quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O problema é...

... que a memória se encheu de livre-arbítrio, se rebelou e apagou só as coisas ruins. E como as boas dão a impressão de estar melhores agora, e como se multiplicaram! Há na medicina casos de homens que adoecem por suas mais caras lembranças? Precisarei ficar atento. Talvez comecem a nascer rosas em meus braços, borboletas a entrar em meus bolsos e passarinhos a se enfiar em minha garganta. Parecem-me sintomas prováveis para o meu caso. A morte não há de ser muito ruim.

Madrugada

O poeta, embora teime em não acreditar nos críticos, tropeça nos seus versos e faz a Lua se esconder mais uma vez, envergonhada, quando a chama de "alva virgem dos meus sonhos". O cachorro, pragmático, calcula de quanta urina precisará para marcar os seis postes da rua e começa sua tarefa, parcimoniosamente.

O provérbio, como ele poderia ser

À noite, todas as rosas são cardos.

O provérbio, como ele deveria ser

Nunca se deve falar de amor em casa de enforcado.

Um parágrafo de Antônio Maria

"Amanhece em Copacabana, e estamos todos cansados. Todos, no mesmo banco da praia. Todos, que somos eu, meus braços e minhas pernas, meu pensamento e minha vontade. O coração, se não está vazio, sobra lugar que não acaba mais. Ah! que coisa insuportável, a lucidez das pessoas fatigadas! Mil vezes a obtusidade dos que amam, dos que cegam de ciúmes, dos que sentem falta e saudade. Nós somos um imenso vácuo, que o pensamento ocupa friamente. E, isto, no amanhecer de Copacabana."

(Do livro Com vocês, Antônio Maria, publicado pela Paz e Terra.)

Um soneto de Camões

"Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor estou tremendo de frio;
Sem casa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos; e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém por que assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora."

(Do livro Obra completa, publicado pela Aguilar.)

Um parágrafo de Mario Benedetti

"Talvez eu seja um maníaco da equidistância. Em cada problema que se apresenta, nunca me sinto atraído pelas soluções extremas. É possível que seja a raiz da minha frustração. Uma coisa é evidente: se, por um lado, as atitudes extremas provocam entusiasmo, arrastam os outros, são indícios de vigor, por outro, as atitudes equilibradas são em geral incômodas, às vezes desagradáveis, e quase nunca parecem heroicas. Em geral, precisa-se de bastante coragem (um tipo muito especial de coragem) para manter-se em equilíbrio, mas não se pode evitar que aos outros isso pareça uma demonstração de covardia. O equilíbrio é tedioso, ainda por cima. E o tédio, hoje em dia, é uma grande desvantagem que em geral as pessoas não perdoam."

(Do livro A trégua, tradução de Joana Angelica D'Avila Melo, publicado pela Alfaguara.)

Um parágrafo de Ian McEwan

"Não matei meu pai, mas às vezes tinha a impressão de que o havia ajudado a ir desta para a melhor. E, não fosse por ter coincidido com um evento marcante em minha evolução física, sua morte pareceu insignificante quando comparada ao que veio depois. Minhas irmãs e eu conversamos sobre ele na semana seguinte à sua morte, e Sue sem dúvida chorou quando os enfermeiros da ambulância o levaram envolto num cobertor de um vermelho muito vivo. Ele era um homem de saúde precária, irascível e obsessivo, com mãos e rosto amarelados. Só estou contando a historinha da morte dele para explicar como aconteceu de minhas irmãs e eu termos uma quantidade tão grande de cimento à nossa disposição."

(Do livro O jardim de cimento, tradução de Jorio Dauster, publicado pela Companhia de Bolso.)

Um trecho de Margaret Atwood

"Órfãos sofrem experiências ruins: em celeiros, em porões, em automóveis, em barracões de madeira, terrenos baldios, em salas de aula vazias. É porque eles são tão tentadores. É porque são tão avariados. É porque são tão esqueléticos. É porque são tão fáceis de quebrar. É porque são tão disponíveis. É porque são tão eróticos. É porque ninguém irá acreditar no que eles disserem."

(Do livro A tenda, tradução de Léa Viveiros de Castro, publicado pela Rocco.)

Kama Sutra - CXXI

Conhecem-se há um mês e ele há alguns dias vem tentando beijar-lhe a nuca, mas toda vez ela dá sinais, até ríspidos, de que não quer. Já foram três vezes ao motel, já se exercitaram em amplo repertório, mas, quando ele aproxima os lábios das orelhas dela, ensaiando fazê-los escorregar para a nuca, ela os afasta. Talvez imagine que beijar a nuca seja um pretexto dele para, dali, conquistar um pouco mais de território nas suas costas, e não só para a boca. Mas ele nem pensa nisso. Quer só, porque para ele seria o prazer máximo, levantar os cabelos dela e beijar-lhe a penugem que supõe haver debaixo deles, fina como ouro em pó.

No jornal (Major Quedinho) - 50 - A edição apreendida

O título certamente sugerirá ao leitor um dos episódios comuns na história do jornal, que em seus mais de cem anos, por suas posições, sofreu pressões de todo tipo, censura, atentados. Mas a edição apreendida a que vou me referir é a de um jornal não tão importante. Era o boletim da ARJM (Associação Recreativa Julio Mesquita). Esta promovia atividades esportivas, bailes, churrascos, excursões, para os funcionários. O boletim, que por muitos anos foi chamado de Estadinho - nome posteriormente cedido ao suplemento infantil, quando este foi criado -, publicava um resumo das atividades da associação e, às vezes, textos sobre as dezenas de áreas do jornal. Numa de suas edições - a que viria a ser apreendida -, havia uma reportagem sobre a seção de limpeza. A maioria dos funcionários era constituída por baianos - e a essa denominação se somaram, como era hábito então, funcionários nascidos em outros Estados do Nordeste, e até do Norte. Uma das mulheres que trabalhavam na seção disse ao repórter uma frase que acabou sendo utilizada no título: "Na limpeza tem mais baiano que gente." Essa frase, que ela disse certamente em tom jocoso, e assim poderia até ser interpretada, se o repórter tivesse sorte, acabou soando como discriminatória, e a edição foi recolhida.

No jornal (Major Quedinho) - 50 - O subchefe

Estou quase dizendo que, em meus dezessete anos de revisão, o chefe Nélson Lima Neto nunca pediu férias. E minha maldade arranja logo uma justificativa: ele jamais nos deixaria um mês inteiro sob o comando de Ernesto Cerf, o sub, severo como um oficial prussiano. Em minha memória tendenciosa, Cerf também não tirava férias, talvez porque gostasse de nos azucrinar. Mas uma vez, pelo menos, ele as tirou. Posso dizer isso porque me recordo, agora, de um episódio do qual participou Joaquim Paschoa, que já apareceu em outras nota desta série. Ele substituiu Cerf por um mês e parece ter gostado muito. Soubemos dessa satisfação tempos depois, quando ele, passando pela mesa do chefe, que estava jantando, atendeu o telefone: "Aqui é Joaquim Pascoa." O interlocutor não deve ter entendido o nome, porque Paschoa repetiu: "Aqui é Joaquim Paschoa, subchefe do mês de julho." Estávamos em novembro.

Infância

Gostaria de dizer certas palavras com a boca limpa, como as dizia naquele tempo: pitanga, sol, rio, arco-íris, bunda.

As virtudes

Os dois principais traços de sua personalidade são aparentemente contraditórios: é ocioso, e também perseverante - ao menos em sua ociosidade.

Cuidar do que resta

Ela receia que um dia a memória do amor lhe doa menos ou que não lhe doa mais. Teme que as lembranças venham a ser só um hábito e inveja a viúva jovem que às vezes lhe mostra sinais pelo corpo e suspira, orgulhosa: "Aquilo era um homem. Ai que mãos, que mãos ele tinha."

Ainda não

O amor é como as pessoas. Precisa morrer para que lhe reconheçam o valor e se arrependam de não tê-lo tratado mais carinhosamente.

Providências

Vivi meu tempo, já, bem mal vivido,
Mas meu futuro está já bem traçado.
Já tenho o meu lugar assegurado
E a Morte sabe até meu apelido.

Iríamos

Não sei por que não aceitaste. Iríamos ao cinema. Sessenta anos depois, meu coração não bateria como naquelas tardes adolescentes - ou talvez batesse até mais, não sei. Nós nos sentaríamos na última fileira, a dos namorados, e eu, com heroísmo, faria deslizar a mão do encosto do assento para o teu ombro. Avançaria devagar com a perna, também, buscando contato com a tua. E tentaria beijar-te, creio que sim, e assim como na adolescência, com as garotas, não conseguiria. Mas seria bom, ah, seria, sair de mãos dadas contigo ao sol, na avenida, e pensar, como naquele tempo, que talvez na próxima vez, quem sabe...

Um trecho de Jeffrey Eugenides

"Na manhã em que a última filha dos Lisbon decidiu-se também pelo suicídio - foi Mary dessa vez, e soníferos, como Thereza -, os dois paramédicos chegaram à casa sabendo exatamente onde ficavam a gaveta das facas, o forno, e a viga no porão à qual era possível atar uma corda. Saíram da ambulância, como sempre andando mais devagar do que gostaríamos, e o gordo disse entre dentes: "Isso não é TV, gente, mais rápido não dá." Carregava o pesado equipamento cardíaco e o respirador, passando pelos arbustos que haviam crescido de forma monstruosa, pisando o gramado transbordante que fora liso e imaculado treze meses antes, quando os problemas começaram."

(Do livro Virgens suicidas, tradução de Marina Colasanti, publicado pela Rocco.)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Kama Sutra - CXX

No sonho, a mulher, vestida só com um sutiã e uma calcinha de pele de tigre, tira-lhe a camisa, aprisiona as mãos dele em duas argolas suspensas, fixadas na parede, e começa a chicoteá-lo, ao mesmo tempo em que pergunta, mais terna do que zangada: "Quem pichou o meu muro? Foi você? Responda alto. Foi você? E o que você escreveu? Fale alto. Eu não entendi. Gostosa? Foi isso? Foi isso? Gostosa? Foi?"

Kama Sutra - CXIX

Às vezes, como hoje, sua sede é de água salgada. Reminiscências de praia e de mar vêm-lhe à língua e ele fixa os olhos no suor que brilha na pele dela, e na sua blusa cavada, sempre que ela, levantando o braço para ajeitar os cabelos, deixa à mostra a perturbadora axila.

Uma frase de Lawrence Durrell

"Quando a pessoa descobre a sua cor deve ser fiel a ela."

(Do livro Monsieur, o príncipe das trevas, tradutor não mencionado, publicado pela Record.)

Um trecho de Orhan Pamuk

"É importante, sem dúvida, entender a pessoa que amamos. Se não conseguimos esse entendimento, pelo menos precisamos acreditar que a entendemos. Devo confessar que ao longo de todos esses oito anos só raramente senti a satisfação da segunda possibilidade, e menos ainda da primeira."

(Do livro O museu da inocência, tradução de Sergio Flaksman, publicado pela Companhia das Letras.)

Kama Sutra - CXVIII

Frequentemente ela muda o nome dos dildos. Esta semana um tem sido Pablo; o outro, Ortega. Talvez por ser verão e seus hormônios estarem particularmente excitados, ou talvez pelo sangue latino dos dois - Pablo é espanhol, Ortega é mexicano -, as noites têm sido de louco prazer. Ela notou ontem que, enquanto se entregava a Pablo, Ortega demonstrava ciúmes. Vai fazer hoje o que nem sequer imaginara: um ménage à trois.

Desejar bom dia...

... e felicidade a todos. Ser pródigo nisso, como alguém que, subitamente enlouquecido, se pusesse a atirar toda a sua fortuna de um helicóptero. Jogar tudo, até a última nota, até a derradeira moeda. Depois, chorar toda a tristeza que a alma acumulou em tanto tempo, chorar tão escandalosamente que fossem chamados psicólogos, a polícia, os repórteres. Chorar de um modo que precisasse ser registrado no Guinness, chorar com tal empenho que a defesa civil fosse urgentemente chamada para evitar inundações e catástrofes. Chorar de tal forma que a alegria alheia, pelo contraste, fosse uma alegria de gargalhadas que derrubassem árvores e destelhassem casas. Chorar rios e mares, para que as manchetes dos jornais não tivessem como deixar de pôr na primeira página a espantosa e maravilhosa notícia de um homem que enfim, fazendo isso, pudesse liberar todos os outros e estimulá-los a tornar habitual esse ato simples que tornaria o mundo muito melhor: chorar.

Arquivo

Quando pensa de que forma seu amor e ele terão sido catalogados por ela, imagina que estejam na pasta de entretenimento, sob a rubrica "segundas opções".

Como é mesmo?

Embora a vida seja uma ocupação diária, às vezes nós nos perguntamos o que é, mesmo, essa história de viver, assim como estranhamos certas palavras que já lemos dezenas de vezes, cujo significado sabemos e, no entanto, quando uma delas aparece, relutamos, relutamos, mas acabamos abrindo o dicionário. Palavras como hermenêutica, sinopse, entropia.

Um trecho de Flaubert

"Mas um homem não devia saber tudo, ser hábil em múltiplas atividades, iniciar as mulheres nas energias da paixão, no refinamento da vida e em todos os mistérios? Aquele, porém, não ensinava nada, não sabia nada, não desejava nada. Acreditava-a feliz e ela o detestava por aquela calma assentada, aquela serenidade pesada, feita da felicidade que ela própria lhe dava."

(De Madame Bovary, tradução de Sérgio Duarte, publicado pela Ediouro.)

Um trecho de Katherine Mansfield

"Está um dia lúgubre aqui, com nuvens selvagens esfarrapadas, e um miserável vento paralisador. Estou com meu casaco preto - não totalmente por causa do dia. Cristo! Odiar como eu odeio. O ódio me domina. Você não sabe o que é ódio, porque sei que você nunca odiou ninguém - não da mesma forma que amou. É o que faço. Meu mortal, mortal inimigo arrebatou-me hoje, e sou simplesmente uma força cega de ódio. Odiar é uma outra paixão. Tem todos os efeitos opostos do amor. O ódio abarrota as pessoas com morte e corrupção, e as faz sentirem-se repelentes."

(Do livro Diário & cartas, tradução de Julieta Cupertino, publicado pela Editora Revan.)

Definição de entropia

"Função termodinâmica de estado, associada à organização espacial e energética das partículas de um sistema, e cuja variação, numa transformação desse sistema, é medida pela integral do quociente da quantidade infinitesimal do calor trocado reversivelmente entre o sistema e o exterior pela temperatura absoluta do sistema."

(Do Novo Aurélio Século XX, 1999, publicado pela Editora Nova Fronteira.)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Depois dessas...

... noites em que o amor o suplicia, de manhã ele pega o travesseiro, leva-o para o jardim e espreme-o sobre o canteiro. Disseram-lhe que lágrimas de amor tornam mais belas as flores. Mas às vezes as lágrimas são tantas que ele receia afogar as rosas.

Boa madrugada...

... para os que merecem. São, sei lá, cinco, dez bilhões (consultar o google), menos uma centena de pobres-diabos que teimam em se bater por coisas ultrapassadas e em ser mártires de causas perdidas. O amor (consultar o google) é uma moda em desuso há mais de um século, e não faz falta a ninguém, a não ser a esses cem que circulam pelas ruas só para perturbar o descanso dos cachorros, justificar o salário dos guardas-noturnos e olhar para a lua. Antes, esses cretinos serviam ao menos para fazer uns versinhos que acabavam no Almanaque do Biotônico Fontoura e as moçoilas guardavam no regaço. Agora, só sabem mandar coraçõezinhos pelo msn. Alguns desses coraçõezinhos já andam aí pela quinta edição, refundida e ampliada.

"O terrorista, ele observa", de Wislawa Szymborska

"A bomba explodirá no bar às treze e vinte.
Agora são apenas treze e dezesseis.
Alguns terão ainda tempo para entrar;
alguns para sair.
O terrorista já está do outro lado da rua.
A distância o protege de qualquer perigo.
E, bem, é como assistir a um filme.
Uma mulher de casaco amarelo, ela entra.
Um homem de óculos escuros, ele sai.
Jovens de jeans, eles conversam.
Treze e dezessete e quatro segundos.
Aquele mais baixo, ele se salvou, sai de lambreta.
E aquele mais alto, ele entra.
Treze e dezessete e quarenta segundos.
A moça ali, ela tem uma fita verde no cabelo.
Mas o ônibus a encobre de repente.
Treze e dezoito.
A moça sumiu.
Era tola o bastante para entrar, ou não?
Saberemos quando retirarem os corpos. Treze e dezenove.
Ninguém mais para entrar.
Um careca obeso, no entanto, está saindo.
Procura algo nos bolsos e
às treze e dezenove e cinquenta segundos
ele volta para pegar suas malditas luvas. São treze e vinte.
O tempo, como se arrasta.
É agora.
Sim, agora.
A bomba, ela explode."

(Tradução, do inglês, de Nelson Ascher.)

Tu e eu

Enquanto dormes, eu não
Paro aqui de me afligir
E perguntar à razão
Como tu podes dormir.

Enquanto aqui não consigo
Nem os meus olhos fechar,
Tu sonhas, mas não comigo,
E chegas a suspirar.

E, enquanto teu nome grito
E espero, magoado e aflito,
Que possas me responder,

No sonho, em doces vogais,
Amor já juraste e vais
O nome do outro dizer.


Um soneto de Camões

"Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vosos olhos belos,
Se não perder a vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.

Este me parecia preço honesto;
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e alma por querê-los,
Donde já me não fica mais de resto.

Assim que a vida e alma e esperança,
E tudo quanto tenho, tudo é vosso;
E o proveito disso eu só o levo.*

Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que quanto mais vos pago, mais vos devo."

(*) Presumo que a esse verso falte uma palavra, porque, como está, ele não é um decassílabo perfeito. Não disponho de outra edição. Se algum dos leitores tiver alguma informação sobre isso, queira, por favor, dá-la.

(De Obra completa, Companhia Aguilar Editora.)

Um poema de Djanira Pio

"RESOLUÇÃO

Homens inteligentes
resolvem:
- manter esse estado de coisas.
Satisfeitos
bonitos
bem alimentados
bem dotados
felizes resolvem:
- manter esse estado de coisas."

(Do livro Olhares, publicado pela RG Editores.)

Um trecho de Diogo Mainardi

"Diagnosticaram uma paralisia cerebral em meu filho de sete meses. Vista de fora, uma notícia assim pode parecer desesperadora. De dentro, é diferente. Foi como se me tivessem dito que meu filho era búlgaro. Se eu descobrisse que meu filho era búlgaro, minha primeira atitude seria consultar um almanaque em busca de dados sobre a Bulgária: produto interno bruto, principais rios, riquezas minerais. Foi o que fiz com a paralisia cerebral."

(Do livro A queda, publicado pela Editora Record.)

Dois parágrafos de Roberto Arlt

"Tanto é assim, que penso comigo que se não fosse pela lembrança de Ester Primavera já teria me matado. No meio desta miséria, seu nome bate em meu rosto como uma rajada de vento morno.
   Ela deixou de ser a mulher que um dia envelhecerá e terá cabelos brancos, e o sorriso estragado e triste das velhas. Ligada a mim pelo ultraje, há setecentos dias, vive no meu remorso como um ferro esplêndido e perpétuo, e minha alegria é saber que quando eu estiver moribundo, e os doentes passarem ao largo sem me olhar, a imagem desolada da delicada criatura virá me acompanhar até a morte. Mas como pedir-lhe perdão? E no entanto faz setecentos dias que penso nela a toda hora."

(Do livro As feras, tradução de Sérgio Molina, publicado pela Iluminuras.)

 

Bom dia...

... para este sol que não se envergonha de bater diariamente à nossa janela, para exigir que o adoremos. Julga-se essencial, o velhote... Bom dia para o homem do caminhãozinho de produtos de limpeza, que imagina vender hoje três Cândidas a mais do que ontem e pensa, se acontecer isso, em levar para o filho aquela revistinha que ele pediu. Bom dia para o garoto que descobrirá hoje a literatura e jurará fidelidade eterna a ela. Bom dia para todos os que tiverem hoje uma daquelas tréguas que chamamos de felicidade. Bom dia para os bons planos, que provavelmente não se realizarão nunca, porque essa é a essência dos planos e dos sonhos. Bom dia para as novas leitoras, Ivna e Elis, que renovam em mim, por um instante, a impressão de que alguém acompanha isto aqui e de que vale a pena continuar atirando garrafas ao mar.

Shakespeare

Tudo que nos acontece é intoleravelmente previsível. Como é enfadonha a vida do homem... Que esforço fez Shakespeare para melhorá-la, com seus príncipes insanos, seus mouros ciumentos, seus reis assassinos. Que milagre ele conseguiu, com tão pobre matéria-prima.

No jornal (Major Quedinho) - 49 - O romântico trapalhão

Era um revisor velhusco, mas com um coração de adolescente, segundo suas próprias palavras. Vangloriava-se de tantas conquistas que acabou despertando certo despeito. Estava difícil aturar a pose do dom-juan de cabelos brancos. Montou-se um esquema para dar-lhe uma lição e acabar com sua empáfia. Tudo começou com um telefonema que uma mulher, participante da trama, deu à revisão para se declarar apaixonada por ele. A resposta foi apaixonada também, como convinha ao nosso Romeu, e uma série de outros telefonemas armou a teia na qual haveria de se enredar o romântico revisor. A cena final foi preparada de tal maneira que pudéssemos acompanhá-la. A mulher marcou encontro com ele diante da Biblioteca Municipal Mário de Andrade. Poderíamos ver tudo das janelas do quarto andar. E foi lá que nos postamos no dia do encontro. O revisor de melenas de neve saiu com ares de de vitorioso, olhando-nos com desdém. Nós o vimos atravessar a São Luís, entrar na Consolação e caminhar empertigado para o saguão da biblioteca. Ficou ali por mais de meia hora, olhando para todas as direções e para o relógio. Depois, sumiu do nosso campo de visão. Imaginamos que estivesse voltando para o jornal, mas isso ele fez somente duas horas depois, com jeito de galã vencedor de Oscar. "E então?", perguntamos. "Isso é coisa que se pergunte?", ele disse. "Nem conto, nem conto." E não contou. Algum tempo depois, esse revisor participou de outro episódio. Começou a falar diariamente de uma garota linda, maravilhosa, encantadora, que se apaixonara tresloucadamente por ele. Cada noite ele nos contava mais um capítulo de suas venturosas aventuras. Até que veio a revelação, que era uma declaração de triunfo: havia alugado um apartamento e o mobiliara, para ser seu ninho de amor (palavras dele). A garota já havia se mudado para lá de mala e cuia (expressão também dele). Alguns dias mais tarde, notando-o cabisbaixo, fomos lhe perguntar se estava doente. Respondeu que, se fosse doença, estaria feliz. Era mais grave o problema. Na véspera, tinha ido inaugurar seu ninho. Tocara a campainha e aparecera sua linda garota, mas à frente dela estava um rapagão de um metro e noventa, que calmamente disse: "Olhe aqui, velhinho. Se você aparecer de novo aqui, eu quebro todos os seus ossos!" Para reforçar a ordem, pegou-o pelo colarinho engomado. "E é bom pagar direitinho os doze meses de aluguel que estão no contrato, senão a sua mulher vai ficar sabendo que velho sacana que você é."

Te sorrirão

Te sorrirão um dia
e com ternura te olharão

Não será um engano

Estarás mais velho
não muito porém

Já não tens muito
mais para envelhecer

Te sorrirão
te olharão
com ternura

Não poderás
e mesmo se pudesses
não retribuirias

Por que morto
continuarias aceitando
sorrisos de cortesia?

Logo logo

Um dia nós seremos
o que sempre
desejaram de nós

O pó não polemiza
o pó não ironiza
o pó não satiriza
o pó não tiraniza
o pó não distingue
entre o bem e o mal

O pó é a nossa
face mais cordial

No jornal - 48 - José Maria Mayrink

José Maria Mayrink, repórter do jornal por décadas e autor de livros de sensibilidade única, passou por um episódio curioso, no tempo em que governava São Paulo José Maria Marin. Sua mãe foi procurada por amigas alvoroçadíssimas um dia em Jequeri, Minas Gerais, de onde ele veio para se fixar em São Paulo: "Parabéns. Nós ouvimos que seu filho é governador. O rádio falou agora 'José Maria Mayrink, governador de São Paulo'. A resposta veio bem mineira: "Acho que é engano. Se fosse governador, ele já tinha me avisado." Tomara que Mayrink não seja confundido hoje com o presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol)... Marin jamais chegará a Mayrink. Nem tudo está errado no mundo.

No azul

Quantas vezes você viu um passarinho morto? Os passarinhos não costumam morrer. Quando chega sua hora, voam um pouco mais alto do que habitualmente e dissolvem-se no azul.

Recortes

Tudo que fiz foi ontem. Eu fui, eu era. E o que eu fui, e o que eu era, e o que eu fiz, todas as grandezas de que me gabo não passam de gloríolas, vestidas e maquiadas por minha memória, tão desonesta quanto eu. Minha história se resume a meia dúzia de pastas cheias de recortes amarelados.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Primavera

Primavera é uma palavra tão bonita que, ao serem consultados na página em que ela está, os dicionários deveriam abrir-se em flores.

Relógio

Morrer na hora certa é uma bênção. A tradução de hora certa, nesse caso, é: quanto antes, melhor.

Uma frase de Geraldo Mayrink sobre Vinicius de Moraes

"A superioridade da fêmea sobre o macho percorre os versos de Vinicius, tanto quanto marcou a ferro e fogo sua vida. O poeta sabia por ouvir dizer que os nervos de volúpia da mulher se estendem por todo o corpo, do cabelo aos pés, enquanto nos homens se limitam às partes genitais."

(Do livro Vinicius de Moraes, o poeta que amava as mulheres.)

"Destino das explicações", de Julio Cortázar

"Em algum lugar deve haver uma lixeira onde estão amontoadas as explicações.
   Uma única coisa inquieta neste exato panorama: o que possa acontecer no dia em que alguém consiga explicar também a lixeira."

(Do livro Um tal Lucas, tradução de Remy Gorga, filho, publicado pela Editora Nova Fronteira.)

Meia página de Janet Frame

"Quando ela chegou a este país, seu corpo já havia parado de crescer, seus ossos já haviam recebido sedimentos antípodas suficientes para até o fim de sua vida, seu cabelo outrora flamejante à luz do sol meridional agora parecia apagado e empoeirado no novo hemisfério, e ela tinha trinta anos, nunca se casara exceto por alguns meses de relação adulterina com um escritor americano (assim ele se considerava) que ao acordar de manhã dizia 'Escevo melhor de barriga vazia', tirava um pequeno pedaço de papel do casaco de tweed apoiado ao pé da cama de casal, e escrevia uma linha. Uma linha por dia. Ela também era escritora, assim se considerava, e foi entre a segunda e a terceira partes de seu romance 'em andamento' que o fim de semana se introduziu."

(Do livro Rumo a outro verão, tradução de Francisco José M. Couto e Éric R.R. Heneault, publicado pela Planeta Literário.)

No jornal (Major Quedinho) - 47 - Os haicais

Eu devia ter dois ou no máximo três anos de jornal quando o dr. Décio de Almeida Prado, diretor do Suplemento Literário, passou a ir uma vez por semana à revisão, para liberar as provas finais do suplemento. Eu, que tinha recentemente descoberto o haicai e escrevera alguns, tive o impulso de mostrar ao doutor meia dúzia deles. Era uma ousadia para a qual minha timidez, absurdamente grande na época, representava um obstáculo muito difícil de transpor. Eu olhava para o dr. Décio, passava diante dele, sorria, pigarreava, e desistia. Sentindo que dessa forma eu jamais conseguiria falar com ele, usei um velho recurso dos tímidos. Escrevi um bilhete à mão, copiei alguns haicais (já não lembro quantos), deixei o envelope na mesa do doutor e me afastei correndo, com todas as pernas que tinha. Não sei se naquele dia mesmo - mas sei que rapidamente -, o dr. Décio me deu a resposta. Disse que publicaria os haicais no suplemento. Fiquei maravilhado e não consegui esconder minha alegria. Logo não havia um revisor que não soubesse. Alguns dias depois, fui chamado à tesouraria, assinei um recibo e me pagaram pelos haicais. Também nessa vez eu fiz um estardalhaço de mil tambores na revisão. Ocorre que o tempo foi passando e todo sábado (dia em que era publicado o suplemento) eu me decepcionava: nada dos haicais. Quando eles foram publicados, não sei o que era maior, se minha satisfação ou se meu alívio. Soube recentemente por um revisor daquele tempo (Rafael Sânzio de Azevedo) que, naquele período no qual parecia que os haicais não sairiam, um dos tantos brincalhões que havia ali disse que não sairiam nunca. Rafael estranhou: por que, então, eu já havia até recebido o dinheiro? A resposta foi: "O jornal pagou exatamente para isso, para não publicar. Assim o prejuízo é menor..."

No jornal (Major Quedinho) - 46 - O morto desbocado

Nas noites de sexta-feira, já entrando na madrugada de sábado, os revisores saíam para quinze minutos de lanche. Voltávamos depois para mais algumas horas de trabalho, nas quais revisávamos a matéria paga para a edição de domingo. Numa dessas noites, saímos todos, menos um revisor, Orival Xavier Barbosa (ele está em outra das notas desta "série"), que preferiu deitar-se na mesa do chefe, Lima Neto, e dormir um pouco. Além do trabalho no jornal, era funcionário público. Fomos para o lanche e, ao voltarmos, Orival dormia ainda. Alguém teve uma daquelas ideias que haviam criado e mantido nossa fama de malucos. Logo essa ideia entrou em execução. Providenciaram-se, sei lá como ou onde, quatro velas, apagaram-se todas as luzes e lá ficou o falso defunto, devidamente ornamentado. Quando a cena fúnebre estava armada, começamos a fazer ruídos. Não precisamos esperar muito. O morto mexeu-se devagar, sentou-se e ficou assim, um minuto talvez. Estava difícil, para nós, segurar o riso. Finalmente pudemos soltá-lo, quando o defunto notou que não estava morto e pôs-se a xingar como nunca nenhum defunto deve ter xingado em toda a história da humanidade.

No jornal (Major Quedinho) - 45 - O dr. Montes

Eu disse, em uma das notas que venho escrevendo sobre o jornal, que os revisores ganhavam bem. Nosso problema era que deixávamos tudo em bares e dancings, e ainda ficávamos devendo. Quando a situação se tornava crítica, eu, que fazia parte desse time de perdulários noturnos, criava coragem - a expressão era bem essa - e ia à diretoria pedir um empréstimo. Quem tratava desse assunto, e de mais uma centena de outros, era o dr. José Maria Homem de Montes, conhecido por sua severidade. Eu me preparava bem para essas ocasiões. Escrevia uma carta, na qual relatava falsos infortúnios - doenças familiares, furtos sofridos, livros imprescindíveis ao meu curso de direito, acidentes que destruíam de uma só vez todos os aparelhos elétricos da casa - e pedia a compreensão dele. A carta era entregue à secretária, dona Anita, que prometia entregá-la e chamar-me no dia em que houvesse uma resposta. Quando esse dia chegava, eu invariavelmente me arrependia de ter feito o pedido. Enfrentar o dr. Montes não era fácil. Ele parecia ler as mentiras nos meus olhos e no meu nervosismo. Adivinhava que, se me liberassse o empréstimo, eu o gastaria em coisas nada nobres, embora muito agradáveis. É estranho dizer isso nesta altura do relato, é quase um anticlímax, mas ele nunca me negou um pedido. Mas me passava um sabão todas as vezes, como se fosse um pai educando um filho desencaminhado. Quando eu saía com a autorização, sentia-me um vitorioso. Tinha dinheiro para muitas noitadas e o pagaria em três vezes, sem juro. Esses meus repetidos sucessos animaram certa ocasião um companheiro de noitadas alcoólicas, Mário de Melo, Melinho, que escreveu também sua carta, entregou-a no mesmo dia em que deixei a minha com a secretária e, na tarde em que, cada um de nós no seu horário, fomos chamados para saber a resposta, ele resolveu também entrar comigo. Quando a secretária perguntou, em tom de reprimenda, se íamos entrar juntos, já tínhamos entrado. Pela expressão do dr. Montes, aquilo era uma surpresa também para ele. Estava mais severo do que nunca. Negou, rejeitou, recusou asperamente. A associação com Mário de Melo parecia que ia provocar minha primeira derrota. O dr. Montes, depois de uma espinafração e tanto, calou-se e não olhou mais para nós. Era o sinal para que saíssemos. Nesse instante, Mário de Melo, como se fosse um menino chorão, perguntou: "Então não vai dar, dr. Montes? Nem um dinheirinho? Nem um pouquinho?" O dr. Montes deu um sorriso, o único que me lembro de ter visto e seu rosto em tantos anos, e liberou nossos empréstimos.

A palavra

Um morador de uma das casinholas à beira do deserto, um velho de oitenta anos que nasceu ali, conta aos visitantes, uma mulher e um homem, o fato mais notável que viu, em tanto tempo: um rapaz que, tendo ficado dias perdido na areia sem fim, chegou delirante e, em vez de água, repetia, suplicante: amor, amor, amor. O velho deu-lhe água e conseguiu fazê-lo tomar duas colheres de sopa. Depois disso, o rapaz havia se estendido na cama. Parecia que não respirava mais, porém de vez em quando seu corpo era sacudido por convulsões e nos seus lábios se formava, sem som, a palavra amor. Morreu depois de três dias em que seu único sinal de vida eram a febre, que o queimava como se ainda estivesse sob o sol, as convulsões e a angústia dos seus olhos toda vez que os lábios tentavam pronunciar a palavra. "Foi há muito tempo isso?", perguntou a mulher, e o velho respondeu que pelo menos sessenta anos antes. A mulher sorriu, suspirou, olhou para o marido e, como se falasse de dinossauros, disse: "Parece que o amor provocava coisas assim."

Um trecho de Gérard de Nerval

"Cadenciando a cintura esguia num movimento que fazia cintilar as dobras do vestido em tafetá furta-cor, a amada por mim seguida, graciosamente, cingiu um longo talo de malva-rosa com seu braço nu; depois começou a crescer sob um claro raio de luz. Aos poucos o jardim adquiria-lhe a forma, e os canteiros e as árvores tornavam-se as rosáceas e grinaldas de suas vestes, enquanto seu rosto e seus braços imprimiam contornos nas núvens púrpuras do céu. Eu a perdia assim de vista à medida que se transfigurava, pois ela parecia esvanecer-se na própria grandeza. Oh! não fujas! supliquei... senão a natureza morre contigo!"

(Do livro Aurélia, tradução de Luís Augusto Contador Borges, publicado pela Iluminuras.)

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A esperança

A esperança não é a última que morre. É a última que se cansa e desiste, afinal, de continuar fingindo que está viva.

No jornal (Major Quedinho) - 44 - O credor zangado

Uma tarde, por meia hora pelo menos, o elevador, descendo, parava no primeiro andar. De lá, enquanto os passageiros desciam pela escada, os que estavam no térreo eram chamados pelo ascensorista Amadeu, que convidava: "Gente, vocês podem vir até aqui?" Não havia nenhuma falha mecânica. A causa daquilo tudo era um octogenário meio entrevado que, com o ouvido encostado na porta do elevador, no térreo, dizia: "Eu sei que você estar aí, você não enganar Jacó. Vagabundo! Voce não querer pagar o que me deve."

No jornal (Major Quedinho) - 43 - Dr. Julio de Mesquita Filho

Vi poucas vezes o dr. Julio de Mesquita Filho. Bastaram para que ele seja até hoje, para mim, a imagem do Estadão. Com exceção de uma única vez, foi sempre no saguão de entrada que eu pude vê-lo. Ele descia do elevador e - pelo menos na fase mais áspera dos Anos de Chumbo - observei em duas ocasiões, como que surgidos do nada, dois ou três homens que imaginei serem seguranças (se eram, creio que seriam não do jornal, mas provavelmente do Dops - Departamento de Ordem Política e Social). De qualquer forma, não chegaram a dar três passos ao lado dele. Com um gesto sóbrio, ele mostrou que desejava sair sozinho, e foi assim que saiu. Outro episódio demonstra como era o dr. Julio. Eu estava na fila do elevador. Quando este chegou, o ascensorista abriu a porta e, vendo que o dr. Julio chegava, fez um gesto para a fila, dando a entender que devíamos abrir espaço para ele. O dr. Julio parou, porém, e fez um sinal para que fôssemos entrando. Ele foi o último. Eu disse, no início desta nota, que apenas numa das vezes em que o vi não foi no saguão de entrada do prédio. Foi numa tarde em que, tendo faltado o chefe da revisão, Nelson Lima Neto, estávamos sob as ordens do subchefe, Ernesto Cerf, que, normalmente ranzinza, nesse dia estava bem pior. Nós nos revoltamos com uma determinação dele, esdrúxula e injusta, e formamos um grupo que subiu à redação. Estávamos revoltados e dispostos a não trabalhar mais nessa tarde. Não creio que tivéssemos ido para falar com o dr. Julio, propriamente, mas foi ele quem acabou nos atendendo. Ouviu-nos, deu-nos razão e recomendou que voltássemos e informássemos ao chefe sua decisão: "Se o subchefe tiver alguma dúvida, digam que ele pode ligar para mim."

No jornal (Major Quedinho) - 42 - Dia de pagamento

Em todas as décadas nas quais trabalhei no jornal, nunca houve um dia sequer de atraso nos pagamentos, nem na quinzena nem no fim do mês. Se o dia 15 ou  o 30 caíssem num sábado, domingo ou feriado, pagavam-nos antes. E - temeridade das temeridades - pagavam-nos em dinheiro. Aparecia o pagador na revisão, com os envelopes recheados, e entregava-os. Numa dessas noites de pagamento, passado já o horário habitual, surgiu o rumor de que a tesouraria tivera um problema. Ênio Mendes - um revisor que gostava de polemizar a respeito de tudo e chegava a refutar os próprios argumentos e aceitar os do adversário, pelo prazer de continuar a discussão - ficou indignado: "Que história é essa? O pagamento é hoje. Eu não quero nem saber. Eles vão ter que cagar dinheiro!" Oswaldo de Camargo, que tinha sido seminarista, conhecia muito bem latim e o empregava com tanta frequência quanto usava o português, apoiou: "Isso mesmo! Defaecare pecuniam!" Não foi preciso, que eu saiba, fazer o que Ênio sugerira em português e Oswaldo traduzira para o latim. O pagamento foi feito logo depois. Este episódio quem o reavivou em minha memória foi Rafael Sânzio de Azevedo, o polímata, que está em uma das notas disto que já vai se tornando quase uma série.

Bom dia

Dou-me bom dia. Antes isso seria um sinal de orgulho, de egoísmo ou de autossuficiência. Hoje é uma necessidade. Quem mais o daria? Desejo-me bom dia, esperando que o desejo se concretize. Já tive sonhos mais ambiciosos. Bom dia, Raul.

Eva

Nem tinhas ainda nascido
E eu já, em minhas costelas,
Sentia o aviso doído -
Nascerias de uma delas.

Correio

As cartas de amor escritas e não enviadas, que ficaram anos lastimando-se no criado-mudo, são arrastadas com ele agora pelo rio que a inundação formou, e alvoroçam-se, julgando que finalmente chegou o dia de serem entregues.

Sequestro

Trancaram o Amor no porão há uma semana. Ele se recusa a comer. Só bebe água. Os sequestradores já pensam onde jogarão seu corpo. Desde o primeiro dia, todos os telefonemas exigindo pagamento de resgate foram cortados no meio. Ninguém, na casa do Amor, parece querer saber dele. De ontem para hoje, não estão mais atendendo as ligações. Devem ter viajado. Há tantas Índias, tantos Japões no mundo.

No jornal (Major Quedinho) - 41 - O sexólogo

Ganhava-se bem na revisão e, com os já imensos cadernos de anúncios classificados, havia sempre a oportunidade de horas extras, com as quais se chegava a dobrar o salário. Mesmo assim, de tempos em tempos surgiam reivindicações. Numa dessas vezes, o departamento de recursos humanos fez circular entre nós um quastionário, para conhecer as aptidões de cada um e avaliar as possibilidades de promoção. Nele se pedia que se mencionassem todos os cursos e, além deles, qualquer conhecimento que pudesse ser levado em conta para melhorar a pontuação dos candidatos a novas funções. Houve quem citasse habillidades hoje corriqueiras, como tirar fotos, e quem se referisse a gostos, como cinema ou música. Chamou-me a atenção, nesse particular, a qualificação, ou a atividade predileta, não sei, de um revisor já velhusco, de quem guardei só o sobrenome: Magalhães. Ele se proclamava autodidata em sexologia. Qualquer garoto de dez anos, hoje, poderia declarar isso sem nenhuma gabolice, tanto na parte teórica quanto na prática.

Photoshop

Se te lembrares de mim,
Que me protejas um pouco
E não me lembres tão louco,
Tão bobo, tão fraco assim.

O esporte

O autoflagelo é o esporte
Que com empenho eu pratico.
Vou bem. Cada dia fico
Mais perto da meta, a morte.

A peça

Participemos do amor. É sempre uma boa peça, mesmo que invariavelmente nos reservem o papel do tolo que sofre, chora e escreve horrorosos poemas, enquanto os outros fazem gemer camas e mulheres. Atuemos. Para que serviria o chicote, se não houvesse costas? Deus sabe o que faz.

No jornal (Major Quedinho) - 40 - O taciturno

Na época em que os órgãos da repressão infiltravam espiões onde pudessem, apareceu na revisão o mais taciturno de todos os jornalistas que conheci (não me lembro de nada que ele tenha dito no tempo em que ficou lá). Logo se espalhou, naturalmente, a suspeita de que ele só poderia ser um dos infiltrados. Essa suspeita fazia com que, à aproximação dele, todas as conversas, fossem sobre o que fossem, imediatamente se interrompessem. E ele, Fernando (não guardei seu sobrenome), que já era calado, calado continuou. Tinha alguma semelhança com Clark Kent - e talvez viesse a ser esse seu apelido, se fosse outra a ocasião. Tornou-se conhecido como Sombra. Ficou pouco na revisão. Foi para a redação, onde começou a fazer reportagens, que assinava como... Fernando Sombra. Aquele tempo - conhecido como Anos de Chumbo - provocou situações desse tipo. Amizades que poderiam ter sido construídas foram abortadas pela suspeita e pelo medo.

Nem isso

Se ao menos, em todo esse tempo em que o amor me manteve cativo, eu tivesse escrito dois ou três bons poemas... Falhei em tudo. Pode ser chamado de poeta quem não sabe escrever um poema de amor?

Um trecho de J.M. Coetzee

"No Natal,  quando o pai e os irmãos dele se reúnem na fazenda, a conversa sempre gira sobre os tempos de escola. Eles relembram os professores e suas varas; as frias manhãs de inverno quando a vara deixava vergões azulados em suas nádegas, e o ardor que durava dias na memória da carne. Nas palavras deles, existe uma nota de saudade e um temor prazeroso. Ele escuta avidamente, mas disfarça quanto pode. Não quer que o notem e, numa pausa da conversa, lhe perguntem sobre o lugar que a vara ocupa em sua própria vida. Nunca foi açoitado e envergonha-se profundamente disso. Não pode falar sobre varas do jeito descontraído e experiente desses homens."

(Do livro Cenas de uma vida, tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves, publicado pela Editora Best-Seller.)

Um trecho de Julio Cortázar

"Nunca lhe contara antes, não pense, porém, que por deslealdade, mas naturalmente a gente não vai ficar explicando aos outros que, de quando em quando, vomita um coelhinho. Como isso sempre me tem sucedido estando só, escondia o fato como se escondem tantos detalhes do que acontece (ou a gente faz acontecer) na intimidade total. Andrée, não me censure. De quando em quando me acontece vomitar um coelhinho."

(Do conto "Carta a uma senhorita em Paris", do livro Bestiário, tradução de Remy Gorga, filho, publicado peça Editora Nova Fronteira.)

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Um trecho de Gérard de Nerval

"Amei durante muito tempo uma dama a quem chamarei de Aurélia e que perdi para sempre. Pouco importam as circunstâncias desse evento que devia ter uma influência tão grande em minha vida. Cada um pode buscar em suas lembranças a emoção mais pungente, o golpe mais terrível desferido sobre a alma pelo destino; há então que se resignar a morrer ou viver - direi mais tarde por que não escolhi a morte. Condenado por aquela a quem amava, culpado de uma falta cujo perdão não tinha mais esperança, só me restava lançar-me em exaltações vulgares."

(De Aurélia, tradução de Luís Augusto Contador Borges, publicado pela Iluminuras.)

Demais

Eras muitas, eras mil.
Como entender-te eu podia
Com minha mente vazia
E com minha alma infantil?

Uma pequena história de Thomas Bernhard

"Um assim chamado conjunto de música de câmara, famoso por tocar música antiga somente em instrumentos de época e também por um repertório que contempla apenas Rossini, Frescobaldi, Vivaldi e Pergolesi, apresentou-se num antigo castelo à beira do lago Atter e experimentou nessa ocasião o maior sucesso de sua carreira. Os aplausos só cessaram quando, bis após bis, já não lhes restava repertório a executar. Somente no dia seguinte revelaram aos músicos que eles haviam tocado para uma instituição de surdos-mudos."

(De O imitador de vozes, tradução de Sergio Tellaroli, publicado pela Companhia das Letras.)

Um trecho de Friedrich Nietzsche

"Conheço a minha sina. Um dia, meu nome será ligado à lembrança de algo tremendo - de uma crise como jamais houve sobre a Terra, da mais profunda colisão de consciências, de uma decisão conjurada contra tudo o que até então foi acreditado, santificado, requerido. Eu não sou homem, sou dinamite. E com tudo isso nada tenho de fundador de religião - religiões são assunto da plebe, eu sinto necessidade de lavar as mãos após o contato com pessoas religiosas... Não quero "crentes", creio ser demasiado malicioso para crer em mim mesmo, nunca me dirijo às massas... Tenho um medo pavoroso de que um dia me declarem santo: perceberão por que publico este livro antes, ele deve evitar que se cometam abusos comigo... Eu não quero ser um santo, seria antes um bufão... Talvez eu seja um bufão..."

(De Ecce homo, tradução de Paulo César Lima de Souza, publicado pela Companhia de Bolso.)

Bollywood

Estavas onde quando eu
Teu nome ao vento lançava,
E com quem, quando eu chorava
Na cena em que o amor morreu?

Agenda

Resta-me só cultivar
Este desânimo imenso e o
Anseio de me afogar
Nas trevas e no silêncio.

Nua e crua

Jamais creias nos que vierem
Jurar-te juras eternas.
Esses, também, o que querem
É o que tu tens entre as pernas.

Provas de vida

Sei que não morri porque não sinto nenhuma paz, nenhuma bem-aventurança. Sei que não morri porque ainda há ressentimento em meu coração e a mágoa continua a instigar o ódio. Sei que não morri porque me vejo no espelho e me chamo ainda de tolo. Sei que não morri porque bisonhas metáforas me cravam ainda punhais na alma. Sei que não morri porque pelo ar me chegam toques de finados. Sei que não morri porque sou eu este que noite e dia pergunta: Deus, por quê? Já não fiz o bastante para merecer?

No jornal (Major Quedinho) - 39 - Mário Leônidas Casanova

Houve uma época em que os editoriais da página 3, já publicados então sob o título atual - Notas & Informações -, davam aos revisores a impressão de que eram escritos à mão, sendo as correções feitas com a máquina de escrever. Uma canetinha de tinta preta rabiscava tudo em todas as direções. Corrigia palavras, inseria frases, introduzia inversões, anástrofes, hipérboles. Para usar uma expressão daquele tempo, pintava e bordava. Os revisores admiravam e, mais que isso, invejavam a coragem de quem fazia aquele rebuliço nos textos da mais importante página do jornal. Era Mário Leônidas Casanova, e muitas de suas intervenções nos editoriais são lembradas até hoje. Como em um título, que de "Previsões sombrias" passou para "Perspectivas umbráticas". Em outro editorial, Casanova, para evitar a repetição das palavras pesca e caça, utilizou os sinônimos "haliêutica" e "venatória". A explicação corrente para essa ousadia era a de que na página 3 a linguagem deveria ser mais culta e sofisticada. Casanova, que era romancista, conseguiu, com seus preciosismos e quejandos, desincumbir-se às mil maravilhas dessa tarefa.

Sábado

Mais um, que bem poderia
Ser um enfim incomum,
Não somente mais um dia,
Mas um como mais nenhum.

O que é o amor

O amor é como uma tempestade em alto-mar: o vento enfurecido, faíscas, relâmpagos, trovões. As ondas, assustadas, se entrechocam, se batem, se atiram contra os navios, em busca de refúgio. Às pragas dos marinheiros que lutam pela vida se juntam as maldições dos marujos mortos em procelas imemoriais. As nuvens descem cheias de ódio, e céu e mar se transformam num animal só, empenhado em destruir tudo. São vinte, trinta minutos de horror. Parece impossível que alguma coisa escape à destruição. Esse é o amor - o som e a fúria de Shakespeare, a obsessão de Melville, a insanidade de Conrad. Quando milagrosamente ressurge a claridade e perto da praia os veleiros já se atrevem a sair, isso não é mais o amor. É a paisagem de um quadro que o pintor bissexto fará com capricho e levará para vender domingo no parque municipal.

No jornal (Major Quedinho) - 38 - O inimigo dos dicionários

Os dicionários tremiam quando deles se aproximava Dario (não me lembro do sobrenome e nem tenho certeza quanto ao nome). O Caldas Aulete, o Aurélio, o Lello eram tratados por ele com uma sem-cerimônia quase brutal. Era como se todos não fossem mais que desmancha-prazeres. Ele chegava, apanhava-os como alguém pegando pelo pescoço um gato desobediente e mijão, abria-os como um deflorador arrancando o vestido da vítima, balançava a cabeça e atirava-os de volta à estante, com uma interjeição de desdém: bah. Não me lembro de tê-lo visto concordar uma vez sequer com nenhum deles. Tinha suas próprias teorias e vê-las contrariadas lhe provocava uma justa ira. Às gramáticas ele dava o mesmo tratamento. Silveira Bueno, Eduardo Carlos Pereira, Carlos Góis, Napoleão Mendes de Almeida eram todos execrados por ele. Tinha uma cisma com uma tal de conjugação perifrástica e suas discussões gramaticais acabavam tomando esse rumo. Nos primeiros tempos de revisão, usava todas as suas inovadoras teorias e rabiscava as provas de alto a baixo. Com as seguidas advertências que levava, Dario submeteu-se afinal aos dicionários e às normas gramaticais. Parecia domesticado, embora de tempos em tempos prometesse a publicação de um livro que, segundo sua previsão, faria tremer os alicerces da apodrecida língua portuguesa. Uma noite, perguntou se alguém sabia de um apartamento para alugar e explicou que podia ser dos pequenos, para uma pessoa. Ele era casado e, antes que alguém lhe fizesse uma pergunta, disse, como se estivesse ansioso para desabafar: "Estou me separando." Como ele sempre elogiava a mulher, quisemos saber o que tinha acontecido. Ele se agitou, seu rosto avermelhou-se e a explicação veio em palavras iradas: "Ah, ela é metida a sabichona. Eu fui aturando, mas ontem não deu. Ela me disse que eu não entendo nada de conjugação perifrástica."

O jatinho

Num dos seus bate-papos em colégios, um dos alunos lhe perguntou se tinha um jatinho. Ele respondeu que ainda não tinha chegado ao estágio de Ivete Sangalo. A classe riu. Às vezes o acham espirituoso. Mantém ainda alguma semelhança com os seres humanos, e é possível que meio aluno em cada cem acredite que ele é escritor. E, se um dia lhe perguntarem o que é, então, Paulo Coelho?

Presumivelmente um ser humano

As crianças ainda o recebem com carinho. Vai aos colégios falar de um ideal antigo, que ficou pelo caminho, embora ele não queira reconhecer. Vai falar de Flaubert, de Balzac, de Borges, de Tchekhov, como se os conhecesse. Escreveu alguns livrinhos que são seu álibi e consegue fazer com que os generosos meninos e as pacientes meninas o olhem com a educação que os professores lhes ensinaram ser devida a todos os seres humanos. É um ser humano, nesse sentido, recebido sempre com sorrisos e aplaudido no final de cada uma das reuniões em que seu assunto são coisas que não conhece. É um velhote a quem as crianças respeitam porque lhes disseram que um dia poderão vir a envelhecer também. Olham para ele e pensam: "Será? Melhor não."

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O guia

Soubemos bem quem nós fomos,
Quando era o amor nosso guia.
Foi ontem, foi outro dia.
Hoje me diga: quem somos?

Kama Sutra - CXVII

É o terceiro dia da empregada. É mais nova que as duas anteriores. Deve ter cinquenta, no máximo. Sentado no sofá, de onde dificilmente sai, porque as dores de coluna o atormentam, ele vê que ela é como sua mulher disse: ordeira. Na véspera e na antevéspera, também começou pela cozinha e é agora - quando a mulher saiu para visitar a filha, como toda tarde - que ela vem arrumar a sala. Assim como ontem e anteontem, ela tira o pó daqui, mexe ali e, depois, dá um suspiro de cansaço e senta-se ao lado dele, que vê tevê. No primeiro dia ele quase não sentiu o contato dela. No segundo, ela se encostou mais. Hoje, no primeiro momento ele pensou que ela fosse sentar-se no seu colo. Parece que estão num daqueles bancos bem apertados de ônibus. Ela fala com ele carinhosamente, como se fosse sua filha, pergunta se ele está bem, se tomou os remédios. Suando de culpa antecipada, ele tenta lembrar aquela palavra, como era mesmo? Incesto. No primeiro dia ela perguntou sua idade e ele confessou, com tristeza: sessenta e oito. Ontem ela disse que tinha esquecido, perguntou de novo, e ele roubou nas contas: sessenta e quatro. Se ela perguntar hoje também, o que ele vai dizer? Isso ele ainda não sabe. Sabe que fazia muito tempo que não sentia esta quentura inquieta na coxa e também um pouco acima, onde ela mexe agora com a mão vagarosa, lerda, preguiçosa, como se não tivesse nada mais para fazer na casa, como se não precisasse ainda lavar a frente e regar o jardim. Talvez o que ele está sentindo já seja o máximo. Vai descobrir isso logo, porque a mão se movimenta mais rapidamente e já abriu dois botões da sua calça. Ele fecha os olhos e espera. Lembra-se de uma frase. Não tem nada a perder. Onde ela está sentada ficará pelo menos, como ontem e anteontem, o calor que depois ele novamente apalpará, com a mão cautelosa, como se ali tivesse estado o sol.

Você na Santa Cruz

A você - que sorriu hoje para mim, às 9h35 no metrô Santa Cruz, porque por um instante pareceu que eu era um centroavante sem freio e você uma temerosa defensora, e quase nos derrubamos - eu retribuo agora, com este imperdoável atraso. Você não verá este sorriso, com o qual  eu substituo aquele murcho, franzido, que lhe dei. Perdoe-me. Há muito perdi o hábito de sorrir e, para sorrir agora, precisei buscar ajuda em memórias bem antigas. Sorrio e digo a você que seu sorriso me surpreendeu e me deixou completamente sem jeito, cheio de mãos e dedos, todos inábeis para lhe mandar sequer um aceno. Há muito não sorriam assim para mim, há muito eu não sabia como podem nos fazer bem dois lábios, mesmo que não digam uma só palavra.

Mau negócio

Soubemos desde o começo
Que em nada tudo daria.
Por que, por esta agonia,
Pagamos tão alto preço?

Pragmatismo

Nós fomos muito objetivos,
Você talvez mais do que eu.
O amor, incauto, morreu,
Mas nós continuamos vivos.

No jornal (Major Quedinho) - 37 - A calandra

O trote mais comum pelo qual passaram os revisores da minha época era receberem a incumbência de buscar a calandra na tipografia. Era algo que envolvia uma espécie de solenidade. O chefe da revisão levava pelo menos dez minutos para preparar um bilhete em que pedia respeitosamente ao chefe da tipografia a gentileza de entregar ao portador (a vítima) a calandra, sob o pretexto de ser necessário e urgente seu uso na correção de provas. Depois de redigido o bilhete (pomposamente chamado de memorando), lá se ia o foca para cumprir sua missão, orgulhoso por ter sido designado para uma tarefa revestida de um ritual que, iniciado na revisão, continuava na tipografia, cujo chefe, ao receber o papel, olhava desconfiado para o revisor e perguntava: "Você é novo no jornal, não é?" O revisor dizia que sim, mas que, se houvesse alguma dúvida, era só ligar para o chefe da revisão. O chefe da tipografia consultava o memorando, objetava que ali não havia referência a nenhum nome, constando apenas a palavra "portador", e ia alongando a coisa, até que pedia um documento ao novato, transcrevia os dados num bloquinho e só então revelava disposição de resolver o assunto. Perguntava, em voz bem alta, se a calandra estava disponível e, depois de fazer uma consulta entre quatro ou cinco tipógrafos, concluía que, como deferência ao chefe da revisão, a calandra poderia, sim, ser liberada, embora por pouco tempo. Então o chefe da tipografia gritava o nome de um funcionário e avisava que ele deveria entregar a calandra. "Pode ir falar com aquele ali", dizia ao rapaz. Ao chegar ao funcionário apontado, o novato, se fosse um pouquinho perspicaz, já teria percebido que o trabalho na tipografia havia parado para acompanhar seus passos. O funcionário conferia novamente o bilhete e perguntava se ele mesmo se encarregaria de levar a calandra até a revisão. O foca dizia que para aquilo mesmo é que estava ali. O funcionário então, gentil, lhe dizia: "Pode pegar. A calandra é toda sua." E mostrava uma colossal máquina, que se destinava a alisar papel e pesava toneladas, desejando boa sorte ao rapaz. Nesse ponto, palmas ecoavam no imenso espaço ocupado pela tipografia, acompanhadas pelos gritos de incentivo: "Leva, leva, leva!" Recepção igual, e às vezes até mais festiva, esperava pelo novato na revisão, quando ele aparecia cheio de vergonha e de mãos vazias. Parece que na redação também se aplicava esse trote, do qual me livrei porque havia sido devidamente alertado pelo revisor Oswaldo de Camargo, meu padrinho no jornal.

Kama Sutra - CXVI

Se ela o deixasse vê-la nua, ainda que fosse uma só vez, já bastaria a ele. Colocaria num papel um resumo de sua geografia, os montes, as encostas, as suaves depressões, o vale entre as duas carnudas montanhas, a mata de tenra folhagem, a fonte. Depois, com a mão que houvesse traçado o mapa, e o auxílio da imaginação, ele, abençoando-se por sua boa sorte, percorreria tudo.

Mais do mesmo

Woody Allen é como Fernando Pessoa. Tem centenas de heterônimos, mas com uma diferença: para nossa sorte e encanto, são todos iguais a ele.

A máscara

Tudo mais, nele, parece ter morrido. Não sente mais nenhum desejo de fazer nada. Mas continua escrevendo. É o último disfarce que conserva. As pessoas acreditam cada vez menos nele, e ele mesmo também vê, diariamente, mais defeitos na máscara, mas continua a usá-la. Gostaria de se olhar no espelho e ver um morto, essa seria a máscara ideal, mas nunca teve coragem e todos os dias a imagem que o encara é esta: a de um homem velho, doente e derrotado, que tenta passar por artista.

O inimigo vem do leste

A trégua que tem são aqueles três segundos nos quais, depois de acordar, ele olha ao redor como olham os bilhões de seres humanos antes de, localizando os objetos habituais, redescobrirem quem são. Ele olha a parede, a janela, e nesse olhar a memória já se recompõe inteira e lhe diz o que ele gostaria de nunca mais saber: quem ele é. Não precisa abrir a janela para pressentir lá fora o sol, o tirano que o repõe todos os dias diante do suplício de viver. Todas as manhãs se pergunta até quando suportará isso. E vai suportando.

Obrigado

Quando nos vimos pela primeira vez, eu estava alegre. Não foi falsidade minha. Eu estava alegre, mesmo. Era uma exceção, uma raridade quase inconcebível. Não, eu não estava alegre, só. Eu estava feliz. Hoje, passados tantos dias e noites sobre aquela manhã, tantas angústias e sofrimento, eu lhe agradeço por ter feito daquele instante o único em que senti abalada a minha convicção de que a vida é triste. Abençoada seja por me haver devolvido rapidamente ao meu destino, à minha vocação, por ter me mostrado que a felicidade é mesmo, como eu sempre pensei, um acontecimento único, não uma dessas baboseiras que as revistinhas de trivialidades prometem tornar acessíveis se seguirmos dez regrinhas, todas muito simples.

Um trecho de Orhan Pamuk

Um homem como eu, cativo havia tempo demais de uma paixão destruidora, continua no rumo que sua razão lhe diz ser errado, mesmo sabendo que ali só encontrará mais desgosto; com o tempo, verá com uma clareza cada vez maior o quanto seu caminho estava errado. Em situações assim, ocorre um fenômeno interessante e raramente assinalado: mesmo em nossos piores dias, a razão não para de falar conosco; ainda que sobrepujada pela força da nossa paixão, continua a sussurrar, com uma franqueza impiedosa, que nossos atos só servem para acentuar nossa paixão, e portanto nossa dor.

(Do romance O museu da inocência, tradução de Sergio Flaksman, publicado pela Companhia das Letras.)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Primus inter pares

Se só intenções bastassem,
Não haveria nem Dantes,
Nem Borges e nem Cervantes,
Que com ele se comparassem.

Continha de chegar

Os escritores são criaturas singulares. Novecentos e noventa e nove, em mil, não o são, na verdade, mas aquele que é diz valer por mil.

No jornal (Major Quedinho) - 36 - Um garoto esforçado

Uma noite nós, os revisores, recebemos um presente: um garoto muito bem-vestido e asseado apareceu e disse ao chefe da revisão, Nélson Lima Neto, que tinha ido à redação para pedir emprego e lá lhe haviam indicado a revisão como o melhor lugar para ele. Parecia haver sentido naquilo. Só de olhar para ele se percebia que nossa fama de abrigarmos loucos de todas as espécies seria ampliada com aquele novato. O chefe lhe explicou que ele precisaria marcar data para fazer um teste e, se aprovado, esperar uma vaga. O garoto, que chegou com uma máquina de escrever e uma fotográfica, disse que faria o teste na ocasião adequada, mas que, para ir se ambientando, se colocava já naquele momento à disposição para ajudar. Nélson Lima Neto percebeu que era um doido com mestrado e indicou uma mesa, onde ele rapidamente se instalou, com as duas máquinas. Pediu a Gumercindo, contínuo encarregado de distribuir as provas para revisão, que deixasse algumas com ele. O chefe lhe disse que seria melhor se ele redigisse um texto. Passou-lhe um tema e o rapaz desandou a escrever. Tinha trazido também uma pilha de folhas. Duas horas depois entregou o resultado de sua escrevinhação. O chefe fingiu ler e disse que o texto estava muito bom. "Pode ir agora. Quer marcar já o dia do teste?" O rapaz respondeu que não, que achava melhor ficar mais um tempo se ambientando. Saiu, e ninguém esperava que ele fosse voltar na noite seguinte. Mas voltou e continuou voltando, dias e dias. Embora não a usasse, trazia sempre a máquina fotográfica. Na outra, escrevia os textos que o chefe lhe sugeria, e dava a impressão de estar muito feliz. O chefe lhe perguntava quando ele marcaria o teste e recebia a mesma resposta: havia muito tempo para aquilo. Assim foi, por mais de uma semana. Uma noite, repentinamente, ele foi à mesa do chefe e, com os olhos esbugalhados, exigiu:  "Seu Nélson, toma nota aí." O chefe pegou folha e caneta: "Pode falar." Com uma voz que ia subindo de tom e tornando-se mais agressiva a cada palavra, ele ditou: "Seu Nélson, o Brasil, o Brasil, o Brasil precisa, o Brasil precisa de enxadristas." Apanhou a máquina de escrever e a fotográfica e saiu. Dali a cinco minutos, o porteiro ligou para contar que o rapaz passara por ele gesticulando e dizendo frases intraduzíveis e, já fora do prédio, tinha atirado as duas máquinas no pequeno jardim que havia na entrada. As máquinas foram guardadas, à espera de sua volta, mas nunca mais pusemos os olhos nele.

Novela e futebol

Minha mulher, que nunca foi simpatizante de novelas e sempre criticou as tresloucadas tramas do gênero, parece estar gostando de uma (imagino, embora venham mudando a nomenclatura, que seja a das sete). Toda vez que termina um capítulo de Guerra dos sexos, ela se queixa: já? Ontem, aproveitei esse seu momento de fraqueza para apresentar mais um argumento sobre a superioridade do futebol: "Pois é, novela não tem nem prorrogação nem pênaltis."

Dois parágrafos de Katherine Mansfield

"Recebi uma carta sua, divina, esta manhã, escrita na sexta-feira. Não, meu querido, sabe Deus que meu tom 'soturno' não é provocado por coisa alguma de suas cartas. Na verdade, penso que isso resulta de meu estado de saúde; faz parte de minha doença; somente isso. Eu me sinto doente. E sinto muita, muita saudade de você, de nossa casa, nossa vida e de um nenenzinho.
    Uma coisa muito escura, assustadora, parece surgir em minha alma e ameaçar esses desejos. Isso é tudo. Sei que isso voltará a acontecer, e quando há essa recorrência eu não posso evitá-la, nem mesmo dizer: isso é temporário, é só por causa disto ou daquilo. Não, mais uma vez estou envolvida e incapaz de suportar. Então, por favor, tente compreender, quando isso acontecer."

(De Diário & cartas, tradução de Julieta Cupertino, publicado pela Editora Revan.)

Um sorriso

Custa mandar-te um sorriso? Mando-o. Ainda que murcho, ele servirá como recordação de um tempo em que eu, tolo, imaginava que ele estivesse brilhando em meus lábios como o sol brilhava em teus cabelos.

Bom dia

Bom dia? Que seja. Tantas besteiras dizemos, tantas mentiras. Uma a mais não fará diferença no Dia do Juízo Final. Imagino que você esteja retribuindo, com aquela sua sinceridade.

Lembranças do esquecimento

Um dia nos lembraremos
De quanto nos iludimos,
Dos pactos que não cumprimos,
Das juras de que esquecemos.

Kama Sutra - CXV

O amor o cansou tanto que ele não tem forças nem para morrer. Deitado, espera a Morte. Hoje ela veio, mas, puta escolada, depois de tirar a saia, o sutiã e a calcinha, avisa que só se deitará com ele se ele tiver ainda o que lhe dar. Está doidona, com o sexo em fogo, e ou ele se dispõe a morrer como um homem ou ela irá procurar um rapaz que ela possa prender entre as pernas e asfixiar pouco a pouco, amorosamente, como uma sucuri quebrando os ossos de um novilho.

No jornal (Major Quedinho) - 34 - Mecenas da farra

Eram irmãos, os revisores Benedito e José Inácio, mas poderiam ser um bom exemplo de antônimos. Não chegavam a ser rivais, nem inimigos, mas, embora trabalhassem na mesma sala e no mesmo horário, não me lembro de tê-los visto compondo a mesma mesa, nem sequer conversando. Benedito Inácio era tranquilo, José Inácio era agitado. Benedito não frequentava a noite, José (seu apelido era Cabelo Duro) não deixava de frequentá-la. José prestou concurso para fiscal de renda, saiu do jornal. Não tivemos notícias dele por muito tempo, até que certa madrugada ele estava nos esperando no Mutamba. "Eu pago tudo", disse, assim que nos viu. Ficamos bebendo umas duas horas, ele pagou tudo, mesmo, e caímos nos tentadores braços da noite: dancings, boates, exibições de strip-tease. E ele continuou fazendo questão de pagar tudo. Suas visitas se tornaram habituais. O número de participantes foi aumentando, e ele pagando, pagando. Na terceira ou na quarta vez, alguém lhe pediu um empréstimo. Isso enfureceu José Inácio. Ele engrossou a voz e resolveu esclarecer as coisas: "Eu não empresto dinheiro, não pago aluguel de ninguém, nem conta de luz e água. É contra os meus princípios. Meu negócio é só bebida, farra e mulher. Não vamos desvirtuar as coisas, está certo?"

No jornal (Major Quedinho) - 33 - Joaquim Paschoa

Os revisores sempre tiveram um terrível complexo de inferioridade - talvez porque todas as barbaridades que saíam no jornal fossem justificadas perante os leitores com a expressão "erro de revisão". Assim, uma informação equivocada, uma foto trocada, uma falha de diagramação, tudo caía na vala comum de "erro de revisão". Joaquim Paschoa, revisor, um dia comunicou aos colegas que tinha comprado um carro. Detalhes: ele quase não sabia dirigir (o carro havia sido levado para sua casa por um vizinho) e, logicamente, não tinha carta. Para que, então, tinha comprado o carro? "Para levantar o moral da família", ele disse. Dali a algumas semanas, sentindo que ele estava aborrecido e preocupado, um de nós lhe perguntou o motivo. Ele explicou: havia tentado sair com o carro, para dar pelo menos uma volta, para que a bateria não arriasse, e tinha descoberto que ou o carro crescera ou o portão encolhera. Um dos brincalhões sempre de plantão observou: "É, às vezes acontece." A situação estava quase esquecida quando, uma tarde, Paschoa chegou sorridente: o carro tinha dado enfim uma volta pelo bairro. "Você conseguiu, então?" Ele respondeu: "Não, foi o vizinho, aquele que tinha posto o carro dentro." Estava tudo claro: o carro e o portão só obedeciam ao vizinho.

Fatal

O amor é igual a uma doença,
Porém mais séria e mais dura.
Não tem nem convalescença
Nem esperança de cura.

No jornal (Major Quedinho) - 32 - O arquivista apaixonado

Ele trabalhava no arquivo, era magro, mal-apanhado e tinha um rosto doentio, mas recebia diariamente pelo menos uma dezena de cartas de mulheres apaixonadas. Gostava de nos mostrar a extensão e a amplitude do seu fascínio. Envelopes com o carimbo de Campinas, Santos, Jundiaí, Sorocaba. Às vezes lia trechos que pareciam escritos por Julieta para o seu querido Romeu (este, por sinal, passou a ser para nós seu apelido). Ficávamos com inveja daquela amorosa colheita diária que ele fazia e, sempre que podíamos, lá estávamos no arquivo, cuja sala era vizinha da nossa. Perguntamos várias vezes qual era o segredo dele para provocar tantas paixões. Modesto, ele dizia também não saber. Até que um dia, no bar, um dos motoristas do jornal nos perguntou se conhecíamos o maluco do arquivo que sempre pedia a ele e a outros motoristas que colocassem, no correio das cidades onde entregavam os exemplares, envelopes que ele endereçava a si mesmo. Nesse dia, compreendemos que amansar loucos não era exclusividade da revisão.

No jornal (Major Quedinho) - 31 - Doidos criativos

Contei, já, em duas ou três notas destas que venho escrevendo sobre o Estado, que a revisão era considerada o lugar mais apropriado para amansar loucos. Alguns desses doidos eram extremamente criativos, como aquele que concebeu dois engenhosíssimos métodos - um para facilitar a colocação de vírgulas, outro para a acentuação. O primeiro consistia em, fazendo em voz alta a leitura do texto, ficar atento ao fôlego. Toda vez que ele faltasse, era hora de pôr vírgula. O segundo método era também de uma simplicidade exemplar: sempre que, na leitura, o pescoço se erguesse, isso indicava a necessidade de se acentuar a palavra: Catandúva, Jabuticába, cabrióla, frenesí. Consciente de sua responsabilidade, o genial inventor advertia que, no caso do primeiro método, poderia haver problemas e até distorções se o revisor estivesse com gripe ou resfriado. E o segundo não deveria ser usado quando o revisor estivesse com torcicolo. Alguém - sempre estão presentes nas ocasiões históricas os ressentidos com o sucesso alheio - acrescentou que o método também não funcionaria se o revisor tivesse esquecido o pescoço em casa.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Seis versos de Sir Thomas Wyatt

"Uma vez que a vontade do Amor necessita de que eu ame,
Por força devo concordar:
E, uma vez que nenhum acaso poderá eliminá-lo,
Na riqueza e na adversidade
Sempre me dedicarei
A servir e sofrer pacientemente."

(Tradução de Luís Bueno e Patrícia Cardoso.)

Coleção

Que chorem por ti os tolos
(Com seus ridículos prantos)
E os tontos, que já são tantos,
Que nem tens mais onde pô-los.

Kama Sutra - CXIV

Estão nus, ele e ela. Ele lhe acaricia meticulosamente a coxa direita, ao mesmo tempo em que mama um dos mamilos, também o direito. Esmera-se, como sempre. Sabe que a excitou, mas sabe também que dificilmente ela dará um sinal disso. É a sexta vez que a tem assim, nua, e já se resignou a fazer só o que ela ordena. É um jogo, ele já entendeu. Nos três primeiros encontros, ela só o deixou acariciar a coxa e o seio esquerdos. A partir da quarta vez, ela permitiu que, como hoje, ele desfrutasse também a outra coxa e o outro seio, o que aquece loucamente o sangue dele - talvez pela pequena pinta da coxa, quem sabe porque o mamilo desse seio lhe parece mais receptivo. Respeitará as normas do jogo. No fim, vencerá. Precisa só ter paciência. Acredita que uma noite, assim como aconteceu na primeira concessão, ela venha a lhe dizer: "Hoje eu tenho uma surpresinha para você." Enquanto isso, aproveita as venturas oferecidas aos seus lábios e aos seus dedos.

No jornal (Major Quedinho) - 30 Domício Pinheiro

Domício Pinheiro, um dos mais premiados fotógrafos de São Paulo, sempre teve fama de pé-frio. Fama injusta. Ele ganhava prêmios por ser exatamente o contrário: um pé-quentíssimo. Num célebre domingo, com o estádio do Santos, a Vila Belmiro, lotado para um jogo com o Corinthians, ele, sem clicar, estava girando a máquina, simulando tomadas. Num desses giros, a arquibancada, com torcedores acima do número normal, veio abaixo. E ele, clic!, foi o único a registrar o momento de terror e incredulidade. O esporte era a sua especialidade - suas fotos de Pelé são clássicas -, mas às vezes ele era deslocado para outros acontecimentos. Uma noite, no Palácio dos Bandeirantes, numa solenidade, ele estava novamente simulando tomadas quando um candelabro gigantesco desabou. E ele, clic. E assim ocorreu várias vezes: a notícia procurava Domício. Sua injustificada má fama tornou obrigatórias, entre os jornalistas antigos, sempre que era pronunciado o nome dele, três pancadinhas em madeira. Ele e Antônio Carvalho Mendes - redator de falecimentos - foram os únicos que tiveram essa honra de ver acrescentado ao nome o sugestivo Toc-Toc: Domício Toc-Toc e Toninho Toc-Toc (ou Boa Morte, ou Araçá).

Blanche Dubois e Stanley Kowalsky

"BLANCHE - Já pedi desculpas três vezes. Tomo banhos quentes para acalmar meus nervos. Hidroterapia, como eles chamam. Você, polaco saudável, sem um nervo no corpo, é natural que não saiba o que é estar angustiada.

STANLEY - Não sou polaco. Mas o que eu sou é cem por cento americano, nascido e criado no maior país do mundo e muito orgulhoso disso. Por isso não me chame mais de polaco."

(De Um bonde chamado Desejo, de Tennessee Williams, tradução de Brutus Pedreira, publicado pela Abril Cultural.)

Dois parágrafos de Truman Capote

"A minha vida - como artista, ao menos - pode ser traçada com a precisão de um diagrama hospitalar: os altos e baixos, os ciclos bem definidos.
   "Comecei a escrever com oito anos de idade - de uma hora para outra, sem me basear em nenhum exemplo. Nunca tinha conhecido ninguém que escrevesse, e tem mais, conhecia muito pouca gente que lesse. O importante, porém, é que as quatro únicas coisas que me interessavam eram: ler livros, ir ao cinema, dançar sapateado e desenhar. Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote - e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação."

(De Música para camaleões, tradução de Milton Persson, publicado pela Editora Nova Fronteira.)

Um trecho de Daniel Defoe

"Meu verdadeiro nome é bastante conhecido nos arquivos ou registros das prisões de Newgate e Old Bailey, e certos processos de maior ou menor importância relativos à minha conduta pessoal encontram-se ainda pendentes. Por isso não se deve esperar a inclusão de meu nome ou de especificações sobre a minha família, nesta obra. Quem sabe se, após a minha morte, tudo venha a ser mais bem esclarecido. Mas isso não seria conveniente no momento, nem mesmo se uma anistia geral fosse promulgada, sem fazer exceção ou reserva de pessoas ou crimes."

(De Moll Flanders, tradução de Antônio Alves Cury, publicado pela Abril Cultural.)

Bom dia

Tenham todos um bom dia,
Desejo de coração,
E seja minha a honraria
De ser a única exceção.

No jornal (Major Quedinho) - 29 - Luiz Martins

Por muitos anos Luiz Martins assinou no Estado uma crônica com as iniciais LM. Ele era um nome consagradíssimo. Participara de todos os acontecimentos artísticos mais importantes do início do século XX ou os acompanhara. Conhecia tudo que se referisse à arte em geral. E era escritor premiadíssimo. Um dia, seu texto caiu nas mãos de um revisor desses que, em qualquer época, têm na gramática a mais sagrada de todas as bíblias, considerando suas normas, todas, como artigos de fé. Uma dessas normas era a de jamais, sob pena de cometer heresia, começar uma frase com pronome oblíquo. A crônica de LM se iniciava com um freguês pedindo ao garçom, num bar: "Me dê um uísque, por favor." O revisor, obviamente, alterou para "dê-me um uísque, por favor" e, entusiasmado por prestar tão importante serviço gramatical logo na primeira linha, continuou em sua heroica cruzada até o fim, transformando o bate-papo do freguês com o garçom numa conversa que, pelo português castiço, mais parecia um diálogo entre o padre Antônio Vieira e Camões. Ao ler o resultado no jornal impresso, Luiz Martins, como protesto, avisou na redação que não só não escreveria sua crônica naquele dia como não a escreveria nunca mais. Foi preciso o dr. Júlio de Mesquita Filho acalmá-lo. O revisor levou do chefe Lima Neto o devido pito, que deveria servir como lição para jamais estropiar com arcaísmos e classicismos textos coloquiais. Parece que a lição não foi assimilada. Anos depois, trabalhando na Livraria Martins Editora, ele transformou a linguagem de um romance de Jorge Amado, protagonizado por plantadores de cacau, em uma algaravia que soava como a obra de um português do século XVIII baseada numa história de fidalgos.

No jornal (Major Quedinho) - 28 - Obscenidades do ofício

Não sei como é hoje, mas a revisão tinha, no meu tempo, uma série de normas para facilitar o trabalho. Havia uma nomenclatura que talvez já tenha se perdido, agora que a revisão, em toda parte, é pouco mais que uma memória. Vejamos. Matar uma prova era fazer a leitura sozinho, sem acompanhante. Era uma exceção. O normal e recomendável era um revisor ler a prova, em voz alta, enquanto outro, com o original, ia apontando possíveis divergências. Quem não tivesse intimidade com os gestos e os jargões ficava surpreso, espantado até. Quando apareciam reticências entre parênteses, o revisor que lia em voz alta dizia: "Pingou nas coxas." Se fosse uma exclamação seguida de reticências, era "pau pingou". O ponto de interrogação era "gancho". E, quando apareciam aspas, o revisor que lia a prova dava duas vibrantes batidas na mesa para indicar a abertura e mais duas para assinalar o fechamento. Mas o que causava mais impacto entre os não iniciados era o aparecimento, no texto, de um ponto de exclamação entre parênteses, quando então o revisor dizia: "Pau nas coxas." E havia casos que obrigavam o revisor a dizer uma expressão que parecia referir-se a uma bacanal: "Três paus nas coxas." No tempo em que trabalhei na revista Visão, quando se checavam as emendas, criou-se um engenhoso sistema para indicar correções nas últimas linhas do texto, que não fossem nem a antepenúltima, nem a penúltima, nem a última. A quarta linha de baixo para cima era a quartúltima, a quinta era a quintúltima, e assim por diante. Na Visão trabalhei com um revisor, Manoel Bezerra Júnior, que galhofeiramente introduzia cinco sílabas no meio das palavras, produzindo um efeito hilariante. Para se ter ideia, reproduzo alguns exemplos: Piracicaralhaba, Caralhatanduva, Caralhambuci. No meio da década de 1970, a primeira revisora admitida no jornal levou os revisores a assinalar em voz baixa certas expressões. Mas isso só no começo.

Ai, caramba

Minha cara consulente, embora meus conhecimentos gramaticais sejam menos teóricos que práticos - e sujeitos, por isso, a equívocos -, para mim esse termo que você acertadamente sugere ser o mais usado num jogo de futebol pertence à categoria das interjeições. Ele é um substantivo quando designa o órgão reprodutor masculino. Mas, se vem acompanhado de uma exclamação (clara ou implícita), trata-se de uma interjeição, usada para exprimir espanto, raiva, admiração, alegria, desapontamento e mais uma centena de estados de espírito. As interjeições são palavras preciosas. Se esta, de que estamos falando, com suas sete letras consegue o prodígio de expressar tantos sentimentos, o que dizer então daquelas monossilábicas que exprimem talvez mais sentimentos ainda, como ai, ei, oi e ui? Além de tudo, se essas quatro pequeninas interjeições fossem tiradas de circulação, acabaria a moderna produção musical brasileira.

Estação Vergueiro

Foi aqui que eu a esperei uma tarde inteira. Sofri, molhou-me a chuva, morri. Que bom que você não veio. Você não sofreu, você não se molhou, você não morreu. E, afinal, por que você viria? Para ver um homem chorando? Você já estava cansada desse espetáculo, que eu repito hoje, pobre ator de uma peça só.

Fernando Pessoa doente

"Dói aqui?", pergunta o médico, apertando o peito. "Em mim, não. Mas dói em Ricardo Reis." Pacientemente, o médico pega uma das cem fichas de diagnóstico e faz a anotação.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

No jornal (Praça Antônio Prado?) - 27- Amadeu Amaral

Há cerca de cem anos, Amadeu Amaral, secretário de redação, levou à revisão um grupo de visitantes. Um deles, referindo-se ao fato de já na época o Estadão ser reconhecido como uma das publicações que maior cuidado tinham com a língua portuguesa e com as normas gramaticais, fez um elogio: "Aqui então é que ficam os goleiros." Amadeu Amaral respondeu: "É, mas de vez em quando eles engolem cada frango..." Ele estava certo. Os revisores daquela época erravam, como os de hoje, e essa tradição certamente será mantida pelos revisores futuros. Isso quer dizer, por via de um silogismo tortuoso, que apesar das controvérsias os revisores sempre foram, e devem continuar sendo, seres humanos. Erram - e como! -, com a triste consequência de, por se considerarem (pelo menos alguns deles) infalíveis, seus erros assumirem maior proporção. Lembro-me de uma noite em que dois dos melhores revisores do jornal, Mário de Melo e Octávio Márcio de Camargo Guimarães (ufa!), discutiam sobre determinado assunto. Irritado, Octávio desafiou: "Se você tem certeza, então vamos fazer uma aposta. Quer valer uma cerveja? Eu valo." A vaia e as gargalhadas foram grandes. Duas observações: este episódio protagonizado por Amadeu Amaral eu o ouvi e tanto pode ser desmentido na íntegra (o que seria uma pena, por seu sabor) quanto ser atribuído a outro personagem. No título, coloquei uma interrogação porque não sei se Amadeu Amaral, no seu tempo de Estadão, trabalhou lá ou se era outra a sede.

Futuro

Não verás em teu jornal
Notícias de minha glória.
Lerás só o fim da história,
Seu triste ponto final.

Kama Sutra - CXIII

O dedo médio se move lento. Avança - se essa for a palavra adequada - meio milímetro por minuto. Está próximo da fonte e, por astúcia e para seu proveito, retarda-se para desfrutar um pouco mais o sedoso contato com a folhagem úmida. Sabe que logo será substituído por um pesquisador menos delicado que não dará atenção às folhas ruivas e se atirará direto à fonte salgada.

De Rosa Montero, sobre Wallis Simpson, duquesa de Windsor

"Wallis era dura, competitiva, egocêntrica. Tudo parece indicar que viveu permanentemente à beira da anorexia. Qando adolescente, se empanturrava de doces e depois vomitava, e, já duquesa, seu lema favorito era 'Nunca se é suficientemente magra nem suficientemente rica'. Ela, diga-se de passagem, era esquelética: assim a definiu o fotógrafo Cecil Beaton ao conhecê-la. Tinha um aspecto físico inquietante, anguloso e vampiresco. Apenas os magníficos olhos azuis suavizavam sua aparência seca e espectral, mais chocante à medida que o tempo passava e devido à sua mania de esticar as pelancas até limites inconcebíveis: quando, já viúva e anciã, precisou submeter-se a uma cirurgia, os médicos tiveram dificuldade para entubá-la por causa das brutais cirurgias estéticas que tinha feito no pescoço."

(Do livro Paixões, tradução de Maria Alzira Brum Lemos e Ari Roitman.)

Um trecho de Katherine Mansfield

"Depois o jantar longo, muito longo. Eu quase nada disse. Quando voltamos para casa, as estrelas brilhavam através dos farrapos de nuvens e a lua pendia como a chama de uma vela. Havia uma lâmpada pequenina sobre a mesa; o fogo bruxuleava no teto de madeira branca. Era como se estivéssemos num barco. Conversávamos em sussurros, dominados por aquela discreta lampadazinha. Com naturalidade, despimo-nos ao lado da lareira. F. atirou-se ao leito.
- Está frio? - perguntei.
- Ah, não. Absolutamente, não.
- Viens, ma bébé. Não tenha medo. As ondas estão bem pequenas.
Com o rosto sorridente, os bonitos cabelos, uma pulseira no punho, ele parecia uma moça estendida no lençol.
A espada, a grande e feia espada, jazia sobre uma cadeira. O ato de amor pareceu algo incidental, tanto conversávamos."

(Do livro Diário & cartas, tradução de Julieta Cupertino, publicado pela Editora Revan.)

Se tu

Se tu tiveres coragem
poderás saltar
se tu tiveres coragem
poderás voar
chegar lá embaixo
mais rápido
que o elevador
e ainda fôlego manter
para responder
se vierem perguntar
que queres dedicar
teu salto e teu voo
teu magnífico gesto final
ao amor que te inspirou
e na hora H
as asas te negou.

Espelho

Com essa cara
de sonso com azia
queres chegar um dia
diante do sagrado
altar do Amor
Nosso Único
e Amado Senhor?

No jornal (Caetano Álvares) - 26 - Pondo o dono para correr

Um ex-redator, já aposentado lá pela década de 1990, passou a dedicar-se a uma associação de defesa ambiental e de tempos em tempos aparecia na redação para pedir que se publicassem notas sobre as atividades das quais participava. Catalogado como chato de nível um (a mais alta posição da categoria), toda vez que aparecia ele tomava pelo menos uma hora de suas vítimas. Sua intenção era nobre, mas ele era tão veemente e prolixo, ao defendê-la, como se estivesse propondo a reconstrução de Pompeia. Por isso, numa das noites em que ele despontou num dos cantos da sala imensa e começou a andar no rumo do mesão (onde trabalhava a editoria da primeira página), Julinho Mesquita e o secretário de redação Luciano Ornelas não hesitaram. Abaixaram-se, ficaram de cócoras e, como soldados batendo em retirada, foram assim, escondidos, até a ala em que ficavam as salas da diretoria, onde se mantiveram até não verem mais sinal nenhum da presença do nobre publicista. Este talvez não saiba até hoje (e já é hora de lhe reconhecer a façanha), mas foi o único que fez um dos donos do jornal fugir engatinhando.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

De Proust, sobre a "madeleine"

"Mas, quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis porém mais vivazes, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, chamando-se, ouvindo, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, levando sem se submeterem, sobre suas gotículas quase impalpáveis, o imenso edifício das recordações."

(De Em busca do tempo perdido, tradução de Fernando Py, publicado pela Ediouro.)

Para quem escrevo

Escrevo para mim
para o homem
magoado que me habita
que em tudo acreditava
e em nada mais acredita

Escrevo para ti
que aprendeste como eu
que a terra apodreceu
quando por ela se espalhou
nossa semente maldita.

As duas metades

Metade eu deixei na Major Quedinho, a outra metade ficou na Caetano Álvares. Não: 60% na Major Quedinho, 40% na Caetano Álvares. A vida, no fim, se resume assim, em números. Ninguém pode perder tempo com divagações, nem quem gostaria de fazê-las.

Um trecho de Katherine Mansfield

"Esta é a hora em que um pobre cão faminto aparece e fica farejando a sarjeta vazia. Ele é tão magro que o corpo parece uma gaiola sobre quatro estacas de madeira. A cabeça magra, em triângulo, abaixada, e o rabo fino esticado. E acima e abaixo, acima e abaixo vai ele, silencioso e assustadoramente ávido. A rua o observa, de seus balcões cobertos de trepadeiras, de suas janelas abertas - mas a senhora gorda do andar térreo, que não é melhor do que deveria ser, disparou escada abaixo, com um osso. O rabo do cachorro, enquanto esperava por ela, batia no esteio do portão, como se fosse um cabo de vassoura. Os moradores da rua dizem que a mulher é louca, pois só uma louca se preocuparia em alimentar cachorros desconhecidos. Agora, ela jamais se livrará dele."

(Do livro Diário & cartas, tradução de Julieta Cupertino, publicado pela Editora Revan.)

Fernando Pessoa suicida

Em Fernando Pessoa, o suicídio, com todos aqueles heterônimos, seria quase um genocídio.

De bom tamanho

Quando chegar meu instante,
Não vou perdão suplicar,
Nem nova vida implorar.
Morrer já será bastante.

No jornal (Major Quedinho) - 25 - Dr. Chiquinho

O dr. Chiquinho (Francisco Mesquita) era um homem de uma sobriedade única. Não poderia haver ninguém com menos jeito de dono de jornal que ele. Não tinha pose, não fazia tipo. Só os funcionários muito antigos sabiam quem era ele. Uma tarde, no elevador, dois dos rapazes que entregavam correspondência (evidentemente eu não os conhecia, do contrário daria aqui nome aos bois, isto é, aos boys) faziam brincadeiras típicas da idade, incluindo tapinhas nas partes pudendas da frente e de trás, quando o dr. Chiquinho, perdendo a paciência, exigiu que eles tivessem compostura e acabassem imediatamente com aquilo. Um dos rapazes então disse ao outro: "Olha só, esse aí entrou no jornal ontem e já está achando que é o dono!"

Soneto da falsidade

Dos fracos laços e até
Dos fortes vínculos nossos,
Não ficou nenhum de pé,
Todos viraram destroços.

Do amor que nos inspirou,
Do afeto que nos unira,
Tudo afinal se mostrou
Mentira, pura mentira.

Nós fomos falsos, mentimos,
E agora o gosto sentimos
Da nossa mútua traição.

O que eu queria contigo,
E o que quiseste comigo,
Era isso, só: destruição.

Capicua

Sem sentido nenhum
uma mulher nua
vai repetindo na rua
com vigor incomum
sua capicua:
cento e vinte e um
cento e vinte e um
cento e vinte e um.

O aprendizado do amor

Houve um momento em que ou eu parava com aquilo ou hoje estaria me preparando para fazer mestrado em burrice.

No jornal (Major Quedinho) - 24 - A festa

Nas comemorações do aniversário do jornal, os revisores destacavam-se pela capacidade de esvaziar copos, cálices, garrafas, litros, qualquer recipiente cujo conteúdo fosse alcoólico. Conjugávamos com brilho e intensidade o verbo emborcar. Num desses aniversários, quando a festa, já de madrugada, terminou, Orival Xavier Barbosa e eu fomos completar o abastecimento na Nove de Julho, no famosíssimo bar Siroco, muito frequentado por jornalistas e outros representantes da fauna noturna. Não sei quanto nem o que bebemos. Sei que estivemos lá, talvez tenhamos até conversado com Branca, a proprietária (ou gerente, eu nunca soube). Depois, lembro-me de entrarmos o Orival e eu num táxi, com o sol já amadurecendo na manhã. Na cena seguinte, estamos diante de uma casa. Orival, para sorte e alívio do motorista, conseguiu sair do carro antes de lançar pela garganta, na calçada, boa parte do que bebera. Apareceu uma mulher no portão e em seguida um menino que, vendo o estado do pai, disse chorosamente: "Mãe, eu acho, sim, que o papai morreu." Não recordo como cheguei em casa, mas acredito, até hoje, que tenha conseguido.

O homem de muitas mulheres

Quando ele se casou, sua família e a da noiva suspiraram: talvez ele, enfim, se acalmasse e começasse a fazer alguma coisa para mudar sua fama de mulherengo. Por três anos, se essa fama se alterou, foi só por extrema boa vontade das duas famílias. Ele continuava pulando muros. Tudo mudou só depois de o levarem a uma dessas seitas que de um dia para outro montam uma tenda onde antes havia um cinema. Faz quase um ano, já, e quase se pode dizer que ele agora é um santo homem. Nunca mais perseguiu mulher nenhuma. Nem a própria.

No jornal (Major Quedinho) - 23 - Pegadinhas

Seriam chamadas hoje de pegadinhas algumas brincadeiras que se faziam na revisão. Colocar nas costas de alguém - sub-repticiamente, é óbvio - um papel com dizeres como "motor amaciando" ou "passe-me a mão" era uma delas. Mas a que mais irritava era uma espora feita com o papel prateado dos maços de cigarros. Ficava igual às dos xerifes de filmes do Velho Oeste. Creio que foi Newton Bastos quem criou essas esporas que, tendo na sua face interna um pouco de cola, eram grudadas nos sapatos de revisores distraídos - alguns chegavam a notá-las apenas quando chegavam em casa e iam pôr o pijama. Como a revisão era um lugar de amansar loucos, dificilmente apareciam ali estranhos. Mas, uma noite, recebemos a visita de José Bonifácio Coutinho Nogueira, candidato a governador de São Paulo (como acontece até hoje, os revisores votavam, naquele tempo). Assim que ele entrou, naturalmente lhe aplicaram o par de esporas e com elas ele foi nos cumprimentando, um a um. Apesar dos inevitáveis risinhos que o acompanharam a cada passo, ele não teria notado as esporas. Foi seu cicerone - possivelmente um Mesquita, ou quem sabe o editor-chefe, ou o editor de política - quem interveio para dar um final satisfatório à situação. Ele avisou o candidato sobre as esporas, dizendo com extraordinário espírito que elas eram uma tradicional demonstração de carinho dada pelos revisores aos visitantes ilustres, uma espécie de comenda. José Bonifácio - conhecido também como Zé Bonitinho - foi simpático, assim como costumam ser todos os candidatos em campanha, e sorriu. Não lembro se agradeceu, mas que sorriu sorriu. Havia muitas dessas pegadinhas. Walter Santoro, citado já nestas memórias, tinha também a dele. Pegava o pente (era comum homens levarem pentes no bolso), aproximava-se silenciosamente da vítima, dava-lhe uma curtíssima pancada no sapato, na altura do peito do pé, e seguia em frente ou parava, olhando para o alto, disfarçando. Era engraçado ver a vítima agachar-se para procurar um objeto que não caíra. O ponto alto dessa pegadinha ocorreu numa tarde em que o servidor de café parou seu carrinho e começou a encher as xícaras. Walter deu-lhe uma pentada e, quando o homem se abaixou para ver o que havia caído, pulou do bolsinho do avental uma canetinha que ele sempre levava. Quando a Bic bateu no seu pé, ele a recolheu, fez uma cara de extremo espanto e nos disse: "Gente, eu preciso me cuidar, estou ficando louco. Eu senti a canetinha bater no meu pé antes dela cair do bolso." E, já que falei de café, farei uma rápida menção a um motorista que, chamado um domingo para levar um Mesquita à fazenda, perguntou se poderia fazer um desvio de cinco minutinhos e dar uma passada pela sua casa. Tinha esquecido a carta de motorista. A mulher do motorista fez questão de que o Mesquita desse uma entradinha, que ela ia preparar um café. Em dois minutos estava de volta à sala, com o café numa bandeja em que havia alguns biscoitinhos e três xícaras - todas com o brasão do jornal - furtadas pelo marido.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Eles, eu

O que eles querem de ti
Não sei, mas provavelmente
A eles darás, gentilmente,
O que eu jamais recebi.

No jornal (Caetano Álvares) - 22 - Fernão Lara Mesquita

Filho de Ruy Mesquita, atual diretor de Opinião do Estado, Fernão Lara Mesquita trabalhou por muito tempo na editoria de internacional. Todos ali, bem mais velhos que ele, eram sisudos, sérios até o nó da gravata e - talvez por terem a companhia diária do filho de um dos donos do jornal - faziam questão de levar até o limite essa sisudez e seriedade. Eram todos - ou quase todos - ex-seminaristas (e os que não eram gostariam de ser). Lembro-me de uma noite em que Fernão veio à editoria na qual eu trabalhava (primeira página, na época) e, sorrindo, fez uma espécie de desabafo ao editor-chefe, Miguel Jorge, e ao secretário de redação, Luciano Ornelas: "Alguém aqui tem um cigarro? Lá ninguém bebe, ninguém fuma, ninguém fornica, ninguém faz nada. Tudo carola." Aí, fixou os olhos no bolsinho superior do meu paletó, viu meu pente Flamengo e balançou a cabeça: "Aqui só tem doido, mesmo. Pente pra quê?" Ele tinha certa razão. Meus cento e vinte fios de cabelo (uns cem a mais do que hoje) me garantiam já o direito (e o dever) de tecnicamente me considerar um careca ou - como dizia Clóvis Meira, revisor dos melhores - um respeitável alopécico.

Kama Sutra - CXII

Gosta de encostar o rosto nos cabelos dela quando a brisa da noite já arrefeceu a mornidão deixada neles pelo sol. É o momento em que, com a luz do quarto apagada, o trigal, adormecido, permite mais ousadia às mãos e aos lábios e facilita amenos milagres, como a aparição de uma estrela.

De Proust, sobre amor e ódio

"Proust também explora a ambivalência de Marcel em relação a Albertina, descrevendo os momentos em que 'detestamos alguém que amamos', de forma paralela à observação de Freud de que o sentimento oposto é o mais próximo de outro com que troca de lugar facilmente. E, ainda de forma paralela a Freud, Proust explora a relação entre o amor e o sofrimento, enfatizando a conexão entre o instinto sexual e a crueldade, seja contra si mesmo, seja contra outros."

Do artigo "Páginas da memória - e do inconsciente", de Eliana Cardoso, publicado no "Sabático", suplemento do Estadão, 16-2-2013.)

De Katherine Mansfield, sobre amor e vingança

"Como Dostoiévski conhecia aquele extraordinário sentimento de vingança, aquele prazer de uma pequena risada - que vem de uma mulher em sofrimento? É uma coisa muito secreta, mas profunda. As mulheres não desejam poupar aqueles a quem amam. Se eles as amam com o tipo de devoção cega com que Shatov amava Maria, elas gostam de atormentá-los, e esse tormento lhes traz um alívio positivo. Será que isso se parece de alguma forma com os tormentos tão frequentemente observados nos seus romances? Essas mulheres ficam felizes em atormentar os amantes? Não, eles também estão sofrendo as agonias do parto, estão dando à luz suas novas personalidades. E nunca acreditam nisso."

(Do livro Diário & cartas, tradução de Julieta Cupertino, publicado pela Editora Revan.)

Boa tarde

É a mim que você está desejando boa tarde? Você já deveria saber que isso é impossível - principalmente você, que conhece tão bem a razão.

Retribuição

Quando escrevo aqui sobre minhas tristezas, é óbvio que, mesmo sem a permissão de vocês, eu os faço compartihar delas. Que vocês nunca sintam o desejo de retribuir contando-me tristezas que possam vir a afligi-los. Que a tristeza seja algo que vocês, se precisarem lembrar como é, venham buscar aqui. Tenho um estoque delas, para todos os tipos e ocasiões.

No jornal (Major Quedinho) - 21 - No Estadão e na Folha

Nos meus primeiros tempos de jornal conheci um revisor que trabalhava durante o dia no Estado e à noite na Folha, onde ficava até o início da madrugada. Era dos antigos, devia ter cinquenta anos ou perto disso. Mas algumas vezes, mesmo depois da jornada dupla, não ia direto para casa. Dava uma passada pelo Som de Cristal, a mais famosa gafieira de São Paulo. Só saía de lá com o sol raiando, e parava numa banca de jornais da praça João Mendes. Comprava a Folha e apanhava de baixo do tapete do seu fusquinha um carimbo que aplicava na primeira página: Cortesia. Os funcionários, tanto os do Estado quanto os da Folha, ganhavam exemplares assim carimbados, depois que as rotativas acabavam seu trabalho. E era com esse carimbo que ele se livrava de qualquer suspeita de que pudesse ter estado de madugada em algum outro lugar que não fosse a Barão de Limeira. A diferença no horário de chegada ele naturalmente atribuía a algum segundo clichê, uma daquelas notícias que surgiam de repente, depois de fechada a edição, e que não podiam ser ignoradas. Ele contava essas peripécias com gosto, como se dissesse aos mais novos que também os velhos sabiam divertir-se, e como. Mas de vez em quando admitia: "Preciso acabar com isso. Meu filho já tem quase dezoito anos e qualquer noite topa comigo lá na gafieira... Imaginaram?" Imaginamos: ele devia ter um metro e cinquenta, era magríssimo, e tinha predileção por mulatas altíssimas, e todas beirando os cem quilos.

O rapazola e o velhote

A mulher, uma daquelas que têm quarenta mas não parecem haver chegado aos trinta, conta a duas amigas como o rapaz se aproximou dela no shopping: "Vocês duas precisavam ver o tipo. Uns dezoito anos. Nem olhei direito, mas acho que era daqueles que ainda mamam na mãe e têm aparelho nos dentes. Ficou andando do meu lado, como se fosse meu guarda-chuva, falando, falando. Eu não entendi quase nada, só quando ele falou motel." "Imaginou você entrando num motel com ele? Iam pensar que eram mãe e filho", gracejou uma das amigas, enquanto a outra ria. "Filho?!", a mulher exclamou. "Nada a ver! Se vocês vissem a cara dele. Jesus! Sei que lá pelas tantas, depois que ele falou em motel, eu parei num quiosque de sorvete do McDonald's, entrei na fila, virei para trás e disse bem alto: "Já falei que não vou pagar sorvete pra você. Vaza, menino!" As duas amigas se sacudiram com as gargalhadas: "E ele vazou?" "Na hora", respondeu a mulher, gargalhando também. "Se fosse um tempinho atrás, você acabava devorando o franguinho, é ou não é?", disse, decepcionada, uma das amigas. "É, eu sei que tenho essa fama de loba", a mulher comentou, como se beleza e charme fossem um fardo. E continuou: "Mas querem saber? Não adiantou nada. Eu tinha acabado de dar um bico no pivete e, quando fui ver, estava andando comigo, quase enganchado no meu braço, um velhote que parecia ter saído do Araçá. Bom, esse eu nem deixei começar a falar. Fui logo dizendo: Meu senhor, seu nome não é Matusalém? O alto-falante acabou de chamar o senhor.