segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Oraçãozinha

Que à minha rosa tardia
Seja benévolo o vento,
Que a terra lhe dê sustento
E o amor lhe ensine a magia.

Conversa

Dirão de mim coisas belas
E também coisas bem más.
Destas não sei, mas daquelas
Apenas tu saberás.

Ponteiros

É tarde, já. Se chegares,
Quem diz que as mãos se darão,
Que os lábios se entenderão
E se olharão os olhares?

SOS azul

Azul, azul, onde estás?
Cavei no peito um lugar
Para o fragor do teu mar,
Azul, não me afogarás?

Cansei da vida, da paz,
Quero morrer, me asfixiar,
Azul, vem, vem me tragar,
Azul, me diz, tardarás?

Vida

Quando digo que mais nada
Na vida agora me importa
A tradução adequada
É: minha vida está morta.

Enfermaria

Não preciso
das manhãs de hoje

Bastam-me as de outrora
que fulgem ainda
com seu sol esparramando-se
espalhafatosamente
por todos os quarteirões
por onde menino
andei e desandei

Basta-me aquele cheiro
de terra
de seiva vigorosa
de sêmen da natureza
aquele desfalecimento
de rosa embriagada
putona enrustida
abrindo-se afinal toda
ao zumbido
das abelhas cobiçosas

Basta-me aquilo
que eu sentia
aquilo que eu
por uma precoce sabedoria
sabia que precisava reter
na pele
nas narinas
na boca
para quando tudo
não pudesse ser
senão lembrança
como agora é

Aqui onde tudo
é sempre noite
e conversas murmuradas
e injeções
e soros
e comprimidos
e Deus é citado
como santo remédio
basta-me isto
este sopro de uma brisa antiga
este sussurro de uma primavera
que já amareleceu
cinquenta anos
nas páginas dos jornais
e nas fotos dos álbuns

de uma primavera
em que um corpo
que era este e já não é
tinha a presunção de julgar
as manhãs feitas para ele
e gabar-se
de ter cinco sentidos

domingo, 30 de janeiro de 2011

Realidade

Já teve alguma ambição,
Chegou até a sonhar.
Perdeu a fé e a ilusão:
Viver é só respirar.

Paisagem

Pensei muito
no que poderia haver
de mais terno
entre nós
e imaginei
uma chuva lenta e morna
que nos surpreendesse
uma tarde
num parque
e fosse tão lenta
e tão morna
que não nos fizesse
correr como os outros
e nos conduzisse
em passos morosos
para lugar nenhum
onde haveria um
caminho para
outro lugar nenhum
e outro e outro
para os quais caminharíamos
sob a chuva
lenta e morna
e não precisaríamos
nos dizer nada
e nos entenderíamos
como só um homem
e uma mulher
tocados pelo amor
podem se entender
uma tarde
num parque
sob uma chuva
lenta e morna
caminhando não
para um arco-íris
mas para a simpática
mesinha de um café

Duas palavras

Do sonho que desfrutaram
E que julgaram infindo
No fim de tudo restaram
Duas palavras: foi lindo.

O sonho

Tu vais para
o último dos quartos
o mais remoto
e te armas
de cortinas espessas
vedas as frestas
e achas que poderás
ficar ali para sempre
na eterna noite
que teu coração pediu

Tudo vai bem

Fechas os olhos
abres os olhos
e tudo é sempre noite
treva sempre e silêncio
como querias

Aboliste o sol
suprimiste o dia
e vives assim
na benfazeja escuridão
semanas ou
meses talvez

Mas chega um momento
quando já te achavas
consolidado
na perenidade da noite
um traiçoeiro momento
em que sonhas

E sonhas
com um dia
de primavera
em que os passarinhos cantam
e um deles traz
no bico
um raio de sol
e te diz haver nele
um recado do amor
para ti

sábado, 29 de janeiro de 2011

O diálogo

Com a boca cheia
de esperança
eu fui à fonte
e a fonte
estava vazia

Nas mãos a areia
na boca a sede
olhei para o céu e perguntei
Deus não vedes
a minha agonia?

Deus disse por que choras
por que não me chamaste antes?
Eu te diria como digo agora
por que não bebes
as tuas lágrimas?

Vós

Pagar-Vos o tributo
pelos dias
embora suas alegrias
jamais venham a nós

Pagar-Vos o tributo
pelas flores
cujos olores
nos lembram como fedemos nós

Pagar-Vos o tributo
pelas estrelas
embora seja tão triste vê-las
indiferentes a nós

Pagar-Vos o tributo
pelos tormentos
e pelos sofrimentos
que merecemos nós

Pagar-Vos o tributo
até o dia enfim
em que, chegando o fim,
nos livremos de nós - e de Vós

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A resposta

Querer o quê?
Pedir o quê?
Sonhar o quê?

São três questões corriqueiras
com pequenas variações
e para cada uma delas
uma resposta certeira

Para a primeira
morte
para a segunda
morte
e morte também
para a terceira
e para quantas perguntas mais se fizerem
se respostas honestas se quiserem

Aquele maldito

À noite ou de dia,
No quarto ou na sala,
O amor me apunhala,
O amor me agonia.

No hall, na cozinha,
No lance de escada,
No chão da sacada,
O amor me espezinha.

Maldito tu sejas,
Ó, vil sentimento
Que só no tormento
És tu e vicejas.

Morte dileta

Cravaste as unhas em mim
E o meu pescoço apertaste.
Queres morrer?, perguntaste
E eu te disse: sim, assim.

Outrora

Foi tão bonito, ele diz,
E vai um dia, e outro vem,
Um límpido, o outro gris,
E os meses vão-se também.
O outono passa apressado
O inverno chega afobado
E ele diz, só, fui feliz
Um dia, como ninguém.

Artimanha

Que sortilégio ou feitiço
Poderia eu engendrar
Para afinal despertar
Teu coração tão omisso?

Anseio

Abelha ser e embriagada
Roçar-te dormindo e nua.
Depois morrer esmagada
Por uma palmada tua.

Fetiche

Dizia umbigo e sentia
Tão forte o corpo atiçar-se
Que o sexo com a mão cobria
E precisava sentar-se.

Destino

Teus lábios para tomar
Não foram por Deus criados,
Mas para o néctar guardar
E para serem tomados.

Toalete

Quando ela ajeita os cabelos
Tocando os fios dourados,
Embaixo eriçam-se os pelos
Ansiando ser alisados.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Salina

Queria beber da fonte,
Da que cabelos espessos
Protegem desde os começos
Até o topo do monte.

Gilete

Teres dado tudo
o sangue
a alma
teres penado
a lenta insônia das madrugadas
pingando pingando
e a ensolarada infinitude
dos dias
durando durando

Teres chamado Deus
alto bem alto
teres gritado Deus
teres mordido o lábio
até sangrar
para não gritar mais alto
Deus Deus Deus

Teres te deitado na cama
na manhã escolhida
e cedendo afinal ao impulso
teres rasgado o pulso
e teres gritado ainda
Deus Deus Deus
e mais aquele nome
aquele nome

E saberes que acharam pouco
e saberes que acharam prosaico
e no hospital
para onde te levaram
como levam à praia
aqueles que
não conseguiram se afogar
achares também
e saberes e lamentares
que foi pouco mesmo
e foi prosaico
e foi vulgar
e veres como
é de desprezo o olhar
com que são olhados
aqueles que não sabem
nem viver
nem se matar

Peixe

Morrer como um peixe
que ninguém há de lamentar
um desses bem pequenos
que não desfalcam um cardume
nem fazem falta ao mar

Morrer e deixar-me levar
ao critério dos ventos e das ondas
expondo a derradeira prata
aos cobiçosos olhos do sol
e flutuar flutuar

Não incitar mais
os predadores
nem a fome das gaivotas
nem as redes
dos pescadores

Flutuar flutuar
conservado em sal
talvez semanas
e viajar a última viagem
sem saber se ali é Marrocos
e se acolá é Gibraltar

Flutuar assim
e milagrosamente intacto
um dia a uma praia chegar
onde um menino
me recolherá no seu baldinho
lastimará minha sorte
e com mãos carinhosas
e a face de lágrimas cheia
me cobrirá enfim de areia
para que eu possa descansar

Fracassos

Histórias de fracassos
quem não quer ouvir?

Sempre reconforta ver
gente disposta a descer
de sua altura
para ouvir compungida
os dramas de quem
se deu mal na vida

E quem não se deu
mal na vida?

Todos menos um
aquele que ouve
o drama dos outros
o drama de todos
e faz cara triste
e diz ter empatia
e diz ter simpatia
pelos que fracassam

Esse mesmo
esse um
se for você
quem estiver
contando seu próprio
drama e fracasso
esse sempre verá
na outra calçada
um conhecido
um amigo
um parente
que há muito não via
e atravessará a rua
antes que a história
que você conta
ameace transformar-se
num apelo
ou ao bolso
ou à compaixão

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Elegia

Aquele que te escreveu
E foi por ti ignorado
Dele Deus se condoeu
E hoje está morto e enterrado.

Dos poemas que ele te deu
Nenhum sequer foi notado,
Nem tu nem ninguém os leu
Sem um suspiro de enfado.

Agora que ele morreu
E tudo é névoa e passado,
Que, se ele te aborreceu,
Tu possas tê-lo perdoado.

Arco-íris

É pouco
por mais que faças
é sempre pouco

Não és nada
mas te excedes
te enalteces
te finges
e te melhoras
ou assim pensas
para os outros
pelos outros

Os outros veem?

Aos outros agrada mais
olhar espelhos

Cada um deles tem
o próprio sentido de beleza
e se vissem um sapo
refletido no espelho
o achariam mais belo
que um arco-íris
se o arco-íris fosses tu

Máscaras

Continuamos vivos
e a Deus agradecemos
todo dia
por nossa falsa alegria

Continuamos respirando
continuamos olhando
continuamos contemplando
a verdade
pela enganosa transparência
da poesia

Continuamos
a ver nosso rosto
e a achá-lo
tão bom quanto
o melhor rosto humano
poderia ser

Fomos presunçosos
quisemos a perfeição
e a fantasia
nos deu o que
nossa pretensão queria

Que faremos agora
com estas máscaras todas
de que nos servirão elas
quando chegar aquele dia
que sempre chega
para todos os mortais?

Enganaremos a Morte?
A Morte conhece nosso rosto

Águia

Se fosse águia
teria lembranças?

Se fosse
e se tivesse
elas seriam decerto
mais dignas
do que estas
que ele
homem velho tem
sentado no sofá
olhando para o teto
onde uma mosca
impune passeia

Se fosse águia
talvez
se lembrasse agora
de lutas no ar
com presas encarniçadas
morrer ou matar
tingindo de rubro
o céu

Se fosse águia
e se memória tivesse
poderia hoje escolher
a mais bela das manhãs
das tantas que viveu
e apesar da asa ferida
do bico destroçado
e do vigor perdido
fechar os olhos
alçar-se e
perder-se para sempre
no azul

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Covardia

Alguém lá fora
um pai
explica a duas crianças
uma das verdades do mundo

Ouço algumas palavras
enquanto eles passam
e reconheço uma frase
que eu menino
também ouvi

E tive vontade
de sair para a rua
e dizer ao homem
você é um mentiroso
e às crianças
não acreditem nele

Mas fiquei sentado
como sentado ficou alguém
quando meu pai
passando comigo pela rua
tantas mil noites atrás
me disse que a vida
é uma inestimável
dádiva de Deus

Botões

Para você é fácil

Se lhe dá na telha
você desliga
o msn
o micro
o celular
você desliga
o mundo
click click
click click
e que se dane
o mundo
se o mundo espernear

O mundo
esperneia
geme
implora
o mundo
se descabela
o mundo
cai duro
de infarto fulminante
e você está aí
com o mundo?

Você está
diante dos botões
pronta para
apertar
e desligar

E se lhe perguntam
por que
você desligou
o mundo
e lhe dizem
que caiu
um menino aqui
e outro menino ali
e um senhor empertigado
quebrou os óculos
e quer saber quem vai pagar
o que você diz?
de birra ora
de birra
precisa mais?
e desliga outro botão

O que o mundo disse a Sylvia Plath

Ocorreram-me algumas observações sobre uma frase que parece ilustrar, mais do que nenhuma, como Sylvia Plath via a literatura e o trabalho do poeta. A frase está no livro Poemas de Sylvia Plath, publicado pela Iluminuras, com tradução e notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, e é esta:

"O que mais me apavora, penso, é a morte da Imaginação. Quando o céu lá fora é só cor-de-rosa e os telhados, negros: aquela mente fotográfica que paradoxalmente nos revela a verdade, mas a verdade do mundo, que nada vale. O que eu desejo é aquele espírito sintetizador, aquela força 'que dá forma' e que faz rebrotar prolificamente, criando suas próprias palavras com mais inventividade do que Deus. Se eu me sento aqui e não faço nada, o mundo prossegue batendo como um tambor flácido, sem significado."

Numa primeira análise, poderia talvez alguém menos afeito aos processos de que se serve a arte, e a poesia está aqui incluída num posto de honra, sentir certa presunção em Sylvia, ao se declarar insatisfeita, e até inconformada, com o mundo assim como ele se exibia aos seus olhos. Seria uma daquelas arrogâncias de que quase sempre são acusados os artistas. Uma análise um pouco mais aprofundada, porém, nos leva para o caminho oposto: a vontade do artista de, observando o que o mundo nos propicia, fruí-lo melhor, ir à essência das coisas. Esse ir à essência, custasse o que custasse, foi um projeto que só a morte fez Sylvia abandonar. Ela se atormentou dia a dia para descobrir o que o mundo dizia a ela, o que o mundo poderia realmente dizer a ela, e, traduzindo essa busca em poemas, dar aos leitores, além dessa visão, um aceno para eles tentarem também descobrir o que o mundo vive dizendo a nós. Ficaremos nos rejubilando, como se meteorologistas fôssemos, porque certa semana de setembro nos ofereceu dias maravilhosamente iguais em sua temperatura e beleza ou nos atiraremos à aventura de ver em cada dia aquilo que o diferencia de todos os outros, passados ou futuros? Nós somos os dias. Sylvia tentou uma viagem ao coração do mundo, assim como Virginia Woolf e Florbela Espanca. O mundo as devorou no fim, mas muito do que não sabíamos dele, de sua beleza e de sua pungência, foi revelado.

Sorte

Alguns têm sorte

Para eles
há sempre uma tarde
em que num restaurante
à beira de um lago
onde são servidos
peixes fisgados
na hora
uma espinha
se entala
na garganta
e em três minutos
tudo se acaba

Com outros
não acontece igual

Para eles
há sempre gente solícita
um médico ali
ou paramédico
e a chance
dissipa-se
como um suspiro
de primavera

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Futuro

As nossas verdes escolhas,
Os ramos tenros, as flores,
Tal qual os nossos amores,
Que mais serão do que folhas?

Alma

Um pouco de paz
um pouco de água
para a minha alma
esse passarinho ferido
um pouco só

Pequeno é seu bico
um pouco de água
num pires
um pouquinho só
bem menos
do que você deixaria
para um gatinho amado
um pouco só
nada mais

Algumas gotas
uma só talvez
já baste

Minha alma é velha
atravessou o deserto
seu bico é pequeno e cansado
desacostumou-se à água
não precisa mais de muita

Uma gota só
uma gota
uma

Afeição

Chegou e passou
Tão breve tão ave
E leve e suave
No céu se esfumou

No peito contudo
A curta alegria
Deixou a agonia
E a morte de tudo

O cheiro

Já faz muito tempo
e ele tentou tudo
mas ainda há dias
mais no verão
em que do coração sobe
o cheiro enjoativo
o odor doentio
aquela insinuação
aquela acusação
feita pelas rosas
que um dia alguém
pôs no peito do amor
para ocultar seu sangue
inocente e assassinado

A outra

Quem é essa mulher
que anda contigo
aonde tu vais
que levas no teu carro
e vai te dizendo
entra à direita
depois à esquerda
olha o farol
cuidado
agora não dá mais?

Quem é essa mulher
que te segura os gestos
vigia os teus sorrisos
tolhe os teus braços
para os abraços
e te diz pronto
já é demais?

Quem é essa mulher
que dorme no teu quarto
ouve tuas confidências
e te diz sempre
que ganhar o amor
é perder a paz?

Quem é essa mulher
que afoga na bacia
o que tens de menina
e ralha contigo
e te ameaça
e te bate nas mãos
dizendo assim não
isso não se faz?

Duas vezes em duzentas
eu te vi como
deverias ser sempre
alegre aberta sapeca

Nessas duas vezes
só nessas duas
e em nenhuma outra mais
contigo não estava
a mulher com quem sempre andas
a mulher com quem sempre estás

O problema

Alguém lhe garantiu
que há alguma coisa depois
e ele foi ver nos livros

Uns lhe disseram que sim
outros que não
outros que talvez
e porque não conseguia curar-se
de uma doença incurável
e nada mais no mundo
parecia disposto a aturá-lo
fez a meditação final
avaliou bem todos os argumentos
e decidiu que há sim
alguma coisa depois

Em seguida
tomou uma cerveja
e deitou-se
embora fosse dia ainda
feliz como se tivesse
resolvido um problema
de palavras cruzadas

Sobrevivente

O inverno o poupou de novo

Sobrevivente mais uma vez
sentado na eternidade do seu sofá
e ainda mais despreparado
ele agora espera
ser poupado também
pelas traquinagens
da primavera

domingo, 23 de janeiro de 2011

Os cães

Só no escuro eu me sinto bem
naquele escuro denso
que nem um alfinete perfura
naquele escuro
que apenas fantasmas
almas atormentadas
e o sopro raivoso
das maldições mais amaldiçoadas
ousam povoar

Não tenho medo do escuro
Tenho pavor das manhãs
e do sol faiscante
malditos cães farejadores
aos quais os homens -
mais temíveis que fantasmas
almas atormentadas e pragas -
deram um pedaço esfarrapado
de minha alma
para cheirar
e que latindo me acossarão
e mordendo me acharão
em qualquer buraco
em qualquer cova
em qualquer toca
em que me esconda
mesmo que no inferno
eu vá me entocar

Destino

Que fado torpe te fez
Tentar, tentar, continuar
Tentando, e errar, sempre errar,
Dia a dia, vez a vez?

O fruto

No início o rancor
foi muito prazeroso

Escorria como o sumo
de um fruto generoso
e era bebido com uma sofreguidão
que o fazia transbordar da boca
descer pela garganta
e fluir para o peito
como se todo o corpo
merecesse fruir a dádiva
do ressentimento

Era doce o gosto desse sumo
talvez só um pouco menos
que o sumo da vingança
e a memória se comprazia
em reavivar a lembrança
dos ultrajes e dos agravos

Assim foi no início
mas aos poucos
o rancor arrefeceu
na raiz
no caule
na seiva
e hoje o fruto
precisa ser espremido
para dar aos lábios
algumas gotas sem sabor

Seria hora
de deixar a árvore morrer
e permitir que aflorasse a paz

Mas no fundo da memória
há um espinho que lateja
e instiga a carne
e incita a alma
e exige que clamem ainda
por mais um pingo de sumo
pelo menos mais um
para retaliar
alguma ofensa
que nem ela memória
sabe mais com certeza
qual foi

Pet shop

Para abafar os gritos
de minha solidão
fui a um pet shop

Havia ali
cachorrinhos chorosos
gatinhos preguiçosos
coelhinhos cautelosos
passarinhos buliçosos

Em cada um eu vi
algo teu
uma qualidade
um jeito
uma graça

Todos eles tinham
olhos mais humanos do que os teus

Pureza

Porque do último amor de sua vida
o grande
o maior
o único
não recebera a recompensa da carne
considerava-se virgem

Sacrifício

Ó sol cruel, pontiagudo,
De mil e tantos punhais,
Por que não me feres mais,
Por que não me feres tudo?

A memória

Todos os dias
a ampulheta faz escorrer
sua areia
sobre a memória resignada

E reminiscências raras
e simples lembranças
tesouros de faiscante ouro
ouropéis berloques bijuterias
vão sendo assim
cobertos pelo esquecimento

Todos os dias
a ampulheta laboriosa
sem se importar
com o que apaga
vai apagando
tudo que pode

E todos os dias
ela assim sufoca
manhãs de sol na praia
primeiros sonhos
anseios
gatos queridos
brinquedos amados
e porque tudo é justo
e imparcial nesse apagar
apaga também
aflições e agonias

Indefesa
como um carneiro entre lobos
a memória vai-se deixando apagar
porque esse é o desígnio divino
e o miserável destino humano

Ela reserva no entanto
sua última revolta
seu último esforço
a derradeira energia
para o momento em que a areia
vier dizer-lhe
que assim como chega
a hora de todas as coisas
chegou também a hora do amor

Nesse momento
nesse dia a memória
arreganhará os dentes
e travará
sua última batalha
porque morto o amor
tudo mais
tudo
morto estará

sábado, 22 de janeiro de 2011

Os olhos

Os olhos dela seriam comuns, se não houvesse neles uma beleza incongruente, que os olhos feitos para olhar não deveriam ter a não ser para quem por eles olhasse. Os olhos dela, por uma dessas bem-vindas artimanhas da natureza, foram feitos para ser olhados.

Única

Que eu possa te encontrar um dia
como se fosse a primeira vez
e que me encantes tanto
quanto encantaste naquela vez
e que nos digamos palavras doces
e que nos olhemos ternamente
e que qualquer coisa
e que muita coisa
e que tudo nos induza
a sentir que haverá outras
tantas muitas incontáveis
além dessa primeira vez
e que para nossa ventura
nunca haja mais nenhuma
para que o encanto
jamais se desfaça
como tão cedo se desfez

Orgulho

Sobreviverei

Aprendi a esquivar-me
da convidativa vertigem
do metrô e daquela voz
insistindo
pule pule

Sobreviverei

Aprendi a passar
pelos amáveis viadutos
desta cidade
e a fechar os ouvidos
quando a voz me sugere
salte salte

Sobreviverei

Aprendi a amarrar-me
a acorrentar-me
a rasgar as palmas das mãos
com as unhas
a dilacerar os lábios
com os dentes
a clamar por Deus
Deus Deus

Sobreviverei

Aprendi a salvar-me
nessas noites
que me atacam como feras
duram como séculos
e quando relutantes se vão
deixam minha cama
empapada de suor
e de lágrimas

Sobreviverei

Aprendi a esconder de mim
as cordas as facas
as tesouras os venenos
e os poemas de Sylvia Plath

Sobreviverei
não para vencer
mas para mostrar
meu rosto derrotado
pelo amor e pela aflição
e para dizer
com o orgulho besta
que ainda me resta
que sou um homem
puta merda
um homem

Piquenique

Éramos cinco fazendo um piquenique à margem de uma represa. Havíamos levado comida e bebida para um regimento e, estimulados pela nossa juventude - o mais velho de nós tinha dezenove anos -, comíamos, bebíamos e gargalhávamos como se nunca mais fôssemos ter a oportunidade de fazer algo semelhante. O sol do meio-dia dava a impressão de que jamais se moveria um milímetro, mas havia uma brisa carinhosa e, se quiséssemos nos queixar de alguma coisa, seria das moscas, que organizavam ataques contra nossas provisões distribuídas por uma ampla toalha. Estávamos ébrios de álcool e de alegria. De repente, um alvoroço, um vozerio e um corre-corre na beira da água. Gritos, choros, lamentações, uma cena de catástrofe. Um garoto foi espiar o que tinha havido e voltou dizendo que era um rapaz que morrera afogado. Nossa embriaguez e nossa alegria se declararam imediatamente culpadas. Um rapaz, possivelmente da nossa idade, morrer num dia luminoso como aquele... A contragosto e pesarosos, fomos nos aproximando do centro da tragédia. Quando chegamos, em vez do rapaz que haviam mencionado, vimos um velho horrível, muito velho e muito horrível, e era fácil notar que a morte pouco havia feito para moldar-lhe aquele desagradável rosto. Nós cinco nos olhamos como se acabássemos de ser logrados mas como se esse logro não fosse tão mau assim. Enquanto os abnegados de sempre cuidavam de providenciar o que precisava ser providenciado, voltamos para o lugar onde estava nossa toalha. Espantamos as moscas, sentamo-nos, suspiramos em uníssono, como se cumpríssemos uma obrigação social, e nos lançamos novamente à comida e à bebida.

O dia enfim

Os dias te amam

Eles passam depressa
cada vez mais
depressa
e exultantes te dizem
ao passar
menos um
e repetem ainda
para te agradar
menos um

Logo virá aquele
que te dirá
mais exultante
do que todos
acabou
e dirá de novo
acabou
e se dias dão cambalhotas
uma cambalhota dará
para os teus aplausos

Quando esse dia vier
estará morto
o coração
que tanto tempo
te atormentou
com súplicas infantis

Coração morto
não atormenta

Coração morto
não suplica mais

O baile

Ela me pôs na cama
e deu-me um remedinho

Disse toma tudo tio
toma tudo para dormir direitinho
e ficou olhando
para ver se nenhuma gota
ficava na colher

Depois trancou a porta
para minha segurança
explicou
e disse que se precisasse
era só chamar

E eu precisei
e eu precisava
tanto de algo
de um gesto
de uma palavra
de uma mentira generosa
que chamei

Primeiro baixo
depois alto
chamei
e gritei depois muito
e gritei
gritei

Ela não veio

De algum lugar
na noite morna
e alcoviteira
chegavam os sons
de uma frenética música

E eu chamei
chamei
mas havia um pistom
um saxofone talvez
que ia afogando meus gritos
e havia sobretudo
um riso rouco
ah um riso rouco
que eu tão bem conhecia
um riso que estraçalhava
minha alma
e sufocava minha boca
com o travesseiro

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O segundo janeiro

Era o segundo janeiro de sua vida e, recordando o primeiro, ele sentiu de novo rasgando o peito, agora insuportavelmente aguda, a consciência de que tudo tendia à decadência e à dissolução. Era o segundo janeiro de sua vida e no entanto parecia que vários séculos tinham transcorrido entre um e outro, todos trazendo a fúria do vento e a boca raivosa das tempestades, todos lembrando a ele que tudo na terra nasce não para morrer, mas para ser destruído. Era o segundo janeiro de sua vida e ele, perplexo, se perguntou se tinha sido ele mesmo quem vivera o primeiro.

O idiota e Katherine Mansfield

Depois de alguns dias nos quais a angústia e o suicídio disputaram tua alma, tu começas a abrir a porta com cuidado, a olhar ainda desconfiadamente para fora e, iludido pela lucidez que do sol emana, voltas a achar possível encontrar algum encanto na vida. Passeias, olhas, ouves e, com a habitual exceção dos passarinhos e das flores, tudo te parece bestialmente atroz, como sempre. Abres então a internet, procuras num site Katherine Mansfield e clicas em poemas. Sim, esta é a vida como deveria ser sempre, tu te dizes com aquele embevecimento que já sabias só poder provir da arte. Ah, suspiras, frases que valem todo o ouro buscado torpemente pelo homem em todos os tempos. E então vês, no rodapé de um dos poemas, a avaliação de um leitor (!!!) e a nota que magnanimamente ele deu a Katherine: cinco. Tanto sofreu Katherine, tanto duvidou, tanto enlouqueceu, tanto chorou para cavar, regar e fazer florir sempre a palavra certa - e décadas depois um idiota judiciosamente limpa a meleca do nariz com o indicador, pensa (!!!) e lhe aplica uma nota cinco. E tu, jovem ou antigo escritor, e eu, que jamais seríamos dignos de beijar os pés de Katherine, vamos voltar a pensar no quê? Na angústia, em horrendas automutilações, em suicídio? Ou nos empenharemos ainda, e mais, para quem sabe recebermos um dia desse idiota a honra de sermos lidos por ele? Dirá alguém que a opinião é livre. A burrice também, e corre solta no pasto.

Dama

Que quem te serve te faça
Torcer-te de frenesi
No fogo e não na fumaça
Que tolo te ofereci.

Tardio

Por que no frio,
Amor celeste,
E não no estio
Tu me vieste?

Naquela tarde

Te esperei naquela tarde
como um crente espera o milagre
e o mendigo espera o pão

O sol se exauria
em majestade
e jovens casais
de mãos dadas
gorjeavam como se
a qualquer momento
pudessem voar
se os incitasse a vontade

Eu não tinha esperança nenhuma
diga-se logo
mas confiava em certa loucura
aquela que mistura
destino e fatalidade
uma loucura que só
os devastados
pelo amor conhecem
e que nenhuma esperança
jamais suplantará

Eu não tinha por que esperar
mas esperei
e continuei esperando
mesmo depois
que uma chuva longa e cruel
urinou sobre mim
toda sua zombaria

Fiquei te esperando
porque esperar
mesmo sem esperança
é a sina e a virtude
de todos os enamorados

Se tivesses aparecido
a tarde naturalmente
se reabriria inteira ao sol
e os jovens casais
talvez voassem enfim

Mas se tivesses aparecido
eu não te sentiria
tão presente
como te senti
pungentemente
no instante em que
já noite
juntei minhas lágrimas à chuva
e olhando ainda
para todos os lados
(devia ter olhado também
para o alto, minha estrela)
me pus a ziguezaguear
como um cão sem dono
sem faro sem norte

Indecisão

A morte então lhe pareceu
uma hipótese tão abençoada
um abrigo tão sereno
tão óbvia solução
que por um tempo ainda
porque era cético
se debateu com a indecisão

Ainda não

Assim como
corria para o avô e a avó
e apontando-lhes
um risquinho vermelho no braço
pedia que soprassem ali
ou dessem um beijinho
para que o risquinho se apagasse

Assim como
corria para o pai e a mãe
e exibindo-lhes
um arranhão no joelho
insistia em que ali
a mão passando
a dor atenuassem

Assim como
tantas vezes depois
correu para o amor
e suspirando
dolorosos suspiros
implorou que ele
suas aflições suavizasse

Assim também
correu hoje
para a mulher
de vestido preto
véu preto
chapéu preto
e mostrando-lhe
o peito estraçalhado
rogou para que ela o levasse

Ela sorriu desdenhosa
continuou seu caminho
e sem olhar para trás
lhe disse
ainda não chegou a hora
sofra mais

O jogo

Acha que aprendeu
afinal a jogar
o jogo da vida

Já era tempo

Sabe agora que a vida
é um jogo de palavras
um trocadilho bizarro
e percebeu que jogar
é não jogar

Viver é simples

É deixar-se ficar
sempre como objeto
à espera do próximo lance
ou como uma corça em campo aberto
chamando as setas e as balas

Não jogamos
a vida nos joga

Não vivemos
a vida nos vive

E se houvéssemos compreendido
isso desde o começo
ficaríamos todos
como ele agora fica
aguardando a seta ou a bala
que acabará com o jogo
ou
se a vida estiver disposta
a jogar com ele mais um pouco
que ela continue traçando
no rosto dele os traços
que quando acabados
lhe darão aquele aspecto resignado
e quase vitorioso
de quem entreteve
um pouco mais a vida
como um rato obediente
entretém um gato ilustre
ou de quem foi julgado
desprezível para receber
ainda que só um minuto antes
do final do jogo
a seta ou a bala
o golpe de comiseração

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Verbete

Já te mandei minha foto. Podes agora mostrá-la e dizer que sou eu aquele insensato que te manda versos e neles fala de algo, o amor, que hoje só talvez os dicionários e as enciclopédias ainda saibam dizer o que foi. Pode ser que alguma de tuas amigas ria um pouco menos que as outras ao ver meu rosto atormentado e faça até um comentário piedoso ou polido sobre mim. Que ela não seja a primeira a deixar o alegre encontro. Se for, talvez se esqueçam de mim e passem a falar dela como se fosse um ser de alguma era mais do que pretérita e, depois das boas gargalhadas que isso provocará, é possível que a mais irônica de todas as participantes resuma numa frase, recebida com risos ainda mais estridentes, o absurdo da situação: "Ela talvez possa ser um bom par para ele, o que vocês acham?" Essa mesma pedirá para olhar de novo minha foto e, balançando a cabeça, perguntará: "Do que ele fala mesmo? De amor?" E essa palavra, amor, soará nos lábios dela como se fosse um trapo de chão.

Melhor agora

No começo não foi bom

A loucura
rondava minha casa
batia nas portas
e nas janelas
sussurrava lá de fora
deliciosas indecências
prometia paraísos carnais
e vendo que eu não abria
me ameaçava
e sacudia os alicerces
como o lobo fazia
com os três porquinhos

Eu me encolhia
eu me benzia
eu me persignava
eu me lembrava de Deus
e O invocava
e Lhe implorava
que me salvasse
das tentações do Demônio
e das brasas do Inferno

Um dia
uma noite
para ser preciso
cansado de resistir
de fugir
de esconder-me
em todos os cantos
na sala no banheiro na cozinha
como se fosse um inquilino
com um ano de aluguéis atrasados
deixei a loucura entrar

Abençoada noite
foi aquela
e todas as outras
e todos os dias
depois dela

Livrei-me das normas
sacudi dos meus ombros os códigos
e em toda parte
começaram a me perguntar
admirados
se eu era mesmo eu
e me apalpavam
e me cheiravam
e perguntavam
a razão de minha alegria

Sim sou eu
sou eu este
que descobriu
a delícia de assobiar
nas ruas nas avenidas
de berrar uma ária
num vagão lotado do metrô
de libertar uma gargalhada
onde me der na telha
e de andar à noite
conversando com as estrelas
e de saber o nome
de todas todas mesmo
uma a uma sem exceção

Estação Vergueiro

Deus te abençoe
menina ruiva
do saiote azul-marinho
pelo glorioso momento
em que com
teus cabelos de ouro
dividiste com o sol
a majestade da manhã
desta quinta-feira
e que andando
por dois minutos ou três
pela passarela do
Centro Cultural
deixaste em todos
a convicção de que
se não tivesses entrado
no metrô e não descesses
sua escadaria
aquele velho presunçoso
lá em cima
que se ufana de ter piscado
para Cleópatra
enlouquecido Lucrécia Bórgia
e beijado os ombros
de Ingrid Bergman
teria tentado fulgurar
mais intenso
e talvez ensaiasse até
uma vistosa cambalhota
para te ofuscar

Punhal

No punhal
que no meu peito cravei
no punhal
com que me feri e me imolei
deixei como sinais
não de acusação
mas de homenagem
tuas impressões digitais

A um salto

Quando pensa na vida, ele se sente como um desses bêbedos épicos que, tendo decidido livrar-se do álcool, sabem sempre há quantos meses, dias e horas persistem no seu empenho. Ele também sabe há quantos meses, dias e horas esteve em cima da mesa da cozinha, com a corda já em torno do pescoço, a um salto do que afinal não conseguiu ou não quis consumar.

Naufrágios

Soprados pelo vento
os amores naufragados
trazem à praia
lamentos
gritos
imprecações
e as injúrias
que entre si
os amantes trocaram
antes de o mar engolir
seus verbos raivosos

É isso que à praia chega
junto com as primeiras
ondas matutinas
que fazem gritar
de satisfação e frio
os meninos tolos
e os turistas
com seus calções bizarros

É isso que chega
a quem do mar conhece
apenas aquele pedaço de areia
onde qualquer concha
é celebrada como
uma pepita de ouro

Aqueles porém
que na noite profunda
se aventuram
até onde o mar
só por sonhadores
pode ser alcançado
esses ouvem
os murmúrios
dos amantes
seus balbucios confundindo-se
com o cicio das estrelas
sob a cumplicidade
silente da lua

Esses sabem
que os amores
quando merecem o nome
não saem jamais
desse ponto a que poucos
muito poucos têm acesso
desse ponto onde
não se conhecem
maldições
e de onde nunca
será lançada à praia
uma frase áspera
ou uma palavra pontiaguda

O que dirás

O que dirás ao amor
quando numa dessas tardes
em que ele te olha e tímido acena
tu enfim te distraíres
e não puderes mais
mudar de calçada
ou baixar os olhos
ou fixá-los naquele
ponto distante
que a amargura
e a humilhação dele
tão bem conhecem?

O que dirás ao amor
quando ele te olhar
com a fome de tantos dias
a febre de tantas noites
e o coração ganindo
desconsoladamente
por ti por ti por ti?

O que dirás ao amor
nesse dia?
E o amor,
o que te dirá?

Lembrança de nada

Talvez tivesse havido algo
que a memória guardaria
como supremo tesouro
ou como uma lembrança
daquelas que no fim da vida
já sentindo o hálito da noite
fazem um homem acreditar que um dia
em alguma parte do seu caminho
houve sol

Talvez tivesse havido algo
algo que me faria chorar
como hoje choro
mas seria outro, ah, seria outro
o gosto destas lágrimas

Talvez tivesse havido algo
e teria sido tão fácil
ter havido

Bastava teres dito sim
mas disseste não
naquele dia
como sempre disseste

E dói tanto isto
e arranha tanto o peito
e o morde e o dilacera
porque hoje agora sempre
aquilo que podia ter havido
não poderá haver jamais

Legados

Alguns deixam legados
frases pontes pinturas
diante das quais
obrigatório é
se maravilhar
e embasbacar

São esses que
se alguém o nome
deles pronuncia
há sempre por perto
uma águia solícita e orgulhosa
para apanhar as sílabas
e levá-las alto
bem alto
porque lá cabe a elas ficar

Outros não têm trajetórias
e parecem apenas destinados
pelo contraste de sua pequenez
a também os grandes exaltar

Esses não deixam legados
e onde seus restos jazem
jamais se vê pairando
a sombra de uma águia

São os que nasceram
para ser como ervas mofinas
ou como flores tão desgraciosas
e de tão desprezível olor
que nem às formigas
é dado apreciar

E Deus,
onde está?
Deus dizem
que está bem lá em cima
no alto bem no alto
aonde talvez nem o eco
dos grandes legados
possa chegar

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Riacho

Jamais sonhei
com um riacho

Ocorreu-me isso hoje:
que jamais sonhei
com um riacho

E como seria bom
sonhar com um
que me pegasse
e me levasse
para um lugar
bem longe
um lugar
em que o tempo
não vigorasse
e eu não
precisasse jamais
acordar

De quê?

De que me adiantará depois
te lembrares de mim
se me lembrares?

De que me adiantará
teu sorriso
se sorrires
de que me adiantarão
tuas palavras
se as disseres?

Quando podias lembrar
quando podias sorrir
quando podias dizer
ontem hoje
talvez amanhã ainda
tu lembraste
tu sorriste
tu dirás?

Julgas amáveis
as tuas unhas
e condescendente
o teu chicote

Te achas magnânima
e talvez sejas
mas de que me adiantará
tua benevolência
quando eu não puder
mais recebê-la
quando eu estiver
tão longe e tão morto
que se por milagre
pudesse ainda
receber algo
preferiria tuas unhas
no meu rosto
teu chicote
no meu lombo
e em minha alma
teu furor?

Aquela que te nomeia

Não sei
se as palavras
conosco vão
quando para
o outro lado vamos

Se elas forem
uma que comigo irá
a mais preciosa
tu bem sabes
qual será

Será aquela
que direi
ou murmurarei
ou no pensamento terei
na hora da morte
no instante da partida
aquela
que te nomeia
e que em mim
dia a dia
o mais terno sentimento
semeia

Com ela chegarei
ao lado de lá
mas não a direi nunca

Eu a guardarei
como a guardei aqui
e também ali ela
assim como foi aqui
será minha riqueza
aquela que direi
que murmurarei
aquela que
no pensamento terei
como um talismã
se também ali
minha querida
houver morte
se também ali
houver partida

Livre

Poesia nunca mais faz
Baniu o amor e a paixão
E pleno se satisfaz
Com a morna palma da mão.

De um morto, com afeto

Te comunico que morri

Claro que já sabias
que sempre soubeste
desde o primeiro dia
e se nunca me disseste
há de ter sido
certamente
por tua delicadeza
ou pelo temor reverente
que os mortos inspiram
nos que ainda
mortos não estão

Sabias já
que eu estava morto
mesmo quando eu
tentando esquecer
que estava
tirei da mala do porão
um sorriso arruinado
por cinco décadas
de mofo e olvido
e como um saltimbanco
inventei alegrias
para te entreter

Soubeste sempre
e te agradeço
por jamais
me haveres dito
por teres tido
a grandeza
de permitir
que eu morresse
de novo
e desta vez
por algo maravilhoso
por algo pleno de magia
majestoso
algo que só podia
ser dado por ti
algo que só por ti
podia ser recusado

Privacidade

Morrer é algo tão pessoal
Que quando chegasse o dia
Nem mesmo a Morte devia
Comparecer ao local.

Chapeuzinho Vermelho

Ia dizer-te
pedir-te
implorar-te
menina
que jamais
te entusiasmes comigo
que não te fies
nos meus olhos
e em minhas palavras
não confies

Quem há
de acreditar
em alguém
que já louvou o amor
tantas vezes
e tantas vezes
o amaldiçoou?

Sou velho
menina
e nos velhos
tudo que foi bom
já morreu

Vivemos de memórias
do sangue
do que matamos
dizemo-nos melhores
e ainda às vezes
impressionamos
e enganamos
meninas tontas

Ia te pedir
te suplicar
te implorar
menina
que finjas
não ouvir-me
e que fujas
para longe
bem longe
mesmo que seja
para a floresta

Sou velho
muito velho
menina
e se ainda
amor existir em mim
será um amor
manchado
bichado
estragado
como os frutos
já comidos
e recomidos
pelos pássaros
e pelas pragas

Ia me ajoelhar
diante de ti
e pedir-te
que sigas logo
tua trilha
e que para trás
não olhes
menina
não olhes
não olhes

Ia te pedir isso
mas já fui menino
e já sofri tanto
por amor
que talvez
que tomara
tu possas
menina
dar-me ainda
uma alegria
antes que o sol
se vá e a noite
baixe toda
sobre a minha
abominação
e sobre o meu
infortúnio

Não mais

Não fazes falta. Fizeste
Quendo eu ansiava viver
E, lembras?, adeus me deste
E me mandaste morrer.

Garota

Mereço ainda, no fim
Da vida, tua mão pequena
Urdindo a carícia amena,
Teus olhos postos em mim?

Lição nº 1

O pior amor, minha criança,
É aquele que foi chutado,
Cuspido e vilipendiado,
O amor que grita vingança.

Ciladas

Sei hoje que os doces dias
E aquelas noites amenas
Tramavam as agonias,
O fel e as amargas penas.

Manhãs

Dar graças
por poder ainda
bem ou mal
respirar
poder ainda
abrir a janela
e supor que lá fora
a vida pode
ser bela
embora só
para os de sempre
e amaldiçoá-los todos

Poder tomar café
às vezes cumprindo
o milagre de
não engasgar
e poder engrolar
palavras
que ninguém
mais entende
e que são
à sua moda
bênçãos à vida
por nos ter poupado
para estas manhãs
em que podemos ainda
com nossas penúltimas sílabas
e a morte à espreita
dizer com a baba
que este mundo merece
que fomos enganados
fomos sim
mas fomos
porque nos aprouve ser
e não o fomos
até o fim

E que se
em nossa algaravia
matinal
alguém ouvir
a palavra céu
e imaginar
que uma invocação será
para que o alcancemos
será engano engano
engano

Dizemos inferno
chamamos inferno
clamamos inferno
todo dia
para lá chegarmos
e vermos tantos
que nos feriram
e nos vilipendiaram
porque tolos nos julgaram
tantos tantos
que nos acharam
insignificantes demais
para as chamas merecer
tantos tantos
tendo de aceitar estupefatos
no meio da rubra danação
a nossa incômoda
e acusadora companhia.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Norma

Deixar quieto o amor. Mantê-lo
Como um sonho irrealizado
Mais sensato é que colhê-lo
E vê-lo, depois, gorado.

Anônima

Do fogo que me consome
Jamais a alguém digo nada,
Nem como és, nem o teu nome,
Nada, nunca, doce amada.

Bem me, mal me

A vida armou uma trama
E fez-me contracenar
Com quem ora diz que me ama
Ora diz me detestar.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Onan

Fixando-se numa imagem,
O corpo em febre exauria,
A Eros prestando homenagem
Até que a seiva escorria.

Metrô

Morrer é coisa que não
Exige mais que esperar
A composição chegar
E arremessar-se no vão.

Final de carta

Devo por acaso te dizer que dói muito, que esfola a alma e sangra o coração? Tão banal isso, tantas vezes dito... No entanto, preciso te dizer que dói muito, que esfola a alma e sangra o coração.

Olhos

Sabe que não lhe verá os olhos jamais. Gostaria de fitá-los mais uma vez. Não importa se os dois mentiram para ele. Daria a vida para olhá-los de novo e dizer-lhes que neles tudo fica bem, até a perfídia.

O mentor

Seu maior remorso, o que mais lhe fere a consciência, é o de não ter conseguido fazer nada melhor daquele menino que por algum tempo ele foi. Arrepende-se inconsolavelmente por ter levado aquele rapazinho quase alegre a acreditar na literatura como missão suprema e por haver, em nome dela, plantado em sua alma a tristeza, a dor motivada ou imotivada e a melancolia.

Matar, ressuscitar

Matar-me é fácil. Teus olhos já me mataram muitas vezes, ora com sua atenção fria, ora com sua clara rejeição. Ressuscitar-me talvez seja um pouco mais difícil, talvez não. Não sei. Teus olhos nunca tentaram.

O compromisso

Como derradeira prova de afeto, ele se comprometeu consigo mesmo a só se matar quando já houvesse decorrido tanto tempo que não se pudesse relacionar o suicídio com a traição da amada. Manteve-se firme nessa decisão, até que um ano e meio depois uma gripe convocou uma pneumonia e as duas, em uma semana, se encarregaram de liberá-lo desse compromisso e de todos os outros.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Catástrofes de 2010

No ano passado, eu embarquei num amor tardio e tentava, contra toda a lógica e as probabilidades, mantê-lo navegando com esperanças que já nem eram as últimas, porque estas já se haviam esfarelado fazia muito tempo. Era com espectros de esperanças que eu procurava conservar à tona o amor porque, sendo triste e evidentemente o derradeiro, era o mais importante de todos. A vida que me restava dependia de ele não ir ao fundo, e eu me batia com as ondas e com minha eterna inabilidade de marujo para mantê-lo já nem digo navegando, mas dando a impressão de fazê-lo. Então, como se uma peste os tivesse marcado para a extinção em 2010, puseram-se a morrer meus amigos mais antigos, um após outro, às vezes dois por mês. Nos velórios, os poucos sobreviventes espantavam-se com a própria capacidade de resistir, apesar de todas as marcas no corpo e na alma, e atribuíam sua longevidade à sorte, ao acaso, e a nada mais. Quanto a mim, diziam, não sem certa maliciosa inveja, que o meu segredo estava naquele amor já nem de outono, mas de inverno pleno, que me faria, vaticinavam eles, continuar respirando quando todos eles já se tivessem ido. Quando eu chorava desconsoladamente sobre o defunto do dia, eles elogiavam a generosidade de meus sentimentos, sem nenhum saber jamais que, lá pelo meio do ano, o amor havia abandonado meu barco, agora impelido para os rochedos, e que minhas lágrimas, egoístas, eram motivadas por essa última e fatal catástrofe. Não imaginavam que eu chorava não por aquele homem deitado no caixão, mas pela desgraça de aquele homem, de nenhum daqueles defuntos todos jamais ser eu. A vida, só eles não notavam, me havia abandonado ao sabor de todas as ondas e tempestades, mas recusava-me a misericórdia de atirar meu corpo à praia.

Fim de semana

Mas para os desiludidos
Há sempre numa gaveta
O vidro de comprimidos
E no porão a escopeta.

Ah, Virginia

Virginia, menina amada,
Aonde tu vais? Está frio.
Não saias, minha adorada,
Não vás pra beira do rio.

Between piss and shit

Entre urina e fezes
Nascemos

Depois vem uma época
em que o aroma aspiramos
das rosas orvalhadas
pelas estrelas lacrimosas
e pelo leite morno
das manhãs ensolaradas

É uma época
em que as narinas
nos iludem
e nos induzem
a pensar
(ah, tolos que somos)
que um dia
mereceremos talvez
repousar o rosto
no colo da lua
e sentir o perfume
que se evola do vale
dos seus seios

Mas é uma época
uma época só
tão desgraçadamente curta
que sem fruí-la inteira
se fecham nossas narinas
e entre fezes e urina
como nascemos
coerentes morremos

Natureza

Poesia no homem é trégua.
Normal é seu relinchar
Como um corcel chamando a égua,
Bufando e escoiceando o ar.

Fulgor

Foi minha maior desgraça,
Beleza, haver-te tocado
E não morrer fulminado
Pelo esplendor de tua graça.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Odiemo-nos, querida

Melhor ter sido assim. Fomos poupados pelo Destino e também - justiça nos façamos - por certa intuição de grandeza. Deu tudo errado, as ruínas nos dificultam os passos, não há como negar, e, no entanto, a pergunta é: como seria se tivesse dado certo? Estaríamos certamente consultando prospectos de viagem, fingindo antecipadamente venturas, elogiando-nos como companheiros ideais para tudo, mas saberíamos já que em Tóquio, ou em Paris, ou em Havana talvez, precisaríamos num fim de tarde qualquer nos olhar honestamente e admitir que, depois de tanta poesia, tanto fragor, tanto sofrimento e lágrimas, havíamos traçado o mesmo insípido roteiro daqueles que por séculos, tendo recebido o sopro do amor, o rebaixam depois a um joguinho medíocre e falso, a uma trama que julgam destinada a durar trezentas páginas, se tanto durar a vida. O amor, quando atinge os humanos, deve consumi-los antes que eles comecem a se vangloriar dele e a considerá-lo como se fosse um acontecimento cotidiano. Para ser intenso como deve ser, o amor vive pouco. Ao amor repugnam palavras de uso diário, como camisolas e pijamas. O amor rejeita seu lugar em cômodas e gavetas. O amor não se conserva em naftalina. Regozijemo-nos então pelas ruínas, minha querida, pelas feridas da alma, e não deixemos que elas se curem ou possam ser enganadas com agrados ou confortos. Odiemo-nos, se necessário, em nome disso que cabe a tão poucos por bênção dos deuses, que é maior do que nós e que em nossa lembrança só sobreviverá se tivermos o estoicismo de aceitá-lo como finito que é e se jamais permitirmos que nossa história seja mais uma dessas que são relatadas muitos anos depois por uma voz decrépita enquanto um dedo molhado em saliva velha vai virando as folhas de um álbum, nas quais as fotos revelam constrangedoramente rostos dos quais, se um dia o amor neles pousou, retirou depois seu dom e graça. Odiemo-nos, minha querida, enquanto resta ainda em nós ao menos uma faísca de amor. Jamais seremos melhores do que fomos neste tempo, e este tempo, felizmente, já se despede de nós.

As duas palavras

Escreveu uma carta na qual o amor que por um ano o fizera viver e o matara brilhava ora rubro como uma rosa e ora cintilava como a assassina prata de um punhal. Chorou enquanto escrevia, e sorriu também em algumas frases. Antes de assinar, sentiu a mão tremer ao traçar as cinco letras: adeus. Vacilou. Para um amor que havia sido tão apaixonadamente venturoso e atormentado, era muito frio aquele final. Escreveu então bendita. Hesitou de novo e, riscando bendita, escreveu maldita, que imediatamente riscou também. Ficou uns minutos reforçando a tinta em cima das duas palavras, para que a mulher não pudesse lê-las de forma nenhuma. Ia colocar a carta no envelope quando novo impulso o levou a escrever, agora com total convicção, uma ao lado da outra, bem nítidas, as duas palavras que tão expressivamente resumiam seu sentimento. Imaginou que a mulher, se lhe enviasse uma carta, escreveria o mesmo.

Sylvia dorme

Abrir o bico do gás,
Fechar os olhos, dormir,
Ouvir o chamado e ir
Para o olvido e para a paz.

Sob a cadeira

Quando o homem e a mulher abriram a casa, depois dos três meses de inverno, o amor, que ficara jogado num canto da sala, pareceu olhá-los com ódio e ressentimento, e os dois recearam ser atacados por ele, mas só até o momento em que lhes chegou às narinas a tranquilizante fetidez, o libertário fedor de cachorro esquartejado.

Critério

Qualquer tipo de alegria
Para ele é como uma ofensa.
Da dor cruel, da agonia
Advém sua recompensa.

Vila Alpina

Não leve flores no dia
E nem o falso sorriso
Que foi o meu paraíso
E a minha tola alegria.

A flor

Precisa da loucura
suplica por ela
e para merecê-la
faz o que sabe
que os loucos fazem

Rasga o peito
unha o rosto
vai à janela
e grita obscenidades
para o sol
para a lua
para as estrelas
aquelas putinhas escrotas
e desafia Deus
aquele covarde

Alguns vizinhos
já se reuniram
parentes também
mas não o acham
digno ainda
do manicômio
e da camisa de força
pela qual ele anseia

E ele continua
plantando
a loucura
desde o primeiro
vagido da manhã
e a rega à tarde
e à noite ainda
está esperando
que ela floresça
que se mostre enfim
e que o faça afugentar
o mundo com sua baba
e derrubar com sua ira
o sol a lua as estrelas
e Deus da sua toca
nas nuvens

Cuida da loucura
e dela cuidará
até o dia em que ela
o acolherá no colo
e lhe dirá filhinho
pode dormir agora
que não haverá mais
tristeza ou dor
mentira ou verdade
consciência
nem sanidade

Rejeição

Gritou ao mar que o levasse,
Fidelidade jurou,
Porém, por mais que implorasse,
Seu grito o mar desdenhou.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Revisão

Julgava a ruína um defeito
E uma desgraça a extinção.
Mudou depois seu conceito
E agora as vê como são:
Um prêmio seu, um direito,
Alívio e consolação.

Esta parte para cima

Mesmo os mais fortes abraços
São frágeis como o cristal:
Um sopro, um toque banal
Os partem em estilhaços.

Passagem

Punhal bendito, punhal
Que há tanto tempo eu espero,
Me fere fundo e fatal,
Me leva para onde eu quero.

Quadro

O sol no horizonte ainda arde
Enquanto de volta aos ninhos
Os últimos passarinhos
Com os bicos ferem a tarde.

Homenagem

Ao túmulo em que o puseram
E que de flores ornaram
Os cães vadios vieram
E em toda a pedra mijaram.

Para Virginia

Não fosse um homem tão fraco,
De pedras ele encheria
Os bolsos do seu casaco
E ao rio se entregaria.

Passeio

Dizer adeus para o mundo
Ou insultá-lo, e andar
Até o centro do mar
E deslizar para o fundo.

Agridoce

Saudade sente dos dias
Em que gozava com a dor
E com as cruéis alegrias
De suas mágoas de amor.

Marinheiro

Houve um que teve o bom-senso de não lutar contra as ondas e, levado pelo mar dias e noites, viu verdes e azuis que jamais tinham se mostrado a olhos humanos e ouviu histórias que a lua contava para ninar golfinhos. Quando o encontraram, numa praia de um país de nome estranho, nele havia a beatitude que às vezes se vê em rostos de pinturas medievais. Os outros marinheiros salvaram-se todos e relatam, dia após dia, a tola luta que travaram com o mar.

Folhinha

Não era mais menino quando descobriu que no cotidiano exercício de viver não existiam mais domingos nem feriados e que sua garganta havia esquecido como era o claro riso das manhãs de outrora.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Sadomasô

Ela o pegou para cristo
E ele aceitou docilmente
Pondo-se embaixo da cruz.
Divertem-se muito com isto
E riem insanamente
Brincando assim de jesus.

Velha história

O amor é sempre mendaz,
Tolo foi quem nele creu.
Quem tolo foi tanto faz,
Ou foste tu ou fui eu.

Sinopse

O que era vívido foi-se,
Ou veio a Morte e varreu.
Restou o quê? Restei eu,
À espera também da foice.

Majestade

Boneca inflável
boneca afável
boneca amável
quem dirá que te ama
quem cantará teus encantos
quem reconhecerá
que são tantos
e não só os
que abres na cama?

Quem enaltecerá
a forma com que
compostíssima dama
te sentas no sofá
quem honrará
teu sorriso sempre pronto
a modesta sabedoria
dos teus silêncios
e dos teus olhos frios
a inextinguível chama?

Quem será
que sem temer zombaria
um dia o álbum abrirá
e aquelas fotos mostrará
nas quais embevecida
olhas para o homem
o único homem
de toda tua vida?

Quem num poema revelará
aquelas palavras salivosas
que todas as noites
te estupram as orelhas
aquelas sílabas asquerosas
grudentas torpes nojentas
que entretanto recebes
sem convulsões no sangue
como se não as entendesses
como se falasses somente
se acaso falasses
uma língua que só falam
as santas
ou as rainhas?

Saldão

Na banca de um e noventa
Comprou um amor bonzinho
Que não lhe nega carinho
E que jamais o atormenta.

Conduta

Quando um amor assumirdes,
Quando um amor confessardes,
Ignóbil será fugirdes
Como os poltrões e os covardes.

Jamais

Não olha mais para o mar.
Receia que no horizonte
Para outra vez o enganar
A vela do amor desponte.

Velhota

Resta a memória, mas dia
A dia ela se enfraquece,
Coça a cabeça e se esquece
Daquilo que a enternecia.

Limbo

Quisera muito ter sido
Soldado de Napoleão.
Que bênção! Com glória ou não,
Teria ao menos morrido.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Manual

Se tens bom-senso, nunca mais hás de escrever poemas galantes. Se queres conquistar mulheres, não as trates como as trataria um salta-pocinhas. Usa palavras que elas entendam, como vêm entendendo há séculos - e aceitando, com falso rubor - o que lhes dizem os almocreves e os ferrabrases. Fala-lhes de sexo, posse, camas (ou gramas ou moitas) molhadas de suor e esperma. Não tenhas a pretensão de julgar que os homens detêm o conhecimento da devassidão e da luxúria. Fala-lhes dessa devassidão, dessa luxúria, de buracos, fendas e orifícios, como se fosses um lagarto no cio. Se não estiveres lidando com santas, elas compreenderão o que tu queres, e que é o que elas querem também, não te iludas quanto a isso. Enquanto chamas uma mulher de estrela e rosa, há alguém ensaiando na rude garganta algo assim como cavalona ou eguaça. E quem tu achas que vencerá?

A descoberta

Foi sua alma nobre que o destruiu. Quando, com dez anos, seu processo de descoberta do mundo o levou à certeza de que Beethoven havia eructado, Shakespeare havia urinado e Gandhi havia defecado, enojou-se e desiludiu-se de tal forma que seu caminho a partir dali só poderia ser, e foi, o das camisas de força e dos manicômios. Até ali, estivera resignado com sua sordidez. Saber que todos os homens eram iguais a ele e que, ocultas por filigranas literárias, por sublimes sinfonias e pelos mais puros sentimentos, permaneciam latentes as reles funções corporais, ele rasgou com as unhas tudo que pôde do seu corpo, deu um berro medonho, como se esperaria do animal que era, e mergulhou na loucura.

O amor na janela

Ouvidos moucos
o vento veio de longe
trazendo a mensagem
aquela mesma
que o bem-te-vi
trouxera
e o beija-flor repetira

O amor ficou
esperando na janela
de um sobradinho
que a esperança
numa boa resposta
o fizera pintar inteiro
e suspirava tanto
que lhe doía o peito
e cada brisa
nas folhas da árvore
lhe parecia o vento

Esperou
a tarde toda
esperou
a noite inteira
e esperava ainda
de madrugada quando
o cansaço
e a desesperança
o levaram
para a cama
que chorando
e abraçando
ele chamou por
um nome de mulher

Ouvidos moucos
custava tanto
dizerdes ao vento
palavras amáveis
ou vossa boca
estava ocupada
com a modulação
dos vossos
encantadores bocejos?

Caminho

Tem se dado bem com o inverno. Os gorjeios da primavera, as canções do verão e os ternos apelos do outono já lhe morreram na memória, e ele caminha lentamente por uma trilha na qual, pela primeira vez na vida, não busca a felicidade. Anda com o modesto passo de quem não quer nada, só aquilo a que todos os homens têm direito no final, aquilo que os iguala e lhes mostra, ainda que tardiamente, a futilidade de todos os desejos. Caminha devagar, para não ferir a pele da terra que logo o acolherá.

Visão

És igual às outras. Que ventura, a minha, que nunca eu, mas só os outros saibam disso e nisso acreditem.

Veneno

Se estás sem coragem, procura uma mulher. Elogia-lhe os cabelos, o nariz, os olhos, a boca. Escreve-lhe poemas abrasados. Já no primeiro encontro, podes confessar-lhe que não conseguirás mais viver sem ela. Notarás que ela, elevada por ti ao pedestal supremo, te negará abraços e beijos, colocando-te na tua posição de mortal. Então tu chorarás, suplicarás, implorarás. Definharás como os apaixonados sem esperança e um dia lhe dirás que, se ela não tiver por ti o tresloucado amor que tens por ela, te matarás. Depois disso, não precisarás te esforçar muito. Logo virá uma noite em que a colocarás diante de um dilema: lhe pedirás um beijo ou um copo de veneno. Talvez, por um assomo de misericórdia, ela te beije antes de te passar o copo.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

História

Sou pó. Estive em salões,
Fui pisado por duquesas,
Por príncipes e princesas,
Por condessas e barões.

Sou pó. Vivi em porões
De hospedarias francesas
Varrido por camponesas
Mijado por aldeões.

Melhor

Talvez estar morto não
Seja isto, mas, se viver
Exige tanta aflição,
Melhor não será morrer?

Tão completamente

Fernando Pessoa tinha,
Fingida ou não, uma dor
Que, tenha sido o que for,
Jamais foi igual à minha.

Provérbio

Era eu o cão que ladrava
E que era atirado a um canto,
Chutado e enxotado, enquanto
A caravana passava.

Sina

Fui sempre quem, numa festa,
Ficava ouvindo de fora
Espiando por uma fresta
A efervescência sonora.

Pesadelo

Forçou a tampa e a abriu.
Respirou fundo, acordou,
E quando vivo se viu
Unhou o rosto e chorou.

O grito

Antes do salto, ainda pensou mais uma vez se onze andares seriam mesmo suficientes e desagradou-lhe recordar-se de um herói da sua infância que gritava uma palavra e depois disso era capaz de voar. Quando menino, tinha sido tentado a fazer a experiência. Lembrava-se ainda da palavra, mas não a gritaria.

Policial

Matou o amor a pancada,
Depois o corpo pegou,
Num poço fundo o jogou
E foi comer feijoada.

Resíduos

Do amor restaram não mais
Que mágoas, facas agudas,
Tristezas, facas pontudas,
Lembranças, facas mortais.

História

Tão bela às vezes é a história
(E a nossa foi), que ilusão
Parece, ou sonho, ou então
Uma invenção da memória.

Ator

Morreu faz tempo. Ninguém
Notou ainda, e sorriem
Para ele, e falam, e riem,
Porque ele disfarça bem.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Dezembro

Das poucas coisas que lembro,
Da que mais lembro é de um dia,
Certa manhã de dezembro
Que entardecer não devia.

Destino

Depois do vão desatino,
Do som sem nexo e da fúria,
Dos ímpetos de altivez,
Impõe-se nosso destino:
O desencanto, a penúria,
Miséria atroz, pequenez.

Veneno

Ela estava tão bela quando lhe ofereceu o cálice de veneno, seus olhos faiscavam tão verdemente e seus lábios se molharam tão tênue e tão perturbadoramente de saliva quando ela murmurou "toma", que ele lastimou ter uma vida só e demorou-se um pouco antes de pegar o cálice, para viver toda a delícia do seu último momento.

Grandeza

Criou para si
grandes ideais
os maiores

Sua imaginação
tinha o ímpeto
das águias
e a petulância
dos condores

Desprezou os voos
curtos e baixos
e ansiou pelas nuvens
pelo sol
e por beber
na fonte a chuva
antes que ela
se oferecesse
à sede dos outros
homens e dos animais

Imbuiu-se de grandeza
e sentiu que no seu sangue
corria a predestinação
dos feitos inomináveis
e das insuperáveis conquistas

Viveu para esse
destino sonhado
e por cinco décadas
olhou para cima
para o alto
para o ponto
que sua obsessão
criara

Concebeu esse fastígio
e aprazia-lhe pensar
que se ele não o atingisse
nenhum outro homem
jamais o atingiria

Um dia sua soberba
julgou pouco ainda
tudo aquilo
e seus olhos foram tentados
pela voragem do infinito

Começou a sonhar
com a vertigem
de novas alturas
e enquanto sonhava
era conduzido
por um rapaz
de avental azul
e rodando na
cadeira de rodas
pelo jardim
disparava iradas
cusparadas e abominações
sobre as rosas
sobre os lírios
e tudo aquilo
rasteiro e asqueroso
que suas vértebras
travadas o obrigavam
agora a ver
em vez do sol
das nuvens e
daquele ponto
que só ele sabia
onde era

domingo, 9 de janeiro de 2011

Dionisíaca

Agora que seu coração foi morto pelo derradeiro engodo, o homem, enquanto busca na escuridão dos caminhos um lugar onde possa enterrá-lo, já notou que a lua e as estrelas não mais o comovem e que, depois do derradeiro punhado de terra lançado à cova do grande impostor, poderá ser igual a todos aqueles que sempre souberam o que são as mulheres e jamais cometeram o equívoco de considerá-las mais do que algo feito para proporcionar uma passageira e brutal convulsão dos sentidos. Com a pá na mão, ansioso para se livrar do traste, ele se sente agora o animal que sempre deveria ter sido e, em vez de recitar poemas, põe-se a zurrar, a bramir, a relinchar, a balir selvagemente, seguindo os sons que vêm de uma taverna próxima, onde ele adivinha estarem agora três bodes tocando o piano com seus cascos, para que as vacas, as cabras, as éguas e as mulas se entreguem à orgia até que a última gota de sêmen escorra do último macho.

O rosto

Negaram-lhe uma vez, quando menino, um doce ou um ingresso de cinema. Ele não se lembra mais do que era, mas lembra-se de lhe terem dito que aquilo era feito para o seu bem, para discipliná-lo. O mesmo lhe disseram ontem, quando lhe negaram algo mais precioso que o doce, o ingresso de cinema e sua própria infância. Até ontem ele acreditou no motivo que apresentaram quando lhe recusaram o doce ou o ingresso. Hoje não acredita mais. Sabe que ontem, como no passado, foi por maldade, aquela maldade que é a pior forma de domínio a que um ser humano pode ser submetido por outro. Não se lembra mais do rosto de quem o magoou quando menino. Mas imagina que seja como o rosto de quem o magoou ontem. A maldade, para ser plena, há de assumir sempre um rosto do qual não se receie nada parecido com a perversidade. Um rosto belo, um rosto claro e insuspeito como o de uma mãe ou o de uma amante.

Traição

Às vezes pensa que trai e vilipendia o amor, porque, tendo chorado tão desconsoladamente sua morte e dito que sua vida não tinha mais sentido sem ele, um mês já se passou e ele não sabe mais se o suicídio é ainda um projeto ou apenas uma hipótese.

Uma semana

Pensar num ano
o sufoca

Trezentos e sessenta e cinco dias
a sabedoria da dor já lhe ensinou
são trezentas
e sessenta
e cinco gotas
de suplício chinês
pingando
pingando
pingando
pin gan do
forte mais
forte cada
vez mais forte
como as selvagens batidas
de um tambor sacrificial
pingando
pingando
até que a alma torturada
repudiando sua honra
e nobreza
levante a saia
e como uma puta
de porto
faça reluzir
seu dente postiço
de falso ouro
e sugira enlouquecedoras
abominações
aprendidas com o
Diabo e com
marinheiros
de todos os oceanos
desde que no final
estuporada
estourada
estuprada
lhe concedam
o doce descanso
da morte

Pensar num mês
o atormenta
mesmo quando
como enganoso consolo
ele pensa em fevereiro

Um mês são
não há como não saber
dias e dias e dias
dos quais quem
implora misericórdia
recebe só
escárnio
caretas
zombarias

De uns tempos para cá
pensa em uma semana

Parece-lhe
que a semana
por feminina ser
tem um rosto
mais compassivo

Sete dias
sete dias apenas
sete dias
dos quais um
o abençoado
lhe trará
a voz que
o fará sentir
de novo nos ombros
os dedos do sol
e erguer-se
dentre os mortos

Pensa em uma semana
e como se ela
fosse uma mãe
ele ardiloso
lhe elogia os filhos

Pronuncia domingo
sussurra segunda
diz terça
modula quarta
murmura quinta
tenta sexta
arrisca sábado

e espera que um deles
seja o sésamo
que lhe abrirá
a caverna
onde estão
não colares
nem pérolas
nem moedas preciosas
mas o inestimável tesouro
do amor e da vida

Memória

O tempo misericordioso
ordena ao vento
que recolha as folhas
no parque
e as leve
e as amontoe
ali onde a chuva passará
para carregá-las
até o esquecimento

O vento levaria todas
e aquietaria
o coração atormentado
e as garras da insônia
se retrairiam
e as noites poderiam
outra vez
fechar os olhos
e descansar
e voltariam
a ser bem-vindos
o sol e o dia

Assim seria

Mas a memória
essa velha avarenta
que do seu cofre
não tira as mãos trêmulas
e os olhos cobiçosos
faz sempre um pacto
com o vento
e lhe pede
que iludindo o tempo
esqueça enroscada
na grama
uma folha ou duas

Uma que
foi acariciada verde
certa manhã
por uns dedos
que depois
se entrelaçaram
com outros
numa jura de amor

E outra
sobre a qual
numa tarde de verão
esteve pousado
num instante dourado
um pequeno pássaro
que tentou
um canto delicado
que só pôde
ser ouvido
por certa mulher

E uma e
outra folhas
subtraídas ao olvido
pelo ardil da memória
ficam na grama
oferecidas ao sol
que as faz brilhar
como brilharam antes
e ferem de novo
o coração
e martirizam
a alma
com sua pungência

sábado, 8 de janeiro de 2011

Caixinha

Esperar que ao menos uma vez o amor possa te comover e ouças as palavras dele e, sendo talvez por ventura ou graça um dia em que te esqueças de analisar tudo como se tudo devesse ser analisado, escrevas as palavras ditadas por ele e as envies a mim, que as guardarei numa dessas pequenas caixas nas quais ficam aquelas fotos, aqueles papéis, aqueles boletins escolares, aquela medalha ganha numa olimpíada esportiva, aquele elogio do professor de português, aqueles cinco ou seis objetos que costumam, quarenta ou cinquenta anos depois, contar e resumir toda a felicidade de uma vida.

O assassino

Deve gostar desse seu corpo já ferido por tantos invernos, tão dilacerado pelos médicos e tão devastado pelas perversas desforras do amor. Que outro motivo haveria para ele se deter sempre, com obstinação, quando seu pensamento quer levá-lo para aquela evidência tão clara de que seu sofrimento só se extinguirá quando o coração tiver dado a última batida? Que outra razão haveria para ele desencaminhar as ideias quando elas querem novamente lhe explicar que muitos corpos, como o dele, mesmo achincalhados pelo tempo, se arrastam às vezes até os oitenta, os noventa anos? Por que ele busca rapidamente pensar em outra coisa, qualquer coisa, quando seu cérebro, como um assassino experimentado, depois de lhe sugerir que existem muitos meios de se livrar de um corpo, começa a enumerá-los?

Cheiros

De vez em quando, permitir que às narinas chegue o ácido olor das axilas, o pungente aroma de cabelos deixados vários dias sem lavar e a emanação sutil dos pelos púbicos e do perturbador mistério que eles protegem, para que a alma não se sinta soberana e guarde seu misticismo só para quando chegar aquele momento em que a carne for declarada irremediavelmente morta e não mais se eriçar nem com a súbita curva de uma nádega nem com a tepidez inquieta de um umbigo no qual, confundindo-o com uma concha, um tolo e esperançoso ouvido pretende ouvir o murmúrio do mar.

O lago

Não há sol
nem retorno
neste caminho

Andas pelas sombras
porque as escolheste
e porque elas te acolheram

Elas não te cobram sorrisos
nem a amabilidade
que exigem os dias

No escuro
no silêncio cúmplice
das trevas
ninguém achará
estranho teu rosto
indelicada tua tristeza
nem te apontará
quando soltares enfim
aquele grito que a dor
vem ensaiando longamente
em tua garganta

É escuro
o caminho
mas as sombras
te encaminharão
para o lago
que nenhum homem
mulher
ou divindade
poderiam te indicar

No âmago
desse lago
de águas jamais tocadas
por vento ou sol
encontrarás a paz
que existe
em estar
no fundo
bem no fundo
para sempre alheio
aos anseios
de ser
e desejar

Um verso

Sylvia
invoco tua atormentada alma
não para que me ensines
a trilha da libertação
mas para que
antes de eu entrar nela
tu me sopres
daí de onde estás
um verso
um verso ao menos
que tenha sangue
e alma e brilho
e seja dolorido
como um passarinho mutilado
piando na neve
para que não digam
que um homem
que venera tua
poesia tua vida
e tua morte
escreveu os piores
poemas do planeta

Sessenta

Ela não sabe o que é um minuto. Se soubesse, deixaria que em cada minuto das vinte e quatro horas do dia ele fosse apunhalado sessenta vezes pela dor, pela aflição, pela memória, pelo desespero e pelas venenosas insinuações do ciúme?

Inverno

Virão verões
voltarão outonos
reflorirão primaveras

Cada nova estação
lhe oferecerá
o que de melhor tiver
e se empenharão todas
em mostrar-se faceiras
porque Deus usa a Natureza
para engodar o homem

Mas ele
não notará os frutos
as folhas douradas
as flores

Seus olhos
se acostumaram
a não olhar
a fugir às tentações
às máscaras da vida

Gosta do inverno
e nem precisa
que venham os dias frios
para que ele saiba
de sua chegada

É sempre inverno
dentro dele
no coração
na alma
e isso não mudará
até o último
dos seus suspiros

Quisera
que no dia derradeiro
em vez de flores
lhe pusessem
sobre o peito
um punhado de neve

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A dor

Poderia atenuar a dor
se tentasse
poderia até
extingui-la talvez

Mas sem ela
o que ele dirá
aos seus dias
às suas noites
aos seus sentidos
exaltados
o que dirá
a cada minuto
de cada uma
dessas horas
que o interpelam
e cobram dele
e lhe perguntam
onde está o amor
por que não
está mais aqui
onde está o amor
o que você fez dele
onde ele está?

Se atenuar a dor
se a extinguir
como poderá
mostrar o peito
dilacerado
pelo cilício
como o de um penitente
e responder
aqui está
ele o amor
aqui está ele
o que sobrou dele
este sangue pingando
sem charme no chão
esta imagem tão crua
tão cruenta
em vez daquelas
flores daqueles
sons celestiais
que foram prometidos
aos dias
às noites
e aos sentidos exaltados?

Destino

Flerta com viadutos
como outrora
flertava com mulheres

Aproxima-se
observa-os
de longe
tímido
com medo
de não agradar

Cria confiança
e chega mais perto
já sorrindo
meio sorriso embora
e com os amorosos olhos
contempla aquilo
que enlouquece
seu coração

Observa principalmente
o gradil
ah o gradil
sua altura
sua forma
sua provável
rejeição
a ser galgado
sua possível
entrega

Às vezes
sente-se um
amante volúvel
porque mal acaba
de visitar um
vai visitar outros
todos os outros
que têm o gradil
que ele julga mais
atraente e adequado
a um viaduto

Visita-os de dia
porém mais à noite

Imagina que
precisará ser
à noite
Subirá o gradil
com o coração
batendo loucamente
como o de um passarinho
e cumprirá seu destino

Tesouro

Não pensarás mais
se é coragem
se covardia

Deixarás que
no peito machucado
a dor amadureça
e um dia talvez
quando não estiveres
mais pensando
se é coragem
se covardia
ela te dirá
olha que lindo
está te chamando

Será o mar
e como nas histórias
que encantaram
tua infância
ele terá quem sabe
um tesouro
para ti

Mas precisarás
ir fundo
bem fundo
até ali onde
tudo é silêncio
e as mentirosas incitações
da vida não chegam

Desde o início

Ele a viu barganhar uma vez com um homem que pretendia vender algo de que ele não se lembra mais - um pequeno ventilador para carro, talvez, ou uma capinha de celular. Ele admirou a habilidade dela. O vendedor expôs todas as maravilhosas vantagens do produto e ela fez várias perguntas, cinco pelo menos. O homem retomou então sua lenga-lenga, esmerando-se ainda mais. Quando ele terminou, ela renovou as perguntas, às quais ele deu minuciosas respostas. Então, ela fez um gesto desdenhoso, como uma rainha despachando um lacaio: "Não me interessa." O vendedor demorou para se afastar. Havia no seu rosto a expressão de quem acabava de ver desmoronar uma antiga certeza. Ela, notando meu espanto, disse, sorrindo: "Desde o início eu não queria aquilo, de jeito nenhum. Mas foi um barato. Você viu só a cara dele? Que palerma!" Algum tempo depois, ele a ouviria de novo dizer desdenhosamente "não me interessa" e, assim como o vendedor, ele, com sua mais cara convicção abalada, andou zonzo pelas ruas, expondo aos olhos de todos sua cara de palerma.

O manual

Não lhe faz bem a alegria
Ela o incomoda
como um furúnculo
uma ferida supurada
um eczema renitente
um abscesso
uma alergia

Sente-se falso se sorri
e sempre que diz
estou bem obrigado
ou boa tarde
boa noite
bom dia

Não é um ser social
e gostaria muito
mas isso fere as normas
de dizer que sofre
que chora como um bebê
que só tem algum alívio à noite
e que sente vontade de se rasgar
quando percebe
que está chegando o dia

Não lhe faz bem a alegria
Não sabe como lidar com ela
Deram-lhe o manual
mas ele jamais o entendeu
e na sua alma
há sempre um apelo
às coisas escuras
aos pesadelos
uma ansiedade de porões
uma nostalgia de
calamidades e desgraças
e uma esperança de agonias

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Ah, que surpresa

Fui um menino normal
ou assim me viram

Orgulho dos pais
tesouro da mãe
exemplo favorito
dos professores
cresci e logo me tornei
um adulto promissor

Fui um adulto cumpridor
honesto
confiável
pecador inábil
temente às normas
e a Deus
um daqueles homens
aos quais nunca
faltam convites
para os churrascos
dominicais

Envelheci
como as árvores
reto
firme
altaneiro
e ninguém
nunca receou
abrigar-se
à minha sombra

O que deu então
naquele menino
naquele adulto
neste velho
para andar agora
teclando venenos
no google
flertando com viadutos
e exibindo no sorriso
uma satisfação
um pré-orgulho
e olhando
para as pessoas
e imaginando
ah que surpresa
ah que grande surpresa
um dia destes
todas elas vão ter?

As meninas

Seria um pesadelo, se não fosse tão lindo: as quatro meninas terminaram seu castelo de areia e agora correm de mãos dadas para o mar. As mães chamam, gritam - Virginia, Florbela, Sylvia, Ana Cristina -, mas elas continuam avançando, se dando às ondas, rindo, saltando, até que o horizonte e o mar as engolem. Da praia, as vozes ainda chamam - Virginia, Florbela, Sylvia, Ana Cristina - mas as meninas, tendo encontrado um brinquedo melhor, não querem mais ouvir o chamado da vida.

A maldição

No quarto fermentava um cheiro de morte antiga. Embaixo de uma cadeira, havia um gato aterrorizado. No criado-mudo, um copo que logo se declarou culpado ou pelo menos cúmplice e uma foto de mulher. No peito do suicida havia um livro que, ao ser puxado, espalhou no ar um aroma de rosa que se sobrepôs à emanação fétida do cadáver. O policial leu o título do livro - Poemas de Sylvia Plath - e, ao abri-lo, viu na contracapa uma foto igual à do criado-mudo. Numa das paredes, em letras marcadas pela cólera, uma frase: "Você vai apodrecer no inferno, Ted Hughes."

Compaixão

Há de ser suave
como se tu
não o tivesses feito
mas a mão do Destino
ou do tempo complacente

Há de parecer
natural e há
de ser inútil procurar
um indício de culpa
nos teus olhos mortos

Há de ser visto
como se uma folha
tivesse caído
tão leve
quanto uma pluma
e no solo
não pudese mais
distinguir-se da grama

Há de ser
como se não tivesse sido
como se não houvesse acontecido
como se fosse
um engano
dentro de um sonho

Ninguém mais te verá
ninguém
te guardará
por muito tempo
na memória
e esse será
teu triunfo

Terás ido
em paz
como mereceriam
ir todos os homens
mesmo aqueles
que como tu
levam no
corpo oferecido
aos vermes
ou ao fogo
a ira
o rancor
a fúria
que te consumiram
até o momento final

Há de parecer suave
se uma alma piedosa
ou profissional
souber recompor
teu rosto
comido pelos peixes
e outras almas
também compassivas
disserem que foste
apenas mais um nadador
entre tantos
traído pela
aparente mansidão
do mar

Só palavras

Palavras, só palavras, ela murmurava enquanto lia os poemas que ele havia feito para ela nas madrugadas de desesperada insônia. Palavras, só palavras, ela pensava enquanto ele tentava, quando caminhavam, dar a cada palavra - árvore, sol, vento - um significado e uma entonação tão intensos que pudessem enfim comovê-la. Palavras, palavras, só palavras foi o que ele lhe ofereceu sempre, quando ela ansiava pelo retumbar da música, pelo calor das pessoas e dos objetos, pelo alarido da vida. Ele continuou com as palavras, continua com elas. Ela ele não sabe onde está. Suas palavras, como sempre, não podem alcançá-la.

As horas

Buscou o amor como se cada minuto fosse o último. Atirou-se à conquista com o ímpeto insano dos aventureiros. Lanhou-se, feriu-se, rasgou-se. Vencido, sua coragem se desmanchou, seus brados se transformaram em silêncio e suas convulsões se tornaram apatia. Sentado na sala, seus olhos não se fixam em nada nem em ninguém. Estão imobilizados ainda nas cenas da batalha em que lhe foi roubado definitivamente o sentido da vida. De vez em quando, olha para o relógio. Seu único alívio e esperança é acompanhar a passagem das horas. Uma delas o levará.

O músico

Disseram-lhe que ninguém tocava como ele. Além disso, era o único músico ali e, assim, nos bailes que se estendiam pela madrugada, era ele, com seu instrumento, que fazia dançar os casais e estreitava seus abraços à medida que a carne, alvoroçada e espicaçada pelos sons, exigia ser satisfeita com algo mais do que beijos. Gostaria de dançar também e, como os outros, aspirar o aroma que exala uma mulher apaixonada. Mas de quem viria a música, senão dele? Às vezes, alguma jovem olhava languidamente para ele, mas logo era chamada por alguém e ia aquietar nos braços de um homem a ânsia provocada pelos sons aliciantes. Ele continuou tocando, anos e anos, até o dia em que lhe disseram que do seu instrumento só saíam melodias ultrapassadas. Havia agora um rapaz que dominava os novos ritmos e encantaria os casais mais do que ele. Rejeitado, ele nem imaginou que poderia finalmente misturar-se aos que dançavam, como havia querido. Isolou-se na sua casa e à noite, quando lhe chegavam os sons do baile, ele fechava a janela e punha-se a tocar bem alto o seu instrumento, para acabar reconhecendo, sempre, que o novo músico tocava muito melhor do que ele.

A flor

Tantas eram as flores do seu jardim que ele vivia quase só para cuidar delas, para que não as açoitasse o vento, não as secasse o sol e não as violassem os insetos. Numa decisão que lhe custou amargas lágrimas e por muito tempo a suspeita de que era um ser insensível, ele optou por cultivar uma só, para que pudesse tratar das outras solicitações da vida. As outras que contassem com a misericórdia de Deus e da natureza. Assim fez. Cedo observou que havia escolhido a mais frágil, porque ela lhe exigia mais do que todas as outras que havia relegado. Era tão bela e tão delicada que ele acordava, à noite, se uma brisa soprava na veneziana, e corria para o jardim, receando que o vento, aquele cigano, a carregasse. Punha então as mãos em volta dela e a protegia. Veio-lhe o hábito de conversar com a flor, e de cantar para niná-la. Só saía de casa em dias nos quais não visse ameaça de chuva forte, e voltava logo. Certa manhã, sua previsão falhou e, ao chegar da rua, encharcado, não viu sua flor. Chamou-a - tinha lhe dado um nome, como se fosse um gatinho amado - e continuou a chamá-la e procurá-la, mas só viu as outras flores, que ele abandonara à sua sorte e, sem que ele houvesse notado, vicejavam como nunca. Então, debaixo da chuva e dos relâmpagos, ele as chutou, todas, e pisoteou, até que nenhuma desse mais sinal de vida.

Professora

Ela reavivou nele uma lição: a de que nem sempre se alcança o que se quer. Ele deveria ser grato a ela por isso, mas a julga a mais cruel de todas as professoras que teve.

Trégua

A memória do amor agora já não lhe dói tanto. Às vezes até lhe dá uma trégua - quando dorme, por exemplo, e tem a ventura de não sonhar.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Chamas

Que importa se choro enquanto
Recordo do amor as chamas?
Bem sei que tu já não me amas.
Que importa, se eu te amo tanto?

Conversa

Abdicar do amor foi bem menos difícil do que ele imaginava. Bastou-lhe chamar a vida para uma conversa, explicar-lhe que a partir dali ela voltaria a ser só vida e dizer-lhe que teria novamente direito à monotonia, à falta de significado e aos bocejos.

Exaurido

O que importa é que amei
E que me dei tão completo
E que esgotei tanto o afeto
Que amar jamais poderei.

Lentamente

Definha, como convém
A quem matar-se não sabe.
Que outra atitude mais cabe
A quem coragem não tem?

Intempestivo

No fim, pensando que a vida
Se disporia a poupá-lo,
Teve a surpresa, doída,
De ver o amor vergastá-lo.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Quermesse

O garoto abraçou a menina, repousou o rosto em seu ombro e ansiou para que ela lhe permitisse ficar assim por um minuto ou dois, até que ele tivesse a certeza de estar mesmo ali, sob a noite estrelada, com os braços cingindo o mundo e com a boca a poucos centímetros do pescoço esguio que, se ele ousasse escalar, o deixaria perto dos lábios nos quais persistia o voluptuoso cheiro de caldo de cana e de pipoca doce.

Definição

Amor é o seu nome. E nos dicionários de todas as línguas do mundo há, dele, uma definição que pretende ser clara. Quem tiver vivido só isso que sobre o amor dizem os dicionários poderá ser comparado àquele que julga conhecer o mar por tê-lo visto uma vez, sentado na praia, numa daquelas tardes em que as ondas fingem não saber nada de tormentas ou de naufrágios.

Sua eternidade

Apiedou-se da menina que, numa casa da sua rua, implorava pelo pai, pela mãe, por Deus e continuou a ser surrada por um, por dois ou pelos três. Quando o choro e os agudos lamentos cessaram, ele olhou o relógio: tinha se passado uma hora - uma eternidade para quem sofre. Com um sorriso de autocomiseração, pensou qual seria o conceito de eternidade adequado a ele, vergastado não por uma hora, mas por um ano, pelo mais cruel de todos os flagelos humanos: o amor.

Náufrago

Escreve agora como um náufrago que, tendo já acenado aflitamente para cento e três navios (anotados com canivete, um a um, na casca de uma árvore), sabe que nunca será avistado e, se for, será por uma canoa tripulada por canibais.

A lógica

Morreu já tantas vezes por amor que nem sabe quantas foram. Isso o atormenta. Ignora se é sinal de que tem um coração sensível ou se é prova de sua frivolidade. Mas o mais difícil é sentir que, contrariando a lógica, suas mortes estão se tornando sempre mais dolorosas.

Felicidade

Esteve tão perto da felicidade e a luz dela era tão forte e era tão intensa sua chama que, embora ele fechasse rapidamente os olhos e recolhesse a mão que avançara para colhê-la, nem os olhos nem a mão resistiram à aparição da bem-aventurança. Agora seus olhos lhe pedem todos os dias que os leve de novo a contemplar aquela suprema magnificência, enquanto a mão intacta o censura por ele não a ter aproximado também do fogo, que deixou na outra mão a dourada marca que a faz recusar-se a ficar no bolso, para mostrar, sempre e sempre, que ela foi a eleita para tocar aquilo que todo homem busca desde o primeiro até o último de seus dias.

Está frio

Chegaram perto de algum lugar, de algum ponto que, se não fosse ainda a felicidade, estava tão próximo dela que, dali, provavelmente pudessem chamá-la e ela talvez pudesse ouvi-los. Estiveram perto desse ponto e não souberam reconhecê-lo senão depois, muito depois. Agora, todos os dias, desde o instante em que acordam, tentam reencontrar o caminho, mas é como se estivessem naquela brincadeira de criança e, caminhando em todas as direções, perguntassem ao Destino: está quente, está frio? E está sempre frio, muito frio.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A gaveta (93) - Desencanto

Por que nos vem o amor se logo passa?
Se as juras morrem para além do instante?
Se o fogo da paixão se faz fumaça
E o tempo leva tudo tão distante?

Por que nos vem o amor se o amor não dura?
Por que nos vem o amor se o amor nos deixa?
Por que nos vem, se foge e nos tortura
E se até sua memória nos traz queixa?

Por que nos dá o amor a flor sonhada
Se um dia o vento vem e a despetala,
Se explode um dia a mágoa encarcerada
E os olhos choram? Antes não achá-la

E chorar uma flor que não chegou
Mas que desgraça alguma desfolhou.

A gaveta (92) - Terceiro andar

Em sangue o baque.
Três segundos, solo, descanso.
Olhos assustados e curiosos cingem
Quem existia há pouco e resistiria
Às moscas no rosto, agora soltas.
A sirene traz aventais afeitos,
A rotina trabalha, põe o corpo
No carro e o leva, enquanto
Uma caneta rápida anota e
Um toque de telefone am algum lugar
Desperta a hora de chorar
O imprevisto suicida.

A gaveta (91) - Pureza

Eu voltarei chorando, eu voltarei chorando
E tu me acolherás.

Não te direi que fui devasso,
Direi que fui menino e fui ingênuo
E fui levado para a noite insidiosa
Porque havia um sonho, porque havia um lago,
Porque havia um cisne que eu buscava.

Tu acreditarás. E teus olhos saudosos de mim
Molharão o beijo que unirá
Tua sempre pureza
À minha pureza provisória.

A gaveta (90) - Numa boa

Meu caminho seja longo, mas se for fácil,
As pedras poucas, mas só se houver,
E primavera sempre.

Dispostas estejam as mulheres,
Abertas as portas,
Gostoso o café,

Porque essa história de abnegação
É só para quem teme o suicídio.

A gaveta (90) - Indigência

Os olhos da menina tinham fome
(tanto tempo sem pão)
Os pés descalços da menina pisavam feridas
(tantos caminhos inúteis)
Os lábios não sorriam, tinham ódio
(tantas mãos que negaram)

A gaveta (89) - Entrega

Foi teu corpo imprevidente,
Foi teu pudor esquecido,
Foi a tua comoção.
Foi teu olhar decadente,
Foi teu abraço vencido,
Foi tua entrega. Foi bom.

A gaveta (88) - Minha morte

Agora, minha vida morre agora,
Na tristeza da tarde que adormece,
Minha alma ascende ao céu, minha mãe chora,
Salpicam-me de flores, anoitece.

Um murmúrio monótono de prece,
Quatro velas queimando, e o vento, fora,
Suavemente nas árvores esquece
Sua dolente compaixão sonora.

Os versos meus, que em lágrimas se esfolham,
E de um celeste amor com voz aflita
Falam, todos os leem, e se entreolham.

A lua então, abrindo o claro peito,
Entra pela vidraça e deposita
Um punhado de lírios em meu leito.

(Soneto que, jovem, escrevi para flertar com a Morte, como fez Álvares de Azevedo. Como tantas coisas depois, a Morte me rejeitou.)

A gaveta (87) - Invernal

Inverno
Dias tiritantes saem
mãos nos bolsos
chutando folhas secas
distraidamente

O sol, constrangido, aparece encolhido num casacão
dá uma voltinha só pra constar
e vai dormir muito antes que chegue

a noite cheia de flocos de neve
dispersos em seu capote preto

e a lua, branca,
muito fria, muito distante,
ausente
como um corpo impossível de mulher

A gaveta (86) - Tempo

Na manhã sem ti és lembrança recente,
Na tarde sem ti, expectativa.
Mas a noite contigo tem vontade de esquecer
Que existe tempo,
Que existe amanhecer,
E todos os sentimentos têm ânsia de presente eterno.

A gaveta (85) - Paisagem triste

Noite. Na praia desoladamente extensa
O suave brilho langoroso do luar
Passeia. Retumbando e retumbando, o mar
Rola de queda em queda na distância imensa.

O vento nos rochedos dorme, a ressonar.
E uma névoa esquisita, nem leve nem densa,
Sobre o espumante oceano inquieto se condensa.
Além, um lume trêmulo tenta brilhar...

Treme indeciso, apaga-se, insiste, retorna
E torna a se apagar, definitivamente
Afogado no cinza escuro da paisagem.

O olhar teimoso fixa-se no ponto ausente
Que a distância engoliu. Só resta agora, morna,
Esta ambição absurda de uma longa viagem...

A gaveta (84) - Soneto da memória

Quando a neve chegar ao coração
E branquear a paisagem dos cabelos,
Quando os lábios que vibram de paixão
Mais nenhum beijo venha comovê-los,

Quando já fatigada de mantê-los
Queime a memória os trapos da ilusão,
E o olhar, olhando os lábios, custe a crê-los
Capazes de ao amor ter dito "não",

Quando vier o frio, e a juventude
Tu mesma hesites ter podido ser,
Vem buscá-la em meus braços comovidos.

Verás que eu, que colhê-la não a pude,
A tenho intacta em mim a florescer,
Na memória, nos olhos, nos sentidos.

Gaveta (83) - Fim

Vai, podes ir se crês que em ti morreu
O amor que me comove e me arrebata.
Nem sequer temas que te chame ingrata,
Pois nada levas que não seja teu.

Levas o riso? O riso floresceu
Depois de ti, com força de cascata.
Levas também o sonho? O sonho data
Do teu primeiro olhar queimando o meu.

Vai, pois, sem um remorso na consciência,
Colher as tuas flores na existência,
Deixando embora minha estrada nua.

Vai, não me fites não assim condoída.
Levas contigo, eu sei, a minha vida,
Mas minha vida é tua, é toda tua.

Quanto vale

Escreveu um poema em que, no final, pede um beijo à amada. Esmerou-se em cada sílaba, mandou a mensagem e agora espera a resposta. Sabe que o poema não vale um beijo, talvez nem um sorriso, mas torce para que a amada esteja desatenta e não note a pobreza de ritmo e a indigência das rimas. Sente-se terrivelmente desonesto.

Identidade

Dia a dia
noite após noite
o rio flui
e pergunta
ao sol
e indaga
à lua
se sabem
quem é
se sabem
onde está
um homem
chamado Heráclito
e quando
pronuncia
esse nome
suas águas
se encrespam
de fúria
e imitam
o mar

Onde

Aquilo tudo
onde está?

O tempo
levou
o que trouxe

Deixou
aqui e ali
no micro
algumas fotos
na memória
alguns dias
um aroma
que deveria
ser de
rosas e
no entanto
as narinas
estranham
rejeitam
e se perguntassem
perguntariam
aquilo tudo
onde está?

E o vento
repetiria
talvez como
lamúria
talvez como
zombaria
onde está?

Motivo

Me diga então para que
Desperto, respiro, vivo,
Me diga por que motivo,
Se não é para você?

domingo, 2 de janeiro de 2011

Batalhas

Batalhas de amor travadas,
Batalhas de amor renhidas,
Batalhas ensandecidas,
Batalhas encarniçadas,

Batalhas ensanguentadas,
Batalhas de amor vencidas,
Batalhas de amor perdidas,
Ah, batalhas abençoadas.

Madrugada

A última estrela que vi
Apareceu na sacada,
Olhou-te e, desarvorada,
Morreu de inveja de ti.

Depois

Somos carne e pó seremos.
Ponto. Quanto à alma imortal,
Depois do dia final
Veremos (ou não veremos).

Juramento

Exige o amor que juremos
Com toda a fé e paixão
Que escravos dele seremos
E que se lixe a razão.

Solcídio

Pisando bem devagar,
Como se no último instante
Estivesse relutante,
O sol se afoga no mar.

Alma

Quando penso em alma, quando falo de alma, sinto em mim algo que, se for humano, deveria nos pertencer sempre e sempre, em cada instante, para que não nos víssemos órfãos depois, irremediavelmente órfãos, quando o encanto do momento se vai. Quando penso em alma, quando falo de alma, sinto em mim algo que também sinto quando penso em amor e falo de amor, mas que é um pouco mais leve, um pouco mais profundo e um pouco menos humano do que o amor.