terça-feira, 30 de novembro de 2010

Lírica (1.257) - Preliminares

Relembra a primícia,
O tato leve, o contato,
A breve carícia.

Lírica (1.256) - Frisson

Agora já não
Desliza na pele lisa
A palma da mão.

Lírica (1.255) - Gota

Supôs ser uma gota leve, descendo devagar, maniacamente devagar, pelo meio das espáduas e, chegando a certo ponto, para o qual convergia seu sangue tumultuado, imaginou parar ali, porque - por uma rebelião da física e das maçãs e por um engano tardiamente descoberto na teoria de Newton - a lei da gravidade havia sido amplamente refutada.

Lírica (1.254) - Acordo

Então fiquemos assim:
Eu te amo adoidadamente,
Mesmo que provavelmente
Nem gostes muito de mim.

Lírica (1.253) - Desvio

Quando a mulher ergueu a blusa e deixou à mostra o umbigo, o homem foi tomado por uma afetuosidade tão morna e infantil, uma ternura tão desfalecente que se sentiu incapaz, naquele momento, de consumar o que tinha premeditado fazer no quarto onde o crepúsculo começara a se infiltrar. Precisou reconvocar toda sua seiva e honra de macho para não ficar apenas acariciando interminavelmente aquele umbigo que o induzia a lembrar-se da infância, de quintais onde pequenas laranjas, com umbiguinhos graciosos, embora um tanto azedinho fosse seu gosto, estimulavam furtivas incursões.

Lírica (1.252) - O nome

Comprou na papelaria uma caixa de lápis de cor, pegou uma folha e, com capricho escolar, escreveu um nome de mulher. Retocou, melhorou, esmerou-se na combinação de cores, e depois, como se fosse devoto de uma seita, beijou demoradamente o nome, tendo como única testemunha o sol matinal. Não sabia ainda, mas iria repetir esse ritual por vinte anos, até os sessenta, quando morreu. Estava com quarenta no dia em que, como se fosse um menino, sob o receio de ser denunciado pelo sol, escreveu o nome com a singela magnificência dos doze lápis de cor.

Lírica (1.251) - Desgramática

Eu amo você, eu quero você, ele escreveu, com tanta espontaneidade e descaso com a gramática, que soube: amava mesmo ela, queria mesmo ela.

Lírica (1.250) - A palavra

No clímax do arrebatamento, ele disse, murmurou, repetiu uma palavra que depois, por dias e dias, noites e noites, tentou resgatar. Não era Topkapi, não era Katmandu, não era Timbuktu, não era Eufrates. Sem conseguir encontrá-la, e cada vez com menor esperança, fruía sempre menos o deleite amoroso.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Lírica (1.249) - O toque

Será mais leve que o vento
Beijando o louro trigal,
Será tão breve, tão lento,
Quanto o voo de um pardal.

Lírica (1.248) - Deserto

Disseram-lhe onde era o norte
E sem cessar caminhando,
O corpo e a alma esfolando,
Chegou afinal à morte.

Lírica (1.247) - 39 e meio

Pela febre transtornado,
A calma que ele queria
Virara brasas e ardia
E ansiava pelo pecado.

Lírica (1.246) - Sempre

Aquilo que é essencial
Não passa nem passará.
É sempre agora, hoje, atual,
E vive, e existe, e está.

Situações (167) - Boas-vindas

Na época em que havia ainda certa cortesia, podiam ser vistas na entrada das casas umas madeirinhas que recepcionavam carinhosamente os visitantes: seijem bem vindos, seijam benvindos, sejas binvindos. Nunca vi ninguém que se importasse minimamente com as afrontas às normas gramaticais. Sorriam todos, uns para os outros, e que o vernáculo, aquele tipo metido a besta, fosse cantar em outra freguesia.

Lírica (1.245) - Delicadeza

Se precisasse tocá-la,
Recorreria a uma pluma,
A uma brisa ou a nenhuma,
Para não despetalá-la.

Lírica (1.244) - Negativo

Quando eu me for, lembrarás
De mim, talvez. Pobrezinha!
Para uma boa coisinha
Ou duas, tantas tão más...

Lírica (1.243) - Completude

Quando sente sede, o sol espera até as sete ou sete e meia, horário em que a mulher, depois de ofertar os cabelos ao chuveiro, sai para a rua e os oferece ainda úmidos à manhã, que só então se sente completa em sua beleza e aceita o louvor dos pássaros.

Lírica (1.242) - Vezes

Nada de odes ou passagens épicas. Gostaria que me procurassem as palavras certas, bem simples, para que eu pudesse escrever um pequeno poema, uma quadrinha, um ou dois versos nos quais dissesse apenas - e quanta grandeza haveria nesse apenas - que esta cidade será para mim a melhor de todas, sempre, porque foi aqui que tive uma dessas venturas que parecem tão comuns e, no entanto, são como respirar. Foi aqui que - possa eu lembrar-me de todas - te vi algumas vezes, poucas vezes, as raras vezes que o destino me proporcionou, e que serão sempre vezes tão notáveis que me arrependerei, como me arrependo agora, de não escrever uma epopeia.

Lírica (1.241) - Natureza

O vento no cio
Espreita e febril se deita
No dorso do rio.

Lírica (1.240) - Corcel

Na alma ele tem um cavalo
Que, quando pressente uma égua,
Revoluteia sem trégua
E quer até derrubá-lo.

Cavalo farejador,
Destruidor de porteiras,
Corcel que ignora fronteiras
Quando o chicoteia o amor.

Lírica (1.239) - Senha

Em algum canto da sua alma, guardada para uma emergência, há uma reserva de ternura à qual, porém, sempre que ele quer recorrer, jamais tem acesso, porque seu confuso coração esqueceu a senha.

Lírica (1.238) - Afeto

Até no silêncio, quando
Nem sequer pensamos nela,
Continua germinando
A flor do afeto, a mais bela.

Lírica (1.237) - Animal urbano

Para o explorador urbano,
O caminhão, subjugado,
Carrega a carga pesada,
Transporta o ferro forjado,
Conduz a pedra lascada.

Para o homem desumano,
Para o homem desalmado,
Faz dupla e tripla jornada,
Faz o trabalho forçado,
Traz a riqueza dourada.

Eu te vejo, caminhão,
Eu te ouço na minha Sampa,
Gemendo o teu desengano,
Subindo e descendo a rampa,
Aflito animal urbano.

Lírica (1.236) - Rosa dos ventos

Que porto seguro, o teu,
Imune à fúria marinha,
Que rumo inseguro, o meu,
Que nave insegura, a minha.

Lírica (1.235) - Astúcia

De todos os que ele usou,
Somente um estratagema
(Um texto bobo, um poema)
A bem-amada aceitou.

Lírica (1.234) - Tratamento

Irei chamá-la de quê?
De amada e de bem-amada
Chamei-a já tanto, e nada...
Chamo-a agora de você.

Lírica (1.233) - Fatalismo

Se um dia não me quiseres,
Eu, não por ira ou fadiga,
Mas porque és única, amiga,
Direi adeus às mulheres.

Lírica (1.232) - Mimo

Que em mim não creias aceito.
Quem sou para censurar-te?
Mas olha: para louvar-te,
Sangro a alma e rasgo o peito.

Lírica (1.231) - Trilha

A sina dos meus passos é seguir os teus passos a certa distância, porque não os merecem, mas nunca a uma distância tal que eu não possa ouvi-los indicando o rumo do meu afortunado destino, ainda que seus pés não conheçam esse poder nem queiram exercê-lo.

Lírica (1.230) - Indiferença

Era frio. Dava de ombros
A tudo, e a nada ligava:
Nem o edifício exaltava,
Nem lamentava os escombros.

Lírica (1.229) - Safra

Com gozo e deleite
O dia aproveite.
Cada hora ofertada
Seja desfrutada
E o fruto colhido
Não seja esquecido
E teça a memória
E viva na história
Enquanto não vêm
Nem a morte nem
O suave abandono
Do infindável sono.

Lírica (1.228) - Crepúsculo

Um violino vem e fere a tarde na jugular, naquele instante em que a noite, para reivindicar seu domínio, impõe o sacrifício do sol, aquele fanfarrão que, não tendo a oferecer senão seu enfadonho drama de todos os dias, se acaba em sangue e dá lugar às estrelas, à lua, aos pirilampos e às luzes dos navios, indicando às mulheres que seus amados estão a caminho, com a fome e a sede espicaçadas por meses no mar.

Situações (166) - Bijuteria

Com a ajuda do vento, o sol pôs-se a peneirar as gotas de chuva e a emprestar a cada uma seus fios de ouro. Um casal de jovens namorados parou para olhar, deslumbrado, mas outro casal, um pouco mais velho, que vinha logo atrás, balançou a cabeça, e o homem, entre saudoso e desdenhoso, disse à mulher: "Olhe aí, nós já passamos por essa fase, lembra?" "É", disse ela, desanimada. "Faz um bom tempinho, já. Olhe esse sol aí. Eu acho que não é o mesmo. Viu a cara dele? Está diferente, não está?" O rapaz abriu o guarda-chuva, ajeitou-se embaixo dele com a garota e os dois, mudando de assunto, foram embora.

Situações (165) - O coveiro

Aquela manhã trouxe, além do sol, um passarinho morto que o menininho viu ao abrir o portão. Com nojo de pegá-lo, empurrou-o com o pé para a frente da casa dos vizinhos. A ave morta passaria a ser problema deles. Depois, sentindo-se nojentamente culpado, pensou que deveria colocá-lo em uma caixa ou saco plástico e, com a ajuda de algum amigo da rua, enterrá-lo. Estava pensando em que amigo chamaria e imaginando os ritos fúnebres adequados a um pássaro, quando o gato dos vizinhos, chegando sem que ele o pressentisse, tornou desnecessário qualquer projeto. Seria um alívio pleno se, quando o gato abocanhou o passarinho, o menino não tivesse julgado ouvir um piado fraco, bem fraco.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Lírica (1.227) - Suicida

Se desta vez não morrer,
Depois do esforço que fez,
Já sabe o que vai fazer:
Vai tentar mais uma vez.

Lírica (1.226) - A vingadora

Teve do amor mais do que merecia. Sofreu muito, chorou rios de lágrimas (imagem registrada num dos seus poemas) e quase alcançou a glória de morrer de desgosto. Foi essa frustração, a de não ser trespassado mortalmente pela lança de Eros (imagem encontrada em outro poema) que o fez desdenhar definitivamente da amada, incapaz de supliciá-lo quanto ele queria. Espera ter melhor sorte na próxima vez e suspira por uma mulher que, tendo sido martirizada pelos homens, almeje beber o sangue do primeiro com quem se deparar e o chicoteie com a santa fúria das vingadoras e crave os dentes no seu pescoço de frango.

Lírica (1.225) - Não

Podendo, só com um sorriso,
Fazer alguém desfrutar
A sensação de paraíso,
Há quem se obstine em negar.

Lírica (1.224) - Jornada

Amor, meu alvo veleiro,
Que a túrgida tempestade
E que a procela e o nevoeiro
Não firam tua majestade.

Lírica (1.223) - O que for

Tomado pela apatia,
Tanto espera boa sorte
Quanto aceita boa morte
Na sala de cirurgia.

Lírica (1.222) - Adversativas

Enquanto durou, foi tudo,
Foi todo o almejado bem,
Mas veio o mas, o porém,
O todavia e o contudo.

Lírica (1.221) - Ela

Virá sem se nomear. Eu não saberei quem ela é, e ela não precisará dizer uma palavra. Seus gestos serão os de uma namorada convidando a um longo passeio. Eu a acompanharei como não acompanhei jamais ninguém, nenhuma mulher, e haverá na brisa um perfume que não poderá ser atribuído a nenhuma das flores que se abrirão para nós nos dois lados do caminho. Pensarei que seria esse o olor de uma estrela, se estrelas tivessem olor. Meu corpo, liberto dos desejos terrenos, dançará, não tão graciosamente quanto o dela, mas ela me dirá que os principiantes são assim. Caminharemos para um lugar que não chegará nunca, e eu conhecerei enfim a bem-aventurança de andar por andar, sem ansiedade nenhuma, sem nenhum objetivo, andar sem a necessidade de ser homem, sem a necessidade de ser nada - um floco de nuvem flutuando de mãos dadas com outro floco de nuvem.

domingo, 21 de novembro de 2010

Lírica (1.220) - Mídia

A vida pode chegar
E a morte pode também
Pelo e-mail, pelo msn,
Pelo bip do celular.

Lírica (1.219) - Aprendizado

Há tempo não é mais criança.
Sabe agora que as manhãs
Só trazem falsa esperança
E as mesmas promessas vãs.

Lírica (1.218) - Farsante

Morrer talvez por engano,
Por um garçom, uma pajem
Ou por um latifundiário
E receber, ano a ano,
A comovida homenagem
De falso beneficiário.

Lírica (1.217) - Aquele

Aquele que conheceste
E tanto te enalteceu
Não mais existe, morreu
No dia em que o esqueceste.

Lírica (1.216) - Comparando

Chora o fim de uma ilusão.
Se um câncer o flagelasse
Ou a pior maldição,
Talvez ele não chorasse.

Lírica (1.215) - A ré

A culpada é sempre a vida.
Não é a morte que nos mata,
É a vida que nos maltrata,
É a vida que nos trucida.

Lírica (1.214) - Autodidata

Agora, quando lhe falam de morte, não faz mais aquele ar de quem não entende nada do assunto. Sorri, esquivamente, como se tivesse uma informação que a qualquer momento revelará, para espanto de todos.

Lírica (1.213) - As damas da noite

Andava pela rua das mulheres e sentia-se como na época em que, menino, ficava diante dos doces de uma confeitaria. Apalpava as notas no bolso. Precisava certificar-se de que continuavam lá e de que no momento exato e bem-aventurado lhe dariam acesso à escada malcheirosa que o conduziria ao quarto sujo onde sob uma lâmpada de luz baça, crivada de excrementos de mosca, agonizaria longa e deleitosamente. Era feliz. Não conhecia o amor, só as convulsões do sexo.

Lírica (1.212) - Serve pra quê?

Se o amor não fizer sofrer,
Se o amor não nos destroçar,
Quem há de o tempo perder,
Quem há de o amor cultivar?

Lírica (1.211) - Ressentimento

Do amor não guarda memória.
É o que ele diz, magoado.
Mas, sempre que provocado,
Acaba contando a história.

Lírica (1.210) - Mornidão

Amor sem tumulto
E sem convulsão
É como um insulto
À imaginação.

Lírica (1.209) - Megalômano

Imaginava-se amado
E tolo se comprazia
Em ser o rei de um reinado
De sonho, de fantasia.

Lírica (1.208) - Pasmaceira

O amor só vale se é incerto,
Se causa dor, provação.
Se por desgraça dá certo,
Vira hábito, obrigação.

sábado, 20 de novembro de 2010

Lírica (1.207) - Doces lobas

Mulheres da zona
Que dáveis a cona
Nas tascas daninhas
Amáveis putinhas
De bocas pintadas
E bundas tatuadas
De curtas bermudas
E coxas coxudas
Notáveis fodentes
Com ouro nos dentes
Nas camas deitadas
Nas longas noitadas
Colhendo as sementes
De todas as gentes
Do velho tarado
Do moço acanhado
Do tosco açougueiro
E do sapateiro
Do gordo gerente
E do subtenente
Do cara biruta
Do filho da puta
Mulheres leais
Mulheres reais
De preço acertado
De frete fechado
Mulheres honestas
Muito mais do que estas
Que não nos enlevam
E a alma nos levam
E quando se entregam
A entrega renegam
Putinhas de outrora
Eu vos canto agora
Putas indecentes
Putas inocentes
Putinhas escrotas
Putinhas marotas
Putinhas sem eira
Putinhas sem beira
Sem lar sem comida
Mulheres da vida.

Lírica (1.206) - My dear Meg

Talvez um dia isso mude,
Mas hoje clamo e proclamo
Que a escritora que mais amo
És tu, Margaret Atwood.

Lírica (1.205) - Manual do amor

Com a própria mão, uma artista
Talentosa e nada feia,
E depois, com mão alheia,
Uma sensual massagista.

Lírica (1.204) - Aparências

Um bate-papo sereno
E um diálogo de bom-tom
Às vezes são um veneno
No recheio de um bombom.

Situações (164) - Moedinha

Dediquei minha vida à literatura. Parece pomposo isso, e é. Um pipoqueiro jamais diria isso, porque um pipoqueiro, assim como um sorveteiro ou um vendedor de cachorro-quente, não foi contaminado pela grandeza artificial das palavras. Eles não sofrem crises existenciais, não se entregam a longos monólogos e não sabem o que são fluxos de consciência. Eu sofro, eu me entrego, eu sei. Mas jamais sentirei a alegria descomplicada de ver um garoto se afastar sorridente, levando um tesouro na mão, em troca de uma moedinha. Sou um escritor. Dediquei minha vida à literatura. Que tesouro posso dar a alguém em troca de uma moedinha?

Situações (163) - Mártir

Não se arrepende de nada, de nada se queixa. Foi premeditado. Buscou a amargura sempre, mesmo quando simulava cortejar a alegria. Tudo que sofreu quis sofrer. Só tem uma decepção: imaginava que morrer de amor fosse mais belo, mais triste, mais pungente. É um mártir envergonhado com a pequenez de seu martírio.

Situações (162) - Balela

Explicam-lhe que, quando o corpo é ferido ou mutilado, a alma se fortalece. Ele, bem-educado, concorda, como sempre concordou com tudo, mas sua vontade é dizer, como diz agora, que a alma não passa de algo que se invoca como consolo, quando nada mais há para se invocar.

Lírica (1.203) - Coerência

Está feliz agora, sozinho. Ninguém lhe diz mais como é importante um sorriso e como é bela a vida. Pode agora abominar tudo, desdenhar tudo, execrar tudo, e xingar e praguejar e chorar com toda a força e toda a desesperança do seu ser.

Lírica (1.202) - Imune

Quer as sombras, almeja as trevas, anseia pela escuridão. Descobriu (e destroçou a alma para descobrir) que as desgraças, as catástrofes e as calamidades que o atormentam se acumpliciam com o sol para lhe mostrar a face enganosa. Fechado no quarto, ao qual maniacamente veda a entrada da luz, está livre de ser outra vez seduzido pelos olhos, pelo sorriso, pela boca, por um corpo de mulher.

Lírica (1.201) - Zeloso

Guardião da melancolia,
Não deixa que se aproxime
De sua dama sublime
Ninguém que gargalhe ou ria.

Situações (161) - Ablação

Conservará a imaginação e ela o entristecerá agoniadamente quando num filme ou num livro, ou numa dessas ruas às vezes tão ensolaradamente paulistanas, surgir uma mulher que o faça lembrar-se de algo cuja fruição só será possível dentro dos limites já tão restritos da memória.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Situações (160) - A nova vida

Quando se dissiparem as névoas da anestesia, lhe dirão que tudo foi um sucesso e ele terá pelo menos mais dez anos de vida. Que, por misericórdia divina, no momento dessa revelação não haja no quarto uma enfermeira nem sequer razoavelmente bela, que não haja enfermeira nenhuma, nenhuma mulher, para que ele possa começar a fruir os maravilhosos e calmos anos que lhe estão destinados. Essa nova vida, pela qual recebe congratulações antecipadas, já o enche de calafrios de tédio e vergonha. Sua única esperança é a de que aos sonhos não chegue a informação do que lhe cortaram na cirurgia e ele possa ao menos uma vez por semana ter a ilusão de que sua seiva corre ainda generosa, juvenil, mesmo que, ao acordar da orgia, não haja na cama senão o triste e acre cheiro de urina.

Lírica (1.200) - O motivo

Se ele tiver se salvado,
Seja lá pelo que for,
Não há de ser pelo amor,
Porque o amor lhe foi negado.

Viverá pelo rancor
Contra si mesmo voltado,
Por ter no amor confiado
E no seu falso esplendor.

Situações (159) - Traição

Às vezes até sorri, mas isso lhe exige um esforço tão grande e representa uma traição tão sórdida à sua alma que logo ele se recompõe e chama as lágrimas.

Situações (158) - Discurso

Não sabe ainda o que vai dizer à Morte. Às vezes acha que, pelo tempo dedicado à literatura, será conveniente que suas palavras finais tenham certa pompa, talvez até algum brilho. Mas ultimamente vem pensando que será melhor esquecer o formalismo e, pelo bem e pelo alívio que ela lhe trará, olhar a Morte com gratidão e dizer-lhe simplesmente obrigado, minha amiga.

Situações (157) - Confraria

Passeia ao luar com os defuntos
Nas alamedas sombrias
Por entre as lápides frias,
E fala com eles de assuntos
Antigos, de nostalgias,
E cantam, e riem, juntos.

Situações (156) - Nunca

Não se conforma, não se conformará. Dizem-lhe que é uma atitude ridícula, mas, quando pensa que jamais virá a sentir diante de uma mulher aquela confluência tumultuada de todos os seus sentidos, amaldiçoa a vida e não quer ouvir histórias de gente que está muito pior do que ele e no entanto dá graças a Deus.

Situações (154) - Bordado

Agora que vão emasculá-lo, pensa se o tempo que gastou na leitura dos aventurosos e viris romances de espadachins e piratas não teria sido mais proveitoso se ele houvesse aceitado as lições de bordado que as irmãs viviam lhe oferecendo.

Situações (153) - Compensação

Vão anestesiá-lo, vão cortá-lo, vão sangrá-lo, vão mutilá-lo, e ele, com uma ironia magoada, pensa que poderia ao menos emergir da operação com uma celestial voz de soprano.

Situações (152) - Troca

Quando jovem, pensava que, no momento oportuno, se ocuparia com a alma. Agora que esse tempo chegou, ele abriria mão da alma por um só, só mais um dos antigos êxtases do corpo.

Lírica (1.199) - A verdade

Não se interessa mais por sexo, ele diz, com um desdém que pretende passar por filosófico e que não é senão um ardil para não revelar a mais profunda calamidade do seu corpo.

Lírica (1.198) - A flor

Se chora, ainda, não é para lamentar a miséria do corpo nem seus apelos cada vez mais disparatados, mas para matar a sede de uma flor que, apesar de nascida do sofrimento, é agora seu único alívio.

Lírica (1.197) - Longe

Há dias em que se lembra do amor, e a imagem que lhe vem é a de um navio envolto em nevoeiro, no horizonte. Espera, sempre, que ele esteja vindo, mas basta-lhe um momento para ver que ele está indo e se entranhando cada vez mais na bruma.

Lírica (1.196) - O arrepio

Não o perturbam mais os frutos pendentes nem o aroma agudo das flores. O que insinuam as abelhas não lhe importa. Sente às vezes, ainda, um arrepio, mas sabe que é só um espasmo da memória.

Situações (151) - Dilema

Enquanto protelava a solução, por pensar no que poderiam dizer dele se resolvesse se matar, diziam dele que se estivessem na sua situação se matariam, com toda a rapidez e certeza.

Situações (150) - Aspiração

Aspirava agora aos cantos escuros, aos braços da noite, à umidade e à decomposição. Fechava-se em casa e vedava todos os lugares por onde pudesse imiscuir-se o sol, mas mesmo assim, sabendo-o pleno e majestoso na rua, rondando a casa, enfiava-se embaixo da cama e só saía de lá quando supunha que a noite houvesse chegado. Então, pela primeira vez no dia, no seu rosto se esboçava um rabisco semelhante a um sorriso.

Situações (149) - Vergonha

De todas as vergonhas que agoniaram sua vida, a pior é a mais recente: a vergonha de se matar.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Lírica (1.195) - Metáfora

Gostaria de morrer estilhaçado pelo sol da Paulista, esparramar-se em mil fragmentos que cintilassem por um instante como a mais ordinária bijuteria e fossem arrastados por uma repentina e bíblica chuva para o bueiro, para o esgoto, para o rio, para a perfeita metáfora de sua vida de brilho falso e inútil.

Lírica (1.194) - Opção

Morrer é tão natural:
Deitar, dormir, esquecer...
Morrer é tão sensual,
Tão suave. Por que viver?

Lírica (1.193) - A foto

Receando esquecer-se do rosto amado, ele pega a foto dela e a olha por cinco minutos, pelo menos dez vezes por dia, e mais uma, antes de dormir. Mesmo assim, é atormentado por pesadelos dos quais acorda em pânico, julgando que os traços dela se desfizeram na memória. Levanta-se, então, e olha a foto até se sentir seguro, ou quase, de que poderá resvalar tudo para o olvido, menos aquele rosto. Nas férias, por essa incerteza mas também por deleite, livre das obrigações do trabalho, tem tempo de olhar a foto mais vezes. Ontem, no registro que sempre faz, anotou o número 127. Para o mar, embora o apartamento dê vista para a areia e as ondas, talvez não tenha olhado nem cinco vezes e, se a paisagem repentinamente desaparecesse, é provável que nem notasse, entretido com a contemplação da foto na sacada.

Lírica (1.192) - A moça

Na Angélica, o homem triste viu passar uma moça que, ou pela imaginação dele ou pelo sorriso dela, ele juraria que estivesse indo ao encontro de um rapaz muito amado. Ele, que havia perdido até a última nau numa recente calamidade amorosa, sentiu o coração convulsionado e, com um altruísmo que não julgava ter, ficou torcendo para que sua suposição estivesse certa e para que à espera da moça houvesse mesmo um rapaz e o dia fosse tão feliz para os dois que, em 2015 ou 2020, ambos, juntos ou separados, pudessem suspirar, gratos: "Ah, foi exatamente há cinco anos, há dez anos, nunca vou esquecer, no dia 18 de novembro de 2010."

Lírica (1.191) - Bonança

Emasculado, tornou
A ver o amor como ideia,
E o que era febre, epopeia,
O vento leve levou.

Lírica (1.190) - Hospital

Ficar deitado e pensar
Que pode ser sempre assim:
Deitado estar e ficar
Distante de tudo, enfim.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Lírica (1.189) - O azul

Existe um azul que só uma pessoa em todo o mundo conhece em sua plena intensidade, porque apenas ela sabe fazê-lo e reproduzi-lo. É um azul denso, gritante, um azul de desgraça próxima, um azul alucinado como o amarelo de Van Gogh, um azul que só não sangra para não cobrir de vergonha o vermelho.

Lírica (1.188) - Shakespeare

Se os homens forem aniquilados um dia e nenhum sobrar, em algum lugar ficarão resguardadas, não sei de que modo e em que língua, as obras de Shakespeare. Nem Deus nem o Diabo se atreverão a dar-lhes fim.

Lírica (1.187) - Os Borges

Gostaria de poder dizer, como Jorge Luis Borges, que o Borges que escrevia poemas era outro Borges. Quem escreve esses poemas que lês sou eu mesmo, minha amiga, e, se eles não lhe fazem jus, é minha toda a culpa. Imagino se, como bem mereces, fosses musa deles, que obras-primas serias capaz de inspirar aos dois Borges e a outros tantos.

Lírica (1.286) - Caderno

De tudo que aqui está,
De minha tola ilusão,
O tempo gargalhará,
Mas tu espero que não.

Lírica (1.285) - De uma nota só

Não acreditas em mim
Quando meu amor proclamo,
Mas sempre direi que te amo,
Hoje, sempre, até o fim.

Situações (148) - Paulo Mendes Campos

Sempre que Clarice Lispector saía com Paulo Mendes Campos, estranhava-se como uma semideusa podia andar com um simples homem, e um homem que, em comparação com a majestade dela, só poderia ser visto desfavoravelmente. Quem fazia esses comentários não sabia, como Clarice e tantos e tantos leitores sabiam, e sabem ainda, que Paulo Mendes Campos era um homem abençoado pelo dom da beleza eterna, que a literatura, nem sempre generosa, concede a tão poucos.

Situações (147) - Lúcio Cardoso

Ser Lúcio Cardoso era ser muito. Só não era ser tudo porque faltou a Lúcio Cardoso ser aquilo que Clarice Lispector, em sua febre de amor, almejava que ele fosse.

Lírica (1.284) - Fadiga

Perdeu até a esperança,
Porque ela, sempre confiável
E tida como incansável,
Às vezes também se cansa.

Lírica (1.283) - Provas

Quando ela pedia as provas
Do amor que ele lhe jurava,
Ele sempre lhe mostrava
As suas humildes trovas.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Lírica (1.282) - Coleção

Guardo-te a rosa, a açucena,
Guardo-te a cor, a alegria,
A samambaia, a verbena,
Das flores toda a magia.

E também te guardaria,
Porém não posso, que pena,
A majestade do dia
E a noite, e a lua, pequena.

Lírica (1.281) - Indiferença

Cansou-se mesmo, deveras,
E não lhe importa mais nada,
A trilha certa ou errada,
As coisas falsas ou veras.

Situações (146) - Radical

Morrer parece-lhe agora
Tão desejável, tão doce,
Que, se mais ousado fosse,
Cortava o pescoço fora.

Lírica (1.280) - História

Afinal tudo acabou:
Em prantos a melodia,
Em lágrimas a utopia
E em cinzas o que restou.

Lírica (1.279) - Assim e assim

Morrer de amor é tão fútil,
Tão bobo e tão descabido...
Viver sem amor é inútil,
Tão tolo e tão sem sentido...

Lírica (1.278) - Lusíadas

Camões e sua nação
Perseguem duros a glória
E as peripécias da história
Sôbolos mares que vão.

Lírica (1.277) - Lembrança

Talvez alguma lembrança
Tu venhas a ter de mim,
De mim, de minha esperança,
De mim, que morri assim.

Lírica (1.276) - Desgraça

Não há maior dissabor
Do que este, minha querida:
Estar morto para o amor
E não estar para a vida.

Lírica (1.275) - Poeira

Por menos que você queira
E por menos que lhe agrade,
Tudo que você faça há de
Se transformar em poeira.

Lírica (1.274) - Radiografia

Estão já frágeis seus ossos
E os órgãos são como trapos.
Seu corpo é todo destroços
E a alma é toda farrapos.

Situações (145) - Pontual

Que a Morte, ao chegar, o encontre pronto e ele não precise lhe pedir que espere um pouquinho. Não quer ser um morto exemplar, não é isso. Apenas tem pressa de ir.

Situações (144) - Curta

O encanto do mundo ficou para os outros. Ele não os inveja. Houve um tempo em que também foi assim. Sorria para tudo, de tudo gostava. A palavra que lhe ocorre para definir o que foi até ontem é curta, mas expressiva. Espanta-o ver que precisou de sete décadas para descobrir que sempre foi isso, que nunca passou disso: um bocó.

Lírica (1.273) - A viagem

Ah, se tivesses coragem,
De tudo te livrarias,
Farias a última viagem
E nunca mais sofrerias.

Lírica (1.272) - Outonal

Tão terno foi teu verão...
Mas veio depois o outono.
E o frio, e a dor, e o abandono
Também depressa virão.

Lírica (1.271) - Por quê?

Plantaste tanta ternura
E tanto amor semeaste.
Por que colheste amargura
E apenas dor desfrutaste?

Lírica (1.270) - Inverno

Teu tempo de plantar hoje é passado
E já se foi teu tempo de colher.
Teu tempo agora é só o de olhar e ver,
Teu tempo vão, teu tempo indesejado.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Lírica (1.269) - Prematuro

Seus derradeiros instantes
Jamais se conhecerão.
Morreu já, muito tempo antes,
De amor, no último verão.

Lírica (1.268) - A causa

Sua loucura provém
Do amor, do amor a alegria,
E o mal, e o bem, e também
A aguda melancolia.

Situações (143) - Papagaio

Flaubert deu ao papagaio Lulu uma dignidade e uma importância que nem aos pavões foram concedidas. Lulu, com as poucas palavras que aprendeu - "Belo rapaz! Às suas ordens, senhor! Ave Maria!" -, conseguiu na literatura um lugar do qual muitos personagens cheios de prosápia não chegaram nem perto.

Situações (142) - Tartaruga

A eternidade, para a tartaruga, deve ser a mais eterna de todas e provavelmente a mais cansativa.

Lírica (1.267) - Desdém

As rosas não sabem que o homem lhes deu esse nome e as definiu como supremo exemplo de beleza. Não precisam do homem para saber de nada e prestam mais atenção ao que o vento lhes sopra do que às palavras humanas.

Situações (141) - Decomposição

Tudo que o homem toca, tudo que o homem vive, imediatamente se transforma em passado. O calor e o brilho, a beleza e o esplendor tendem irremediavelmente ao frio, ao pó, à treva e ao esquecimento.

Situações (140) - Três verbos

Ele, que havia estudado a vida inteira as palavras e as formas de expressão, descobriu que a história de qualquer homem pode ser resumida a três verbos: nasceu, viveu, morreu. Todo o resto - incluindo a poesia e a retórica - não passa de uma tentativa de cada homem para fazer sua vida parecer mais importante que a dos outros.

Situações (139) - Silêncios

Nunca será um artista. Jamais entenderá a diferença entre uma pedra muda e um violino calado.

Situações (138) - Consciência

Gostará da morte se ela for um sono longo que ele, durante todo o tempo, ainda que seja por toda a eternidade, saiba estar desfrutando.

Situações (137) - Solidão

Inveja Jerome David Salinger pela obstinada coerência que conservou quando decidiu afastar-se do mundo. Gostaria de isolar-se também, mas que charme teria um misantropo que não escreveu O apanhador no campo de centeio? A solidão anônima não gratifica o solitário.

Situações (136) - Sorte

No seu primeiro dia em São Paulo, Gaudêncio, então com dezoito anos, achou duas moedas na calçada. O fenômeno nunca se repetiu, e hoje, com vinte e dois anos, ele está quase aceitando o que lhe disseram: que no primeiro dia ele teve aquilo que se chama de sorte de principiante. Mas continua a olhar para o chão. Foi graças a essa persistência que há dois anos ele achou uma oração de Santo Expedito. Desde esse dia, aumentou sua esperança de finalmente conseguir um emprego na grande cidade.

Situações (135) - Cidadão do mundo

O homem tropeçou na escada rolante da estação Brigadeiro e, porque olharam para ele como se olha para alguém não habituado a utilizar equipamentos urbanos, ele se desforrou dizendo, alto: "No ano passado, eu dei um tropeção igual em Paris."

Situações (134) - Sanfoneiro

Às dez horas, o menino sentou-se ao lado da estação Saúde e, compenetrado, começou a tocar sua pequena sanfona. Sabia três músicas e tocava-as em sequência, sem parar. Quando errava uma nota, pedia desculpas aos passageiros que desciam ou subiam a escada rolante. Ao meio-dia, seu trabalho artístico lhe havia rendido uma moeda de cinquenta centavos. Ele parou de tocar, comprou um pãozinho e, apesar da sede, voltou a sentar-se e a tirar sons de sua sanfona.

Lírica (1.266) - Tema

Sofrer é bom. Sem sofrer,
Sem suportar esta chaga,
Sem lamentar esta praga,
O que eu teria a dizer?

Lírica (1.265) - Estações

O mesmo tempo que fez
Dourar a esplêndida messe
Agora tudo desfez
E tudo agora apodrece.

Lírica (1.264) - Malogro

Plantei a doce beleza,
Reguei a planta, matei
Todas as pragas, orei.
Colhi a amarga tristeza.

domingo, 14 de novembro de 2010

Lírica (1.263) - O que fazes?

Sou teu menino, tu sabes que sou. Sabes como te acompanho os gestos, como acendo os olhos para te ver e como adoço o sorriso para que me aches melhor. Sabes - e se não sabes deverias saber - como me enrolo e desenrolo todas as noites na cama, como bato pernas e braços para te buscar. Deves saber como acordo morto para o dia todas as manhãs. Deves saber por que estou sempre febril. Deves saber de tudo, e o que fazes? Me pedes que te leve o sabonete no chuveiro, me ofereces a visão do teu corpo molhado e, quando eu dou um passo à frente, o que é que dizes ao teu menino? Não, não, sempre não.

Lírica (1.262) - Cem por cento

De ti eu desejo tudo,
E tudo completamente:
Não só o teu continente
Mas também teu conteúdo.

Lírica (1.261) - Preciosa

Preciosa, como falar-te
O que és, se és vida, se és rosa,
E que adjetivo aplicar-te,
A não ser este, preciosa?

Lírica (1.260) - O encontro

Ah, se eu soubesse que vinhas,
Teria, menina amada,
Trazido o chapéu, a espada
E o álbum de figurinhas.

Lírica (1.259) - Balança

Agora sabe que a paz
Dói mais que as vãs esperanças
E que as melhores lembranças
Machucam mais do que as más.

Lírica (1.258) - Fantasia

Serei um gato angorá.
À tarde me deitarei
E ansioso te esperarei
Em nosso fofo sofá.

Lírica (1.257) - Horizonte

Aos domingos, deveria ser proibido sofrer. Os meninos, principalmente, mereceriam ser preservados, aqui incluídos os homens que não cresceram, como aquele que na janela, com o queixo apoiado nos cotovelos, olha desalentado para o horizonte, num domingo que talvez seja 14 de novembro de 2010, mas para ele é outro dia, de um ano distante, um dia que vive só na sua memória machucada.

Lírica (1.256) - Estar

Amada, aonde quer que vás,
Perdão, mas eu também vou.
Se não estou onde estás,
Em lugar nenhum estou.

sábado, 13 de novembro de 2010

Lírica (1.255) - Menino

Sou teu menino. Quando te zangas comigo, tens razão. Sou tolo, desobediente, malcriado. Choro sem motivo. Fico te olhando e tu me perguntas por que te olho, e me repreendes se te respondo que te olho por seres uma mulher linda, porque dizes que um menino não olha para uma mulher como te olho, e mandas que eu não fique mexendo ali onde mexo, e eu tento, mas logo me esqueço e acabo mexendo de novo, e me sinto perturbadoramente culpado e sei que mereço quando ralhas comigo por isso e me censuras e me chamas de mau menino, de menino perverso, de menino safado, mas gosto quando ralhas assim, porque quando fazes isso me chamas de menino, menino, menino, e eu fico imaginando como será feliz o dia em que me chamarás talvez de meu menino, meu querido menino, meu menino amado.

Situações (133) - Martinelli

Entrei poucas vezes no Edifício Martinelli e em todas elas fiquei tão pouco quanto possível. Corriam histórias sobre assassinatos ocorridos ali, todos misteriosos e terríveis, e dizia-se que as vítimas, para revelar o nome dos assassinos, pairavam pelos andares e pelas escadas. Por algum tempo pareceu que São Paulo teria enfim pelo menos um lugar que pudesse ser comparado aos castelos de Londres, com fantasmas se arrastando e apavorando os visitantes. Depois, foram se atenuando os relatos de crimes e, ou porque já tivessem sido vingados ou porque houvessem desistido da reparação, os espectros sumiram e, com eles, uma tradição que durou, se tanto, vinte anos na cidade.

Situações (132) - Limão

Quando relembro ou imagino o sol no bairro do Limão, sinto que estou ali ainda, andando pelo jornal, caminhando pelos seus corredores, ouvindo o zumbido das notícias. Estou ali, porque o homem que eu pensava ter saído pela portaria naquela noite de 1992 não fui eu, não era eu.

Situações (131) - O salto

Por muitos dias ainda, depois que a moça se atirou dali, havia sempre grupos no Viaduto do Chá que apontavam o lugar de onde ela saltara. Alguns discordavam quanto ao local exato, andando três passos para a direita ou para a esquerda, ou três passos para a frente ou para trás. Eu imaginava o pulo tresloucado, ouvia de novo a história da moça, cuja foto vira no jornal, e me arrepiava ao pensar que o amor pudesse fazer alguém atirar-se para o nada, voando por um instante sobre o tumulto dos carros lá embaixo - um instante que talvez não lhe houvesse sido suficiente para gritar pela última vez o nome do amado.

Lírica (1.254) - Propícia

Espero a tarde propícia
Em que se imponha a ilusão
E em que a paixão sub-reptícia
Domine enfim a razão.

Lírica (1.253) - O quê?

Se fosses outra, eu talvez não sofresse. Se fosses outra, eu talvez não chorasse. Se fosses outra, o que eu poderia fazer dos meus dias vazios deste abençoado sofrimento e destas doces lágrimas?

Lírica (1.252) - As quatro letras

Terá ficado tanto afeto em certos papéis que, daqui a alguns anos, quem os ler se surpreenderá porque estarão molhados, mas só nos trechos nos quais houver a palavra amor - que aparecerá pelo menos uma vez a cada três linhas.

Lírica (1.251) - Maioridade

Eu tinha em mim uma tristeza que não sabia ser uma tristeza alheia: a tristeza de Álvares de Azevedo, Fagundes Varela e Casimiro de Abreu. Nem bem era uma tristeza, era uma imitação, um eco, mas eu a supunha legítima e a cultivava com carinho, esperando que ela um dia me levasse à morte, como as autênticas tristezas sempre devem levar. Quando te conheci, soube que a tristeza que havia em mim, se para tristeza houvesse idade mental, teria dez anos. Tu, que não conseguiste me ensinar o amor adulto, podes ao menos te vangloriar, se isso é questão de vanglória, de haveres levado minha tristeza à maioridade.

Lírica (1.250) - Mérito

Saborear a tristeza
É para quem a merece,
Quem, desde o plantio à messe,
Lhe reconhece a beleza.

Situações (130) - Cultura

Nunca mais descerá do metrô, subirá a escada rolante e sentirá aquela ansiedade aflita de atravessar logo a Augusta e, quase correndo pela calçada, enfiar-se na galeria, entrar na livraria e se deixar tomar pela imponência das estantes, e ir de uma à outra, passar por todas e voltar a percorrê-las, e lastimar o momento em que, precisando sair, sempre saiu, apesar do que levava na sacola, como alguém que estivesse sofrendo a mais dolorosa perda e cometendo a mais abjeta das traições.

Situações (129) - Irreparável

Olha para a estante e, vendo livros que não relerá, passa-lhes carinhosamente a mão na lombada. Depois, pega a lista de livros que pretendia comprar, e não comprará, e lhes pede desculpas. Deve essa gratidão à literatura, embora esteja um pouco ressentido com ela. Aflige-o pensar em todos os livros que hoje se oferecem inutilmente a ele, mas não tanto quanto saber que, quando estiver morto, o tesouro da literatura continuará sendo enriquecido ano a ano, mas para quem? Sua aflição se torna insuportável quando imagina quantos milhões terão morrido antes de nascerem Fernando Pessoa, Anton Tchekhov e William Saroyan.

Lírica (1.249) - Dança

Que triste essa antiga dança,
Que triste essa melodia:
Num dia morre a esperança
E no outro morre a alegria.

Lírica (1.248) - Escolha

Agora, quando passava
Perto de algum cemitério,
Parava para olhar, sério,
E tudo via e avaliava.

Situações (128) - Intuição

Os cachorros, tão intuitivos, já rosnavam e se afastavam dele, sentindo que levava já no peito e nos passos algo que não pertencia mais a este mundo.

Situações (127) - Muito

Tão desiludido estava com a vida, tão penosa ela lhe era, que, quando o médico disse que não se preocupasse, porque teria pelo menos mais dez anos pela frente, exclamou: "Ah, meu Deus, tudo isso?"

Situações (126) - Esperança

Gostaria que a esperança fosse visível e palpável. Ele a seguraria e apertaria seu pescoço até sufocá-la, até matá-la, para que não continuasse a tentá-lo com promessas que jamais se cumpriam.

Situações (125) Peste

Sabia que, se aproximasse a mão da rosa, as pétalas murchariam imediatamente, e até os espinhos, por instinto de sobrevivência, começariam a se contrair.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Situações (124) - Mau agouro

Que sofram os inocentes,
As feias e as mais formosas,
Que caiam os decadentes
Em quedas calamitosas,
Que se revelem bichados
Os planos mais planejados,
Que gorem as plantações,
Os sonhos, as orações,
E que os desaparecidos
Estejam sempre perdidos,
Que mofem as parturientes
Nas filas mais horrorosas,
Que as manhãs nasçam doentes
E as rosas morram leprosas.

Lírica (1.247) - O nome

A dor que o consome
E o torna infeliz,
A dor tem um nome,
Mas ele não diz.

Lírica (1.246) - Só

Desfeito o seu sonho em pó,
Já sem saber por que vive
Ou por que à dor sobrevive,
Quer a morte, agora, e só.

Lírica (1.245) - O veneno

No início lhe pareceu que o amor, surgindo já no ocaso de sua vida, poderia ser uma compensação, ainda que tão pouco tempo lhe restasse para fruir qualquer bem-aventurança. Assim, cantou o amor com tanta força que imaginou poder alongar um pouco o caminho que o levava para o passo final. Logo sentiu, porém, que o amor se acumpliciara com a Morte e traiçoeiramente lhe abreviava a trilha, embora seu veneno fosse tão delicioso e tão difícil de recusar que lhe dava vontade de bebê-lo todo de uma vez, num só dia, mesmo que esse dia fosse o último.

Lírica (1.244) - Mesmo assim

Eu te amo tanto, sabia?,
E tanto te quero, pode?,
Que se tivesses bigode,
Mesmo assim te beijaria.

Lírica (1.243) - Dez ou vinte

Alguém talvez, daqui a dez ou vinte anos, leia isto
Que escrevo pensando na vida e em ti,
Na vida e em ti, que há muito tempo
No meu dicionário são sinônimos,
E não sentirá, eu temo, como as palavras pulsam,
Como elas vão se pondo na tela ansiosamente
Para expressar o amor que sentem por ti.

Alguém, daqui a dez ou vinte anos, talvez leia isto
E não perceberá, eu receio, o sangue e a paixão
Que vibram em cada sílaba,
Como tu não percebeste outrora,
Como tu não percebes agora.

Lírica (1.242) - Total

Que esteja sempre, pequena,
Mesmo que eu não a usufrua,
Inteira, completa, plena,
Toda essa beleza tua.

Lírica (1.241) - Piano, piano

Tocando piano sozinho à noite, na sala, foi passando de músicas arrebatadas para canções lentas, cada vez mais lentas. Seus olhos foram se fechando, enquanto ele, agora só roçando as teclas, pensava em certa mulher e em certas dádivas do corpo dela que ele poderia estar dedilhando, dedilhando.

Lírica (1.240) - Razões

Estava louco ou sabia
(E agora com convicção)
Que a verdadeira razão
Finalmente conhecia?

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Situações (123) - Puberdade

Gostaria de ser um menino. Gostaria de dizer àquela mulher coisas loucas, disparatadas, não lhe importando se as orelhas se incendiassem depois de dizê-las, gostaria de precisar segurar na frente uma pasta ou mochila para esconder a vergonhosa glória do seu sexo, gostaria de ser desmascarado apesar disso, gostaria de pedir desculpas, mesmo com palavras inseguras, e gostaria de, com as pernas tremendo, ser atraído pela mulher, puxado por ela, engolido pelos seus lábios e, sendo beijado, ouvir, sussurrada dentro de sua boca, a recomendação que, sugerindo pecado, enfurecesse ainda mais a dolorosa e agora escancarada latência do seu sexo: "Não conta pra ninguém, viu, menino?"

Situações (122) - De mãe para filha

"Deus te livre de um dia, por descuido teu ou artimanha do teu coração, pensares que talvez aquele homem (sabes de quem falo) possa não ser desprezível quanto imaginas. Deus te livre. E, se Deus não te livrar, que te salve aquele sexto sentido que nunca te abandona. Mas, se ele te abandonar, que te socorra a razão, essa que jamais te falhou, essa que é capaz de cheirar algo nocivo a quarteirões de distância, e até pelo telefone. Deus te livre, o sexto sentido te salve, socorra-te a razão e que o Diabo aniquile todos os homens, principalmente aqueles que tentam as donzelas com as melífluas palavras da poesia. E, se o Diabo, por ser deles comparsa, não os aniquilar, que Deus apodreça os lábios deles, de todos, um por um, sem poupar um maldito sequer que seja."

Lírica (1.239) - A causa

O médico me examinará, anotará algumas coisas, falará em amor, dirá que por sua experiência as loiras costumam ser fatais, lembrará que fui um homem bom, porém meio tolo, e na hora de colocar a causa da morte perguntará se alguém sabe teu nome.

Lírica (1.238) - Falso brilhante

Sou uma pedra. Poliram-me,
Como um diamante trataram-me,
Decantaram-me, iludiram-me,
Depois no lixo jogaram-me.

Lírica (1.237) - Melhor

Dizer que te amo é tão doce...
Quisera que imaginasses.
Melhor talvez ainda fosse
Se nisso tu acreditasses.

Lírica (1.236) - Definição

Sou só um monte de nada,
O lixo, o cuspe, a sujeira,
A papelada e a nojeira
Que ficam sobre a calçada.

Lírica (1.235) - Vingança

Na próxima encarnação
Serei mulher. Matarei
O amante e lhe comerei
O baço, o rim, o pulmão.

Lírica (1.234) - Hoje

Acostumei-me a implorar
Quando menino. Chorava,
E o que eu queria ganhava.
Agora adianta chorar?

Lírica (1.233) - A ferida

Eu me apaixonarei por alguém,
Não por meu coração ser fútil,
Mas porque terás deixado nele esta ferida larga
Que sangrará dia e noite.

Eu me apaixonarei só para que alguém
Coloque o dedo carinhosamente na ferida
E eu possa ter a ilusão de que ela diminuiu,
Embora de dia e à noite,
Como outrora,
Como agora,
Eu volte a sentir o sangue jorrando
E me alegre ao senti-lo
Correndo como antes, como se fosse
Aquele mesmo que fazias correr,
Sangue obtido com a maceração de mil rosas vermelhas.

Lírica (1.232) - Engano

Destruído tudo, restou
Aquele bilhete insano
Que decerto por engano
Um dia você mandou.

Lírica (1.231) - Só um equívoco

Na mensagem, disse à mulher que, ao contrário da opinião dela, ele não era exigente. Queria dela apenas duas coisas: o corpo e a alma. E poderia até, mostrando sua boa vontade, desistir de uma delas, desde que não fosse do corpo.

Lírica (1.230) - De estimação

Cuida da sua tristeza
Com devotado carinho.
Ela é o seu passarinho,
A sua gata siamesa.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Lírica (1.229) - Como antes

Andou em torno do amor,
Andou até se cansar.
Andou com fé, com fervor,
Está no mesmo lugar.

Lírica (1.228) - A visita

Tocaram a campainha
E depois bateram forte.
O homem disse "Olá, rainha"
E deixou entrar a Morte.

Lírica (1.227) - Conduta

Não gosto muito de nada,
De nada quero saber,
Da morte espero a chegada.
Silêncio!, eu quero morrer.

Lírica (1.226) - Retórica

Já fui um menino, sim,
Mas por favor não me diga.
Não fale do início, amiga,
Quando estou perto do fim.

A gaveta (82)

Os de olhos vermelhos
Aqui nos pedem, ali
Suplicam, de joelhos,
Mas medra em nós, sem clemência,
A essência rude da pedra.

A gaveta (81)

O pássaro trina.
Que diz ele, que condiz
Com o sol que declina?
Que canta que em nós, tão cedo,
O medo das trevas planta?

A gaveta (80) - Soneto do que podias ser

Serias tudo para mim. O lar
Tranquilo que criança não possuí
E as nosssas gozariam, junto a ti
E junto a mim. Serias o lugar

Em que eu me achasse, aqui, além, ali,
Pois nada te haveria de afastar.
Serias o milagre a me ensinar
O riso franco em que jamais eu cri.

Serias humildade em minha história
Mas meu relato não seria mudo,
Pois que a dorida e inatingível glória,

Que tua ausência me mandou colher,
Seria nada, tu serias tudo.
Serias tudo, não quiseste ser.

A gaveta (79)

Um pássaro pousa os
Meus olhos no galho, escolhe os
Mais límpidos, e ousa os
Gorjeios: pleno de orvalho
O galho ou meus olhos cheios?

A gaveta (78) - Versão final

Esteve, onde agora
Nenhuma, a presença de uma
Rosa, breve, outrora.

A gaveta (77)

E súbito a lua
Entrando no quarto, quando
Nele entraste, nua.

A gaveta (76) - Quadrinha

Saudade, ausência presente
De presença que passou,
Saudade, presença ausente
Do afeto que não ficou.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A gaveta (75) - Que levas?

O sol escancara
A triste evidência. Provaste
O fruto da noite
E teus passos envergonhados
Não encontram o caminho de casa.

Que saudáveis
Estes corpos amanhecidos.
Que enérgicos
Estes olhares.
Felizmente não te fitam.
Há neles uma determinação
Que ensaias colocar
Entre o estúpido
E o mecânico,
Porém são firmes, e teu olhar
Tropeça com os pés, desarvorado.

Os operários,
Como são firmes suas mãos
E as ferramentas que levam
E as fainas que os esperam.

Que levam tuas mãos
Que levas?
O cigarro apagado,
A escusa escusada,
O projeto, que projeto?
O de ontem, malbaratado,
O de hoje, ainda nem projetado?

Levas o corpo
Que o ônibus leva.
O corpo e seu sono,
Enganosa trégua.

A gaveta (74)

Quisemos demais
E a messe farta apodrece.
Amiga, jamais
Teremos, loucos que fomos,
Os pomos que não colhemos.

A gaveta (73)

Que paz, que tranquilo
Momento. Tão pachorrento
Que é sono senti-lo.
Em que é, se em nós não, que a vida
Se olvida, que nos esquece?

A gaveta (72)

São frutos, eu sei.
E o vento canta, e o momento
Incita: colhei.
Mas há em meu ser pressago
Um lago onde as folhas caem.

A gaveta (71)

Porque nos batemos
Buscando caminhos, quando
Um só é o fim, cremos
Ouvir do vento a irrisão.
Mas são os mortos a rir.

A gaveta (70)

Pois mais não me ocorre
Com que te nomeie, sê
A flor que decorrre
De a seres, quase, ou de assim
A mim, só, me pareceres.

A gaveta (69)

A chuva prepara
A poça em que a tarde moça
Se veja mais clara,
Enquanto eu semeio na alma
A calma de após o pranto.

A gaveta (68)

Ai, sinos da infância,
Por que vos almejo, se
Vos leva a distância?
Ai, sinos tocando a fundo
Um mundo só de meninos.

A gaveta (67)

No terno cimento
Ensaias flores e as gaias
Noções de momento:
Teu puro traço plantando
Mais brando o tempo futuro.

A gaveta (66)

As flores que eu trouxe
Não são bem estas que a mão
Te estende. Apoucou-se,
Ao louro esplendor do teu,
O seu pleno viço de ouro.

A gaveta (65)

Sorris. Cinge-te essa
Ventura que o espasmo dura
De um raio. Depressa
O instante azul se dilui
E flui a treva constante.

A gaveta (64)

Ai, que rodopia
Qual laço em alheio braço
De dúbia mestria
Meu ser e o seu sentimento
Nevoento de se abranger.

A gaveta (63)

No lixo perdi
Meu ser, e o corpo, sem ter
Rumo, aqui e ali,
À cata do que não volve,
Revolve lata por lata.

A gaveta (62)

Meu parco pomar de
Quimeras, que seara esperas
Se o sol já não arde?
A sorte destruiu a lida
E a vida constrói a morte.

A gaveta (61)

Manhã, novamente
Eu vim da noite sem mim,
Cansado e doente.
Manhã, não chova, sorria.
Meu dia nasce amanhã.

A gaveta (60)

Um pássaro, ou era
Somente a ternura ausente
Que súbito viera?
Um trino, ou só a ilusão
Com a mão além, no violino?

A gaveta (59)

Meu sonho, sugaram-te
O seio e, exaurido o veio,
Tão pouco, deitaram-te
De bruços e abriu-se a ferro
O berro dos teus soluços.

A gaveta (58)

Na noite cerrada
Tombou a borrasca, e estou
Só, na encruzilhada.
A vida me deu um coice
E foi-se, rompendo a brida.

A gaveta (57)

Nos olhos renasce
A antiga fonte e a cantiga
No ouvido refaz-se,
Enquanto a infância me volta
E solta as águas do pranto.

A gaveta (56)

Constrange ver, tanto
Mudou o amor que empolgou
Teu ser, que hoje, enquanto
Definha a tua certeza,
Acesa mantenho a minha.

A gaveta (55)

A queixa que escuto
Advém de mim ou provém
Da lata que chuto?
Perdi minha alma no escuro e
Procuro onde é nunca ali.

A gaveta (54)

Finado meu sonho
Antigo, no seu jazigo
Nem flores deponho,
Aquelas também murcharam
Que ornaram as tardes belas.

A gaveta (53)

Engenho-te casta
E ao teu conceito só o meu
Engenho me basta.
Assim te viva a virtude e
Não mude jamais em mim.

A gaveta (52)

Na areia inconstante,
Com fito vão de infinito
E traço hesitante,
Semeou meu dedo teu nome,
Que a fome do mar levou.

A gaveta (51)

Tateias, na treva.
Esconde a noite, por onde
O engano te leva
As cores que a alma queria.
O dia colheu as flores.

A gaveta (50)

Não fales. Falar
Por quê, se o meu olhar vê
No teu se agitar
A frase indizível - rosa
Viçosa, ou pássaro, ou quase?

A gaveta (49) - Soneto do encontro

Observo o vento as árvores tocando
E penso quantos ventos já terão
Soprado iguais, iguais. E assim pensando
Ponho em mim o arrepio da emoção.

Surpreende-me saber que está soprando
Aquele vento, aquele mesmo, e não
Um outro em outras árvores cantando,
Em outro tempo, em outra floração.

E atônito, e perplexo, vive em mim
Do nosso amor todo o milagre e encanto,
Todo seu ser estranho em ser assim,

Ser ele próprio, e ter querido, e ter
Sabido nos juntar, havendo tanto
Espaço e tempo para nos perder.

A gaveta (48) - Mistério

Chove, ou é alguém
Que ordenhe o poente prenhe
De rosas? E quem?

A gaveta (47) - Calamidade

À mão que plantava
Ninguém avisou, porém
O vento espreitava.

A gaveta (46) - Madrugada

O galo enternece
O canto. Envolto em espanto o
Dia amadurece.

A gaveta (45) - Posteridade

As tuas mãos flores
Cultivam, para que vivam
No dia em que fores.

A gaveta (44) - Puberdade

Enquanto madura
Se colha. Nem há escolha.
O viço não dura.

A gaveta (43) - Fazenda

Manhã. Arrebol
Em fuga. A cascata enxuga
As tranças ao sol.

A gaveta (42) - Frustração

Se foi primavera
Não sei, mas sinto que errei
Em crer que não era.

A gaveta (41) - Timidez

No corpo trazia
(E eu não colhi) o verão
Que a carne exigia.

A gaveta (40) - Décimo andar

Lá fora, quem ri?
Sou uma crença nenhuma
À espera de ti.

A gaveta (39) - Amor

Morreu. Não devia.
Em tudo resta, contudo,
O eterno de um dia.

A gaveta (38) - Ceticismo

Já foi. Já não é.
Amor não há se não for
Do início ao até.

A gaveta (37) - Decrepitude

O vinho bebi.
Usei a vida e gastei.
Restei. Não morri.

A gaveta (36) - Fumaça

A lua, as estrelas...
Mas onde, se o bar esconde
A porta de vê-las?

A gaveta (35) - Primeiro beijo

Havia o luar
E certo desígnio incerto
De dar, de não dar...

A gaveta (34) - Sacada

Passaram. Ficou
Vazio o parque sombrio.
Ninguém me chamou.

A gaveta (33) - Adolescência

A brisa maldosa
Bafeja o ramo. Proteja,
Menina, sua rosa.

A gaveta (32) - Jornada

Sol, sede, suplício.
A fonte descendo o monte,
O alegre reinício.

A gaveta (31) - Ideal

Some na enxurrada
A folha, infeliz escolha
De nau, malograda.

A gaveta (30) - Crepúsculo

A fruta esmaece
Madura, na boca escura
Da noite que desce.

A gaveta (29) - Horizonte

Estrela ou navio,
Distante, que cisco errante
O mar engoliu?

A gaveta (28) - Posse

Chamavas, deitada.
Enfim a espera sem fim
No ter terminada.

A gaveta (27) - Infância

Esteve, onde agora
Nenhuma, o aceno de uma
Rosa, breve, outrora.

A gaveta (26) - Turbilhão

Na areia teu nome:
Momento que o tempo, vento
Contínuo, consome.

A gaveta (25) - Paisagem

Silenciosamente
Flutua o cisne: outra lua
No lago dormente.

A gaveta (24) - Adeus

Navio a zarpar.
E os lenços, pombos suspensos,
Na ânsia vã de voar.

A gaveta (23) - Praia

O vento ao passar
Furtou três folhas, lançou
Três barcos ao mar.

A gaveta (22) - Pessimismo

Murchou. Não murchara,
Não fosse a esperança doce,
A rosa, a mais rara.

A gaveta (21) - Núpcias

A luz apagada,
O leito comum desfeito,
A dor fecundada.

A gaveta (20) - Solidão

Lânguida adormece
A tarde. No lago, o par de
Cisnes anoitece.

A gaveta (19) - Verão

Dormira e, dormida,
Deixara sua mais cara
Flor desprotegida.

A gaveta (18) - Em teu sono eterno

Quando, na densa noite sufocados,
Meu quarto e seu infante mundo se iam
Esboroando em pavor, que verdes prados
Os teus lábios de santa mãe diziam!

Que riachos esplêndidos fluíam
Dos montes de brancura aureolados!
E as ovelhas, alvíssimas, pasciam,
Embalando meus olhos fatigados...

Hoje, que já meus prados não florescem
E turvas águas correm malfazejas
E o céu pesado nuvens escurecem,

Possam estar, lá onde tu estejas,
Floridos, límpidas, e o céu tão terno
Quanto as ovelhas em teu sono eterno.

A gaveta (17) - Assim seria

A casa era pequena, mas havia
Lá no fundo um jardim onde as crianças
- Loiros os dois, ela com longas tranças -
Plantavam descuidadas a alegria.

Quando acordava a noite e o sol caía,
Reuníamos as nossas esperanças
Ao fogo bom do lar. Com frases mansas
A tua voz, mulher, adormecia

Os pequenos na história da menina
Que encontrou o seu príncipe encantado.
Depois, o amor preenchendo a cama quente,

O torpor suave, e o sono se espalhando
Enfim por toda a casa, pequenina,
Impossível, sonhada, inexistente.

A gaveta (16) - De quê?

De que morrerás
Se o amor,
Maior que o meu ciúme,
Me paralisa as mãos
Para a esganadura
Para o veneno
Para a tortura
Para o tiro que te estoure
O sexo infiel?

De que morrerás
Se não te fere consciência
Se não te golpeia remorso
Se não te fulmina
A praga das esposas enganadas?

De que morrerás
Se não te penetra o gume da madrugada
Se o álcool não te destrói
Se não te corrói o esperma cotidiano?

De que morrerás
Se tudo te poupa?

De que morrerás?
De nada?

A gaveta (15) - Mulher

Mulher,
Hoje que o tempo me salvou de ti,
De ti e de minha robusta fraqueza,
Hoje que meu pensamento
Teve alta afinal
E se libertou das grades do sentimento,

Hoje, lembro sem temor teu nome
E como teu corpo pulsava nele,
Tanto, tanto, que ao pronunciá-lo
Meus lábios tinham sabor de beijo,
Orelha, seio, sexo.

Quantas garrafas,
Quantas lágrimas, mulher,
No caminho de tua posse impossível.

Mas hoje, hoje que te refaço,
E surpreendo secos meus olhos,
E a mão não tateia mais
A tranquilidade errônea do conhaque,

Semeio o sono, Sandra,
Com teu nome despojado da carne,
E teus olhos de chama extinta
Velam serenos as ovelhas do meu sonho.

A gaveta (14) - Carta

Ah, minha mãe, minha mãe! Teu filho
Não é industrial
Nem comerciante
Nem poeta
Nem nada

E qualquer coisa eu sei que te serviria, minha mãe,
Sobretudo poeta,
Que era o que eu queria, e o que eu queria
Sempre te foi especial.

Como hei de te dizer, minha mãe,
Que escrever coisas bonitas como gostas
Não é ser poeta? Como?
Dirias que eu sou modesto,
Que a modéstia é uma virtude,
E eu não sou modesto não, minha mãe,
A não ser por minha condição,
Por não poder ser mais que modesto
Quem não pode ser mais que modesto.

Minha mãe, as coisas se complicaram.
O consolo que sempre consolava
Não resolve,
Nem acredito como antes
Que tudo passa.

Minha mãe, teu filho está inconsolavelmente triste,
Teu filho está perdido, minha mãe.

A gaveta (13) - Tua minha vida

Vai, podes ir se crês que em ti morreu
O amor que me comove e me arrebata.
Nem sequer temas que te chame ingrata,
Pois nada levas que não seja teu.

Levas o riso? O riso floresceu
Depois de ti, com força de cascata.
Levas também o sonho? O sonho data
De teu primeiro olhar queimando o meu.

Vai, pois, sem um remorso na consciência,
Colher as tuas flores na existência,
Deixando embora minha estrada nua.

Vai, não me fites não, assim condoída.
Levas contigo, eu sei, a minha vida,
Mas minha vida é tua, é toda tua.

A gaveta (12) - Soneto do esquecimento

Talvez não lembres mais, eu não esqueço,
Aquela madrugada longe e fria
Em que pagaste nua o amargo preço
De tua ingênua e pobre fantasia.

Talvez não lembres mais, nem eu mereço,
Mas penetrara o quarto a luz do dia,
Quando caiu teu último adereço
E se desfez a tua teimosia.

Talvez não lembres mais que nesse quarto
As reservas antigas olvidaste
E o teu amor fizeste pleno e farto.

Talvez nem lembres que te prometi
A constância que então me suplicaste.
Talvez nem lembres mais que me esqueci.

A gaveta (11) - Soneto da bem-amada prostituta

Pálida, muito pálida e calada,
Nos lábios graves um sorriso triste,
Nos olhos cavos uma luz cansada,
Assim, tristonha e pálida surgiste.

Quis abraçar-te, mas a madrugada
Crescera imensa em ti, e sugeriste
Presteza. Tinhas a alma desligada
Dos gestos, e depressa desvestiste

O corpo afeito, e o seio propiciaste
E beijos deste, e as pernas separaste,
Mas eram frio, murchos, constrangidas,

E pálida, e calada, foste embora,
Alheia ao fogo da hora breve, da hora
Que me dormira as noites maldormidas.

A gaveta (10) - Reservado

Pura, minha infância.

Não tive prima que me iniciasse
No canto escuro do porão
Não tive empregada que me usasse
Não tive mão safada
Seguindo a imaginação.

Quanto aos meninos
Troquei com eles
Figurinha, pião,
Sopapo, bolinha,
Sem etc.

Vivia simples
Sem saber que em mim crescia
A flor de angústia, a flor de sangue
Dilacerada depois
Dia a dia
Pelos dentes podres da madrugada.

Eu nem pressentia então,
Mas a morte já me reservava.

A gaveta (9) - Ilusão

Não era amor, mas tanto me doía
E tão fundo no peito descontente
Que não sei se pulsara mais candente
Fosse amor o que a alma constrangia.

E tão grande existiu, inexistente,
Que o sentimento dúbio se arrepia
E a lembrança interroga, em agonia,
O que era que magoava o tempo ausente?

Não era amor, é certo que não era,
Que era tudo ilusão de primavera,
Que foi teu corpo inacessível flor.

E me consola, extinto já o desejo,
Que não me tenhas dado nunca ensejo
De lastimar agora um morto amor.

A gaveta (8) - Aurora

Meus olhos e os teus olhos nesta noite escura,
Meus passos e os teus passos nesta trilha incerta,
Juntos irão chorando a mesma desventura,
Irão buscando juntos a pousada certa.

Ah, não te vença nunca o drama da procura,
Ah, nunca te amedronte continuar. Desperta,
Que em algum canto dorme um ninho de ventura
Onde espera por nós, em flores mil aberta,

Sorrindo, a primavera. Desperta, eu preciso
De ti! Dá-me um abraço, acende-me um sorriso,
Consola meu cansaço, e vamos pela estrada

E vamos pela noite e pela vida afora,
Que deve estar nascendo, minha triste amada,
Na distância sombria uma límpida aurora.

A gaveta (7) - Testamento

A grandeza que me queriam
Não havia.
Havia só grandeza
Em quem me queria.

Fui a noite estéril de um dia
(E o dia tinha o sol
E as crianças que o sol
Ao parque trazia,
Ao parque onde desci,
Noite espessa, noite sombria).

E esperei, noite plena,
O parto de estrelas que não havia,
E minha treva chuvosa,
De lua vazia,
Não recebeu namorados.

Morri sem fazer-me
E já não nascem flores
Na terra que me tem,
Desgraçada de ter-me.

A gaveta (6) - Jardineira

A jardineira do meu poema,
A jardineira que não existe,
É velha, vende flores, não é triste,
A jardineira que não existe.

É curta sua história:
Marido não teve,
Parentes não tem,
Tem sete filhos doentes,
Tem doze lustros de idade
E mais os anos incertos
Que a idade olvidou.

Tem sete metros de herdade
Que um príncipe bom lhe doou,
Tem sete dias por semana,
De sol a sol,
De dia a dia,
De faina ingente e suor.

Mas como tem sempre
Os braços cheios de flor
E a mente sempre vazia
Não é triste a minha jardineira,
A jardineira do meu poema,
A jardineira que não existe.

A gaveta (5) - Suicídio

Se me deixares
Juro que me mato.
Tomo um porre desgraçado,
Xingo a mãe de todo mundo,
Brigo, não brigo,
Saio de um bar,
Entro noutro, bebo,
Pago a conta,
Não pago, pago,
Pego uma prostituta,
Vou para a minha casa,
Vou para a casa dela,
Vou para a casa do capeta,
Durmo, acordo, levanto,
Faço a barba, saio,
E se ainda me doeres
Juro que ma mato,
Se lembro de passar pelo viaduto.

A gaveta (4) - Reclusão

Caminho, mas parece que não ando.
O mundo passa mas vou só comigo.
Gente brigando? Alguém gritou? Amigo
Fez sinal? Onde? Quando? Estou andando
Mas sem transporte nem consciência, apático,
Estático, absolutamente estático.

A gaveta (3) - Sugestão

Sonha, se tua realidade é triste.
Sonha, que o sonho ao menos pode dar,
A quem sofre, a ilusão de acreditar
Que é verdade o que só no sonho existe.

Sonha, e mesmo o que nunca, nunca viste,
Nem pensaste sem logo duvidar,
Tudo terás, real, a fulgurar,
No remanso ideal que construíste.

Sonha, e tudo que sonhes de mais belo
Abriga em teu intrépido castelo
Que a ventania arrojará ao chão...

Que importa? Apenas te acharás tristonho
Até que eterno sonhes novo sonho,
Eterno até o novo furacão...

A gaveta (2) - Mare vitae

Há quanto tempo o mar que chamam vida,
Raivoso e sem nenhuma remissão,
Arroja minha frágil nau vencida
Às tristes praias da desolação.

Há quanto tempo este desejo vão
De calma, de consolo, de guarida,
Ou desvia furioso furacão
Ou torce tempestade intumescida.

E sempre novos portos, nova gente...
Mas eu, que a sorte com ninguém reparto,
Prossigo sempre a intérmina jornada

Em busca de algo, pois não tenho nada,
Nem peito, quando chego, que me aquente,
Nem lenço que me acene quando parto.

A gaveta (1) - Mãe

A casa dormia.
Lá fora, no jardim,
Algum mistério preparava
A rosa do novo dia.

Eu que sonhava
Na casa que dormia
Sonhava com uma rosa -
Diversa, mas rosa,
Flor que um dia
Por algum mistério
A terra chamará.

No sonho
Minha mãe, rosa,
Me sorria.

A gaveta

Abri hoje uma gaveta, encontrei um caderno amarelado e, numa letra que a princípio não reconheci, vi alguns escritos de minha adolescência, que irei colocando aqui, esperando dos eventuais leitores perdão para o estilo principiante - que, de resto, não mudou muito de lá para cá. São haicais, sonetos, tancas, pequenos poemas, fragmentos que reunirei sob o título A gaveta. Se culpa couber a alguém, que recaia sobre o jovem que fui, e não sobre mim, ou talvez também e principalmente sobre mim, por ter, como todo velho, o hábito e a falta de prudência de abrir gavetas.

Lírica (1.225) - O adjetivo

Não fui ao google, mas imagino que celestial seja um adjetivo criado menos para se referir ao céu do que à voz de Maria Callas.

Situações (121) - A professora

Quando a professora de trabalhos manuais se sentava e cruzava as pernas, os garotos deixavam cair borrachas e lápis para apreciar algo que inspiraria depois, em casa, vários trabalhos manuais.

Situações (120) - Tesourinho

Se um dia tiver um cachorrinho, dará tudo o que houver de melhor para ele: carinho, comida, talvez até um poste exclusivo, para que ele não precise ir à rua e sofrer o assédio daquelas cadelas vagabundas.

Situações (119) - São Bento

Havia quem, consultado sobre as horas, olhasse com orgulho para o pulso e dissesse: "Está acertado pelo relógio da igreja de São Bento." Era a religião assumindo por um instante um ar de rigor científico.

Lírica (1.224) - Incompetente

Devo ser muito bisonho.
De que outra forma explicar
Como, ansiando te encontrar,
Jamais te vejo em meu sonho?

Lírica (1.223) - A curva

Drummond derrapou no amor na perigosa curva dos cinquenta. Outros, menos precoces, derrapam aos sessenta, aos setenta.

Lírica (1.222) - Mesmo ali

Você, se estiver por perto,
Verá, minha amada, que eu,
Se for clamar no deserto,
Clamarei o nome seu.

Lírica (1.221) - Body and soul

Embora alguns de nós, garotos, já tivessem ouvido falar de alma, não nos importávamos muito com ela e a daríamos satisfeitos a Marilyn Monroe ou Brigitte Bardot, em troca de algo, nem que fosse só um beijo, quem sabe até um sorriso.

Lírica (1.220) - Noves fora

Quer escrever um poema
Para dizer com isenção
Que o amor não é nem problema
E nem será solução.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Lírica (1.219) - Lacuna

A minha vida? Morri
No dia em que te encontrei
E, não me prendendo a ti,
Que tu partisses deixei.

Situações (118) - Ainda não

Uma noite, há muitos anos, um grupo de estudantes, incitado pelo álcool e talvez pelo desejo de repetir a história, irritado porque um homem com sotaque de Taubaté afirmava, na praça da República, ser Jesus, ameaçou crucificá-lo ali mesmo e talvez o tivesse feito se ele, a tempo, não dissesse que era Cristo, sim, mas ainda não estava preparado para a missão.

Lírica (1.218) - O risco

Aquele contato terno
Que se recebe e se dá,
Ninguém sabe quantos já
Mandou do céu ao inferno.

Lírica (1.217) - Onan

Tão forte a imaginação
Que, embora estando sozinho,
Sentiu no rosto um carinho
E o cheiro dela na mão.

Lírica (1.216) - Processo

Ele a acusava, indiciava,
Ele a julgava e punia,
Ela perdoava, indultava,
Ela o amava, ele sabia.

Lírica (1.215) - Frederico Branco

Se alguém quisesse escrever um livro sobre os cinemas do centro de São Paulo nas décadas de 50 e 60, um livro que fosse buscar a memória não só dos filmes, mas principalmente das salas de exibição, das bilheteiras compenetradas, da farda marcial dos lanterninhas e dos vendedores de balas de goma com seu tabuleiro, do ruído dos chicletes de bola estourando na plateia, misturado aos estalares de beijos nas últimas fileiras, dos cheiros - se alguém quisesse isso, precisaria ressuscitar Frederico Branco. Como isso talvez não seja possível, embora Frederico e os leitores bem merecessem, um bom consolo pode ser encontrado no seu livro de crônicas Postais Paulistas.

Lírica (1.214) - Tirano

Queria que ela sentisse
Aquilo que ele sentia,
Queria que ela admitisse,
Que lhe confessasse, um dia.

Lírica (1.213) - Da alma

Tesouros da alma, conforto
Que a mim está destinado
No dia enfim abençoado
Em que o corpo estiver morto.

Lírica (1.212) - Adolescente

Sempre que falava com ela, sentia a alma orvalhada, os olhos úmidos e o corpo molhado.

Situações (117) - Lucas, Lúcia

Ela gostaria de ter um gato pequeno e muito terno, que pudesse abraçar à noite, na cama, beijar e chamar de Lucas, aquele ingrato. Ela gostaria de ter uma gata pequena e muito terna, que pudesse abraçar à noite, na cama, beijar e chamar de Lúcia, aquela ingrata.

Situações (116) - Símiles

No metrô, sentada, a moça lia um romance do tempo das cruzadas e, enquanto sonhava como seria bom morrer de amor por algum daqueles viris cavaleiros, o rapaz, em pé, observando-a, pensava que por aqueles seios e pernas e lábios seria capaz de matar, de morrer.

Situações (115) - Enfim

Um dia, não suportando mais, deixou que a loucura o possuísse. Ao contrário do que imaginara, sentiu-se bem pela primeira vez na vida, embora os parentes, os amigos e os médicos discordassem acerbamente.

Situações (114) - Sadomasô

Algumas meninas pulavam corda suavemente. Outras chicoteavam o chão com um ímpeto que manteriam depois, para supliciar os homens e também para conduzi-los ao êxtase.

Lírica (1.211) - ... e o vento levou

O lanterninha fiscalizava os casaizinhos, mas na tela Clark Gable, gozando suas imunidades de galã, continuava beijando Vivien Leigh.

Lírica (1.210) - Uiii

Havia uma ladeira em que o bonde provocava arrepios nas garotas, enquanto as senhoras faziam o sinal da cruz.

Lírica (1.209) - Os vendedores

No viaduto do Chá, podiam comprar-se facas de cortar legumes, que não cortavam legumes, e também mapas desatualizados, porque o vendedor não tinha sido apresentado à geografia. Mas o sol ainda era legítimo e de primeira qualidade.

Lírica (1.208) - A molecota

Cortaram aqui, sangraram ali, puseram-lhe sondas e tubos, ligaram-no a soros, mas a alma, molecota, embora o hospital não fosse um lugar propício, já dava os primeiros passos da sua liberdade: saía do corpo, voltava, saía de novo, e mostrava a língua aos médicos e às enfermeiras.

domingo, 7 de novembro de 2010

Lírica (1.208) - Madeleines

Se eu fosse escolher minhas madeleines, seriam os cachorros-quentes da Salsicharia Três Porquinhos, na São João. Tão estranho, isso: toda a São Paulo dos anos 60 ressurgindo, mítica, por obra da magia de um prosaico pãozinho com salsicha e mostarda.

Lírica (1.207) - Cine Estrela

Ando cada vez mais surdo para os ruídos do mundo e da vida, mas ainda, com os ouvidos da memória, ouço o fragor das cavalgadas, os estampidos e o silvo das balas ricocheteando nas pedras, na tela do Cine Estrela. Caubóis de minha infância, eu quisera ter um chapéu imponente como aqueles vossos, para reverenciar-vos.

Lírica (1.206) - Bicicleta vermelha

Ela pedalava sua bicicleta vermelha pelas ruas de terra do meu bairro. Eu era só um menino e não sabia ainda o que estava acontecendo comigo. Logo saberia. Foi a primeira vez que o amor me magoou. Pena não ter sido a única, pena não ter sido a última.

Situações (113) - Nosso primeiro morto

Mesmo hoje, o bairro onde vivi minha infância e adolescência não é muito conhecido. Na época em que andei pelas suas ruas com a minha bicicleta, ele tinha acabado de nascer. Tudo ali era novo, sem tradição. O que diziam de nós os orgulhosos moradores do Brás, da Penha, da Mooca, da Vila Maria? Nada. Habitávamos um lugar desconhecido, era inegável, e nos ressentíamos com isso. Poucas coisas aconteciam ali, e o que acontecia era indigno de menção. Não havia ainda, que me lembre, jornais de bairro, e o Estadão, a Folha, a Gazeta e o Correio Paulistano eram inatingíveis para nós, com nosso paupérrimo cotidiano. Foi assim, até que uma tarde um táxi atropelou e matou um homem em nossa principal avenida. Bom, ali estava afinal a chance de notoriedade que tanto esperávamos. O motorista, a vítima e o próprio táxi seriam os primeiros heróis da nossa história. No dia seguinte, cheios de antecipado orgulho, fomos comprar os jornais. Nada, em nenhum deles. Nosso primeiro caso de atropelamento e morte, num tempo em que não eram comuns atropelamentos e mortes em São Paulo, passou em branco. Talvez algum dos quatro jornais tenha até mandado um repórter ao nosso bairro. Mas quem saberia como chegar ao Jardim da Saúde?

Lírica (1.205) - Ana Luisa

Se o tempo é circular, talvez agora, na Dom José de Barros, no Cine Jussara, Ana Luisa Peluffo esteja deixando escapar outra vez do sutiã os dois pássaros que os adolescentes da década de 50 viram na tela e depois levaram para a cama, em tantas noites de machucada excitação.

Lírica (1.204) - Revoada

Ditosos aqueles olhos que puderam contemplar nas tardes antigas, quando havia ainda garoa em São Paulo, como ela cessava às vezes, repentinamente, e o sol surgia esplêndido, porque os portões da Caetano de Campos se abriam e, assim como os passarinhos no célebre soneto de Raimundo Correia, as normalistas saíam todas em bando e em revoada.

Lírica (1.203) - Meio-dia

As doze badaladas da igreja de São Bento ovoavam tão pesada e solenemente o ar, que os passarinhos se calavam, reverentes, e esperavam a badala seguinte, quando as normalistas começavam a passar a caminho da Caetano de Campos, para voltarem a cantar a alegria de viver em São Paulo. Foi há muito tempo, eu era menino, e me ocorre agora que os passarinhos possam ter sido um acréscimo que fiz à paisagem da época, como tantos acréscimos que os meninos sempre fizeram e farão ainda sempre que quiserem continuar acreditando na beleza do mundo.

Lírica (1.202) - Sem explicação

Ficava aflito sem ela,
E com ela aflito ficava,
Não sabia nada dela,
Sabia só que a amava.

Lírica (1.201) - Só isso

Para lembrar-te, formosa,
Meu coração não precisa
Ver nada além de uma brisa
Jurando amor a uma rosa.

Lírica (1.200) - Pretexto

Dizendo que só queria
Ler o futuro, piscou
Para a mulher e a levou
Para uma onfalomancia.

Lírica (1.199) - Compromisso

Acorda cedo porque
O sol, menininho arteiro,
Somente se mostra inteiro
Depois que na rua a vê.

sábado, 6 de novembro de 2010

Lírica (1.198) - Rosa no trigal

Ele a abraçou e, encostando o rosto nos seus cabelos loiros, deixou que antigas lágrimas escorressem por eles, até não haver mais nenhuma na fonte dos seus olhos. Poderia imaginar que, dali a algum tempo, ao menos uma rosa nasceria ali no meio do trigal, se fosse poeta. Pena que não era.

Situações (112) - Caçapas

O sol surgia lá fora, e no Anhangabaú as formigas desciam dos ônibus atarantadamente e começavam a se espalhar pela cidade, mas as bolas sete continuavam a cair nas caçapas do meio e do fundo, porque a noite era eterna no bilhar da rua Formosa.

Situações (111) - Rotativas

O sangue que melhor gastei foi aquele que ficou na Major Quedinho. Como era bom, depois das caçadas noturnas aos erros de gramática e de informação, às traiçoeiras crases e às vírgulas indevidas, vê-lo correndo nas rotativas do Estadão, enquanto os últimos boêmios voltavam dos dancings Avenida e Chuá e da gafieira do Som de Cristal e o sol se preparava, ainda bocejando, para ir acordar e encaminhar às aulas as meninas da Caetano de Campos.

Lírica (1.197) - Gracias

Que bom que existes, pequena.
Sem ti, como é que eu faria,
Me diz, que rima acharia
Para esta noite serena?

Lírica (1.196) - Mão

Se a tua mão, tão macia,
Na minha mão se deixasse,
Talvez a dor se abrandasse
E reflorisse a alegria.

Lírica (1.195) - Bilhete

Não te pedirei socorro.
Continuarei minha vida,
Embora triste e sofrida,
E, se precisar, eu morro.

Lírica (1.194) - A décima

Nove entre dez histórias de amor são enfadonhas. A que sobra, a décima, só ainda não é por falta de tempo.

Lírica (1.193) - Rimas

Não, não rimarei amor com dor, nem anos com desenganos. Certas verdades, por serem sabidas e consabidas, não merecem (e perdoem aqui a rima) ser repetidas.

Situações (110) - O estraga-prazeres

Um passarinho entoou
Seus pios mais esmerados
E um outro, além, respondeu
E com seu canto o ar encheu.
No parque se pressentia
Um show, uma sinfonia,
Até que um homem berrou:
"Vão se ferrar, seus dois veados!"

Situações (109) - Ruínas

A morte se irritou quando foi buscá-lo. A vida havia chegado antes.

Lírica (1.192) - Lugar santo

Sentiu que afinal havia
Chegado a um porto seguro
Porque, mesmo estando escuro,
As cruzes em torno via.

Lírica (1.191) - Ali

Minha alma talvez insista
(Teimosas que as almas são)
Em vagar pela Paulista
Ou pela Consolação.

Lírica (1.190) - Aquele menino

Às vezes contempla, absorto,
A foto de quem um dia
Foi ele: alguém que sorria,
Alguém agora já morto.

Situações (108) - Algo

Mesmo sua sombra já hesitava em segui-lo, e às vezes até se atrasava. Havia em torno dele algo que não se via, mas que se sentia, alguma coisa gélida como o abraço da morte.

Situações (107) - Bacanais

Acordava rodeado de palavras. Elas exigiam que ele as usasse, juntasse, lhes desse a vida que cada uma, sozinha, dizia não ter. Ele era subjugado por elas desde a primeira claridade do dia até a entranhada treva da madrugada. Quando, febril e exausto, se entregava ao sono, o silêncio zombava dele e da sua incapacidade. E às vezes até as palavras, as mesmas que logo depois o despertariam novamente para lançá-lo no seu tormento diário, escarneciam também dele e se enroscavam afinal como queriam, e se entrelaçavam, e se fundiam, em frenéticas bacanais.

Situações (106) - Esperteza

Aspirar a uma alma talvez seja o mais astuto estratagema do corpo.

Lírica (1.189) - O prêmio

Lastima a funesta sorte
Que o fez debater-se tanto,
Em tão cruel desencanto,
Para premiá-lo com a morte.

Lírica (1.188) - Autoimagem

De si mesmo tem aquela
Pungente e atroz impressão:
Alguém que apaga uma vela
E afunda na escuridão.

Lírica (1.187) - Procuração

Aos deuses, já que não pude,
Delego a elevada empresa
De te exaltar a beleza
E o amor, tua maior virtude.

Lírica (1.186) - Desconstrução

Descrente já do lirismo,
Pensava numa arte fosca,
No mais vulgar prosaísmo
E na linguagem mais tosca.

Lírica (1.185) - Fantasia

Um dia, minha menina,
Consigo nos transformar:
Eu serei quem sabe um czar,
E você, minha czarina.

Lírica (1.184) - Pôr do sol

Não é a noite que desce
Sobre ele no fim do dia.
É a dor aguda que cresce
E o véu da melancolia.

Situações (105) - Pilar Del Río

Conhecendo-se tudo que ela fez pelo homem José e tudo que ela fez o escritor Saramago fazer, que outro nome poderia ter ela senão Pilar?

Situações (104) - Os leões

Como o velho Santiago, de Hemingway, ele sonhava com leões. Toda noite eles apareciam, mostravam seus olhos flamejantes, exibiam seus dentes e o devoravam. Só se livrou deles depois que, um dia, sentiu que ser morto por leões era honra demais para ele.

Situações (103) - Baboseiras

Num certo mês de novembro, começou a julgar tudo uma baboseira: os filmes, a arte, a literatura, a televisão. Baboseira o canto dos pássaros, o calor que o sol oferece todos os dias e a espiada que as estrelas vêm dar toda noite nos mortais. Acabou por achar baboseira a vida. Morreu três anos depois, segundo consta na certidão, três anos atrasada.

Situações (102) - Tantos

Mário de Andrade dizia ser trezentos, ser trezentos e cinquenta. Como competir com um poeta assim, quando se é só um, e nem disso se tem muita certeza?

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Lírica (1.183) - Brigitte Bardot

O tempo passa, mas ela,
Com o corpo embora em ruína,
Parece agora mais bela
Do que foi quando menina.

Deixando o apelo carnal,
Que parecia sua sina,
Defende a vida animal
Da exploração assassina.

Lírica (1.182) - Resíduos

Do grande amor de sua vida
Não tinha agora senão
Um livro ou dois, um cartão
E uma saudade doída.

Lírica (1.181) - Filosofia

Se és em sofismas versada
E nas versões contrapostas,
Tu sabes bem que as respostas
Nunca respondem a nada.

Lírica (1.180) - A esquina

Discordo do deslumbramento que Caetano Veloso e outros tantos têm pela Ipiranga e a São João. Andei por ali milhares de vezes e em nenhuma delas você estava lá.

Situações (101) - Marido

Devia ter desconfiado,
Devia ter percebido
Que estava sendo iludido,
Que estava sendo enganado.

Lírica (1.179) - Sem palavras

Inutilmente havia exprimido amizade, havia proclamado ternura, havia jurado amor, e, sabendo não ter mais nenhuma palavra que pudesse traduzir as aflitas batidas do coração, desejou que ele parasse, que ele morresse, que ele o isentasse enfim de continuar buscando uma ventura que desde o começo ele já se sentira incapaz de viver.

Lírica (1.178) - Espera

Estava cansado. Tinha
Ao amor se subjugado,
Tinha por ele esperado,
Porém o amor jamais vinha.

Situações (100) - O Nome da Rosa

Há livros que existem para ser ostentados. Colocados contra a vontade deles e dos autores nas listas dos best-sellers, recebendo múltiplas citações e resenhas, eles, embora não correspondam nem queiram corresponder àquilo que o leitor médio costuma esperar, são levados por ele aonde ele for: ao metrô, ao escritório, às academias de ginástica. Constituem um exemplo do que antigamente se chamava de cultura de sovaco. Hoje adquiriram o status de bijuterias, uma espécie de brincos e pulseiras da cultura. Escritos para a compreensão integral de talvez apenas mil eruditos no mundo, são vistos, como que por desastrado sortilégio, nas mãos de pessoas que não os lerão mas os acharão "maravilhosos". Um desses livros, O Nome da Rosa, de Umberto Eco, cintilou como brinco e pulseira durante meses por São Paulo. Ouro para os mil eruditos capazes de compreendê-lo, virou ouropel e, como tal, andou melhorando o aspecto intelectual de quem o carregou de um lado para outro da cidade. Tentei ler o livro e percebi, logo nas primeiras páginas, que se fosse tomá-lo a sério, como deveria, e procurar, por exemplo, traduzir as partes, imensas, em latim, gastaria talvez - e sem nenhuma garantia de êxito - o resto de minha vida. Pulei as citações, frases, parágrafos, páginas, desisti de ir à enciclopédia a cada dez linhas, e cheguei ao fim como quem chega a um lugar cujo nome nunca saberá. Imaginei ser mais proveitoso fazer uma segunda leitura de Ulisses, de James Joyce, da qual também saí, quase como na primeira vez, sem saber se estava em Pasárgada ou em Calcutá.

Lírica (1.177) - Conhe(ser)

Se quero te conhecer,
Não é para te alterar,
É só para me adaptar
Ao teu estilo de ser.

Lírica (1.176) - Desbarrancando

Olha, eu te amo tão geogra
ficamente e tão mani
acamente que amo lá
e além e também aqui.

Situações (99) - O aviãozinho

No parque, o menino arrancou uma folha do caderno, fez um aviãozinho e o atirou para o alto. O vento entrou na brincadeira e conduziu o aviãozinho até um bonito pouso no chapéu de um senhor que cochilava num banco. Ele acordou, pegou o chapéu, o aviãozinho e, não vendo ninguém por perto, levantou o pescoço e olhou feio para a árvore.

Situações (98) - Drummond

Se Carlos Drummond de Andrade, com aquele jeito dele, viesse tocar nossa campainha, não pensaríamos na hipótese de ele estar nos trazendo um poema fresquinho. Olharíamos desconfiados pela cortina, já decididos a não atender, e algum de nós talvez dissesse: "Acho que é o homem do IBGE..."

Situações (97) - A empadinha

Era noite e o homem estava já esperando o ônibus fazia vinte minutos, em cada um dos quais o estômago, cada vez mais aflito, lhe tinha dado uma mordida para avisar que não aguentava mais. Comida, comida, ele exigia. Quando outro ônibus passou, e não era o dele, o homem entrou no bar e pediu uma empadinha. Saiu mastigando, bem no momento em que seu ônibus finalmente chegou. Mas ele não subiu, porque estava desinteirado o dinheiro da passagem. Pôs-se a andar para casa, e caminharia os sete quilômetros com maior disposição, se a empadinha não estivesse tão azeda e farinhosa.

Lírica (1.175) - Poetinha

Vinicius de Moraes é poeta de se ler dos quinze aos vinte anos. Depois também, até os oitenta, mas o sabor já não será tão especial, assim como as gabirobas, as pitangas e as romãs têm um gosto peculiar que elas não oferecem a ninguém mais senão aos meninos e às meninas.

Situações (96) - Orgias

Naquela manhã, olhando seu rosto como outra pessoa faria, sem condescendência, notou que as rugas estavam bem fundas e lembrou-se de como o pai o havia aconselhado tantas vezes a não se meter em farras ou orgias, se quisesse manter a juventude. Dando uma segunda olhada, pensou que não se importaria se o rosto estivesse ainda mais sulcado e, acariciando-o, murmurou: "Belas rugas."

Lírica (1.174) - Meticuloso

Fazendo a contagem, passo
A passo, no fim do dia
Descobriu que ela devia
Dois beijos, mais um abraço.

Lírica (1.173) - Ressabiado

Cansou de ser um paspalho.
Agora as cartas de amor
Manda entregar, por favor,
Lá na casa do Carvalho.

Lírica (1.172) - Aula

De que lhe serve saber
O que é um triângulo isósceles,
Ter estudado Aristóteles?
Sua aula, agora, é morrer.

Lírica (1.171) - A manchinha

Passado já tanto tempo, o homem lembra hoje a tarde em que a mulher, de pura galhofa, lhe mostrou uma pequena mancha no braço e o encostou no dele, dizendo que no dia seguinte ele estaria com uma igual. Hoje ele olha o braço e, talvez por galhofa, mas não muita, pensa como teria sido bom se daquela tarde houvesse ficado nele, como lembrança, uma manchinha vitalícia.

Lírica (1.170) - Retorno

Gostaria de ser menino de novo, para poder passar de manhã diante da casa dela e lhe dizer bom dia, e à tarde, e lhe desejar boa tarde, com os olhos infantes nos quais ela não pudesse ver nada além de pureza, essa pureza que ele, homem, quase sempre sente nublada por insinuações carnais.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Lírica (1.169) - Dama de preto

Você, augusta senhora,
Que tem poder sobre a vida,
Me chame na hora devida,
Ainda que seja agora.

Agnosia

Já no final da jornada
Lamenta, com tanto estudo,
Que ansiando saber de tudo
Não saiba nada de nada.

A hora

Se Deus quisesse contar
A nós a nossa missão,
Não achas não, meu irmão,
Que era hora de começar?

Situações (95) - Curitiba e mais cinquenta

Onde estiver Dalton Trevisan, poderá estar Curitiba, mas será preciso olhar bem para vê-la. Dalton é maior do que Curitiba e do que pelo menos mais cinquenta grandes cidades do mundo.

Situações (94) - Os ipês

O vento derramou uma chuvarada de ipês em cima de um carro estacionado. Quando o motorista voltou, pôs-se a tirá-los com tapas do capô e do teto, xingando-os porque iam estragar a pintura. A um homem que parou ele disse, olhando com rancor para a árvore: "E ainda tem gente que defende a natureza."

Lírica (1.181) - A outra

Enquanto semeava o amor,
No peito dele nascia
E sem cuidados crescia
Uma outra (e maligna) flor.

Situações (93) - Lulu

Na tarde em que sepultaram o famoso costureiro, o cachorrinho dele, com a licença outorgada pelos seus cinco anos de convivência com a celebridade, se pôs a urinar em todos os túmulos ao redor e derrubou de um deles um vaso, para beber a água que continha. Por um momento, já que se tratava de um animal aristocrático, imaginou-se que ele pudesse mastigar as flores também derrubadas, mas ele só as cheirou com desdém e as deixou intactas, o que foi atribuído ao fato de serem vermelhas, cor execrada pelo seu finíssimo dono.

Situações (92) - Ufa!

Quando estivermos já mortos,
Ninguém mais vai reparar
No nosso bafo de bar
Nem nos nossos dentes tortos.

Situações (91) - Em casa

Um velho, muito velho, foi colocar flores no túmulo da família e ficou tão encantado com a paz do cemitério que, tendo chegado de manhã, no final da tarde ainda estava lá, sentado numa beiradinha. Os portões foram fechados e veio a noite. Uma lua serena surgiu e ninguém notou que o velho continuava lá, sorridente, feliz como quem enfim encontra sua casa.

Sítuações (90) - Perigo

Alguém - quase com certeza Nelson Rodrigues - imaginou que seria uma experiência interessante podermos morrer um pouco (dar uma morridinha) para ver como é, e depois voltarmos. Sobre isso, ocorre-me uma comparação com o que acontece quando os presidiários recebem indultos: talvez a maioria de nós não quisesse, depois da morridinha, voltar para esta vidinha.

Lírica (1.180) - Delícias

Dar-se ao amor, adoecer
Por ele, se recobrar
E doente outra vez ficar
E definhar e morrer.

Lírica (1.179) - O contador

Uma noite, para tirar uma dúvida, resolveu contar as estrelas. Estava já perto do fim quando o céu ficou nublado e ele não pôde chegar ao número definitivo. Quando o céu se abriu novamente, ele, meticuloso, recomeçou a contar, do zero. No meio, surgiu a claridade do dia e ele, frustrado nessa contagem, se dispôs a iniciar outra: queria descobrir quantos raios tinha o sol. Mas o sol, astuto, o cegava antes que ele conseguisse contar dez raios. Soube que sua vocação eram as estrelas e, à noite, voltou para o seu posto e a sua tarefa.

Lírica (1.178) - Manicômio

Naquela manhã o sol apareceu tão estranho, tão remoçado, que o homem, que o conhecia fazia mais de cinquenta anos, olhou desconfiado para ele e perguntou: "É você mesmo, Gabriel?"

Lírica (1.177) - Salva

A bola subiu tanto, chegou tão perto do sol, que o menino teve medo. Quando ela caiu sobre a areia do parque, ele a apalpou, receando que estivesse queimada. Por sorte, estava só quente, e assim ficou o resto da tarde. Mas o menino evitou os chutes altos.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Lírica (1.176) - Plantio

Como lavrar o amor cansa:
Tamanha dor, sofrimento,
Tanta ansiedade, esperança,
Tanta tortura, tormento,
Tanto sofrer e morrer
Para tão pouco viver.

Lírica (1.175) - A estrela

Esta madrugada, uma estrela caiu na minha rua. Ouvi sua queda, algo assim como um farfalhar de pássaro, olhei pela janela e a vi, debatendo-se, como se estivesse ferida. Como estava escrevendo um poema para você, resolvi não ir lá fora, apesar do alvoroço que imediatamente se formou. Ouvi sirenes de polícia e de ambulância e, logo depois, uma vaia. Decidi então ir saber o que estava acontecendo. A estrela não estava mais lá, mas havia ainda umas cinquenta pessoas. Uma delas, um senhor, me disse que tinham levado a estrela na ambulância, que saíra acompanhada por dois carros de polícia. Começou uma conversa sobre o que se poderia fazer com uma estrela. Um rapaz disse: "Eu dava para a minha namorada." A frase me deixou em dúvida. O que agradaria mais a uma namorada: uma estrela ou um poema? Voltei para dentro de casa e implorei que baixasse em mim o espírito de Fernando Pessoa.

Lírica (1.174) - Morte

Se estás ainda iludido,
Devias logo aprender
Que há o tempo de colher
E o tempo de ser colhido.

Lírica (1.173) - Contradição

Jamais gostaste da vida
E agora queres enfiá-la
No teu caixão e levá-la
Como uma joia querida?

Lírica (1.172) - Calamidade

Maduros eram os dias.
Enfiando neles os dentes,
Podíamos, inocentes,
Prever estas agonias?

Lírica (1.171) - Colheita

O fruto se ofertará.
Está já chegando ao ponto
E estará maduro, pronto.
Mas tua mão estará?

Lírica (1.170) - Encontro

O acaso que em meu caminho
Te pôs é o mesmo, suponho,
Que fez surgir em meu sonho
Um canto de passarinho.

Situações (89) - O rapaz

São seis da tarde e a garota continua esperando o rapaz que prometeu chegar entre as duas e as três, no máximo. Já está achando que ele não vem mais, mas vai acabar ficando no portão até as sete. O rapaz virá amanhã, para dizer que precisa ir a Pernambuco ajudar o pai no sítio por uns tempos, talvez seis meses. Ela sentirá vontade de perguntar se é sítio mesmo o que o pai tem, porque imaginou que ele tivesse dito que era uma loja, mas não perguntará nada. Só suplicará que ele escreva, já que não é de lidar com o micro, e telefone. Ele diz que vai telefonar e ela pergunta, aflita, se ele tem o número. Ele diz, contrariado, que tem, lógico, e avisa que vai embora. Ela lhe pede que espere e volta com o telefone escrito, junto com uns corações desenhados. Levanta-se na ponta dos pés e o beija. Ele desvia o rosto e ela ainda, antes de ele subir na moto, lhe diz que o ama e vai aguardar por ele. Não lhe diz que está grávida, porque ainda não sabe.

Lírica (1.169) - Lá adiante

Quem sabe lembres de mim,
Talvez numa livraria
Ou numa cafeteria,
Num dia de sol, assim.