terça-feira, 31 de agosto de 2010

Lírica (569) - Para ti

Instruí minha boca a dizer as palavras certas, de tal forma que sempre saibas facilmente quando eu estiver falando para ti, embora falar para ti seja agora a agradável atribuição de todas as sílabas que diz minha voz.

Lírica (568) - Termômetro

A testa ardia. Falara
Com ela e subitamente
Seu corpo ficara quente
Como a areia do Saara.

Lírica (567) - Aquele

Já sabe que quando dele
No futuro alguém falar,
Ela dirá: "Sei, é aquele...",
Mas custará a lembrar.

Lírica (566) - Adiantou?

Você quis que fosse lindo,
Você quis que fosse terno,
Você quis que fosse infindo,
Você quis que fosse eterno.

Agora, que já morreu,
E só lhe resta sofrer,
Agora, pergunto-lhe eu:
Adiantou você querer?

Lírica (565) - Borocoxô

Dói-lhe o fígado, e o rim,
Onde apalpa sente dor,
Morto está, mas mesmo assim
Insiste em falar de amor.

Lírica (564) - Simples assim

Se não faltasse a coragem
Diria (porém é fraco)
Que ter afeto é bobagem
E que o amor só enche o saco.

Sertãozinho

Dia 2, quinta-feira, participarei de um bate-papo com leitores às 15 horas, em Sertãozinho, para falar de amor: amor à vida, amor à leitura, amor aos livros, amor à literatura.

Lírica (563) - Farol

Ficaria feliz se pudesse viver num daqueles faróis marítimos onde cabe só uma pessoa e aonde nenhuma onda levaria qualquer garrafa com mensagens amorosas, mesmo que o pedido viesse da mais encantadora das princesas da Terra.

Lírica (562) - Incompreendido

Era tão inacreditavelmente bobo que começaram a ver astúcia onde havia ingenuidade, e suas flores passaram a ser recusadas, como se delas se exalasse um aroma mortal.

Lírica (561) - Mamãe

Soube que não servia mesmo para viver quando já velho, muito velho, sentia uma falta imensa, depois de qualquer infortúnio, de se atirar nos braços da mãe, morta fazia quatro décadas.

Lírica (560) - Comédia

Seus versos de amor foram recebidos com gargalhadas tão expressivas que qualquer comediante as consideraria um triunfo.

Lírica (559) - Por quê?

Que tolinho foste. Ninguém te disse que desde o século XIX lágrimas já não comovem corações? A literatura que te ensinaram, e na qual acreditaste, faria dormir nove entre dez virgens e rolar de rir o mais boboca dos meninos da quarta série.

Lírica (558) - Fiel

Ensinaram-lhe a lição da brandura, e ele a levou tão a sério que aprendeu a ficar de quatro e a lamber a mão de quem por acaso lhe dá um ossinho de amor, ainda que já roído.

Lírica (557) - Tristinha

Teu norte não é o meu,
Não é minha a tua sorte,
Meu amor não é o teu,
De ti virá minha morte.

Lírica (556) - Leite

Na noite em que sonhou com ela, acordou com a boca seca e a frustração de o sonho haver terminado antes que ela tirasse o sutiã.

Lírica (555) - Precisão

Contaria até cinco quando a beijasse, ou até dez, no máximo, para que ela não soubesse que, antes de dormir, imaginava beijá-la e só parava depois de uma hora, marcada no relógio.

Lírica (554) - Suspeita

Gostaria de pegar a mão da mulher e, sob o pretexto de um beijo, cheirá-la, para confirmar a suspeita de que daqueles cinco dedos vem o aroma de rosa que sempre sente em sua presença.

Lírica (553) - Colar

No sonho, ele a vê mastigando vagarosamente um colar de pérolas e anseia para que ela o olhe de repente e lhe diga: o próximo é você.

Lírica (552) - Lembrança

Aquela doce esperança
Que te nutriu e embalou,
Nenhum sinal te deixou
Além da amarga lembrança.

Lírica (551) - Eternidade

Para aquele momento, para o sorriso dela e para a gota que no braço dele deixaram seus cabelos molhados, ele desejou a eternidade.

Lírica (550) - Haicai: Adeus

Navio a zarpar.
Os lenços, pombos suspensos,
Anseiam voar.

Lírica (549) - Doce

Se morrer de amor é doce,
Então por que não supor,
Me diz, que viver de amor
Talvez até melhor fosse?

Lírica (548) - Deleite

Chorava por amor e a cada manhã só pedia que lhe trouxesse um sofrimento mais agudo que o da véspera, porque padecer era agora seu único deleite.

Lírica (547) - Sensível

Soube que era diferente quando, ainda garoto, deu dois passos para o lado, para não pisar no gatinho morto, mas o menino que vinha atrás chutou o pequeno corpo e em seguida outro garoto completou com um chute ainda mais forte e correu gritando gol.

Lírica (546) - Sedenta

No caminho para o colégio, o menino viu uma flor murcha num galho. Ela lhe pediu água, e ele a levou até a torneira do pátio, deixando-a beber à vontade. Colocou-a depois no bolso e subiu para a sala, porque ia começar a primeira aula.

Lírica (545) - Brincos

Quando, depois de colocar vários, ela se decidiu por um, o par de brincos escolhido cintilou e lhe sussurrou agradecimentos que ela, apressada, não ouviu.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Lírica (544) - Menino

Subitamente, percebeu como havia sido tolo, como havia sido crédulo, como havia confundido os sonhos com a realidade. Estava já chegando ao fim do caminho no qual imaginara poder encontrar o amor, e sangravam-lhe os pés, e o sol queimara o sal de suas lágrimas, e a lua lhe imprimira no rosto o sinal dos melancólicos. Ele sabia, já, que no final do caminho só encontraria a mesma solidão com que o havia iniciado, mas não parou de andar. Parar seria assumir uma maturidade que ele não desejava. Continuou andando, em cada passo sentindo-se, mais e mais, o menino tolo que era e vendo, em cada novo metro inutilmente percorrido, que ser ingênuo e puro era a grandeza que lhe restara.

Lírica (543) - Formiga

No meio do formigueiro, escolheu uma formiga e começou a acompanhá-la no seu ir e vir, na sua determinação de pegar folhinhas fora e levá-las até a borda. Já estava nisso fazia uma hora quando alguém o chamou e ele, distraindo-se, já não sabia dizer qual era a sua formiga. Sentiu-se órfão, desgraçadamente órfão.

Lírica (542) - Avarento

Agora economiza sorrisos. Receia gastá-los e não ter um para a hora final, aquela em que, por medo ou convicção, imagina estar guardando o melhor deles.

Lírica (541) - O estranho

Não sente mais encanto em ir ao parque. As árvores, o vento e os pássaros já perceberam nele os sinais da iminente partida e preferem reservar sua sombra, seus frutos e seus cantos para os jovens, que agradecem com cambalhotas e risos que ele não consegue mais dar.

Lírica (540) - Clair de lune

Gostaria que a morte fosse encontrá-lo no final de um concerto, de preferência numa praça, sob um céu estrelado, e que ele percebesse a presença dela quando, ao juntar seus aplausos aos do público, estivesse pedindo bis, e que a morte, benévola, lhe concedesse mais esse momento em que a orquestra recomeçaria a tocar, e tocaria como se cada nota fosse uma declaração de amor às estrelas, e que ele morresse com o último espasmo da música, com o último acorde, com o último eco chegando a um apartamento onde um menino, no berço, meio dormindo, meio acordado, sorrisse por sentir que o luar lhe fazia cócegas nos pés.

Lírica (539) - Hoje

Olhe para o sol longamente, amorosamente. Ele voltará amanhã, mas você estará aqui para vê-lo?

Lírica (538) - Escolha

Quando pensa como será quando vier a morte, já sente falta da terna melancolia que o envolve toda tarde e o faz agradecer a escolha que, ainda menino, fez pela tristeza.

Lírica (537) - Lástima

Lastimou que a proximidade da morte não exacerbasse sua tristeza e não impregnasse enfim de um toque verdadeiramente dramático sua literatura.

Lírica (536) - Emily

O passarinho cantou bem te vi, saudando o sol, o dia, a vida e o menino que, com uma pedra, no final do canto o matou. O homem lembrou-se de um poema de Emily Dickinson, e a visão do passarinho morto turvou-se, como uma tela impressionista.

domingo, 29 de agosto de 2010

Lírica (535) - Vento

Hoje, quando abre a janela, não é para ver o sol, as flores, os pássaros nas árvores, os frutos. Contempla dia a dia, melancólico, o vento no piedoso trabalho de varrer as folhas para longe, para o esquecimento.

Lírica (534) - Dor

Precisaria haver um violino, mas que soasse mais agudo que um, mais pungente que mil, e chorasse em cada nota como a estrangulada alma de um passarinho.

Lírica (533) - Eu, eu, eu

Assim que ele pensava nela, as palavras mais ternas se alvoroçavam e se punham alegremente à sua disposição.

Lírica (532) - Não, ou talvez sim

Por não ser amado pelas musas, ou por ser, foi fulminado numa tarde de chuva por um relâmpago, segundo alguns, ou por um raio de sol, segundo outros.

Lírica (531) - Aquele sentimento

Amor amado,
Amor querido,
O teu legado
Será medido.

Terás magoado,
Terás doído?
Serás louvado,
Terás valido?

Serás cantado,
Reconhecido,
Ou desprezado
E desmentido?

Serás honrado,
Serás traído,
Serás lembrado
Ou esquecido?

Lírica (530) - Nem

Que o mel nem tente. Jamais conseguirá fazer mais doces os teus lábios ou as palavras que neles vão beber a brandura.

Lírica (529) - Natural

Que tu não me vejas, que tu não saibas de mim é natural, como é natural que o sol, embora transforme a superfície de um riacho num longo filete de ouro, nem sequer imagine a existência dele.

Lírica (528) - Esplendor

Tanto se alternaram a chuva e o sol no empenho de acompanhar os teus passos que, no meio da avenida, foste subitamente homenageada pela magnificência de um arco-íris.

Lírica (527) - Injustiça

Pena que os teus olhos, aos quais se deveriam oferecer só as belezas mais ricas, às vezes precisem fixar-se em mim.

sábado, 28 de agosto de 2010

Lírica (526) - O sorriso

Ela sorriu para ele. Era um sorriso triste, pálido como o rosto da melancolia, mas ele olhou para ela como jamais havia olhado. Nunca mais veria um sorriso igual. Sabia que era o último.

Lírica (525) - Som

Quando ela falava, até alguém não muito atento era capaz de perceber que as sílabas vibravam como notas musicais e que, quando ela acabava uma frase, o som ainda persistia por um instante, porque o silêncio hesitava em emudecê-lo.

Lírica (524) - Verdade

Não te celebro. Somente
Contemplo o que és e relato.
Não ludibria, não mente
Quem apenas narra um fato.

Lírica (523) - Presença

Assim que entrei, algo indefinível e suave como o espírito de uma rosa me sugeriu que você havia estado lá um dia, e aspirei profundamente o ar, ansioso para absorver tudo ao redor, esperando que ao menos um sopro do seu hálito, por algum sortilégio, houvesse ficado ali.

Lírica (521) - Ruas

Se estás na rua e eu estou
Numa rua bem ao lado,
Mesmo assim, que tolo eu sou,
Pareço estar exilado.

Lírica (520) - Oferendas

Abriu a janela e estranhou não ver nenhum passarinho na árvore. Lembrou-se então de que prometera enviá-los à casa da amada e, olhando para o simpático sol matutino, lamentou não ter prometido mandá-lo também.

Lírica (519) - Sabonete

Por não ser metódica, ela, quando abre o chuveiro e pega o sabonete, provoca sempre em todo seu corpo um instante de espera e doce arrepio.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Lírica (518) - Agosto

Alguém me chamou. Não era
Você, e nem poderia.
Se fosse você, seria
Em agosto a primavera.

Lírica (517) - Desvio

Tão bom é te procurar
Que eu nos caminhos me iludo,
Me logro, me engano, e tudo
Faço para não te achar.

Lírica (516) - Mitologia

O que há em teu rosto, em teus
Cabelos, em teu olhar,
Quem poderá decantar,
Senão Júpiter ou Zeus?

Lírica (515) - Rosa dos ventos

Aos trancos ou de mansinho,
Por ti me deixo levar.
Confio a ti meu caminho,
És rio, és ar, terra, mar.

Lírica (514) - 1941

Eu tinha dois anos e meio no dia em que Virginia Woolf se deixou levar pelo rio Ouse. Eu estava em São Paulo e não sei o que fazia em 28 de março de 1941, mas gostaria de ter sido um garoto inglês que, passeando pela margem do rio, pudesse miraculosamente desviar Virginia do caminho que traçara e fazê-la, quem sabe, pegar no bolso as pedras que havia reservado para a sua última viagem e estendê-las a mim, para que com elas brincássemos.

Lírica (513) - Katherine

Quisera ter sido John Middleton Murry, escolhido, entre tantos mortais, para ser aquele a quem Katherine Mansfield chamou suavemente para a cama, dizendo-lhe que fosse sem medo, porque as ondas estavam mansas.

Lírica (512) - Tortura

As chicotadas do amor
Nos ferem tão ternamente
Que é tolo quem essa dor
Não quer sentir novamente.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Lírica (511) - Trigo

Quando ela atravessou a rua, o sol do meio-dia beijou-lhe a penugem da nuca e os cabelos, enquanto o vento, cúmplice, completava a paisagem, dando ao extasiado homem a impressão de que, no centro da cidade, via o farfalhar morno de um trigal.

Lírica (510) - Noves fora

Depois de tudo, sobrou
De toda a extinta beleza
Uma dor, uma tristeza.
Essa tristeza é o que sou.

Lírica (509) - Oásis

Tão farta a chuva correu
Pelos teus longos cabelos
Que, sedento e encantado, eu
Pensei, amada, em bebê-los.

Lírica (508) - Tipo exportação

Levaram o amor para o matadouro e enquanto ele, incauto, ouvia uma música suave, possivelmente Clair de Lune, abateram-no com plena assepsia e a mais moderna das técnicas. Pouparam-lhe a dor sem consultá-lo, por saberem que ele não a dispensaria, e, depois de eviscerá-lo e livrá-lo de indesejáveis odores, puseram-no numa embalagem na qual, segundo comentários, ele ficou muito mais apresentável do que quando estava vivo.

Lírica (507) - Dádiva

Levava uma rosa, ora na mão direita, ora na esquerda, porque, embora estivesse perto, ainda não decidira qual usaria quando chegasse o momento de dá-la à namorada. Olhava para todos os lados, quase rezando para que nenhum dos gaiatos do parque o visse com a flor. Estranhou não ver a namorada no banco de sempre. Sentou-se e, olhando ao redor, ele a viu pegando um pacote de pipocas, enquanto o garoto ruivo pagava ao pipoqueiro. Teve tempo de sair furtivamente do parque com a rosa, a primeira de tantas dádivas que viria a oferecer inutilmente ao amor.

Lírica (506) - Algemas

Amor, o sangue e as lágrimas dos teus mártires jamais correm em vão. Ele, elas e os lamentos dos supliciados, e os gritos dos desiludidos são o alimento de que te nutres para manter sobre nós teu deleitoso jugo.

Lírica (505) - Âmago

Morreu o amor, mas sua lembrança persiste, como um traço de batom na gola de um paletó há muito guardado, ou como a fragrância da dama-da-noite espalhando-se pelo cemitério.

Lírica (504) - Meg

Margaret Atwood não sabe que eu existo. Margaret Atwood não sabe que eu a amo. Não lhe faz falta isso, decerto, mas me faz bem dizê-lo, como me faz bem pensar que em algum lugar há uma flor única, regada pelo leite da lua, embora eu jamais vá encontrá-la.

Lírica (503) - Virginia

No metrô, pensou em Virginia Woolf e disse o nome dela baixinho, e o repetiu, e continuou a pronunciá-lo ao chegar sua estação, na qual desceu com a decepção de ver que tudo estava como todos os dias: a escada rolante, a avenida, a agitação, onde ele desejaria sentir ao menos um perfume, um sinal, um toque macio da divindade que ele havia acabado de evocar.

Lírica (502) - Geografia

Passou a sentir certas mornidões quando a professora de geografia pronunciava palavras como Índia, Cuba, Mar Vermelho, Oceano Pacífico, depois de tê-la visto, uma tarde, ser beijada na rua por um homem de bigode eriçado.

Lírica (501) - Sete anos

A menina o beijou e, embora fosse a primeira vez, a lembrança mais forte que ele guardou foi a do carrinho do sorveteiro sumindo na esquina, e a tristeza que isso lhe trouxe.

Lírica (500) - Diferenças

O menino de três anos viu a menina de dois anos abaixar a calcinha e agachar-se, e pensou como nunca lhe havia ocorrido regar o jardim tão graciosamente quanto ela.

Lírica (499) - Pureza

O menino viu a estrela caindo e avisou aos adultos, mas eles riram e não pararam de zombar nem quando, já com ela na mão, ele a mostrou a todos e a colocou no bolso da camisa, porque ela parecia estar sentindo frio.

Lírica (498) - Á-bê-cê

B não se entende com C
E G não tolera H.
Assim o amor, de A a Z,
Feriu, fere e ferirá.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Lírica (497) - Podre

O amor vilipendiado
Não morre. Murcha, apodrece,
Se retrai, fica isolado,
E chora, e geme, e enlouquece.

Lírica (496) - Granito

Jamais quis se entregar ao amor. Conseguiu fugir dele na infância, na puberdade, na adolescência, e para fazer jus à maturidade, quando a ela chegou, fechou-se ainda mais. Olhava com desprezo os que se debatiam em teias amorosas, os que suplicavam, os que choravam, os que morriam por aquela tolice. Aproximando-se da senectude, amou moderadamente um gato, um cachorro e meia dúzia de pombas que às vezes, com vergonha e irritação, alimentava. Quando morreu o gato, e logo em seguida o cachorro, enfiou-os num saco de lixo e foi jogá-los bem longe de casa, porque ninguém soubera desse afeto furtivo e ele queria que assim continuasse. Deixou de alimentar as pombas e lamenta apenas não ter feito isso antes. Desde os vinte anos vive sozinho e no seu rosto se lê a autoestima dos homens que, tendo uma convicção, conseguem mantê-la.

Lírica (495) - Elementar

Sou o teu menino.
Contigo, menina,
Está meu destino,
Comigo, tua sina.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Lírica (494) - Sentido - 2

Não te preocupes. Já sei
Como encontrar-te em mim mesmo,
Já tenho em mim tuas rotas,
Teus mares, tuas gaivotas,
E jamais navegarei
Às cegas, aflito, a esmo.

Lírica (493) - Sentido - 1

Perder-me em ti, e encontrar-me
Passando minha mão pelos
Nortes que há nos teus cabelos
E neles apaziguar-me.

Lírica (492) - Verbetes

Quando descobriu ter dito todas as palavras à amada, atribuiu ao dicionário, ao coração e à boca a penúria sentimental em que se achava e, por imaginar que a boca e o coração ainda lhe pudessem ser úteis na reconquista do amor, puniu só o dicionário, arrancando-lhe a capa, atirando-o à rua e deleitando-se ao ver as folhas, dilaceradas pelo vento, carregando para longe as palavras que, não lhe alimentando mais o coração e a boca, já não levavam aos ouvidos amorosos a outrora doce cantiga.

Lírica (491) - Consciência

Sei que não sou nada, que eu
Sou só a forma vazia
Que com seu amor, um dia,
Você chegou e preencheu.

Lírica (490) - O canto

Porque eu não sabia cantar aquilo que em ti devia ser cantado, arranjei um passarinho que vinha auxiliando fazia mais de dois anos um poeta. Ele, ao te ver, cantou mais belamente do que nunca. Depois, nas vezes seguintes, ele não emitiu mais nenhuma nota, até o dia em que, assim como fizeste no primeiro, olhaste para ele e disseste, baixinho, "Cante, meu queridinho", e ele encheu o ar de gorjeios amorosos.

Lírica (489) - Certeza

Do tempo em que ainda não te conhecia, tenho hoje pelo menos uma certeza: aquilo que eu imaginava ser o amor não merecia esse nome.

Lírica (488) - Intriga

Se o vento te encontrar hoje e te sussurrar certas insinuações, certas ciciosas malícias, e disser que nelas venho pensando, não acredites, embora seja quase certo que ele não estará falando nada além da verdade.

Lírica (487) - As palavrinhas

Gostaria de te dizer só duas palavrinhas, essas que os colegiais escrevem em páginas arrancadas de cadernos e colocam dentro de corações flechados e entregam quase furtivamente às amadas, que as recebem como eu desejaria que as recebesses: com um alvoroço tão grande que nem sequer percebesses o meu, e que ao leres as duas palavras elas te parecessem dizer tantas coisas além do que dizem que, a cada momento, abrisses de novo a folha, para vê-las mais uma vez, e a fechasses com medo de que elas pudessem fugir do coração trespassado, embora teu desejo fosse o de que todos soubessem que alguém escreveu, para ti, talvez as únicas palavras que importam na vida: te amo.

Lírica (486) - De amor

Se um dia você disser
Que me ama tanto quanto eu,
Amada, sempre a amei,
Se morto eu não estiver,
De amor eu sei que, amor meu,
Nesse dia morrerei.

Lírica (485) - Aspereza

Tendo ficado muito tempo sem dizer a palavra amor, os lábios se ressecaram tanto que agora qualquer palavra, para passar por eles, precisa se encolher e agachar, para não sair ferida por sua aspereza, que não poupa nem palavras como espinho, cacto e armadura.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Lírica (484) - Doçura

Os frutos mostraram-se mais doces do que ele e ela haviam imaginado, tão deliciosamente, maravilhosamente e insuportavelmente mais doces, que os dois começaram a recordar saudosos a época em que precisavam procurar laboriosamente, entre as asperezas e os amargores, as pequenas doçuras de cada dia.

Lírica (483) - Fonte

As primeiras lágrimas que deslizaram pelo rosto dela ele recolheu com os lábios quando elas já estavam se aproximando do queixo, mas as outras ele foi bebê-las diretamente nos olhos, que não paravam de vertê-las, embora ele, com a boca molhada pelo sofrimento dela, murmurasse: "Não chore, meu amor, não chore."

Lírica (482) - Infinitude

Um dia talvez chegue até onde estás um pouco da ternura que, quando penso em ti, minha alma transforma em mel. Se chegar, que chegue mesmo reduzida, porque, se chegar inteira, não acreditarás, como não acreditaria ninguém, que possa um amor, mesmo o mais exaltado, ter a doçura que tem este, infinita e ao mesmo tempo insatisfeita, por se achar pequena ainda, apesar dessa infinitude.

domingo, 22 de agosto de 2010

Lírica (481) - Assim

Será sempre assim? Chamar-te,
Gritar teu nome, esperar-te?
Será sempre assim? Me diz.

Será meu terno tormento
Chorar-te em cada momento,
Ser sempre assim infeliz?

Será sempre essa esperança
Que insiste mas não alcança,
Que sempre vencida vem?

Se for assim, já te digo
Que mesmo assim eu prossigo:
Tudo que é teu me convém.

Lírica (480) - Querida querida

Querida, que bom falar
Teu nome doce e em seguida
Ouvir o eco duplicar
Teu doce nome, querida.

Lírica (479) - Saber-te

Eu sei que pouco te importa
Saber se és por mim amada
Ou execrada por mim.
Porém a mim me conforta
Saber-te assim venerada,
Saber-te querida assim.

Lírica (478) - Estudante

Ouviu o professor dizer que a boca é a entrada do tubo digestivo e, juntando essa informação ao seu recém-descoberto amor à poesia, olhou para a garota à sua direita e imaginou, vendo seus promissores dentes, como seria bom se ela o engolisse ali ternamente, diante da classe de repente estupefata.

Lírica (477) - Gaiola

Para que eu fosse capaz de louvar-te como mereces, Deus me enviou um passarinho de bico açucarado que encarcerei no peito, obrigando-o todo dia a cantar com maior sentimento. Ouviste os cantos e foi como se não os tivesses ouvido. Mantenho porém engaiolado o pásaro, movido pela esperança de que venha a aprender enfim sons que te comovam, e incitado também pelo espírito de represália que ele fez nascer em mim, por ainda não haver conseguido.

Lírica (476) - Cansaço

Não me escutes mais. Minhas palavras se cansaram de ser as mesmas - o amor perdeu o viço, a paixão consumiu a chama - e minha voz as pronuncia como as pronunciaria alguém que, tendo repetido uma prece por muitos anos, sem nenhum resultado, agora não sabe mais se é ela que apascenta as ovelhas do seu sono ou se é o sono que a dita.

Lírica (475) - Simplesinho

Perguntas do que eu preciso
E eu te digo que de nada.
Preciso só do paraíso,
E o paraíso, minha amada,
Nada mais é que um sorriso
Na tua boca adorada.

sábado, 21 de agosto de 2010

Lírica (474) - Destino

Amor, por mais que me doas,
Em te aceitar eu me obstino,
E te amo nas horas boas,
Nas más, nas de desatino.

E te louvo em tantas loas,
E te choro, e te abomino,
E és minhas caras, coroas,
Meu doce e amargo destino.

Lírica (473) - A última

Pensar em teu amor em todos os instantes, e sempre como se fosse a última vez, para ter a certeza de que meu derradeiro pensamento, assim como a minha vida, não será de ninguém além de ti.

Lírica (472) - A primeira

Pensar em você como se fosse a primeira vez, mas conseguir agora a ventura, não obtida antes, de não vir a pensar em nada mais que não se refira exclusivamente a você.

Lírica (471) - Sílabas

Poder ver uma ou duas sílabas desenhando-se nos teus lábios enquanto te deixas levar por um sonho muito belo, e imaginar ser possível ver essas sílabas, ou outras, tão doces, formando-se um dia na tua boca para falares de mim ou comigo, embora eu me sinta incapaz, ai, amiga, de fazer aflorar em ti algum sentimento que mereça uma palavra tua, mesmo a mais insignificante.

Lírica (470) - Pipoca

O homem sabia que aquele instante, como os demais, seria apagado pelo tempo, ou pela morte, mas não pensaria nisso nem sofreria antecipadamente essa perda se a mulher, ao acabar de pôr uma pipoca nos lábios, não se surpreendesse ao ver uma pequena ave furtá-la e fugir, o que o levou a pensar por que, em vez do passarinho, não tinha ele mesmo assumido aquela audácia.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Lírica (470) - Ressentimento

Depois do último gole de água, ficou entre os lábios da mulher uma gota que brilhou por um instante ao sol e que, ao não ser mais vista pelo homem, deixou nele uma tristeza aguda e uma dolorosa queixa contra o vento, que a furtara, ou contra a boca, que a engolira.

Lírica (469) - Amora

Encontrou o amor numa garota meio fora de eixo que, ao beijá-lo, parecia estar sempre pensando em tudo menos no beijo, e que o fazia lembrar juvenilmente daquele gosto de amora comida com sol de que fala um poema de Guilherme de Almeida.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Lírica (468) - Fofos

Os pés descalços deslizam macios como um gato, acompanham a dona até a cama e, depois que ela ajeita o travesseiro, deitam-se também, gostosamente, e ronronam quando ela faz chegar até eles o cobertor.

Lírica (467) - Linguagem

Ah, boca doce e graúda,
Caem-te bem as vogais
E tudo mais que tu falas,
Mas do que em ti gosto mais
É quando te pões muda,
É quando, aos beijos, te calas.

Lírica (466) - Despeito

Os dedos dos pés dela, assim como tantos, não sabem que nomes têm, porque deles não costumam ocupar-se nem as pessoas nem a literatura. Eles sabem apenas que não são polegares, indicadores, médios, anulares e mínimos, e isso lhes provoca um sentimento de inferioridade, agravado por estarem quase sempre cobertos, como se ocultá-los fosse uma obrigação. Repugna-lhes também que, quando ela se lembra deles e os acaricia, geralmente no banho, é às detestáveis e presunçosas mãos que recorre.

Lírica (465) - O rosto

Não era um bom desenhista, mas conseguiu reproduzir o rosto da amada numa folha de caderno que passou a ter ao seu alcance, onde quer que estivesse. Uma tarde, no trabalho, dois colegas chegaram adiantados à sala dele, para uma reunião, e o surpreenderam com os lábios pousados no desenho, o que lhe valeu por muitos anos, embora ele nunca viesse a saber, o apelido de baija-flor.

Lírica (464) - Sempre

Pensava nela o dia inteiro. Como se fosse pouco, à noite sonhava com ela e - obsessão das obsessões - às vezes sonhava que sonhava com ela.

Lírica (463) - Talvez

Talvez dizer-te como és bela, ou quem sabe convencer-te enfim de como és essencial. Repetir aquilo tudo que já sabes, ouvir-te dizer que é monótono isso, e no entanto fazer-te ver, desta vez, que também o sol é cantado e decantado diariamente e nem por isso deixa de aparecer todas as manhãs.

Lírica (462) - Hoje

Agora que sua juventude lhe parece o eco de um riacho que talvez só tenha existido na sua imaginação, sorri ao se lembrar de como era tolo quando julgava o amor a coisa mais importante da vida. Sabe hoje, solitário e triste, que o amor é muito mais importante do que a própria vida.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Lírica (461) - O presente

A amada quis saber o que ele tinha a ofertar e ele respondeu que o que havia levado a ela eram palavras. Ela quase chegou a perguntar que valor podiam ter palavras, mas ele já havia começado a pronunciá-las - e a cada uma que lhe saía dos lábios ele apertava o peito com tanta aflição, que ela se pôs a ouvi-las e percebeu que, embora todas lhe parecessem conhecidas, nenhuma era.

Lírica (460) - Rendição

Foi seguida durante um dia inteiro por uma abelha que só consentiu em deixar de perturbá-la quando ela teve a presença de espírito de dizer eu te amo (e pronunciar em seguida o nome do mais contumaz dos seus admiradores).

Lírica (459) - Garimpo

O amor incansável lavra
E do chão mais ordinário
Extrai, palavra a palavra,
Seu rico vocabulário.

Lírica (458) - Comunicação

Enquanto estiveram entretidos com as palavras, ela e ele não se entenderam, e houve um momento em que tudo pareceu terminado. Justamente nesse momento, o do silêncio, os lábios se aproximaram e se tocaram. Não precisavam mais de palavras.

Lírica (457) - Vodu

De repente foi atingido por uma sequência tão atroz de males que envelheceu dez anos em dois meses. Tão impressionante foi essa transformação que parecia estar sendo vítima de vodu, como singelamente lhe disse a mulher que limpava seu apartamento: andam espetando seu bonequinho, patrão. Não encontrando ninguém que pudesse odiá-lo a tal ponto, pôs-se a procurar, nos livros que havia escrito, um personagem perverso o suficiente para lhe desejar a morte. Tinha dezoito romances, de vários gêneros e estilos, mas resolveu concentrar sua investigação nos livros que tinham trama amorosa. Sabia quanto rancor podia guardar alguém não tocado pela graça do amor, mesmo que - ou principalmente por isso - fosse um homem ou uma mulher destinados a figurar em um capítulo só, ou em um parágrafo.

Lírica (456) - A senha

A palavra volúpia lhe abrasava o sangue como jamais alguma mulher havia conseguido, talvez porque nenhuma tivesse o aspecto daquela que ele imaginava ao pensar na palavra: uma cigana quase andrajosa de olhos negros, de formas opulentas e ao mesmo tempo esbeltas, cuja beleza só ele fosse capaz de descobrir porque apenas ele conhecia o momento exato em que, todas as noites, ela se revelava a quem tivesse a audácia de ir encontrá-la em determinado beco, de se esquivar das estocadas do seu punhal e de dizer-lhe, num melado sussurro, a palavra volúpia.

Lírica (455) - O sinal

Até hoje, tantos anos depois, ela às vezes fixa os olhos na mão direita e julga distinguir um sinalzinho do beijo que ele lhe deu. Nos dias em que não vê a pequena marca, ela se pergunta por que, afinal, ele não foi um pouco mais ousado e não a mordeu em vez de beijá-la.

Lírica (454) - Coxas

Ali, um pouco acima dos joelhos, começa uma superfície macia e cálida que, se suavemente percorrida, oferece aos dedos recompensa mais valiosa que a proporcionada por um cacho de uvas colhido ao sol.

Lírica (453) - Noivos: retrato

Pousou o pó sobre a tela
E está roída a moldura.
O que imortal pareceu
O tempo desvaneceu.
Mas é tamanha a ternura
Com que ele ainda olha para ela,
Que não importa a moldura
E muito menos a tela.

Lírica (452) - Relegado

Quando ela vai pôr os sapatos, o tornozelo direito sempre espera que aquela seja finalmente a manhã na qual a ele, e não ao esquerdo, se dirigirá aquele suspiro que ela costuma dar quando, calçado o segundo pé, se julga pronta para sair e encontrar o sol que por ela anseia.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Lírica (451) - Chuva

Quando ela abriu o guarda-chuva, se houvesse um líder entre aqueles homens que sofreram a decepção de não poderem mais ver seu rosto, os outros o seguiriam numa revolta que talvez não destituísse o governo, mas seria uma justa manifestação contra São Pedro, e também contra os meteorologistas, que tinham garantido tempo bom.

Lírica (450) - Movimento

Se ela soubesse o bem que aquilo fazia a ele, seus lábios, tão econômicos em sorrisos e beijos, se abririam muito mais vezes e se fechariam muitas vezes mais.

Lírica (449) - Hiato

Seria um exagero dizer que só pensava nela. Dormia, como qualquer um, e apesar do seu empenho e de sua concentração não era em todos os sonhos que ela lhe aparecia.

Lírica (448) - Tudo

A paz, o júbilo, a dor,
Tudo a seu tempo virá.
O amor será teu pastor
E nada te faltará.

Lírica (447) - A rua

Amava-a com exagero e proclamava essa paixão com um megafone todas as manhãs, quando se aproximava da casa dela e gritava seu nome, o que era facilitado pela circunstância de vender produtos de limpeza em seu pequeno caminhão. "Cândida! Cândida!", ele apregoava ao chegar à rua dela e, para que não houvesse dúvida, acrescentava "Te amo! Te amo!" e punha para tocar uma música que só aquele quarteirão, em todo seu percurso diário, tinha o privilégio de ouvir.

Lírica (446) - Chuva e sol

Tão belos estavam seus cabelos naquela manhã, que o chuveiro e depois a chuva os acariciaram, antes que o sol, sob o pretexto de secá-los, os beijasse enquanto ela atravessava a avenida.

Lírica (445) - Fome

Subitamente, o sereno azul dos olhos dela transformou-se em um azul de intensa fúria, e ele teve um vislumbre do mar proceloso e de navios destruídos, antes de sentir sobre os lábios a avidez de uma boca de cuja fome ele até ali não havia suspeitado.

Lírica (444) - Maldade

Ela brincava com o colar e, ao perceber que o pescoço ansiava por ele e também pelo contato de seus dedos, demorou-se perversamente na brincadeira, acariciando mais e mais as pérolas.

domingo, 15 de agosto de 2010

Lírica (443) - Timbre

Os outros, não. Mas ela, quando diz a primeira palavra de uma frase, é imediatamente reconhecida pelo silêncio, que se aquieta ainda mais, reverente, para que a voz dela o ocupe com toda a majestade do seu timbre.

Lírica (442) - Gesto

Modestas, como se não fossem belas, suas mãos se mantiveram fora de cena até o instante em que subiram graciosamente até os cabelos para ajeitá-los, como se eles precisassem.

Lírica (441) - Galante

Vivia dizendo que morreria feliz se ela o deixasse beijá-la. Um dia, ela lhe satisfez a vontade, mas ele não só não morreu como continuou com a cantilena por vários anos, durante os quais conseguiu iludi-la algumas outras vezes - muitas, segundo ele; nem tantas, segundo ela.

Lírica (440) - Milagre

Quando a mulher acabou de passar, sob um suspiro quase coletivo, ele olhou para o relógio e, embora faltassem ainda nove horas para a meia-noite, soube que não veria nada mais extraordinário: como esperar dois milagres num só dia?

Lírica (439) - Soberano

O amor não pede passagem,
Não faz favor, não transige,
Não dá nem pede perdão,
Não quer nem tem compaixão,
Não tolera vassalagem.
O amor põe, dispõe, exige.

Lírica (438) - Dopado

Havia passado tempo suficiente para que pudesse voltar a dizer e ouvir o nome dela e, como previra o psicólogo, ele já conseguia dizê-lo e ouvi-lo. Mas dizê-lo e ouvi-lo era agora, para ele, tão excitante quanto seria um bocejo para um morto.

Lírica (437) - Aspiração

Tinha cinquenta anos de idade e trinta e cinco de poesia quando conheceu a mulher, vinte anos mais jovem, e ela lhe provocou tão grande agitação dos sentidos que ele, já no primeiro encontro, almejou ter não vinte anos menos de idade, porém mais trinta e cinco anos de poesia, para poder celebrá-la como os encantos dela exigiam.

Lírica (436) - Respiração

Para que o amor estivesse nele em cada instante, ele o incorporou à respiração. Em cada inspiração e expiração o sentia. Às vezes, supremo requinte, retinha o ar nos pulmões com obstinação, simulava estar morrendo e, quando voltava a inspirar, retornava à vida com um êxtase comparável ao de quem, um momento antes, estivesse se afogando e se visse repentinamente salvo, deitado na areia debaixo de um guarda-sol, de óculos escuros, chamando um sorveteiro.

sábado, 14 de agosto de 2010

Lírica (435) - Mentira

Se alguém te disser que chorei por ti, não acredites. Quando eu chorar por ti, quem te dará a notícia não será ninguém, será um rio nascido repentinamente diante de teus olhos, ou um mar, visto que são salgadas as lágrimas e salgado também o sangue.

Lírica (434) - Fácil

É norma bem conhecida
Do parvo e do professor
Que a vida só é bem vivida
Por quem morre por amor.

Lírica (433) - Entrega

Quisera dar-se ao amor inteiramente, de tal forma que não lhe restasse força nenhuma, a não ser para proclamá-lo, e mesmo assim em voz baixa, quase inaudível, como devem ser proclamadas as verdadeiras devoções.

Lírica (432) - Sacrifício

Amor, abençoado é o homem
Que se enreda em tuas tramas
E agoniza em tuas chamas
Que o exaltam e o consomem.

Lírica (431) - Para voz e assobio

Digo-lhe (simples assim)
O que não disse a ninguém:
Com muito afeto e até sem,
Lembre-se um pouco de mim.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Situações (9) - Ali

Era o único banco em que havia uma beiradinha disponível, e ele se sentou. Estranhou, por não ser nem meio-dia, que a garota sentada ao lado dele, meninota de doze anos, se tanto, tivesse a boca desenhada por um batom grotescamente escarlate e as maçãs do rosto ressaltadas também por uma cor berrante, além de estar desvestida por uma minissaia com pretensões a micro. O que estaria ela fazendo ali, de manhã, no parque? Ele tinha acabado de pensar isso quando um brutamontes de agasalho chegou e empurrou-o para fora do banco, perguntando-lhe o que ele pensava que estava fazendo ali. Imediatamente o troglodita envolveu a garota num abraço dentro do qual ela desapareceu e começou a beijá-la com uma voracidade que ela, apesar do tamanhinho, ia retribuindo com valentia.

Situações (8) - Dúvida

Caminhando pelo parque, esteve em dúvida: falaria com a garota de bermuda roxa, a de fita na testa ou aquela que corria com empenho de maratonista? Pesou as possibilidades por meia hora e, quando se decidiu, a que corria como se competisse correu ainda mais e sumiu, a de bermuda roxa repeliu-o com um riso cheio de deboche e a de fita na testa disse-lhe simplesmente que a encontrasse no dia seguinte, não ali, mas no bordel em que certamente a mãe dele deveria estar.

Lírica (430) - Sorrisinho

Não é preciso grandeza.
Coisinhas bobas, pueris,
Espantam tua tristeza
E logo ficas feliz.

Lírica (429) - Doida

Sem aviso, fazendo-o passar vexame, a alma ficou destrambelhada e desandou a proceder estranhamente, a cumprimentar flores no parque, a imitar os passarinhos, a tentar subir em árvores e a fazer outras molecagens.

Antilírica - Cacófato

Ubiratan Rodovalho,
Professor de português,
Tentando descascar alho,
Belo cacófato fez.

Lírica (428) - A palavra

Assim como nos vem repentinamente o trecho de uma música que ouvimos pela última vez vinte ou trinta anos antes, há palavras que ficam dormindo muito tempo em nossa memória e, certo dia, sabe-se lá por quê, ressurgem e nos censuram pelo exílio a que as submetemos. Foi uma palavra assim, bem antiga, que assombrou ontem de manhã um homem no parque. Ela veio e, um instante depois, como uma demonstração de que era injusto o homem tê-la esquecido, apareceu uma mulher muito bela, correndo pela pista de cooper e balançando as tranças ao sol de quase meio-dia. A palavra era magnitude, e a mulher a merecia.

Lírica (427) - Tecelão

Na febre insana ou na paz
No fio que tece e entretece
No que contenta e entristece
O amor se faz e desfaz.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Lírica (426) - O artista

O amor começou a subir a imensa escada que, para quem estava embaixo, e também para ele, entusiasmado com a própria façanha, parecia capaz de levá-lo ao céu, pelo menos às estrelas mais baixas. Em cada degrau, o amor fazia uma mesura, uma reverência ao público, que ia aplaudindo, com crescente força e generosidade, para que os aplausos fossem ouvidos mesmo à assombrosa altura que o amor ia atingindo. Já era difícil acompanhar as mesuras com que ele continuava a agradecer, à medida que subia mais e mais degraus. Por isso, organizou-se rapidamente um comércio de binóculos lá embaixo e cerca de cem foram vendidos. Foram seus compradores que avisaram aos outros que o amor havia chegado ao topo da escada e se confundia agora com a lua. Deles também veio a notícia de que algo estranho estava acontecendo. Ao fazer a última e triunfal reverência, o amor tropeçou no degrau supremo e veio caindo atabalhoadamente, desgraciosamente, como um artista medíocre. Levou quinze minutos para se estatelar na calçada, onde foi recebido com a vaia que como fanfarrão merecia.

Lírica (425) - Diário

Tão sem sentido serão
As dores, quando cessarem,
E as mágoas parecerão
Tão tolas, quando passarem.

Tão flagrante isso parece,
Tão repleto de razão,
Que por si só se esclarece
E dispensa explicação.

Tudo tão claro, e contudo
Os dias passam, mas não
Passam os males, e tudo
É dor, mágoa, frustração.

Lírica (424) - Avis rara

Sentia-se como um pássaro que, mesmo estando aberta a gaiola, fingia não ver e continuava debatendo-se ali dentro, cantando as aflições do seu cativeiro. Livre, não saberia cantar uma nota.

Lírica (423) - Borralho

E cada excelso momento,
Agora, finado o amor,
Descai da posteridade,
Sepulta o vão sentimento
E assume a pálida cor
Da crua futilidade.

Lírica (422) - Beijo

Tão doce e raro seria,
Tão encantado e sem par,
Que na lembrança retê-lo
O mesmo efeito teria
Que o sol no céu apanhar
E na peneira prendê-lo.

Melhor assim: não ter sido,
Ter sido só desejado,
Não ter registro ou história
E, sendo apenas querido,
Sem jamais ter sido dado,
Ser, sem estar na memória.

Lírica (421) - Onde?

Quando menino, espantou-se nas aulas de geografia com a quantidade de rios, mares, ilhas e países que havia no mundo. Com a inocência e a bravura dos jovens, jurou, tomando a si mesmo como testemunha, que conheceria todos aqueles lugares e os iria marcando com um "x" no grande globo terrestre que tinha em casa. Hoje, olha mortificado para o globo e imagina onde pode estar sua amada, de quem há três anos não recebe notícia. Em que zanzibares, em que portugais, em que baleares, em que austrais, em que boreais, em que polares, em que mil lugares ela estará?

Lírica (420) - Ir

Sonhou que ela o levava embora e que, quando estavam já longe, bem longe, ela lhe dizia não conhecer o caminho de volta, que ele também, afortunadamente, desconhecia.

Lírica (419) - A jornada

Chegou ao amor como se tivesse atingido o topo do mais alto monte do planeta. Se não temesse queimar-se, poderia estender o braço e afagar o dorso do sol. Acariciava o rosto da lua e às vezes punha nas mãos em concha um filhote de estrela, para conversar com ele e perguntar-lhe sobre os mistérios do universo. Por algum tempo, sentiu-se em tão grande bem-aventurança que lhe ocorreu a ideia de que talvez fosse um deus. Depois, aos poucos, começou a se lembrar dos passos da jornada que o levara até lá em cima e teve saudade dos degraus que cavara para subir, da neve que o afligira, da fome, do desespero, dos tormentos que sofrera. Resolveu descer, então, e cada passo que dava para longe do topo lhe reforçava a certeza de que, se um dia voltasse a subir, não seria nem pelo sol, nem pela lua, nem pelas estrelas, nem pela bem-aventurança. Seria pelos degraus ansiosamente cavados, pela aflição da neve, pela fome, pelo desespero, pelos tormentos.

Lírica (418) - Callas

Sentia-se tão tocado pelo amor que, subindo a escada do metrô, ouviu extasiado, vindo do alarido do trânsito da avenida, um trecho de ária cantado por Maria Callas. Ao chegar ao topo da escada, a música havia se desfeito, mas seus olhos molhados diziam que ao menos por ele tinha sido ouvida a ária naquele instante, naquela manhã.

Lírica (417) - O poeta

Todas as manhãs, depois de pegar o bloco e a canetinha, o velho poeta abria a gaveta e, tossindo com a poeira e a naftalina que lhe afetavam a garganta, puxava sempre as mesmas palavras: sol, girassol, rouxinol, arrebol, crisol e outras com a mesma rima. Vinha fazendo versos com elas fazia quarenta anos e jamais cometeria a traição de abandoná-las.

Lírica (416) - Alguém

Notando que os olhos verdes da amada não faiscavam mais ao olhá-lo e na voz dela já não vibrava o acento grave e morno que ele identificava como expressão de amor, ele lhe disse um dia: "Você anda diferente. Já perguntei muitas vezes o que está acontecendo e você nunca responde. Andei pensando numa coisa. Se for o que eu imagino, é só dizer, com sinceridade, que você conheceu alguém. Melhor assim." Ela, que até ali estivera indiferente como nas últimas ocasiões, acendeu o verde dos olhos e, com a voz grave e morna de paixão, começou: "Olha, eu conheci alguém..."

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Lírica (415) - Instante

O amor pairava entre os dois como uma névoa fina, bem fina. Bastava-lhes levantar a mão um pouco, nada que exigisse esforço ou concentração, um gesto simples, quase distraído, mas ele e ela continuaram parados, e a névoa se dissipou.

Lírica (414) - Desigual

Seu amor seguia a passo tão lento - em seis meses nem havia conseguido pegar a mão da garota - que o rapaz ironicamente, ou com pragmatismo talvez, pensou que era mais ou menos como se uma tartaruga estropiada se dispusesse a perseguir um coelho.

Lírica (413) - Haicai: Colagem

Azula a paisagem
O azul não tolo ou taful -
O azul da voragem.

Lírica (412) - Haicai: Abelha

Flutua, esvoaça,
Esquece o mel e espairece,
Zumbe, zune, passa.

Lírica (411) - Labaredas

Ai, amor gentil, que outrora
Tão doce e tão delicada
Foste, muda, minha amada,
E vem, e morde, e devora.

Lírica (410) - Camisa de força

Quando o homem começou a latir e a uivar para a lua, esperaram três dias. Como ele insistisse nesse comportamento, atribuído a uma desventura amorosa, resolveram interná-lo. Ele não se opôs, porque os enfermeiros, ao enfiá-lo na ambulância, acomodaram com cuidado suas quatro patas.

Lírica (409) - Haicai: Óbolo

A um pobre sem lar,
Ao léu, ao relento, o céu
Irás recusar?

Lírica (408) - Perguntas

Se não for sofrido
Se não for doído
Se não machucar

Se for paz e calma
Se não morder a alma
De que vale amar?

Lírica (407) - Haicai: Telegrama

Adeus ilusões
Perdidas mortes vividas
Pt saudações.

Lírica (406) - Indigente

Esgueirando-se pelos becos, escondendo-se no escuro, tropeçando em ratos e passando a noite em calçadas escarradas e urinadas, o amor, com o corpo coberto de fundas feridas, tentava ainda preservar a alma, porém às vezes temia que nem esta ele conservasse mais.

Lírica (405) - Haicai: Flor

Riqueza, tesouro:
Amor, corola, verdor
E pétalas de ouro.

Lírica (404) - Haicai: Sacrifício

Que o amor em mim fique.
Se não, que me mate então
E me crucifique.

Lírica (403) - Haicai: Desperdício

O sol para quê?
E o dia? Existe alegria
Se falta você?

Lírica (402) - Siderado

Voltou a escrever poesia
Rimando amor com tristeza
E diz não haver beleza
Senão na melancolia.

A família, hoje eu a vi
Nas listas todas buscando
E aqui e ali perguntando
Se ainda existe o Juqueri.

Lírica (401) - Uma nota só

Falava sempre daquilo:
Só de amar, e amar e amar.
Não se cansou de falar,
Porém cansaram de ouvi-lo.

Lírica (400) - Festinha

Um beijo bobo, que fosse
Como se alguém, desligado,
Passasse um prato de doce
A alguém também avoado.

Lírica (399) - Espectro

É visto por toda a gente,
Aqui, acolá, ali,
Mas nada vê, nada sente,
Há muito virou zumbi.

Lírica (398) - Ata-me

Amor, sendo tu quem és,
Por que tamanha demora?
Amarra-me as mãos e os pés
E leva-me logo embora.

Situações (7) - Tédio

Desceu do metrô, subiu a escada rolante, entrou na livraria, passou os olhos pelas estantes, escolheu dois livros, e tudo isso seria natural, se não tivesse morrido alguns meses antes. Como só ele sabia da própria morte, o caixa recebeu seu dinheiro, pôs os livros numa sacola, desejou-lhe uma boa tarde e se pôs a imaginar quantos anos ainda ficaria ali, vendendo livros seis dias por semana, sem que nada de extraordinário acontecesse, a não ser uma vez em que seus colegas disseram ter visto um cliente levar uma bastonada, justamente na sua folga.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Lírica (397) - Platônico

Todas as noites, ficava diante da casa da amada. Sofria minuto a minuto, esperando pelo momento em que ela, decidindo dormir, vinha à janela, aspirava o ar da noite e apagava a luz. Por esse momento, por essa breve visão, às vezes ele aguardava duas horas, duas horas e meia. Inútil dizer que em determinadas noites ele padecia com o frio e a chuva, porque nem nevascas nem tempestades o afastariam dali. Era um caso singular. A amada nem desconfiava da existência dele, se bem que sua vigília já durasse meses e embora durante o dia ele sempre encontrasse um meio de estar perto de onde ela estivesse. Um dia se declararia, ele pensava, mas não se declarava nunca porque, quando se imaginava dentro daquele quarto cuja luz via apagar-se todas as noites, não sentia o clamor que excitava seus sentidos enquanto esperava do lado de fora.

Lírica (396) - Doce

Um beijo, mas tão suave
E doce, que parecesse
À mulher que o recebesse
O suspiro de uma ave.

Lírica (395) - Ouropéis

Quando a amada lhe devolveu as palavras com que ele quisera fazer-lhe um presente, ele entendeu por que elas haviam falhado na tarefa de encantá-la. Ao contrário do que ele tinha pensado ao enviá-las, eram opacas e frias, embora, ao sair do seu coração, o houvessem enganado e parecessem cálidas e brilhantes. Aquela em que ele mais havia confiado estava tão desgastada pelo excessivo uso que ele dela fizera que mal se distinguiam suas quatro letras, e a imagem que lhe ocorreu, ao revê-la, foi a de uma mendiga que, tentando apresentar-se como rainha, julgasse possível conseguir isso com seu colar de lata, suas pulseiras de vidro e seus brincos, um de cada cor, garimpados no lixo.

Lírica (394) - Data

Se uma delas, uma só, houvesse notado sua melancolia e o tivesse olhado sem desdém, ele talvez hoje se lembrasse de que era uma noite de terça-feira, dia 5 de janeiro.

Lírica (393) - Jargão

De algum tempo para cá, não só não acha mais ridículas expressões como coração partido e rosto banhado em lágrimas como até as usa, como se repentinamente houvesse descoberto que foram criadas por Machado de Assis. E, fato ainda mais notável, não só as usa como as sente no fundo da alma - outra expressão da qual escarnecia.

Lírica (392) - Sonho

Estarei perdido na floresta, como um menino de conto de fadas, e ouvirei tua voz me chamando. Apesar dos perigos que terei passado, do medo e da solidão, fingirei que não te ouvi, uma, duas, várias vezes, para que repitas meu nome, com a doçura misturada à aflição.

Lírica (391) - Para ninar um velho

Esquece a dor, a aflição.
Um dia o tempo, macio,
Tendo tecido teu fio,
Trará tua redenção.

Lírica (390) - Fera

Apertou-a contra o peito com rispidez, beijou-a quase mordendo e teve a inquietante impressão de que, se ela fizesse um movimento para se soltar, ele lhe cravaria no corpo as garras do animal em que havia se transformado. E, no entanto, jamais sentira tanta ternura por ela.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Lírica (389) - Presunção

Não chora mais. Poderia
Dizer que a esqueceu, mas não
Diz, porque dizer seria
Não mais do que presunção.

Lírica (388) - Pétala

Quando se deitou, na noite em que se completavam dois meses sem notícias do amado, ela teve a insônia espicaçada pelo vento chicoteando a veneziana e pela voz dos trovões anunciando a tempestade. Conseguiu dormir quando o sol já se insinuava no horizonte, e duas horas depois, ao acordar e abrir a janela, viu que seu pequeno roseiral havia sido ceifado pela chuva e pelo vento. Este, como se lhe desse uma compensação, soprou para dentro do quarto uma pétala de rosa. Isso é o amor, ela murmurou, resignada.

Lírica (387) - Como hoje

Beijam-se como dois passarinhos jovens bicando sem sede um fio de água. Se um dia vierem a se lembrar disto, certamente lamentarão, porque o sol não será mais ameno como o de hoje e a brisa soprando as folhas das árvores não assobiará de novo a canção da inocência.

Lírica (386) - Marinheiro

A cama talvez não balançasse tanto quanto um navio, mas ele, entregue ao agradável e ao mesmo tempo ríspido exercício do amor, parecia ouvir nos guinchos do estrado a estridente voz das gaivotas, e havia no quarto um tépido odor de maresia.

Lírica (385) - Em frente

Não mude nada, prossiga
Com o que lhe dita a razão.
Dói-me o coração, amiga?
Dane-se o meu coração.

Lírica (384) - Seita

Decidiu voltar um dia
Ao templo onde outrora orava,
E a casa do amor estava
Fechada, morta, vazia.

Lírica (383) - Seiva

Enquanto a tristeza cresce,
E o sonho e a fé e a ilusão
Desabam do céu ao chão,
O poema amadurece.

domingo, 8 de agosto de 2010

Mais William Blake

Reproduzo, feliz por partilhá-los, mais dois versos de William Blake, mencionados pelo Nobel de Literatura de 1994, Kenzaburo Oe, em seu livro "Jovens de um novo tempo, despertai!", e que me parecem ter aquele espírito de revelação que sempre foi um dos dons da melhor poesia:

"Que o Homem labute, sofra, aprenda, esqueça e volte
Ao vale escuro de onde veio e recomece a luta."

("Jovens de um novo tempo, despertai!", de Kenzaburo Oe, tradução de Leiko Gotoda, Companhia das Letras.)

Lírica (382) - Terror

Destruído por uma calamidade amorosa, ele passou a andar de olhos baixos e a treinar os ouvidos para que reduzissem todos os sons ao silêncio, precavido em especial contra mulheres de todos os tipos e nacionalidades, notadamente as nem muito baixas nem muito altas, nem muito magras nem muito gordas e cuja voz fosse nem muito grave nem muito aguda. Se adivinhava a aproximação de uma delas, mordia os próprios lábios até que sangrassem e afastava-se depressa, só voltando a respirar quando se sentia completamente salvo.

Lírica (381) - O que resta

Sem amor, a vida fica
Naquela velha questão:
Se melhor é a mexerica,
O abacate ou o mamão.

Lírica (380) - Acaso

Num dia sem graça, assim,
Por uma obscura razão
Ou talvez por distração,
Quem sabe lembres de mim.

Lírica (379) - Saciedade

Obtendo muito, ele quis
Mais e, depois, ainda mais.
Teve tudo, foi feliz,
Cansou, não será jamais.

Viagem

Embarco dia 19 para Uberaba, onde vou participar de alguns encontros com leitores, nos dias 20 e 21. O principal deles será na nova sede da Alternativa Cultural, livraria dirigida com amor pela Thaís e pela sua equipe, todos amantes de livros e de cultura. Estive há alguns anos na sede antiga e guardo dessa ocasião lembranças maravilhosas, que espero reavivar agora.

Lírica (378) - Épocas

Estando o amor ausente,
Já morto e sepultado,
Morria no presente,
Vivia no passado.

Lírica (377) - Louvores

Louvou a mágoa, a tristeza,
A dor e a melancolia.
Louvou também a beleza,
Mas não louvou a alegria.

Lírica (376) - Telepatia

Às vezes imaginava
Que fosse feitiçaria.
Assim que nela pensava,
De longe ela respondia.

Lírica (375) - Contrastes

Na manhã de domingo, enquanto os que haviam buscado os prazeres da madrugada dormiam com os olhos encovados pela dissipação noturna, apesar do sorriso no qual havia ainda os vapores do álcool, sílabas de canções e o gosto de beijos, ele acordou com o saudável aspecto que costumam ter os que dormem dez horas e que de bom grado reservariam as outras catorze horas do dia ao puro amor, se o tivessem.

Lírica (374) - Abelha

Ela se deitava murmurando o nome dele e dormia com suas sílabas já preparadas na boca, para que fossem as primeiras que diria, ao despertar. Talvez por isso, ou porque fosse primavera, todas as manhãs era seguida por uma abelha que lhe procurava os lábios com volúpia.

sábado, 7 de agosto de 2010

Lírica (373) - Retórica

Não sabia onde ela estava. Poderia dizer que a sentia em seu sangue, em sua alma, nos olhos que, esperançosos e desesperançados, fitavam ora o telefone, ora a porta do apartamento. Poderia dizer que ela estava nos seus lábios, que febris a chamavam, e nos seus ouvidos, que se aguçavam a cada morosa subida do elevador. Poderia dizer isso, mas mil noites de angústia, como aquela, lhe haviam ensinado que nem sempre a poesia acalma o clamor e os ardores da carne.

Lírica (372) - Intuição

Um dia me sentirei
Tão leve, tão aliviado,
Que nem lhe perguntarei:
Saberei que fui perdoado.

Lírica (371) - Indulto

Sem merecer o perdão,
Pedia ao menos que às culpas
Se concedessem desculpas
E aos erros a remissão.

Lírica (370) - Novo acalanto

Comporia uma cantiga
Que fosse terna, que fosse
Suave, que fosse doce
E que acalentasse a amiga.

Lírica (369) - Acalanto

Não chore, doce menina,
Não tema o bicho-papão,
Não trema, que a minha sina
É ser o seu guardião.

Lírica (368) - Cenário

Queria muito estar lá,
Mesmo que fosse uma tela,
Uma porta, uma janela
Ou um gato no sofá.

Lírica (367) - Algodão

Te mando um carneiro branco, branquinho, que receberás com afeto e farás o favor, eu te peço, de multiplicar por cem antes de dormir, ou por duzentos, se estiveres com insônia, ou por trezentos, se quiseres ver sobre uma planície verde uma procissão de nuvens deixando em cada segundo do teu sonho um floco de algodão.

Lírica (366) - Se

Se te lembrares de mim,
Seja no dia em que for,
Te peço por favor, sim?,
Não te lembres com rancor.

Lírica (365) - Amorizade

Que esfrie todo o calor
E toda a vã ansiedade,
Que se sacrifique o amor
Mas que não morra a amizade.

Lírica (364) - Tua glória

Amor, não morre tua glória.
Teus brilhos, teus apogeus,
Teus feitos e os troféus teus
Vivem todos na memória.

Lírica (363) - Tribunal de Eros

Sem culpa foi envolvido,
Sem culpa foi pronunciado,
Sem pena foi destruído,
Sem pena foi condenado.

Lírica (362) - No berço

Ele estava sob o severo luto de um amor que ao morrer o matara, quando num livro de Kenzaburo Oe viu citada uma frase de um poema de William Blake: "Melhor matar uma criança no berço do que acalentar suas ambições incipientes." Lembrou-se então, com saudade e também com um pesar agudo, de como alimentara o amor, de como se orgulhara ao vê-lo crescer forte e belo, justamente a força e a beleza que, definhando e esmaecendo, acabariam matando o amor e, com ele, quem o alimentara.

Lírica (361) - Relógio

Enquanto vida tivesse
Os dias seus viveria
Confiando em que o amor viesse
Hora a hora, dia a dia.

Lírica (360) - O que vem do amor

Ele pressentiu que a mulher era ingênua quando ela lhe disse que não queria nada além da felicidade e que, na sua opinião, a felicidade só poderia vir do amor. Ele sabia que do amor vinham dores, alegrias, inquietações, anseios, desesperanças, e cada um desses sentimentos, sozinho, era mais forte e mais valioso que a felicidade. Ele sabia que do amor não vinha a felicidade, vinha algo mais essencial e mais profundo: a vida.

Lírica (359) - De cada dia

Chegando a um beco sombrio,
O amor a lata virou.
Faminto, fraco, doentio,
No lixo um pão procurou,
E achou, bolorento e frio,
O pão que o Diabo amassou.

Lírica (358) - Mochila

O menino carrega, além da sua, a mochila da menina. Não sabe, porque ainda não aprendeu a distinguir os sinais do destino, que daqui a alguns anos o que hoje faz por gentileza fará por amor, e será bem mais penoso, mas surpreendentemente mais doce, o seu fardo.

Lírica (357) - Só

Das rosas fanadas
Dos mortos olores
Das noites choradas
Dos dias sem cores

Das ânsias frustradas
Do pranto, das dores
Dos acres dulçores
Das folhas falhadas

Das tardes finadas
Dos vãos estertores
Dos frios suores
Das preces goradas

Das juras negadas
Dos mil dissabores
Dos ais, dos horrores
Das bênçãos passadas

Das glórias louvadas
Do amor dos amores
Só extintos fulgores
Só cinzas sopradas.

Lírica (356) - Dois, um

Não há fato mais comum:
Cantar o amor cantam dois
Em doce dueto. Depois,
Chorar o amor chora um.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Lírica (355) - Último trem

Há um momento na vida no qual nossa alma diz chega e nosso júbilo é saber que ninguém entrará na nossa cabine no meio do caminho para se desculpar porque, por algum engano ou mais uma torpeza do destino, aquele não é o último trem, mas o penúltimo.

Lírica (354) - Deveres

Como todas as noites, rezou para os mortos e para alguns vivos, pensou no amor findo, ao qual ainda prestava exaltada reverência, tomou os remédios exigidos pela sua velhice e deitou-se. Com esses elementares deveres cumpridos, estava pronto agora para dormir, e até morrer - se não satisfeito, ao menos apaziguado.

Lírica (353) - Abençoado

Soube que tinha sido abençoado pelo amor quando passou a não dormir mais, a pronunciar determinado nome com febre, como se fossem as primeiras sílabas de um sortilégio que só ele conhecia ou a designação de um culto secreto, e a chorar por qualquer motivo e por motivo nenhum, e a aceitar como uma dádiva a aflição que às vezes lhe oprimia o peito como se ali estivessem sendo cultivadas flores tuberculosas.

Lírica (352) - Sextilha

Amor é aquela besteira
Que chega devagarinho
Como quem não vai ficar,
Porém fica a vida inteira
E às vezes é tão daninho
Que pode até te matar.

Lírica (351) - Fantasma

De madrugada, quando esmoreciam os ruídos do trânsito e os fragores da vida se atenuavam, ouviam-se os lamentos do amor, arrastando-se com suas correntes no porão.

Lírica (350) - Epílogo

Chovia funebremente
No dia frio e nublado
Em que o amor foi sepultado
Numa cova de indigente.

Lírica (349) - Mentira

No inverno da alma, um calor
Às vezes ainda ele sente
E, ingênuo, a si mesmo mente
E acha que voltou o amor.

Lírica (348) - Rosa

Esteve, estava, floria,
Porém jamais florirá.
Foi cor, olor, alegria,
Agora, diga, onde está?

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Lírica (347) - Dor

Dói, ah, como tem doído,
Dor mais aguda não há,
Dói profundo, dói sentido,
Dói e sempre doerá.

Lírica (346) - Caleidoscópio

Uma tela causou espanto numa exposição, durante um mês. Na parte de baixo de um dos seus cantos, conforme o dia e a luminosidade, uma imagem de Cupido era substituída repentinamente por um objeto que às vezes era um ventilador, às vezes uma poltrona, às vezes um cachorrinho de pano. Sempre que uma dessas transformações ocorria, o público e também os críticos achavam o quadro bem mais apreciável.

Lírica (345) - Testemunha

Aconteceu-lhe um fato curioso. Quando conheceu a mulher que passou a chamar de querida de sua alma, passou a sonhar com ela todas as noites. Julgou que, com o tempo, o fenômeno fosse rareando e se extinguisse por si só, embora fosse uma ventura ver a amada durante o dia e reencontrá-la enquanto dormia, às vezes até em mais de um sonho, à noite. Os sonhos, porém, persistiram, até a manhã em que ele não pôde dar mais testemunho deles, nem de mais nada.

Lírica (344) - Consciência

Frustrado pelo amor, voltou-se para si mesmo e julgou que, retendo a ternura antes oferecida à amada, se amaria tanto que não precisaria ser amado por ninguém. Era tolo, mas não idiota. Analisando-se para descobrir por que a amada não lhe reconhecera as qualidades, logo se viu como na verdade era: um egoísta. Mas insistiu no seu amor por si mesmo, porque, agora que conhecia esse e outros abomináveis defeitos seus, lhe parecia óbvio que abster-se de submeter alguém a eles era, afinal, um ato de generosidade.

Lírica (343) - Gerações

Naquela manhã, uma das primeiras da primavera, os passarinhos jovens saltavam de galho em galho e de árovore em árvore, tagarelavam e cada um deles cantava o que imaginava ser a melhor homenagem ao amor. O passarinho mais velho, que havia muito não falava com os outros, entusiasmou-se e, dizendo-lhes o que achava do amor, anunciou que cantaria também em homenagem a ele. Assim que pipilou as notas iniciais, foi alvo da zombaria dos mais jovens. Aquilo parecia ou uma cantiga de ninar ou um ardil para atrair minhocas.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Lírica (342) - Crédulo

Um dia, mandaram-no ver se o amor estava na esquina e ele, entusiasmado, foi. Faz tempo, muito tempo, e desde esse dia ele tem andado pela cidade. Não encontrou o amor, mas não perdeu a esperança. Até a fortaleceu, ao descobrir, por um cálculo que só ele sabe como fez, que as esquinas não se esgotaram: faltam ainda cinco mil.

Lírica (341) - Menino

Se ele a visse, só lhe faria um pedido: que ela o deixasse encostar o rosto no seu ombro, para procurar ali o alívio que, quando menino, sua mãe lhe dava. E, se ela o censurasse por suas lágrimas, que fosse uma censura terna, uma censura tão doce que lhe trouxesse mais lágrimas, todas as que ele precisava verter até se sentir vazio de qualquer dor e sofrimento.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Lírica (340) - Jardim

Por praga, peste ou defeito,
Colhia apenas urtiga.
Agora, com a doce amiga,
Colhe só amor-perfeito.

Lírica (339) - Teatro

Quando a peça estreou, ele tinha vinte anos, a mesma idade da atriz com quem atuava. Eram só os dois em cena, num enredo simples: um rapaz e uma garota que, amando-se, não tinham coragem de confessar esse amor. O tempo corria e, vinte anos mais tarde, continuavam apaixonados e ainda sem coragem de declarar o amor. O personagem já era quase um senhor no terceiro ato, assim como a personagem, mas tudo havia permanecido como no ato inicial. Nas primeiras semanas o ator não achou que a peça fosse durar muito, mas ela fez sucesso, outras cidades quiseram vê-la e hoje, vinte anos passados em excursões contínuas, ele todas as noites encena o texto com a garota. No início, encantou-se com ela e imaginou que pudesse ser amor. Embora ela desse sinais de sentir o mesmo, ele, talvez influenciado pela peça, procurou esquecer o ímpeto amoroso e conseguiu. E todas as noites, vinte anos depois, ele e ela colhem ainda os aplausos de um público entusiasmado que, porém, às vezes acha inverossímil a história.

Lírica (338) - Sobrevivências

Embora todas as noites, antes de dormir, flertasse com a morte, lhe dissesse frases carinhosas e a convidasse a vir, continuava acordando todas as manhãs, e sua única esperança passava a ser, então, que ao menos as primeiras lembranças trazidas pelo dia fossem amenas, antes que chegassem as outras, que o supliciavam como só as lembranças de um amor extinto conseguem supliciar.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Uma frase de Singer

Encontrei num conto de Isaac Bashevis Singer uma frase que no início fui tentado a analisar com a razão, a pior forma de se encarar um texto literário. E pensei se era um convite ao pragmatismo ou uma leve incitação a uma singela e tosca forma de hedonismo ou, quem sabe, de epicurismo. Felizmente parei por aí. Meu conhecimento de filosofia é um total desconhecimento da filosofia. Com meus passos filosóficos não consigo chegar nem à esquina. O que Singer escreveu é simplesmente uma bela frase, com algum jeito de provérbio, mas sem a imposição e a pretensa sabedoria que os provérbios costumam ter: "No amor, não se faz favor. É preciso ser egoísta, senão se destrói a si mesmo e ao ser amado."
(47 contos de Isaac Bashevis Singer, tradução de José Rubens Siqueira, Companhia das Letras.)

Lírica (337) - Dalton

Acordou com arranhões no rosto, marcas de mordidas, e a primeira suspeita que teve foi a de que no sonho havia encontrado uma das pervertidas virgens de Dalton Trevisan.

Lírica (336) - Depressão

Ele se orgulhava de sua depressão e se irritava se alguém sugeria que ela era provocada por qualquer causa que não fosse o amor.

Lírica (335) - A última

Quando a amada ligou e disse que precisavam conversar, ele foi ao encontro dela com um sorriso, esperando uma revelação que na verdade ouviu, e que foi a última.

Lírica (334) - Poeminha cínico

Queria um amor qualquer,
E tanto, que aceitaria
O afeto de uma mulher
Até por filantropia.

Lírica (333) - O poema

Não tem mais tempo e nunca teve talento. Se tivesse, gostaria de escrever um poema curto, bem curto, em que pudesse dizer tudo que afligiu e encantou sua alma, com palavras ternas que soassem quase tão anônimas quanto o silêncio, sem imprecações nem queixas, e que fluíssem com a pacata humildade de um arroio deslizando num tempo morto para lugar nenhum.

Lírica (332) - Mudo

Descobriu que sua alma e seu coração eram melhores do que suas palavras. Tudo que o devorava, tudo que o consumia, tudo que o deixava em exaltação febril, tudo que o sacudia, tudo que o abalava, tudo que o afligia, tudo que o alegrava, tudo que o fazia sentir-se gloriosamente ou tristemente vivo ficava bobo, frio e fútil quando ele buscava expressão nas palavras. Passou a desconfiar de todas e, na dúvida, hoje não usa mais nenhuma.

Lírica (331) - Era

Era ternura sincera,
Era amor, era paixão,
Era verso, era canção,
Era vida, ai, era, era, era.

Lírica (330) - O gato

Durante o dia, falava com as pessoas, na rua e no escritório, sobre o tempo, o calor, o frio e as pequenas e grandes dificuldades do trabalho. Das sete da noite às sete da manhã, em casa, conversava apenas com o gato. Abria-lhe o coração, acariciava-lhe o pelo, perguntava-lhe qual havia sido a gata da sua vida. Parecia entender seus miados. Dormiam juntos na cama. Uma tarde, uma garota nova começou a falar com ele no escritório e pela primeira vez ele contou a alguém sobre o gato. A garota lhe disse que tinha um gato também e lhe perguntou que tipo de ração dava ao gato dele. Ele sorriu e não respondeu. Ela entenderia se contasse que não havia gato nenhum, que era um gato criado pela solidão de suas noites?

Lírica (329) - Solamente una vez

Veio-lhe aos lábios um bolero muito antigo, que ele assobiou com emoção. O assobio lhe despertou na memória a letra do bolero: uma vez somente, e mais nenhuma, se entrega a alma com a doce e total renúncia. Seus olhos se nublaram. Solamente una vez, ele cantou, sentindo toda a verdade, toda a dor e toda a grandeza da frase. Havia entregado a alma uma vez, com a doce e total renúncia. Havia sido recusada, sua alma, porém ele não se arrependia. Andando pela rua, continuou assobiando o bolero, e os que olhavam para ele se perguntavam que desgraça poderia ter acontecido àquele homem para que ele chorasse tanto.

Lírica (328) - Plano

Soube que tinha enlouquecido não quando pensou em fazer greve de fome diante da casa da amada, mas quando, na última hora, se acovardou e desistiu.

Lírica (327) - Olvido

Viver, agora, era apenas
Esperar que o olvido
Viesse logo e apagasse
As recordações amenas
E que do amor sucumbido
Nenhum vestígio ficasse
E que das manhãs serenas
E que do sonho vivido
Ninguém nunca mais falasse
E que das dores e penas
E que de tudo sofrido
Memória alguma restasse.

Lírica (326) - Causa mortis

Teve fé no amor. Achava
Que a vida que nele havia
E o que de bom lhe ocorria,
Tudo era o amor que lhe dava.

Assim viveu, e cantava
Do amor a doce magia
E grato o enaltecia
E seu valor proclamava.

Um dia adoeceu. Chorava,
Porém jamais atribuía
Ao amor o que sofria.
Mas era o amor que o matava.

Lírica (325) - Tudo

Morreu. Restará, contudo,
E sempre intensa, a lembrança
Daquela tola esperança
Que em sua vida foi tudo.

Lírica (324) - A carta

Pressentiu que ele estava muito doente, e talvez até morto, quando, como fazia todas as noites, apanhou a última carta que ele lhe mandara, dois meses antes, de uma cidade qualquer de um país longínquo. Assim que pegou a carta, o papel ficara amarelo como o rosto dos cadáveres. Chorou sobre as letras que teciam juras de amor, retribuídas por ela em várias cartas que não haviam tido resposta, o que confirmava agora a suspeita de que ele estivesse doente, quem sabe morto, naquela cidade distante ou em outra à qual o tivesse levado seu trabalho de representante comercial. Durante muito tempo, aflita, procurou por todos os meios uma notícia. Um dia ela chegou, finalmente, quase por acaso. Ele não tinha morrido. Havia se casado no país longínquo e lá se estabelecera. Ela pegou então todas as cartas dele e as rasgou. Conservou só a última, porque dessa a mentira e o veneno haviam sido apagados pelas suas lágrimas antigas e também pelas recentes.

Lírica (323) - Os últimos

Recusando-se a acreditar que o amor está morto, continua falando dele com tamanho sentimento e convicção que alguns tolos se aliaram à sua causa e andam até fazendo manifestações. São quarenta no mundo todo, segundo a última pesquisa, mas logo se extinguirão, porque morrem de paixão por mulheres ingênuas que, quando descobrirem que o amor é uma prática abandonada há várias décadas, os repelirão com o escárnio que merecem.

domingo, 1 de agosto de 2010

Lírica (322) - A sílaba

De longe, ele a observava, no café. Era bela: lindos olhos, nariz, cabelos. Mas o que lhe causou maior impressão foi uma palavra curta que, dita por ela à acompanhante, desenhou nos seus lábios uma formosura única. À espera de que a palavra se repetisse, ficou mais atento ainda. Quando a mulher pagou a conta e, despedindo-se da amiga, saiu para a rua, ele a seguiu e, apesar da ansiedade, talvez não tivesse falado com ela, se ela não houvesse feito sinal para três táxis, sem que nenhum parasse. Criou coragem e perguntou se ela queria que ele a ajudasse. E então viu de novo os lábios em seu instante de máxima formosura e ouviu a resposta: não.

Lírica (321) - Mulher

Tantos anos estava na mesma esquina, de dia, à noite, com sol ou chuva, que um gaiato disse - e a piada se espalhou - que ela era a mulher que dava nome à rua. Ela não se chamava Augusta, e nem sabia quem havia sido aquela Augusta. Mas duvidava de que, fosse quem tivesse sido, ficasse, como ela ficara ali, dias, meses e anos, esperando o momento, que justificaria todos, no qual o amado surgiria sorrindo, ou na rua ou na transversal.

Lírica (320) - Frutos

Os frutos gorados
Os frutos frustrados
Os frutos ansiados
Os frutos falhados
Que a vida negou.

Os frutos queridos
Os frutos perdidos
Os frutos roídos
Por vermes comidos
O vento levou.

Lírica (319) - Atemporal

Na ensolarada avenida,
Na mesma antiga calçada,
Buscou como outrora a vida
Mas o que encontrou foi nada.

Lírica (318) - Regresso

Cruzou divisas, fronteiras,
Sentiu o gosto do mundo,
Procurou o mal e o bem,
Ouviu o riso e também
O doloroso e profundo
Lamento das carpideiras.

Bebeu a chuva, deitou
Em palácios e ao relento
E, para tudo saber,
Desfrutar e conhecer,
Sorveu doçura e tormento,
Açúcar e fel provou.

Quando voltou, fatigado,
Notou que toda a alegria
Colhida nas aventuras
E as emoções e as venturas,
Nenhuma delas valia
O amor que tinha deixado.

Lírica (317) - Para onde?

Talvez nem tivesse sido ela a mulher que ele viu entrar no vagão do metrô. Mas, empurrando todos os que estavam à sua frente, ele tentou entrar também, porém a porta se fechou antes que ele conseguisse. Ficou parado então, junto com os passageiros que esperavam outro trem. Chegou um, veio outro, mas ele continuou ali, como se não houvesse mais sentido em ir para lugar nenhum. Não estar naquele vagão era, para ele, como não estar no mundo.

Lírica (316) - Desintegração

Não sabe, não saberá
Como foi que num segundo
Se esfacelou o seu mundo
E o que havia já não há.

Lírica (315) - Haicai: Av. Paulista

Debaixo de chuva,
Molhada, triste, cansada,
Minha alma viúva.

Lírica (314) - Anseio

Talvez quem sabe amanhã,
Por um sutil sortilégio,
Rebrilhe aquele sol régio,
Ressurja aquela manhã.

Lírica (313) - Ontem

Havia sol, alegria,
Havia tanto entusiasmo
Que o homem, cheio de pasmo,
Naquilo quase não cria.

Havia amor e magia,
Havia um sonho dourado
E no horizonte encantado
Uma estrela reluzia.

Havia, houve, até que um dia
Se desfez tudo em fumaça
E agora, em sua desgraça,
O homem recorda o que havia.

Lírica (312) - A alma

Uma, só uma, só ela lhe parecia a destinada. Milhares de anos tinham passado desde o primeiro, milhares de cidades e de lugarejos tinham existido, milhões de mulheres, e no entanto ele sabia, porque assim lhe dizia a alma (e até lhe gritava, quando ele lhe dava menos atenção), que uma, só uma, só ela lhe era destinada e só por ela valia viver. Às vezes a amada, magoando-o, o fazia ter certa dúvida sobre essa doce imposição do destino, mas a alma imediatamente o censurava pelo seu ceticismo. Reafirmava-lhe que era ela, só ela, mais nenhuma - e quem há de discutir com a própria alma?

Lírica (311) - Outrora

Para ele, não mais fluía
O tempo. Alheio, parado,
Vivia ainda, extasiado,
Certa manhã, certo dia.