segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Inúteis

Olha para os amigos com ressentimento e, se puder, muda de calçada para evitá-los. Para que lhe servem, afinal? Não confia mais neles. Dois anos atrás, no início da crise que agora o atormenta e o faz morder as mãos em desespero, pediu conselhos a eles e nenhum lhe recomendou que se matasse.

Os apelos

A voz o incitou ao salto,
Porém ele não saltou.
Chamou-o também o asfalto,
Mas o idiota não pulou.

Asas

Um salto, só, e adeus tédio,
Um salto e adeus sofrimento.
Feliz de quem mora em prédio
Lá no último pavimento.

Horizonte

Sentado na areia, consumido pela inveja e pelo ressentimento, viu os navios que, já transpondo o horizonte, levavam aqueles que iam buscar tesouros. De repente, sentiu algo que se pôs a palpitar e brilhar no seu colo. Assustado, atirou aquilo para o mar. Viu então que era uma estrela e correu para apanhá-la. Mas ela embarcara nas ondas e seguia também o rumo dos navios, procurando o horizonte.

O nome

Velho, muito velho, o homem ia toda noite ao bar e tinha um só assunto: um amor antigo, que havia se perdido no tempo mas não na sua memória. Falava da mulher, da sua beleza, dos olhos, dos cabelos de ouro, e começava então a chorar. Não conseguia lembrar-se do nome dela e mortificava-se por isso. Os fregueses do bar ouviam-lhe pacientemente a história e sugeriam-lhe luanas, irenes, cecílias, iaras, normas. Ele ficava esperançosamente atento, mas nenhum era jamais o nome da amada. Uma noite, depois de mais algumas dezenas de nomes propostos, pôs-se a chorar mais forte do que nunca. Os fregueses sorriram. Um dos nomes ditos devia ser enfim o que ele vinha procurando durante tantos anos. Ele disse que não, pediu sua conta, declarou a amarga certeza de que nunca o nome lhe viria, despediu-se e foi embora. Na noite seguinte, não apareceu. Um neto o havia encontrado morto naquela manhã, com a lista telefônica aberta ao meio. Um círculo grande cercava um nome, mas, como outras páginas também estavam sublinhadas e rabiscadas pela ansiosa caneta do velho, o neto não deu importância àquilo.

Borrasca

Às vezes, quando cochila, sente o fragor das ondas que sacodem o navio e ameaçam arremessá-lo aos agudos icebergs das estrelas, fazendo-o espatifar-se de encontro à lua. Grita então ordens, e corre pelo convés, e vai à sala das máquinas, e, clamando pelos deuses do oceano, convoca a tripulação à resistência. Acorda com o toque piedoso de uma enfermeira e descobre que do mar só lhe ficou o sal na boca, mordida por ele até arrancar-lhe sangue. Um curativo feito pela enfermeira - ah, seu João, ah, seu João - encerra mais uma de suas aventuras.

Ali adiante

Abre o jornal e nele encontra todo dia notícias de dois, três, cinco artistas mortos, todos magníficos. Ele sorri e tem um pensamento entre irônico e tranquilizador. Não precisa abaixar-se em sua trincheira de escritor medíocre. As balas estão zunindo longe.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Diga isso a ele

É velho, quase senil.
Seu corpo já não tem viço,
Porém vá convencer disso
Seu coração juvenil...

Este se supõe uma ave,
Condor voraz e guerreiro,
Ou o tenaz timoneiro
Da mais indômita nave.

Olhosnosolhos

Azuis ou verdes, que sejam
Teus olhos sempre os que eu veja
E, esteja onde eu bem esteja,
Estejam lá e me vejam.

Contrassenso

Ele a ama. Por que faz
Tudo então para a discórdia
E por que, mesmo na paz,
Em vez de beijá-la, morde-a?

Aritmética

Morrer é fácil. Eu tantas
E tantas vezes morri
E morro ainda por ti,
Que jamais saberei quantas.

Metamorfose

Vinha dando sinais de esquisitice, que resvalavam já para a extravagância e a bizarria, o que a família debitava ao seu desvairado amor pela literatura. Havia começado a confundir palavras cotidianas e também objetos. Ontem, na cozinha, lhe apareceu uma barata. Os dois ficaram se olhando, olhando. Notando que, se não saísse logo dali, talvez permanecesse até o final dos séculos, porque ele já havia murmurado cachorro, lebre, ouriço, centopeia e outros cem disparates, sem se decidir por atacá-la ou deixá-la escapar, ela se transformou rapidamente em Kafka e o engoliu.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Engodo

Teme que o amor seja como aquela mulher que toda manhã põe o gato na varanda e, para que ele tenha alimento fresco e saudável, esparrama migalhas de pão para atrair passarinhos.

Nostalgia

Quando naquela tarde as aves de arribação, cansadas, pousaram nos galhos da velha árvore, ela, que havia muito tempo não sentia senão o vento e a chuva, imaginou que tivesse voltado à juventude e estivesse novamente carregada de frutos.

A fé

Que em tudo o amor se imiscua
E tudo faça ao seu gosto
E dê prazer e desgosto
E insufle vida e a destrua.

Que eu possa a ele escravizar-me,
Só nele ter minha fé
E na fé viver, até
Que a morte venha buscar-me.

A foto

Mora sozinho, mas enfia a foto cada vez mais para o fundo da gaveta. Receia que alguém mais, talvez a empregada, veja como parecem saltados os lábios da amada, como se picados por abelhas, depois que ele passou a beijá-los não só à noite, antes de se deitar, mas também de manhã, depois de se aprontar para o trabalho.

As vozes

Está ficando surdo. A família lastima isso, ele não. A surdez lhe permite isolar-se da algaravia cotidiana e concentrar-se em duas vozes que a memória lhe traz: a do mar, que ruge como no dia em que menino o conheceu, e a de uma mulher, que soa ainda como soava nos seus ouvidos adolescentes. Não precisa de mais nenhuma voz, de nenhum outro som.

Calendário

Tão longe vai já o dia
Em que tu me enfeitiçaste
Que tu, eu sei, o olvidaste.
Mas eu jamais poderia.

Freudiana

No sonho, cão se descobre
E no terreno baldio
Os outros cães vence e cobre
A cadelinha no cio.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Crime Improvável, de Luiz Carlos Cardoso

Todo leitor, quanto mais antigo e apaixonado for pela literatura, acabará tendo na última etapa do seu caminho mais motivos de frustração que de gozo. Acreditamos ter lido tudo que é importante e encaramos o que surge com o rótulo de novidade com um ceticismo que infelizmente se confirma em novecentos e noventa e nove vezes e meia em mil. Todo novato que se apresenta é como se fosse um farsante ou um pateta pisando num palco onde estiveram Shakespeare, Borges, Dante, Molière, Dostoiévski. Quem precisa de mais literatura?, acabamos dizendo, de mau humor. E, cansados de aturar tantos saltimbancos, nos empertigamos: "Só tenho tempo, agora, para releituras." Surge aqui outra questão. Num país em que, lastimavelmente, os leitores sabem ser Machado de Assis o maior de todos os escritores mas hesitam se lhes pedem uma lista de mais nove, e se a apresentam é com um sacrifício imenso - não pela riqueza mas pela falta dela -, mesmo as releituras se tornam mais uma tarefa que um prazer. Temos Clarice, claro, temos Graciliano, temos Euclides (para leitores especialmente dotados de estoicismo), temos Guimarães Rosa (para quem se dispuser a procurar as duas ou três douradas gotas que pingam a cada três páginas). Entenda-se aqui, e bem entendido, que falo como leitor, até porque não posso falar sob nenhuma outra condição. Um leitor com a coragem (e talvez a ignorância, admito) de dizer que a maioria dos livros brasileiros mais citados e indicados para vestibular é de uma chatice exasperante. De 1970 para cá, salvo meia dúzia de textos de Rubem Fonseca, temos quem? Dalton Trevisan, sem dúvida. E os outros nove? Que leitor, de supetão, poderia nomeá-los com satisfação, e não por mero ouvir dizer? Falando por mim, como se a questão me tivesse sido proposta, eu citaria seguramente Luiz Carlos Cardoso, com seu recém-lançado romance Crime Improvável (editora Ficções). Desde Dalton, nenhuma outra leitura me trouxe tanto prazer, nenhuma me fez viajar tão gostosamente e com tanto bom humor por menções, referências e releituras de clássicos. De dez, de vinte, de trinta dos maiores escritores de todos os tempos Luiz Carlos Cardoso extrai o que de melhor têm e cria um herói anti-heroico, Fi, que há de ter seu lugar na galeria de Macunaíma, de Palhares, Dom Quixote, Humbert Humbert, Nathan Zuckerman. A primeira impressão, e a mais forte, se formos entrar no capítulo das prováveis influências que todos os escritores têm, é a de que Luiz Carlos Cardoso é filho de Nelson Rodrigues e Vladimir Nabokov. Mas no correr do livro se notam outras - Stendhal, Balzac, Flaubert - e se conclui que as inspirações dele são mais as da boa literatura que as deste ou aquele escritor. Seu herói Fi, homem simples atormentado pela paixão por uma cunhadinha em flor, passa a viver peripécias sexuais e policiais na doida São Paulo, como se tivesse sido convocado pelos deuses a ser o primeiro revisor de revista (sua ocupação) digno de ocupar página inteira no noticiário. Luiz Carlos, que foi (e é) revisor, oferece neste livro a melhor "vingança" dos revisores (classe malfadadamente quase extinta) ao tratamento de segunda classe que sempre tiveram na imprensa. No início do romance, ele (com a voz de Fi) diz que não fará concessões, que passou a vida corrigindo erros alheios e agora se arroga o direito de ter um estilo, o seu. Pensei numa expressão de cinema: este romance é uma obra de autor, que assume todos os riscos, até o mais sério - o de desagradar ao leitor. Não foi o que aconteceu comigo.

Fantasias

Recordo ainda teus gestos,
Teus beijos (todos não dados)
E os ressentidos protestos
Dos lábios meus, rejeitados.

Nos sonhos meus, ai de mim,
Do início sempre gostavas,
Do meio também. Ao fim,
Porém, jamais tu chegavas.

Cena

A maioria não percebeu. Mas alguns tiveram a ventura de ver, ao meio-dia e dezesseis, ou dezessete, o sol sutilmente puxando de volta um fio de ouro que deixara cair nos cabelos da mulher que atravessava a Paulista distraída, como se nada de extraordinário pudesse lhe acontecer.

Fim de caso

Já não dói tanto. Há dois meses
Pensava em se destruir.
Não lia, não caminhava,
Não ria, não conversava.
Mudou aos poucos, e às vezes
Já até consegue dormir.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O violino

Ao sol não revela nunca o que lhe vai na alma. Sorri, até, e, se usasse chapéu, talvez fizesse com ele um amistoso aceno, para completar a farsa. Mas à noite, livre de olhares e das cobranças de ser o que lhe impuseram, sozinho na imensidão da casa, instiga a alma a se exibir como é. Descobriu que ela, quando supliciada, toca violino, e toda noite agora a atormenta para ouvir aquele som agudo e lancinante, aquelas notas que o fazem chorar e sentir-se um homem até o momento em que, surgindo o sol, as ruas começam a se encher de gritos, assobios, risos debochados, palavras rudes e cusparadas.

Ainda não

Embora continue se esforçando (e Deus sabe como), toda manhã acorda com a frustração de ver que ainda não se tornou digno de ter aquela abençoada espécie de tristeza capaz de matar um homem.

Precoce

Sua vida está no fim e os parentes, quando vão visitá-lo, insistem em lhe dizer, como se estivessem antecipando seu necrológio, que ele é o maior de todos os orgulhos da família. Na cama em que está deitado há dois meses, ouve tudo como se falassem de outro, com uma paciência que já merece ser considerada resignação. Só se irrita quando alguém fala de sua precocidade, de como, aos quinze anos, já sabia tudo sobre a vida e o mundo. Se falar não lhe custasse tanto, gritaria que, se conhecesse mesmo o mundo e a vida aos quinze anos, não teria consentido em viver nem um ano a mais.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Assim e assim

Às vezes ele sente vergonha por ter chorado como uma donzela de folhetim por um amor perdido. E às vezes sente vergonha - e um remorso agudo e uma insuportável culpa - por não ter chorado mais.

Vendilhões

Palavras tristes, aquelas
Que por seu brilho e magia
Vendemos à simonia.
Amor é a mais triste delas.

Ternura

Não sabe
como gastar sua ternura

É antigo isso
dura já
cinco anos
talvez dez
talvez mais

Ele tenta
ele se esforça

Começou com o gato
depois veio o cachorro
os peixinhos
porém ainda
principalmente à noite
ele sente aguda a ânsia
de libertar a ternura
entalada no peito
como um passarinho neurótico

Sente que seria capaz
de sair de madrugada
olhar para os dois lados
e como um ladrão
abraçar um poste
o mais humilde de todos
e perguntar no ombro dele
como um menino retardado
quer ser meu amigo
quer ser meu amigo?

Talvez faça isso
esta madrugada
talvez ouse
se não houver lua

Enquanto não ousa
acomoda-se no sofá
com o gato e o cachorro
e olhando os peixinhos
pensa no tempo
em que saía do metrô
subia a escada rolante
e era recebido
pela cegante alegria
do sol pleno na avenida
e por um sorriso
e demorava um pouco
para distinguir
qual era o sol
e qual era o sorriso

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O que é o que é?

Piedade não tem. Seu ser
Consiste em tiranizar,
Em submeter, em magoar,
Em afligir e doer.

Profissão

Estava andando pelo parque, anotando num bloquinho ideias para um conto, quando a mulher se aproximou e perguntou se por acaso ele não era o Escritor Tal. Um pouco por modéstia e outro tanto pelo receio de se enfiar em mais uma longa conversa sobre literatura, ele olhou ostensivamente para uma árvore, fez uns rabiscos no bloco e respondeu: "Sou um recenseador de passarinhos."

Semelhante

Havia ali monarcas, príncipes, potentados, dignitários de todos os países, e um deles, o mais notável de todos, discursava sobre o que era preciso fazer para salvar o planeta, quando abruptamente subiu à imensa mesa circular cheia de microfones, flores e taças de vinho um rato gigantesco que, apesar de todas as tentativas de afugentá-lo, lá permaneceu, com tamanha arrogância que os participantes começaram a olhar uns para os outros, tentando descobrir - já que seus olhos e seu focinho não pareciam de todo estranhos - qual deles poderia ter parentesco com aquele ser que exigia o direito de também dar sua opinião sobre o tema do encontro.

Reeducação

Hoje à tarde
sairei enfim

São dois meses já
e talvez
seja a hora de tentar

Não será impossível
imagino

Abrirei a porta
olharei para o sol
como olhava antes
e se ele estiver distraído
ou de bom humor
é provável
que não me censure

Talvez não haja
nenhum conhecido
na rua
e se houver
pode ser
que sejam discretos

Se algum perguntar
por que estive sumido
há sempre aquelas
respostas vagas
aquele trabalho
que o chefe acha
que só a gente pode fazer
em Nova York
apesar de nosso inglês
deste tamanhinho
ou as férias acumuladas
que acabam levando a gente
a viajar sessenta dias
sessenta dias!
para lugares que
vejam só
nem sempre são apenas
pontinhos em mapas
e para os quais
as companhias aéreas
às vezes resolvem
fazer promoções

Sairei
irei até a confeitaria
e hei de ter coragem
de me sentar
à mesinha mais próxima
do sol e da rua
bem de frente para a vida

Pedirei sorvete
a maior das taças
e ficarei lambiscando
lambiscando a colher
pensando na garota
a quem Fernando Pessoa
revelou que o chocolate
é a melhor das metafísicas

Lambiscando o sorvete
se eu souber ainda
como se faz isso
se eu não vacilar
se ninguém notar
nada extravagante em mim
se eu em algum gesto
não me entregar
se ninguém me denunciar
se ninguém me prender
poderei quem sabe acreditar
que a vida perdoou
os dois meses
em que a amaldiçoei
trancado em casa
e me permitirá
tentar mais uma vez
desfrutar suas belezas

Terei mais uma chance
de descobrir
as bênçãos
que todos conhecem
o sol
a brisa
as flores
os passarinhos
a delícia que é
sentar-se e tomar
um sorvete na confeitaria

Sairei sim
hoje à tarde
já é tempo

Tudo dará certo

Só precisarei
lembrar-me de pôr uma camisa
de mangas compridas
para cobrir meus pulsos

Podem não gostar
dos desenhos que
neles fiz

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Blecaute

Quando melhor ia o baile,
Faltou a luz, e os casais,
Alguns menos, outros mais,
Passaram a ler-se em braile.

MM

Que a Morte, quando vier,
Levante a saia e nos pisque,
Depois nos beije e belisque,
Nos ame como Mulher.

Esputações

Cuspiu no chão do bar e o dono o olhou como um promotor encara um assassino. O chão estava cheio de cusparadas e ele imaginou o que poderia haver de errado com a dele. O dono do bar pegou então um copo, pôs conhaque nele, tomou um gole grande, bochechou por uns dez segundos, gargarejou e em seguida soltou uma, duas, três silvantes e compactas cuspidas, que por um milagre da pontaria caíram no mesmo ponto, formando uma só, fervilhante e respeitável. Depois da demonstração, o dono do bar disse baixo, com notável modéstia: "É assim que se faz."

Tarde demais

Saltou do viaduto e no meio da queda, arrependido, tentou aflitamente lembrar como agiam os heróis em situações como aquela, mas seus heróis todos tinham ficado na infância.

O fio

Foi só o susto. Estavas atravessando a avenida e sentiste um leve puxão nos cabelos. Não tiveste nem tempo de xingar. Olhaste para o alto e viste a pequena ave conduzindo no bico o fio de ouro que vinha procurando para ser o último e o mais precioso, o arremate do ninho. Foi assim, e agora uma parte quase imaterial de ti, fugidia ao tato, fulge num dos andares daquele prédio em que, no piso, há uma livraria na qual se expõem livros de poetas que poderiam dar a esta história o brilho que eu não soube. Que as chuvas poupem o fio dourado e que o vento, se um dia resolver levá-lo, o faça pousar na asa de uma borboleta ou na corola de um girassol.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Xérox

A ti, se ainda me lês,
De novo tudo eu diria,
E a história se copiaria:
Não crias em mim, não crês.

Alô

Estou bem agora
não te preocupes

Insônia? Não tenho mais
Já consigo dormir
da meia-noite
ao meio-dia
e quando acordo
esparramo os sonhos no lençol
e te procuro neles
e neles encontro
como ontem encontrava
tuas palavras
teus gestos
minha tristeza
minha alegria


Nos meus olhos
há sempre lágrimas
desde que me levanto
mas não te preocupes
eles são mesmo assim
estes meus olhos

Viciaram-se em chorar
e não há mais
como salvá-los do vício

Choram em cima
da sopa de pacote
choram no miojo
choram na toalha
choram nos talheres
choram na minha boca
enquanto eu como
e são o abençoado sal
do meu almoço
(já vês que estou
me alimentando sim
não te preocupes)
e também o doce alívio
de minha alma


Choram
quando pego os jornais
e por isso os descarto
(não quero chorar
por líbias irãs e egitos
e já não me importam
as declarações de guerra
e os tratados de paz)

Choram
quando apanho livros
e por isso não os leio
desculpem virginias
desculpem katherines
minha emily meu cisne adorado
mas já choro tanto
poupem-me de chorar mais

Choram choram choram
só fazem isso
estas lágrimas

Quero livrar-me delas
ah como gostaria
mas que psiquiatra
que sanatório
que manicômio
essas loucas aceitaria?

Choram quando abro a janela
choram para a rua e para o sol
e choram para a lua
e sobre o poema
se começo a escrevê-lo

Choram
choram
mas não te preocupes

Quando não aguento mais
deito-me no sofá
e durmo de novo
e às vezes
até emendo o sono
da tarde ao da noite
e me empenho
em esquecer-me de tudo
até de ti
embora os olhos
assim que acordo
insistam em dizer
que mais uma vez
não consegui
e embora também a razão (!)
pobre escrava do coração
me advirta sempre
de que posso
esquecer-me de tudo
mas jamais poderei
esquecer-me de ti

São essas as notícias

Ah, talvez gostes de saber
que neste instante
estou esparramando
os sonhos da tarde
em cima do sofá
para ouvir de novo
o que me dizias
enquanto eu dormia
e te agradeço
pela tristeza
que neles houveres deixado
e pela alegria

Estou bem
sim
não te preocupes

Ócio

E naquela noite as duas,
Cansando-se de esperar
Os clientes, foram brincar
Na cama, alegres e nuas.

Sucedâneo

Faltou-lhe o amado e ela, amuada,
Enfiou a amiga na cama
E com voz açucarada
Pediu: "Me ama, meu bem, me ama."

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Epifania

Bebeu nos lábios da amada
A lágrima que caía
E teve a prova provada:
Por certo Deus existia.

Fogacho

Saudade do desvario,
Das noites atormentadas,
Das roupas dilaceradas,
Da cega fúria do cio.

De rosa

Deitou-se em cima da amada
E percebeu de repente
No quarto um cheiro pungente
De rosa dilacerada.

Tato

Olhou os dedos, os cinco,
E antegozou o prazer
Que com eles iria ter
Tateando a orelha e o brinco.

Amigas

Assim que surgiu o sol, a árvore olhou para a direita e, onde por dez anos tinha visto a amiga plantada no mesmo dia que ela, havia só um toco, por onde a seiva escorria sobre as raízes, como o sangue de um decapitado. Entendeu a razão do grande ruído que ouvira de madrugada. Olhou então para a esquerda. Sua outra amiga estava ali. Mas logo o sol subiria, viriam a tarde e a noite. Estariam as duas ali na manhã seguinte ou iriam reunir-se à amiga, deixando na terra só as raízes, dedos abertos suplicando piedade?

Provecta felicidade

Pode-se ter de vez em quando uma grande alegria, mesmo aos oitenta e oito anos, ele pensou, depois de ouvir a notícia de que seu amigo de noventa e um, maestro também como ele, havia morrido naquela manhã. Com a morte do amigo, ele passava a ser o mais velho maestro em atividade no país. Cantarolando alguns compassos de Clair de Lune e tentando impressionar o sonolento gato com seus gestos de regente, ele gozou aquele instante de felicidade, imaginou a repercussão daquilo na mídia e começou a calcular quantos ingressos a mais seriam vendidos para o seu próximo espetáculo.

O matador

Ele é um serial killer

Todo dia
escreve um poema
depois o mutila
quebra-lhe os pés
arranca-lhe as rimas
deforma-lhe o ritmo
destrói-lhe a beleza
se tiver alguma
e quando o sente frio
coloca-o num carrinho de pedreiro
e vai jogá-lo numa caçamba
ou num terreno baldio

Deixa pistas sempre
cada vez mais
fala de si
de sua rua
do que nela há
compõe estrofes
só com as letras do seu nome
e a vontade de assinar
o mortifica
e o consome

Quer ser apanhado
quer que o interroguem
quer confessar

Nem precisarão torturá-lo

Ele logo dirá
sou eu sim
e se for preciso
implorará sou eu
sou eu
acreditem por favor
sou eu
juro que sou eu
e logo irá
contando tudo

Podem chamá-lo
de monstro
cuspir-lhe na cara

Ele só quer que alguém
lhe pergunte
por que fez isso
para ele enfim contar
que é porque
precisa de ajuda
que é porque
há dois anos não dorme
e há dois anos
ouve uma voz
que diz ser
a voz da Grande Poesia
incitando-o a escrever
o Grande Poema
aquele diante do qual
os leitores se ajoelharão
as roseiras hão de florir
mesmo fora de estação
e o mel cairá do céu
em grossas gotas de chuva

Precisa dizer
que escreve
que escreve todo dia
que põe seu sangue
todo no papel
que se atormenta
que se cilicia
e é sempre tosco
e é sempre fosco
tudo que cria

e por isso ele mutila
e por isso ele tortura
e por isso ele mata
todas as suas criaturas

Talvez também alguém
lhe possa dizer
por que ele chora sempre
e por que sempre ouve
uma voz que às vezes parece
e às vezes não
a voz da Grande Poesia
que lhe pergunta
por que não se enforca
por que não se envenena
por que não rasga os pulsos
por que não mergulha
logo no lago
ao fundo do qual
não chegam nem as vozes
que induzem ao bem
nem as que instigam ao mal

Pronomes

Do amor restou uma voz:
A que dizia eu, eu, eu.
A outra, a que dizia nós,
Há muito tempo morreu.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Vingança

Quando terminar
a estação das flores
e reunida com tuas amigas
de tuas vitórias de amor
lembrar-te fores

lembrarás decerto
de certo homem
de quem poderás dizer
que ao contrário de tantos
que subjugar-te quiseram
conseguiste submeter

Sorrirás
rirás dele
daquele tolinho
que acreditava no amor
como a mais bela crença
e a mais desejável das faculdades
e que mesmo hoje
por ti negado
e renegado
ainda no amor pensa
como a verdade das verdades

Tinha ele
uma caixa de primores
quando o conheceste
e mostrou-te lírios
e exibiu-te estrelas
e majestosos cisnes
e um bando de pássaros cantores
que com os violinos
rivalizavam
na gloriosa
celebração dos amores

Tu -
podes gabar-te -
tu murchaste as flores
as estrelas derrubaste
sufocaste os cisnes
e os pássaros e os violinos
calaste

Mas ele ainda
aquele incorrigível idiota
tudo celebra de novo
e todas as manhãs
abre a caixa
confiando no milagre
da ressurreição

Quando falares dele
de sua caixa
e de seus mortos primores
suas amigas rirão
e esse riso
que só as mulheres vingadas
sabem rir -
podes orgulhar-te -
será tua consagração

Ubiquidade

Enquanto em casa dormia,
No mar, num navio sujo,
Olhando o céu um marujo
Com hábil mão a possuía.

Toque

Depois da loura penugem
Dedilham agora os dedos
Os mais guardados segredos
Da delicada salsugem.

Aquele gosto

Não sei por que desgosto
a chuva resolveu hoje
vir chorar em minha janela

Começou à uma
já vai para o fim a tarde
e ela como se uma desgraça
precisasse me contar
não parou um minuto
de fazer deslizar
suas lágrimas na vidraça

Vendo-as
lembrei-me daquelas
que numa perdida tarde
chorei por ti

Não sei quais seriam mais belas
se as desta chuva
se as daquela tarde
se as da natureza
se as da humana tristeza

Mas o gosto
ah o gosto amargo e doce
mesmo que as da chuva
eu resolvesse provar
mesmo que lamber essas lágrimas fosse
bem sei que jamais iria encontrar
aquele gosto de sal
de sangue e de vida
que diante de ti
naquela perdida tarde bebi

Piedade

Brisa que de amor me falas,
Não vês que por dar-te ouvido
Sonhei, amei, fui traído?
Brisa, por que não te calas?

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Preço justo

Dar a vida
mas não
por algo que fizesse
a vida que eu ofertasse
parecer pouco
e parecer louco
quem a aceitasse

Dar a vida
por algo que não me envergonhasse
de comprar ouro
com moedas falsas
e que de injúrias me isentasse
e das maldições
do mercador me salvasse

Dar a vida
não pelo Ulisses
de Joyce
nem pelo tempo vivido
e revivido
de Proust

Talvez por esses
o supremo mercador
minha vida
digna não julgasse

Dar a vida por um verso
só um verso
para que o mercador
não desconfiasse
e um preço superior
não arbitrasse

Dar a vida por um verso
um verso apenas
(toma-a já mercador
se tu a queres)
e morrer satisfeito
tendo um papel no peito
e escrito no papel
o verso de Seféris

Verso que vale
todos os tesouros
e todas as moedas
verso que diz tudo dizendo só
"Mulher que na minha alma te hospedas"

Rede social

Embaixo de um poema no qual ele fala do nojo que sente dos homens, de sua absoluta falta de vontade de continuar vivendo e da covardia que o impede de matar-se, apareceu uma frase: "Treze pessoas curtiram isso."

Invocação

Que os deuses possam levar-te,
No mais extremo horizonte,
Ao monte onde nasce a fonte
Que molha a garganta da Arte.

Colo

Que no teu peito se aninhem
Uma ave, um gato, uma flor,
E que eles jamais definhem
Como murchou meu amor.

A música

A música é um pássaro, o mais belo de todos. Não tem asas, nem penas, nem bico. Só tem o canto.

O significado

Você leva anos lendo livros de filósofos, romancistas e poetas. Você consome décadas observando tudo e em tudo buscando um sentido. Você se empenha em aprender e compreender. Um dia, quando você tiver um neto, você espera poder dizer-lhe o que é a vida. Quando esse dia chegar, o que você dirá ao seu neto será certamente o que disse a você seu avô semianalfabeto, muitos anos atrás, quando você estava com dez anos e nem pensava em ler todos os livros que leu e ter todas as experiências que teve: "Meu neto, a vida é uma merda."

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Menino perdido

Ontem à tarde
no primeiro piso do shopping
tu me perdeste

Quando eu era
teu menino
jamais havia acontecido

Tu me levavas
para onde tu ias
tu me abraçavas
tu não me largavas
e tuas alegrias
eram nossas alegrias

Era simples
era belo

Tu gostavas
de andar comigo
e de andar contigo
eu gostava

Quando olhavam para mim
tu sorrias
e teu sorriso dizia
é o meu menino
e meu sorriso repetia
sou o menino dela
e no ar ficava ressoando
o menino dela
o menino dela

Se com alguém
se com alguma coisa
eu me distraía
e minha mão
tentava escorregar
dos teus dedos
tu me seguravas
tu me enlaçavas
tu me protegias

Mas ontem no shopping
subindo a escada rolante
percebi que olhavas
para a escada que descia
e teus olhos brilharam
quando encontraram
os olhos do menino
que para ti sorria

Tu soltaste minha mão
me empurraste
me deixaste lá em cima
e pela escada comum
correndo escapaste
de mim e de minha agonia

Lá do alto
vi quando abraçaste
teu novo menino
quando o beijaste
e com ele saíste
para a avenida
para o sol
para a tarde
para a vida

Vi tudo
todos te viram
e no ar ressoava
o menino dela
e no ar ecoava
o menino dela
e no ar
flutuava
o menino dela
o menino dela
o menino dela

Botânica

É tempo já de saberdes
Que sempre murcham as flores,
Sempre apodrecem os verdes
Sempre esmaecem as cores.

Musa

Ah, tempo bom em que vinhas
Em quadras ou em tercetos,
Na precisão dos sonetos
Ou em modestas quadrinhas.

Os escravos

Os escravos do amor
acorrentados
cantam odes
ao seu senhor

Cantam sempre com alma
porém se são torturados
se são chicoteados
cantam ainda
com maior fervor

Há séculos
estão assim
agrilhoados
e jamais deixaram
um dia sequer
de louvar quem os agrilhoou

Associações humanitárias
já denunciaram
essa escravidão
e ao mundo estarrecido
mostraram
como são cruéis
os grilhôes que os ferem

É preciso libertá-los
mas eles querem?

Espezinhados
vergastados
dilacerados
continuam entoando
o canto de louvor
que há séculos entoam
ao seu venerado senhor

Os gritos

São gritos
que arrepiam a nuca
da madrugada

Gritos que ecoam
na treva vazia
lamentos de amor
nomes de mulher
rosas saras judites
julianas dulces iaras
berrados por homens
que berrando
parecem meninos
homens sem esperança
e sem consolação

Nomes gritados
para as ruas
para os becos
nomes lançados
às estrelas
à lua esquiva
à imensidão

Misericórdia
para esses homens
que gritam
em nome do amor
piedade
para esses soldados
derrotados
que gritam ainda
e não param
e gritando vão
de esquina em esquina
em vão

Rosas saras judites
julianas dulces iaras
esses gritos
que apunhalam
os ouvidos
da madrugada
já não bastam não?

Rosas saras judites
julianas dulces iaras
poderosas mulheres
por esses homens amadas
por que vocês se escondem
onde vocês estão?

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O menino

É de madrugada
que dói mais

É de madrugada
(quando os amores apaziguados
se permitem dormir
e até ressonar discretamente)
que os amores frustrados
que os amores doentes
se põem a gemer e chorar

Teria sido tão simples
quando o amor era
ainda um menino
deixá-lo como era
sempre menino
e proibi-lo de
querer e sonhar

Teria sido tão fácil

Por que não pensamos nisso
por que não fizemos isso?

Nós deixamos crescer o amor
e hoje amiga
se quisermos sufocá-lo
como podíamos ter feito
tanto tempo atrás
que horrível grito
ele não dará
que pavoroso escândalo
ele não fará
quando um de nós
sorrateiro
lhe enfiar
na boca o travesseiro?

Ele não me deixa
dormir nem um pouco
ele não te deixa
dormir nada
e a minha cama
e a tua cama
são estrados de pregos
quando chega a madrugada

Eu me espeto inteiro aqui
tu te espetas inteira aí
e sangramos
sangramos

Qual de nós terá
enfim a coragem
de asfixiá-lo?

E qual de nós dois
arrastará seu corpo
outrora franzino
corpo de frangote
corpo de menino?

Quem o enfiará
pesado e cambaleante
no elevador
e conseguirá
fazê-lo passar adiante
sem suspeitas
pela portaria?

Quem de nós ligará?

Eu para ti
ou tu para mim?

Quem dirá
e com que voz
as duas sinistras palavras
quem murmurará
a nossa senha
está feito
e quem -
você aí
ou eu aqui? -
primeiro dormirá?

Quem no dia seguinte
dirá mais convincentemente
que era preciso
que não havia como evitar
que era impossível tolerar
aquele meninote
já se achando gente?

E poderemos
será que poderemos
nos esquecer dele
e algum dia até
sentar-nos a uma mesinha
daquele bar
onde lhe pagamos
com tanta alegria
seu primeiro café?

Crueldade

Na saída do metrô
vi o homem
na cadeira de rodas
vendendo rifas
de automóvel

Era um desses dias
em que fica mais fácil
acreditar em Deus

O sol jogava para o alto
suas moedas amarelas
e a tarde as recolhia
na sua saia azul
e ia separando
o trigo aqui
o ouro ali
o trigo aqui
o ouro ali

Ao lado do homem
na cadeira de rodas
uma mulher vendia cocada
e em torno dela
zumbiam abelhas embriagadas
enquanto um sorveteiro
oferecia seus palitos
de chocolate
coco e abacaxi

Repentinamente
o portão do colégio
se abriu como
uma barragem derrubada
e um enlouquecido
bando de meninos
saiu para o sol
para a tarde
para o trigo
para o ouro
para a cocada
para o chocolate
o coco e o abacaxi

Ninguém
correu para o homem
na cadeira de rodas
ninguém queria saber
daqueles papéis
com aquela foto desfocada
de um carro zero quilômetro

Era cruel aquilo

Era como se
o homem
na cadeira de rodas
estivesse ali
só para ser a exceção
à alegria
e o contraste
à correria

Apiedei-me dele
e pensei
como diante daquilo
eram ridículas
e até infames
minhas lágrimas
minha dor
minhas mágoas de amor

Parei
e pensei em
comprar um
papel daqueles
uma das rifas
que ele segurava
e sem nenhuma esperança
apregoava

Mas logo
me afastei dele
comprei uma cocada
e procurei andar
com ostentação
para que ele sentisse
que não poder andar
era de todas
a pior privação

Ele que se danasse
com sua cadeira de rodas
e suas rifas

Sabia ele
que um mês antes eu
flutuava por aquela
e pelas outras
ruas desta cidade?

Poderia ele
ao menos imaginar
que um mês antes
enfeitiçado pelo amor
eu não precisava
destas pernas miseráveis
eu não precisava andar
porque era capaz de voar
e voava?

Adeus

Foram tantos erros meus
E teus, que só resta agora
Deixar o amor ir embora
E nos dizermos adeus.

A hora

Não te apresses. Quando for
Tua hora, descansarás.
Se não morreres de amor,
De sua falta morrerás.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O presente

Era aniversário da menina e o menino lhe levou um gato. Não era lindo, como a maioria, mas também não era feio. Um gatinho não de catálogo, mas apresentável. Ele o achara na rua, na véspera, e, tendo convivido assim com ele um dia, podia garantir que não havia nada de errado com sua gateza.
Se fosse vendedor de gatos, proclamaria, com a convicção de não estar mentindo, que era um gato que funcionava muito bem. Miava fraco, era verdade, porque era pequeno ainda, mas, pelo apetite que demonstrava toda vez que via leite no potinho, logo seria um gato mais forte, mais bonito e, claro, passaria também a miar muito melhor. Sabia dormir também com aquele gosto que só os gatos encontram no sono. O sono e os gatos se amam.
Fazia outras coisas, também, todas aquelas que os outros faziam - e esse foi, por sinal, o motivo de o menino não ter podido ficar com ele mais do que um dia. A mãe disse que já havia sujeira suficiente na casa. Mas era um belo presente, assim pensou o menino ao passar o gato à aniversariante.
"Que feio", ela disse.
"O quê?"
"Ele é muito feio. Eu não quero, não. E já tenho dois, quer ver?"
"Não", respondeu o menino, com o gato de volta no colo e humilhado como jamais havia se sentido.
"Eu te dou outra coisa", ele disse. "Depois eu vejo."
"Não precisa. Vem comer o bolo."
A mãe da garota, que estava distribuindo as fatias, apontou o gato e perguntou:
"Um pedaço para esse cavalheiro também?"
Não parecia haver ironia na pergunta, mas o menino pegou só uma fatia e foi para um canto da sala, o mais próximo da porta. Estava quase se esgueirando para fora quando a irmã da aniversariante, uma garotinha de uns quatro anos, chegou e tirou o gato do seu colo.
"Que lindo, que lindo", ela começou a beijá-lo.
Era uma bela imagem, a menina com o gato, e logo alguns adultos foram tirar fotos.
A aniversariante, então, deslocada assim do centro das atenções, veio pisando firme e arrancou o gato das mãos da irmãzinha, que se pôs a berrar:
"É meu, é meu."
"Não é nada. É meu. Ele que me deu", reivindicou a posse a aniversariante. "Foi ou não foi você que me deu?"
Com o amor-próprio recuperado, o menino disse que sim e deu uma grande mordida no bolo. Sentia-se com direito, agora, a ele. Foi pegar um refrigerante, enquanto as meninas brigavam pelo gato.

Na carne, na alma

Chamavas-me amor, no ido
Tempo em que esse amor fruías.
Como ingratos são os dias...
Hoje me chamas de olvido.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Porcentagens

Acredito que Deus tenha criado o mar dois ou três minutos antes de criar o gato. Estava ainda admirando as ondas, seu azul esverdeado, sua espuma, e imaginou que, como contraste, seria interessante fazer algo pequeno e gracioso. Com meia dúzia de traços e um sopro deu vida então a um gato que, depois do primeiro miado, bocejou e afofou-se no Seu colo. Foram felizes esses momentos de criação. No dia 10 de fevereiro de 2011, um programa de rádio londrino pediu aos ouvintes que citassem alguém, alguma coisa ou algum animal sem os quais o mundo seria inimaginável. Das respostas, dois por cento mencionaram o mar e seis por cento apontaram o gato. Os noventa e dois por cento restantes dividiram-se entre atores, cantores, apresentadores de tevê, escritores, benfeitores e esportistas. Deus não teve um voto sequer.

Moeda

Só tenho o amor. Mesmo assim
(Que tolo eu sou) sempre penso
Que só com esse amor compenso
O resto que falta em mim.

Esperança

Que Deus me deixe viver
Seja do jeito que for,
Mas não me deixe morrer
De outra morte além do amor.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Calabouço

Amor, meu terno suplício,
Jamais me deixes em paz.
Me amarra, escravo me faz,
Me impõe teu jugo e teu vício.

Lição de vida

Foi humilhado, rejeitado e escorraçado. Para consolá-lo, disseram-lhe que um episódio assim era sempre útil para a formação de um caráter e que agora, sim, ele podia se considerar um homem. E é assim que ele se considera: um homem - humilhado, rejeitado e escorraçado.

Único

Devo dizer-te
se ouvir-me queres
que este amor é sim
igual ao que os homens
têm pelas mulheres

Com isso
quero dizer-te
embora me doa
que ele não é
embora eu gostasse tanto
nem santo
nem sacrossanto

Mas ele é único
isso te digo que ele é
e não por devaneio
nem por anseio
ou por pretensa majestade

Ele é único
no mais estrito
no mais adstrito
sentido de unicidade
e também verdadeiro
isso te digo também que ele é
tanto quanto pode
e há de ser sempre
um amor de verdade

Trigal

Cabelos de sol, cabelos
De trigo banhado em ouro,
Que eu possa um dia colhê-los,
Cabelos teus, meu tesouro.

Trincheira

Às vezes
no início da manhã
ou da tarde
da escola em frente
chega ainda até o refúgio dele
o juvenil alarido
da alegria

Também ele
teve seu tempo
de dar petelecos
e joelhadas
de assobiar
e zurrar
antes das aulas
e - pensa agora -
pode ter atormentado
algum velho
talvez moribundo
com suas algazarras

Deve tê-lo amaldiçoado
o velho
porque agora
tantas décadas passadas
com todas as janelas
com todas as portas
com todas as soleiras vedadas
encastelado
no último canto
do último quarto
dos fundos
ele tapa os ouvidos
pronuncia
uma imprecação
que não ouve
e arrasta-se
como uma lagartixa ferida
para baixo da cama

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Vândalo

Eu te olharei
como um vândalo
olhando
uma vitrine espatifada

No meu rosto
haverá uma inábil
insinuação de desculpa
e minha boca
uma frase desenhará
(não sei o que me deu)
que logo também
se esgueirará

Tu me olharás espantada
e começarás a recolher
o que cinco minutos antes
eram delicadas joias
um sorriso
uma palavra amiga
um gesto
um abraço

Eu te olharei
e outra frase me virá
mas também essa não direi

Há uma beleza
pensarei
que mãos bárbaras
mesmo tocando-a com maciez
ou mesmo não a tocando
só podem destroçar

Chorarás talvez
e por ter
aprendido a lição eu
nessa beleza
a dos teus úmidos
e desencantados olhos
não tocarei

Soberba

Não te direi mais que és bela.
A ti eu disse, e à lua,
E, como tu, também ela
Longe de mim continua.

Tela

Quando fores pintar
pinta um passarinho

Pode haver outras coisas
que escolherás
um parque
árvores
o sol
um pequeno lago
crianças correndo
e se quiseres
poderás pôr também
um arco-íris
se por acaso resolveres
que terá acabado
de chover

E se tiveres mesmo
resolvido que choveu
talvez gostes
de equilibrar nos galhos
bem na ponta deles
gotas que ensaiem
graciosos saltos
lá de cima para a grama

Pinta o passarinho
por último
quando tua mão
já estiver preparada
para a beleza
que ele há de ter

Arranja um lugar
num cantinho
bem no alto da tela
e pinta-o
num instante
em que o sol
possa pousar
sobre a delicadeza
de seu bico
e de suas penas

Depois deves fingir
que estás distraída
olhar para o outro lado
e deixá-lo voar

Se ele
por ser bobinho
continuar ali
deves pegar
teu pincel
e pintar
naquele cantinho
no alto da tela
um fiapo de nuvem
ou outra coisa assim
leve e bela
que possa
substituir e traduzir
toda a alegria
de um passarinho livre
descobrindo que o céu
o esplêndido céu azul
se abriu todo
para suas asas
e seu voo

Fardo

Que animal frágil é o homem.
Tantos deveres lhe exigem,
Tantas desgraças o afligem,
Tantas paixões o consomem.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Insones madrugadas

Cansei-me
tu sabes?

Por ti
perseguiram-me
todos os cães
e todos os guardas
de todos os quarteirões
nas noites
em que como um ladrão
eu rondei tua casa
só para ter
a desenxabida alegria de ver
tua janela
fechada sempre
e apagada

A lua
infatigável investigadora
quando perdiam minha pista
varria com a luz cruel
do seu helicóptero
minha patética
figura de poeta
e incitava de novo
os cães e os guardas
que já não sabendo
o que eram calças
e o que eram pernas
o que eram ombros
e o que era cabeça
me espancavam
me estraçalhavam

Cansei-me
tu sabes?

Cansei-me
de deitar-me
roto e dilacerado
e suplicar um sonho
em que não houvesse
nam cães nem guardas
e tua janela
afinal se abrisse
toda iluminada

Cansei-me
de acordar
e lavar o rosto
com minhas lágrimas
e sentir o sal
queimar as feridas
abertas nos meus lábios
pelos desesperançados beijos
que em meu travesseiro
como se fosse tua boca
eu cravei febril
em tantas insanas
e insones madrugadas

Geografia

De Atlânticos e de Pacíficos, de Turquias e de Istambuis, de ilhas e arquipélagos, de Suezes e de Panamás era feita minha geografia. Nomes, nomes, tantos nomes e a vertigem de imensidões e infinitudes. Hoje minha geografia se resume a um nome, o teu, e norte, sul, leste e oeste são palavras que designam os lugares onde estás e que me chamam como outrora o mar chamava os aventureiros e os descobridores.

Felpas

Serão sedosas ao tato,
Será macio desfiá-las,
Serão mel puro ao palato,
Será delícia prová-las.

Elementar

Qual é a definição
De amor? É simples, querida.
O amor não é nada, não,
O amor é apenas a vida.

Como aquele

Como aquele gatinho
que apareceu em casa
quando eu tinha cinco anos
e ganhou o direito
de ficar um dia
e foi ficando

e conquistando corações
e territórios
instalou sua majestade
nos sofás primeiro
e depois nas camas
e por alguns meses
como senhor incontestado
andou por onde quis
cravando com as meticulosas unhas
a marca de sua posse

Como aquele gatinho
que certa manhã
como se o tivesse
tocado a mão de Satanás
se enfiou atrás
da geladeira
e com os olhos transformados
em duas malignas labaredas
cruel rasgou
todas as mãos
que lhe quiseram
empurrar água e comida

Como aquele gatinho
eu me enfiei
atrás da geladeira
e espero o momento em que
como o gatinho
me agarrarem enfim
encherem o tanque
e forçarem
meu rebelde focinho
para baixo
para o fundo

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Eu te amo, viu? Cada poema
Que escrevo, cada poesia,
Não têm nenhum outro tema,
Só esse: eu te amo, guria.

Una vez, nada más

Não fale do amor em vão. Felizes aqueles que no fim da vida sabem dizer quantas vezes pronunciaram essa palavra. E mais feliz aquele que a tiver dito uma vez só, só uma, com o fervor de quem, depois de anos afundado na desolação de uma mina, um dia, como se fosse uma alucinação, apalpa uma pedra e sente na mão a abençoada flama do ouro.

De gatos

Fala-me de gatos
por favor

De gatos
que tenhas tido
de gatos
que não tenhas tido
de gatos
que tenhas imaginado
de gatos
que tenhas querido

Fala-me
de lindos gatinhos
de gatinhos
que tenhas alimentado
que tenhas acalentado
que tenhas tentado lavar
com a mangueira do jardim

Fala-me de gatos
com que tenhas brincado
com que tenhas ralhado
que tenhas beijado
sentindo o macio arrepio
do bigodinho

Fala-me de gatos
por favor

De gatos cinzentos
de olhos remelentos
de gatos pretinhos
de olhos nevoentos
de gatos branquinhos
de gatos malandros
de gatos bobinhos

Fala-me de gatos
azuis
vermelhos
verdes

Inventa-me gatos
por favor

Cria-me gatos
desenha-me gatos
pinta-me gatos
que num sonho possam
chegar de mansinho
com seu jeito bonachão
como só os gatos
sabem chegar
afofar o travesseiro
arranjar seu cantinho
e iludir minha solidão

À vida o que dela é

Não levarei teu nome comigo. Esta viagem, a derradeira, talvez seja mais longa e não tão tranquila quanto dizem. Quem me garante que, assim como aqui, não aparecerá no caminho quem me despoje do meu bem mais precioso? Deixarei teu nome aqui, para que, ao ser pronunciado por lábios que te querem bem, possam eles, como prêmio, ser beijados pela brisa, dessedentados pela chuva e dourados pelo sol.

Asilo

Não olho mais para mim
E se olho me desconheço.
Qual é meu novo endereço?
É este, a cem metros do fim.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Os puros

Tantos patetas
recebendo comendas
encomendadas
faixas douradas
condecorações

Tantos cretinos
ostentando supinos
suas ordens
seus colares
seus medalhões

O tempo dirá o que são

Embolorarão
as fotos em que sorriem
com os protocolares dentes
e com os casacões
que garbosos levaram
às solenidades
e às festivas ocasiões

As traças comerão
o bigode de um
a boca de outro
todas as pompas
e ostentações
e morrerão todas
irreverentes traças
traidoras da tradição
de câncer
e de indigestão

Os anos passarão
e todas essas majestades
essas potestades
essas divindades
que horror
que mundo é este
apodrecerão
e nem as molduras
se salvarão

O amor ficará porém
e todos os que por ele viverem
e todos os que por ele morrerem
perdurarão

Ficarão nos retratos
intocados nas paredes
e por algo que ninguém explicará
o vidro que os protege
brilhará e brilhando
continuará
até o momento em que a memória
do último dos potentados
cheia de hesitação
coçará a cabeça e perguntará
quem foi mesmo esse figurão?

Priapo

Ele espera

Os cinco sentidos
trabalham para ele
ouvem olham farejam
testam com a língua
a apetitosa presa
atestam
apalpam suis e nortes
toda a geografia
montanhas
contrafortes
sargaços
conchas impregnadas
de maresia

Ele espera

Quando o chamam
ele soberano
finge que há algo
tedioso naquilo
como se fosse
um monarca bonachão
cuspindo
caroços de azeitona
num festim
tentando acertar enfim
o chapéu do bufão

Mas quando
a luz se apaga
ele como um leão
se atira sobre a corça

Ele lacera
dilacera
estraçalha se puder
e se puder extermina

Move-o uma
vingança precoce

Sabe que um dia
lhe faltará essa fúria
essa volúpia de sangue
e a corça na cama
zombará do seu
inútil empenho

Mas hoje não

Hoje ele estoura
hoje ele estrompa
ele estupora a corça
e mais goza
quanto mais ouve
os gemidos
do animalzinho tolo
mais um que acreditou
na doçura do amor
e na brandura proclamada
pelos cinco falsos sentidos

O que resta

Já se foi o tempo
dos abraços

Os braços pendentes
lassos
apontam com os dedos
de ponta-cabeça
o ponto
o exato lugar
onde o corpo
esse cavalheiro murcho
outrora intrépido aventureiro
repousará

Seja qual for
o tamanho de nosso sonho
e o clamor de nosso desatino
a terra é
a terra sempre será
o nosso destino

Veneziana

Toda manhã, entre as sete e as sete e meia, o sol senta num galho da ameixeira e espera. É a hora em que a garota, depois de vestir a saia escolar azul-marinho, abre a janela e boceja langorosamente para o quintal. Se ela não aparece nesse horário, por estar atrasada ou por ser domingo ou feriado, o sol perde a paciência e pede a um passarinho que vá acordá-la. O passarinho, sempre o mesmo, tão impaciente quanto o sol, além de cantar como se fosse um bando inteiro, bica a madeira da veneziana. Já dura três anos essa paixão do sol e, vista de longe, a veneziana verde pontilhada pelo bico do pássaro parece uma tela impressionista.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Pecado original

Poesia, puta rampeira,
Naquela noite, na esquina,
Por tua porca vagina
Destruí minha vida inteira.

Simbiose

Não valho a gota de chuva,
Não valho a gota de orvalho
Na grama do teu jardim.
Não valho a semente de uva,
Não valho a uva, não valho
Nada se esqueces de mim.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Se toque

Se você tem mais de setenta anos, lê os clássicos e os não clássicos desde os doze, empenha-se desde os vinte em escrever pelo menos duas páginas diárias e, num domingo à tarde, pega por exemplo Crime e Castigo, de Dostoiévski, lê um parágrafo e não sente o impulso de sair caminhando até sumir no fim do mundo, deve haver algo errado com você. Crie vergonha, homem. Largue essa caneta, chute para longe esse micro. Está esperando o quê? Escrever ainda sua obra-prima? Vá cuidar dos seus netos, vá.

Escala

Ele era tão grosseiro que seu único refinamento, segundo aqueles que o conheceram bem, consistia na proeza de, em cada dez arrotos, conseguir pelo menos um em si bemol.

Na curva, a flor

No inverno da vida, numa curva que talvez fosse a última do seu caminho, encontrou a surpresa de uma flor. Tão frágil ela era que ele, esquecendo a própria fragilidade, se entristeceu. Era um milagre ela estar viva ali, quase toda coberta de neve. Talvez nem resistisse até a noite. Esse pensamento quase o fez arrancá-la e levá-la consigo. Quem sabe ela lhe tivesse sido destinada como a última companheira da vida. Chegou a tocar seu caule, mas desistiu. Talvez ela se mantivesse viva e no dia seguinte aparecesse o primeiro sol da primavera. Deixou-a então e retomou seu caminho, imaginando quantos passos conseguiria dar ainda, antes do derradeiro. A neve então se transformou repentinamente em nevasca e, pensando agoniado na flor, ele retrocedeu. Precisava protegê-la, ficar com as mãos em torno dela, salvá-la. Quando chegou ao lugar onde estava a flor, ele a viu caída. Apanhou-a e tentou aquecê-la com as mãos. Colocou-a depois no bolso do casaco, junto ao coração. Pôs-se a murmurar algo que talvez fosse "minha filhinha, minha filhinha". Sentado na neve, com as mãos segurando cuidadosamente a flor dentro do casaco e chicoteado pelo vento gélido, sorriu. Sabia que não faltava mais nenhum passo para o final de sua jornada.

Onde

Amor, capaz instrumento
Das horas boas e más,
Amor, meu doce tormento,
Me diz, amor, onde estás?

Rei

Ao abrir a janela, foi saudado por um sol tão majestoso e por um coro tão entusiástico de passarinhos que, se fosse dado à megalomania, talvez presumisse ser um rei. Permitiu-se receber a indevida homenagem por um minuto, depois disse "eu não sou quem vocês estão pensando" e, fechando a janela, foi trocar a camisa que havia posto por uma leve. Não ia ser fácil enfrentar as oito horas dirigindo o ônibus.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Pequenos ajustes de cama

Serei o que tu quiseres:
Somente um homem ou vários,
Afáveis ou ordinários,
De grandes posses ou neres.

Farei o que me impuseres
E mesmo com dons primários
E com atributos precários
Mulher serei, ou mulheres.

Quando?

Como um ladrão
debruçado sobre um cofre
o botão girando
para a esquerda
girando o botão
para a direita
e imprecando
qual é
essa maldita combinação?

Como esse ladrão
eu mexo também
nas palavras
dia e noite
misturo-as
desmancho-as
misturo-as de novo
e em febre pergunto
qual é
essa bendita combinação?

Há um ano
há um século
em agonia
tento a mistura exata
a frase certa
a única
e as palavras escarnecem
de minha alquimia

Sei quais são
as palavras
conheço todas
e imploro
e suplico
e ordeno
que se ordenem
sempre em vão

Ah rosa
ah ternura
ah pássaros
ah luar
ah primavera
ah estrelas
ah alma
ah amor
ah mar
quando vos unireis afinal
na ideal união?

Quando ah quando
aquela mulher vos olhará
e exclamará encantada
ah sim
ah agora sim
finalmente minhas queridas
vós sois um poema
e dizendo isso
vos abrigará no coração?

Assunto

Deram-me um livro, não li.
Também não leio jornais.
Já nada me importa mais
Se não me fala de ti.

Temporã

No fim da inútil jornada
Eu não sabia, mas eras
Uma exceção abençoada
De flores e primaveras.

Teu nome

Certas noites
quando a angústia
vem sufocar minha alma
e a mergulha
uma e duas
e dez vezes
no rio de minhas lágrimas
e continua a mergulhá-la
eu sempre consigo
no último instante
gritar teu nome
e o teu milagre me salva

Tem acontecido
tanto isso
que eu te digo
minha amiga
que se acordares
de madrugada
com teu nome sussurrado
no quarto
não serei eu

Será algum admirador teu
no teu sonho
lembrando-se de ti
e repetindo teu nome
com doçura
ou será então
uma homenagem talvez
da brisa noturna
à tua beleza

Não serei eu
minha amiga

Quando te chamo
é sempre
um grito de socorro

Vestido

Palpar-te a seda, alisá-la,
Fazer a mão te sentir,
Depois deixá-la subir
À boca e de mel untá-la.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Açúcar a gosto

Quando algo afirmares, não
Direi mais: e se não fosse?
Aprendi minha lição:
Não quero ser senão doce.

A namorada

Compraremos pipocas

Você dirá estas de cinema
são as melhores

Enquanto as luzes
estiverem acesas
nos olharemos
sem jeito
e sem jeito
continuaremos depois
quando o filme começar

Meu cotovelo
o braço
a mão
os dedos
se manterão duas horas
no limite
entre atrever-se
e não se atrever

Talvez
eu te enlace o ombro
mas a minha audácia
não ousará mais que isso

Na rua
ficaremos nos dizendo
bom então
bom então
e depois do bom então
nenhuma outra palavrá
diremos

É provável
que no último minuto
eu crie coragem
de te olhar nos olhos
e perguntar
posso te considerar
minha amiga?

No ar
ficarão as palavras
que deveriam
e gostariam
de ser ditas
e despeitadas
e zombeteiras
começarão a escarnecer
amiga?
amiga?
amiga?
mas tu já terás entendido
já terás sorrido
e dito que sim

Sonho

Quando a ocasião chegar - se chegar - e ele estiver a um centímetro e a um segundo de beijar finalmente os lábios pelos quais anseia há quatrocentas noites e quatrocentos dias, ele recuará um pouco o rosto - dez centímetros talvez - e por alguns instantes - dez segundos pelo menos - fitará aquele tesouro há tanto tempo almejado e, contendo-se para não chorar, voltará, antes da suprema ventura, a sentir-se o menino que acreditava em sonhos e na sua realização.

A flor amarela

Ela encostou a cabeça no ombro dele. Tinha começado a chover e, por três quarteirões, até chegarem ao cinema, ele sentiu que conduzia o mundo - e que este era leve como aqueles cabelos derramados no seu braço, aquela flor de pétalas douradas que uma nuvem branda seguia e amorosamente regava.

O atestado

Não precisa
se ver no espelho
nem notar como olham
para ele as pessoas
para saber que
está morto

Sabe há muito tempo já

Deve haver
em algum canto da casa
no fundo de uma gaveta
escondido dentro de um livro
oculto no meio das roupas
um papel que ateste isso
que ele está morto
um papel que por piedade
escondem dele

Pensam
que lhe faria mal
saber que está morto
mas ele sabe
e sente-se bem assim
morto
alheio à dor
e à alegria
sombra apenas
que nada quer
e nada espera
e a quem não importa mais
se hoje é inverno
e se amanhã
será primavera

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O velho guerreiro

Chegou a primavera
e ele cachorro velho
para os jovens superar
acorda antes do sol
levanta o nariz
e põe-se a farejar

Há um aroma de postes
no ar da manhã
uma fragrância ácida
de postes e de árvores regadas
pela urina espumante e ansiosa
um cheiro de terra
e grama revolvidas
uma urgência de sêmen que aguarda
o instante de se disseminar
e gotejar triunfante
em cima do maior tesouro
da vida

É preciso interpretar
os sinais
e ele cachorro velho
sabe como nenhum outro cão
interpretá-los

Os jovens não sabem

Os jovens enganam-se
e tomam rumos
que os levam a outros rumos
e por fim ao rumo nenhum
onde não há cachorra nenhuma

Com as veteranas narinas
ele persegue
o aroma fugidio
o aroma morno
que desde o início
dos tempos marca o caminho
do gozo e do cio

Às vezes
a pressa
o faz esquecer a sabedoria
e o lança na direção
de um carro que a contragosto
se desvia

Mas com o passo seguro
apesar da pata pendente
que um combate antigo quebrou
ele não se deixa iludir
pelo olor dos papéis engordurados
atirados na frente dos bares
se fecha para a tentação
do lixo nas esquinas
e continua com
as narinas atentas
porque outra
e maior
é hoje sua fome
aquela fome suprema
que move cães e homens
sobre a terra
desde a primeira manhã

Anda assim horas
seguido pelo sol
grande cão do céu
até que ao meio-dia
o cheiro agudo e acre
lhe indica que chegou

Chegou tarde porém

Seu nariz não é o mesmo
ele cachorro velho
agora reconhece
e seus olhos também
ele percebe
já o traem

Na névoa leitosa
que a luxúria do sol espalhou
ele não distingue
se em torno da cadelinha
que se debate
requisitada pelo
inadiável amor de séculos
há vinte trinta
ou cinquenta cães
que cheirando
como ele não soube
intuíram antes
os pungentes aromas
e rosnam agora
concedendo-lhe ainda a chance
de sair manquejando
com sua pata estropiada
e sumir por onde veio
se quiser continuar a ser
um cachorro velho
mas vivo
porque ali
poucos se serviram
a tarde é longa e
também a noite
e não há lugar
para mais nenhum

Ali

Levaram-no para o porão
ou foi ele mesmo quem escolheu
já não se lembra

Ali se sente bem

Agrada-lhe a penumbra
o mofo o silêncio
a certeza de que
não irão incomodá-lo
os apelos do sol
ou as tentações do dia
e se algumas palavras
lhe chegarem
serão as do vendedor de detergentes
ou de melancia

Acostumou-se a tudo ali
e tudo se acostumou a ele

Não sabe se desceu os degraus
há um mês
ou um ano

Descobriu que ali
não existe a tirania
dos minutos e dos segundos
porque o tempo
foi abolido
junto com os desejos

Só receia que
não sabendo onde ele está
a morte não o encontre
se tiver o trabalho
de ir procurá-lo

No mais tudo vai bem

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Algaravia

Tu sabes

Se três palavras escrevo
as três falam de ti
e falam de ti também as outras
todas aquelas que não escrevi

Palavras
não devem valer nada
minha amada

Se valor tivessem
por que estás sempre aí
e eu estou sempre aqui?

Me diz
que torta alquimia
transforma em desdouro
qualquer tesouro
que mando a ti

Me diz o nome dessa anomalia
que transforma em trevas o dia
em cacófatos a poesia
em farrapos a magia
e a paixão em monotonia

Me diz o que de errado há
com a minha desarvorada língua
que te propõe o maná
a excelsa gastronomia
do mel e da ambrosia
para no fim
morrer à míngua
à míngua
sempre à míngua

Replay

Mataste-me com ternura
E com tão doce maciez
Que o néctar dessa tortura
Quero provar outra vez.

O cisne de Amherst

Emily
teu vestido branco
é uma das ovelhas
que toda noite chamo
para ensinar o caminho
ao meu sono

Ele é sempre
a última de todas
aquela que diz enfim
pode vir
que tudo agora
são só fiapos de neve
e algodão
pode vir menino meu
eu velarei
pela tua solidão

Tu nunca vens nele
Emily
no teu branco vestido
de sopros e fragrâncias tecido
talvez porque eu ainda não conheça
o nome que deve ter
aquilo que tu és
aquilo que é mais transparente
do que a transparência
mais fluido que o éter
e mais incorpóreo que o luar

Tu talvez saibas
essa palavra
Emily
mas por modéstia
não queres nomear-te
não queres dizer
que Emily pronunciada
com a leveza adequada
a leveza que só tu conheces
é a palavra

Eu por mim
quando tenho a ventura
de te ver no sonho
e nele dizer teu nome
acordo sempre com
um cisne ao lado da cama
um cisne cujas penas de açúcar
a brisa matinal
vem delicadamente lamber

Às vezes penso que
teu vestido branco
se cansou de ser ovelha
e decidiu mudar
para outra espécie
de alvura

Mas às vezes
acho que o cisne és tu
Emily
e te chamo
Emily
Emily
até o cisne se dissipar
lambido inteiro pela brisa
e os primeiros sorrisos do sol

Traço

Acena para os navios.
Seus anzóis sibilam no ar,
Estendem-se sobre o mar
E voltam sempre vazios.

O gato

Quando ela se lembra
de como era o amor
aquele gato bobinho
quando pela primeira vez
ela o sentiu no colo
naquela manhã
agora tão distante

Quando ela se lembra
daquele pelo fofinho
dos olhos remelentos
escondidos pelo sono
e mesmo assim
tão inequivocamente verdes
ela deplora
a patifaria do tempo

Naquela manhã
ah naquela primeira
ela compreendera
como tinha sido precioso
conservar-se menina
para merecer
aquela dádiva cinzenta
aqueles bigodinhos graciosos
aquela cauda que desenhava
travessuras no ar
e aquele receoso coração
tão pequeno
que batia fortíssimo porém
como o de um salteador
a três passos enfim de um tesouro

O tempo continuou
com seus passos lentos
mas continuou

Hoje, lembrando-se
daquela manhã
e olhando para o enorme gato
que dorme escarrapachado
como um porco no sofá
e se comporta
como um inquilino
que nunca pagou aluguel
mas quer ser tratado como rei
ela se pergunta aturdida
cadê aquele meu gatinho
e sente vontade
de pegar pelas orelhas
aquele intruso
e atirá-lo para fora
numa noite de tempestade

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Inquisição

Não era dessas flores
que eu falava
dessas que se compram
numa lojinha ou num bazar
que de água não precisam
e nenhum inseto virá molestar

Não era dessas flores
que com uma atenção normal
quinzenal ou mensal
tirando-se um pozinho aqui
e outro pozinho ali
como se tira dos bibelôs
podem adornar a sala
na primeira comunhão
do menino bem-comportado
e continuar a adorná-la
na sua festa de noivado

Não era dessas flores
que eu falava
assim como não era
desses amores artificiais
que se pautam por agendas
por horóscopos
por encontros ocasionais
e pelo suposto bem que o sexo faz
aos humores corporais

Eu pensava
em algo um tantinho melhor
em algo que tivesse
algum nome e conceito
melhor que cópula carnal
e que por sua beleza
mantivesse a alma em febre
como em febre a minha se manteve

Eu pensava em algo
que não se envergonhasse
das palavras sangue seiva
deslumbramento paixão
e que não se importasse
em confessar que obedecia
à voz daquilo que no peito bate
e alguns ainda chamam de coração

Não sabia que isso
em que pensava
em todas as horas da noite
e também em todas as horas do dia
me levaria à inquisição
e que um juiz novinho
depois de me acusar
de perverter a juventude
me condenaria
a dez anos de zombaria
e mais cinco de execração
e que em ato público queimaria
meus livros de poesia
e com severidade me indicaria
como parte da reabilitação
um curso de putaria
e outro de musculação

Gentleman

Cantei todos os cantos
invoquei todos os santos
e mais outros tantos
e daí?

Minhas flores mais raras
minhas rosas mais caras
e minha alma num estojo
ofereci

Disseram-me ai que nojo
flores sem perfume
rosas cheirando a estrume
e que alma fedorenta
é essa aí

E todos os dias
e todas as noites
e de madrugada
a mais desgraçada
de todas as vidas
vivi

E quando não aguentava
(e quantas vezes
não aguentei)
as unhas no peito enterrei
e estrangulei o coração
e sucumbi

Assim
mil vezes
mil vezes mil
vezes
morri

Mas resta-me ainda
uma morte
que por teu mérito
e meu cavalheirismo
quando eu a morrer
quero morrê-la
integralmente por ti

Voz

Que a doença em mim se complique
E se transforme em atroz,
Mas, ah, que surdo eu não fique.
Minha vida é tua voz!

Lembrancinha

Te dei minha alma. Daria
Muito mais para agradar-te
Se soubesse que a alma dar-te
Tão pouco te agradaria.

Devoção

Ele não a colherá.
Mas, seja tórrido o dia
Ou seja a noite mais fria,
Está onde a rosa está.

Rio

É de madrugada
que o amor chora mais

Sozinho
em sua cama de pregos
ele recapitula
pela décima milésima vez
tudo que fez de errado
e o que poderia talvez
ter feito de acertado
e arranha o rosto
e quer arrancar os olhos
e apunhalaria a alma
a grande culpada
se nesta houvesse ainda
um lugar onde não tivesse
sido apunhalada

E gostaria de ser menino
para gritar mãe me ajude
e mesmo não sendo
acaba gritando
mãe me ajude mãe
me ajude mãe
e como Alice
dorme afinal
boiando no rio
de suas próprias lágrimas
no rio que toda madrugada
desditosamente
insiste em não o afogar