quinta-feira, 30 de junho de 2011

Enquanto

E contudo você ria
E uma canção entoava,
Enquanto a tarde murchava
E com ela murchava o dia.

E enquanto a noite se armava
Com sua melancolia
E o vento à chuva dizia
Por que ela não desabava,

Você, com sua canção,
Fazia a celebração
Da felicidade irreal

Que como uma flor ceifada
Seria logo arrastada
Com a vinda do vendaval.

Hospital

Um dia, faz muito tempo, pegou aqui neste balcão exames que o davam como quase morto. Cortado pelos médicos e obedecendo a algum desígnio superior a si mesmo e à morte, sobreviveu. Hoje acaba de receber da mesma atendente exames que confirmam sua surpreendente saúde e sabe que o desígnio ao qual sem querer se submeteu foi o de estar destinado a outro tipo de morte, mais lento e mais insidioso, que a tecnologia moderna ainda não detecta com suas máquinas e instrumentos: o amor.

Épocas

Nos dias de sol pleno, tinha olhos só para os frutos que se ofereciam no caminho. E enterrava neles seus dentes jovens. Mordia um, e o rejeitava, provava outro, e o desdenhava, e enchia a trilha de pedaços cuspidos que os passarinhos vinham comer. Num tempo em que o sol já não se mostrava tão soberano, ele deixou de olhar para os frutos e começou a sentir o hálito das flores. E colhia uma aqui, outra acolá, e as deixava atrás de si, como se fossem indignas de figurar entre as conquistas de um guerreiro. Hoje, sentado melancolicamente à frente de sua casa não visitada pelo sol, olha para as folhas secas que o vento lhe traz, mas não as apanha - não porque não queira, mas porque suas mãos frias já não conseguem.

Pena

Para ele, agora, acordar
É ter a angústia de ver
Que não adiantou rezar,
Que está fadado a viver.

Martírio

Amanhã será preciso talvez que procures no desenho das cicatrizes as tuas feridas de amor. Que, para assim não te decepcionares, elas doam hoje e, se doerem pouco, faz com que doam mais, muito, faz com que rasguem tua carne de tal forma que amanhã não haja um centímetro do teu corpo que não sangre como o de um mártir.

Pesadelo

Na madrugada em que acordou de um pesadelo a tempo de se livrar de uma velha horrenda como uma bruxa, que o perseguia com uma machadinha na mão, Dostoiévski convenceu-se de que tinham razão os que, em sua adolescência, haviam tentado persuadi-lo de que a literatura não era uma atividade recomendável.

Alô, Aline

Aline, tentei postar um comentário sobre o que você disse a propósito do blog e do prazer que você disse ter sentido com meu livro "Um inimigo em cada esquina". Estou cada dia mais inábil no uso desta engenhoca aqui e lhe peço desculpas por responder por aqui mesmo, não logo abaixo do seu texto. Eu lhe agradeço pela gentileza das palavras e pela gostosa sensação de saber que um livro publicado em 1994 permanece ainda de alguma forma na lembrança de alguns leitores. Bom dia

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Poste

Quando o dono da casa sai para o trabalho, de manhã, e a mulher abre e fecha o portão da garagem, o pequeno e jovem cão aproveita para ir farejar o poste. Os poetas que falam de fragrâncias, aromas e olores e os relacionam à mulher amada deveriam ver como ele empina o nariz e aspira o ar, extasiado, nesses três ou quatro minutos diários que tem para reverenciar a vida.

Pensar

Pensar que quase morreu por amor. Pensar que ainda respira, pensar que ainda precisa acompanhar diariamente a trajetória do sol para o crepúsculo. Pensar que desgraçadamente não morreu.

Hábito

Debaixo da mesma árvore, como todas as tardes, tentas transpor para o bloquinho as tuas queixas de amor. E perguntas, em teus versos, se há por acaso algum homem que tenha sofrido tanto. Se a árvore falasse, poderia dizer-te quantos já se lastimaram ali, no mesmo banco, quantos deles já morreram, mais de velhice que de tristeza amorosa, quantos suplicaram por Eva e hoje suplicam por Evelise e quantos, de tanto suspirar por tantas, já nem sabem por quem suspiram, mas suspiram ainda, como se o amor fosse um hábito enfadonho porém vital como o de respirar.

Sabor

Pensa no que daria qualquer pintor para retratá-la assim como ela está agora, tirando lentamente a balinha da embalagem e antegozando o sabor de morango com os lábios já úmidos. E abre a própria boca, como se a ele fossem destinadas a pastilha cor-de-rosa e a umidade dos lábios.

Escolha

Sempre que ela alisa os cabelos com aquela descuidada ternura, ele não sabe se preferiria ser as mãos ou os cabelos.

Só isso

Quando ela sorri, ele se espanta porque, além do tumulto que lhe invade o peito, e da vontade de cantar e dançar, não consegue ver nada além disso: que ela sorri.

Parque

Para ele não há verão.
Caminha sempre sozinho
E os beijos que não dá vão
Murchando pelo caminho.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Soneto do adeus

Difícil é dizer adeus se o dia
Banhado em pleno azul de primavera
Relembra o amor como ele outrora era
E a alegre tarde música anuncia.

Difícil crer que a amada poderia
Dizer que as dores e que a longa espera
Foram todas em vão, só uma quimera,
Um erro bobo que se esqueceria.

Difícil, impossível se pensar
Que aquela que juramos sempre amar
E o nosso juramento retribuiu

Possa num dia assim, de um sol tão pleno,
Dizer que o mel antigo foi veneno
E que a chama do amor se consumiu.

Vergonha

Sente vergonha sempre que se deixa levar pelos seus passos para certas esquinas que frequentou em tempos adolescentes. Deveria estar, se não em uma igreja, em casa, entretido em pensamentos e em filosofias, e não, como agora, recebendo e retribuindo olhares equívocos e inequívocos de mulheres de saia curta e lábios borrados de batom.

Rota

Fazer-se ao mar, navegar todas as ondas. E, mesmo conhecendo muito bem o caminho, perguntar sempre às gaivotas se é por ali que se vai ao encontro do amor, só para ouvi-las tagarelar que, apesar de tudo, ainda insistimos.

Enjeitados

De todos os amores, o mais triste é o que morre lentamente e, rancoroso, tem tempo de matar todas as boas lembranças e sepultá-las como se fossem filhos enjeitados, abortados, à meia-noite, nas covas mais distantes, rasas e inconfessadas do cemitério, aquelas que os urubus visitam logo na primeira hora da manhã.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Jalne

Bem vi que o sol te acariciou os dedos antes de subir para o teu rosto. Não sei o que ele te cochichou, mas pressinto um amarelo mais vivo explodindo em tuas próximas telas.

O cheiro

Sente-se como um cachorro velho. A brisa noturna insiste em atraí-lo, com um cheiro pungente, pleno de mornidão, e levá-lo a esquinas onde só encontra sacos já esvaziados pelos dentes de machos jovens que por ali passaram horas antes e agora, com renovada energia, seguindo a brisa certa, se aproximam do portão da casa por onde, instigada pelo primeiro cio, acaba de escapar uma cachorrinha branca e perfumada.

Tão... tão

Para tão grandes tormentos,
Desgraças tantas, e dor,
Eu tão escassos momentos
Vivi, tão curtos, de amor.

Poesia

Feliz o tempo em que num par de olhos encontrava a poesia. Hoje, sempre só em casa, os únicos olhos que vê são os próprios, quando tem coragem de se confrontar com eles no espelho, e neles encontra apenas sugestões de uma prosa áspera como a terra que o cobrirá. E onde ouvia risos adolescentes ouve apenas, como se tivesse já chegado o dia, o som rascante das pás.

Aquela fruta

O pai apontou a árvore carregada de frutas e perguntou ao filho de quatro anos qual delas ele queria. O menino ficou mostrando "aquela, aquela", sem que o pai distinguisse a fruta, até que um pássaro se soltou de um galho e o menino completou: "Aquela ali, que canta."

A hora

Nada mais quero, nem peço.
Já tantas vidas morri,
Já tantas mortes vivi,
Que tarde, já, me despeço.

domingo, 26 de junho de 2011

Esquina

Um sinal, alguns passos, duas palavras, e poderia subir com qualquer uma delas para o quarto - com as três até, se quisesse. Mas não quer. Olha para elas, só, e se consome adivinhando todos os gozos e os aniquilamentos que poderia ter, se não houvesse optado por um amor impossível e por um estúpido sofrimento.

Lugares

Quando falam de amor, algo na memória dele responde vagamente, assim como se lembra ainda daqueles nomes exóticos ouvidos décadas antes nas aulas de geografia - Normandia, Ceilão, Madagáscar -, que excitaram sua imaginação e aos quais jamais foi senão com o dedo incerto sobre o mapa.

Se

Se o amor que te declarei
E que tu me declaraste
Mudou, fui eu que o mudei
Ou foste tu que o mudaste?

Em vão

Escrevo por escrever.
Do amor que inspira o que escrevo
Não posso nada querer,
E a nada aspirar eu devo.

Ser ou não

Ser amado me conforta,
Porém não ser não me afasta,
Se me amas já não me importa,
Amar-te, só, já me basta.

Proverbiozinho

Mais fácil a água acabar
Furando a pedra mais dura
Que eu te sensibilizar
Com a minha inábil ternura.

A bicicleta

Ela desperta o que ele tem de mais puro. Hoje, pensando no melhor presente que poderia dar a ela, ele se lembrou da bicicleta que ganhou aos treze anos. Ao vê-la à meia-noite, ao lado da árvore de Natal, disse ao pai e à mãe que nunca a trocaria nem pelo mais valioso de todos os tesouros. Se ele tivesse a bicicleta ainda, agora, precisaria voltar a ter treze anos, também, para manter a opinião - e mesmo assim hesitaria.

O pior tolo

O pior tolo não é aquele que morreu de amor. É aquele que, não se deixando matar pelo amor, sobreviveu para exibir esse rosto rosado, esse sorriso presunçoso, esse ar de quem conhece tudo da vida. Olhem para o idiota, olhem. Que asno! Que asco!

sábado, 25 de junho de 2011

Sonetinho desenxabido

Nas horas claras do dia,
Da noite nas horas mortas,
Desfaço-me em agonia,
Mas tu sabes? Tu te importas?

Os meus lamentos tu cortas
Com tua cruel zombaria
E minhas decisões tortas
Recebes com ironia.

O teu chicote me lanha,
Porém se reclamo e choro
Comentas que é tudo manha,

E se eu, em meu desatino,
Pelo teu amor imploro,
Dizes o quê? "Sai, menino!"

Soneto da almejada arte

Que eu tenha em mim alguma arte
Com a qual, ou grande ou pequena,
Ou desvairada ou amena,
Eu possa sempre louvar-te.

E que eu consiga explicar-te
Que, sendo ventura ou pena,
Procela ou tarde serena,
És de mim a melhor parte.

E que eu possa noite e dia
Cantar a dor e a alegria
Que encontro apenas em ti.

E que, quando eu me calar,
Não precises perguntar
Pelo amor de quem morri.

Fragmentos

É um homem estilhaçado.
Suas partes deu, uma a uma,
E não há parte nenhuma
Que ao amor não tenha dado.

Cansaço

Cantei o amor, me cansei.
Murchou-me a voz na garganta
E agora nunca mais canta,
Morreu o amor que cantei.

Ingratidão

Um dia caminhará
Por esta mesma avenida
Numa manhã mais florida
E desta se esquecerá.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Voz

Ouvindo o som de uma voz
Que a tua voz parecia,
Segui-a na treva atroz,
Varei a noite sombria.

Busquei-te, e todos os passos,
Chamei-te, e todos os gritos
Levaram-me só a fracassos
E a sentimentos aflitos.

Perdido na noite escura,
Chorei a minha amargura
E a Deus piedade pedi.

Fiquei assim, implorando,
Por tua voz esperando,
Porém nunca mais a ouvi.

Artista

Um pássaro traça
Um risco, um som, um rabisco,
E enfada-se, e passa.

Despertador

A mulher amada o enfeitiçou de tal forma que, quando ele vai dormir, prepara o despertador para que soe de duas em duas horas, para acordar pensando nela e reverenciá-la. É um homem feliz. Às vezes, entre um soar e outro, tem a ventura de sonhar com ela.

Tédio

Estás enfadada, eu sei.
Desculpa-me, por favor.
Só trago e sempre trarei
O mesmo afeto e fervor
E aos teus ouvidos direi
Só a mesma palavra: amor.

Imaginação

Pensava nela e sentia
Uma aflição, um torpor,
Uma fraqueza, um calor,
Enquanto a seiva fluía.

Resíduos

O amor morreu. Não perdura
Nem mais a antiga esperança,
Mas vivem ainda a ternura
E a imperecível lembrança.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Conclusão

Olha, pelo que entendi,
Presumo que seja assim:
Não posso viver sem ti,
Mas podes viver sem mim.

Ou ou?

Viver a vida ou amar-te,
Que diferença faz isso?
És o meu sol, o meu viço,
Não vivo sem respirar-te.

Reforma

Aqui se amavam. Havia
Neste terraço uma cama
Que suavemente rangia.
Agora, aqui ninguém se ama.

Agora

De tudo que houve, só sei,
Agora que o verão terno
Se foi e chegou o inverno,
Que tu me amaste e eu te amei.

De seda

Por muitos dias ainda, depois de passarem pelo corpo dela, as mãos dele conservaram um toque de seda que as roupas, os talheres e o teclado do computador, surpresos, agradeceram.

Expressão

É apaixonado pelas palavras e as julga superiores a tudo que designam. Por exemplo, acha a expressão lamber a orelha muito mais excitante que o ato em si.

Fescenino

Cantar teus olhos, sim, e também tua boca, como convém à norma romântica. Mas deverei esperar por um poeta com a face encovada pela luxúria para exaltar os teus seios e as tuas nádegas?

Fonte

Ainda o perturba e encanta a tarde em que, desistindo de se abrigar do temporal, os dois deixaram a chuva escorrer pelo rosto e se empoçar nos lábios, e suas bocas se beberam como se fossem dois peregrinos encontrando uma miraculosa fonte no deserto.

Fios

Sonha com tépidas incursões embaixo de camisolas afáveis e calcinhas amistosas, das quais seus dedos emergem cheios de fios dourados como mel e de uma perturbadora fragrância salina.

As três

Sabe que elas escarnecem dele, as três. O dia inteiro, no supermercado, cochicham sobre sua feiura e sua falta de jeito. Ele não retruca. Mas à noite, embaixo do chuveiro, possui as três com a mão que, como tudo dele, elas acham feia e inábil e, quando chega o momento do espasmo, exige que digam Abel, Abel, Abel.

Sombras

Ele corre, corre. Tem medo de olhar para trás e tropeçar. Sente a mão da vida quase em sua nuca, mas não desistirá, agora que o caminho, tomado pelas sombras, lhe indica que está tão perto.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O semeador

Percorre as ruas do bairro e, onde acha alguma construção ou reforma, pede licença para pegar algumas pedrinhas. Em casa, ele as semeia cuidadosamente em todas as partes do jardim, menos em volta das duas mirradas margaridas que ainda tem e das quais há muito tempo não cuida, esperando que morram. Fala com as pedras e dá-lhes lustro sempre. Pode confiar nelas, sabe que jamais o deixarão, como aquelas tantas margaridas que tratou com tanto afeto e que, depois de lhe beberem a água e lhe prometerem viço eterno, murcharam como se as mãos dele fossem as de um assassino.

Oqueéoqueé

O amor pode ser muitas coisas
O amor pode ser tudo
Uma tarde num barco
Uma calmaria uma paz uma alegria
Um furor repentino um desatino uma ventania
Uma tempestade um tufão raios trovões
Um crack um baque um ataque de tubarões

Gratidão

Quando pensa nela, sente-se covarde por não sair de casa para ir gritar sua felicidade na Sé, na São João, no viaduto do Chá.

Miopia

Imaginou-a despida e agora, sempre que a vê, lhe custa conter o impulso de perguntar se é uma pinta que ela tem um pouco acima do umbigo ou se, por estar sem óculos quando a imaginou, seus olhos o enganaram.

Solitário

Onde há alguns minutos havia mulheres nuas dançando de salto alto no convés de um transatlântico numa noite estrelada de verão, ele olha e vê apenas, entre satisfeito e decepcionado, sua mão, agora quieta.

Até aprender

Farei isso então
Pegarei o amor como se fosse um gatinho
E esfregarei seu focinho no chão
Para ver se desta vez ele aprende
A não fazer mais o que fez
A ser obediente e principalmente
Que quando dizes não
É não mesmo que tu queres dizer

Trovinha do vice-versa

Que o sonho meu seja o teu
E sempre estejas comigo
Ou, se preferires, que eu
Esteja sempre contigo.

Tortura

Zombaram de sua voz
E até quiseram calá-la,
Ataram-na com mil nós,
Porém o amor não se cala.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Carona

Ela se apaixonou à toa, à toa. Estava lutando esbaforidamente com um pacote, para enfiá-lo no carro, quando o rapaz chegou: "Você é valente, hem, baixinha?" Espera, que eu te ajudo." Ele acomodou o pacote no porta-malas e ela, esforçando-se para achar que o caminho dele era compatível com o dela, lhe deu carona. O rapaz tinha vinte e dois anos, ela vinte e oito. Gostava do marido, sem fanatismo. Há três anos não sabe mais dele. Um mês depois da carona, foi morar com o rapaz.

Um brilho

Talvez um dia, numa dessas tantas ruas da cidade pela qual eu esteja dando meus passos cada vez mais incertos, tu me vejas e te perguntes: será ele? Eu olharei para ti, mas não te reconhecerão meus olhos cansados. Tu também ficarás em dúvida, até que a lembrança de um brilho no meu rosto te levará de volta a uma manhã antiga, em que sorriste para um homem que, talvez por tua presença, teve a pretensão de se julgar vivo.

Deixe estar

Jamais fique amargurado
Se um sonho não se consuma.
O sonho, se consumado,
Nem sonho é nem coisa alguma.

Guia de SP

À tarde eu fico sentado neste sofá
Lendo sem nenhuma vontade
Escrevendo sem vontade nenhuma
Enquanto a Morte com exação
Registra cada batida do meu coração
E apalpa sua foice
Menos uma menos uma menos uma

Entre os dedos me escapam
Emily Walt Sylvia Kaváfis
E Borges não me diz nada
Benedetti também não
E o que no bloquinho rabisco
São batatinhas que quando nascem
Se esparramam pelo chão

Atiro então toda a poesia para o canto
Pego o guia de São Paulo
E percorrendo com o dedo todos os mapas
Imagino se estás aqui
Se lá ou se ali e meu coração
Morre em todas as alamedas
Em todas as avenidas
Em todas as paulistas e condes de sarzedas
Em todas as vilas esquecidas
No centro na casa verde no limão

segunda-feira, 20 de junho de 2011

De risos e de lágrimas

Sem ti eu sou só fração,
Contigo eu sou todo, inteiro,
És o meu sal, o meu pão,
És norte, fim, paradeiro.

Em ti me firo e deleito,
És meu furor, minha calma,
E preenches todo o meu peito
E ocupas toda a minha alma.

Estás em mim quando rio,
Em mim estás quando choro,
E se não estás deploro

Pois se a alegria não trazes
E se chorar não me fazes,
Só resta o imenso vazio.

Jamais

Dia talvez haverá
Em que se canse a esperança.
Mas meu amor não se cansa
E jamais se cansará.

Etc.

Fala do amor em seus poemas. Às vezes, também trata daquilo que chama de outras coisinhas - entre elas, a vida.

Idade

Não te enganaram os meus passos cansados
Nem os meus olhos querendo passar por sábios
Nem as palavras pernósticas que esparramei diante de ti

Não te iludiram minhas citações dos clássicos
Nem os sócrates de minha mal aprendida filosofia
Nem meu pigarro metido a intelectual
Nem meu "r" pretensamente gutural
Nem minhas digressões sobre a excelência da poesia

Nada nos enganou no dia em que te conheci
Olhaste para mim
Olhei para ti
E ao nos olharmos sentimos ambos
Que eu tinha de novo dezoito anos.

Perto, muito perto

A mão direita dele e a esquerda estão num momento de tensão máxima. Parece que enfim, depois de uma hora, o instante chegou. A qual delas caberão a ventura e a glória, ainda nenhuma sabe. Pensar que podem caber às duas é uma presunção a que não se atrevem. Seria possível haver tanta felicidade? Continuam preparadas. Se respirassem, prenderiam a respiração agora, porque as mãos dela estão mais próximas do que nunca, e jamais pareceu tão lógico acreditar no destino.

Covardes

Ele a seguiu ainda com os olhos até ela dobrar a esquina e desaparecer. Nunca mais a viu, e hoje, quando olha para os pés, é com desdém, quase repulsa. Por que ficaram parados, por que se submeteram à tirania do cérebro e não ao aflito apelo do coração?

Algo nos olhos

Nos olhos de quem ama existe algo que nenhuma palavra ainda definiu - certa mornidão, certo mormaço, certa languidez, certo segredo ansioso por se mostrar, certo... certa...

domingo, 19 de junho de 2011

Intuição

Ele esperou por ela a tarde inteira, no topo da escadaria do metrô. Toda vez que começava a subir nova leva de passageiros deixados na estação, sua esperança se alvoroçava no peito, como um peixe fisgado. Da uma até as seis, ele confiou na sua intuição. Antes de desistir e se afastar tristemente, caminhando já dentro da noite, ele, para amenizar o sofrimento, pensou que, se ela soubesse - ou ao menos imaginasse - que ele estaria esperando por ela, teria certamente ido encontrá-lo.

Quantas pétalas

Um dia, ocorreu-lhe um pensamento extravagante e, estimulado por ele e por sua ineficiente matemática, começou a calcular quantas pétalas de rosa seriam necessárias para cobrir do teto ao piso todos os cômodos de sua casa. Chegou a um número que parecia uma locomotiva seguida por centenas de vagões e concluiu que conseguiria cobrir todos os aposentos se cada vez que tivesse pensado na amada ela lhe houvesse dado uma pétala. Feliz, mas precavido e com os olhos no futuro, largou a caneta e os cálculos e pôs-se novamente a pensar nela.

Canção

Gostaria de ter no peito um violino e um pássaro canoro. Fingiria não tê-los, até o dia em que a mulher predestinada, aquela que só ele reconheceria, o olhasse num entardecer de primavera e ele pudesse, antes mesmo de dizer a ela seu nome, fazer soar juntos o pássaro e o violino, nas mais agudas notas que o amor pudesse produzir.

Como o sol, por exemplo

Escrevo para ti - e, para retratar-te com fidelidade, não me envergonho de recorrer a imagens que tantos já usaram nem a comparar-te com tudo que me faça lembrar-me de ti. Como o sol, por exemplo. Ele é um antigo conhecido dos poetas e dos enamorados, eu sei, mas quem há de negar-lhe a beleza que há séculos lhe atribuem?

Metamorfose

Ele ficou esperando que algo extraordinário ocorresse na cafeteria - um grito de socorro, de fogo ou de revolução - ou algo prosaico, quem sabe um garçom estatelando-se com a bandeja e fazendo meia dúzia de pãezinhos de queijo voar como garças assustadas - para que ela desviasse por um instante os olhos dos olhos dele. Porque nada aconteceu, ele se deixou transformar em uma estátua. E quem o viu assim metamorfoseado disse que ele estava muito bem: seus olhos brilhavam agora mais e o sorriso agradecido nem parecia mais o dele.

sábado, 18 de junho de 2011

Magda

Os últimos ecos do baile se esgarçaram na morna madrugada de verão, os últimos carros levando embora os últimos convidados se foram e as últimas luzes da grande casa se apagaram. Só o rapaz de olhos tristes ficou na esquina, tentando distinguir, no meio da espessa treva, o salão onde por alguns minutos dançara com a garota ruiva que - ele já sabia - até os seus últimos dias não conseguiria esquecer. Ela lhe dissera chamar-se Magda e com um aceno de cabeça dera a entender, respondendo à pergunta dele, que morava em São Paulo mesmo, por onde ele a buscaria durante quarenta anos, bairro por bairro, sem saber que ela se chamava Louise e morava na França, para onde embarcou no dia seguinte, sem jamais voltar a São Paulo, de onde, nos seus últimos dias, guardava apenas a lembrança esmaecida de três dias passados com os tios, de uma avenida bonita e imensa, de um parque com nome estranho, de um baile a que tinha ido com as duas primas, das músicas alegres e de uma porção de rapazes bobocas aos quais, para não ficar explicando todo o tempo que era francesa, não tinha dito senão o nome - nunca o verdadeiro, sempre um inventado na hora.

Descanso

Tuas mãos, que cortam e recortam o mundo para refazê-lo e recriá-lo, que são íntimas das cores, dos volumes e das proporções, que em segundos são capazes de pôr ou tirar o mar ou o céu de uma tela, poderiam talvez, um dia, alhear-se ao menos por um momento das fainas e fadigas da criação e descansar nas minhas.

Primeiro encontro

Fixei-me em teu queixo. Ele me foi amável e ali deixei os olhos. Não ousava baixá-los para o teu colo, porque poderia parecer atrevimento, nem levantá-los, ainda que só um pouco, porque receava encontrar algum sarcasmo em teus lábios. Teus olhos eu nem pensei em fitar. Eles me davam a impressão de ser inatingíveis, feitos para a contemplação de alguém muito melhor que eu. Era como se fossem duas estrelas que, em sua primeira noite na cidade, um camponês sabe, sem olhar para elas, que não conhece e as evita porque talvez lhe sejam hostis e façam reparos à sua roupa ou aos seus gestos. Fixei-me então, cada vez mais, em teu queixo, e aos poucos em tua voz, que ora me parecia confiável, e me afagava com sedas e veludos, ora me levava por perturbadores caminhos que desembocavam no mar, entre colossais ondas, e me incitava a atirar-me aos rochedos, para ouvi-la melhor, ou a amarrar-me tão fortemente ao mastro que não pudesse livrar-me sem destroçar a nau inteira.

Compostura

Nunca me importei muito com o sol, mas de algum tempo para cá abro correndo a janela, todas as manhãs, e, se o vejo brilhando de má vontade, digo-lhe que por mim está perdoado, mas que não ouse aparecer assim diante de ti. Entendo um pouco de sol, desde que te conheci.

O sobradinho amarelo

Toda manhã, conforme a receita, o sol esparrama uma pitada de ouro nas árvores e nas flores do parque, remarca a pista de cooper e amorna a torneira na qual dali a pouco irão beber os meninos e as meninas a caminho do colégio. Aquece também os ninhos dos pássaros e os bancos onde irão se sentar os namorados. Depois de cumprir o que tem a fazer no parque, ele começa a percorrer as casas da rua. Só em uma, um sobradinho amarelo, ele não entra. Respeita a dor de uma mulher que, por amar demais sem ser amada, há três meses vive com todas as janelas fechadas, lendo e relendo uma carta de vinte palavras, tentando a cada vez não acreditar no que elas, no entanto, em toda nova leitura continuam a lhe dizer.

Sempre

Os dias passam, eu não.
Travei os passos da história
E em mim, em minha memória,
É sempre aquele verão.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Fácil

Lembrando de vez em quando,
Num dia não, no outro sim,
De ti me foste apagando
E te esqueceste de mim.

Louco

Foi louco, sonhou demais,
E vendo o sonho frustrado
Chorou por não ter ousado
Ser mais louco e sonhar mais.

Rosas

Também eu andei procurando nos livros o segredo, a alquimia, e os grandes poetas me mostraram suas flores, perfeitas todas, tão magníficas que a mais bela das rosas do mais multicolorido jardim se envergonharia diante de qualquer uma delas. Encantaram-me, fascinaram-me todas, mas posso colocá-las no vaso, no meio da sala, posso aspirar seu perfume, vê-las completar seu ciclo e, como tudo na terra, morrer honestamente com o último suspiro da tarde? Olho para esta que me deram há dois dias e sua mortalidade me comove mais que a de todas as outras, aquelas eternas, protegidas entre as folhas dos livros, tão soberbas e indiferentes que nada lhes importa se o sol vem ou não visitá-las e se o vento lhes sussurra canções ou chega só para semear pó nas estantes.

Ars amatoria

Ovídio quis celebrar
O amor não de flor, de fruta,
Aquele que se desfruta,
Em sua Arte de Amar.

Fora de estação

Talvez te lembres um dia
Daquele tolo que eu era
Buscando achar primavera
Onde só inverno existia.

Amor

Amor gorado, querido,
Amor em versos cantado,
Amor em versos chorado,
Imenso amor, desmedido.

Amor no afeto gerado,
Amor no amor concebido,
Amor sem rédea, incontido,
Insano amor, desvairado.

Amor meu, idolatrado,
Amor mártir, tão sofrido,
Sagrado amor, venerado,

Que triste eu ter te ferido,
Que triste eu ter te matado,
Que triste haveres morrido.

Bom dia

Mirrado sol da manhã,
Vieste ver-me e agradeço,
Pois nem a ti eu mereço.
Te canto hoje pois não sei
Se outra vez eu te verei,
Se me verás amanhã.

Bênçãos

Hoje sei que fui poupado da Morte para, ainda que tardiamente, ler Walt Whitman, e para dizer, com o que me resta de voz, que te amo, e para descobrir que até no seu último e sombrio trecho a Vida pode nos proporcionar ainda a surpresa de alguns raios de sol.

Mais Walt Whitman

Mais duas folhas de relva, exemplos da embriagadora beleza dos versos de Walt Whitman e das reflexões que provocam. O primeiro trecho parece dirigido a quem vê a vida como mera matéria-prima das artes:

"Pensou que a paisagem ganhou substância e forma só pra poder ser pintada num quadro?
Ou que homens e mulheres existem só pra que se escreva sobre eles, pra virar canções?
Ou que a atração da gravidade e as grandes leis e combinações harmoniosas e os fluidos aéreos existem só pra sábios terem assunto?
Ou que a terra seja marrom e o mar azul pra caberem em mapas e cartas?
Ou que as estrelas se configurem em constelações só pra receberem nomes esquisitos?"

A segunda folha fala de como podemos nos enganar sobre os verdadeiros valores da vida:

"Quando uma universidade for mais convincente que o cochilo de uma mulher ou uma criança,
Quando o ouro na caixa-forte sorrir como a filha do guarda-noturno,
Quando títulos de garantia folgarem na cadeira oposta e forem meus adoráveis companheiros,
Vou querer pegá-los com minha mão e fazer deles o que faço com homens e mulheres."

(Folhas de Relva, tradução de Rodrigo Garcia Lopes, editora Iluminuras.)

O único

Ingênuo, de peito aberto,
Defende como verdade
Do amor a imortalidade,
Porém clama no deserto.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Um homem

Eu queria te dar tantas coisas, tudo, e me lancei a alturas para as quais não fui feito. E invoquei o mar, e os peixes riram de mim, e o céu, e as estrelas me escarneceram. Devia ter oferecido um soriso, só, honesto, e te dito que sou apenas um homem que te ama.

Tesouro

Fonte de minha ternura,
Minha riqueza, meu ouro,
Te guardo em mim com usura,
Júbilo meu, meu tesouro.

Característica

Os gênios costumam se julgar incompreendidos. Essa é também uma característica daqueles que, não sendo gênios, assim se consideram.

Vela

Há um ano e meio tudo que escreve é para cantar um amor morto. São elegias, ele explica compenetrado, ou epicédios, e ai de quem lhe disser que não deveria gastar tanta vela com tal defunto.

Os quatro

Houve tempo em que se lamentava por não ter sido Tchekhov, Fitzgerald, Dostoiévski ou Nabokov. Pensava na glória literária de cada um deles e suspirava, contrafeito. Hoje ainda se lamenta por não ter sido nenhum dos quatro - não por fama ou glória, mas porque todos eles estão mortos e não padecem mais as calamidades do amor.

As mãos

Ela o levou ao jardim, deixou-o contemplar as flores, observar os frutos lambidos pela chuva da manhã e secados pelo sol do meio-dia. Quando ele lhe pediu um deles, ainda que fosse o mais descolorido e mirrado, e ela se recusou a dá-lo, ele desejou nessa tarde que as mãos, se para isso não lhe serviam, jamais lhe servissem para mais nada.

Reflexão

Pensa que, se não a tivesse conhecido, decerto os infortúnios do amor não o incitariam, como agora, a morrer para esquecê-los. Mas pode dizer que tinha vida antes de conhecê-la?

Pedrinhas

Ainda converso com o sol, a lua, as estrelas. Evoco o mar, ainda, e seus azuis esverdeados. Talvez um dia voltes, e a poesia então será tão necessária quanto as pedrinhas que semeei no caminho até a minha porta, para me avisarem quando você chegar.

Julianne

Cismou com Julianne Moore. Viu-a num filme, na tevê, e apaixonou-se. Aonde vai, fala dela e tapa os ouvidos se alguém quer lhe passar informações sobre ela. Não quer saber onde ela nasceu, em que filmes atuou, não quer ver fotos dela, nem mais filme nenhum, nem mesmo aquele que lhe acendeu a paixão. Desde que a viu nele, tem trabalhado na prazerosa mas difícil tarefa não de lhe melhorar o rosto, perfeito, mas de guardá-lo como tesouro dele, dele só, algo a que ninguém possa ter acesso movendo um mouse, abrindo uma revista ou indo a um cinema.

Enredo

Sua vida repentinamente estagnou, como se fosse uma peça de teatro à qual o autor, por ter adoecido ou por haver se encantado com outro tema, não dá sequência. Os dias passam, os meses, e, aflito, ele - já temendo que o destino, esperando que ele morra de velhice, jamais faça a trama avançar - todas as manhãs acorda tentando crer que aquele será o dia no qual o autor, finalmente recuperado, retomará a peça e o fará dar um passo, um que seja, para ele sentir se suas pernas ainda sabem o que é andar.

A sentença

Ela vai lhe dizer adeus, ele pressente, ele sabe. Toda manhã, ao abrir a janela, ele olha tristemente para o sol e se pergunta: será hoje? Durante o dia, cada vez que surge uma mensagem no computador ou o celular toca, receia: será agora? À noite, custa a dormir, dorme mal e acorda várias vezes de madrugada, julgando ter ouvido o telefone: será quê? Quando se levanta e vai fazer a barba, o que vê no espelho é um sofrido rosto de sobrevivente. E, ao abrir a janela para o sol, para mais um dia, tenta não pensar, mas pensa, agoniado: será hoje, meu Deus? E respira fundo, fundo, porque é hora de ligar o micro e o celular. Este é, de todos os momentos, o que mais teme, talvez por ter lido tantos livros em que os sentenciados à morte eram executados ao amanhecer.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O fruto

Talvez possamos ainda
Tirar-lhe a casca olorosa,
Provar-lhe a polpa carnosa,
Enquanto a tarde não finda.

Gnomo

Para em mim enaltecer-te
Te fiz tão deusa, tão fada,
Que, quando quis merecer-te,
Me vi tão gnomo, tão nada...

O chamado

Sua voz enfraquece dia a dia. Não se importa muito, porque não pensa em chamar o amor nunca mais. Mas, e se o amor o chamar, conseguirá responder?

Teu nome

Dei ao amor o teu nome,
E à vida, e ao sol que me aquenta,
E a tudo que me sustenta
E me acalma a sede e a fome.

Folhas de Relva, de Walt Whitman

Depois que Walt Whitman publicou Folhas de Relva, em 1855, quem se atreveu a escrever uma estrofe, um verso que fosse, sobre a América, se obrigou, sabendo ou não, a lhe render tributo. A América - a passada, a presente e a futura - está inteira no livro. Chamá-lo de poema é pouco, defini-lo como ode também, assim como seria irrisório denominá-lo bíblia da alegria de viver. Nele está a vida humana, com tudo que lhe dá valor e sentido, com tudo que a glorifica. Dores, perdas e infortúnios existem nele como contraponto e alimento para a alegria que há no simples fato de estar vivo. Para Whitman, insetos, homens, pedras e estrelas têm igual magnitude. Nada há de ser indiferente ao ser humano, tudo lhe diz respeito. No trecho abaixo, um exemplo. É Whitman falando dos animais:

"Creio que poderia voltar e viver entre os animais... eles são tão plácidos e contidos,
Às vezes paro e os encaro boa parte do dia.
Eles não sofrem nem lamentam sua condição,
Não ficam acordados no escuro chorando seus pecados,
Não me causam asco discutindo seus deveres com Deus,
Nenhum está insatisfeito... nenhum sofre da mania de possuir coisas,
Não se ajoelham diante de outro de sua espécie, nem de seus ancestrais que viveram há milênios."

Mas o que estou eu fazendo aqui, falando de Walt Whitman? Melhor, muito melhor dar a palavra a Jorge Luis Borges:

"Whitman, que numa redação do Brooklyn,
Entre o cheiro de tinta e cigarro,
Toma e não diz a ninguém a infinita
Decisão de ser todos os homens
E de escrever um livro que seja todos."

(O trecho de Whitman e a citação de Borges foram extraídos de Folhas de Relva, tradução de Rodrigo Garcia Lopes, publicado em 2005 pela Editora Iluminuras.)

Do amor

Agora navega em um lago cujas águas o vento não toca e ondas não agitam. Mas tem saudade do mar proceloso, do azul repentinamente irado, das chibatadas do tufão no casco e dos brados coléricos dos marinheiros. Tem saudade de gritar pela amada no convés devastado e de, absurdamente salvo, acordar numa praia desconhecida e atribuir o milagre não à invocação de Deus, mas do nome dela no meio da borrasca.

Varanda

A idade atenuou as mágoas,
As aflições, os rancores.
São todos passadas águas,
Ai, assim como os amores.

terça-feira, 14 de junho de 2011

A tempo

Um dia talvez te ocorra
Lembrar-te de mim um pouco.
Que lembres antes que eu morra
Ou antes que fique louco.

Brincos

Fisgados, presos, pendentes, poderiam comparar-se a peixes se, por se terem afeiçoado às orelhas, não lhes desgostasse, mais do que todas, a hora em que, livres dos anzóis, vão repousar na caixinha.

Ouvidos

Aos seus ouvidos, que já receberam declarações do mar, suspiros do vento e palavras amenas, que posso eu dizer que não os fira nem lhes desagrade?

Ali

Ali, onde o sulco suave divide ao meio as duas carnudas saliências, há uma região cálida, propícia à imaginação e aos devaneios.

Aspiração

Tocar-te a mão, aquela em que guardas os pássaros, a noite, o sol, as sombras e as cores que colocas nas telas.

Disfarce

Tentas ocultar a menina que tens em ti. Algumas vezes consegues - poucas, felizmente.

Os lábios

Seria possível resistir a eles, talvez fosse, se simplesmente sorrissem, se não houvesse neles - ou na inquieta imaginação de quem os vê - uma promessa de palavras mornas e molhadas, sussurradas entre beijos.

Os olhos

Os olhos dela, dois meninos travessos, brincam de fazer imitações. E ora são esmeraldas de vivíssimo verde, ora assumem um azul claro e perguntam: adivinhe, adivinhe o que somos agora - lago, céu ou mar?

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Identidade

Te conheci hoje. Quem
Te magoou e aborreceu
Não sei quem foi, foi alguém,
Ninguém, sei lá. Não fui eu.

Incorrigíveis

Machucado por eles, o garoto amarrou juntos os dois pés do tênis e atirou-os para cima. Enforcados no fio, eles porém ainda atiram injúrias a quem passa e retribuem com pontapés as chicotadas do vento que os castiga.

Talvez ainda

Talvez possamos fruir
De novo os frutos dourados
E ver o sol reluzir
Em nossos olhos gelados.

Talvez em nós, outra vez,
O amor se torne presente,
E ainda mais forte, talvez,
Do que foi antigamente.

Ah, por que isso tudo tarda,
Por que tamanha agonia?
Que venha logo essa tarde,

E o sol que há muito não arde
Venha com ela e de novo arda
Como ardeu naquele dia.

Grumete

Como um órfão, como um enjeitado pela sorte, quis embarcar no Amor. Exigiram-lhe, porém, muitas coisas, e ele, que tinha só seus sonhos, certa doçura e uma pungente ingenuidade, ficou na areia, vendo o Amor desaparecer banhado pelo último espasmo do crepúsculo.

Compromisso

Se uma mulher olha para ele e lhe sorri, ele fecha os próprios olhos e a boca. Está compromissado com um olhar e um sorriso que há muito não vê, mas acredita neles e por eles espera ainda, obstinado, como as plantas esperam o sol de cada dia.

Tão rico

Como se fosses um fruto,
Provar-te para saber
Que nunca mais irei ter
Tão doce e rico usufruto.

Faíscas

Lembra que nela, nos seus cabelos, palpitava em certas manhãs uma ansiedade de pepita, uma crepitação de ouro.

Aqui, ali, pelos cantos

Como um velho sovina escondendo pela casa comida e moedas para os seus últimos dias, ele vai ocultando, onde pode, lembranças, fotos, bilhetes, para que, quando lhe fraquejar a memória, os olhos possam ajudá-la a lembrar que houve em sua vida, sim, um grande amor e que sua boca amarga e franzida conheceu a inquietante doçura dos frutos aquecidos por um sol que desgraçadamente se pôs.

Sexo e amor

Ocorreu-lhe que, se tivesse se entregado um pouco menos ao amor e um pouco mais ao sexo, talvez não fosse tão infeliz. Pensar isso o entristeceu, não porque a luxúria, espicaçando-o, lhe cobrasse tantas noites perdidas, mas porque o simples pensamento lhe pareceu uma abominável traição ao amor, ao qual, incorrigível, continua afeiçoado.

domingo, 12 de junho de 2011

Sei hoje

Sei hoje que te enganaste,
Sei hoje que me enganei,
Sei que jamais tu me amaste,
Ah, jamais como eu te amei.

Herança

Em ti, talvez, o que fica
Seja uma lembrança pobre.
Em mim, a emoção mais rica,
O sentimento mais nobre.

Um copo, só

Que tolo, que parvo eu fui. Amei tanto e tão descontroladamente que, quando percebi, era como se o mar quisesse dar-se a mim e eu, para recebê-lo, tivesse apenas um copo, e raso.

Porém

Amar foi todo o meu bem
E amar demais meu defeito.
Sofri, te perdi, porém
Te guardo inteira em meu peito.

Três em um

Em 9 de julho de 1822, as ondas cantaram como nunca antes nem depois, entre Pisa e Livorno. No dia anterior, ávido de beleza e poesia, o Mar Ligúrico engolira o barco em que ia o grande Shelley. No seu bolso havia uma edição de Sófocles e um volume de poemas de John Keats.

Nem

Do amor mais nada sobrou,
Nem cinzas mais. Por piedade,
Talvez, ou por impiedade,
O vento tudo levou.

Transatlântico

No sonho ele a viu - um transatlântico imenso com todas as luzes escancaradamente acesas navegando na noite sem lua e sem estrelas - e a acompanhou tão fascinado, até ela mergulhar no horizonte brumoso, que não teve tempo de saber o que ele próprio era no sonho: se uma onda, se um peixe, se um bilhete de desamor que dela, do altivo transatlântico, algum desiludido passageiro atirara ao mar.

O nome, a foto

No Dia dos Namorados, escreveu um nome no guardanapo de papel, no café da manhã, e, depois de fitar longamente uma foto, beijou-a, com lábios de outrora.

Para quê

Sei que calar deveria
Mas, se não nos afligir,
Não nos ferroar e pungir,
De que nos serve a agonia?

sábado, 11 de junho de 2011

Nem mais as palavras

As palavras já se cansaram de mim, não me obedecem mais. Empreguei-as tanto, em vão, para chamar de volta o amor, que elas se recusam agora a participar dos poemas que não lês e das mensagens que desdenhas. Convoco-as ainda, adulo-as, mas elas fingem ser mudas. Ficam em silêncio por horas. Agora há pouco, fui pé ante pé aonde elas estavam e, não me vendo, elas se sentiram à vontade para falar de mim. "Ele insiste em me usar, o infeliz. Não vê que não funciono mais", queixou-se uma. E outra, rindo, concordou: "E eu, então? Quando ele vai perceber que eu sou uma palavra do século passado?" Era a ternura conversando com o afeto. Saí silenciosamente para não ouvir mais nada.

Outonal

Eu penso em ti tristemente
E choro todas as sinas
Enquanto um vento eloquente
Discursa pelas esquinas.

Se fosses

Se fosses um pouco dramática, um pouco só, e se houvesse ainda no teu coração algo que por mim batesse, saberias o que sinto. Disseste-me que por meu estouvamento perdi tua amizade, para sempre, e deverias ou quem sabe pudesses ao menos pressentir que traduzi amizade por amor, amor por vida, e morri.

Até quem

Com ódio, amor ou enlevo,
Escrevo para você.
Percebe a mão quando escrevo,
Percebe até quem não lê.

Sóis

Posso eu sair à rua, olhar para o alto e declamar uma ode ao sol, para agradecer o brilho e o calor que ele me proporcionou nos tantos e já quase inumeráveis dias de minha vida? Diriam que sou louco. E eu me queimo diariamente com a vontade de sair à rua e declamar a ode, que também para ti gostaria de declamar, e ainda com maior veemência, porque, tendo ensolarado alguns dos meus dias, tão poucos, tu lhes deste no entanto um brilho e um calor que o sol em tanto tempo jamais conseguiu dar.

Quando

Quando eu recordar-te for
Nos ensolarados dias
Ou nas madrugadas frias
Te lembrarei com amor.

E mesmo se a amargura
Uma lembrança trouxer,
Não importa. Haja o que houver
Te lembrarei com ternura.

Eco

Na ponta do rochedo, viu a lua mais de perto e quase acreditou que, se esticasse o braço, poderia tocá-la. Afagou uma estrela miúda e saltou para o furioso centro das ondas gritando o nome da amada. Não havia eco, mas deveria.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

A lição

Carregava o amor morto nas costas, como se fosse um bezerro, e, quando para ele olhavam, gemia: "Vejam como me pesa, imaginem como sofro." Era presunçoso então e a vaidade o fazia exagerar o peso e os gemidos. Deve ter aprendido algo, porque agora no ombro leva um pequeno pássaro e diz: "Vejam que leve e que belo. É o meu amor. Está morto, porque tudo e todos morrem, mas ouçam como canta ainda ternamente as canções que lhe ensinei outrora."

Flor

Sei agora que nasceste para os meus olhos, não para os meus dedos e a minha boca. Flor, não fruto, vives mais intensa em minha memória porque não te colhi, mas os dedos e a boca até hoje se lamentam e me cobram.

Onde estás?

Não sei de ti. Que ventura!
Meu ciúme não viajará
Para Mumbai, Calcutá,
Paris, Madri, Cingapura.

Em mim

Ocorra o que me ocorrer,
Me mate a morte, ou a vida,
Em mim, comigo, em meu ser,
Estás e estarás, querida.

Ombros

Se as mãos nos teus ombros ponho
Eu vivo sempre um momento
De tanto embevecimento
Que mais me parece um sonho.

O assunto

Quantas vezes bati teu nome no teclado e, ao baixar o mouse para o espaço destinado ao assunto, me veio o impulso de escrever Amor. Devia tê-lo feito, ainda que fossem mil, mil e quinhentas, duas mil vezes. Sempre que reprimi o impulso, menti para mim e para ti.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Campainha

Não atende mais a porta,
Já chega o que padeceu.
Sua casa o amor esqueceu
E sua esperança está morta.

Imagem

Guardar a imagem de como estavas naquele dia, olhando para mim e me presenteando com um livro de poemas. Guardar-te na memória dos olhos e do coração. E sentir que a cada dia a imagem me foge um pouco e que um momento haverá em que eu talvez duvide dela, como provavelmente duvidarei de que tenhas estado algum dia olhando para mim e deixando em minhas mãos algum livro de poesia.

"Paisagem com Dromedário", de Carola Saavedra

Tantos livros há agora, disponíveis em tantos meios e sob tantas formas, e no entanto continua difícil encontrar um que você, imediatamente depois de o ler, tenha vontade de indicar ao seu amigo mais constante, à sua mais querida amiga. Aconteceu comigo hoje o prodígio de pegar um livro ao meio-dia e só deixá-lo seis horas depois, no ponto-final. Livro sem prestidigitações nem exibicionismos, sem carpintarias, mostrando que os melhores truques continuam a ser os mais simples, e o mais simples de todos ainda é contar sem muita premeditação uma boa história. "Paisagem com Dromedário", de Carola Saavedra, publicado pela Companhia das Letras em 2010, me encantou esta tarde e eu gostaria de dividir a descoberta com os leitores do blog. Transcrevo um trecho, para dar ideia do brilho sem artifícios de Carola. Falando da morte dentro do conceito da arte da escultura, a narradora-protagonista diz: "... gosto de pensar que dentro da pedra já está a morte, e na vida apenas a esculpimos, até encontrar o seu formato único, aquele que nos aguardava, adormecido numa casa protetora, um casulo. A morte talvez seja apenas isso, algo que espera pacientemente, dentro de um bloco de barro, de mármore, de pedra, que no decorrer da vida, com nossos instrumentos e nossas armas, nos aproximemos."

Meu amor

Cuido agora do meu amor como se ele fosse um menino desenganado. Levo-lhe um livro, uma fruta, um doce, um pacote de balas. Ele me olha tristemente. Ligado aos tubos e ao soro, de nada lhe servem meus presentes, nem o sorriso com que procuro encorajá-lo.

Sorrindo para ele

Não consigo te querer mal. Foi tanto afeto, ainda é. Às vezes tento. Te imagino caminhando pela Paulista, com o vento soprando versos de Mario Benedetti em teu ouvido e o sol percorrendo as casas de tua blusa xadrez. Vejo os homens te admirando e penso que bem podias escolher o pior deles e por ele seres iludida e magoada. Mas nunca vou adiante. Ataca-me uma culpa, uma aflição, uma vergonha, e - embora com despeito e comido pelo ciúme - acabo desejando que um desses homens possa ser aquele que te trará a felicidade que eu jamais pude te dar. E, na minha imaginação, te faço sorrir para ele que, às vezes, faço sorrir para ti também.

Floração

Que em ti floresça a alegria
Que em mim jamais florirá,
Que a mim me caiba a agonia
E a ti a flor que o amor dá.

Amanhã

Tudo isto, eu sei, passará.
Fogo hoje, amanhã fumaça.
Porém, enquanto não passa,
Como dói, como doerá.

Minha memória

Ontem, não me veio senão depois de meia hora o nome do meu amado William Saroyan, que com um de seus livros me ensinou a dolorosa beleza da literatura. Hoje, agora há pouco, custei a lembrar o nome do meu mais querido amigo de infância. O tempo vai apagando tudo em mim. Ontem e hoje, recordei-me de ti sem esforço e com uma ternura que, pondo lágrimas em meus olhos, me fez ver a rua como se sobre ela a chuva peneirasse suas gotas finas, bem finas.

E vieram

Errei. Assim como tantos,
Julguei imortal o estio,
Os dias quentes, os cantos,
As festas, o vozerio.

E vieram os desencantos,
A mágoa, a tristeza, o frio,
As noites longas, os prantos,
O inverno rude e sombrio.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Paz

Monótona seria a paz do lago se de vez em quando não borbulhasse na superfície o murmurinho de um peixe afoito ou a lágrima de uma estrela.

Mais

As mãos dele teriam do corpo dela o mesmo conhecimento que os olhos têm, se não fossem um pouco mais bisbilhoteiras que eles.

Feias lindas

Em um bilhete não assinado, posto furtivamente dentro do caderno de uma garota: "Tenho feito coisas tão feias (riscado) lindas pensando em você."

Braços

Tenho pena dos meus braços. Tão antigos, e abraçaram tão pouco, tão mirradas vezes. E me irrito com eles, quando lembro certas coisas. Como aquele dia em que eles rodearam teus ombros, e rodearam tão frouxamente, ah, tão frouxamente.

Única

Sei que estando onde estiveres,
Estando embora eu aqui,
És única entre as mulheres,
Nenhuma se iguala a ti.

Outra manhã

Você me ensinou a linguagem do amor naquela manhã e foi embora. Fiquei com as palavras comigo, todas, não esqueci nenhuma. Durmo com elas, com elas acordo, e a cada minuto do dia elas me incitam a proferi-las. E como me dói calá-las, sufocá-las no peito. Continuarão acreditando essas vogais inquietas e essas ansiosas consoantes que somente soarão de novo esplêndidas se houver outra manhã como aquela, uma manhã em que o sol volte a brilhar sobre um cabelo de fogo e uma blusa xadrez?

Um comentário

Falando sobre o texto "Descuido", postado por mim hoje, o leitor Jeferson Cardoso me encaminhou uma mensagem simpática, quase uma exortação, assegurando que a felicidade é possível. No texto ao qual ele se refere eu menciono um homem que, vendo de manhã um sol majestoso, se esquece por um momento de acionar seu esquema de desconfiança e chega a achar que ser feliz não é algo tão irrealizável. Durante meia hora eu fiquei aqui apertando teclas para "comentar o comentário", mas elas se recusaram a obedecer. Então o homem mencionado no texto resolveu dar uma caminhada pelo bairro, para ver se as intenções do sol resistiriam a uma segunda avaliação. O sol foi reprovado: por toda parte, árvores desgalhadas, destroncadas, derrubadas pela ventania de ontem. Numa esquina, um garoto chorando. Na outra, um cachorro atropelado. Isso, unido ao infortúnio informático, fez o homem, ao voltar da caminhada, olhar irado para cima e dizer: "Fora daqui, canastrão! Você nunca me enganou, e não vai ser agora!"

Sob o sol

Que te lembres de mim uma vez por dia, um instante que seja. Eu não mereço mais. E, quando te lembrares, que tua imaginação de artista me faça dar uns passos sob o sol. Serei feliz, tão feliz, caminhando sob um sol imaginado por ti.

Descuido

O sol apareceu tão majestoso que o homem, distraindo-se um momento de sua cautela, sorriu e chegou a achar possível a felicidade.

Palco

Exibo-me para ti como se fosse um menino. Escrevo poemas, declamo, faço poses, falo de coisas que desconheço. Quero que tu me olhes. Quando tu me olhas, eu, como se fosse mesmo um menino, tenho vontade de chamar-te de tia, e te chamaria, se algo que em mim se mexe sorrateiro não bradasse: incesto. Gostaria de, acompanhando-me ao piano, cantar para ti, de te dedicar uma canção. Gostaria de saltitar, de sapatear, mas estou cansado, já não me aguento bem nas pernas e, se não choro, é porque não quero que venhas pôr a mão em minha cabeça e me chamar, ainda que carinhosamente, de meu velhinho, meu velhote.

terça-feira, 7 de junho de 2011

O passe

Ela se abaixou para apanhar o passe do metrô e sua minissaia se empinou atás. O garoto que estava com os olhos na página das Sete Maravilhas do Mundo Antigo imediatamente se desinteressou dos Jardins Suspensos da Babilônia e do Farol de Alexandria e, fechando o livro, apressou o passo, sob a instigação de que, como caíra uma vez, bem poderia o passe homenagear Newton e repetir a queda.

De novo

Não querer das lágrimas mais do que já deram. Podemos reconvocá-las, agora que desceram pelo rosto e a boca as engoliu? Elas estão mortas, como precisa estar morto aquilo tudo que as provocou. É hora de nos expormos outra vez à vida, de rirmos se ainda pudermos e, porque essa é a sina humana, de fazermos jus às novas lágrimas que virão.

Feiticeira

Ele não sabe a cor dos olhos dela. É o quinto encontro e ele sente que ainda não será hoje que saberá. Sempre que pensa em ousar, em se arriscar, em fitá-los, a voz dela o deixa em tal leveza, em tal beatitude, em tal êxtase, que ele se obriga a baixar os olhos para ver as mãos dela abrindo o envelopinho de açúcar ou mexendo o café. Já conhece suas mãos, seus dedos, acha que pode confiar neles. Pode confiar nos olhos também? E se eles se juntarem à voz feiticeira que o envolve com sons tão perturbadores que ele jamais consegue distinguir uma palavra? Receia - e ao mesmo tempo anseia - olhar para os olhos dela quando nos seus lábios estiver uma palavra que ele enfim entenderá e será aquela nunca dita, aquela que o fará compreender que a nenhum homem jamais é dado continuar vivo depois de conhecer integralmente a beleza.

Milímetros

Matemática, física, números, precisões sempre me atormentaram. Perseguem-me desde a infância, receio que hão de me perseguir sempre. Quando evoco aquela tarde - lembro-me dela tantas vezes por dia, tantas (quantas?) - e me lembro dos teus dedos aproximando-se dos meus, tortura-me, a cada lembrança, imaginar quão perto eles estiveram: dois milímetros, um e meio, um? Talvez tenham tocado os meus, por que não? Talvez tenham chegado a meio milímetro deles. Deus, meio milímetro é quanto? Meio milímetro é distância?

Bela

És bela. Quero dizer-te isto, nada mais. Eu poderia dizer também que, mas... Bela. Bela. Nada mais.

Fulgor

Não precisei olhar para o relógio, nem para o sol. Atravessaste a avenida e nos teus cabelos crepitava o fogo do meio-dia.

Ternura e paixão

Entre a ternura e a paixão, quase sempre é à paixão que o amor se entrega. E ela o atormenta, o consome, o açoita, o flagela. Ela lhe impõe o ciúme, a insônia e a desconfiança, ela o destrói. No final, o que sobra do amor são as lembranças, as cartas, as mensagens, as fotos que a ternura, aquela velhinha de mãos trêmulas e voz débil, vai mostrando, tantos anos depois. A paixão não folheia álbuns, não percorre arquivos do computador, não tem lembranças. A paixão morre cedo, queimada pelo seu próprio fogo.

Setecentos

Ela tem setecentos amigos na rede social. Ele tem setecentos punhais enterrados no coração ciumento.

Tu e ele

Não, não és como o sol, seria falso comparar-te a ele. Como ele, tu me iluminas as manhãs e aqueces minhas tardes. Mas brilha ele acaso em minhas noites, quando te evoco, e me conforta em meus sonhos, quando me sorris? Tu brilhas. Tu me confortas.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Fetiche

Para o fim eu as deixei,
Assim planejei e fiz:
Após a boca e o nariz,
Tuas orelhas beijei.

Bodysoulhand

Primeiro na alma
Te reconstruo
Com precisão

Depois com a palma
Eu te possuo
Com lassidão

E em febre ou calma
Eu te usufruo
Espesso cio

Que a mão empalma
Enquanto suo
E me sacio

Unhas

Amor, como são amenos
Teus dedos, tuas carícias,
Dulcíssimos teus venenos
E mansas tuas sevícias.

Maçãs

Na fruteira continuam as maçãs que subtraímos ao sol do meio-dia e trouxemos para dentro de casa. Tu as poupaste porque eram belas e querias pintá-las, e porque eram belas eu imaginei em versos louvá-las. Não as pintaste, não as louvei, chegou o crepúsculo e elas não estão mais tão rubras. Os lábios ainda palpitam ao vê-las e pedem às mãos que as apanhem, mas as mãos as evitam agora, por adivinhá-las frias, como o teu coração e o meu.

Sobrevivente

Restou uma flor miúda, mirrada, que a benevolente brisa matutina contorna, ao passar. Quando abro a janela para o sol e a vejo, sinto que certos milagres podem repetir-se cotidianamente. As outras flores todas morreram e, por alguma razão, a mais frágil permanece ali, única memória visual do jardim. Se tu a visses como a vejo, agora, pensarias que nasceu hoje. Eu também pensei isso ao vê-la pela primeira vez, encolhida como se fosse incapaz de cumprir seu destino de flor. Tivemos olhos para as imponentes, aquelas carnudas como frutos, que só ao sol pleno se exibiam. Esta que contemplo agora estava entre as outras, oculta pela beleza delas, e sobreviveu para mostrar-nos que quisemos demais. Consolo-me ao vê-la, tão humilde quanto talvez devêssemos ter sido. Se a visses, pode ser que te consolasses também e que uma esperança tardia nos aquecesse o coração.

Quia pulvis es

Sol nunca mais haverá.
Agora eu espero só
A mão que me levará
De volta às trevas e ao pó.

domingo, 5 de junho de 2011

Um sonho

Faz uma semana que, entre as sete e as sete e meia da noite, a velha kombi de brônquios afetados passa pela rua anunciando pizzas quentinhas. Hoje, domingo, apesar do frio, ela passou de novo, tossindo um pouco mais que nas outras noites. A voz gravada, que fala de vários sabores, mal chega, logo se dissipa, como se o motorista, ou a kombi por conta própria, já soubesse que não adianta passar. Não há freguês, talvez nunca tenha havido nenhum nos sete dias. Moro aqui há trinta anos e já ouvi, com intervalos médios de cinco anos, outras kombis apregoando pizzas. Aparecem e desaparecem em no máximo uma quinzena. E suponho, apostando na suposição, que todas elas representaram a última esperança de uma família para ganhar algum dinheiro em algo que não seja esmolar. Abro a porta, levanto a gola do casaco e talvez me animasse a ir até o portão, mas a voz gravada já vai longe. O motorista e a kombi estão certos. Não há freguês nenhum, nunca haverá. Amanhã ou depois talvez passem de novo, e quem sabe até mais alguns dias. Depois, a voz oferecendo as pizzas se juntará tristemente em minha memória às outras que, nestes trinta anos, tentaram realizar um sonho humano - tão simples e tão inacessível como quase todos os sonhos humanos.

Tu sabes

Deves imaginar quanto doem estes domingos frios que arrastam vagarosamente seu azul diante de minha janela, como se esperassem por ti. Deves saber que, quando o azul esmaece e a noite chega, a melancolia vem com ela e me faz fechar a janela e sentar-me no sofá, sem ânimo para acender a luz. Tu sabes, eu sei que hás de saber, como é triste um homem chorando num domingo, numa sala escura. Tu sabes, e no entanto...

Sandice

Saber-te longe é sentir
Que das sandices da vida
Nenhuma é tão descabida
Quanto a de deixar-te ir.

Vós

Que frias serão as tardes
E a minha vida, sem vós,
Tão frias, se não voltardes,
Se eu não vos ouvir a voz.

Contraste

Amores que na paz vivem
E caem no ramerrão
Com mais calor sobrevivem
Se os espicaça a aflição.

Lembranças

Tão tristes estas lembranças
Dos dias idos, vividos,
Dos sentimentos floridos,
Das nossas vãs esperanças.

sábado, 4 de junho de 2011

Fifty-fifty

Minha querida chamei-te,
Enviei-te poemas e flores,
Depois, ferido, magoei-te
E lancei-te iras, rancores.

Perdoa-me, pois perdoei-te,
Já que assim são os amores,
Não só doçura e deleite,
Mas mágoas, também, e dores.

No fim de uma carta

"... e a aflição de ver-te transformou-se na aflição de querer rever-te e, depois, desgraçadamente, na aflição de talvez não poder ver-te nem rever-te jamais."

Sorvete

Naquele dia, porém, a mãe, ao ir buscá-lo na esquina onde ele todas as tardes ficava vendendo os panos de prato bordados por ela, aceitou a sugestão que havia três meses ele lhe fazia. Pararam na confeitaria, sentaram-se a uma das mesinhas e pediram duas taças de sorvete. O preço consumiria quase todo o dinheiro que ele havia conseguido reunir naquela tarde, porém a mãe lhe pareceu satisfeita. Mas, quando trouxeram o sorvete, duas lágrimas deslizaram pelo rosto dela. "Teu pai foi embora de casa", ela disse, com a colher suspensa perto dos lábios, como se pudesse ainda se livrar do pecado.

Caçamba

Outrora límpido, agora
Um traste posto no entulho,
Sem brilho mais, sem orgulho,
O amor rasteja e estertora.

Octossílabos

Escrevo como alguém que implora
Socorro a quem não o socorre,
Escrevo como alguém que chora,
Escrevo como alguém que morre.

Tu, eu

Quer lembres de mim, quer não,
E eu seja ou não teu dileto,
Te lembrarei com paixão,
Te guardarei com afeto.

Mais, menos

Amores mornos e amenos
São enfadonhos, iguais.
Por que nos amarmos menos,
E não nos amarmos mais?

Sorriso

No escaninho mais ensolarado da memória, guarda um sorriso que se abriu para ele numa luminosa manhã dezembrina e que espera conservar imune ao mofo e à crueldade do tempo até o último dos seus dias.

Sofá

Em minha sala sentado,
Revivo os dias vividos,
Recomo os frutos comidos,
Com seu sabor renovado.

E grato, e recompensado,
Relembro os meses floridos,
E até os tempos sofridos,
O meu presente é passado.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Um trecho de Orhan Pamuk

"Todos nós conhecemos as alegrias da degradação. Talvez eu deva dizer de outra forma. Todos nós certamente passamos por fases da vida em que descobrimos que era agradável, até relaxante, deixar-nos naufragar. Mesmo quando dizemos a nós mesmos que somos imprestáveis - repetidamente, como se a repetição tornasse isso verdade -, de repente nos libertamos de todas as imposições morais para nos ajustarmos e da sufocante preocupação de obedecer a regras e leis, de ranger os dentes no esforço para sermos iguais aos outros. Quando os outros nos degradam, chegamos ao mesmo lugar a que chegamos quando nós mesmos tomamos a iniciativa de nos humilharmos. E então nos encontramos na posição de podermos chafurdar satisfeitos em nossa existência, nosso cheiro, nossa imundície, nossos hábitos, posição na qual podemos abandonar toda esperança de aperfeiçoamento e parar de alimentar ideias otimistas sobre os outros seres humanos. Esse lugar de descanso é tão confortável que não podemos deixar de nos sentir gratos pela raiva e pelos egoísmos que nos conduziram a esse momento de liberdade e solidão."

Assim que li hoje este parágrafo, no livro Outras Cores, do Prêmio Nobel de Literatura Orhan Pamuk, editado pela Companhia das Letras em tradução de Berilo Vargas, me veio a expressão "vestir a carapuça". E eu a vesti imediatamente. O texto me expressa, exprime o meu caráter, a minha alegria de perdedor. Sempre, entre ser Sade e Masoch, me alinhei com o segundo. Gostar de ser perdedor - embora alguém possa dizer que isso não passa de um disfarce de quem, aspirando à vitória, não a consegue - foi algo que sempre tive comigo. Ser vítima e não carrasco, ser submisso e não tirano são, na verdade, características nem propriamente de minha escolha, mas a tradução de algo que considero quase como um fatalismo. Fui sempre assim, à parte alguns espasmos que esporadicamente me impeliram a buscar à vitória e que só acabaram por se revelar exceções necessárias à confirmação da regra. Se não entro derrotado, dou um jeito de me derrotar tão logo a oportunidade se apresente. Perguntam-me por que levo sempre tudo, em minha vida, pelo caminho que aponta para a derrota e, quando surge algo que todos considerariam uma vitória, eu instantaneamente me ponho a desqualificar esse "triunfo". Não sei. Sei que não mudarei, não está em minha vontade e em minha capacidade mudar e que, se algum gozo eu tiver ainda na trilha cujo final está próximo, será o proporcionado pela humilhação e pela degradação. Sinto às vezes que esse meu anseio de querer o fracasso e louvá-lo bem pode ser não uma demonstração de inferioridade, mas uma atitude de menosprezo aos vencedores. O desprezo que sinto por mim quando penso dessa maneira representa, em vez de um impulso para a mudança, outro motivo para que eu desfrute e exalte minha mesquinhez como outra parte essencial de meu caráter. Perdi recentemente uma batalha - talvez a mais importante de minha vida - e a perdi em grande medida por essa impossibilidade de me transformar. Como eu me justificaria diante de mim mesmo se a vencesse? Sofro os horrores de todos os tormentos e não errará quem julgar que os sofro com uma satisfação que a vitória talvez não me proporcionasse senão por um momento. Ai de mim! Ai de mim?

Memento

Que esqueças tudo: a paixão,
Se paixão houve, a alegria
Do amor e a sua agonia,
Porém jamais o perdão.

Quem sabe

Um dia, por um acaso
Ou por qualquer coisa assim,
Por algum azo ou desazo,
Talvez te lembres de mim.

Volta

Cheguei, voltei para ti.
Trilhei o caminho errado
E chego triste, cansado,
O que me deste eu perdi.

Gelo

É pura utopia, esqueça,
O tempo comprovará:
Nenhuma chama haverá
Que como a antiga o aqueça.

Último capítulo

Estarás velhinha e não te lembrarás nem do meu nome. Estarei morto e também não me lembrarei de ti.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Aquário

O amor é agora como o quadro - um navio no meio das ondas espumejantes, luzindo ao sol - que há trinta anos ele pendurou na sala. Hoje ele sabe que não adianta levantar-se do sofá e encostar os olhos na tela. Não há mais sol, embora os netos digam que sim, e as ondas que afogaram o navio parecem inocentes, frias e pacíficas como a superfície de um aquário.

Solamente una vez

Uma vez que fosse, tê-la
Nos meus braços e saber
Que só para conhecê-la
Fui destinado a viver.

Policial

Ele abriu a janela, e o sol, invadindo a casa e cegando-o de luz, ordenou-lhe que confessasse sua tristeza e mostrasse onde ocultava sua melancolia.

Joyce e Nora

O amor de James Joyce por Nora Barnacle se traduziu em frases que fariam ruborizar e desfalecer poetas românticos. À noite, na cama - que esses poetas chamariam de leito sagrado -, Joyce ouvia as detonações digestivas de Nora como se fossem cânticos celestiais e enfiava o nariz embaixo do cobertor, para sentir as emanações, como se um vulcão estivesse cozinhando rosas no quarto.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Certa lógica

Parece, mas não destoa,
Nem mesmo é contradição:
Porque ele não se perdoa
É que ele pede perdão.

Todos

Os dias todos maltratam,
As manhãs todas me ferem,
As mortes todas me querem,
As noites todas me matam.

A esmo

Não tenho sul e nem norte,
A minha rota é perdida,
Não tenho medo da morte,
Só tenho medo da vida.

Para Frida

O que me alenta me dói,
Me fere o que me sustenta,
O que me nutre me rói,
Me mata o que me alimenta.

Reclusa, quieta em meu canto,
Viajo minhas viagens
E é do meu riso e meu pranto
Que vivem minhas colagens.

Eu sou inteira e fração,
Imensidão dividida,
Um lago manso, um vulcão,

Sou morte, paixão, sou vida,
Sou sim, sou talvez, sou não,
Sou eu, sou todas, sou Frida.

De amor

Com o grosso volume da obra integral do poeta nas mãos, o crítico lhe disse que todos os poemas do livro falavam de amor. E, para que não soasse fútil a afirmação, pegou um papel: "Eu anotei. São duzentos e seis poemas, todos, todos, todos de amor." O poeta, que estava com sua célebre canetinha Bic e seu caderno, rabiscou algumas palavras no final da folha e, feliz, disse: "Pode pôr mais um na conta. Duzentos e sete, então, é isto?"

Mochila

Puseste meus livros na tua mochila, misturando-os aos teus objetos queridos, e eu senti estar finalmente vivendo um daqueles momentos únicos e preciosos que a literatura me havia prometido, quando seduziu o menino que eu era.

Cartão

Depois de tantas vezes me ferir, me matar e me ressuscitar para novamente me ferir e me matar, o amor resolveu dar-me um cartão de vítima preferencial. Disse que devo gabar-me disso, e eu acreditei.

Olhar-te, só. Não te dizer nada e saber que nada antes e nada depois será tão doce à minha alma quanto olhar-te ainda uma vez e acompanhar, com meus olhos nublados, teus passos sob o sol, na avenida.