quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Situações (35) - O carrossel

Lembra-se de que certa madrugada, quando menino, acordou no escuro e, esgueirando-se pela casa, foi até o quintal para ver se era verdade, como lhe tinha dito um amigo, que o sol, quando nascia, dava a impressão de ser um carrossel de fogo girando. Sentou-se embaixo de um limoeiro e esperou. Era muito cedo, o sol não veio e ele dormiu. Acordou encharcado pelo temporal que desabara e, carregado para dentro pela mãe e censurado duramente por ela, foi posto de novo na cama, adormeceu e, ao acordar, às dez horas, viu um filete dourado no assoalho. Correu para abrir a janela, mas o sol não se parecia nada com um carrossel de fogo. Talvez tenha sido nessa manhã que começou a se sentir injustiçado.

Lírica (799) - Quintaninha

Sonhei que eu tinha três anos e andava com Mário Quintana por uma rua cheia de árvores. Vi alguma coisa no ar, indo de uma árvore a outra, como se procurasse algo em cada uma. Perguntei a Mário Quintana o que era aquilo. Ele respondeu: "É um passarinho." Andamos mais um pouco e, vendo outro passarinho, eu disse a três mulheres sentadas num banco: "É um passarinho." Mas elas puseram delicadamente o indicador nos lábios. Explicaram-me que ali, naquela rua, por uma homenagem que prestavam a Mário Quintana, só ele podia chamar um passarinho de passarinho. Perguntei: "Deus também pode?" Elas sorriram e, pelo sorriso, eu soube que a resposta era sim.

Lírica (798) - Anseio

Queria a morte morrida,
Queria a morte matada,
Queria abdicar da vida,
Queria ingressar no nada.

Lírica (797) - Traços

Enquanto olhava o passarinho em seu voo, no parque, teve a atenção desviada para a grama, onde um passarinho menor saltitava, indeciso. Ao voltar os olhos para o alto, não viu mais o outro passarinho. Isso o deixou triste e ao mesmo tempo o tranquilizou. Andava pensando na morte, e pressentiu que a morte não era mais do que isso: um instante em que um ponto qualquer, um traço, um sinal se apagam, enquanto um novo ponto, um novo traço, um novo sinal se preparam para viver seu instante de glória no espaço azul.

Lírica (796) - Ensaio

Todos os seus sonos, dos mais leves aos profundos, lhe pareciam agora um ensaio para o grande sono em que ansiava por se dissipar.

Lírica (795) - Rotação

Tão fria, feia e triste se tornou repentinamente a manhã que ele imaginou que talvez os dias também, como os homens, tivessem o pressentimento da sua fugacidade e a intuição do crepúsculo.

Lírica (794) - Lógica

O que adianta fazer drama
Ou praguejar contra a sorte?
Deite-se quieto na cama
E espere a vida - ou a morte.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O prazer de ler

Passei hoje em Novo Hamburgo, no Colégio Santa Catarina, um dia que coloco sem hesitar na lista dos inesquecíveis. Tive a honra de ser recebido pela direção, pelos professores e pelos alunos com um afeto que me deixou comovido como poucas vezes. Conversamos sobre livros, leitura, literatura e, basicamente, sobre o principal exercício que cabe aos seres humanos, que é o de viver com dignidade e respeito. Agradeço muito a todos.

Lírica (793) - Num dia

Aquilo tudo em que creu,
Aquilo por que vivia,
Ruiu, desabou, morreu,
Num dia, apenas num dia.

Lírica (792) - A última

No dia em que morreu sua última ilusão, ele não chegou a se abalar. Velho, já não sabia bem o que significavam última e ilusão. Saberia o que era morte um pouco depois.

Lírica (791) - Alma

Do corpo, ele só esperava que, como compensação das dores, lhe proporcionasse a ventura de finalmente morrer, de preferência numa tarde amena e clara, para que a alma pudesse, como merecia, traçar no azul o caminho de sua liberdade.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Situações (34) - Agora

Tinha sonhado com tigres, jaguares, funestas caçadas, com tempestades tropicais, com borrascas destroçando transatlânticos onde depois, nos bailes, havia sempre pelo menos uma dezena de mulheres capazes de matar de prazer os sobreviventes com um sorriso e com a fumaça de suas compridíssimas piteiras, empunhadas por brancas mitenes. Isso na juventude. Agora, quase todas as noites ele se compraz com um sonho que não deixa de ser excitante e perigoso. Precisa atravessar a pé uma avenida de mão dupla, em que o único objetivo dos carros parece ser o de despedaçar qualquer pedestre que se atreva a enfrentá-los. Ele sente a boca seca, mas avança com a bengala e dá dois passos até que, miraculosamente, o sinal fica verde para ele, e todos os motoristas lhe dizem que não se apresse, porque podem esperar todo o tempo do mundo, se ele precisar.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Situações (33) - A mulher

O homem completou sua caminhada pelo parque. Havia no ar um perfume único, quente, que ele só costumava sentir em raras noites do final da primavera e que tinha algo de aliciador, de malignamente salino, embora o mar estivesse pelo menos sessenta quilômetros distante. Quase chegando ao seu quarteirão, viu parar diante de um prédio um carro. Dele desceu uma loira majestosa, de cabelos longos e vestido também longo e preto. Enquanto ela entrava pela portaria, ele notou que o perfume da noite se tornara mais cálido, quase mormacento. Olhou para o homem, um cinquentão já, que do carro parado acenava ainda, e teve pena dele, por adivinhar que morreria nos braços daquela mulher. Depois da pena, porém, foi possuído por uma furiosa inveja do homem e da morte que teria, talvez numa daquelas próximas noites de fim de primavera, agonizando sob o perfume que ele, desditosamente excluído daquele destino, sentia ferir ainda suas narinas e supliciar sua alma, embora a mulher já tivesse desaparecido dentro do prédio.

Situações (32) - Ojeriza

Criou ojeriza a palavras como rouxinol, cotovia, prelúdio, arco-íris, crepúsculo, arrebol. Criou ojeriza a músicas melosas, ao som do violino, às flores da primavera, às folhas do outono e aos poemas de amor. Viveu para fulminar com sua ira qualquer coisa que lhe parecesse manifestação de sensibilidade ou sentimento. Um dia, criou ojeriza às suas ojerizas e sentiu que não tinha mais por que viver.

Situações (31) - Desçam daí

Depois de uma bebedeira épica, saiu do bar e percebeu que estava sendo seguido pela lua. Xingou-a com o destemor e a grosseria que lhe inspirava o álcool e, vendo que ela insistia em acompanhá-lo, redobrou os insultos. Realimentada assim sua fúria, sentiu-se apto a lançar um novo e mais amplo desafio. Encarando as estrelas, berrou: "E vocês aí, suas mijonas, estão olhando o quê?"

Situações (30) - Azar

Bebeu todas e outras tantas e, de madrugada, ao sair do bar, abraçou um poste ao qual disse que amava despropositadamente uma mulher chamada Ludmila. Feita a confidência, descobriu que o poste não era senão um metroviário de má índole chamado Jarbas, casado com uma mulher chamada Ludmila.

Lírica (790) - Chave de ouro

Decepcionado com o amor e enfadado com o lirismo, jurou jamais falar de estrelas, de lua, de olhos azuis ou verdes, de barquinhos levando suavemente casais de apaixonados à morada do amor eterno. Preparava um soneto em que a musa seria uma antimusa e, ao invés de sonhar, divagar e cantar, faria uma porção de outras coisas, resumidas na chave de ouro, um sonoro decassílabo que já estava pronto e dizia: eructar, esputar, esternutar.

Situações (29) - Princípios

O pronome "ele", vendo-se diante do verbo matar, recusou-se a ser utilizado na frase, alegando para isso ter tido sempre bons princípios. Ameaçado de punição drástica, concordou afinal em se deixar usar, mas apenas quando outro pronome, o "se", veio em seu auxílio. Ele então se matou.

Situações (28) - Autópsia

No coração do poeta não se achou nada que pudesse justificar a beleza e a tristeza que havia em seus versos. O legista encontrou apenas a bala com que ele se matara, e também nela não viu nada de extraordinário.

Situações (27) - Vermes

Fazia já uma hora que o escritor estava morto, mas de sua boca entreaberta ainda saíam palavras grandes, médias e pequenas, que se entrelaçavam, se juntavam, se contorciam como vermes. Quando o padre pronunciou algumas frases em latim, elas se imobilizaram por alguns instantes. Em seguida, foram se dirigindo ao dicionário, na estante, e, sem tumulto, cada uma voltou ao seu lugar, enquanto a boca do escritor, também apaziguada, se fechava.

Situações (26) - O ex

Abrindo ao acaso o estojo
Viu a foto: o bigodinho,
No paletó o lencinho,
A costeleta (ai, que nojo).

Situações (25) - A ex

Depois do amor bocejava,
E no cinema tossia,
Durante o almoço eructava,
Que belo som! Que eupepsia!

Lírica (789) - A gatinha cinza

Depois da briga, na solidão de um dos seus sábados, ela resolveu recordar o que havia sobrado de dois meses de um febril romantismo: algumas pétalas murchas entre as páginas 22 e 23 de um livro de contos de Bioy Casares, uma rolha de champanhe que parecia haver engordado dentro da gaveta, um convite meio amassado para o lançamento de uma biografia de Clarice Lispector, um guardanapo de papel com dois versos rabiscados e, com os olhos sempre fixos nela, uma gatinha cinza, presente de aniversário, que aparentava não valer os duzentos reais que ele, depois de certa relutância e alguma modéstia, tinha dito que pagara por ela.

Lírica (788) - Revelação

Foi só quando ela lhe disse bom-dia que ele notou como o sol saltitava entre as flores, no parque, para beber as últimas gotas da chuva da madrugada.

domingo, 26 de setembro de 2010

Situações (24) - Misantropo

Suas frustrações e seus rancores viveram um momento de entusiasmo na tarde em que o vento despetalou as primeiras flores da primavera e, lixeiro zeloso, as varreu até onde se amontoavam as latinhas de cerveja, os litros de refrigerante, as embalagens de pizza mordiscadas pelos ratos e os folhetos da seita prometendo a salvação.

Lírica (787) - Setembro

Quando viu, era de novo primavera. E precisou explicar mais uma vez ao corpo cansado que acreditar naquilo que o coração e a alma sugeriam podia ser belo, mas impossível.

Lírica (786) - Soneto

Tendo chave de ouro ou sem,
Eu vos digo com certeza
Que um soneto nem riqueza
Nem roupa dá a ninguém.

Situações (23) - Vingança

A menina deitou seu baldinho vermelho e colheu um resto de onda que tinha vindo desmanchar-se em espuma na praia. Olhou para o mar imenso e, embora fosse a primeira vez que o fazia, não teve medo dele e o encarou com todo o orgulhoso desafio que seus cinco anos podiam expressar. Conservou esse sentimento de superioridade em relação ao mar até o último dos seus dias, aquele em que, vinte e cinco anos depois, foi a única morta entre as centenas de passageiros de um navio que colidiu com outro, a duas milhas da praia.

Lírica (785) - Companhia

Para que me serve o riso,
A gargalhada, a alegria?
De nada disso preciso:
Me basta a melancolia.

Lírica (784) - Índole

Se te incomoda a tristeza,
Eu sinto muito, mas rir
Eu nunca vou conseguir,
Pois fere-me a natureza.

Lírica (783) - Presente

Menina, eu te mando, embora
Jamais te lembres de mim,
Estes versos feitos na hora
E, como rima, um jasmim.

Lírica (782) - Anacrônico

Que tola canção, essa que te ensinaram. E que palavras inócuas. Enganaram-te, meu menino. Com essa cantilena e esse vocabulário, talvez consigas, se retrocederes cem anos e te calhar um dia de sorte, convencer uma garota a acompanhar-te a um cinema ou a meia dúzia de voltas na roda-gigante.

Lírica (781) - Causa mortis

Amor? Se queres morrer,
Melhor uma pneumonia,
Uma tenaz anemia
Ou uma angina escolher.

Lírica (780) - Cego

Para apaziguar a tristeza, que fazia tempo se lastimava pelos cantos, ele lhe disse que talvez os olhos da bem-amada, dolorosamente inacessível, não fossem nem tão azuis nem tão belos, seu sorriso talvez não tão delicado, e um tanto circense o seu andar. Conseguiu, por via indireta, o que pretendia. Instantaneamente, a tristeza parou de chorar e, engasgando de tanto rir, zombou dele: "Sabe? Além de bobo, você é cego."

sábado, 25 de setembro de 2010

Lírica (779) - No tapete

O sol entra pela janelinha do banheiro, deita-se sobre o pequeno tapete vermelho e fica esperando que a mulher saia do chuveiro para aquecer os pés dela e receber, como todas as manhãs, sua recompensa: as últimas gotas que escorrem pelo corpo dourado e que a toalha, generosamente, deixa de enxugar para que ele as beba.

Lírica (778) - Tarde

Ele ainda correu, porém
Estava tudo acabado.
O amor já tinha passado
E estava além, muito além.

Lírica (777) - Imolação

São cinco. São dez, se incluída a outra mão. Não poderia um deles, mesmo o mais insignificante, pousar na testa dele e sentir-lhe a febre, e abrandá-la? Não poderiam os cinco, não poderiam os dez percorrer-lhe o rosto e, com o auxílio da boca, acender-lhe a febre, incendiá-la, passá-la da testa aos lábios e queimar-lhe o corpo inteiro e fazê-lo se consumir todo no almejado sacrifício?

Lírica (776) - Maçã

O primeiro indício de que viria a ser poeta ou louco, provavelmente ambos, se notou quando, aos quatro anos, ao lhe darem uma maçã, ele a olhou fascinado, murmurou coitadinha e, antes da primeira mordida, delicada como um beijo, lhe disse: "Desculpa."

Lírica (775) - Lição

No dia frio e garoento,
Para ser disciplinado,
O amor foi defenestrado
E pernoitou ao relento.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Lírica (774) - Vesuviana

Fulgor seria a palavra, se houvesse alguma capaz de exprimir o brilho, o fogo, a luz e a brasa que arderam naquele instante em que seus olhos azuis, tomados pela paixão, assumiram a aspiração de parecer vermelhos.

Visita ao Colégio Santa Catarina

No dia 29 estarei, com muita satisfação, participando da Feira do Livro do Colégio Santa Catarina, em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul, atendendo a um convite da Equipe Organizadora, coordenada pela professora Rosana Maria Ody. É a 23ª edição da feira, o que demonstra como os livros são tratados com carinho no colégio, por professores e alunos. Falarei sobre literatura em geral, literatura juvenil e especificamente sobre livros meus publicados pela Editora Ática na Série Vaga-Lume.

Lírica (773) - Linguagem

Um dia, se por ventura ou porventura te lembrares de mim, não te lembres de meu rosto pálido nem dos meus olhos tristes, devastados pela paixão. Se puderes, lembra-te de uma voz que, embora gasta e rouca, procurava transmitir sempre, e sempre, a linguagem simples e única, embora às vezes desarvorada, do amor.

Lírica (772) - Gelo

Às vezes, na noite morta,
Ele ouve um toque, um rumor.
Lá fora se move o amor,
Mas ele não abre a porta.

Lírica (771) - Chama

Domar a paixão não soube
E aquilo que era alegria
Se fez tão grande agonia
Que em seu coração não coube.

Lírica (770) - Ensaio

O que mais faz é dormir. Desgostoso com a vida e seu tumulto, com o amor e suas tormentas, almeja a maciez das trevas e, a cada noite com mais esperança, ensaia o sono longo que o libertará.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Lírica (769) - As palavras

Quando ouviu a palavra amor no burburinho do restaurante, pareceu lembrar-se de algo. Nos olhos e nas rugas da testa houve um pequeno sinal de concentração. O brilho de um sorriso chegou a se esboçar, e nos lábios se desenharam duas ou três sílabas, talvez um nome de mulher. Mas, depois de esticar o braço para chamar o garçom, o que lhe custou um gemido, as palavras que disse foram: a conta.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Lírica (768) - Garoto

Às vezes pensa que a situação não está muito ruim. Se fosse um filme de faroeste, ele precisaria enfrentar não os dezessete garotos da sexta, mas uns trinta bandidos para receber a estrela de xerife e ficar com a mocinha.

Lírica (767) - Embaralhamento

Já se esqueceu de tudo. Lembra porém, e sempre fala disso com os olhos brilhando, que aos catorze, ou quinze anos, deu ou recebeu um beijo de uma garota chamada Elisabete, quiçá Vera ou Cecília, no velho cine Ipiranga, ou no Marabá, e se inflama ainda quando recorda como ela, provavelmente Irene, depois do beijo o chamou de Lucas, Raul ou quem sabe o nome que ele tem agora.

Lírica (766) - Presunção

Presumiu que, se eriçasse ao menos levemente a penugem do braço dela, como o vento acabara de fazer, talvez lhe fossem reservados outros êxtases.

Lírica (765) - Ninho

O vento lhe afofou tão carinhosamente os cabelos que uma bem-te-vi pensou se valia a pena continuar transportando galhinhos para a árvore, tendo aquele ninho já pronto lá embaixo.

Lírica (764) - Peixe

Roçou sem querer o braço dela e sentiu tamanha comoção que imaginou como se sentiria um peixe novato ao tocar as primeiras ondas do oceano.

Lírica (763) - Covinha

Era só quando ela sorria que se mostrava no queixo a covinha que ele amava. Por isso era que, às vezes, ele interrompia os beijos, embora lhe custasse muito.

Lírica (762) - Ousadia

Se a um momento ele pudesse voltar, gostaria que fosse àquele não do beijo, mas ao imediatamente anterior, em que as pernas lhe tremiam e no qual ele soube que, se não ousasse, se arrependeria pelo resto da vida.

Lírica (761) - Metade

Parece muito querer
Que além de o ter concebido
Você se esforce por ver
O afeto correspondido?

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Lírica (760) - O pretendente

Tão humilde ele se apresentou como pretendente à mão da princesa que o mandaram para o fim da fila, e todos os que iam chegando passavam à sua frente sem pedir licença. Trinta anos depois, quando a princesa já ia para o quarto casamento, ele se apresentou, como nas três vezes anteriores, mas nem para o fim da fila o deixaram ir, porque estava muito velho.

Lírica (759) - Sonso

Tão tolo ele nasceu e tão tolo se manteve que até o mais bobo dos gatinhos da amada conseguia os afagos que ele, movendo o céu e a terra, jamais alcançou.

Lírica (758) - No caderno

A família jamais disse, mas, três dias depois de o menino se afogar - ele que tão bem nadava -, na página de um dos seus cadernos, deixada aberta, se encontrou um poema no qual ele dizia que não suportava mais viver sem o amor de Clarice, uma garota de catorze anos, seis meses mais velha que ele.

Lírica (757) - Lírio

Se fosse escolher, escolheria o lírio. Faz tempo que não vê um e não se lembra de alguma vez haver tocado um deles. Mas gosta da palavra lírio, de sua feição alva, pura, clara, e, se um dia se matar, será um lírio que terá no peito quando o encontrarem, para saberem que, se não conseguiu amar a vida, amou ao menos a beleza.

Lírica (756) - Para quê?

Tantas idas e vindas, tantos avanços e recuos, tantas escaramuças e tréguas em nome da estratégia do amor, e para quê? Daqui a algum tempo, ter havido ou não ter havido, ter acontecido ou não ter acontecido, será apenas mais uma das incertezas da memória.

Crime em Manhattan

No dia em que pôs nas mãos de Raskolnikov o machado, Dostoiévski decretou a morte de duas mulheres e o nascimento dos filmes de Woody Allen.

Lírica (755) - Paz

Sábio, bendizia as doenças
Que, próximas de matá-lo,
Vinham enfim resgatá-lo
Das juras vãs e das crenças.

Lírica (754) - Incompatíveis

Ele olhava para ela e se sentia capaz de escalar o céu para ir buscar a mais inatingível das estrelas. Ela olhava para ele e vinha-lhe à garganta a mesma gargalhada que a sacudira na tarde em que, menina, ouviu a primeira piada do palhaço, no circo.

Lírica (753) - Normal

Quando se deu conta de que desde o início talvez fosse sexo o que almejava, e nem tanto amor, arrependeu-se de ter falado tanto em estrelas, rosas e lua. Descendo da esfera quase celestial em que se pusera, não lhe fez mal nenhum sentir-se normal e reconhecer a beleza de palavras como seios, coxas e ancas.

Lírica (752) - Manifesto

Não querer nada nem ninguém,
Não ter gozado fama ou glória,
Não ter registro nem história,
Morrer obscuro e em paz, amém.

Lírica (751) - Sáfara

Cada dia que passo longe de ti envenena a seiva de que se alimenta a minha flor mais rica: a rosa frágil, doentia e mirrada do meu infortúnio.

Lírica (750) - Olhos

Um dia chegará em que teus olhos serão uma lembrança tão pálida que conseguir evocá-los constituirá uma recompensa mais inesperada e valiosa que a ventura de tê-los contemplado.

Lírica (749) - Matinê

Esparramou graxa nos sapatos e, para que pegassem mais brilho, deu uma cuspidinha em cada um antes de passar a flanela, como lhe haviam ensinado. Olhou-se e reolhou-se no espelho até se achar satisfatório, conferiu o dinheiro com que pagaria os dois ingressos do cinema e certificou-se de que no bolso estavam as balas de hortelã que, se estivesse num dia de sorte, poderia ir tirando da boca da garota com a língua e repondo, durante o filme. Estava na hora de sair. Ela havia marcado para a uma e, como era possível confiar em namoradas nessa época, ele foi pegar o ônibus que o levaria para aquela que imaginava ser a melhor tarde de sua vida.

Lírica (748) - Errado

Já tentara tudo. Chamara-a de anjo, de demônio. Sorrira-lhe terno, sorrira-lhe irônico. Beijara-a curto, médio, longo. Quando ousou segurar-lhe o queixo e olhar para ela como um cordeiro para o carrasco e ouviu o clamor daquela gargalhada, soube não só que sempre estivera errado, mas que jamais acertaria.

Lírica (747) - Proporção

Se lhe contassem que vinte pessoas haviam morrido num desastre ferroviário na China enquanto ele recrutava a alma para ajudá-lo a dizer à amada como chorava por ela, ele responderia que sua dor era superior a qualquer outra. E talvez tivesse razão.

Lírica (746) - A graça

Depois de uma semana trancado em casa, alheio à vida e ao mundo, saiu naquela manhã, embora ainda arredio. Ocorreu-lhe que até à mais profunda melancolia se deveria conceder, de vez em quando, a graça de um passeio ao sol. Ele a levava com cuidado, como se leva um cachorrinho querido, com medo de perdê-la a cada esquina.

Lírica (745) - Egoísmo

Ocupação mesquinha é essa, de negar os olhos e os olhares, os lábios e os sorrisos, e recusar a vida a quem está condenado a um dia, antes de ti ou depois, não ver mais olhos nem olhares, lábios nem sorrisos, e estar vivo somente na duvidosa memória dos sobreviventes.

Lírica (744) - A visita

Não vendo pela segunda noite seguida a estrelinha com a qual fazia dois anos vinha trocando declarações de amor, tomou-se de uma felicidade febril. Limpou e arrumou a casa, pôs flores em toda parte e foi perguntar a um astrônomo quanto tempo duraria a viagem de sua amada até a Terra.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Lírica (743) - Toque

Quando, tocando-lhe a nuca, ele notou o arrepio na espinha da mulher, sentiu que isso poderia ser bem mais persuasivo do que todas as belas palavras que tinha dito até ali.

Lírica (742) - No, na, nos, nas

Olhando disfarçadamente as mãos da mulher, ele avaliava o que elas poderiam fazer se, dando-lhes liberdade, ela as deixasse passear nos cabelos dele, nas orelhas, no pescoço, na nuca, nos, nas, no, na.

Lírica (741) - Dissolução

Acordava de madrugada sentindo cheiro de rum, de gim, dos perfumados sovacos de mulheres e ouvindo ainda o som de boleros melifluamente revividos no seu sonho pelos músicos ébrios das noites de outrora. Sentava-se na cama, suspirava, lembrava-se de que fazia anos era outro homem, mas, quando voltava a fechar os olhos, ansiava de novo pela dissipação, pelos salões enfumaçados, pela embriaguez do fumo e do álcool, pelas gargalhadas demoníacas das rameiras.

Lírica (740) - Disfarces

Fechou-se em casa e, quando tocavam a campainha, ele agora não ia nem espreitar pela cortina, com medo de que o amor viesse tentá-lo sob a forma de uma vendedora de yakult, de uma carteira entregando sedex ou, como acontecera na última vez, de uma pregadora disposta a tudo para divulgar sua seita.

Lírica (739) - Bicho

No almoço de família, o tio solteiro contou tantas calamidades amorosas e chorou tantas feridas que o menino lhe perguntou: "Tio, amor morde?"

Lírica (738) - O vaso

Para se sentir vingado de todos os sofrimentos que seu amor à beleza lhe havia causado, pensou em pegar o vaso de porcelana, aquele em que Cupido preparava uma de suas infalíveis flechadas, e estraçalhá-lo com os dentes, e triturá-lo, e engoli-lo inteiro, para que, não sobrando nem uma lasca, se extinguisse o risco de ele ser outra vez tentado pela diabólica magia.

Lírica (737) - O crime

Atirou uma pedra para cima e, quando viu cair diante de seus pés aquele objeto prateado, não soube se devia chamar o pai, médico, ou se deixava o cachorro engolir a estrela, para eliminar a prova do seu crime.

Lírica (736) - Fio

Para não pisar na lua refletida na poça, deu dois passos para a esquerda e roçou num fio elétrico que o mandou para o inferno instantaneamente, com toda sua tolice e seu lirismo.

Lírica (735) - Sorte

Os poetas românticos tinham a sorte de apanhar logo uma tuberculose e, morrendo antes dos trinta, eram poupados de, chegando à velhice balofa e calva, ler os disparates rimados que cometiam para celebrar donzelas rapidamente transformadas em gordas lerdas e erisipelosas.

Lírica (734) - Baile

Empurrou para o fundo da gaveta os exames de sangue e os ultrassons, deixou em casa o pâncreas, os rins, as paratireoides, o fígado e o baço e saiu para o baile que, por um súbito otimismo, imaginou que talvez não fosse o último.

Lírica (733) - O outro

Na primeira vez em que ela, na cama, o chamou de Altair, ele pensou em parar tudo por ali mesmo, mas a chama amorosa dela estava tão deliciosamente acesa que ele deixou a queixa para depois, o que porém não fez. Três anos se passaram e ele talvez jamais chegue a dizer nada, porque, nas noites em que ela o chama de Altair, repete Altair, sussurra e rosna Altair, ele, o insípido Carlos, conhece o verdadeiro fogo do amor.

Lírica (732) - Frenesi

Enciumada porque o gato, lambiscando o leite no pratinho, estava indiferente aos seus afagos, ela o apanhou e, pondo-o para fora, acordou o cachorro pachorrento e o encheu de beijos, murmurando ora Rodolfo, ora Lúcio, ora Cássio.

Lírica (731) - Gostosura

Morrer é aquela delícia
De não precisar de nada,
De amor, afeto ou amada,
De alívio, riso ou letícia.

Lírica (730) - Trapézio

Depois que o amor caiu espetacularmente e espatifou-se no tablado, o empresário do show, perdida sua atração principal, perguntou-se desolado por que o trapezista e a trapezista, sabendo não haver, por exigência deles mesmos, rede embaixo, haviam tentado pela primeira e última vez aquela impensável acrobacia.

Lírica (729) - Beijo

A mulher acordou cedo, não com o despertador, mas com a tristeza de ver interrompido no sonho, por um incidente qualquer, um longo beijo do amado, qua fazia tempo ela não sabia por que Méxicos, Canadás ou Honduras andava. Olhou para o relógio, eram seis horas, e, desativando o despertador, fechou de novo os olhos, sorrindo. Que se dane o trabalho, eu não vou, foi o que lhe veio à cabeça antes de se reoferecer ao sono e à espera do beijo que não lhe enchia de plenitude os lábios havia cinco anos e cujo gosto o fragmento de sonho reavivara.

domingo, 19 de setembro de 2010

Lírica (728) - O grande

Nos sonhos, era ousado. Declarava-se a mulheres imensas, fellinianas, e arquejava em seus braços, e era sufocado pela opulência dos seus seios e, subjugado, proclamava-se subjugador. Quando acordava, antes de ir para o trabalho, por alguns instantes achava-se poderoso, e conquistar o mundo parecia-lhe fácil até o momento, diariamente repetido, em que passava pela recepcionista do escritório, uma garota magra e pálida, e, sem coragem de olhar para ela, sentia o rosto arder de pudor ao lhe desejar um bom dia.

Lírica (727) - A proposta

O leitão sacrificado no Natal ainda berra em janeiro e vem lamber a mão do menino nos pesadelos, pedindo-lhe que o salve e prometendo ser seu brinquedo se convencer o pai a não matá-lo.

Lírica (726) - O galo

Por falta do galo, morto para o jantar de véspera, o sol acordou mais tarde naquela manhã, e também os meninos, que, chegando à escola, souberam que a professora ainda não tinha aparecido.

Lírica (725) - Ressurreição

Rio, nasceste há séculos e, segundo os livros, conduziste embarcações que decidiram uma guerra, e regaste a terra que alimentou os homens e fizeste nascer flores para alegrar os olhos de todos e para compor os buquês das noivas. Mas tua maior glória, rio, foi aquela, vinte anos atrás, em que certa Leonora deixou cair dentro de ti uma folha de caderno na qual escrevia um poema. Eras considerado morto nessa época, mas já naquele dia, rio, começaram a ser vistos em tua água brilhos prateados que alguns disseram ser palavras e que, na semana seguinte, revelando-se peixes, foram o símbolo de tua ressurreição.

Lírica (724) - O nome

De todas as baboseiras, a que mais jeito de séria tem é aquela que nos priva da razão, nos mortifica a alma e atende pelo singelo nome de amor.

Lírica (723) - O antônimo

Não lhe valeram os suspiros, as redondilhas maiores e menores, as rimas toantes e consoantes, os engenhosos enjambements e aliterações. Foi substituído no coração da amada por um corretor de imóveis que acertava nove em dez cusparadas dirigidas à lata, palitava minuciosamente os dentes depois das refeições e emitia borborigmos ouvindo Débussy.

Lírica (722) - Menino

De tanto apontar o dedo para as estrelas, no exercício de contá-las, nasceu-lhe ali não uma verruga, como haviam prognosticado os pais, mas uma unha prateada que, sobrepondo-se à outra, estava sempre gelada, como se tivesse acabado de tocar a lua.

Lírica (721) - Escolha

A lua apareceu entre os prédios e se exibiu para a moça, mas ela não desviou os olhos do gatinho branco que, conseguindo milagrosamente atravessar a rua, começava a cravar as esperançosas garras no saco de lixo.

Lírica (720) - Ser

Tocar-te, flor, apalpar a seda de tuas pétalas e a tenra firmeza de tua haste, seria profanar, sem decifrá-lo, o mistério do teu ser: a suprema simplicidade da tua beleza.

Lírica (719) - Rosicler

O fio de ouro pendurado na roseira desfez-se quando a menina o tocou, e ela não chegou a saber que por um instante havia tido, na mão, um delicado fiapo de aurora.

Lírica (718) - Criação

Enquanto o poeta empacava num verso e implorava aos espíritos da noite que lhe soprassem inspiração, lá fora o silêncio, sem rimas nem métrica, acumpliciava-se com o orvalho e preparava a magistral aparição de uma rosa.

sábado, 18 de setembro de 2010

Lírica (717) - Reformatório

Que grande revolução
O mundo promoveria
E como melhor seria
Se cada poeta na mão
Em vez da pena vadia
Carregasse um enxadão.

Frase

Se o sexo, como disse Nelson Rodrigues, é coisa de proletário, o amor talvez não passe de uma ocupação de desocupados, um hobby como tirar fotos ou colecionar rolhas de champanhe.

Lírica (716) - Namorico

No fundo foi uma piada
Que em vez de dor merecia
A desatada alegria
De uma grande gargalhada.

Lírica (715) - Prece

Proteja, Deus,
Os nascituros,
Os imaturos,
Os morituros,
Os filhos Seus.

Do desamor
Proteja bem
Quem ama alguém
E quem também
Não tem amor.

Proteja a mim
Do amor inquieto,
Do mau afeto,
Do desafeto,
Até o fim.

Proteja, Deus,
Os enganados,
Os rejeitados,
Os derrotados,
Os filhos Seus.

Lírica (714) - Praga

Se quer um conselho, amiga,
Meus versos inúteis pegue,
Na lata os lance e os maldiga,
E que o lixeiro os carregue.

Lírica (713) - Anjo da morte

Que irrompa uma guerra santa
E o anjo exterminador
Decepe a língua e a garganta
De quem diz versos de amor.

Lírica (712) - Antilírica

Por que insistes em falar
De rosa, brisa, perfume,
Se o que gostam de escutar
É espinho, fedor, estrume?

Lírica (711) - Pastoril

Cavalo, que feliz tu és!
Não sabes o que é sextilha
E ignoras com quantos pés
Se faz uma redondilha.

Que bom, cavalo! Não precisas
Medir teus versos com régua
Nem rimar lisas com brisas
Para conquistar tua égua.

Lírica (710) - Melhor

Que queres tu com a poesia?
Melhor que leias inteiro,
Se buscas mesmo a alegria,
O manual do carroceiro.

E que tenhas como musa
Não a virgem arredia
Mas uma campônia obtusa
Amante da putaria.

Lírica (709) - In extremis

Queria morrer apenas quando ninguém mais pudesse suspeitar que morria de amor. Ao mesmo tempo, deplorava que seu brio não lhe permitisse proclamar, no momento derradeiro, que morria de amor, sim, e com um desses orgulhos que justificam uma vida.

Lírica (708) - A única

Na juventude, impelido por uma vocação ou talvez só pela fatalidade, sonhou, com ímpetos de botânico e de poeta, em cultivar uma rosa tão singularmente única que pudesse ser proclamada a rainha de todas, a rosa das rosas. Nesse projeto consumiu seu vigor, e tudo teria sido inútil se, já no fim da vida, não houvesse sido premiado com a irrupção, no seu jardim, de uma rosa tão ímpar, como ele desejara, e tão cobiçada, que ele se obrigou a ser seu guardião, para protegê-la do vento e de mãos alheias. Passando os dias e as noites ao lado da rosa, seu júbilo se transformou em tormento e ele, olhando as outras rosas e as flores mais modestas do jardim, perguntou-se por que não se contentara com elas, que poderiam ter lhe proporcionado alegrias mais miúdas, porém bem menos aflitivas.

Lírica (707) - Fogo

Ela o ama, e sabe disso, mas talvez jamais venha a lhe dizer. Há sutilezas e requintes que ninguém entende, a não ser quem ama, e que são astúcias, ardis, às vezes pequenas e doces crueldades sem as quais o amor não atiçaria a imaginação dos enamorados e não os faria arder de madrugada, ansiando por um fogo que os queime ainda mais, pouco a pouco, até que o último alento do corpo deliciosamente se extinga.

Lírica (706) - Algazarra

Às vezes, ao falar com ele, ela sente no corpo uma exaltação igual àquela que agita uma árvore quando, chamados pela luz do sol e pela voz de quem os alimenta, os pássaros fazem estremecer todos os galhos e folhas com sua alegre algazarra.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Lírica (705) - Cavalo

Ele sonhou que era um cavalo perseguindo uma égua pela campina, até que ela, por cansaço, resignação ou por outro impulso, renunciou a fugir. Na manhã seguinte, a mulher, na hora do café, e os colegas, no trabalho, notaram que sua timidez havia sido substituída por uma expressão de orgulho e que suas narinas puxavam ruidosamente o ar. À noite, jantou apressado e, bem antes que de costume, enquanto a mulher via tevê na sala, ele se deitou na cama com um suspiro que pareceu um relincho.

Lírica (704) - Ela era assim

O homem estava falando de um amor que havia gorado por sua incapacidade de sentir, na época, que não poderia viver sem ele. Embora seus olhos estivessem úmidos e cada palavra parecesse ferida por uma dor aguda, o interesse pela narrativa diminuiu quando ele disse que vinte anos haviam se passado desde a noite do adeus. Mas no momento em que entrou no restaurante uma jovem extraordinariamente bela e ele, extasiado, repetiu "parece ela, parece ela, ela era assim", todos, em especial os homens, entenderam como havia sido grande aquela perda.

Lírica (703) - Graças

Colha agradecido as dádivas do dia: a carícia morna do sol, o hálito fresco da manhã e, mais que tudo, o aroma açucarado das flores. Dia haverá em que elas cobrirão o seu peito, mas você não poderá apreciar nem suas cores nem sua fragrância.

Lírica (702) - Caminho

Nascemos já indefesos
E sempre assim continuamos,
Ligados à vida estamos
E à teia da morte presos.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Lírica (701) - Múltipla

Não te direi, pois já sabes
Que és única, porém tantas,
Que às vezes até me espantas:
Não sei como é que em mim cabes.

Lírica (700) - Tu

Tantas mensagens tenho te enviado que o vento agora finge levá-las, mas bem vejo que só vai até a esquina e toma não o caminho da tua casa, mas o do parque, onde nenhuma das mulheres és tu.

Lírica (699) - A viagem

Uns dias antes, olharás para tudo e acharás insuportável saber o que perderás. Mas, depois que te fores, quem poderá dizer se a alguém parecerá tão belo o que perdeste?

Lírica (698) - Ilha

Ela me olhou como se me conhecesse mas, um momento depois, percebendo o equívoco, desviou os olhos. Eu me senti como uma ilha perdida pela qual, num dia de neblina, um barco branco passasse, deixando para trás a inútil oferenda de minhas árvores e meus frutos jamais provados.

Lírica (697) - Memória

Se te lembrares de mim, que me lembres com ternura. Esteja eu onde estiver, o vento macio trará as palavras que disseres, e o sol, piscando o olho numa esquina, por entre a folhagem de uma árvore, me revelará o suave matiz de tua memória.

Lírica (696) - Rosa dos ventos

Só podia pensar, e pensou, como Cartola havia se enganado ao dizer que as rosas não falam, depois de ver uma delas se desfazer das pétalas para apontar o rumo que a amada tomara.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Lírica (695) - Alma

Poder flutuar como pluma
Soprada pela monção,
Rumo a alguma direção
Ou a direção nenhuma.

Situações (22) - A escolhida

Estava jogando milho às galinhas. Ainda não tinha escolhido a que lhe serviria de almoço, mas as duas que se mostravam mais alegres e famintas fizeram seu estômago se alvoroçar agradavelmente.

Lírica (693) - Bom rapaz

Achava que, quando chegasse a hora, seria suficiente um abraço, mas às vezes imaginava que precisaria de dois para transmitir à amada sua febre íntima. Pensar num terceiro, embora lhe agradasse, já não lhe parecia muito apropriado para um rapaz direito.

Situações (21) - Pressentimentos

Quando chega a aurora, o bezerro pressente que será este seu último dia. Olha para os dois homens que o conduzem ao encontro do seu destino e tenta mostrar-lhes que sabe o que vão fazer com ele. Mas os homens estão ocupados com outros pressentimentos, mais importantes: se, pela cor do céu, vai chover ou não e se, à noite, no baile, vai aparecer mesmo o sanfoneiro que sabe tocar 1.200 músicas e que o fazendeiro prometeu trazer da cidade vizinha.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Lírica (692) - Direito

Cordeiro, cordeiro meu,
Se fui sempre eu a tratar-te,
Quem é que irá devorar-te,
Cordeiro, se não for eu?

Situações (20) - Marcos Rey

Na última vez em que vi Marcos Rey, não sei o que mais me doeu: se o silêncio dele, imposto pela tirania da morte, ou se o meu silêncio, envergonhado por tantas palavras que lhe devia ter dito e que, inúteis naquele instante, me pesavam no peito com uma culpa que nem as lágrimas aliviaram.

Situações (19) - Osman Lins

Meu amigo Hugo Almeida me contou que, quando o corpo de Osman Lins estava sendo sepultado, um pássaro passou gritando alegremente seu próprio nome: bem-te-vi. Que outros escritores terão merecido tanto?

Situações (18) - Sala C

Por engano ou misericórdia do entregador, o defunto da sala C recebeu enfim uma coroa, que não fez falta nenhuma ao defunto da sala D, onde o doentio olor das flores havia feito desmaiar momentos antes uma grávida.

Situações (17) - Esforço final

Passou a dar valor a pequenas coisas que logo viriam a lhe faltar: um dia comeu um sonho no balcão da padaria, no outro foi a um cinema, o que havia muitos anos não fazia, e ficou uma madrugada inteira numa praia à qual foi especialmente para ver nascer o sol. Começou a sorrir também, com motivo ou sem, e se tornou tão inesperadamente simpático que ao morrer, meses depois, meia dúzia de pessoas lamentou não haver descoberto antes essa afabilidade, embora logo se tivessem esquecido disso, tanto que à missa de sétimo dia compareceram só quatro parentes, tão contrariados que era fácil deduzir que não tinham conhecido seu esforço final para se tornar tolerável.

Situações (16) - Um mês

Para que não lhe doesse muito, sentiu que o ideal seria desligar-se da vida aos poucos, como se fosse uma árvore da qual o vento colhesse diariamente um fruto apenas. Mas havia uma dificuldade: o médico tinha lhe concedido somente um mês.

Situações (15) - Diagnóstico

Olhou para o médico e teve pena dele porque, por sua juventude, talvez fosse a primeira vez que lhe cabia dar a alguém uma notícia como aquela.

Situações (14) - Órgãos

Quando soube que tinha baço, paratireoides e pâncreas e começou a lhes dar atenção, era tarde: estavam ressentidos com ele e decretaram-lhe a morte.

Situações (13) - Os envelopes

Olha para o sol com a melancolia de quem descobriu, pelos envelopes que traz na mão, que logo lhe será negada essa alegria simples, essa mornidão da tarde, esse atravessar a rua como os outros, sem que sequer pressintam nele algum sinal de coisa nenhuma que não seja vida, essa vida saudável que ele ainda aparenta, porque ninguém sabe o que há nos envelopes que segura e com os quais entrará no metrô, também sem levantar uma suspeita.

Situações (12) - Perversidade

Tinha cinco anos quando fez a perversidade: a mosca na sua xícara, lutando para chegar à borda, de onde ele a soprava de novo para o meio do café com leite, até que ela não se moveu mais. Não se sentiria tão deliciosamente culpado se, em vez de ser atirada por ele, a mosca houvesse caído sozinha na xícara.

Situações (11) - Besouro

Lembra-se do besourinho verde, tão verde que parecia uma parte da folha na qual ele o apanhou, trazendo-o para a palma da mão. Lembra-se do venturoso arrepio que sentiu e de como, naquele instante, prometeu a si mesmo que jamais se esqueceria daquilo. Não recorda como se chamava o besouro, porque não teve tempo de nomeá-lo, mas lembra-se do nome do menino - Álvaro - que, pegando o besouro, o atirou ao chão para triturá-lo com a ponta do tênis.

Situações (10) - História

Deus criou o homem e os animais. Os animais corriam livres pela natureza. O homem, julgando ter uma missão, criou a armadilha, a corda, o cutelo.

Situações (9) - A faca

Cordeiro, não comas tanto. Enquanto comes, deslumbrado pela cintilação do sol na relva, dentro da casa fulgura, na cozinha, a faca que um dia procurará a maciez do teu pescoço.

Situações (8) - O almoço

Às vezes, nos sonhos, reencontra-se menino, na fazenda, aspirando o aroma das flores e da relva, brincando com os primos que vieram da cidade para o grande encontro anual da família. Corre com eles, ensina-lhes como subir nas árvores, como imitar o canto dos passarinhos. Chega o momento, então, em que ouve os guinchos aterradores do porco sendo sacrificado para o almoço e lhe vêm uma repugnância, uma tristeza e uma dor que quando menino não sentia.

Situações (7) - Água

Encantado com a cor da água, o filhote de pássaro contemplou-se nela e, nesse contemplar-se, viu que os outros todos haviam levantado voo somente quando já não poderia alcançá-los. Sobrou-lhe o consolo de beber a água, de gosto estranho, embora belo fosse o vermelho vivo do detergente.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Lírica (691) - Ampulheta

Enquanto hesitas, enquanto
Hesito, o tempo transcorre
E o afeto já não é tanto
E o amor, vacilante, morre.

Lírica (690) - Beijo

Um beijo, ainda que breve,
E mesmo que pequeno, há de
Ter a magia que o leve
A alguma perenidade.

Lírica (689) - Fênix

Depois de muito tempo, quando já o supunha morto, o amor voltou a esbravejar dentro dele como uma arara apaixonada.

Lírica (688) - Como uma pena

Seria tão leve, tão breve, que os lábios dele e os dela se ficariam perguntando que tipo de beijo seria aquele, se beijo fosse, e nesse momento, aproveitando a surpresa dos dois, a beleza flutuaria entre ele e ela como a pena de um passarinho branco num sonho de menina.

Lírica (687) - Sina

Te amar me basta, menina,
Te digo agora e aqui.
Te amar é mais minha sina
Que ser amado por ti.

Lírica (686) - Sacrifício

Eu me ofereço a ti como o mais terno dos cordeiros, para que extraias de mim talvez alguma alegria, pelos meus desajeitados passos e pelos meus tropeções, talvez alguma ternura, pelos meus olhos tristes, e talvez algum vislumbre de beleza, pelo algodão que me veste o corpo. Eu me ofereço a ti e prometo balir baixinho, se balir, para não perturbar teu sono e para que jamais penses em me sacrificar, ainda que um sacrifício por amor não me desagrade.

Lírica (685) - Canto

Na minha alma ainda ecoa o canto daquele pássaro naquela manhã dezembrina. Ressoa só para mim - porque você, como aquela mulher erradia do bolero, quem sabe por onde andará - e ressoa cada dia mais fraco, mas insiste em ressoar.

Lírica (684) - Escada

Se os seus suspiros de amor fossem empilhados, ele poderia subir por eles não talvez até a lua, mas pelo menos até aquela estrela mais próxima, aquela à qual toda noite ele, da sacada do apartamento no décimo andar, confidencia suas desditas.

Lírica (683) - Mistério

Não notaste ainda que sou um menino? Não percebeste que te olho como quem, tendo ouvido várias definições sobre o que é uma mulher, jamais esteve diante de uma? Não vês que em cada um dos teus gestos, em cada olhar, em cada palavra tua eu espero maravilhado a revelação de um mistério?

domingo, 12 de setembro de 2010

Lírica (682) - Roseiras

Debruçado na minha janela, todas as manhãs tenho soprado declarações ao vento, na esperança de que ele, no caminho até a tua casa, passe pelas roseiras, para que as palavras cheguem a ti com algo que as torne menos desgraciosas.

Lírica (681) - Presente

Há um momento em que, pressentindo a chegada da manhã, as estrelas todas, como última resistência, se acendem em sua maior intensidade. Um momento como esse, de pleno esplendor, é o que mereces e eu gostaria de oferecer-te.

Lírica (680) - Cafeteria

Ele pegou como que por acaso os dois envelopinhos de açúcar que ela havia acabado de usar e, olhando furtivamente para todos os lados, enfiou-os no bolso, onde guardara, um minuto antes, o guardanapo de papel em que ela havia gravado com batom o desenho dos seus lábios.

Lírica (679) - Planície

Agora, se fala de amor, as rugas da testa se redesenham, mais profundas, o rosto fica pensativo e os olhos procuram uma planície longínqua e longa, tão imprecisa que parece pertencer menos à sua memória do que à esfera de sua já envelhecida imaginação.

Lírica (678) - Crepúsculo

Se, como dizes, não devo depender de ti, a quem encaminharei os pássaros que toda manhã minha alma pede que te procurem por toda a cidade e que te tragam antes do fim da tarde, porque não suportará a agonia de mais um crepúsculo sem ti?

Lírica (677) - Puro

Pensou em dizer a ela que se contentaria em repousar a cabeça nos seus ombros por alguns instantes, mas receou que ela pudesse ver nisso algum tipo de perversão.

Lírica (676) - Companheiras

Atormentado por um presságio no meio de sua caminhada matinal, pôs-se a olhar para tudo como se fosse pela última vez: para a grama, para os pássaros, para as árvores, para os meninos empenhados na tentativa de derrubar o sol com uma bolada. Diante das flores parou, para reverenciá-las. Não aquelas, mas outras logo seriam suas companheiras de viagem.

Lírica (675) - Cabide

Mansa, a mão do homem tocou a seda, apalpou os botões e, desabotoando um deles com um suspiro doloroso, pensou como suportaria seu deleite se abaixo da maciez da blusa estivesse o sutiã e, dentro dele, a carne tépida e tenra, e não o frio cabide.

sábado, 11 de setembro de 2010

Lírica (674) - A pergunta

Perguntou à lua e às estrelas se sabiam onde ela estava. Não recebendo resposta, julgou que ela, a lua, e elas, as estrelas, estivessem sendo coniventes com ela, a amada. Esperou então o sol, fez-lhe também a pergunta, e ele, o sol, olhou para ele, o enamorado, e ou não disse nada ou o que disse não serviu de conforto ao infeliz, que se atirou de novo na cama, embora fossem sete da manhã.

Lírica (673) - A promessa

Quando se cansava de uma mulher, prometia dar-lhe a lua, mas não a entregava, nem quando insistentemente cobrado. Assim se esquivou de muitas, até que uma o dispensou de cumprir a promessa. Ele se sentiu ofendido e disse que era questão de honra dar-lhe a lua. Ela, astuta, lhe respondeu que esperaria, e nisso se passaram já cinco anos, durante os quais em nenhum dia ela lhe falou da lua.

Lírica (672) - Nome

Dileta, cara, querida,
Assim eu posso exaltar-te,
Assim eu posso chamar-te,
Ou simplesmente de vida.

Lírica (671) - Néctar

Quando o buliçoso zumbido da voz da mulher chegou aos ouvidos do homem, ele olhou para os lábios dela a tempo de ver as abelhas formando alegremente as sílabas.

Lírica (670) - Alguém

Existe alguém que em mim pensa
E em quem eu penso também,
Que os meus desgostos compensa,
Alguém que é todo o meu bem.

Alguém para quem eu vivo
E que amo mais que a ninguém,
Alguém de quem sou cativo
E que de mim faz alguém.

Lírica (669) - Tudo-nada

Sabia que o amor não era tudo, porém nada que não fosse o amor lhe interessava. Nem a vida.

Lírica (668) - Monalisa

Sorriso às vezes tão terno,
E às vezes seco sorriso,
Que me darás hoje? O inferno
Ou enfim o paraíso?

Lírica (667) - A palavra

Dizer o quê?
Só sei falar
E soletrar
V, o, c, ê.

Lírica (666) - Falsa coragem

Também não te falarei
Das noites em que, sonhando,
Acabo te confessando
O que jamais te direi.

Lírica (665) - Letras

Não vou dizer-te nada. Tens razão. Débeis são as palavras, pobre arremedo daquilo que presumem expressar. Quem acreditará que três letras, que quatro letras, que cinco letras possam exprimir o que chamamos de mel, rosa, ardor?

Lírica (664) - Dever

Ditoso sou por saber
Que, para o meu coração,
Viver de amor ou morrer
É uma terna obrigação.

Lírica (663) - Contraste

A saúde do amor era tanta e o apertava num abraço tão poderoso que ele cada manhã se sentia mais fraco, mais entregue, mais doente - uma fraqueza, uma entrega e uma doença que ele insistia em julgar doces e em reverenciar.

Lírica (662) - Fervor

Sentir o amor nos tomar
E não poder proclamá-lo
É como um deus venerar
E não poder exaltá-lo.

Lírica (661) - Ode

Pensava nela e sentia
Enquanto nela pensava
Que pensar nela exaltava
O sol, a manhã, o dia.

Lírica (660) - Obstinação

Não mudas, não mudo.
O nada tecemos
E tolos perdemos
As tramas do tudo.

Lírica (659) - Flash

E tão menina tu estavas
Que eu até pensei que fosse
Uma haste de algodão-doce
A pasta que carregavas.

Lírica (658) - Horizonte

Talvez pudesses pintar
Um barco, um alvo veleiro,
E para um longo cruzeiro
Quisesses me convidar.

Lírica (657) - Aventureiro

Agora passava os dias no sofá, ansiando pela noite, quando o punham na cama e ele sonhava ser um audaz navegante que se batia contra piratas e os vencia em batalhas travadas em mares agitados por furiosas tempestades. Quando o primeiro raio de sol vinha acordá-lo do sono facilitado por comprimidos, ele se perguntava por que não havia sido atingido por um misericordioso golpe de espada e não tinha morrido na luta noturna.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Lírica (656) - Guardanapo

A tua mão esboçava
Alguma nova magia,
Porém o que me encantava
Era a mão que a produzia.

Lírica (655) - Tempo

Tão tarde ela chegou à vida dele que só teve tempo de lhe dar uma ideia daquilo tudo de que a morte, quando viesse, o privaria.

Lírica (654) - A moto

Primeiro ele colocou a garota na garupa da moto e deu umas voltas pelo bairro para mostrar o que ela fazia. Depois, levou a garota à casa dele para lhe mostrar o que, desde o início, realmente queria. A garota gostou mais da moto.

Lírica (653) - Ceticismo

Não, você não se lembrará de mim. Lembrar-se como, se todas as vezes em que nos encontramos eu tive a desdita de ver seus olhos postos não em mim, mas num pássaro, num menino vendendo balas, numa árvore florida ou num cachorro vadio?

Lírica (652) - Morte

Que privação maior pode trazer-me a morte além daquela que sofro sempre que estás longe?

Lírica (651) - Tardias

Um dia talvez te lembres daquele cara desengonçado e com jeito de pateta e, além de sorrir, quem sabe digas as palavras que não disseste quando ele queria tanto ouvi-las.

Lírica (650) - Sorte

Ter não a certeza, mas certa intuição de que para mim tua voz talvez soe diferente não por mérito dos meus ouvidos, mas por uma dessas venturas que às vezes o destino nos concede.

Lírica (649) - Gatinho

Seria um bom começo se aceitasses esta ternura que venho guardando para ti como quem aquece no colo um gatinho que ainda nem mia e tem nos olhos aquela remela que só nos bebês e nos gatos consegue ser um sinal de beleza.

Lírica (648) - Corça

Inocente beleza, tu te deixaste surpreender pelos meus olhos impuros quando, como uma alegre corça, foste beber a água fresca do regato.

Lírica (647) - Negros

Quando os olhos negros se fixaram nele, o homem começou um poema em que pedia: "Vem, poderosa noite, vem agora, vem, noite voraz, vem e me devora."

Lírica (646) - No dia

No dia em que eu enfim te abraçar, só te faço um pedido: não me deixes ir embora.

Lírica (645) - Frutinha

Soprar teus cabelos suavemente e procurar, no meio dos fios de ouro, aquela fruta miúda, bem miúda, que o passarinho, como oferenda, deixou cair do bico quando passavas.

Lírica (644) - Romântica

É romântica, dessas que anotam os abraços no diário e guardam os beijos em estojos perfumados.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Lírica (643) - Mesmo?

Não creio que tenhas mesmo dito que meus olhos são os mais tristes que conheces. Vejo-te olhar para a frente, para trás, para os lados, e jamais te vi olhar para onde, olhando para ti, estou.

Lírica (642) - Travesseiro

Sabia que tinha alma porque ela lhe doía insuportavelmente de manhã, à tarde e à noite, se de manhã, à tarde e à noite a bem-amada não respirasse o ar que ele respirava. E doía-lhe também, e quanto, nas madrugadas em que, acordando, olhava para o lado e via o travesseiro vazio.

Lírica (641) - Primário

Haver nascido depois, bem depois, e ter sido aquele menino que um dia tu apontaste para a tua amiga, no segundo ano primário, cochichando: "É aquele da mochila azul, ali. Daquele é que eu gosto."

Lírica (640) - Bravata

O menino aproximou-se ardilosamente do raio de sol no ladrilho e, saltando sobre ele, o aprisionou com as duas mãos. Deliciou-se por um momento com a conquista, mas logo seu espírito aventureiro o instigou de novo e ele, agora cheio de confiança, olhou para cima, para o sol, e lançou o desafio: "Desce, desce aqui, se você for homem."

Lírica (639) - Encontro

Não acontecerá nada,
Nada de nada e, contudo,
Ai, ilusão exaltada,
Nesse nada haverá tudo.

Lírica (638) - Safadinho

O sol seguiu a garota por três quarteirões e, quando ela entrou no colégio, ele, velho pilantra, se pôs a acompanhar outra, de saia ainda mais transparente, torcendo para que fosse mais longo seu caminho.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Lírica (637) - Presente

Menina, o que vou te dizer, o que vou fazer? Qualquer palavra, qualquer gesto, mesmo a mais bela, mesmo o mais significativo, nada diriam, nada expressariam dessa beleza simples, dessa beleza única, que és tu, tu apenas, imerecido presente para os meus olhos cansados.

Lírica (636) - Querida

Dizer-te querida é pouco,
Mas hoje e sempre direi,
Querida, e repetirei,
Querida, até ficar rouco.

Lírica (635) - Pergunta

Não vou dizer-te mais nada.
Não basta aquela palavra
Colhida na pura lavra,
Aquela curta e singela
Que é de todas a mais bela?
Não basta? Diga-me, amada.

Lírica (634) - Gata (para Julianne Moore)

Felizes os dias
Em que vos pressinto,
Pegadas macias,
Pegadas de absinto,

Pegadas de fada,
De fofo algodão,
Pisando a calçada,
Transpondo o portão.

Lírica (633) - O abraço

Antes de se deitar, pegou o gato e, pensando no homem, o abraçou. No dia seguinte, o homem notou o arranhão profundo no braço dela, mas ela não lhe contou, embora tivesse vontade, que o gato lhe havia feito aquilo por não suportar a intensidade do seu abraço.

Lírica (632) - Grega

Beijar-lhe a boca seria
Poder afinal provar
O gosto único, sem par,
Da divinal ambrosia.

Lírica (631) - Idade

Já que seu amor não pode ser o de um adolescente, gostaria que suas lágrimas fossem, e que ele tivesse a ilusão de poder se afogar nelas, e que lhe fosse permitido apregoar que sua dor é a maior dor do mundo e dizer que se matará de desgosto, e que nisso tudo ele tivesse a pura convicção que só os jovens podem ter e que, assim, se não pode mais fruir com lábios juvenis a doçura do amor, que seus olhos o enganem ao menos pelo tempo necessário para que ele chore com a força de um adolescente a dor suprema e preciosa, aquela que só o amor sabe causar.

Lírica (630) - Arrepio

Ainda deitada, a menina não compreende a sensação meio fria, meio morna, que lhe corre o corpo quando o sol sobe devagar dos seus pés aos seus olhos semidespertos.

Lírica (629) - O poeta

Os lábios dela talvez não tenham sabor de mel, mas quem convencerá o poeta disso?

Lírica (628) - O segredo

Dos quarenta serviçais do palácio, o único para o qual a jovem princesa jamais olhava era quem sabia que um pouco acima do umbigo dela havia uma pequena pinta.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Lírica (627) - Gravidade

Era já a segunda noite em que, debaixo da árvore, esperava ver surgir sua querida na janela da casa, quando um abacate, recentemente informado da lei de Newton, desabou sobre sua cabeça - o que, ao contrário do que aconteceria se fosse uma novela, não lhe devolveu nem um pingo de juízo nem o demoveu da espera.

Lírica (626) - 4 a 3

Quando a menina, alegando cansaço, parou de jogar futebol com ele e, abraçando-o subitamente, lhe acertou um beijo bem no centro dos lábios, o menino, que estava perdendo o jogo por 4 a 3 e viu nisso um pretexto dela para se livrar do empate, empurrou-a, pegou a bola e avisou: "Não brinco mais!"

Lírica (625) - Eu, tu, ele

Não sei, não sabes, não sabe,
Do amor jamais saberei,
Saber do amor não me cabe,
Me cabe amar, e amarei.

Lírica (624) - Mindinhos

Nem sempre pensa em abraços e beijos. Às vezes acha que se contentaria em andar com ela pelas alamedas de um parque, nem sequer de mãos dadas, mas apenas com o dedo mindinho suavemente enganchado no dedo mindinho dela.

Lírica (623) - Nome

Espera que a morte não lhe doa muito e não o obrigue a clamar por Deus, porque no derradeiro momento é outro o nome que ele quer pronunciar.

Lírica (622) - Rosa

Queria aspirá-la inteira, como se ela fosse não uma mulher, mas o aroma adocicado de uma rosa.

Lírica (621) - Lembrete

Já sabe que nome dirá quando estiver nos estertores da morte, mas mesmo assim, temendo uma traição da memória, ele o repete várias vezes durante o dia e leva sempre, no bolso da camisa ou no do pijama, um papelzinho que, sob o olhar intrigado da balconista, na semana passada ele mandou plastificar, numa papelaria.

Lírica (620) - Pouco

Destroçado pelo amor, só não se matou por julgar que o suicídio seria um alívio muito pequeno para a sua perda.

Lírica (619) - Metamorfose

Para se desagravar de uma calamidade amorosa, ele laboriosamente se convenceu de que a mulher amada, no fundo, não era senão uma ideia criada no seu cérebro e, com algumas horas de exercício diante do espelho, conseguiu trocar seu melancólico sorriso de amante frustrado por um sorriso cético que lhe ficou muito bem, a ponto de os amigos lhe sugerirem, para completar sua estampa de filósofo, um cachimbo que lhe ornasse elegantemente o canto da boca.

Lírica (618) - Um dia

Um dia, não sei quando, o vento empurrará para os teus pés não uma flor, mas uma dessas folhas para as quais ninguém olha, mas que tu olharás com um suspiro que desde já me comove.

Lírica (617) - Floração

Houve sempre, em mim, certos prenúncios de florescimento, certos indícios de plenitude e certos arrepios de primavera que jamais se confirmaram, talvez porque estivessem esperando por você.

Lírica (616) - Como se

Se vier esse dia, eu te olharei como deve ser olhado alguém que a vida inteira se esperou e que se receava nunca chegar a ver.

Lírica (615) - O que é

Gostaria de lhe dizer que, quando você fala, acontece em mim alguma coisa que eu não sei lhe dizer o que é, porque é diferente e única, e que só é o que é quando você fala.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Lírica (614) - Artista

Porque não te satisfaz o mundo, recortas, colas, pões, dispões, superpões, te colocas completa naquilo que fazes e, quando terminas, já pensas no que irás recortar, colar, pôr, dispor e superpor em seguida, porque aos artistas se concedeu a aflição da beleza e a tarefa de achá-la e perdê-la, e de achá-la e perdê-la de novo, sempre, infinitamente.

Lírica (613) - Sim

Um dia talvez descubramos, tu e eu, que nem tu nasceste para mim e nem eu para ti. Até lá, o que nos custa ouvir o cálido som desta voz que diz sim?

Lírica (612) - Comparação

Tua beleza não é igual à do dia. A do dia morre.

Lírica (611) - O jogo

Aquele menino que fui, como tenho saudade dele quando me lembro dos joguinhos que ele me ensinou, e que me deleitaram, e como ele me aborrece quando me recordo daquele jogo maior, cujas regras ele desconhecia e no qual, porém, insistiu em me iniciar, aquele jogo em que me empenhei pelo resto da vida, me debati e perdi sempre, aquele que tinha uma caixa bonita, cheia de peças dentro, e o nome posto dentro de um coração atravessado por uma flecha.

Lírica (610) - Pombo

Ciscou pela calçada, deu três bicadinhas, bebeu água da sarjeta e alçou voo: tão pouco alimento para tamanha formosura.

Lírica (609) - Boneca

Faria para ela uma boneca que dançasse para alegrá-la, que lhe enxugasse os olhos quando estivesse triste e que à noite a ninasse com uma canção que falasse de uma princesa igual a ela, só que não tão bonita.

Lírica (608) - Dela

Queria ser o menino dela e não dar dez passos sem que ela se preocupasse com ele, dormir ouvindo as histórias que ela lhe contaria, aninhar-se no seu colo e obedecer a tudo que ela impusesse, menos quando ela, sem fôlego, o mandasse parar ímediatamente de beijá-la.

Lírica (607) - Visão

A memória insiste em lembrar aquela manhã e, cada vez que reconstitui como estavas, acrescenta um detalhe de beleza, uma nuance, um meio-tom que me fazem ver, hoje, como eu não estava preparado para olhar-te e como, extasiado com o todo, me alheei das partes.

domingo, 5 de setembro de 2010

Lírica (606) - Quiromancia

Pegando a mão dele, ela começou a ler seu futuro, e ele lhe disse, com um pouco de galanteria e total certeza, que seu destino estava não na mão dele, mas nas mãos dela.

Lírica (605) - Matinês

Se conseguisse levá-la ao cinema, confiava em três planos que montara aproveitando artimanhas usadas por ele décadas antes, nas nunca esquecidas matinês.

Lírica (604) - Rima

Enquanto ela mordisca um pão de queijo, ele, poeta amador, pensa na mais óbvia das rimas e, juntando os lábios, põe-se a imaginar coisas.

Lírica (603) - Passos

Estiveram várias vezes para dar o passo que faltava, mas sempre hesitaram. Hoje, se fossem dar os passos que faltam, talvez um dia inteiro não lhes bastasse.

Lírica (602) - Mais

Se ouvires alguém comentar que és bela, muito bela, extremamente bela, não precisas olhar para trás, porque não sou eu. Eu não diria apenas isso.

Lírica (601) - Exemplo

Pena que os teus olhos não se habituem a se fixar um pouco mais em mim. Por que eles restringem assim a exposição desse magnífico exemplo de azul?

Lírica (600) - Peixes

Sempre que pedes aos dedos que ajeitem os teus cabelos, por um instante eles se rebelam, porque sentem ciúme, mas depois, como se peixes fossem, mergulham nas águas douradas.

Lírica (599) - Perspectiva

Não tenho nada. Meu signo
Não é o dos triunfantes.
Sou fraco, reles, indigno.
Morrer me resta, e o quanto antes.

Lírica (598) - Balde

Quando menino, ouvindo que alguém bebera demais e depois vomitara até a alma, ele prometeu a si mesmo que, se um dia lhe viesse a necessidade de vomitar, o faria dentro de um balde, porque lhe tinham dito que a alma era a mais preciosa parte de um ser humano.

Lírica (597) - Pluma

Com as doenças, seu corpo foi minguando até se tornar leve como o de um mirrado menino de cinco anos. Mesmo assim, pesava-lhe demais e o obrigava a manter-se ou sentado ou deitado. A ideia de ter uma alma passou a ser seu conforto e, na poltrona ou na cama, sonhava com a manhã em que se desprenderia da carne e voaria como um passarinho para a mais distante das nuvens. Por desejo ou por acaso, seu sonho foi se refinando e algumas vezes ele já se via não como um passarinho, mas como uma pluma soprada na direção do sol.

Lírica (596) - Juvenil

Na quinta tentativa, conseguiu puxar com a língua a balinha da boca da garota e, depois disso, concentrou-se no filme, repelindo com astúcia e firmeza os beijos que ela, possivelmente com espírito de revanche, tentava dar-lhe.

Lírica (595) - Assustado

A garota, três anos mais velha, o encostou na parede, o sufocou de beijos, mordeu-lhe os lábios, disse-lhe para dentro da boca a palavra amor, e ele só queria um afago, um abraço, algo que o preparasse aos poucos para aquele arrebatamento de paixão com o qual ele, menino, ainda não estava acostumado, embora já tivesse dez anos e meio.

Lírica (594) - Soneto

Não há mais poetas que façam sonetos. Quem dispõe de tempo hoje para catorze versos, ainda que a amada mereça muito mais que os dois quartetos, os dois tercetos e até a chave de ouro?

Lírica (593) - Redondilha

Na garganta do poeta morto, o legista encontrou um nódulo que, tocado, emitiu sete sílabas que compuseram uma agradável redondilha.

sábado, 4 de setembro de 2010

Lírica (592) - Louvor

Gastei anos em louvar-te
E, quando não te louvei,
Meu tempo desperdicei
E jus não fiz à minha arte.

Lírica (591) - Post mortem

Já sei, não és dadivosa.
O fruto não irei ter.
Talvez venha a ter a rosa,
Mas só depois de morrer.

Lírica (590) - Pleno

Não quero nada. Quem quer
Alguma coisa se tem
Na boca, e na alma também,
O nome de uma mulher?

Lírica (589) - Desalquimia

Misturo tua beleza,
Teu esplendor e teu ouro
E transformo esse tesouro
Em pedra, em ganga, em dureza.

Lírica (588) - Você

Já me cansei da poesia.
Só penso agora em você,
Que é quando, como, por quê,
Razão de ser, alegria.

Lírica (587) - Figuração

Resiste, ainda. Não quer
Revelar isso a ninguém,
Mas sabe já que não tem
Uma esperança sequer.

Lírica (586) - Perfume

A brisa passou pelo canteiro de flores, escolheu o mais suave dos perfumes e o levou até onde estavas aspirando o primeiro ar da manhã de primavera.

Lírica (585) - Nuances

Doce, sonhou abraçá-la.
Terno, quis enaltecê-la.
Sedento, almejou bebê-la.
Fera, pensou devorá-la.

Lírica (584) - Fêmea

Clemência! Tua beleza
Agarra a minha ternura
E a despedaça, e a tritura,
Minha impiedosa tigresa.

Lírica (583) - Perseverança

Jamais terei o que espero.
Porém, bem alto ou baixinho,
Peço como o passarinho:
Quero, quero, quero, quero.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Lírica (582) - Doce amargura

Se menos cruel tu fosses
E tanto não me doesses,
Se em vez de amargos, só doces
Frutos tu me oferecesses,

Serias, amor, louvado,
Mas menos. As agonias
Com que tu tens me matado
Valem mais que as alegrias.

Lírica (581) - Quando

Amor, a ti me curvei,
Buscando em ti minha paz.
Amor, em ti confiei,
Amor, quando me erguerás?

Lírica (580) - Modernos

Amaram-se durante anos e - porque esse amor foi vivido só na internet, e pela internet morreu - puderam dizer, com um orgulho que talvez escondesse um bocado de frustração, que tiveram uma convivência virtual e virtuosa.

Lírica (579) - Erro

Dirás talvez que eu errei
E que te louvei demais.
Te digo que me enganei
Por não louvar-te ainda mais.

Lírica (578) - Mãe

Sua mãe lhe dizia que, quando crescesse, as mulheres não resistiriam aos seus cabelos loiros e aos seus olhos verdes. Resistiram, porém, e tantas vezes, que ele precisou reconhecer que a mãe mentira, uma decepção agravada porque a mentira se exercera sobre uma criança. Hoje, lamenta não poder lançar-lhe ao rosto essa decepção, já que ela está morta faz muito tempo, e mostrar-lhe que os cabelos loiros sumiram quase todos e o faiscante verde dos olhos se transformou num azul opaco.

Lírica (577) - Rival

A brisa jogou em seus cabelos uma flor que ela, pelo susto ou por ciúme, atirou longe, continuando a andar pela avenida, com sua agora incontestada beleza.

Lírica (576) - Agrado

Sabia que aquela era uma das últimas vezes, talvez mesmo a derradeira, que desfrutaria o sol na praça. Isso não o entristeceria muito (já vinha se preparando havia algum tempo), se a garota de uniforme colegial, que ele via passar sempre, às cinco horas, não lhe desse um sorriso pelo qual ele ansiara durante dois anos e que, mais por lógica que por superstição, ele avaliou como um agrado da morte antes de vir buscá-lo.

Lírica (575) - Futuro

Terei partido, terás
Ficado. O que foi vivido
E o que não foi, o sofrido
E o gozado, lembrarás.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Lírica (574) - Queixa

Aquilo que digo a ti,
Até as coisas mais sérias,
Te parecem ti-ti-ti,
Besteiras, piadas, lérias.

Lírica (573) - Estações

Embora o queiras eterno,
O teu amor vai morrer,
Assim como as estações:
Depois do outono o inverno
Depois do ser o não ser,
Após a paz os tufões.

Lírica (572) - Nascente

Não olho o sol. Não preciso.
Meu sol não nasce no leste,
No sul, no norte e nem no oeste,
Nasce onde está teu sorriso.

Lírica (571) - Tempo

O tempo vem e consome
O amor que não se viveu,
A flor que não se colheu,
O fruto que não se come.

Lírica (570) - Sol

Naquela manhã, o homem deu-se conta de que não olhava para o sol fazia muito tempo. Quando olhou, o achou muito mudado, e só podia mesmo estar: na última vez em que o havia visto devia ter dez anos e seguia o incerto voo de uma pipa.