava digno daquela ventura.

domingo, 2 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (79) -- O bisão

O menino de cinco anos estava maravilhado com o passeio, com os macaquinhos pulando de galho em galho, com os marrecos berrando na lagoa, com as emas andando imponentes e com os veadinhos que, rodeando o carro no qual ele estava com o pai e a mãe, pediam comida e vinham comê-la educadamente nas mãos dos três. Enquanto o pai e a mãe elogiavam a organização do parque, o carro parou diante de um cercado em que um bicho enorme e estranho olhava melancolicamente para cima. Como ele se chama?, o menino perguntou e, ouvindo que era um bisão, quis saber por que ele parecia tão triste. A mãe disse que devia ser porque ele não gostava de ficar preso. E por que ele não sai?, disse o menino, vendo que para conter o bisão havia só uma cerca evidentemente frágil. Antes que viesse a resposta, ele mesmo descobriu, por uma tabuleta pregada ali, com a imagem de um raio, por que o bicho não escapava. Era uma cerca elétrica. Coitado, falou baixinho o menino, enquanto o pai e a mãe imaginavam quantos choques teria levado o bisão até aprender a não ultrapassar seus limites. O passeio estava estragado, para os três, e nada mais pôde salvá-lo, nem os leões nem os tigres, porque havia em volta deles também, quase invisível mas cruel, uma cerca igual à que aprisionava o bisão. O pai ainda tentou consolar o menino, que agora chorava. Comprou para ele, na lojinha do parque, um macaquinho felpudo. Já a caminho de casa, o menino, sem que o pai e a mãe vissem, deixou o macaco cair pela janela do carro, o que aliviou um pouco, mas só um pouco, a angústia que sentia no peito e o acompanharia ainda por muitos anos.

sábado, 1 de maio de 2010

Pequenas alegrias urbanas (78) -- Lembrança

Fazia uma hora, já, que os homens estavam tirando do caminhão os móveis da família que no sábado ensolarado se mudava para o sobradinho verde finalmente ocupado, depois de ostentar por três anos a placa de vende-se. Pela fresta da persiana, a velha e solitária mulher que morava na casa em frente acompanhava a ida e vinda dos homens, para dentro e para fora do sobradinho, não porque lhe interessasse ver se eram bonitas as poltronas dos novos vizinhos, ou modernos o freezer e o micro-ondas. Esticava o pescoço, ouvindo o apaixonado bater do coração, para ver se aparecia no outro lado da rua, no meio das mesas, das cadeiras, dos tapetes, dos quadros e do resto, um gato. Podia ser pequeno, médio ou grande, branco, preto ou cinza, podia até ser feio, desengonçado e doentio como aquele que os vizinhos antigos tinham levado três anos antes e que ela gostava tanto de ver quando, nas manhãs de sol, vinha se espreguiçar diante do sobradinho.