sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O suspiro

Dois dos sete arqueólogos ainda duvidavam de que aquela fosse a ossada do Amor. Estavam apresentando seus contra-argumentos quando do feixe de ossos saiu um suspiro triste que eles, embora quisessem, não puderam considerar como um lamento da brisa nas árvores próximas da escavação.

Parcimônia

Não pensa nunca em orgia.
Poder o rosto pegar-lhe,
Poder a boca tocar-lhe,
Beijá-la, já bastaria.

Bom dia

Se eu empilhasse todos os bons-dias que te dei, seria algo bonito de se apreciar. Mil folhas, três anos de bons-dias, um milhar de sóis, de rotações planetárias, de manhãs, de janelas abertas para a vida e para a efusão do afeto. Estão todas em pastas, datadas, catalogadas, guardadas com esmero, como joias que são. Todas são aparentemente iguais, mas só aparentemente. Cada uma tem algo que a diferencia de todas, assim como são distintas as folhas de uma árvore. Não sei quanto de uma árvore terá morrido para que elas chegassem à minha impressora. Mas elas, as folhas, sei que estão vivas e, se eu as pusesse diante de ti, elas se alegrariam em aparecer de novo ao sol e em dizer-te, cada uma, bom dia, bom dia, bom dia mil vezes, como se sobre elas não tivessem pesado nem o tempo nem os infortúnios da vida.

Tardiamente

Demorei demais para reconhecer. Quando eu me queixava de que estavas me matando, meu coração pulsava tanto e meus sentidos se aguçavam tão exaltadamente que eu deveria dizer que estavas me vivendo.

Aos tubarões

Sem esperança é melhor

Fechar a cortina
o micro
o celular
os ouvidos com tampões
e refugiar-se no sofá
com as pernas para cima
como se a sala alto-mar fosse
e estivesse sitiada por tubarões

Sem esperança é melhor

Sem esperança se pode ficar
assim levado pelas ondas
sem sonhos nem aspirações

Mas se uma gaivota vier
se uma brisa soprar
e houver no grito ou no sopro
uma insinuação de amor
ah com que bom ouvido a ouviremos
e como nos atiraremos
rapidamente aos tubarões.

Verão

Virá o vento, virão
As chuvas. Tudo ruirá,
Nada de pé ficará.
Por que chamaste o verão?

Declaração

Não, eu não farei aquilo, ainda que todas as cordas prometam ser ternas ao meu pescoço, todas as lâminas gentis aos meus pulsos e todos os punhais doces ao meu coração. Se eu for morrer por ternura, por gentileza ou por doçura, que me mate uma mulher.

Aberração

Na literatura, não existe espécime mais disforme, aberratório e lastimável do que uma poesia prosaica.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Boa noite

Dizer boa noite parece simples, e é, quando se quer dizer só boa noite. Quando no dizer boa noite há, porém, uma aspiração de poesia, ainda que leve, uma sugestão de ternura, ainda que sussurrada, um desejo de dizer sedas, cetins, veludos, e uma ansiedade de proferir rosas, tulipas e girassóis - quando há tudo isso e tudo isso parece ainda pouco, dizer boa noite, só, é como nada dizer.

Bom dia

Dizer-te bom dia como se eu fosse alguém que julgasses digno de dizer-te bom dia. Dizer-te bom dia como aqueles puros de coração que não precisam fazer um discurso quando dizem bom dia. Dizer-te bom dia como sempre se deve dizer bom dia - tão espontaneamente que às vezes nem é preciso dizer bom dia, basta um sorriso, e às vezes nem dele se precisa, embora seja sempre melhor dizer bom dia com um sorriso. Digo-te bom dia com um sorriso.

O que és

És tu meu principal tema
E a inspiração preferida.
Existe para um poema
Assunto melhor que a vida?

Despreparo

Em viver estive absorto
Tanto tempo que não sei
Como me comportarei
No dia em que estiver morto.

Com requinte

Haverá de ser com requinte. Deixarás que eu coloque teus dedos, um a um, em um par de luvas (de seda, por certo) e te oferecerei meu pescoço como se fosse o do mais tenro dos cordeiros. Tu o apertarás devagar, com amorosa lentidão, até que em minha garganta soe algo leve, quase inaudível, que terás a generosidade de interpretar como o balido de um cordeiro que morre. Se eu chorar, não te aflijas. Será não por morrer, mas por não poder tirar-te as luvas e beijar-te os dedos.

Migalhas

É verdade. De bom grado eu receberia esmolas de amor. Necessito ainda muito delas, e agradeço ao teu coração pela generosidade de oferecê-las. Eu as aceitaria, se fosses outra e tua fosse a única mão, no mundo, capaz de, com migalhas ou banquetes, saciar meu afeto.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Boa noite

Saí de casa hoje cedo e cometi a imprudência de olhar para o céu. Vi um azul tão úmido, tão fresco, um azul tão juvenilmente azul, que era impossível deixar de pensar também no teu. A matemática intrometeu-se em minha divagação poética e logo eu estava calculando quantos azuis como aquele seriam necessários para compor um azul igual ao teu, esse teu azul soberano que concentra todos os azuis. Talvez nesta canhestra explanação sobre azuis tu vejas um pretexto meu para te desejar boa noite. Não estarás errada. Mas, voltando ao que eu dizia, o teu azul...

O simples, em Wislawa

Tudo que Wislawa tocava
ficava igual
mas mudava

Uma faca
uma xícara
uma colher
por ela tocadas
permaneciam
faca
xícara
e colher
mas parecia mais simples
sua simplicidade

A retórica de Wislawa
era a antirretórica
e se uma homenagem
queres prestar a ela
jamais chames de baixela
nem sequer de talheres
suas facas
suas xícaras
suas colheres.

Bom dia

Bom dia, sim, por que não?
Bom dia, sim, mas por quê?
Minha alegria e aflição
Dependem só de você.

Sortilégio

O amor é assim: me enfeitiça,
Diverso de mim me faz.
Suspiro como noviça
E choro como rapaz.

Nós, homens

Somos bilhões. As catástrofes e as calamidades não nos abalam. Nós somos as catástrofes e as calamidades. Os gafanhotos não devastarão nossa terra. Nós somos os gafanhotos que devastarão a Terra. Deus escondeu-se, com medo de nós, mas nós O pouparemos. Deixaremos que ele tente armar outra vez Seu joguinho. Todos merecem uma segunda chance. Nós, depois da total destruição, dormiremos no sétimo dia, sobre nossos louros. Ele não nos colocará no novo mundo, mas, quando as fontes estiverem cantando e os carneiros balindo, apareceremos com nossas facas e nossa sede de sangue. Deus não aprenderá nunca que os criadores de tudo, até Dele, somos nós.

Filosofia

Melhor, para nós, que a vida não tenha significado. Se tivesse, nós jamais o descobriríamos.

Moinhos

Os filhos de um moinho que matei rogaram-te tal praga que acabei aqui, neste lugar que parece um manicômio. Preciso acautelar-me, se quiser ainda um dia ver os olhos de minha doce Dulcineia. Meus inimigos me rondam. Hoje veio visitar-me, sob pretexto nenhum, uma mulher com um bebê no colo. Nela e nele pressenti traços da odiosa espécie dos moinhos.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Boa noite

Se pensássemos na responsabilidade que há em desejar boa noite a alguém, talvez ficássemos calados. Deve-se desejar uma boa noite com a alma limpa, e quem há de ter uma? Deve-se desejar uma boa noite a alguém como se estivéssemos dizendo algo que tivesse ficado guardado muito tempo na alma, palpitando por ser dito. Não um boa-noite desses de raspão, um boa-noite extraído da garganta como um pigarro, um boa-noite aromatizado previamente com pastilhas Valda. Reluto em te dizer boa noite. Gostaria que dizer-te boa noite soasse como uma das poucas e indiscutíveis verdades da vida. Não vou dizê-lo. Tenho a alma impura, tenho desconfiança de mim, do que digo. Se eu te desejasse boa noite, acreditarias em mim? Quem há de acreditar em quem, como eu, tem tratado as palavras como se fossem vadias se virando na esquina por seis esfirras na promoção? Te direi boa noite quando boa noite puder soar como soa a um bebê quando pela primeira vez sua mãe lhe diz.

Mulheres

Poderia ter feito como os outros
plantar-se numa esquina
na frente de um bar
e com pose fescenina
os botões da braguilha dedilhando
ver as mulheres passando
para comentar

mas que anca
que égua
olha lá que potranca
que cavalona
que mamas
que peitaria
mamãe mamãezinha
me leva de cavalinho
mamãe eu quero montar
mamãe olha aqui teu filhinho
mamãe ai mamãe
eu quero mamar

Poderia ter feito como os outros
ver nas mulheres um instrumento
como outro qualquer
um objeto útil
fácil de encontrar
e de utilizar

Poderia ter feito como os outros
mas chamou-as de fadas
de majestades de rainhas
e onde os outros viam zinhas
ele via princesinhas

Quando descobriu um dia
que mulheres não eram senão mulheres
começou a se lamentar
e a perguntar o que faria

Todas se puseram então a dançar
e ele viu finalmente
que em todas elas havia
a parte da frente
a parte de trás
e botões de ligar
e desligar.

Aquele

Aquele foi poeta
apontam e dizem
e eu vejo
num canto de esquina
um homem que aprendeu
as minúcias da métrica
a cadência dos versos longos
e os encantos da rima

Deitado sobre um jornal
de três dias
ou de três meses atrás
ele não parece pensar agora em rimas
em sóis ou rouxinóis
enquanto o manda embora um comerciante
e um cachorro lhe mija em cima.

As almas

Nossas almas talvez
um dia se encontrem

Por que não acreditar
se me disseram
que é até comum
ou que não é tão incomum
uma alma com outra
um dia se encontrar?

Há de ser eu imagino
numa tarde de sol lento
que à minha alma e à tua
há de dar todo o tempo
de no meio de outras talvez
se verem e se reconhecerem

Não tenho ideia de como é
um encontro de almas
mas pressinto que a minha será tímida
e a tua (quem sabe expansiva)
ainda mais tímida a deixará

A tua olhará para a minha
a minha da tua se esquivará
e ficarão as duas assim
distantes e relutantes
como nossas mãos hoje estão

Até que uma delas por fim
(a tua provavelmente)
a outra convidará
já sem nenhum receio
efusivamente até
e as duas finalmente
se é que almas fazem isso
irão tomar um café.

Bom dia

Bom dia a todos. A mim
Bastará um dia falho,
Um diazinho assim-assim:
Sei muito bem o que valho.

Idades

Os teus cinquenta e um floridos
Se riem dos meus aziagos
Setenta e três mal vividos,
Fodidos e tão mal pagos.

Ofício

O triste, neste ofício, é que, até para saber se estamos escrevendo mal, precisamos escrever.

As curtas

Nem sempre há sabedoria nas frases curtas, mas ao menos elas não têm tempo de se tornar enfadonhas.

Oportunidade

Morrer é quase sempre a melhor oportunidade que a vida nos oferece. Pena que sempre venha tão tarde.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Boa noite

Obrigado, meu Deus, por este sono, por esta pequena encenação da morte. Deixo em Vossas mãos acordar-me amanhã ou não. Vós sabeis, Senhor, qual é a vontade do meu coração.

Em cartório

Jamais teus olhos verei,
Nem beijarei o teu rosto.
Escrevi isso e assinei
Em vinte e sete de agosto.

Noites na Vila

Encontram-se no barzinho para fazer suas justas restrições quando se menciona tal peça de Shakespeare, certo poema de Borges ou determinado romance de Nabokov. Nenhum deles ainda escreveu sua obra-prima, mas costumam ser citados em notas de pelo menos dez linhas nos jornais. Todos estão com mais de quarenta anos, mas consideram-se jovens, porque o espírito não tem idade, e sempre são apontados como talentos promissores. Aplaudem-se, incensam-se, nobelizam-se, e não estão errados. Alcançarão a fama. Quando morrerem, sempre restará no bar um garçom para dizer a um freguês que aquela era a mesa de fulano souto, beltrano loxas ou sicrano couto. Se o freguês mostrar interesse, o garçom poderá mostrar algumas contas que eles penduraram quando a celebridade ainda não os havia reconhecido mas eles já sabiam que Dalton Trevisan era uma besta e eles mudariam a cara da literatura.

Bom dia

Aprendemos o cavalheirismo e nossa supostamente boa educação recomenda que desejemos um boa dia até a quem nos mata. Bom dia

Jogo

Naquela época, beijavam-te a nuca. Era o lance inicial. Hoje não há lance nenhum e em tua olvidada nuca fios grisalhos, como no teto as teias de aranha, crescem.

Truque

Beijar-te sempre depressa, para não privar-me senão por alguns segundos do som mágico de tua voz.

Cadeira de rodas

Ele encara a vida como alguém que, tendo perdido os movimentos e a memória num acidente, é carregado por um jardim numa cadeira de rodas e sorri um sorriso babado para tudo, enquanto o enfermeiro que o conduz marca pelo celular um churrasco para o domingo.

Amizade

Podes mexer e remexer

Só cinzas há agora
onde tanto fogo havia

Talvez nem cinzas mais
depois do misericordioso sopro do vento
no fim do dia

Morreu aquele momento de sol e de flama
que incendiou a tarde
e preparando-se para o sono
as árvores
pedem que se calem os passarinhos

O amor impossível
calou-se também em mim
atrofiou-se pelo desuso
e se hoje fosse cotado
valeria menos
que um cachorro castrado

Podes mexer e remexer

Extinguiu-se a chama de outrora
morreu em mim tudo que bradava
tudo que exigia
tudo que clamava por posse
e talvez possamos plantar a amizade agora
no solo cuja propriedade
o egoísta amor requeria.

Kama Sutra - XLI

Sonha que bebe leite no seio dela, que bebe até se fartar e que, quando vai retribuir com palavras de paixão, ela bate nas costas dele, para que arrote, e o chama de filho. Acorda envergonhado. Na noite seguinte, sonha que ela lhe recusa o seio e que ele, astuciosamente, vai encolhendo até o tamanho de um bebê e se põe a chorar de fome.

domingo, 26 de agosto de 2012

Teu trigo

Pousei a mão em teu trigo,
Nos teus cabelos, axilas
E em partes que referi-las
Por ter pudor não consigo.

A velhice

A velhice cheira em ti como um cão sarnento no verão.

Busca

Neste vinte e seis de agosto,
Buscar de ti algum cheiro,
Buscar de ti algum gosto,
Buscar-te em teu paradeiro.

Bom dia

Dá um bom-dia a quem amas
E a quem não amas também.
Vive o domingo sem dramas,
Canta, ri, sorri. Amém.

Numa palavra

Ninguém mais acredita numa só palavra dita por ele. E mesmo ele acredita só numa, que no entanto vai mirrando dia a dia em sua alma: amor.

Fumaça

Não apodrecerei a terra. Não nascerão de mim flores raquíticas e ásperas que as abelhas e as borboletas evitarão. Será o ar que poluirei. No dia em que me cremarem, as pessoas olharão para cima e comentarão: "Olha lá que fumaça feia. Virgem! São Paulo não tem mesmo jeito. E o cheiro..."

Kama Sutra - XLI

Não faz nem um minuto que ela saiu, depois de trocar com ele aqueles beijinhos de costume entre mulher e cabeleireiro, e ele já imagina qual das unhas deixará crescer mais do que as outras, a qual delas ensinará a arte de sulcar a pele maciamente, levantando-lhe um arrepio. Tem um mês para isso. Quando a mulher voltar, ele terá tido tempo de ensaiar, na própria pele, o toque exato, aquele que vá descendo milímetro a milímetro, como se tivesse toda a eternidade para descer e mesmo assim parecesse demorar-se mais aqui e ali, como se nesses pontos pudesse fazer aflorar um prazer mais intenso. Ele tem um mês para adestrar a unha, para aprimorá-la. Quando a mulher vier de novo e, como hoje, pedir que ele lhe apalpe a nuca e procure um carocinho que ela sabe não ter, ele fará a unha disciplinada, talvez até já um tanto viciada, descer milímetro a milímetro a pele que hoje lhe foi oferecida e ele não ousou percorrer.

Sinopse

Sei que ela jamais me amou
E amou todos os demais.
Sofri, mas hoje não mais.
Tê-la amado me bastou.

Kama Sutra - XL

Quando lhe apresentaram a nova gerente de compras, ele e ela exclamaram ao mesmo tempo: "A gente já se conhece." É verdade. Reconheceram-se logo, embora não se vejam há quinze anos, quando ele estava com treze e ela com doze. Enquanto ela é levada e apresentada aos outros funcionários, ele tenta se recuperar da agitação que o reencontro com a amiga de infância lhe causou. Ela é hoje uma dessas mulheres que deixam os homens alvoroçados. Mas não é isso que o perturba agora. Ele recorda a tarde em que ele a levou de carona na bicicleta e de repente estavam se beijando. Um minuto antes do beijo ela, distraída, tirara a casca de uma pequena ferida do joelho, levara-a à boca e a mordiscara, enquanto ele imaginava um gosto de torresmo.

sábado, 25 de agosto de 2012

Boa noite

Não aguçarei mais as garras no sofá, nem em tuas pernas. Não sujarei nada, farei tudo na caixinha, não andarei mais entre os bibelôs. Não me queixarei quando me levares ao veterinário, nem esparramarei mais tuas tintas e teus pincéis. Serei obediente, sempre, para que não te zangues comigo. Quero poder ficar no teu colo assim e, quando aquele homem vier à noite e me esqueceres, saberei esperar até que ele se vá, de manhã, e voltes a olhar para mim, como me olhas agora. Não ficarei miando diante da porta fechada do teu quarto.

Só tu

Eu posso até me enganar,
Mas acho que mesmo morto
Esperarei o conforto
Que só tu me podes dar.

De Emily Dickinson, sobre a loucura e o bom-senso

Muita Loucura é divinal Bom-Senso
Para quem sabe ver -
Muito Bom-Senso - alta Loucura -
Há de prevalecer
No assunto, como em Tudo, a Maioria -
Concorda - e serás são -
Opõe-te - és perigoso - e em Ferros
Logo te prenderão -

(Do livro "A branca voz da solidão", tradução de José Lira, edição da Iluminuras.)

Compostura

Envergonha-se do tempo em que, simulando ser ainda mais faminto e andrajoso do que era, ia até a porta do amor para pedir uma roupa velha e um pouco de comida. Hoje, quando se lembra, o tecido fino de sua camisa irrita-lhe a pele e no seu estômago revira-se o asco. Mas ainda, às vezes, sorri ao recordar os raros dias nos quais a mão que lhe passava o trapo e o prato aluminizado tocava acidentalmente a sua.

Um poema de Emily Dickinson

"Eu passei fome todos esses Anos -
E enfim cheguei à Mesa
Para almoçar - e eu tremendo - o Vinho
Exótico toquei -

Era isso que eu vira à Mesa quando
Esperava às Janelas
A Riqueza que à míngua eu não ousava
Almejá-la sequer -

Um Pão inteiro era tão diferente
Das Migalhas que tive
E que ao Ar Livre os Pássaros vieram
Comigo repartir -

Doía-me a Fartura - era algo novo -
Senti-me mal - e estranha -
Qual Frutinha da Serra que na Rua
Fosse largada ao chão -

E eu já nem tinha fome - e me dei conta
Que a Fome era só algo
Que se tem do outro lado das Janelas -
E acaba-se ao entrar -"

(Do livro "A branca voz da solidão", poemas de Emily Dickinson, traduzidos por José Lira.)

Bom dia

Quando nem teu único amigo acredita mais no que dizes, dirás bom dia a quem?

Perdão?

Pedir-te perdão por quê?
Pedir perdão por te amar
O mesmo seria que
Pedi-lo por respirar.

A última água

Se a alguém couber negar água à minha derradeira sede, que sejas tu. Se eu puder ver ainda uma vez teu rosto e ouvir-te a voz, será um razoável preço, esse.

Kama Sutra - XL

De dia lê poemas, conversa com os vizinhos, anda pelo bairro. À noite, quando põe os óculos sobre o criado-mudo e dorme, o Diabo o conduz a orgias das quais quando volta de manhá, e repõe os óculos, traz a decepção de não ver bocas impressas com batom no ventre, riscos de unha nos braços. Quando vai tomar o café, é o homem triste de sempre e lê no jornal histórias que jamais são as suas.

A abelha

Arrepende-se de ter procurado socorro. Antes de ser desalojada, a abelha zumbira-lhe no ouvido coisas tão belas que ele agora olha para ela, para o farmacêutico e para a pinça como se estivesse na cena de um crime do qual fosse ao mesmo tempo cúmplice e vítima.

Forma

Escrevia tão lindamente que exigir coerência dos seus textos seria um desaforo.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Kama Sutra - IXL

Toda quarta-feira, quando a empregada vai lavar o quintal, o garoto a observa do quarto, na parte de cima da casa, com uma atenção que se torna tensa e deleitosa no momento em que ela se abaixa, ajusta a boca ao bico da torneira e bebe longamente, antes de enroscar o esguicho. Todo dia, pelo menos uma vez, ele vai à torneira, nela encosta os lábios, como se a beijasse, e bebe a água com os olhos fechados de êxtase. Por artes da imaginação, prefere-a morna, como se ela lhe estivesse sendo repassada por outra boca.

Boa noite

Digo-te boa noite agora, tão cedo, para reservar as melhores estrelas para ti. Elas andam escassas e eu me pergunto se a dizimação que o homem provoca em toda parte não estará se estendendo ao céu. Tenho visto a lua muito pálida, abatida, e temo que hoje ela nem apareça para te ver, embora te aprecie tanto e eu lhe tenha feito um pedido veemente, ilustrado por minhas lágrimas. Mando-te uma dezena de estrelas, que me foram recomendadas como as mais belas e mais confiáveis, e te deixo com essa expectativa de que a lua, se puder, apareça. É pouco isso tudo, bem sei, em comparação com o que os poetas de antigamente ofereciam, mas vai com um carinho que talvez possa abrandar tua decepção. Tem sido esse o enredo da história, há muito: tua decepção comigo, que cresce na razão inversa do meu afeto por ti. Se acreditas que as estrelas falam com quem tem ouvido capaz de entendê-las, espero que elas te deem, sem mudar uma vírgula, o recado que mando por elas e que, para não estragar a surpresa, não direi que é constituído basicamente por aquelas três curtíssimas palavras que já sabes quais são e não me canso de dizer-te.

No fundo da mochila

Na tua mochila de livros, ficou perdido um antigo bilhete meu. Ele se agarra bem ao fundo, como tudo meu se agarra ainda a ti. Não o procures, não o leias. Tu andas tão feliz agora...

Estas flores

Tão feiosas são estas flores... Envergonha-me pensar que as rego para ti. Talvez por serem tratadas por mãos de homem, são mofinas, raquíticas, e é um milagre a brisa não as ter levado. O sol pouco as visita, não para poupá-las, mas porque lhe repugna seu aspecto, e os beija-flores não as incluem no seu plano de voo. Rego-as e quando olho para elas me vem - embora isso me doa tanto - a ideia de que melhor será tu tardares a vir, ou não vires nunca, para não veres que meu amor continua sáfaro, incapaz e triste.

Unilateral

Oferecer-te meu amor foi uma ousadia, um contrassenso. Maior ousadia e maior contrassenso foi esperar que o retribuísses. Nas poucas vezes em que me tocaste, parecias ter na mão uma luva ou uma pinça.

Críticos

Se aparecer à tua janela um pássaro com um papel, não será uma mensagem minha. Nem os pássaros aceitam mais os meus versos.

Felicidade

Felicidade é aquilo que os outros têm.

A doença

Ter adoecido de amor por ti é o que vem me mantendo vivo, para cuidar de minhas feridas como se fossem tesouros que me houvesses legado.

Kama Sutra - XXXIX

Quero o que tiveres de mais salgado e pecaminoso. Embora maus, sei fazer versos líricos e conheço três floriculturas. Posso oferecer-te poemas e rosas ou, se preferires, um gato de espécie exótica. Andarei, se quiseres, de mãos dadas contigo e falaremos de literaturas e filosofias, enquanto houver sol. Mas, quando anoitecer, puxa-me para a grama. Puxa-me, ou puxo-te eu. Puxa-me e ensina-me tudo que tiveres aprendido nos livros de pornografia. Ensina-me, ou ensino-te eu.

Bom dia

Ainda hoje digo bom dia.
Fiz muito isso antigamente
E, inacreditavelmente,
Alguém sempre respondia.

Um poema de Wislawa Szymborska, sobre um sentimento em desuso

AMOR À PRIMEIRA VISTA

"Os dois estão convencidos
de que foi um sentimento súbito que os juntou.
É bela uma certeza como essa,
mas é mais bela a incerteza.

Acham que por não se terem conhecido antes
nunca houve nada entre eles.
E o que diriam as ruas, escadas, corredores,
onde há muito podiam se cruzar?

Queria perguntar-lhes
se não lembram -
na porta giratória talvez
um dia cara a cara?
em meio à multidão um "com licença"?
no telefone a voz "engano?
- mas conheço sua resposta.
Não, não se lembram.

Ficariam surpreendidos de saber
que já faz tempo
o acaso brincava com eles.

Não preparado ainda
a transformar-se para eles num destino,
aproximava-os e os afastava,
cortava-lhes o caminho
e, abafando a gargalhada,
saltava para o lado.

Houve sinais, signos,
só que ilegíveis.
Talvez três anos atrás
ou na terça-feira passada
certa folha voou
de um ombro para o outro?

Houve maçanetas e campainhas,
em que antes
já o toque se punha no toque.
As malas lado a lado no depósito de bagagem.
Talvez, numa certa noite, o mesmo sonho
apagado imediatamente depois de acordar.

Pois cada princípio
é apenas uma continuação,
e o livro de eventos
sempre aberto no meio."

(Do livro "Quatro poetas poloneses", com tradução e prefácio de Henryk Siewierski e José Santiago Naud, publicado pelo Governo do Paraná, com apoio do Consulado Geral da República da Polônia e do Ministério da Cultura da República da Polônia.)

Kama Sutra - XXXVIII

Era já a quarta vez que ela e ele caminhavam pelo parque e naquela tarde, assim como nas três anteriores, parecia que não dariam um passo sequer no rumo que desejavam. Eram irremediavelmente tímidos e falhavam de novo as sugestões sussurradas pela brisa, o toque insinuante dos dedos do sol no corpo dele e no corpo dela, e de nada adiantava a algazarra dos casais de pássaros em suas perseguições amorosas. Sentaram-se no banco, o mesmo em que haviam se sentado nas outras três vezes, e ficaram olhando para as árvores, talvez para ver se não lhes faltava nenhuma folha. Foi então que apareceu a abelha e picou o dedo dela, levando-a a gritar e umedecendo-lhe os olhos. Ele, aflito, a viu cravar os dentes no dedo. "Precisa tirar o veneno", ela explicou e, talvez por essa frase dúbia, que ele interpretou como se fosse dirigida a uma terceira pessoa, talvez pela coragem finalmente despertada pelo desejo, ele apanhou o dedo dela, trouxe-o para a boca e, sem usar os dentes, só os lábios, começou a extrair o veneno. Ele era doce, por vir com um pouco da saliva dela, que um instante depois ele se atreveu a buscar não mais no dedo, mas nos lábios que acolheram os dele com língua e dentes.

Kama Sutra - XXXVII

Quando a amiga de sua mãe, depois de conversar com ela por duas horas, se levantou do sofá e se despediu, o garoto de treze anos esperou que morressem no corredor os ecos dos sapatos e das gargalhadas roucas, e, assim que a mãe foi para a cozinha, ele se esgueirou até o sofá e, pousando a mão onde a mulher estivera sentada, sentiu uma inquietação quente e salgada, uma intuição de sol e mar, um marulho nas entranhas e uma agonia ali onde sua calça tinha raivosa e repentinamente se intumescido.

Com amor, mas com força

Mata-me devagar, não por misericórdia, mas para que eu possa ver ainda uma vez teus olhos, teu rosto, essas mãos que meu pescoço não repelirá e que hão de apertá-lo como se deve apertar o pescoço de um homem para matá-lo, com força, uma força na qual porém, como em tudo que me vem de você, eu encontrarei traços de ternura.

Viaduto

O pior que pode acontecer a um homem é ter perdido tudo, menos o instinto de sobrevivência, pensou ele, mais uma vez debruçado no gradil do viaduto.

Como um chicote

Ainda que fosse
um só
só um
abraço
que fosse
um abraço
que na memória ficasse
e que o coração queimasse
como outro nenhum

Ainda que fosse
um só
só um
beijo
que fosse um beijo
que a alma subvertesse
e a enlouquecesse
como outro nenhum

Ainda que fosse
um só
só um
abraço
e um só
só um
beijo
que fossem
um abraço e um beijo
que fustigassem a alma
e o coração lanhassem
como um chicote açoitando
as costas de dois pecados
as pernas de dois escravos
fugidos e recapturados.

































quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Kama Sutra - XXXVI

Gostaria de ter a mão levada pela cachoeira dos cabelos dela até aquela elevação abrupta, aquela curva repentina abaixo do ventre e, como um menino na montanha-russa, prender o ar, tomar o susto e gritar de prazer com o solavanco e a passagem - ou deixar a mão ali, onde os fios loiros se esparramam para fora da calça jeans, derramando ouro sobre o azul.

Um poema de Wislawa Szymborska, para ocasiões especiais

QUARTO DO SUICIDA

"Vocês devem achar, sem dúvida, que o quarto estava vazio.
Mas lá havia três cadeiras de encosto firmes.
Uma boa lâmpada para afastar a escuridão.
Uma mesa, sobre a mesa uma carteira, jornais.
Buda sereno, Jesus doloroso,
sete elefantes para boa sorte, e na gaveta - um caderno.
Vocês acham que neles não estavam nossos endereços?

Acham que faltavam livros, quadros ou discos?
Mas da parede sorria Saskia com sua flor cordial,
Alegria, a faísca dos deuses,
a corneta consolatória nas mãos negras.
Na estante, Ulisses repousando
depois dos esforços do Canto Cinco.
Os moralistas,
seus nomes em letras douradas
nas lindas lombadas de couro.

E não era sem saída este quarto,
ao menos pela porta,
nem sem vista, ao menos pela janela.
Binóculos de longo alcance no parapeito.
Uma mosca zumbindo - ou seja, ainda viva.

Acham então que talvez uma carta explicava algo.
Mas se eu disser que não havia carta nenhuma -
éramos tantos, os amigos, e todos coubemos
dentro de um envelope vazio encostado num copo."

Um quarteto de Emily Dickinson

"Há Dias que distintos de outros
Mais caros hão de ser.
O Dia em que um Amigo veio
Ou teve de morrer."

(Extraído do livro "A branca voz da solidão", publicado pela Iluminuras; tradução de José Lira.)

A perro viejo todo son pulgas

Cheira postes. Mas o instinto,
Outrora favas contadas,
Só lhe dá pistas erradas,
E seu fogo está extinto.

Tua lembrança

Seja no tempo que for,
Haja comigo o que houver,
Se eu memória ainda tiver,
Te lembrarei com amor.

E como é que eu poderia
Lembrar-me, se assim não fosse,
De alguém que me foi tão doce
E me ensinou a alegria?

De alguém com quem aprendi
Também a arte de sofrer,
De alguém por quem eu vivi,

De alguém que tanto eu amei,
E que sempre, até morrer,
Tão ternamente amarei?

Boa noite

Que seja feliz a tua noite, assim como todos os teus dias. Os meus só serão felizes quando o amor for para mim uma lembrança como a que hoje tem William Shakespeare do dia em que escreveu Romeu e Julieta ou como a saudade que hoje sente Richard Burton da primeira noite que dormiu com Liz Taylor.

Um poema de Emily Dickinson

"Um Tigre a agonizar - gemeu por Água -
Todo o areal corri -
Vi uma Gota numa Pedra -
Na Mão a recolhi.

Seus Fortes Glóbulos ficaram turvos -
Já lhe chegara o fim -
Mas na Retina ainda vi a Imagem
Da Água - e de mim -

Não tive culpa - eu que fui lenta -
Nem ele - que morreu
Antes que eu retornasse - mas o fato
É que o Tigre morreu -"

(Do livro "A branca voz da solidão", poemas de Emily Dickinson, traduzido por José Lira e publicado pela Iluminuras.)

Amor mesmo

Descobriu que a ama, mesmo, quando, ao notar nos braços dela um início de celulite, decidiu que era visão de óptica.

Kama Sutra - XXXV

Sempre que passa pela mesa dela, sopra-lhe a nuca. Faz isso há uma semana já e, desde o primeiro sopro, ele e ela não se disseram uma palavra, embora há três anos trabalhem na mesma sala e antes conversassem com frequência e agrado. Os dois sabem que há alguma coisa em andamento e pressentem que esperar por ela será melhor do que tê-la. Entre a nuca e a boca a distância vai ficando cada vez menor.

Kama Sutra - XXXIV

Ela diz que vai tomar um banho bem rápido, e ele, como toda manhã nos últimos três meses, quando ela deu início ao hábito, vai bebericando o café enquanto, da parte de cima da casa, ouve a água do chuveiro chovendo nos ladrilhos. O banho bem rápido, ele já sabe, durará mais de vinte minutos, tempo superior ao do banho noturno e suficiente, a mulher deve achar, para acender nele o que à noite acende. De vez em quando, pela porta aberta do banheiro ela avisará a ele, embaixo, que a água está uma delícia, esperando que, como à noite, ele vá fazer-lhe companhia. Ele gosta da mulher ainda, como há doze anos, mas não sabe se gosta a ponto de inserir na rotina do casamento um banho que, de manhã, talvez porque já lhe falte algo da flama original, ele costuma tomar sem outras intenções. Daqui a pouco ela descerá de calcinha e sutiã, passará meticulosamente geleia numa torrada antes de lambê-la e, com sua voz que de três meses para cá é tão lânguida quanto a da noite, dirá: "Ai, que gostoso um cafezinho depois de um banho." Ele levará a xícara para a pia e, quando estiver subindo a escada para o seu banho, ouvirá: "Se você quer, eu vou também."

Parvoíce

Quando o coração reuni
E a alma, para entregar-vos,
Sei hoje que procedi
Como procedem os parvos.

Bom dia

Numa dessas ruas perto da tua, há um ano ou há uma década, um poeta tristonho, vendo numa das janelas superiores uma mulher de cabelos derramados em cachoeira, disse-lhe, com o coração subitamente afogueado pela paixão, um bom-dia tão fraco e tão tímido que as duas palavras, sem força para subir até onde a mulher estava, ficaram no galho de uma árvore próxima de tua casa. O poeta passou mais algumas vezes por ali, mas, jamais tendo a felicidade de ver a mulher, mudou seu rumo. As duas palavras ficaram no galho, como se flores fossem, até que hoje um bem-te-vi as recolheu e as leva agora à janela onde talvez estejas. Acolhe-as, que estão orvalhadas por muitos serenos, e leva-as ao peito, para aquecê-las.

Kama Sutra - XXXIII

Talvez não acontecesse nada se ela não se debruçasse sobre a amiga que, sentada, lhe mostrava algo que depois nenhuma lembrou o que era. Talvez a amiga não lhe estivesse mostrando nada e o impulso de debruçar-se sobre ela tivesse nascido do perfume que seus cabelos exalavam. Talvez não houvesse acontecido nada se ela, ao debruçar-se, não tivesse pousado os seios no duro encosto da cadeira. Ela gemeu de dor, ai, e no instante seguinte, como se fosse um filme do qual algumas cenas tivessem sido cortadas ou passado depressa demais, as duas estavam já em pé, abraçadas, e a amiga gemia também, ai, ai, como se estivesse com os seios apertados não contra os seios dela, mas sobre o encosto da cadeira. Lábios contra lábios, elas se confessaram que desde quando eram colegas de faculdade, cinco anos antes, haviam tido, ainda que vagamente, aquele desejo. Se não houvesse acontecido o abraço e o contato palpitante dos seios, a amizade entre as duas seria daquelas comuns, esporádicas, e não como é hoje: dois encontros semanais, ora na casa de uma, ora no apartamento da outra, começando sempre os ritos amorosos, que chegam a se alongar por duas horas, com uma delas sentada, mostrando algo que cada vez é uma coisa nova, para que a outra, excitada pela curiosidade, se debruce sobre ela e se ponha a beijar seus cabelos perfumados.

Kama Sutra - XXXII

Quando foi recolher a roupa no varal, notou que na parte de baixo da calcinha branca uma abelha zumbia, esvoaçava e voltava a zumbir, sempre no mesmo ponto. Uma mornidão, como se o sol do quintal a estivesse lambendo, fixou-se no seu ventre e começou a lhe descer pelas coxas, como se a abelha houvesse desistido da calcinha e estivesse agora na calça jeans que vestia, e zumbisse, e esvoaçasse, e avançasse e recuasse, buscando um pouco mais de embriaguez ali onde o dedo já se dispunha a abrir o zíper.

Voz

Me falta ouvir tua voz,
Feitiço doce de maga
Que me perturba e me embriaga
Como o mais puro dos pós.

Kama Sutra - XXXI

No sonho, ajoelhado e com tua espada sobre minha cabeça, eu implorava não que me nomeasses teu cavaleiro, mas que me decapitasses e o fizesses devagar, para que eu gozasse o supremo gozo de estar submetido a ti, antes que, com a manhã e o sol, me voltasse a consciência e eu, expulso do sonho, me visse irremediavelmente salvo e só.

"A arte de perder", poema de Elizabeth Bishop

"A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subsequente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda. Pois é evidente/
que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério."

(Do livro "O iceberg imaginário e outros poemas", tradução de Paulo Henriques Britto, publicação da Companhias das Letras.)

Descrença

Que leitor acreditará em mim como escritor, se ao exprimir o que eu tenho de mais puro, obstinado e veemente - meu amor por ti - não crês numa palavra sequer?

Temporão

Agora que minha vida chegou ao inverno, meu coração desandou a amar como se estivesse nascendo nele a mais ensandecida das primaveras.

A causa

Sinto-me como se fosse um fanático disposto a viver e a morrer por uma causa. Tenho visões como os santos, vertigens, como as noviças, ímpetos de todo tipo. Já me disseram que nos meus olhos há um brilho divino. Já me disseram que nos meus olhos há um fulgor satânico. Às vezes tenho vontade de me ajoelhar e rezar, às vezes penso em atar no meu corpo uma carga de explosivos. Meu fanatismo é o fanatismo das grandes causas. Minha causa é o amor.

Feridas do coração

Não me queixo de Deus. Se ele fosse misericordioso, te apagaria de minha memória. E como eu poderia viver sem esta agonia, sem esta aflição, sem este suplício que tua ausência me traz? Abandonado há muito pela esperança, o que eu faria sem esta agonia, sem esta aflição, sem este suplício que, apesar de tudo, quando me rasgam o coração, deixam nas feridas um pouco da antiga doçura?

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Boa madrugada

Que navegues pela madrugada num daqueles barcos bem antigos, de desenho infantil. Que o mar por onde irá o barco seja também um mar velho, pachorrento, que tenha perdido a memória e não saiba mais como se fazem ondas. Que tu e tua cachorrinha mais querida se revezem no leme e só se queixem quando, querendo catar peixinhos, apanharem apenas estrelas brincalhonas nadando nuas.

Kama Sutra - XXX

Axilas só lhe causam comoção quando providas de pelos. Tem trinta e cinco anos e estava com doze quando, numa fazenda, viu uma lavradora robusta e já não muito jovem que desbastava capim com uma enxada. Ela usava uma camisa de mangas curtas e largas e, a cada golpe que dava, deixava à mostra a negra vegetação dos sovacos. Depois de observá-la por uns cinco minutos, ele teve uma tontura, atribuída pelos adultos ao sol. Mas sabe, desde esse dia, como o perturbam axilas femininas peludas. Só de pensar nelas tem frêmitos na espinha e, se calha de no corrimão do metrô ver num braço de mulher erguido essa riqueza que a maioria delas oculta, precisa afastar logo a visão, para que a luxúria não o enlouqueça e não lhe cause problemas, como já uma vez aconteceu. Desde os doze anos acha que as axilas femininas deveriam ter um furo, uma brecha, ainda que pequena, um orifício, uma entrada.

"Cadela rosada", poema de Elizabeth Bishop

"Cadela Rosada

(Rio de Janeiro)


Sol forte, céu azul. O Rio sua.
Praia apinhada de barracas. Nua,
passo apressado, você cruza a rua.

Nunca vi um cão tão nu, tão sem nada,
sem pelo, pele tão avermelhada...
Quem a vê até troca de calçada.

Têm medo de raiva. Mas isso não
é hidrofobia - é sarna. O olhar é são
e esperto. E os seus filhotes, onde estão?

(Tetas cheias de leite). Em que favela
você os escondeu, em que ruela
pra viver sua vida de cadela?

Voce não sabia? Deu no jornal:
pra resolver o problema social,
estão jogando os mendigos num canal.

E não são só os pedintes os lançados
no rio da Guarda: idiotas, aleijados,
vagabundos, alcoólatras, drogados.

Se fazem isso com gente, os estúpidos,
com pernetas ou bípedes, sem escrúpulos,
o que não fariam com um quadrúpede?

A piada mais contada hoje em dia
é que os mendigos, em vez de comida,
andam comprando boias salva-vidas.

Você, no estado em que está, com esses peitos,
jogada no rio, afundava feito
parafuso. Falando sério, o jeito

mesmo é vestir alguma fantasia.
Não dá pra você ficar por aí à
toa com essa cara. Você devia

pôr uma máscara qualquer. Que tal?
Até a quarta-feira, é Carnaval!
Dance um samba! Abaixo o baixo-astral!

Dizem que o Carnaval está acabando,
culpa do rádio, dos americanos...
Dizem a mesma bobagem todo ano.

O Carnaval está cada vez melhor!
Agora, um cão pelado é mesmo um horror...
Vamos, se fantasie! A-lá-lá-ô...!"

(Extraído do livro "Iceberg imaginário e outros poemas", publicado pela Companhia das Letras. Na tradução, Paulo Henriques Britto mostra sua sensibilidade, ele que é também poeta, e encontra maravilhosas soluções para transmitir ao leitor a grandeza lírica de Elizabeth Bishop. Um notável exemplo é o das rimas do décimo terceto: "fantasia", "por aí à" e "devia".)




N

Boa noite

Digo-te boa noite como quem diz boa noite ao melhor amigo. Gostaria de dar-te esse boa-noite com um sorriso ou dois, que - por serem hoje tão raros em mim - talvez pudessem te fazer compreender quanto eles dependem de ti. Quem dera que esse um, que esses dois sorrisos te fizessem sorrir também. E quem dera que os meus sorrisos aprendessem afinal, com os teus, a ser tão generosos e francos quanto devem ser os sorrisos de dois amigos que se dizem boa noite.

Kama Sutra - XXIX

"Há outras maneiras de me dar amor", ela lhe disse, mais uma vez. Mas continuava a apalpá-lo ali, onde outrora havia estado a flama.

Kama Sutra - XXVIII

Ela sonha com homens de peito peludo, pernas hirsutas e barba eriçada que possam lhe marcar e demarcar todo o corpo antes de, bem no centro dele, cravar o marco de sua posse.

Kama Sutra - XXVII

Toda manhã, ao vê-la no escritório, tem vontade de dizer o que faz com ela no sonho que todas as noites se repete. E fica pensando em perguntar, mas jamais encontra coragem, se ela tem mesmo, no umbigo, a pequena pérola por onde ele, invariavelmente, começa seu ritual de amor.

Kama Sutra - XXVI

Guarda teus frutos para quem tem força ainda para colhê-los. Minhas mãos estão hoje tão débeis que, se te tocarem, te perguntarás por que a brisa tão delicadamente te percorre. Guarda teus frutos para as bocas rudes e os dentes fortes, para as línguas que possam deixar dentro de tua boca palavras ansiosas e incitações de gozo.

Kama Sutra - XXV

Eu esvaziaria lentamente a jarra de água morna em teus pés, punhadinho a punhadinho, até que mais uma vez não resistisses e, abusando de minha condição de escravo, me levasses para o teu leito de seda e te deitasses ao meu lado, para o nosso pecado diário sob a imagem do santo na cabeceira.

Bom dia

Te digo bom dia. Não responderás, como nunca respondeste. Eu te entendo. Eu mesmo, se me encontrasse na rua, desviaria os olhos de mim, desta humilhada figura que não sabe o que faz no mundo, me esquivaria de ver a derrota nos meus olhos, e nem me diria bom dia nem responderia.

Abstinência

Não acredites se te disserem que mudei. E, se for eu a te dizer, deves descrer mais ainda. Durante o dia, e à tarde, ainda me contenho. À noite, minha imaginação enferma te procura em todos os cantos, em todos os pontos, em todos os lugares, como um viciado buscando, com o dinheiro furtado ao avô tuberculoso, alívio para o seu desespero e a sua vontade de morrer.

Aquele porco

Aquele ser abjeto, aquele porco tomava cerveja e, eructando depois de cada gole, dizia a outro, tão porco quanto ele, que são idiotas todos os que se matam por amor.

Um poema de Emily Dickinson

É tudo que hoje tenho para dar-te -
Isto - e meu coração -
Isto, e meu coração, e mais os campos
E prados na amplidão -
Não te percas na conta - se eu esqueço
Alguém tem de lembrar -
Isto - e meu coração - e cada Abelha
Que no Trevo morar.

(Do livro "Branca voz da solidão", traduzido por José Lira e publicado pela Iluminuras.)

Não me ouças mais

Não ouças mais meus apelos,
Aqueles que um dia a ti,
Por minha honra prometi
Jamais na vida fazê-los.

Não me ouças mais. O que falo,
Ainda que sob juramento,
Melhor seria se o vento
Viesse para dispersá-lo.

Não ouças mais quando digo
Que só em ti e contigo
Terei a felicidade.

Nem creias quando proclamo
Que mais do que tudo eu te amo
(Embora seja verdade).

Para sermos

Deus me criou para ser
Teu servo enquanto viveres.
Deus te criou para seres
Meu sol enquanto eu viver.

Preservação (para Frida Costello)

Por prazer
por lazer
para comer
por tudo e por nada
matamos o lobo
e o cordeiro
com o tiro certeiro
e a faca afiada

Tudo que pudemos
fizemos
para destruir
para dizimar
para extinguir

E depois da destruição
da dizimação
e da extinção
preocupados com o dia
em que não haveria
mais animal nenhum
para destruir
para dizimar
para extinguir
nos congregamos
numa causa comum
e a bandeira levantamos
da conservação

E com que empenho
a desfraldamos
a defendemos
e a empunhamos

Ah como nos admirariam
ah como diferentes nos veriam
ah como nos perdoariam
aqueles todos que nós destruímos
aqueles todos que nós extinguimos
aqueles todos que nós dizimamos.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Boa madrugada

Que as brancas ovelhas não se recusem a vir, e que venham lentas hoje, mais do que nunca, e também lentas passem, para que, embora te seja agradável vê-las, tu possas, antes de contar trinta ou quarenta, sentir já o sono começando a te fechar maciamente os olhos. Que durmas como mereces dormir, como deve dormir quem ama e é amado. Que durmas apaziguada. Foi cansativo o teu dia, parecia que não terias um minuto sequer para o teu amor, mas uma vez mais tu conseguiste. Foste louca na estrada, correste, mas quem não correria, ainda que fosse só para obter um carinho, um afago nos cabelos ou um beijinho na ponta do nariz? Abençoado esse para quem corres, para quem mudas tudo, para quem te preparas, para quem teclas o celular enquanto as placas de 120 km vão passando. Nele, apenas, e em mais ninguém deves pensar, a ele e a ninguém mais deves prestar contas dos teus dias. Amanhã talvez te lembres de que um amigo te escreveu ontem e prometeste responder. Talvez ele volte a te escrever e deixe no ar uma pequena queixa. Dirás a ele, se algo disseres, que estiveste muito ocupada com um sério problema e que, para poupá-lo de preocupações e de uma possível solidariedade, não contarás qual foi. Estarás certa. Que é um amigo quando o coração bate como bate o teu por um amor? Eu faria isso mesmo, também, se meu coração estivesse assim enlouquecido, se ele batesse tão alucinadamente por alguém. Eu me atiraria também insanamente às estradas, engolindo todas as placas e todas as distâncias para chegar, ainda que fosse só um minuto antes, ao encontro com alguém que fosse tão preciosa quanto tu és.

Tramas

Quem te fez suave assim, por que não te fez para o meu tato? Quem te fez assim doce, para quem te fez, se não foi para mim? Minhas mãos e meus lábios para quem foram feitos, se não para ti? Se os deuses nos põem em suas tramas, é para escarnecer de nós.

Um poema de Emily Dickinson

Esperar uma Hora - é muito -
Se perto está o Amor -
Mas esperar a Eternidade - é pouco -
Se o Prêmio ele for -

(Do livro "Branca voz da solidão", traduzido por José Lira e publicado pela Iluminuras.)

Kama Sutra - XXIV

Assim, assim, ele ordena à mão e concentra-se em pensar que também ela, subindo e descendo amorosamente com seus dedos afáveis, é da mulher que, deitada nua nas páginas duplas da revista e com a língua no lábio superior, o incita a continuar.

Kama Sutra - XXIII

É fascinado pelas orelhas dela, embora reconheça não haver nelas nada que as diferencie da maioria das outras. Observa-as porém, sempre que pode, e quando o faz imagina, com a língua palpitando como uma víbora, que gosto terá a cera que elas guardam.

Boa noite

Que no momento do êxtase o rosto dele se transfigure subitamente diante dos teus olhos e que tu, ao invés dele, me vejas sobre ti, com a minha fealdade e o meu despeitado ressentimento.

Leoa jovem

Leoa jovem
leoa menina
tu me farejaste
uma tarde
na verde campina
por onde eu arrastava
meu cansaço de viver
e minha carne mofina

Era primavera
ao menos para ti era
leoa menina

Eu carregava o inverno
em mim
meu inverno de cervo envelhecido
ansiando pelo fim
e pelo olvido

Tu me farejaste
e por um embuste do cheiro
me seguiste
e sobre mim te lançaste
como se eu fosse um cordeiro

Grande foi o nojo
com que as garras
que em mim cravaste
de mim desencravaste
e as lavaste no ribeiro

Tu te foste
jovem leoa
leoa menina
e rejeitado por ti
vou me arrastando
esperando que
um dia se condoam de mim
e me deem fim
as aves de rapina.

Kama Sutra - XXII

Em alguma encarnação, fui aquele vassalo que pela passagem secreta introduzias no teu leito quando teu rei não estava. Por um autoplágio do destino, sou novamente o vassalo que fazes entrar furtivamente quando teu homem não está. Mas hoje, avara do teu corpo e viciada em uma prática oriental, permites só que eu te dispa e faça correr por ele, enquanto te apraz, uma delicada pena de ave, para cima, para baixo, para um lado, para o outro, para dentro.

Poetastro

Grandioso foi seu amor, mas ele o exprimiu em tão deploráveis versos que mais pareciam um compromisso de compra e venda redigido por um tabelião.

Bom dia

Bom dia para ti. Que recebas o que mereces: tudo, e talvez um pouco mais. Que a mim se dê também o que me é devido: nada, e quem sabe ainda menos.

Nunca mais

Jamais recuperaremos
As tardes que não tivemos,
O tempo que nós perdemos,
Os beijos que não nos demos.

Kama Sutra - XXI

Beber água de tuas mãos em concha e, depois de bebê-la, deixar ainda por um momento uma aspereza de língua em tuas palmas, para que não me consideres mais tolo ainda do que sou.

Disfarce

Uso às vezes a terceira pessoa, para não saberem que todo o tempo sou eu aqui falando, e falando apenas de ti.

Os mártires

No sofrimento, no suplício e no tormento está o gozo maior do amor. Tão intenso êxtase as chagas do amor provocam que alguns, não suportando suas delícias, se matam. Dos lábios desses felizes mártires nem a morte consegue apagar o sorriso de quem conheceu a maior ventura que a vida pode proporcionar a um homem.

Dói, amor

A dor que tu propicias,
Amor, ao meu coração,
É hoje a causa, a razão
E a aspiração dos meus dias.

Os espinhos que me enfias
Com tua afetuosa mão
Me sangram de acre paixão
E lânguidas agonias.

Que aquelas tuas venturas
E tuas tantas doçuras,
Chegadas tão cedo ao fim,

Persistam em mim vivendo
E doam, porque doendo
Sinto-as mais vivas em mim.


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Boa noite

Que durmas com a doce canção dos grilos e o suave assobio do mato. Que não tenhas medo do sapo agourento, menina, nem do saci, nem da mula sem cabeça. Que do arroio (há arroio aí, menina?) venha uma antiga canção de lavadeiras e que possas, se abrires a porta sorrateiramente, ver as estrelas debruçadas sobre a tua casa, tentando descobrir se és mesmo tão bela quanto disseram a elas. Que Deus te proteja de tudo, até de minha inquietação, que procurará um furo no teu sonho, para habitá-lo, ainda que seja como o mais humilde dos objetos, que nem chegarás a notar ou tocar.

Bom dia

São cada vez mais fracas as palavras com que te digo bom dia. Morta a esperança que as animou, elas murcharam também, e é triste vê-las no papel, espectros do que foram, arrastando-se como uma legião de leprosos ou moribundos. O pássaro que as levava para ti, envergonhado de portá-las, trouxe para substituí-lo um velho muito velho, seu avô talvez, que no bico não tem força nem mais para catar grãos na calçada. Ia pedir-te que lesses as mensagens antigas, mas também nelas as palavras decerto já estarão tão mortas quanto estas, tão dessangradas quanto eu.

Feitiço

Ainda que não as ouças, continuarei a dirigir-te as mais ternas palavras. Eu as aprendi para dizê-las a ti e elas já não aceitariam que eu as dissesse a mais ninguém. Elas rondam meus lábios a todas as horas do dia e da noite e insistem para que eu as pronuncie. Se por acaso as ouvires, não as culpes, nem a mim. Tu me enfeitiçaste, tu as enfeitiçaste - e nem elas nem eu, ainda que pudéssemos, gostaríamos de livrar-nos do teu feitiço.

Para A, em resposta ao seu comentário

Minha terra tem Corinthians, onde canta o sabiá.

Hoje teus frutos

Havia frutos que não devias tocar, e tuas mãos jovens invejavam a brisa que os tocava. Nos sonhos tuas mãos os tocavam, teus dentes os mordiam, tua língua se deleitava com o sumo, teus dedos apalpavam o sol que havia ainda em suas cascas. Quando acordavas, entre os teus dedos escorria o leite do pecado. Hoje há frutos que não podes provar e, se com eles sonhas, ao acordar olhas em vão para os teus dedos secos, e o gosto que tens nos lábios é ácido, amargo e triste.

Eu me afligia

Eu me afligia ao imaginar onde estavas, e o meu ciúme te espreitava em Tóquio, te localizava em Istambul, te descobria em Teerã, te seguia pelas ramblas de Barcelona e pelas ruas de Amsterdã. Meu coração te acompanhava nos teus check-ins e, confuso com os fusos, não sabendo se era dia ou noite, dia e noite se supliciava. Eu me afligia ao imaginar um comandante dizendo-te bem-vinda a bordo, um maître curvando-se para ti, um recepcionista de hotel sorrindo-te - e todos tão gentis, tão simpáticos, tão belos, ai de mim. Eu me afligia muito, eu me afligia atrozmente, eu me afligia tanto, tanto, porém não tanto nem tão atrozmente quanto agora.

domingo, 19 de agosto de 2012

Tesouro meu

Tesouro meu, minha vida,
Por que de mim sempre escapas?
Onde estás, minha querida,
Onde se escondem teus mapas?

Bom dia

Todo domingo, por definição, deveria ser um dia ensolarado, como este. E quem quisesse desejar bom dia a alguém deveria usar palavras também ensolaradas e, se soubesse escrever nas entrelinhas, deveria preenchê-las com passarinhos e borboletas. Eu, canhestro escrevinhador afeito a palavras sombrias e desabituado a percorrer entrelinhas, só posso desejar que teu domingo tenha o esplendor e a alegria que minhas palavras certamente não têm. E que, por onde passares, vejas borboletas e passarinhos libertos das entrelinhas. Bom dia

Nos teus sonhos

Gostaria de me insinuar em teus sonhos e neles ser água para a tua sede. Ah, que desertos atravessarias, ah, que sede terias se eu entrasse em teus sonhos.

Infantil

Me agradaria ser um carneirinho branco, bem branquinho, correndo para a minha dona, desde que a minha dona fosses tu.

Sacrilégio

Às vezes penso que sacrilégio seria pegar a caneta e escrever uma palavra em uma das folhas da agenda que me deste. Mesmo que essa palavra fosse Deus.

Morto-vivo

Foi tanto amor, tanto, tanto,
Que por amar-te morri.
Faz muito tempo e no entanto
Eu ainda chamo por ti.

Te chamo como chamava
Na época em que te dizia
Que apenas a ti amava
E apenas por ti vivia.

Te chamo ainda, te chamo
Para dizer-te que te amo
Mais do que nunca amei. Mas,

Se vivo fui ignorado,
Agora, morto e enterrado,
Por que razão me ouvirás?

Kama Sutra XXI

Havia uma saliência na capa do livro, e o homem ficou observando a mulher que, com o dedo, tentava tirá-la. Estava silenciosa aquela parte da livraria, a de literatura estrangeira, e o ruído da unha no papel, insistente e uniforme, o fez imaginar se aquele seria o dedo predileto da mulher quando se entregasse às suas fantasias. Ela raspou, raspou e, não lhe parecendo satisfatório o resultado, chamou o atendente, que se prontificou a buscar no estoque outro exemplar. Depois que a mulher se dirigiu com o romance ao caixa, o homem pegou o exemplar rejeitado e começou a passar a unha na saliência. Enquanto procurava reproduzir o ritmo regular e o ruído áspero que tinha ouvido minutos antes, imaginava se seriam aquele o ritmo e o ruído que talvez levassem a mulher a gemer, a suspirar, a morder o lábio, a fechar os olhos, agemeresuspirar, a ge e a sus.

sábado, 18 de agosto de 2012

Boa noite - II

Digo-te outra vez boa noite, porque minhas palavras só se sentem felizes quando se dirigem a ti. Elas me pediram que tu lhes concedas perdão por serem tão pobres e repetitivas, mas a culpa é minha, e do meu coração, que sentem sempre o mesmo por ti.

Objetos

Alguns dias eu pego os objetos com que me presenteaste e toco neles como se toca numa porcelana preciosa. E os livros, o estojo, os lápis, a agenda, o álbum com as gravuras em que inventaste o azul deixam em meus olhos e em minhas mãos aquilo que, por não conhecer palavra melhor, eu chamo de beatitude.

Toque

Se eu a tivesse tocado,
Tão leve eu a tocaria
Que você me julgaria
Um santo ou um abobado.

Tão doce

Morrer por ti seria tão doce que no bilhete de despedida eu seria cínico se me queixasse. Morrer por ti deveria ser algo que eu pudesse fazer todos os dias, assim como todos os dias vivo por ti.

Boa noite

Digo-te boa noite com a certeza de que a terás. Nenhum outro dia sabe urdir noites como as de sábado. Nelas há sempre algo morno, algo que afrouxa o corpo, uma embriaguez dos sentidos, um desejo de dar-se ao afeto, de entregar-se a ele, de lhe pertencer. Tudo assume uma sensualidade que sopra provocativamente os pelos do corpo e acende fogachos juvenis na alma. O resvalar de um braço, o toque ainda que casual de um dedo, um sorriso entre dois olhares oblíquos, tudo desperta em nós uma inquietação adolescente, uma premência quase sexual. Nas noites de sábado a vida parece tão melhor que é um pecado não aproveitá-las. Que aproveites a tua hoje e que, se em algum momento pensares em mim - talvez quando tomares o café ou passar por ti alguém com um livro -, que seja só isso mesmo, um momento, nada mais que isso, uma lembrança fugaz de alguém que possas ainda, embora eu não mereça, considerar um amigo.

Para a Pat, no seu dia

São venturosas aquelas
Que rosas indo escolher
Podem, como tu, colher
Cinquenta e uma - e tão belas.

Teus cabelos

No sonho eu, com uma sede que me secava as entranhas, vi repentinamente ao alcance dos meus lábios aflitos um riacho que fluía preguiçosamente. Eram teus cabelos que, apesar de dourados pelo sol, se revelaram frescos e frios ao toque de minhas mãos. Mergulhei neles a boca e bebi longamente. Havia um gosto bom de terra, de sol e de vento na água dos teus cabelos, mas eu não estranhei. Que outro gosto poderia ter a água de uma cachoeira?

Quando me mataste

Tu me mataste na tarde em que te despediste de mim e tomaste rumo oposto ao meu. Quando morri, já estavas duas ou três ruas além, e isso - que poderia ter sido teu álibi - é aquilo que te incrimina. Morte original, a minha. Morri de distância, daquela distância que foste fazendo crescer entre nós naquela tarde. Não sei quantos passos teus me mataram, mas quando te despediste eu já sabia que estavas me matando. Tu também sabias. Não me viste chorar quando olhaste para trás e me deste o teu último aceno?

Nossa linguagem

Não bramimos
nem rugimos

Nossa linguagem feita
de fonemas
e de morfemas
floresce
em poemas
e poesia parece
até nossa
mais disparatada algaravia

Não bramimos
nem rugimos

Somos lógicos
e racionais
a última palavra
o ponto mais alto
na escala dos animais

Desde que nascemos
a Terra tem sido nossa
e nossa sempre será
por esse direito adquirido
e mantido
por tantas gerações

Hoje somos soberanos
ninguém nos contesta
sabem todos que
é nossa terra esta
e tudo que nela há

Mas no início
bramiram
rugiram
quiseram nos expulsar

Não bramimos
nem rugimos
mas nossa linguagem superior
a das palavras
e a das armas
lhes ensinou
qual era o deles
e qual o nosso lugar

Alguns desses
que bramiram
e rugiram
nós os conservamos
para nos recrear
para nos distrair

Estalamos o chicote
e para nos agradar
eles se põem
a bramir
e a rugir.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Boa noite

Digo-te boa noite e gostaria de não dizer mais nada - nem agora, nem nunca. Digo-te boa noite, boa noite, boa noite, e gostaria de ficar dizendo boa noite pela madrugada adentro, pelo dia afora. Continuar dizendo boa noite, boa noite, boa noite, como se essas fossem as únicas palavras que eu tivesse aprendido um dia e descobrisse que as aprendi só para dizê-las a ti hoje. Gostaria que meus lábios, como se fossem uma engenhoca eletrônica, travassem nesse boa-noite e ficassem a repeti-lo dias e dias, meses e meses, e anos, muitos, muitos. Que o fenômeno fosse tão contundente e repercutisse tanto que viessem ver-me especialistas de várias áreas, linguístas, pesquisadores paranormais, fisiólogos, exorcistas. Que multidões se reunissem e que um empresário astuto resolvesse cobrar ingressos e que a procura tumultuada e febril obrigasse a venda a ser feita pela internet. Que o número de acessos na rede ultrapassasse três milhões em seis meses e que os advogados do meu empresário acionassem na Justiça qualquer pessoa que em qualquer parte do mundo, e em qualquer idioma, dissesse boa noite. Que aparecessem impostores tentando impingir seus bons-dias e boas-tardes como se fossem iguais ao meu boa-noite. E que todos fossem humilhados e lançados à execração. Que repórteres de todo o planeta tentassem me entrevistar e que eu, restrito à minha doce tarefa, só pudesse dizer-lhes boa noite, boa noite, boa noite. Que lançassem sobre mim a suspeita de ser robô e me examinassem à procura de parafusos e placas de metal. Que, quando ninguém tivessse mais esperança de desvendar o mistério, eu, em certa madrugada, repentinamente gritasse as duas palavras e acrescentasse a elas um nome que depois muitas mulheres diriam ser o delas, mas que tu, mais que ninguém, saberias não ser. E que eu tivesse a ventura de dizer e continuar dizendo essas três palavras até o último dos meus dias. Boa noite, Zelda.

Bom dia

Não te disse bom dia ontem. Não recebê-lo não te fez falta, imagino, mas não ter podido mandá-lo me pesa como uma falha, e é: dizer-te bom dia é o mais grato e o principal item na agenda do meu coração. Mando-o agora, junto com este, e, se na contabilidade sentimental coubessem juros, eu os pagaria de bom grado. Mas a minha linguagem tem sido tão falha e tão inepta que talvez prefiras receber só este pagamento simples, que faço entretanto com a pureza e o júbilo que sentiria um menino que finalmente tivesse conseguido o dinheiro para uma volta na roda-gigante, de preferência à noite, para tentar apanhar não uma, mas um punhadinho de estrelas que talvez aceitasses com um sorriso e uma ou duas palavras que reavivassem em meus tristes ouvidos a rica lembrança de tua voz. Bom dia

Foto pericial 6

Um pouco acima da marca da corda, havia outra, talvez de uma cirurgia ou de uma tentativa anterior.

Foto pericial 5

O botão que faltava na calça do suicida e o fazia parecer desleixado foi recolhido depois no chão por um perito (ver foto 5A).

Foto pericial 4

Os pés, quase se soltando dos sapatos, davam a impressão de não pertencer ao enforcado.

Foto pericial 3

Paradoxalmente, o laço da gravata do enforcado estava frouxo.

Foto pericial 2

Do bolso do paletó do enforcado parecia querer sair uma folha de papel em que, depois se verificou, havia um soneto rabiscado.

Foto pericial 1

Pendurado na corda, não parecia mais aquele cujos olhos luziam quando o assunto era o amor.
































quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Boa madrugada - II

Em tudo que te digo há invariavelmente uma incapacidade tão grande de te dizer o que realmente quero que sou tentado sempre a fazer ressalvas e acréscimos. Esta é mais uma ressalva e um acréscimo. Quando te desejei uma boa madrugada, queria desejar-te mais do que isso, desejaria dizer-te de novo, mais uma vez, o que tantas vezes disse sem transmitir a flama que me animava. Como seria bom que me ajudasses e lesses nas entrelinhas e descobrisses afinal que o que te digo pode ser dito sem brilho, mas é, de todas as verdades de minha vida, aquela que eu jamais gostaria de ver posta em dúvida. Que essa verdade soe um dia como devem soar as verdades. Quem sabe hoje, talvez nunca. Esperar é a maior virtude dos desesperançados.

Boa madrugada

Desejo-te uma boa madrugada. Andei pelas nuvens, num avião que me levou para longe de ti, e tão triste eu estava que ele se condoeu e me trouxe de volta. Posso imaginar agora, como tantas vezes, que respiro o mesmo ar que respiras, e isso me traz uma emoção, uma comoção que me fazem abrir a janela. É este, sim, o cheiro de São Paulo, que foi minha cidade amada por tanto tempo e por muitos motivos e que hoje é minha cidade amada porque nela vives e é onde posso me sentir mais perto de ti. Que melhor motivo pode ter um homem para amar uma cidade? Para que durmas tranquila, não gritarei daqui os meus versos alucinados, embora fosse minha vontade ir caminhando pelas ruas até chegar à tua e ser expulso pelo guarda-noturno e tuas cachorrinhas enciumadas.

Substituto

Já perto agora do fim
Não falarei mais do amor.
Falei já muito, com ardor,
Ele que fale por mim.

Cobiça

Adeus à messe dourada.
O homem cobiçoso espreita
E, à mão ou mecanizada,
Já se prepara a colheita.

Na derradeira manhã
As aves, por ignorar
Como será o amanhã
Não param de gorjear.

Porém o sol, que pressente
Que é tempo de despedida,
Expõe-se completamente

Para que os frutos, embora
No último dia de vida
Brilhem ainda como outrora.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Bom dia II

Porque aos lesos de juízo costuma desculpar-se a falta de memória (ou a repetição de expressões e frases), te digo novamente bom dia, se possível com mais afeto. E, porque aos doidos e aos poetas (e aos doidos metidos a poetas) se hão de dar os devidos e os indevidos descontos, ouso redizer-te bom dia como se essas fossem duas palavras descobertas por mim agora, frescas, quentes e cheirosas como o teu café da manhã, cujo sabor pareço sentir aqui, como se o estivesses oferecendo a um amigo que inacreditavelmente, e miraculosamente, fosse eu.

Bom dia

Dizer-te bom dia porque, embora tivesse sido tentado a te dizer boa madrugada, não disse. Seria doce desejar-te boa madrugada enquanto talvez estivesses sonhando que passeavas por um lugar daqueles que só nos sonhos existem, um lugar daqueles em que só costumam ser aceitas as crianças bem-comportadas e as mulheres sonhadoras. Dizer-te bom dia como se fosse a primeira vez. Dizer-te bom dia como se tivesse te conhecido hoje e não soubesse o que virias a representar para mim. Dizer-te bom dia sem ansiedade, sem a vontade de parecer para ti mais do que sou, sem a necessidade de buscar e rebuscar palavras. Dizer-te bom dia como se eu não soubesse ainda coisa nenhuma da vida ou só soubesse as coisas belas. Dizer-te bom dia com o meu melhor coração, o coração de ontem, aquele que - de tanto mudar pensando em fazer-me melhor para ti - tornei odioso. Dizer-te bom dia como se tivesse pedido para ser teu amigo e tu me tivesses aceitado. Dizer-te bom dia e ir me afastando, para que não visses minhas lágrimas e meu sorriso. Dizer-te bom dia para que não desconfiasses, pelas lágrimas e pelo sorriso, que aconteceu comigo uma daquelas pequenas epifanias de que falava Caio Fernando Abreu e que são as mais belas, as mais puras e as únicas epifanias. Dizer-te bom dia e não contar-te (porque descobririas sozinha) que dizer-te bom dia é o que ainda me leva a levantar-me de manhã como se fosse alguém que tem algo a fazer no mundo. Bom dia.

Bate-papo

Amanhã, de manhã e à tarde, estarei conversando com alunos do COC de Araraquara sobre leitura e literatura. Não terei como postar textos aqui. Convido-os a ler os antigos, provavelmente melhores. De coisas antigas entendo bem mais que de novas - ou ao menos deveria entender.

Presente

Não me move mais o ímpeto de ir buscar a lua para ti. Se a trouxesse, certamente dirias "e daí?" e a afastarias com desdém.

O vício

A tristeza é o meu vício abençoado. Dizem, como dizem de todos os vícios, que ela me faz mal e me matará. Se eu não esperasse isso dela, já a teria abandonado.

O cachorro

Era um falso cego que, para aprimorar a caracterização, ia pedir esmola com seu cachorro. Um dia, pela esquina onde ficavam passou uma cachorrinha convidativa e ele nunca mais viu o cachorro.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Post scriptum

... e boa noite.

E boa noite

E mando-te boa noite de novo, como se precisasse provar a mim mesmo como estou desarvorado. Mando-te boa noite como se acreditasse ainda nas palavras, que me traíram tanto. Mando-te boa noite outra vez, uma noite muito melhor do que a minha, que há de ser, como uma letra de bolero, povoada por pesadelos e por tormentos e, desgraçadamente, sem o alívio do olvido. Mando-te boa noite de novo, boa noite, boa noite. E repito: boa noite, porque já não sei dizer-te nada mais longo, nada mais coerente, nada com sentido. Mando-te boa noite porque dizer-te qualquer coisa além disso me deixaria novamente com aquela impressão de que disse algo errado. Mando-te boa noite como alguém que, em vez de moedas, passasse com o chapéu para recolher algum afeto. Mando-te boa noite como um mendigo, como o mais carente deles. Mando-te boa noite desavergonhadamente, como quem já perdeu o respeito alheio e o próprio. Mando-te boa noite e fico, esperando no sereno, algum som, ainda que inventado, que possa ser confundido com uma resposta. Boa noite

Ocasião

Se tua dor se extinguir
E tu me deres perdão,
Que seja logo ou então
Eu morrerei sem te ouvir.

Decadência

Amor florido, vernal,
Me dói te ver enfermiço,
Me dói te ver outoniço,
Tão frio, tão invernal.

Gólgota

Sobre meu ombro culpado,
O corpo frio do amor
Exibe-se acusador,
Tal qual um crucificado.

Os indiferentes

Sem se importarem conosco
os mortos se vão

Nos deixam tristes
nos deixam órfãos
nos deixam mortos
e sem nenhuma chance
de retaliação.

Boa noite

Mando-te boa noite porque mandar-te boa noite me dá a impressão de que resta em mim, ainda, algo de bom que eu possa desejar a alguém. Mando-te boa noite para tentar compensar minha incompensável e imperdoável aspereza. Mando-te boa noite porque, enquanto teclo aqui as duas palavras, me concentro nelas e deixo de pensar que quem as tecla é a mais seca das criaturas. Mando-te boa noite porque, mandando-te, me parece por um instante que podes talvez, por seres tão diferente de mim, acreditar na sinceridade delas, quando nem eu mais confio em nada meu. Mando-te boa noite porque, ao te mandar, minto mais uma vez para mim que sou um ser afetuoso e amável. Mando-te boa noite porque está longe, muito longe a hora de te mandar bom dia. Mando-te boa noite porque amanhã estarei num avião que, por meu gosto, teria a mim como único passageiro e tripulante e ficaria em alguma montanha do percurso, para isentar-me da culpa, da tristeza e da vergonha com que penso sempre em ti e da insuportável tarefa de viver. Mando-te boa noite como se eu fosse outro, que não tivesses conhecido e de quem pudesses receber a mensagem sem te lembrares do desgosto que te causei com tantas outras. Mando-te boa noite com o coração limpo e a alma pura que gostaria de ter. Mando-te boa noite com aflição, como se pudesses condoer-te de novo, como se não estivesses farta de perdoar. Mando-te boa noite como se fosse alguém que pudesse mandar-te boa noite. Mando-te boa noite com desespero e desesperança.

As canções

Sente-se como um cipreste num cemitério. De manhã e à tarde, o vento não lhe leva o bulício, a alegria, os sons da rua. À noite, o vento lhe traz, de dentro, as tristes canções dos mortos.

Desgosto

Agosto frio, cruel,
Mês de desgraça e ruína,
Trintena amarga, assassina,
Copo de fezes e fel.

Bom dia

Que seja um dia em que o verde da natureza esteja no seu melhor verdor. Um dia em que o azul do céu imite o teu azul mais intenso, aquele que tuas telas azulece. Um dia em que ovelhas iguais àquelas que contas quando queres chamar o sono desfilem diante dos teus olhos (e que, se ovelhas não houver, haja boizinhos que com elas possam ser confundidos). Um dia em que um cavalinho arteiro te leve inesperadamente por uma trilha no fim da qual haverá uma flor única no mundo, cujo nome a brisa te revelará, pedindo que guardes segredo. Um dia em que, se tiveres sede no meio do caminho, uma nuvem fará escorrer sobre o teu rosto e os teus lábios, e apenas sobre eles, as gotas que o céu guarda para alimentar as fontes.

Tua ausência

Amor meu, a tua ausência
O meu coração deplora,
A minha pobre alma sente-a
E a minha saudade chora.

O perdão

Se um dia fores lembrar-me,
Se amor não restar, que ao menos
O teu perdão possas dar-me
E sentimentos amenos.

Oração

Pela vitória do amor,
Que morra toda a amargura,
Que refloresça a ternura
E se dissipe o rancor.

Lembranças do amor

Como o rio levando ternamente a imagem das árvores ao passar, o amor há de conduzir também as lembranças gratas, expondo-as ao sol dourado e à afetuosa brisa.

Resumo

Sempre aquilo tudo em que eu
A minha esperança pus
Definhou, murchou, morreu,
Virou pasto de urubus.

Tolinho

Desde menino escrevia
E tudo que ao Papai Noel
Em todo Natal pedia
Era ganhar o Nobel.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Caminhos

Dois caminhos a um bom fim
Podem levar minha nau.
Um dos caminhos é ruim
E o outro caminho é mau.

Bom dia

Então fiquemos assim:
Bom dia a quem puder tê-lo
E a quem puder merecê-lo.
A todos, menos a mim.

Pastiche de Pessoa

O poeta é um sofredor.
Sofre tão poeticamente
Que quando expõe sua dor
Parece sempre que mente.

Até o centro

Caminhar
mar adentro
até o centro
até o lugar no qual
nada nem ninguém
possam te salvar

E olhar para o alto
para o céu
não para ver
o último sol
nem para a Deus apelar
mas para agradecer.

Pó é igual a pó

Quando estivermos mortos, que diferença haverá entre Shakespeare e nós?

Demiurgo

Num dia de rara humildade, o homem inventou Deus. Arrependeu-se depois, porque Deus começou a querer mandar em tudo, mas já era tarde.

domingo, 12 de agosto de 2012

Bom dia

Que a brisa alegre dos domingos desarrume teus cabelos e te chame de moleca e te desafie a brincar. Que tu e ela, com as mãos dadas, cirandem cirandinhas e que um velho ranzinza, ao ver as duas, redescubra nos lábios murchos e amargos o encanto de sorrir e, balançando a cabeça, diga à mulher: "Mas olhe só que sapecas aquelas meninas." E ela, balançando também a cabeça e sorrindo, comente: "Ah, essa juventude..."

Tu pintas o mundo

Das tuas mãos
nascerem árvores e flores
são fenômenos
já mais
do que triviais

Crescem e florescem
em tuas telas
e vê-las é vê-las belas
tanto ou mais
do que as naturais

E o céu e o sol
e os pássaros também
em tuas telas se veem
tão vivos e normais
quanto os originais

Tu pintas o mundo
e os traços reais dele
e os teus virtuais
mais do que semelhantes
são traços iguais.

Os heróis

Inventamos os heróis para dormir sobre seus louros.

Conduta

Uma decisão tomar
E uma atitude assumir:
A tudo renunciar
E de tudo desistir.

sábado, 11 de agosto de 2012

Bom dia

Dizer-te bom dia ainda uma vez, com o coração puro que um dia tive, olhando para este sol que talvez estejas olhando também e cuja visão será a única coisa que compartilharemos hoje. Desejar-te bom dia, ainda que desejar-te bom dia seja desejar para mim, e para o egoísmo que me devora, o pior de todos os dias. Desejar-te bom dia, ainda que minha alma e minha carne sejam mais sensíveis, sempre, aos punhais de sábado e às suas cruéis cutiladas. Desejar-te um bom dia e trancar a minha imaginação e os meus pressentimentos com todas as chaves.

Kama Sutra - XX

Ela sentiu um cheiro acre de desodorante misturado com suor. Sentada num dos bancos do ônibus, tirou por uns instantes os olhos da apostila e olhou para cima. Em pé, ao lado dela, segurando-se com os braços erguidos, um rapaz de camisa curta estava com as axilas ruivas e úmidas à mostra. Ela voltou à leitura. Era uma explicação sobre os verbos defectivos. Mencionava o verbo adequar e mostrava por que não se podia dizer nem adéqua nem adequa. Ela não tinha entendido bem a diferença entre formas rizotônicas e arrizotônicas e estava se concentrando nesse ponto quando o odor de axilas e desodorante chegou de novo, agora mais forte, às suas narinas, ao mesmo tempo em que alguém, pedindo passagem no corredor, empurrou o rapaz, fazendo-o encostar-se no ombro dela. O verbo adequar, ela leu de novo, era conjugado apenas nas formas arrizotônicas, isto é, aquelas nas quais o acento tônico, o acen totônico, caía não na raiz mas na, mas na desinência, não na mas na desi, na desi, nência, na desi, na desi, na desi.

Prova do nove

A você, que diz ter por mim tão grande afeto, faço uma pergunta, uma perguntinha só: no seu celular, na parte dos contatos, você já adicionou o nove aos algarismos do meu telefone?

Conforto

Se visses como fiquei
Triste, murcho, amargo, morto,
Tu me darias conforto.
Tu me darias, eu sei.

E fiquem apenas

Das nossas horas vividas
Se esqueçam todas as más
E fiquem apenas as
Mais doces e mais queridas.

Pulsa ainda

Tão forte foi o amor findo
Que, mesmo morto e enterrado,
Mantém-se em mim intocado
E majestoso ainda, e lindo.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Bom dia

Dizer-te ainda uma vez bom dia, mesmo que já nem os lábios nem o coração tenham esperança de ser ouvidos e a alma pressinta mais uma humilhação.

Kama Sutra - XX

Assim que a mulher se sentou ao seu lado, ele sentiu no cotovelo uma perturbadora e exigente maciez. Habituado a recreações esporádicas no metrô, e conhecedor das regras do jogo, ele fez o teste preliminar. Afastou um pouco o cotovelo e viu confirmar-se sua primeira impressão: um instante depois, a maciez estava encostada outra vez nele. Encolheu o cotovelo, mais um ou dois centímetros, e a maciez novamente se achegou. Feito assim o primeiro lance, com o resultado previsto, ele, mais seguro, deixou o cotovelo espraiar-se e ir conquistando território. Tão permissiva estava agora a maciez que o cotovelo ia se acomodando mais intimamente a ela e sentindo-a cada vez mais. Como sempre, nessas ocasiões, ele não olhava nem de esguelha para a mulher. Tinha aprendido que essa era uma norma essencial: que os dois participantes do passatempo fingissem estar alheios um ao outro, como se tudo se passasse por acaso. Estava já bem no cálido âmago da maciez, pensando em seda e veludo, quando viu que a estação seguinte era a dele. Decepcionado e ao mesmo tempo sentindo certo alívio, porque sua perturbação devia estar visível, e não só no rubor do rosto, ele se levantou e só então olhou para a mulher. Ao lado dela, havia uma bolsa grande, cinza e elegante, cuja maciez o tinha excitado tão fortemente por três estações.

Navio

Os vagalhões me poupam, os ventos fortes me desprezam, e o sol, quando me vê, se oculta entre as nuvens. Com meu cheiro de navio velho, sigo a rota que leva à morte, e a sabedoria dos pássaros, dos peixes e dos outros navios os faz tomar o rumo oposto.

Rotação

Que breve foi nosso caso,
Amor, que vão apogeu.
Que triste, amor, nosso ocaso:
Tu morreste, morri eu.

Floração

Plantei a melancolia,
Nela pus minha esperança,
Minha fé, minha confiança.
Quem, mais que eu, a merecia?

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

De um avô, sobre o neto

"Meu netinho é como um zagueiro: sempre faz falta."

Um trecho de J.M. Coetzee

Este trecho, extraído do romance "Juventude", de J.M. Coetzee, traduzido por José Rubens Siqueira e publicado pela Companhia das Letras, seria uma pauta e tanto para esses programinhas da tarde que discutem, discutem e não chegam a nenhuma conclusão.

"O fogo que queima dentro do artista é visível para as mulheres, por meio de uma faculdade instintiva. As mulheres não têm fogo sagrado (há exceções: Safo, Emily Brontë). É na busca do fogo que não têm, o fogo do amor, que as mulheres procuram os artistas e se entregam a eles. É no fazer amor que os artistas e suas amantes experimentam brevemente, tormentosamente, a vida dos deuses. Desse exercício do amor o artista retorna enriquecido e fortalecido a seu trabalho, a mulher para a sua vida transfigurada."

Bom dia

Gostaria de dizer-te bom dia
bom dia apenas
nada mais
bom dia
ou talvez
nem isso dizer-te

Talvez olhar-te apenas
nada mais
ou sorrir-te
um sorriso desses
que dizem tudo
que é preciso dizer.

Olímpica

Uma de lata me bastaria. Que mais pode desejar a minha tristeza, a que mais pode aspirar a minha melancolia? Uma de lata, não para luzir no peito inflado, mas para ser escondida embaixo da camisa e para ir se enferrujando, como o coração.

O algoz

Devíamos ter deixado
Que o amor, nosso rei e algoz,
Depois de nos ter matado
Se desfizesse de nós.

Os trinta e quatro

Toda noite, sem falhar uma, assim que dormia ele era perseguido por uma mulher de cabelos de fogo que, com um punhal na mão, o encurralava em uma rua com piso de macadame, o beijava trinta e quatro vezes e depois o esfaqueava. Tentando decifrar o significado dessa aventura noturna, ele contou a várias pessoas tudo, minuciosamente. Isso foi há muito tempo. Desistiu da narrativa porque todos, sempre, chamavam aquilo de pesadelo. Como podia ser pesadelo aquilo que o fazia, e ainda o faz, dormir cada noite mais cedo, na esperança de que a mulher de cabelos rubros o beijasse trinta e quetro vezes, e talvez mais uma ou duas, antes de enterrar-lhe o punhal e afastar-se nua, fazendo soar seus saltos de ponta no macadame?

A rosa

No meio do livro, a rosa colocada há cinquenta anos se esfarelou. Não importa. O livro não será aberto jamais. Já se desfez a delicada mão que a ajeitou carinhosamente entre as páginas 100 e 101 e também a ansiosa mão que a presenteou. O nome do homem e o da mulher estão na página 6 ou 8, na dedicatória. Isso também não importa. O tempo talvez os tenha tornado ilegíveis e o livro também logo se perderá, atirado ao lixo ou rasgado por um garoto de quatro ou cinco anos, talvez descendente, talvez não, de quem deu ou de quem recebeu a rosa, num dia que lhes pareceu único, como todos parecem a alguém enquanto não descem sobre eles o peso de todos os outros e a noite do esquecimento.

Ainda que só uma página

Ser repugnante, nojento, asqueroso e, no entanto, ter a imerecida ventura de um dia escrever uma página tão delicada e especial que por um momento quem a estivesse lendo julgasse sentir um olor de flores e procurasse pela sala um inexistente jarro.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Fácil

Ser perseverante não é tão difícil. Basta ter um pouco de força de vontade.

Morrer e viver

Morrer, assim como viver, não tem nenhum sentido. Sua única vantagem é que não requer prática e nem sequer habilidade.

Bom dia

Esquecer os truques de estilo, a retórica, tudo aquilo que foi longa e sofridamente aprendido, e dizer-te apenas bom dia, como se só hoje tivesse aprendido essas palavras e pela primeira vez sentisse nos lábios o seu gosto de sol e orvalho.

As pragas

Ai dos vencedores

Os músculos
que erguem os troféus
os nervos
o apogeu
da carne rija
tudo que lutou
e venceu
definhará

As pragas dos vencidos
sua mesquinhez
suas maldições
sobre as vitórias pesarão

O sangue nas suas veias secará
os corpos apodrecerão
e dos seus feitos
cantados e decantados
até a recordação
o tempo desfará.

Tanto amor

Foi tanto amor que a memória,
Lembrando o que registrou,
Pensa ser só uma história
Que um dia alguém lhe contou.

Retrato do rei

Um feixe de ossos, um monte de vísceras, um depósito de bactérias, um criatório de vírus, uma superioridade autoproclamada, uma prepotência pesporrenta, uma arrogância desmesurada, uma mente atrozmente impura e depravada. Esse o retrato do homem, o nosso retrato. E dizemos que fomos criados à imagem e à semelhança de Deus.

Como flores

As lembranças do amor - objetos outrora sagrados - definham numa gaveta, como flores deixadas num jarro, numa casa esvaziada e posta à venda.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Bom dia

Não sei o que contaste ao sol, mas ele tem evitado passar por minha janela. E o que disseste ao vento, que se recusa a levar para ti minhas mensagens? Há de ser clemente aquela cujas mãos são as únicas que podem distribuir as migalhas das quais alguém vive.

Os braços

Os braços que te abraçam não são os meus. Se fossem, eles não te apertariam tanto. Eles seriam frágeis e tímidos como eu sou e, em vez de tentarem proclamar sua conquista sobre ti, se aquietariam como dois passarinhos muito jovens que, descobrindo repentinamente a beleza da vida, sentissem que para celebrá-la nasceram, e cantassem para ti o primeiro dos seus cantos.

Kama Sutra - XIX

A mulher havia já desligado o chuveiro e apanhado a toalha quando um filete tardio de água lhe desceu pela boca até o queixo, depois em linha reta chegou ao pescoço e, exato em seu roteiro, deslizou para o umbigo. Parecia que tinha perdido a força e ficaria por ali, mas quando, centímetro a centímetro, retomou seu caminho, a mulher largou a toalha e preparou a mão para retê-lo quando chegasse aonde pretendia.

Muito, pouco

Do amor, o que ficará
Pode ser muito ou não ser.
Se for muito, há de doer,
Se for pouco, doerá.

Coerência

Ela disse que o amava, e disse tão arrebatadamente quanto o dissera aos outros.

Ao deus-dará

Quem nos lançou à corrente,
Sob qual razão e pretexto,
Se tão feroz é a torrente
E tão frágil nosso cesto?

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Segunda chance

Quis - e querendo ainda estou -
Que você me definisse.
Se não sou quem você disse,
Me diga então quem eu sou.

Msn

Relendo hoje o que escreveste,
Não consegui entender
Como pudeste esquecer
Tudo aquilo que esqueceste.

Epigrama

Nem Bernard Shaw, nem Oscar Wilde, nem Millôr Fernandes, que foram mestres no assunto, jamais esclareceram quanto pesa um epigrama.

Na ponta do lápis

Eu, apesar da amargura,
De todo o meu sofrimento,
De tanta dor e tormento,
Te lembrarei com ternura.

Kama Sutra - XVIII

É a terceira noite, já. Ela acorda com as escaramuças amorosas dos gatos na rua, com os miados curtos, longos, entrecortados, unidos, mesclados, que lhe arrepiam a nuca. Como na primeira e na segunda noites, ela puxa as pontas do travesseiro para os ouvidos e tenta mergulhar novamente na escuridão do sono. Parece que vai conseguir desta vez. Os gatos silenciaram e ela já consegue ouvir, ao longe, o apito do guarda-noturno. Seu corpo, que já começara a se retesar, vai se distendendo aos poucos. Ela suspira, de alívio. Mas logo os sons do amor recomeçam e os miados se tornam agudíssimos, longuíssimos, aflitíssimos, agônicos. Ela desiste de ignorá-los e agora os acompanha com os nervos todos eriçados. Faz ainda uma última tentativa de resistir, mas, assim como na primeira e na segunda noites, acaba fazendo a mão deslizar, nervosa, chegar ao ventre e, ansiosa, descer um pouco mais.

Honrarias

Ser poeta

Buscar a beleza
a pureza

Cantar as alegrias do homem
e as amarguras que o consomem
exprimir a graça
e a desgraça
o difícil exercício de viver
e a cruel sina de morrer

Ser poeta

O tudo e o nada exprimir
por um e por todos sentir
expressar a pureza da infância
o fogo da adolescência
exaltar as virtudes
da serena senectude
e as tristezas lamentar
da decrepitude

Ser poeta

Querer o melhor de todos ser
e merecer honrarias
porém jamais a de morrer
e de morrendo ostentar
o nome numa rua
ou numa alameda
que podem muito bem
continuar a ser
e bem mais poeticamente
rua A, rua B, rua I,
alameda Sabiá
ou avenida Bem-Te-vi.

Certezas

Pois todo sonho definha,
Pois toda vida perece,
Pois toda glória é mesquinha,
Pois tudo morre e apodrece.

Gentileza

Já tenho perdido tanto, já estou tão habituado à derrota que, se um dia o acaso ou um equívoco dos deuses me concederem o milagre de um triunfo, me façam a gentileza de avisar-me, por favor, e com toda a clareza. Só tenho ouvidos para as más notícias.

domingo, 5 de agosto de 2012

Ontem, sábado

No entanto almoças e jantas
E em riso os dias consomes.
Que te importam minhas fomes,
Que são de amor e são tantas?

Notícias

Há muito não sei de ti,
Se estás mal ou se estás bem.
De mim não sabes, também,
Mas vou dizer-te: morri.

A epidemia do amor

Como, depois de morto e autopsiado, o homem continuava a suspirar de amor, o legista julgou necessário alertar as autoridades. O secretário da Saúde elogiou seu zelo e lhe determinou que não relatasse a ocorrência a ninguém, especialmente aos jornalistas, que logo transformariam o caso em epidemia, ainda mais se soubessem que situação idêntica havia sido registrada naquele mesmo dia, em um município vizinho: uma mulher que, também morta e autopsiada, insistia em murmurar frases de amor. O legista prometeu silêncio absoluto, embora não conseguisse imaginar como os parentes dos mortos, quando os corpos fossem liberados, poderiam ignorar os suspiros do homem e os murmúrios da mulher. Estava pensando nisso quando o secretário da Saúde lhe perguntou se o exame pericial havia revelado a causa da morte do homem. O legista, depois de hesitar, tamanha era a dimensão do absurdo, revelou que havia encontrado no estômago restos de no mínimo cinco rosas. O secretário não se impressionou, porque o mesmo havia sido achado na autópsia da mulher. O médico disse que o último caso relatado de semelhante anomalia tinha sido registrado em 1942. O secretário comentou que doenças, notadamente as mais traiçoeiras, eram assim mesmo. Sumiam e, quando já não se esperava, retornavam. O amor não era uma exceção. O legista disse que infelizmente era assim mesmo e que se espantava mais porque desde 1942, data da última manifestação da doença, as rosas estavam extintas em todo o Estado, justamente para combater sua principal manifestação: o suicídio por ingestão de rosas. Onde os dois, o homem e a mulher, as haviam encontrado? O secretário, que parecia estar bem informado sobre o assunto, disse que os adoradores da seita do amor eram conhecidos no passado por ser terrivelmente engenhosos e, embora sobre o último caso tivessem se passado setenta anos, convinha manter toda a cautela, acrescentando que, embora de maneira discreta, havia posto toda sua equipe de prontidão, por se tratar de uma moléstia que por muitos séculos havia provocado a ocorrência de pactos de todo tipo e suicídios em massa. Desligado o telefone, o legista foi tentado a matar o morto, como se fosse possível, porque seus suspiros amorosos haviam se tornado mais altos, mais patéticos e capazes de enternecer até um homem como ele, habituado a lidar diariamente com sangue, vísceras e órgãos dilacerados.

Kama Sutra - XVII

As amigas não guardavam mais as fotos, os recortes, as notícias sobre Leonardo DiCaprio. Estavam todas maduras, agora, e se envergonhavam daquela paixão juvenil. Como tinham podido amar aquele rapazola, aquele projeto de homem? Ela concordava com as amigas, mas à noite desencavava de um fundo de gaveta um pôster de corpo inteiro dele, encapado com plástico, deitava-o ao lado dela, apagava a luz e salivava-o de beijos. Rolava sobre ele e, quando seus exaltados sentidos a faziam enfim sentir-se Kate Winslet, ela pressionava o ventre contra o plástico e, como se o Titanic estivesse sendo sacudido por vagalhões, subia e descia também, como ele, até que a manhã, chegando, deixasse o sol salgado entrar no camarote, lamber seu corpo nu e fixar-se nos seus olhos marcados por mais uma noite de amor a bordo.

sábado, 4 de agosto de 2012

Trapaça

Se houver doçura no amor,
Será por pura trapaça.
O amor só vale se for
Ruína, dor e desgraça.

Quem foi

Um dia dirão "sabe quem morreu?" e você não perguntará quem foi, porque estarão falando de você.

Mare vitae

Há quanto tempo o mar que chamam vida,
Raivoso e sem nenhuma remissão,
Arroja minha frágil nau vencida
Às tristes praias da desolação.

Há quanto tempo este desejo vão
De calma, de consolo, de guarida,
Ou desvia inclemente furacão
Ou torce tempestade impressentida.


E sempre novos portos, nova gente.
Mas eu, que a sorte com ninguém reparto,
Prossigo sempre a intérmina jornada

Em busca de algo, pois não tenho nada:
Nem peito, quando chego, que me aquente,
Nem lenço que me acene quando parto.

Kama Sutra - XVI

Toda manhã, antes de sair para o trabalho, quando vai pegar uma calcinha, ela desliza a mão até o fundo, apalpa por alguns instantes o dildo, suspira, diz-lhe palavras amorosas, chama-o pelo nome que só ela sabe, depois o camufla de novo e, antes de fechar a gaveta, pede a ele que a espere e lhe faz a promessa de voltar logo.

E se?

E se, por nossos pecados,
A alma for vesga e corcunda,
Tiver os dentes cariados
E uma verruga na bunda?

Trecho de carta

... tenho vivido mal, sonhado muito, desanimado bastante. Se sonhasse menos, viveria melhor e não desanimaria tanto, ou talvez até nem desanimasse. Nem sei por que estou lhe dizendo tudo isso. É o tipo de assunto que não lhe interessa: minha vida.

Afeto

Tu sabes, tanto quanto eu,
Que vive só uma vez,
Uma em um milhão, talvez,
Aquilo que em nós viveu.

Verso e reverso

Se uma mentira exaustivamente repetida acaba parecendo verdade, a recíproca é verdadeira. Meus crédulos ouvidos foram vítimas da primeira hipótese, meus amorosos lábios foram vítimas da segunda.

Decepção

Descobriu que tristeza não mata e sentiu-se como se o tivessem acusado de falsário.

Licença

Podes falar alto, já.
As flores não têm ouvidos,
As velas não têm sentidos,
O morto não ligará.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Kama Sutra - XV

Ela se aproximou lentamente da boca. O batom cheirava a morango e os lábios, movendo-se, pareciam saboreá-lo. Ela se aproximou mais um pouco. Quando os lábios se moveram de novo, ela os beijou, com os olhos fechados, fruindo lentamente o morango. Ao voltar a abri-los, viu nos seus olhos, apesar do embaçamento do espelho, o êxtase provocado pelo beijo, e na boca, apesar do contato com o vidro frio, havia ainda, além do fogo que a imaginação acendera, um doce gosto de fruta.

Nana nenê

Esta noite, no cemitério, os ciprestes pedirão ao vento que, se os tocar, os toque de leve. Se uma canção se ouvir, que seja uma de ninar, para as nove crianças que morreram ontem num ônibus escolar.

Aprendizado

É hora, já, de começares a colher os frutos caídos, soprá-los para tirar-lhes a terra, provar-lhes o sabor e ires te acostumando com ele. Tens força, ainda, para alcançar os frutos altos, porém chegará o dia em que os galhos te parecerão tão inacessíveis quanto o céu. Habitua-te desde já a esses frutos que ninguém quer e que um dia serão os únicos que se oferecerão a ti.

O porto

Um dia tu chegarás
Ao abençoado porto
No qual enfim terás paz.
Nesse dia estarás morto.

Londres

Um passarinho, para outro: o que será que eles estão vendo, lá embaixo, que não olham mais para nós?

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Kama Sutra - XIV

De vez em quando, lembra-se de um trecho de Maupassant que, lido na adolescência, acendeu um fogo que, tanto tempo depois, aviva nele ainda algumas chamas. Hoje, apanhou o livro, "Uma vida", e releu:

"Estavam com sede, e um rastro úmido guiou-os, através de um caos de pedras, até uma fonte pequenina canalizada num bambu para uso dos cabreiros. Um tapete de musgo cobria o solo em derredor. Joana ajoelhou-se para beber; Júlio fez outro tanto, e enquanto ela saboreava a frescura da água ele tomou-a pela cintura e tratou de arrebatar-lhe o lugar ao pé do cano de madeira. Ela resistiu; tocavam-se os lábios, encontravam-se, repeliam-se. Nos azares da luta, apoderavam-se alternativamente da delgada extremidade do tubo e mordiam-na para não soltá-la. E o filete de água fria, conquistado e abandonado sem cessar, rompia-se e reatava-se, salpicando os rostos, os pescoços, as roupas e as mãos. Gotinhas que pareciam pérolas luziam-lhes nos cabelos. E os beijos rolavam na corrente. Súbito, Joana teve uma inspiração de amor. Encheu a boca do claro líquido, e, com as bochechas dilatadas como odres, deu a entender a Júlio que desejava desalterá-lo de lábio a lábio. Ele aproximou, sorrindo, a cabeça inclinada, de braços abertos, e bebeu de um trago nessa fonte de carne viva que lhe verteu nas entranhas um desejo chamejante."

Terminada a leitura, ele estava tão atordoado pela sensualidade exasperada que, como na primeira vez, era ao mesmo tempo Joana, Júlio e a água tão avidamente bebida.

Anfiguri

Nadando no rio Tâmisa,
Tão gélida estava a brisa
Que eu roguei por uma câmisa
Mas deram-me uma camisa.

Pedinte

Os que mais me dão
são os de pior situação

Os engravatados
os enfarpelados
têm a alma fria
e os bolsos fechados

Com seu ar de cavalheiros
dão sempre a impressão
de que lhes repugna
tocar em dinheiro
se bem que alguns
fiados em sua aparência
em sua falta de consciência
e em minha falsa condição
em meu chapéu
não para dar
mas para retirar
enfiem a mão.

Por que eu fico calado?
Pode me digam
um cego alardear
que viu um ato errado
e desmascarar
sem ser desmascarado?

Alívio

Conforta-me o fim do dia.
O sol expõe-me as chagas
E as cicatrizes doídas.
Dormir é minha alegria.

Também nós

É inútil. Acontece sempre o mesmo. Assim que nos apresentamos para o combate, os deuses começam a rir de nós, e tão forte, que nossos adversários riem também, e tanto, que nos retiramos sem lutar. Tem sido assim, sempre. O pior de todos os dias foi hoje. Também nós acabamos rindo, e quanto, antes de ir embora.

Kama Sutra - XIII

Aperta os próprios seios como os apertavam as mãos amorosas da amiga naquelas noites já distantes e, tentando imitar-lhe a voz, pergunta como perguntava a amiga: de quem são estas maçãs aqui? São tuas, são tuas, responde, e liberta do sutiã as duas frutas, como se aqueles lábios sedentos e aqueles dentes cruéis estivessem ainda ali, ansiosos para comê-las.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Eram três

Um deles me apontou ei você
e enquanto minhas irmãs fugiam
eles me pegaram
e me levaram para o mato

Eram três
e eu pensei em fugir também
mas o que tinha me chamado
me puxou e mandou vem
vem senão eu te mato

Eu obedeci
me deitei no chão
e cada um
teve a sua vez

Quando me levantei
o que tinha me chamado
me atirou de novo ao chão
e se atirou de novo
em cima de mim

E como se estivesse
prevendo o que eu seria
a cada estocada que dava
me dizia sua puta
e puta sua puta repetia

Eram três homens
naquele dia

Depois perdi
a noção dos homens
e dos dias.

Espelho

Falar de coisas simples, dessas que o cercam: da mesa, das cadeiras, dos talheres. Do espelho que todo dia lhe diz que não, que você não tem aquele olhar místico dos iluminados, daqueles que são íntimos das grandes jornadas e dos mais elevados ideais.

Salvação

Os crentes bateram à minha porta domingo. Traziam-me a salvação. Eu os olhei escondido atrás da cortina. Eram homens, mulheres e crianças. Vêm sempre assim, em família. Rostos de gente boa, disposta a dar um tempo de sua vida, reservar uma parte de um domingo ensolarado para tocar a campainha de homens como eu e dizer-lhes que nem tudo é tão ruim quanto parece. Fiquei a observá-los furtivamente. Receava que, saindo ao sol, meus pecados se revelassem todos no meu rosto. Talvez eles tenham me adivinhado atrás da cortina, mas não tocaram de novo a campainha. Esperaram pacientemente. Só cinco minutos depois se puseram a andar. Um dos garotos apontou uma pipa no céu. Outro olhou também, mas o olhar de um e o olhar do outro foram só um instante de distração, um segundo, não mais, depois do qual os dois, recompenetrando-se, seguiram seu caminho de jovens pregadores, empertigados em seus terninhos escuros, sob um céu azulíssimo onde as pipas, dezenas, continuavam a tentá-los, corcoveando como cavalos esporeados pelo Demônio.