segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A esmola

Na esquina, alguém pôs uma moedinha na mão que, estendida, pedia amor. Foi, como se diz, tudo muito rápido, e, fascinado pela esmola enfim recebida, quem a recebeu não viu o rosto de quem a deixou. Isso foi há muito, muito tempo, e da busca que o mendigo iniciou naquele instante, para conhecer a face do amor, nasceram todos os sonetos, os bons e os que eu faço.

Quatro

Minha visão da vida - e do seu final - é fulgurante: quatro velas a iluminam.

O amor é como um sino

O amor é como um sino que de repente desanda a tocar horas e não para. Quem o toca? Sobe o padre ao campanário e não vê nada: nem homem nem vento. Mas o sino faz ecoar suas badaladas ainda, e cada vez mais fortes. É um fantasma que o toca, certamente. E chamam especialistas de todas as especialidades, e cientistas de todas as ciências, e místicos de todos os misticismos. Ninguém consegue fazer parar o sino. Ele toca, toca, toca, e chega um momento em que todo o conhecimento do mundo desiste de explicar o fenômeno. A conclusão é lógica: deixar que o sino toque. Todos sabem como é o amor quando resolve tocar sinos.

Em tardes como esta

Em tardes como esta, só há duas simples mas lancinantes necessidades para um homem: um prato de sopa, ainda que rala, e um pouco de amor, ainda que mentiroso.

Escrever

Escrever é triste. Escrever é sempre um pedido de atenção, de aplauso ou de socorro. Tão fácil ver isso. Olhem para mim, dizemos, e, mesmo que só um leitor olhe, queremos conquistá-lo. Usamos o melhor de nosso repertório, desencavamos advérbios astutos, adjetivos traiçoeiros. O leitor solitário há de cair na armadilha. Apresentamos nosso produto como aqueles vendedores de loja que se agarram a nós assim que entramos. Dizemos que o nosso texto tem brilhos que existem só na nossa imaginação e recorremos ao abjeto truque de sugerir que, amanhã, talvez não haja mais nenhum texto nosso à disposição. Talvez nem nós mesmos estejamos mais aqui. E tossimos tosses de tísico e falamos de chapas preocupantes. Queremos que nos amem, ainda que seja só aquele leitor único diante do qual nos ajoelharíamos se isso adiantasse. Escrever é fazer o leitor anotar nosso número, ainda que saibamos que ele jogará o papel ali adiante. Escrever é plantar a esperança de que, de madrugada, o telefone tocando no apartamento vizinho bem pode ser aquele nosso leitor que se enganou ao anotar um dos algarismos. Escrever é sonhar que no nosso velório apareça um tipo muito distinto e desconhecido de todos, que chorará sobriamente e se retirará como um cavalheiro, debaixo de murmúrios: "É o leitor."

Takuboku Ishikawa

"Hoje também me sinto inseguro
como o estridular de um inseto
bem baixinho em algum lugar."

                      ***

"Brincando, carreguei mamãe nas costas
e não pude dar três passos,
chorando de tanta leveza."

                      ***
"Peguei o espelho
e esgotei todas as caretas
quando cansei de chorar."

(Do livro Tankas, tradução de Masuo Yamaki e Paulo Colina, publicado por Roswitha Kempf/Editores.)

Soneto do amor pedinchão

O amor é como um mendigo.
Amor eterno nos pede,
Mas nos submete a castigo
E amor nunca nos concede.

Não sucede só comigo,
Com os outros também sucede.
Há muito tempo que eu digo,
O amor quer o que não cede.

Por mais que nos revoltemos
E por mais que nos queixemos,
Isso nunca mudará.

É triste, eu sei, muito triste,
Mas o único amor que existe
É o amor que em nós mesmos há.

Kama Sutra - CCCLXXVIII

O melhor é aquele momento em que, não aguentando mais, ele se impõe o desafio de dar ainda cinquenta estocadas, sabendo que na vigésima, na décima nona, ele vai, na décima oitava, na décima sétima, ele vai, na décima sexta, ele vai, ele vai, ele vai se acabar em contorções, e em mel, e em murmúrios indecifráveis.

Lacrymosa

Não mereço Mozart, sei bem. Mas serão dele as notas no meio das quais eu irei embora. Pretensioso em vida, manterei essa pretensão mesmo quando meus ouvidos já não puderem distinguir aquela última palavra, que naturalmente será em latim. Amém.

Como um coelho

A mim havia mesmo de caber um amor frágil, uma espuma de nuvem, um suspiro, um sopro. Um amor que deixou marcas profundas, mas internas. Por fora, é difícil apontá-lo, impossível vê-lo. A mim havia mesmo de caber um amor assim, tão desmentível quanto uma mentira. Um amor que, como um coelho branco, esteve por um momento ali, entre as moitas. Que moitas?

Quando chegar teu dia

Te perguntas como será quando chegar teu dia. Pergunta boba. Ele já chegou, mas estavas tão empenhado em chamá-lo que não percebeste e continuaste vivendo. E ainda o chamas. Procura-o no passado, numa tarde em que tenhas sentido uma dor aguda no peito. Não sabes, até hoje, como resististe. Não resististe.

Soneto do amor desmedido

O amor não será medido
Jamais por metro nenhum,
Nem vulgar nem incomum.
O amor será desmedido.

O amor não será contido
Jamais por problema algum,
Extraordinário ou comum.
O amor será incontido.

Por não poder se conter,
O amor nunca irá caber
No espaço dos corações.

E tão intenso será
Que diques estourará
E arrasará pontilhões.

Vida

O autor pode ser bem sério,
Ou pode até ser jovial.
Tudo acaba em cemitério,
Passando pelo hospital.

Um poema de Eugenio Montale

"Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, detrás de mim
o vazio, com um terror de bêbedo.

Depois como numa tela, acamparão de um jato
árvores casas colinas para a ilusão costumeira.
Mas será tarde já; e eu partirei calado
entre os homens que não se voltam, com o meu segredo."

(De Poesias, tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti, publicado pela Record.)

domingo, 29 de setembro de 2013

Soneto das três mortes

Já tantas vezes morri,
Em julho, agosto, setembro,
Três vezes, se bem me lembro,
Por que continuo aqui?

Quem haverá de explicar-me?
Estamos quase em outubro
E tento, mas não descubro
Quando é que irão enterrar-me.

Quando chegar o momento,
Não quero ter monumento,
Apenas uma inscrição:

"Viveu sempre pelo amor,
Foi ele, só, seu senhor,
Sua bênção e danação."

Um trecho de J.M. Coetzee

"Isso logo se torna uma rotina, uma rotina que, quando ele consegue se distanciar um momento e refletir, o deixa atônito. Está tendo um caso em que as regras são impostas pela mulher, e apenas pela mulher. É isso que a paixão faz com um homem: rouba seu orgulho? Está apaixonado por Caroline? Não pensaria que sim. No tempo que passaram separados mal pensou nela. Por que então essa docilidade da sua parte, essa abjeção? Será que quer ficar infeliz? É isso que a infelicidade se tornou para ele: uma droga que não consegue dispensar?"

(De Juventude, tradução de José Rubens Siqueira, publicado pela Companhia das Letras.)

Abençoada

A mulher que se recusa a dar-se é a melhor de todas. Ela nos exime de repetirmos cenas, de plagiarmos roteiros, de lamentarmos a obviedade dos desfechos. A mulher que se recusa a dar-se será sempre aquela que manteremos mais na imaginação do que na memória e amaremos como uma flor que nunca nos deixará remorsos na consciência, porque a outros coube a ventura de despetalá-la e a desventura de havê-la despetalado. A mulher que se recusa a dar-se vive em nós como um regato que, se dedos o tocaram, não foram os nossos. A mulher que se recusa a dar-se tem as águas limpas e nelas nadam pequenos peixes que as crianças apontam com entusiasmo.

O pior deles

Uns o têm no fígado; alguns, no estômago; outros, na próstata. O dele é o pior de todos: o câncer da alma.

Quando chegar o dia

Que conta prestarás, quando chegar o Dia do Juízo Final, do menino que levaste para a zona, do dinheiro que furtaste de tua mãe para dar às putas? Que números apresentarás, quando te cobrarem a inocência e a pureza? Onde, em que beco, em que esquina, em que cama apodrecida as deixaste? Ainda soam em teus ouvidos as gargalhadas das rameiras que te desencaminharam. Tuas narinas ainda guardam o cheiro de conhaque das bocas que te deixaram nos lábios o selo da degradação. Ainda gemem as camas em que cavalgaste éguas espaçosas e suadas, viciadas em todos os buracos do corpo. Que conta prestarás do menino que, ainda puro, subiu aquelas escadas? Que conta, que conta?

Como é bonito o mundo

Como é bonito o mundo se não olhas para ele, se fechas os olhos e se o imaginas como o vias de cima de tua bicicleta, com as pernas descobertas, porque não sabias ainda que as pernas viriam a se tornar, assim como os lábios (fonte de teus assobios) e as mãos (ocupadas no guidom) objetos sexuais. O vento morno começou a te perturbar, como perturba todos os homens, e logo estavas nas ruas sombrias buscando aqueles quartos soturnos, aqueles lençóis pingados de leite coalhado, aqueles travesseiros que guardavam marcas de batom e a saliva de quatrocentos e quarenta e quatro homens.

Soneto do rapaz de aluguel

Como te faz mal lembrá-la.
Ah, como ela estava bela,
Sentada junto à janela,
No grande sofá da sala.

Chegaste e foste beijá-la,
E a cada beijo dado ela
Exibia a língua dela
Para poderes chupá-la.

Depois, deitados na cama,
Ela exigiu: "Me ama, me ama."
Mas, quando o sexo acabou,

Ela te mandou embora:
"Eu te vejo qualquer hora."
Mas nunca mais te chamou.

Kama Sutra - CCCLXXVII

Aquele que te comparava aos lírios, às rosas e às estrelas era outro. Dizem que morreu de tristeza. Este, de hoje, que te apalpa quando se apalpa e que geme quando imagina que gemes, é outro. A este agradam os frutos, a cócega que fazem na língua os pêssegos, o estalo das maçãs ao serem mordidas, como se estivesse se abrindo um sutiã, a doçura morna e viciosa que as ameixas deixam na boca. As laranjas que sem aviso nem controle espirram mel no fundo da garganta.

Kama Sutra - CCCLXXVI

Não é sempre que eu penso em você. Penso em outras. Numa que vejo na rua, ou no shopping. Numa que vejo no metrô, no ônibus. Penso em algumas. À noite, em casa, pego uma, vamos até o carro, sento no banco do passageiro (o carro é sempre delas) e, enquanto ela dirige, como você fazia, a fantasia começa a ganhar mãos e carne. O início, o meio e o fim são sempre prazerosos. Depois é que baixa a melancolia. Falam muito do vício solitário do homem. Um homem solitário não tem vício. O que ele tem são dois ou três truques para enganar a tristeza. Mas ela sempre volta.

Paradoxo

Curioso que os homens receiem a morte, depois de tudo que sofrem na vida. Poderá haver algo ainda pior?

Falsa aparência

Encontrar um gato no lixo é coisa comum para os meninos catadores. Hoje acharam um que parecia vivo, mas que, recusando-se a miar depois de lhe torcerem várias vezes o rabo, foi atirado de volta à pilha.

Cinco tankas deTakuboku Ishikawa

"Quando os companheiros projetarem
nos olhos o fel intragável da alma
me exilarei em casa."

                                 ***

"Pareciam soldados sem aflições,
o batalhão que passou.
Eu sou a tristeza."

                                 ***

"De dois amigos à minha imagem,
um morreu, outro saiu das grades
e agora adoece. Oh!"

                                 ***

"Hoje, a mesma coisa:
um telefone, distante, nos ouvidos.
Um poço seco, um triste dia."

                                 ***

"Mesmo à noite, após me deitar,
assobiava.
A canção dos meus quinze anos."

(Do livro Tankas, tradução de Masuo Yamaki e Paulo Colina, publicado por Roswitha Kempf/Editores.)

sábado, 28 de setembro de 2013

Soneto do amor simplesinho

Palavras tolas de amor,
Quem não as disse uma vez?
Eu fiz isso, você fez,
Isso não é um horror.

Se o amor verdadeiro for,
Jamais terá sensatez
E é sempre uma estupidez
A essa verdade se opor.

O amor teorias não ama
E de discursos reclama.
Mas a uma amável cartinha

Não costuma resistir,
E nem se o fazem ouvir
Os versos de uma quadrinha.

"Sabático"

Saudades do "Sabático" ainda, muitas. Como ficaram pobres os sábados.

Ambivalência

Há pessoas cuja ausência pode tornar nossa vida um tormento. Geralmente são essas mesmas que nos atormentam a vida quando estão presentes.

Soneto da paixão

Perguntas se foi paixão.
E o que mais provocaria
Em mim tamanha aflição,
Tão persistente agonia?

E que mais outra razão
Causar em mim poderia
Tão funda desilusão
E tão medíocre poesia?

Salvo a paixão, o que mais
Causa insânias tão mortais
E suplícios tão perversos?

Que mais, senão ela, traz
Tão grande falta de paz
E tão ridículos versos?

Kama Sutra - CCCLXXV

Se as mulheres soubessem, não precisavam me dar o que dão. Quando eu ponho a palma da mão bem de leve nos pentelhos de uma, sinto que o resto é tudo bobagem. Deixar a mão naquela flor não tem coisa melhor. Eles respiram, os pentelhos. Você não sabia? Respiram. Poeta? Não sou nada. Eu só observo as coisas. Eu falando assim, você é capaz de pensar que eu não faço as outras coisas. Eu faço. Porque chega uma hora que as mulheres não querem mais só a mão. Mas só faço se primeiro elas deixam a mão brincar bastante ali. E depois das outras coisas eu quero de novo. Que delícia quando os pelinhos ficam molhadinhos. Parece orvalho, já viu?

Um pouco mais de Violette Leduc

"Eu era sádica. Esperar e fazer esperar significam deliciosa perdição.
- Se nos apanhassem... - sonhei em voz alta.
- Não posso esperar mais - gemeu Isabel.
Por cima do rosto torcia as mãos.
Perante o medalhão caí de joelhos, contemplei-lhe o fulgor, aquela moita. Pus-me a correr riscos de contrabandista, principalmente no rosto. Com as pernas, Isabel deu uma tesourada.
- Olho e fico presa - digo eu.
Esperamos.
O sexo subia-nos à cabeça... No seu ventre, na minha testa, um incalculável número de corações batia.
- Assim, assim... Tão depressa não. Tão depressa não, já disse... Mais para cima. Não... Mais abaixo. Quase... Estás quase... Sim... sim... é quase aí... Agora mais depressa, mais... - dizia ela.
A minha língua investigava a noite salgada, a noite pegajosa na carne frágil. Quanto mais eu me aplicava, mais mistério havia nos meus esforços. Hesitava em redor da pérola.
- Não pares. É mesmo aí, estou a dizer-te...
Perdia-a, encontrava-a.
- Isso, isso - queixava-se Isabel. - Acertaste, acertaste - era o êxtase. - Continua. Peço-te... Aí, sim, aí... aí mesmo...
A sua angústia, a sua autoridade, as suas ordens, as suas contraordens perdiam-me.
- Não queres guiar-me? - pergunto eu, separada do universo fantástico.
Era uma pergunta entre os lábios do sexo.
- É isso mesmo o que eu faço - diz ela. - Tu é que não pensas naquilo que fazes.
- Até penso demais - digo eu.
Com lágrimas de suor molhei seu púbis.
- Ensina-me... Ensina-me..."

(De Teresa e Isabel, tradução de Aníbal Fernandes, publicado pela Relógio D'Água Editores, Lisboa.)

A causa

E tudo isto que nos ocorre começou a ser escrito num dia em que um homem e uma mulher, movidos pela felicidade, pelo acaso ou por não haver um bom filme para assistir, resolveram deitar-se juntos. A preguiça, a má literatura e a vontade de melhorar as cores do mundo fizeram com que nos chamassem, genericamente, de "frutos do amor".

O medo de passear

Veio-me, agora há pouco, o impulso de pegar a minha tristeza e ir dar uma volta com ela pelo parque. Minha tristeza é mansa, afável até, e saberia comportar-se. Já fiz isso algumas vezes. Mas, sempre que chegamos ao parque, o sol se esconde e as nuvens ameaçam despejar chuva. Minha tristeza não sabe ler, mas para ela é como se estivesse escrito, bem na entrada, "tristezas não são bem-vindas". O que pode uma tristeza fazer num parque, num sábado de manhã, senão dar mau exemplo aos meninos e meninas que correm de bicicleta ou de patins e às mães com bebês no carrinho? Bem, já se vê que não sairei com ela. Além desse inconveniente de estragar o sábado alheio, há sempre, em mim, o medo de que ela rompa a coleira e desapareça para sempre. Que faria eu sem ela, a minha tristeza, neste sábado e nos outros, talvez muitos, que Deus talvez me reserve?

Os sábados

Os sábados não são mais tristes do que qualquer outro dia. Este, hoje, por exemplo, poderia ser uma segunda ou uma terça. Seus punhais não são mais aguçados que os de uma quarta ou uma quinta. Ferem como ferem os da sexta ou os do domingo. Para quem traz a tristeza na alma, não há esperança no calendário. Quem dera pudéssemos, como antes, marcar com um lápis de um vermelho bem forte algum dia da semana que vem do qual esperássemos uma grande ventura ou o consolo de um ombro? Os filósofos ainda se empenham em descobrir aquilo que chamam de Destino do Homem. Eu gostaria que eles resolvessem um problema corriqueiro: o que deve fazer um homem com "h" minúsculo num sábado, quando a tristeza só lhe cochicha pensamentos ruins?

Notícias

Nossos mortos ouviram notícias sobre nossa saúde e já se inquietam. Estão tão bem sem a nossa companhia.

Kama Sutra - CCCLXXIV

Minha mão esquerda está ficando cada vez mais destra, melhor até que a outra. Vê como são as coisas. Se não fosse aquele acidente, nunca que eu ia descobrir. Tudo na vida é questão de necessidade e treino.

Kama Sutra - CCCLXXIII

Ela gritou ai e ergueu o saiote pregueado do colégio. Colocou o dedo na coxa:
"Ai, já nasceu um calombo, ai, ai."
 A amiga se abaixou para olhar. Disse que não estava vendo nada.
 "Como não está vendo nada? Ficou cega? Põe o dedo. Ai, como dói. Isso. É bem aí."
A outra aproximou o rosto da coxa:
"Ainda não estou vendo nada. O que tem aqui é uma verruguinha, só."
Deu uma soprada.
"Ai, só de você soprar, doeu."
A outra deu então um beijinho na coxa, em cima da verruga:
"Agora sara, você vai ver."
"Já melhorou. Ufa! Foi uma abelhinha, acho que aquela ali."
"Pode ser, sim. Ela me picou também, ontem. Bem aqui no joelho. Sabe que ainda está doendo? Ai, põe o dedo."

Disfarce

Um dos mais abjetos eufemismos é aquele em que a piedade se apresenta como amor.

Nefelibata é a...

Na dúvida sobre o significado, se alguém o chamar de nefelibata, reaja com palavras do pior calão, acompanhadas de descargas salivares. Se, porém, souber o que é nefelibata, complete os palavrões e as cusparadas com meia dúzia de tapas bem estalados.

Soneto da imundície do mundo

Há momentos em que o mundo,
Como se já não bastasse,
Resolve enfear a face
E faz-se ainda mais imundo.

Capricha nisso, vai fundo.
Não há o que não trespasse,
Não quebre, não despedace,
Com seu rancor mais profundo.

Nós, homens, temos decerto
Um papel mais do que certo
Nessa tragédia encenada.

Nós somos sócios desta obra,
Mas e de Deus ninguém cobra
Nem jamais cobrará nada?

Estrela da manhã

Uma estrela amanheceu na sua porta. Ele ligou para Deus e para o mundo, pedindo instruções sobre o que fazer com ela. Ninguém lhe deu atenção. Sugeriram-lhe que ela deveria ser do poeta Ananias de Castro, morador do sobrado da esquina, mas o poeta, ofendido, disse que fazia tempo que era moderno e jamais lidara com estrelas. Sem saber o que fazer, o homem deixou a estrela no sofá, enquanto continuava a procurar a solução, pelo telefone. Talvez o Ibama resolvesse, ele imaginou, ou o planetário. Quando, depois de mais alguns telefonemas infrutíferos, olhou para o sofá, nada de estrela mais. Só o gato continuava lá. Embora ainda não lhe tivesse sido servida a ração, dormia satisfeito.

Pauliceia

Os três homens embaixo do viaduto viram passar o menino de olhos famintos e o chamaram. Estavam cozinhando batatas. Quando o menino se sentou entre eles, um levantou a tampa, deu uma espiada e perguntou: "Quem vai comer primeiro?" O menino levantou a mão. Os três homens puseram-se a rir. Só depois o menino entenderia por quê.

Dois trechos de Henry Miller

"Os deuses da Antiguidade desciam à terra para se misturar à espécie humana, para fornicar com animais e árvores e com os próprios elementos. Por que somos tão cheios de restrições? Por que não nos entregamos em todas as direções? Será medo de perder a nós mesmos? Até que nos percamos, não pode haver esperança de nos encontrarmos. Somos do mundo e para entrar plenamente no mundo precisamos primeiro nos perder nele. O caminho do céu nos leva através do inferno, é o que se diz. O caminho que tomamos não tem importância, contanto que deixemos de percorrê-lo com cautela."

                                                                 ***

"Quando nossos desejos são baldados ou suprimidos, a vida se torna mesquinha, feia, cruel e mortal. Justamente como ela é, em outras palavras. Afinal, o mundo que habitamos é apenas a imagem refletida do nosso caos interior. Nossos curandeiros, ou juristas fanáticos, ou pedagogos penitentes e mistificadores que dominam o cenário gostariam de nos fazer acreditar que, para participar de uma vida em sociedade, o ser selvagem, primitivo, como chamam o homem natural, tem de ser manietado e agrilhoado. Todo ser criativo sabe que isto é falso. Nada jamais foi alcançado prendendo, imobilizando, agrilhoando, algemando um ao outro. Nem o crime nem a guerra, nem a luxúria nem a cobiça, nem a maldade nem a inveja são assim eliminados. Tudo o que se consegue, em nome da Sociedade, é a perpetuação da grande mentira."

(De O mundo do sexo, tradução de Roberto Muggiati, publicado pela José Olympio Editora.)

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Kama Sutra - CCCLXXIII

Ela nunca tocou, de ti, nada mais essencial do que os ombros, que os braços, que as mãos. Ela estava sempre de castigo, como tu dizias, impedida de se aproximar dos teus tesouros. E, no entanto, hoje, se sentisses até onde ela vai... Conhece cada ilha de tua geografia, cada elevação, cada ponto, alguns cujo nome nem tu sabes. Nem imaginas onde ela está, mas ela te percorre e sabe em que mata se esconder, onde comer, onde se dessedentar, quais são as fontes de leite e de mel. Apropriou-se de todo o teu território e o percorre com carinho, mas com um pouco da mágoa que ficou da antiga rejeição.

Um poema de Carlos Drummond de Andrade

"Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas."

(De Obra completa, publicado pela Companhia Aguilar Editora.)

Kama Sutra - CCCLXXII

Eu estava ontem no ponto do ônibus, ela também, logo atrás de mim, na fila. Acho que não era nem bonita, eu não lembro. Mas a minha braguilha começou a ficar inquieta, porque ela não parava de mastigar uma coisa, e aquilo fazia um barulhinho de saliva que começou a me deixar louco. Pensei que fosse chiclete. Mas, quando o ônibus chegou, ela cuspiu a coisa, e sabe o que era? Um caroço de pêssego. Se eu sentei com ela no ônibus? Não, não deu. Eu deixei ela entrar primeiro, porque imagina se eu não fui pegar o caroço no chão. Sei lá se é tara isso, ou o que é. Só sei que peguei o caroço. Está aqui no meu bolso. Olha aí. Bom, já vou indo. Está na hora do meu ônibus.

A novela das sete

Ando torcendo por um velho milionário que dá em cima de uma mulher muito mais moça, que é de outro homem. Sou voto isolado. O fato de ele ser milionário, na opinião dos outros, é uma agravante da sua sem-vergonhice. Parece que um velhote pobre mas disposto a compartilhar com ela uma vida de privações seria mais aceitável. Nada de viagens pelo Mediterrâneo; de vez em quando, um piquenique à beira do Tietê. Sei que não conseguirei convencer nem os da minha faixa de idade, mas continuo torcendo por ele. Como diria o Ubaldo, espinafrações devem ser dirigidas a este blog. Por ser muito óbvio, não será aceito o argumento de espírito de classe. Claro que, quando menciono classe, quero me referir à idade, não ao dinheiro. Tenho, de invernos, o que não tenho de reais.

Um trecho de Katherine Mansfield

"É muito tarde da noite, e eu engoli um homem tão estúpido, junto com meu chá, que não consigo digeri-lo. Ele está querendo publicar uma antologia de contos e disse que quanto mais bem 'tramada' fosse a história que eu lhe desse, seria melhor. Quanta coisa, numa palavra! Foi algo que me arrepiou os cabelos. Uma história bem tramada, por favor! As pessoas são engraçadas."

(De Diário & cartas, tradução de Julieta Cupertino, publicado pela Editora Revan.)

Kama Sutra - CCCLXXI

Quando se lembra dela, seu corpo é instantaneamente tomado por uma febre que o faz tremer. Ele se agasalha com dois, três cobertores e, com a mão gelada no ventre, ensaiando a descida, murmura palavras de amor que o frio entrecorta. Logo a cama tremerá, do seu frio, da sua febre e de suas lembranças apaixonadas.

Kama Sutra - CCCLXX

Pedir licença, ser atendido, entrar no chuveiro, desligá-lo e, com a toalha antecipadamente beijada, enxugar-lhe as partes todas do corpo. Ali onde os crespos pelos se enroscam delicadamente, apreciar por um instante o fulvo contraste deles com a alva toalha e, subindo, secar com carinho os seios, que além da água podem, por um malicioso roçar da esponja, ter nos bicos duas gotas de leite.

A mentira

Mente quem diz que deu tudo pelo amor. Pelo amor é sempre possível dar mais, e quem o amor perdeu foi por ter querido guardar um pouco dele, por orgulho ou mesquinharia.

Soneto da mulher viciada em beijos

Beijar é quase um suplício
Quando se acha uma mulher
Que sempre muito mais quer
E beijar é, nela, um vício.

Tudo é muito bom, no início,
Quando se aceita o que vier
E nem se pensa sequer
Que vai virar sacrifício.

Mas quando depois de cem
A mulher nos diz meu bem,
Eu quero duzentos mais,

Sensato é nos desculparmos,
Dos seus braços nos safarmos
E não voltarmos jamais.

Mais um trecho de Violette Leduc

"Debruçou-se para a cama. Não voltava a deitar-se.
Entregava-se a um verdadeiro folguedo de virilhas, desenhava e prolongava enlouquecidos oitos, fazia, toda curvada, carícias.
Entraram três dedos, três convidados que a carne engoliu.
E assim voltou a deitar-se, como o acrobata que sobe e carrega à força de braços a companheira.
- Não estás a ouvir-me - diz Isabel.
- Ouço. Dizes-me as tuas coisas, voltaste e estás em mim. A chuva... Oh, sim... Sim! Não lhe tenho nenhum ódio. É uma amiga. Sim, sim... Vamos morrer juntas, morrer assim enquanto és eu e eu sou tu. Nunca mais volto a pensar que havemos de separar-nos. Vamos morrer. Queres?
- Não quero. Quero isto. Estar mergulhada em ti. Morrer... é estúpido demais
- Abandonavas-me, se eu fosse leprosa?"

(De Teresa e Isabel, publicado pela Relógio D'Água Editores, Lisboa.)

Tudo que dói

Tudo que dói tanto hoje será amanhã como uma cicatriz de infância que procuramos para mostrar e não encontramos. Um tombo tão grande, e nada, nem um sinalzinho para comprovar? Somos mentirosos, por acaso? Que a dor doa agora com toda a intensidade, que berremos, que digamos que ninguém sofreu jamais como nós. Amanhã, quem terá paciência para ouvir nossas lamúrias? Elas soarão como queixumes de um bebê pedindo a mamadeira. Gritemos hoje, 27 de setembro de 2013, que nossa alma dói terrivelmente, como se de repente houvesse descoberto que ela, alma, é uma das tantas mentiras que nos impuseram para tornar tolerável a vida.

No fim das contas

No fim das contas, é tão melhor ter sido tolo... Segui minha natureza. Nunca tive, embora bem as quisesse, mãos fortes, de quem conquista. Sempre fui, ainda sou, um homem que ficou só esboçado no menino. Eu te dei o que tinha. Uma noção equivocada da vida, um desenho impreciso e canhestro, uma ingenuidade feita de brisa e de nuvens. Algumas vezes quis te enganar, é verdade, fingindo sabedorias que não tinha. Sugeri palavras como desfrute e alcova, mas logo viste que eram palavras tão antigas quanto a minha ignorância das coisas. Te censurei por não me veres como eu queria que me visses. E, no entanto, isso foi o que de melhor poderia acontecer. Guardo tua imagem inicial, aquela que concebi juntando todos os fiapos de sonhos que sonhei na vida. Não creio que aquela outra imagem, que tentei impor a mim e a ti, chegasse a me comover como a primeira. Posso queixar-me da pureza que sinto hoje quando me recordo daquele dezembro único, da manhã única, do sol único? A pureza é um sentimento risível? Não creio.

Um dia

Um dia, por uma dessas improbabilidades que insistem em desmentir sua natureza, te lembrarás de mim. Tua memória não será a mesma, terás vivido muito e as imagens te confundirão um pouco. Precisarás quem sabe procurar uma das mil cartas que te enviei, para veres o nome de quem as assinava. Ah, dirás, como eu fui esquecer. E, porque tuas lembranças já estarão esmaecidas, terás por mim, nesse dia, um carinho que quase sempre me negaste. E, se houver alguém que te ouça, é possível que digas que eu era tão estranho, tão diferente, que eu era assim como se fosse um menino.

Cotação do dia

Bendito o vento que seduziu o pequeno barco e o soprou malevolamente para alto-mar, onde as ondas o destroçaram. Sem o vento, o barco - com seus tripulantes, que tentam ainda fazer chegar à superfície seus cantos de rancor, de maldição e de socorro - seria um simples barquinho de aquarela, com três pescadores lançando a rede sob o céu claro.

Soneto da última vontade

Talvez consiga ainda achar
Aquele jardim que vi
Numa noite em que dormi
E comecei a sonhar.

Era bonito de olhar
E lembro que nele ouvi
O canto de um bem-te-vi
Cantando sem descansar.

De outras coisas não lembro
A não ser que era setembro
E que você me sorria.

Talvez ainda, antes do fim,
Possa rever o jardim
Como era naquele dia.

Kama Sutra - CCCLXIX

Nunca pensou naquilo que sonhou ontem. Desenhou com batom uma boca perfeita no ventre de uma mulher. Não lembra do rosto dela. Era como se o ventre fosse o rosto. Começou a beijar os lábios desenhados, e o ventre, subindo e descendo em palpitações cada vez mais intensas, atraía seus beijos e os retribuía. Toda vez que ele, já com a boca doendo, queria parar, o umbigo ameaçava prender-lhe a língua.

Kama Sutra - CCCLXVIII

Eu queria contar cada fio daqueles bem finos dela. Alguns acham feio o nome. Eu, não. Acho bonito. Pentelhos. Queria contar um por um, me atrapalhar na conta, começar tudo de novo, dividir, multiplicar. Fazer uma peneira entre os dedos, deixar passar aquele trigo. Para não errar outra vez, queria ir separando de três em três, ou de cinco em cinco, e falando com eles: quietinhos aí, vocês. Já viu como os caixas de banco fazem para contar o dinheiro? Eles molham de saliva o dedo. Contar fios de ouro é igual.

Quando estiveres

Quando estiveres sozinho, naquela solidão definitiva que é o destino de todos nós, abre os teus arquivos e relê o que hoje escreves sobre o amor. Cristo, quanta baboseira! Quantas rosas, quantos lírios, quantos jardins dedicados a um sentimento que, pelo menos no teu caso, foi um personagem que, tu vês agora, mereceria no máximo entrar na lista dos adubos.

Soneto do amor estouvado

O amor é aquele garçom
Que sempre nos traz à mesa
No começo a sobremesa
E em vez de vodca, burbom.

E, como numa sitcom,
O amor é aquela freguesa
Que nunca paga a despesa
Mas a assina com batom.

O amor é assim, estouvado,
Maluco, disparatado,
E tudo de uma só vez.

Capaz de a conta beijar
E de a sopa derramar
No paletó do freguês.

O tropicão

Foi uma coisa bem simples, uma coisinha de nada. Quebrei só esta mão aqui e duas costelas. O que doeu foram as gargalhadas do pessoal da festa, quando eu tropecei no primeiro degrau lá em cima e comecei a cair. A Mirtes? Ela estava lá, sim. O que ela fez? Nada. Riu como os outros. Chamaram uma ambulância, é claro, mas ninguém foi comigo.

Duas passagens de Henry Miller

"Entrar na vida por meio da vagina é um caminho tão bom como qualquer outro. Se você entrar bem fundo e permanecer o tempo suficiente, vai encontrar o que procura. Mas você precisa entrar com coração e alma - e deixar seus pertences do lado de fora. (Por pertences eu me refiro a medos, preconceitos, superstições.)"

                                                                *****

"Nossas leis e costumes relacionam-se com nossa vida social, nossa vida em comum, que é o lado menor da existência. A vida real começa quando estamos sozinhos, face a face com o nosso eu desconhecido. O que acontece quando nos encontramos é determinado por nossos solilóquios interiores. Os acontecimentos cruciais e realmente essenciais que marcam o nosso caminho são frutos do silêncio e da solidão. Atribuímos muito a encontros casuais, nos referimos a eles como momentos decisivos em nossa vida, mas estes encontros jamais poderiam ter ocorrido se não nos tivéssemos preparado para eles. Se possuíssemos mais conhecimento das coisas, estes encontros fortuitos renderiam ainda maiores recompensas."

(De O mundo do sexo, tradução de Roberto Muggiati, publicado pela José Olympio Editora.)

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Soneto do velo de ouro

Eu sei que nunca irei vê-lo,
Aquele monte gracioso
De pelo espesso e sedoso,
De macio terciopelo.

Sei que jamais irei tê-lo,
Por mais que o procure ansioso,
Aquele monte alteroso
Coberto por suave velo.

Hoje sei que morrerei
E jamais na mão terei
Aquele ponto onde estão

Aqueles teus fios de ouro
Que guardam o teu tesouro
Como se eu fosse um ladrão.

Lembranças

O amor antigo ainda, de vez em quando, faz a mão abrir gavetas, arquivos, álbuns. E, também de vez em quando, faz a mão, com alguma culpa e desajeitamento, abrir botões.

Um poema de Carlos Drummond de Andrade

"OS MORTOS

Na ambígua intimidade
que nos concedem
podemos andar nus
diante de seus retratos.
Não reprovam nem sorriem
como se neles a nudez fosse maior."

(De Obra completa, publicada pela Companhia Aguilar Editora.)

Soneto do mastro amaldiçoado

Disse que se chamava Doroti.
Depois de bolinar-me numa esquina
E de autoproclamar-se ainda menina,
Me pediu que a comesse em pé, ali.

Era feia como uma triste sina,
Mais feia que ela nunca conheci,
E me mandava põe aqui, aqui!,
Com sua voz absurdamente fina.

Me dizia vem, vem, meu marinheiro,
Eu te dou por amor, não por dinheiro,
Vem com tudo, meu bem, não sejas mau.

Não a querendo grátis e nem paga,
Fugi dela, e ela, então, rogou-me a praga
Que mantém o meu mastro a meio pau.

Kama Sutra - CCCLXVII

Quer saber? É tudo igual. Todas elas têm as mesmas coisas e funcionam do mesmo jeito. Esse negócio de paixão é tudo a gente que cria na cabeça. O nosso mal é saber o nome delas. Aí a gente começa a não dormir mais. E suspira pela Laura, pela Lúcia, pela Lucilene. E chora por elas. Babaquice. Bunda, coxa, teta, tudo devia chamar sempre só bunda, coxa e teta. Nada de Dalva, de Dora, de Doralice. Você quer ver? Eu tive uma, faz um tempo, quando eu não sabia assim das coisas, que se chamava Cória, já viu nome igual? Feio, eu sei. Mas, quando ela me deixava na seca, eu enchia o focinho de cerveja e ficava chamando Cória, Cória, no portão da casa dela. E eu lá queria a Cória?, eu pergunto. Eu queria aquelas coisas que eu falei, e aquela outra, você sabe. Aquela. Como é bom aquilo, não é? Pois é, mas tem quem não goste. Cada um...

Um trecho de Henry Miller

"O drama sexual é apenas um aspecto parcial do drama maior perpetuamente encenado na alma do homem. À medida que o indivíduo se torna mais integrado, mais unificado, o problema do sexo cai na perspectiva adequada. As genitais são impressas, por assim dizer, a serviço de todo o ser. Existe procriação simultânea em todas as esferas. O que é novo, original e fecundo deriva apenas de uma entidade completa. Podemos foder não só com coração e alma, como dizemos, mas como um novo ser. Um novo ser é produto de uma mente, criada através do desejo, do amor e da expiação, não através da gestação no ventre. Aqueles que ainda não nasceram estão ao redor de nós, trancados no ventre do tempo; quando nossa fome pela verdadeira vida se aprofunda sentimos sua presença e providenciamos a sua chegada."

(De O mundo do sexo, tradução de Roberto Muggiati, publicado pela José Olympio Editora.)

No Estadão - O autodidata

Lembro-me de uma ocasião em que, na revisão do jornal, passaram um formulário que deveria ser preenchido por aqueles que quisessem aspirar a ocupações melhores e mais bem remuneradas, como a redação. O formulário causou alvoroço. Não se falava em curriculum vitae naquele tempo, mas era o que aquilo era. Um histórico de nossas aptidões, além daquelas corriqueiras de virgular e crasear. Pensando já no auspicioso futuro em que estaríamos escrevendo editoriais sob os olhos do dr. Ruy, pusemo-nos a procurar na memória qualquer habilidade que nos tornasse melhores e dignos de promoção. Um dos nossos, Jairo de Magalhães, colocou um item que nos pareceu ao mesmo tempo desconcertante e genial. Ele se dizia autodidata em sexologia. Pensávamos, até ali, que fôssemos todos autodidatas no assunto. Mas ele tinha a coragem de assim se proclamar. Para resumir a história, o formulário foi logo esquecido e as promoções também, mas não aquele lance de ousadia e de autodidatismo. De lá para cá, sempre que pensava no caso, confesso que o pensamento vinha acompanhado de um sorriso de galhofa. Hoje, tornando a lembrar-me daquilo, o sorriso e a zombaria não vieram. Descubro, pelo que tenho escrito ultimamente, que também eu sou um autodidata em sexologia e também um principiante na arte de narrar o sexo. Pela idade, deveria estar decifrando palavras cruzadas, imagino, mas, como nunca soube qual a pátria de Abrão, achei melhor esta ocupação de mexer com coisas tidas como invenções do Diabo. Dirão que não há mais vento para a minha caravela. Pelo exemplo do próprio Abrão, quem sabe... Há ventos e ventos.

Sinais do Amor

O Amor é fácil de reconhecer. É aquele homem sentado no sofá. O que ele tem no olho direito é um monóculo, o que ele segura na mão é um cachimbo. Cachimbo é aquela coisa que ele às vezes leva aos lábios e na qual se presume estar a fumaça que ele lança para o alto. Se isso não bastar para identificá-lo, num dos seus bolsos há de estar um papel com um texto estranho. É poesia.

Kama Sutra - CCCLXVI

Toda vez que, dançando, desliza a mão pelas costas dela até embaixo e chega à encosta que ali se eleva abruptamente, torce para que a sequência de músicas, quando parar, seja num momento em que ele, tendo dado vazão ao desejo no pano grosso com que forra a cueca ou havendo conseguido sublimá-lo com imagens de extensos gramados, possa caminhar pelo salão sem que se abram no rosto dos frequentadores aqueles sorrisos e sem que as mãos apontem para a sua virilha os dedos acusadores.

Kama Sutra - CCCLXV

Um dos instantes que ele mais aprecia é aquele no qual, sempre fingindo inabilidade (como é que ela faz quando está sozinha?), ela pede que ele lhe abra o fecho do sutiã nas costas. Ele aproveita então para beijar-lhe a nuca. Quando ela se retrai, falsa ou verdadeiramente arrepiada, ele se encaixa naquele vale que é, dela, o lugar mais aprazível.

Kama Sutra - CCCLXIV

Tem receio de que, se um dia ela lhe der permissão para escalar o monte, já lhe faltem as forças e de que a paisagem em torno, hoje dourada, tenha sido coberta por finos fios de neve.

Estojo

A vida são essas miudezas
essas quinquilharias
alegrias pequenas
pequenas tristezas
escassos júbilos
escassas penas
sentimentos tolos
sentimentos todos
precedidos pela ressalva
da palavra apenas.

Soneto dos que seguem o amor

Eu fui refém dos teus passos.
Um dia por mim passaste,
Olhei para ti, me olhaste,
Advêm daí meus fracassos.

Fiz da tua a minha sorte.
Te acompanhei cegamente.
E chegamos. Eu ao poente,
Tu ao teu buscado norte.

O amor é assim. Quando vem,
Não há no mundo ninguém
Que deixe de acompanhá-lo.

Quem o segue há de saber
Que assim como faz viver
Pode o amor também matá-lo.

Cotação do dia

Sofreu tudo: privações, provações, pilhérias, sarcasmos, detratações. Mas no final, como costuma acontecer, levou um golpe da sorte e morreu.

Um trecho de Luiz Carlos Cardoso

"E quem poderia negar que a escolha da jovenzinha não fosse uma escolha de loser, que cria a impossibilidade e portanto o pretexto para perder? Que o amor, o amor em si abstraindo quem fosse a amada, não seria um sentimento de loser que se aniquila sob outro sentimento falsamente "maior"? Minha honestidade e bom caráter seriam virtudes mesmo ou vacilação, covardia de quem, entre firmeza e simpatia, fica com a segunda que é cômoda? As veteranas da repartição pública louvavam-me a boa índole, mas as bonitonas davam a boniteza para Almir, colega que lhes oferecia carona e ia logo pegando-lhes na coxa."

(Do romance Crime improvável, publicado pela Ficções.)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Cotação da noite

O vento me traz um aroma salgado, que excita as narinas e faz salivar minha boca. Pergunto-lhe de onde vem esse apelo, se do mar ou se de uma casa de mulheres que antes de subir com os homens para os quartos sapateiam no teclado de um piano cujas teclas refletem os tufos ruivos, único ornamento, além dos sapatos altos, que sua nudez aceita. O vento não responde e, antes de ir embora, sopra-me no rosto outra vez seu hálito quente, que me embriaga como se todas as messalinas o tivessem soprado.

Kama Sutra - CCCLXIII

Agrada-lhe, enquanto a beija, dizer para dentro da sua boca palavras apaixonadas. Algumas ele inventa. São só sílabas entrecortadas, murmúrios de saliva prejudicados pelos espasmos do corpo empenhado em manter o ritmo do amor. Também ela inventa algumas, bem curtas. E são essas que depois, já em casa, ao lembrá-las, reacendem nele o fogo e o fazem lamentar, quase chorar, que só no dia seguinte se reencontrarão as duas bocas, cheias de vocábulos traiçoeiros como cobras e de dentes que mordem e sangram os lábios como ferros marcando reses para o banquete do Diabo.

Kama Sutra - CCCLXII

Me agradaria que você não tivesse a sua idade, que você tivesse trinta e tantos anos menos, não conhecesse certas coisas da vida e, inacreditavelmente, me achasse o homem adequado para corrompê-la. Seria gostoso, eu imagino, irmos à sua casa, quando você estivesse premeditadamente sozinha. Eu daria uma de conhecedor e começaria a ver - presumivelmente no sofá, para não espantá-la - a partir de que ponto eu iniciaria sua deseducação sexual. Seria excitante se você, mentindo ou não, me dissesse ter todas as dúvidas sobre o assunto. E eu não me importaria, também, que você acabasse me ensinando alguma coisa que, depois, você lançaria à conta da intuição feminina.

Cronista

Cronista é aquele homem que julga haver ainda pessoas interessadas em ler histórias sobre árvores, gatos e passarinhos.

Kama Sutra - CCCLXI

Ele é grande. Não muito alto. Largo. Noventa quilos, pelo menos. No frio, com o casaco, ele fica maior, enorme. É quando ela mais gosta de ser abraçada por ele. Sente-se como uma passarinha adotada por uma mãe ursa. E gosta quando ele a leva para a toca e ela se aninha nele, por cima dele, e ele começa a grunhir de satisfação. Deitado, ele não parece tão gordo e forte, e isso às vezes a decepciona um pouco. Assim como a sua voz fina, de adolescente. Quando ele fala, principalmente na cama, ela se esforça para imaginar que ele é um passarinho, o seu passarinho.

Kama Sutra - CCCLX

"Isso, assim. Não. Espera. Vem de novo. Aí."
O homem deitado em cima dela tem trinta anos, é casado e tem um filho. Ela tem dezoito, mas há dois anos sabe o poder que seu corpo lhe dá. Conheceu o homem no cursinho e nesta noite, a quarta, já o domina.
"Aí, isso. Mais devagar. Eu falei devagar."
Desfruta o gozo que o mando lhe dá. Estremece, se contorce, agoniza. Três palavras ("meu amorzinho querido") lhe fazem cócega nos lábios, mas ela não as deixa sair. Diz apenas:
"Você está aprendendo, professor. Parabéns. Agora tira e sai."

Como ela era

Era autêntica em tudo, até nas mentiras. Mentia com tanta convicção e brilho que era um orgulho ser enganado por ela. Eu fui.

Kama Sutra - CCCLIX

Gostaria de saber o que ela sente, de verdade, quando ele, como agora, dá cutiladas com a ponta da língua no seu umbigo, como se fosse um animalzinho rodeando uma toca, ansioso e ao mesmo tempo temeroso do que possa encontrar lá dentro. O que será que ela sente quando ele, já um pouco mais confiante, repousa a língua ali, e a deixa ficar, ofegante como uma corça?

Soneto do pai vilão

Eu sou o fruto gorado
De uma semente lançada
No tempo mais que adequado
E numa terra abençoada.

Nem bem estava plantado,
Já tinha fama espalhada
E já meu nome cantado
E a beleza adivinhada.

Menos se iria esperar
De algo que com a própria mão
O amor quisera plantar?

Gorei no entanto, e hoje sei
Que foi o amor meu vilão.
Por ele é que não vinguei.

Premeditação

Foi tua maldade que me escolheu. Ela já adivinhava o dia em que, passando eu pelo outro lado da rua, tu me apontarias: "Dizem que eu andei com aquele traste. Ora se pode uma coisa dessas. Olhem para ele e vejam se tem cabimento."

Um trecho de Henry Miller

"A maioria dos homens, quando pega uma puta, não se dá ao trabalho de tirar o chapéu e o casaco, figurativamente falando. Não admira que recebam tão pouco por seu dinheiro. Uma puta, se tratada com consideração, pode ser a mais generosa das almas. Seu único desejo é poder doar a si mesma, não apenas seu corpo."

(De O mundo do sexo, tradução de Roberto Muggiati, publicado pela José Olympio Editora.)

Kama Sutra - CCCLVIII

Gostaria de ter não só estes brinquedinhos. Seria justo oferecer aos teus preciosos e obedientes dedos um prazer exclusivo, uma maciez que cada um pudesse considerar só dele. Algumas coisas Deus não fez direito, se enganou nas contas.

Kama Sutra - CCCLVII

Aquele rei Salomão lá não sei das quantas, que foi o maior sacana da terra, você acha que alguma vez ele tirou uma balinha de hortelã com a língua assim, de onde eu estou tirando? Mulher já tinha naquele tempo, a Bíblia diz, e acho que elas eram que nem as de hoje. Mas balinha de hortelã, será que tinha? Quer de novo?

Kama Sutra - CCCLVI

Eu não entendo como você ainda tem essa bundinha inteira aí. Juro que eu não sei como os homens ainda não roubaram ela de você. Ainda mais do jeito que você mostra ela. Bom, é como dizem. Não tem mais homem por aí. Eu não sei direito o que uma mulher faz com a bunda de outra mulher, mas andei entrando na internet. No dia que você quiser aparecer lá em casa, a gente vê. Posso dar uma apertadinha? Jesus! Mais uma.

Soneto cor-de-rosa

Se for amor, há de ser
Um desses de folhetim,
Que possa nos entreter
Do começo até o fim.

Que a moça (Rosa ou Jasmim)
Venha um dia a conhecer
Um Ângelo ou Serafim
Que possa dinheiro ter

E, buscando sua alma gêmea,
De preferência uma fêmea,
Encontre em Jasmim ou Rosa

Essa alma em sonhos pedida
Que faça ser sua vida
Sempre bela e cor-de-rosa.

Erro de avaliação

Algumas mulheres pensam que os poetas vivem de brisa e lhes negam com obstinada teimosia o que oferecem na bandeja ao primeiro tocador de campainha.

Súcia

Se cada poeta que insiste em celebrar o amor pegasse uma enxada e fosse para a periferia, teríamos uma cidade arborizada e florida, e as estrelas dormiriam sossegadas, sem precisar ouvir os ahs e os ohs dessa cambada. Vão trabalhar, vagabundos!

A magia de Nabokov

A quem quiser se espantar com a magia que as palavras podem construir, recomendo O olho, de Vladimir Nakobov. No fim do livro, provavelmente vocês perguntarão o que eu me perguntei: como foi que ele conseguiu?

Sabatina

Se Shakespeare não estivesse morto, precisaria prestar contas a Bárbara Heliodora.

Mais um trecho de Violette Leduc

"Isabel beijava-me toda. Enchia-me de condecorações, e eu sucumbia a tantas medalhas. A primavera de seu púbis confraternizava com a primavera do meu.
   - Não posso mais.
   - Não posso mais.
   Desfalecemos, enfraquecemos no velo púbico os sexos que lá se escondem. A cabeça de Isabel cai-me no ombro. Tenho um falcão no ombro, sou o Grande Falcoeiro.
   -- Basta - diz ela.
   - A noite passada disseste o mesmo.
   - Temos de nos separar. Vou sair primeiro."

(De Teresa e Isabel, tradução de Aníbal Fernandes, publicado pela Relógio D'Água Editores, Lisboa.)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Erotismo, pornografia e o leitor

A literatura erótica e pornográfica, como todas as outras literaturas, quem as define assim ou assado são os leitores. Um menino de doze anos pode achar erótica ou pornográfica uma página de Branca de Neve e os sete anões. Mas, se ele já tiver lido o Marquês de Sade ou Georges Bataille, essa mesma página lhe parecerá nada mais que um trecho de um conto de fadas.

Os cinco, e só

Serei sempre um desprovido.
Posso querer ter um sexto,
Se nunca encontro num texto
Sequer um duplo sentido?

Soneto do tempo irrecuperável

Eu tanto tempo perdi
Fazendo o papel de tolo,
Dizendo versos a ti,
Que não poderei repô-lo.

Não se calculam em vezes
Meus repetidos enganos.
Não foram dias, mas meses,
Não foram meses, mas anos.

Como eu poderei, me diz,
Se em cada jura que fiz,
Jurei com sinceridade,

Meu tempo recuperar,
Se em cada vez, ao jurar,
Jurei pela eternidade?

Um poema de Fernando Pessoa

"Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Desejo, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?"

(De Antologia poética, organizada por Cleonice Berardinelli e publicada pela Casa da Palavra.)

Kama Sutra - CCCLV

Quando ela fica assim empinada, que nem hoje, eu acho que, se você pedisse o mundo, alguém dava. Quer um conselho? Você devia andar sempre de salto alto. E outra coisa. Você nunca deve prestar atenção no que dizem os ignorantes. Se eles falarem que ela é arrebitada, é mentira. Vai por mim. Eu sou poeta, eu sei. Ela é sabe o quê? Imponente. Majestosa. Nunca ouviu falar? Mas é isso que ela é. E suculenta.

Kama Sutra - CCCLIV

"Desculpa eu perguntar, mas você tem um amigo íntimo, de confiança, um que você pode levar pra cama sem no dia seguinte a cidade toda ficar sabendo?"
"Eu tenho um, sim. A gente se encontra faz um ano, e nem a minha família sabe. É o dildo."
"Como?"
"Dildo."
"Primeira vez que eu ouço esse nome. E ele é bom de cama?"
"Depende de mim. Ele é meio tímido, eu preciso dar uma ajudinha."
"O meu também é assim, meio paradão. O nome dele é Horácio. Eu posso falar porque ele nem é daqui. Vem uma vez por semana, só pra me ver. Olha, tem dia que é um sacrifício fazer ele se entusiasmar. E ele ainda põe a culpa em mim. Diz que minha boca é gelada e que minhas mãos são sonsas. Mas no fim sempre a coisa rola."

Kama Sutra - CCCLIII

Deitada, pus a mão no lugar que anteontem você ocupou aqui na cama e - sei que você não vai acreditar - parece que senti o teu calor. Lembrei do que nós fizemos, do que a tua língua fez comigo, de como ela foi carinhosa. Senti falta dela, minha amiga. Amaldiçoei a minha língua por não poder me dar o que a tua me deu anteontem. Beijei então a minha mão e pedi para ela brincar um pouco ali onde a tua brincou. Ela fez o que pôde, tadinha. Quando vi que o gozo não vinha, eu precisei pensar que o dedo que estava entrando em mim era o teu. Aí eu consegui. Devo ter virado os olhos como você disse que eu virei anteontem. Babar eu sei que babei. Te espero na sexta, Vaninha. Minha mãe vai viajar e nós vamos ter a casa inteira para nós. Eu vou poder gritar que te amo, minha gostosa, minha delícia. Vou ficando por aqui. Saudades da Belinha. Ah, e um beijinho bem ali, você sabe, com muita saliva e amor.

Sobre a literatura erótica

Se eu fosse resumir o que penso sobre a literatura erótica, diria simplesmente que me agradam mais as reticências que as exclamações.

Um trecho de Dacia Maraini

"12 de fevereiro
Casamo-nos. O pai de Giulio escreveu da Sicília amaldiçoando-nos. E nós nos lixamos! Pois quem trabalha sou eu . E ele vive comigo, na minha casa. O que pode fazer aquele velho cretino? Giulio tem uma pele lisa que parece porcelana.

18 de fevereiro

Para não perder a mesada do pai, Giulio continua a lhe escrever dizendo que está estudando e prestando exames. O pai responde com longas cartas que ele joga na cesta do lixo. O importante é apoderar-se do cheque.

8 de março

Quase um mês que nos casamos. Giulio não parece satisfeito. Ficou nervoso, preguiçoso. Quase não abre mais a boca. Amor: pouco."

(Do conto "Diário conjugal", extraído do livro Meu marido, tradução de Francesca Cavalli, publicado pela Berlendis & Vertecchia Editores.)

Kama Sutra - CCCLII

Ele tem uma fantasia. Sentar-se com ela no último banco de um ônibus noturno e fingirem que não se conhecem. E começarem a avançar as mãos cautelosamente, milímetro a milímetro. E gastarem-se assim, segurando febrilmente a seiva, até que, não aguentando mais, se acabem em espasmos que tentarão esconder um do outro, como dois estranhos envergonhados e recompensados pela súbita luxúria.

Kama Sutra - CCCLI

Depois que passa os dedos nos pelos úmidos e negros do sovaco e do peito dele, ela não se lembra de mais nada. Não o vê deitar-se em cima dela, não sente como ele sobe e desce sobre seu corpo, nem ouve se ele diz alguma coisa. Acorda sonolenta, saciada, mas, quando olha de novo os pelos do homem adormecido, sente outra vez fogo entre as pernas. Estão na cama há algumas horas e por três vezes ela desmaiou sob aqueles braços, assim que a abraçaram. Desliza agora a mão pelo ventre dele, tentando eriçar os cabelinhos. Tem esperança de acordá-lo. Quem sabe.

INSS

Se agora a pesca te parece avara,
Já te ocorreu acaso perguntar
Se esse defeito tem por causa o mar,
Ou se a culpa não é da tua vara?

Um trecho de Violette Leduc

"Com dedos fulvos de outono tínhamos roçado e sobrevoado os nossos ombros, a traço largo atirado luz aos ninhos, ventilado as carícias, com a brisa do mar criado temas, envolvido em zéfiros as nossas pernas, tido rumores de tafetá na palma das mãos. Entrar, que fácil! A nossa carne amava-nos, o nosso odor salpicava. Nosso fermento, nossa bula, nosso pão. Não é escravatura, o vaivém, mas beatitude. Perdia-me no dedo de Isabel, tal como ela se perdia no meu. Que devaneios, nesse consciencioso dedo... Os movimentos que bem se casavam! Houve nuvens a ajudar-nos. Escorríamos luz de alto a baixo."

(De Teresa e Isabel, tradução de Aníbal Fernandes, publicado pela Relógio D'Água Editores, Lisboa.)

Rapidinho

Por mais que o peito nos parta,
Toda dor é passageira.
Passa, quando vem na quarta,
Para a quinta ou sexta-feira.

Kama Sutra - CCCL

Quando ela beija Margot, quando é beijada por Margot, quando lhe arranha as costas e sente nos ombros as exigentes unhas de Margot, sabe que a vertigem, o amolecimento das pernas e a umidade que começa a sentir na ruiva penugem entre as coxas, nada seria assim como é se ela não pudesse dizer, como diz agora, Margot, Margot, Margot. Se Margot se chamasse Clara, ou Lúcia, ela não estremeceria em pé, assim. Ela recolheria as unhas, como um gato de bons princípios, e não as enterraria em Margot, em Margot, em Margot.

Kama Sutra - CCCIL

Se ele tivesse controle, se conseguisse, gostaria que tudo ficasse naquele momento em que, depois de ter a orelha lambida, ela suspira e começa a deslizar a mão para a braguilha, que ele mantém sempre fechada. São cinco botões. Depois que ela os abre, ele a leva para o quarto. Leva-a devagar. O melhor já aconteceu.

Heterônimos

Se a polícia quisesse acompanhar os passos de Fernando Pessoa, precisaria designar pelo menos cem homens para a tarefa.

Classificação

O amor é uma daquelas mentiras antigas que um pesquisador desatento pode catalogar entre as mais insofismáveis verdades.

Soneto da imprecisa memória

O que fomos não importa.
Se houve entre nós uma história,
E se teve brilho e glória,
Hoje é só uma história morta.

Dela o que guarda a memória
É uma rua meio torta
Onde alguém bate a uma porta
Numa tarde merencória.

Por mais que bata e que espere,
Por mais que se desespere,
Ninguém a porta abrirá.

Ou talvez abra e sorria.
Como foi naquele dia?
Deixa. Quem se importará?

Um trecho de Álvaro Mutis

"Há muitas maneiras de contar esta história - como muitas são as maneiras que existem para relatar o episódio menos transcendente da vida de qualquer um de nós. Eu poderia começar narrando aquilo que foi, para mim, o final de um caso, e que, para um outro participante dos fatos, pode ter sido apenas o começo. Não vou nem dizer que a terceira pessoa envolvida naquilo que vou contar seria incapaz de distinguir o começo do fim daquilo que ela própria viveu. Optei, pois, por relatar, obedecendo à cronologia que a sorte me trouxe, a minha própria experiência. Esta talvez não seja a maneira mais interessante de conhecer uma história de amor tão singular. Desde que a ouvi, tive a firme intenção de contá-la a um grande mestre da arte de contar as coisas que acontecem com a gente. Mas como não foi possível lhe contar pessoalmente, rejeitei, de imediato, a ideia de aventurar-me por caminhos, atalhos e meandros que não domino e, neste caso específico, nem seria aconselhável tentar trilhar, e resolvi escrever a história da maneira mais sensível e direta possível. Tomara que a minha falta de habilidade não faça com que se perca o encanto do doloroso e extraordinário fascínio despertado por um amor que, de tão transitório e impossível, guarda semelhanças com algumas lendas inesgotáveis que nos enfeitiçam há séculos, de Príamo e Tisbe a Marcel e Albertine, passando por Tristão e Isolda."

(Da novela A última escala do velho cargueiro, tradução de Luís Carlos Cabral, publicado pela Editora Record.)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Soneto do amor prostituto

Os trinta mil atributos
Que tem o amor são mesquinhos
E só se dão, inteirinhos,
Aos cafajestes e aos putos.

Aos que por eles se matam
Ou têm uma vida insana,
Eles dão uma banana
E os execram e os maltratam.

O amor é uma meretriz
Que só se sente feliz
Em camas de lupanar.

Não lhe falem em sentir,
Não lhe falem em fruir.
O que o amor quer é gozar.

A palavra amor

No curso sobre a influência da escola peripatética na literatura dos viajantes nos primórdios do século XVI, o palestrante mencionou a palavra amor. Instantaneamente, nove dos quinze ouvintes abriram o google. Os outros seis não haviam levado o laptop.

Kama Sutra - CCCXLVIII

Apetece-lhe mordiscar lentamente o bico de um dos seios dela, até que o outro se enrijece e implora também pelo castigo dos dentes e, depois, pelo consolo da língua.

Kama Sutra - CCCXLVII

Quando o dedo médio dela volta de suas incursões pelo próprio corpo, os outros nove o olham com uma inveja letal, que cresce no momento em que ela, como agradecimento pelo prazer, o leva à boca e fecha sobre ele os lábios úmidos.

Kama Sutra - CCCXLVI

Como são excitantes os beijos de uma boca mentirosa. Que prazer, esse de procurar nos lábios o lugar exato por onde passam as vogais e as consoantes que nos fazem de tolos.

Um trecho de Lourenço Diaféria

"Não tenho saudades do passado nem previsões do futuro. Também não sou de opinião de que nada tenha valido a pena ser vivido. Valeu. Mas a vantagem maior daqueles tempos, se é que isso era vantagem, é que todas as pessoas eram mais velhas do que a gente; e uns tinham duas avós, um ou outro, bisavô, uns, tios, tinham pais, padrinhos, cachorro, gato, e mesmo quem não tinha ninguém sempre dava um jeito de ter alguém em algum lugar de sua imaginação. Outros tinham tudo isso, mais a mãe, e tinham trenzinho elétrico. Se bem que trenzinho elétrico não era para qualquer um. No Brás, trem elétrico de verdade só apareceu depois das marias-fumaça."

(Do livro Brás, publicado pela Boitempo Editorial.)

Os mesquinhos

Como são mesquinhos os que dão um passo à frente e confessam sorrindo, como se fosse um crime de que devessem orgulhar-se, que deram a vida pelo amor. E o que se pode dar ao amor senão isso? A vida ainda é pouco, uma moeda vil para tão grande sentimento. Quem anota quanto deu em nome do amor é indigno de recebê-lo.

História

Dizem que o amor está vivo, ainda, e mora recluso numa montanha que a nenhum alpinista apraz explorar. Deve ser uma lenda, porque há registros muito antigos da passagem do amor entre os homens e, a julgar por eles, o amor seria hoje um velho de milhares de anos. São belas as lendas, agradam ao espírito, mas nessa, francamente, é difícil acreditar.

Ali, onde...

... o amor chorava todo dia sua desgraça, não nasceu uma flor. Era cimento, ali, e cimento continua a ser, para que o amor aprenda de uma vez que estamos no século XXI.

Os melhores amores

Os melhores amores são os frustrados. Os outros, os realizados, os consumados, dormem gordos no sofá e roncam no meio de sonhos dourados. Os tristes, os verdadeiros, os angustiados, são enxotados de rua em rua, e de suas feridas nascem, à noite, flores que fazem a lua se aproximar, para apreciar-lhes a beleza e o raro perfume.

Os gritos de amor

Os gritos de amor tentaram sacudir a cidade esta noite, mas não conseguiram mais do que derrubar algumas folhas de árvore nos parques públicos. A cada dia eles se tornam menos confiantes, e longe vai o tempo em que se dispunham a botar o sol abaixo. Estão cansados, os gritos de amor. Eu os vejo agora sentados numa esquina, com o aparvalhado ar de quem calculou mal alguma coisa, de quem falhou num ponto primordial. Eu vejo os gritos de amor ali sentados e sinto por eles a afeição que teria por quatro cachorrinhos que tivessem fugido de casa e se arrependessem da bravata. Eu tenho vontade de pegar os gritos de amor e trazê-los ao colo.

Kama Sutra - CCCXLV

Na primeira vez, ela só permitiu a entrada da língua porque ele, romanticamente, a convenceu de que iria procurar estrelas no céu de sua boca. Astutamente, ele disse não haver encontrado nenhuma, porém a busca continua noite após noite, agora com o incentivo dela, que não se conforma com uma ausência tão deplorável.

Preparação

Escrevo, ainda. Lido amorosamente com as palavras, chamo-as pelo nome, faço-lhes agradinhos. Quem sabe, um dia, ainda me caiba falar de uma coisa bela, de uma dessas belezas irrefutáveis como a lua, e talvez elas me valham então e eu possa ver que todos os meus textos, desde o primeiro, foram só uma preparação, um prelúdio para a descrição dessa que há de ser a mais deslumbrante de todas as belezas.

Passeata

Talvez consigamos reunir pelo menos cinco dos nossos. Será a primeira passeata dos tristes. Não sei o que os outros quatro pensarão. Por mim, a faixa que levaremos será bem óbvia: "Abaixo a alegria!"

O artista

O artista é aquele ser que a todo instante olha para o mundo e vê como ele foi mal feito por Deus. E, com sua autoridade de criador, resmunga: "Só podia dar nisso mesmo. Seis dias só." Para o artista, Deus foi um sujeitinho muito descuidado.

Maniqueísmo

Ser mau não requer nem prática nem habilidade. Já ser bom exige certo jeito e o dom de fingir.

A voz

Jamais quiseram ouvi-lo. Talvez porque sua voz atravessasse uma fileira de espinhos até chegar à língua, que só conhecia palavras tristes.

Realismo

O ninho já estava pronto, e os filhotes alojados, mas, vendo na calçada um fio muito fino e muito claro, a mãe resolveu apanhá-lo para dar à construção um toque de beleza. Era um fio de sol, e instantaneamente o ninho e os filhotes se transformaram numa chama muito bonita, embora breve.

Soneto dos amargos frutos

Chegaram enfim os dias.
Nós, que tristezas plantamos
E com desvelo as regamos,
As vemos hoje sadias.

Quando a semente lançamos,
Tu nem sequer pensarias
Em árvores tão esguias,
Com tão majestosos ramos.

Também eu não. A semente
Vingou bem rapidamente
E hoje, quando fomos ver,

Os tristes frutos estão
Tão perto de nossa mão,
Que só nos resta colher.

"A morte do poeta", de Rilke

"Ali jazia. Sobre o travesseiro erguido
era de rejeição seu pálido semblante,
desde que o mundo, e o que dele conhecera antes
de arrancado dos seus sentidos,
retornou ao ano desinteressante.

Os que o viam viver nem devem ter suposto
o quanto ele era um só com tudo isto, com estes
prados, estas baixadas, estas águas; destes
era feito, eles eram o seu próprio rosto.

Oh o seu rosto tinha toda esta largura
que ainda o quer, que ainda o anda a procurar,
e sua máscara de morte, ansiosa, alvar,
também é tenra e aberta como a carnadura
de uma fruta qualquer que apodrecesse ao ar."

(De Poemas de Rainer Maria Rilke, tradução de José Paulo Paes, publicado pela Companhia das Letras.)

domingo, 22 de setembro de 2013

Amor = ciúme

O amor civilizado é uma ficção. O amor é rancoroso, desconfiado, mesquinho, e seu sinônimo mais aproximado é o ciúme. Um ciúme que corrói as entranhas do presente, e também as do futuro. Um ciúme prospectivo e retrospectivo (tendo, neste último caso, jurisdição até sobre vidas passadas).

Soneto do amor não compartilhado

Eu sei agora que nada
Que eu disse valeu. Errei.
Melhor seria, hoje eu sei,
Ficar de boca fechada.

De maneira apaixonada
O nosso amor celebrei,
E jamais imaginei
Que cantava a coisa errada.

O tempo me esclareceu
Que o nosso amor era meu,
Que nele não tinhas parte,

Que aquilo que me tocava
E escravo teu me tornava
Jamais chegou a tocar-te.

Um trecho de Gabriel Perissé

"O poeta Mário Quintana disse uma verdade: 'Os analfabetos de hoje são os que aprenderam a ler e não leem.' E são mesmo.
   Muitas pessoas afirmam que nada leem, ou que leem 'de vez em quando'. Veem televisão, cinema, teatro, shows, imagens no computador, fotografias na revista, quadros no museu; ouvem música, conversam com os amigos, cantam, dançam, correm, andam de bicicleta. A leitura ocupa os últimos lugares quando relacionam suas atividades culturais e de lazer, e mesmo assim por se tratar da leitura do jornal ou de uma revista.
   Todo mundo sabe, no entanto, que o hábito de ler é meio caminho andado para uma pessoa ser socialmente saudável e, em qualquer área, um profissional competente. Quem não reserva algumas horas semanais para uma leitura variada pensa confusamente, fala mal e escreve pior ainda. Sofre de analfabetismo funcional."

(De "Nossos clássicos pessoais", ensaio extraído de Dois ensaios, publicado pela EDIX - Edições, São Paulo.)

Felizmente,

os domingos, como os outros dias, têm, além da manhã, sua tarde. Minha manhã foi enevoada pelos encostos que tenho na alma, por esses pesos que me fazem pensar em dívidas de vidas passadas. Quem sabe a tarde possa ser menos carregada. Cansada de latir, minha alma talvez se contente com o osso de sempre e, depois de roê-lo, se estire sobre o tapete, durma e sonhe ser um cão bem pequeno e bem livre correndo por um gramado tão extenso que, quando ela chegar ao fim, durma sob uma árvore. Será um bom brinde para a minha alma, nesta tarde: dois sonos - um no tapete, outro no gramado.

Sei como são...

... inconvenientes, e ridículos, estes meus gritos da alma. Devo ser um homem do século 19, deixado misteriosamente para trás pela passagem do tempo. Quando me ponho aqui e começo a escrever, esta pieguice toda vai amontoando palavras com uma rapidez que não consigo acompanhar no teclado. Tudo jorra como se estivesse escapando da gaveta de um mau poeta romântico e vindo diretamente para os meus dedos. Não escrevo; transcrevo. E, no entanto, sinto que sou eu quem escreve. Sou eu quem sente isso tudo. Seria covarde lançar nos ombros de um defunto estas coisas que me acometem, estes espinhos que me ferem e me fazem berrar aqui, como um menino afastado da mãe. Sou eu, este, sim, embora eu me pareça cada dia tão mais insano que a tentação de usar o recurso da terceira pessoa se torna quase uma imposição. Quando sou possuído por estes delírios, sinto-me eu. Talvez os delírios tenham algo de artificial. Este artificialismo, então, serei eu, também. Nestes momentos, sinto que minha contribuição, se houver alguma, será menos para a literatura que para a psicanálise. Se bem que, por mais que me exponha e exiba despudoradamente minha alma, nenhum alívio me advenha disso. Sinto-me sempre pior, como agora.

Pobre alma,

tão mal servida pelo corpo. Pobre alma, passarinho pousado numa árvore velha de galhos podres. Pobre alma, dependente de palavras que jamais conseguiram expressá-la. Pobre alma, brinco jogado por engano no lixo, convivendo com restos de comida podre do restaurante chinês, com o esqueleto de um gato envenenado e com os paninhos higiênicos jogados pelas mulheres do puteiro do número 27. Pobre alma, quem te pôs neste corpo, quando devia haver tantos outros? Pobre alma, como eu gostaria de segurar-te na palma da mão, levar-te a um monte alto, bem alto, até onde minhas pernas conseguissem subir, e soltar-te. E de ter a sobriedade que sempre me faltou e, sem ornamentos de literatura, dizer apenas, baixo, bem baixo: "Vai." E ver-te subindo, leve, leve, leve, leve.

Cotação do dia

Um sentimento que pode ser resumido por várias palavras. Nojo, asco, engulho, vômito. Um sofrimento que pode se expressar em várias frases. O mundo é podre, a vida é idiota, a única verdade é a mentira, a morte é a única esperança. Um constrangimento, este de dizer isto num domingo, e de mais uma vez me mostrar fraco, servil, ignóbil, pusilânime. Que diabo acontece afinal com os poloneses, que praga ancestral carregam, que maldição me foi passada pelos meus pais? Vergonha, humilhação, e esta vontade de cuspir no espelho. Se fizer isso, meu espírito dramático verá no cuspe uma lágrima. Sou uma presa fácil, a vida sabe disso há muito tempo, as pessoas também. Um beliscão e eu começo a dar meu espetáculo. Que engraçado deve ser este tonto achando que é personagem de Shakespeare e tirando de dentro da alma tantos "ós" e "ohs". Bufão, palhaço, farsante. Escória, resíduo, lixo. Estrume, esterco, bosta. Merda.

Primeiro item da lista de senões

Tinha uma bunda, isso tinha.
Mas não aquela que exige a
Beleza. Murcha, caidinha,
Nem um pouco calipígia.

Sermos vis,

perversos e rancorosos acaba por nos incomodar. Até aquele inevitável dia em que encontramos alguém mais vil, mais perverso e mais rancoroso. É então que nos perguntamos se não devíamos ter sido um pouco mais vis, perversos e rancorosos. Há quem faça nossa vileza, nossa perversidade e nosso rancor parecerem de uma ingenuidade semelhante à do garoto de dez anos que, com as pernas tremendo, picha no muro a palavra merda.

Resumo

Foi assim, desde a primeira vez. Andávamos sob o sol e de repente, no meio de uma frase, de um sorriso, me matavas. Eu assumia meu papel e ficava mortinho. Então, para testares um de teus tantos poderes, me ressuscitavas. E eu cantava, e no meu canto de Lázaro agradecido te celebrava. Trazia do Reino dos Mortos meia dúzia de flores que só ali crescem, no Jardim das Almas. Tu as olhavas com desdém. Me aturavas mais um tantinho, me levavas para passear e esperavas o instante mais glorioso do sol para me matares de novo. Agora com mais prática, eu morria mais convincentemente, para te agradar. E outra vez, quando não tinhas outro brinquedo na internet, ias até a beirada do Reino dos Mortos e me chamavas. Dizias: "Você está sujinho, hem?" E eu louvava teu bom humor. Morri várias vezes, tantas que já a brincadeira deve estar perdendo a graça. Se um dia vieres resgatar-me novamente, que possas perdoar-me se eu não for um morto inteiramente do teu agrado.

Os que morreram

Alguns morreram de ódio
alguns morreram de tédio

Alguns para morrer
desceram do pódio
alguns para morrer
saltaram do prédio

Talvez todos
talvez nenhum
mereçam ao menos
três linhas de um epicédio.

Soneto da celebração


Celebremos o amor ainda,
Enquanto ele vivo está.
Se tudo na vida finda,
O amor também findará.

Ventura perene, infinda,
Não há, nem nunca haverá.
Esta imagem de hoje, linda,
Amanhã como estará?

Cantemos o amor presente
Porque inelutavelmente,
Como sempre, em toda história,

Como bem sabe quem ama,
O fogo de agora e a chama
Cinzas serão na memória.

Narciso

Quando no espelho se olhava
E o seu belo rosto via,
Cada vez mais justa achava
A sua calomania.

Modo de ser

Uma de nossas maiores ridicularias é o medo que temos de ser ridículos. Pode vir a ser mais ridículo, algum dia, quem já nasce entre urina e fezes?

Em massa

Os amigos já lhe disseram que uma produção tão volumosa quanto a dele não pode ser um primor. O apelido dele é Pastifício.

Diagnóstico

Moléstia à parte, estava muito bem de saúde.

Lição

Sempre se acaba por aprender que o mais difícil é escrever fácil.

Dúvida

Tínhamos dentes naquele tempo ou era mais macia a carne do Amor?

Um parágrafo de Virginia Woolf

"Pois embora afirmemos nada saber sobre o estado de espírito de Shakespeare, no momento mesmo em que o afirmamos estamos dizendo algo sobre o estado de espírito de Shakespeare. A razão, talvez, por que saibamos tão pouco sobre Shakespeare - em comparação com Donne ou Ben Jonson ou Milton - é que seus ressentimentos e rancores e antipatias nos são ocultados. Não somos interrompidos por alguma "revelação" que nos faça lembrar do escritor. Todo o desejo de protestar, de pregar, de proclamar alguma injúria, de desforrar-se de algo, de fazer o mundo testemunhar algum revés ou injustiça foi descarregado dele e eliminado. Assim, a poesia flui dele livre e desimpedida. Se algum dia um ser humano expressou completamente seu trabalho, esse ser foi Shakespeare. Se algum dia uma mente se mostrou brilhante e livre, pensei eu, voltando-me novamente para a estante, essa mente foi Shakespeare."

(De Um teto todo seu, tradução de Vera Ribeiro, publicado pela Editora Nova Fronteira.)

sábado, 21 de setembro de 2013

Baião

Impérios ruíam enquanto jovens herdeiras esqueciam sua educação musical vienense e corriam atrás de sanfoneiros.

Olha-te a ti mesmo

Ligo a tevê e vejo o quê? Bodes velhos que comeram cabritinhas (hoje cabras velhas também). Estão rodeados por novas cabritinhas ansiosas para ser devoradas na suíte, em troca de uma foto autografada. Começo a me indignar, e sinto que no fundo gostaria de ser o bode velho manejando a guitarra ou a sanfona e esperando o show terminar para que um agente meu leve uma cabritinha deslumbrada para a meia-luz do apartamento e eu a faça gritar, berrar, balir, seja lá o que for que façam essas cabritas quando o cio rói suas entranhas. Não sou melhor que ele. Somos ambos podres e tanto ele quanto eu deveríamos, ao pronunciar a palavra amor, ver cair todos os nossos dentes.

Não sejamos modestos

Tudo isso que no mundo fede, tudo isso que corre para o esgoto, toda essa podridão é um pouquinho nossa, como não? Nós reconhecemos a nossa contribuição quando passamos pelas Marginais. Nossa mania de nos escusarmos e de bancarmos os finos pode até fazer com que finjamos não sentir nada, mas nosso nariz nos acusa toda vez que a brisa morna sopra sobre nosso rosto, embora nos mantenhamos empertigados, como sempre fazemos quando vamos a algum tribunal.

Há momentos

Há momentos nos quais o mundo revira tanto o nosso estômago que gostaríamos de vomitá-lo inteiro, com todas as suas cidades e seus asquerosos habitantes. Vomitar Paris, Nova York, Madri, vê-las sair inteiras de nossa garganta, com seus desprezíveis seres, seus falsos artistas, suas latrinas fedorentas onde matinalmente as gorduchas musas dos pretensiosos poetas lançam descargas que fariam recuar as tropas de Napoleão e derrubariam Deus das nuvens, se Ele lá estivesse.

O rapaz

O rapaz olha para baixo. Dezenove andares. Quando comprou o apartamento, seu otimismo poético o fez dizer aos amigos que, com um pouco de sorte e habilidade, poderia talvez uma noite capturar uma estrela descuidada. Agora é noite, e ele nem olha para o céu. Olha para baixo. Aprendeu a olhar para baixo. Olhar para baixo é  sua sina. Continua jovem, é o que diz seu RG, embora no rosto haja rugas que na foto não havia. Os seus ideais todos morreram ou morrerão, como os habitantes de uma pequena cidade atingida pela peste. As suas esperanças fedem como o lugar na feira onde ficou a barraca de peixe. Olha para baixo e sente que é a hora. Não se matará, porém, e daqui a dez anos, olhando novamente para baixo, se arrependerá de não ter seguido o impulso. Já não será tão jovem e talvez, como agora, algo o impeça de se atirar ao generoso coração da treva. Alguns têm mais de uma chance, antes de se tornarem os velhotes pelos quais esperam as camas forradas de plástico dos asilos e a impaciente paciência das enfermeiras.

Enchente

Então o rio subiu.
Tentou ser peixe o bezerro,
Porém cometeu um erro
E a água logo o engoliu.

Nossos mortos (para o Billy e a Ju)

Os nossos mortos nos amam
E, mesmo não tendo voz,
Com seu silêncio nos chamam
E esperam todos por nós.

Promoção

Amores tristes, sujeitos
Pela má fabricação
A exibir os seus defeitos
Entre as pilhas do saldão.

"Quadrilha", de Carlos Drummond de Andrade

"João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história."

(De Obra completa, Companhia Aguilar Editora.)

Agenda

Fomos tratar de nossas coisas, de comprar nossos açúcares e farinhas, de passar um traço nos itens de nossa lista. Como o sol matinal escorria gentil sobre nossos ombros, nós nos detivemos um pouco mais na rua. A agradável brisa nos contou histórias amenas. E, porque estava delicioso andar, andamos. E estendemos esse andar pela tarde, sob o sol que agora, perdida a timidez, nos beijava o corpo inteiro, enquanto a brisa, também mais confiante, nos contava histórias de namorados e de como se comportavam suas mãos no parque. Quando voltamos, era quase noite. Chamamos o nosso gato, chamamos, e, depois de procurá-lo por todos os cantos, vimos que ele havia se cansado de nos esperar e fugira. Assim aconteceu também com o amor, num dia remoto em que o sol perverso e a brisa manhosa nos entretiveram. O gato talvez volte. O amor nunca voltou.

O momento

Está chegando o momento em que não nos será pedido nada mais que fechar os olhos e mantê-los assim.

Poeta

Não sou poeta, mas talvez pudesse. Levo certo jeito.

Vade retro

Um bom modo de afastar pessoas é ter erudição e querer exibi-la a todo instante.

Kama Sutra - CCCXLIV

Uma noite, já no décimo ou vigésimo encontro, quando os corpos satisfeitos já começavam a se desentrelaçar, ela suspirou: ai, meu Deus, que gostoso que é isso. A frase acendeu nele, e nela, um vigor tão ensandecido que hoje, nos encontros, os corpos se dão inicialmente com parcimônia, para que, depois de atingido o gozo e repetido o mantra (ai, meu Deus, que gostoso que é isso), a cama volte a vibrar - e desta vez como se sobre ela vinte marinheiros privados por dois meses dos gozos do sexo se atirassem sobre vinte jovens e fogosas nativas.

Soneto do amor assim-assim

Sei que o amor é desigual
E que se a mil se apresenta
Também ser mil aparenta
E jamais será tal qual.

Para alguns parece um sal,
Para outros, pura pimenta
E tanto o bem representa
Quanto representa o mal.

Vocês não sei. Quanto a mim,
O amor foi assim-assim.
Como se diz, deu pro gasto.

Podia ser bem melhor
E podia ser bem pior.
Não foi nem bom nem nefasto.

As formigas

As formigas
não olham para o céu

Ocupam-se com seu trabalho
e se alguma
ouviu falar de Deus
não contou às outras

As formigas não têm tempo
para filosofar

As cigarras sim
já ouviram falar
e às vezes
tentam até contato
geralmente no inverno
quando a comida é pouca
e viver não é cantar.

Preservando o estilo

Conheci escritores que, temendo ser influenciados, não liam nada. Receavam tornar-se Shakespeares.

O que basta

Enquanto os olhos te virem
E nos teus olhos pousarem,
Que importa que os astros girem,
Que importa que os astros parem.

Eleições

Mudam os carvalhos, os jacus continuam os mesmos.

Sinfonia

Enquanto meus olhos te veem
e para ti menina
meu coração compõe uma sinfonia
as outras partes do corpo
menos nobres
fabricam em ordenada algaravia
um pagode

Dizer aqui que notas tocam
não ficaria bem
e nem conviria.

Garota

Ela talvez não entendesse, mas magnífica seria a palavra que lhe caberia. Ou magistral.

Finesse

Como eram chiques os crimes e os criminosos de Agatha Christie. Tudo refinado. Nada de facas. Adagas de prata. Assassinos de cavanhaque e monóculo.

Um trecho de Saul Bellow

"Se estou louco, tudo bem, pensou Moisés Herzog.
   Algumas pessoas acreditavam que estivesse maluco e por algum tempo ele mesmo duvidara que estivesse são. Mas agora, embora ainda agisse estranhamente, sentia-se confiante, alegre, lúcido e forte. Entrara numa fase mágica e estava escrevendo cartas para todas as pessoas do mundo. Andava tão excitado com aquelas cartas que, a partir do fim de junho, ia de um lugar para outro com uma pasta cheia de papéis. Tinha levado a pasta de New York para Martha's Vineyard, mas voltara de Vineyard imediatamente; dois dias mais tarde voara para Chicago e daí para uma vila no oeste de Mssachusetts. Escondido no campo, escrevia sem parar, fanaticamente, para jornais, personalidades da vida pública, amigos, parentes, para os mortos, seus próprios mortos obscuros; e, finalmente, para os mortos famosos."

(Do romance Herzog, tradução de Sílvia Rangel, publicado pela Edições Símbolo.)

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Biquinho

Ela se faz de rogada.
E o que era dia já é noite,
E o que foi ontem e anteontem
Já é semana passada.

Estoque

Meus dias são todos esses,
De luz velada e agonia.
Outros não tenho, só desses,
E alguns de melancolia.

Kama Sutra - CCCXLIII

Só se deita sobre ela com a luz acesa. É um rito que aprendeu na primeira vez. Com o quarto às escuras, o fulgor verde dos olhos dela o enfeitiçara de tal forma que cada movimento feito por ele para se cravar dentro dela lhe parecia uma transgressão, um pecado, a profanação de um objeto sagrado e vingativo.

Um trecho de Vladimir Nabokov

"E como eu estava solitário! Matilda, que perguntava timidamente se eu escrevia poesia; Matilda, que na escada ou na porta astutamente me incitava a beijá-la, só pela oportunidade de um falso tremor e um apaixonado sussurro: 'Que menino louco...' Matilda, claro, não contava. E quem mais eu conhecia em Berlim? A secretária de uma organização de assistência a émigrés; a família que me empregava como tutor; o sr. Weinstock, proprietário da livraria russa; a velhinha alemã de quem eu antes alugara um quarto - uma parca lista. De modo que todo o meu ser indefeso convidava à calamidade. Uma noite, o convite foi aceito."

(Da novela O olho, tradução de José Rubens Siqueira, publicado pela Alfaguara.)

O Registro dos Amores

Um pesquisador quis consultar o Registro dos Amores. Teve dificuldade para encontrá-lo. Localizou-o, afinal, depois de buscá-lo em universidades e bibliotecas de todo o mundo, em todas recebido com um sorriso de estranheza: amores? Estava num vilarejo de nome dúbio, numa fronteira entre dois países que também haviam mudado de nome dezenas de vezes séculos adentro. Era um livro solene ainda, apesar dos castigos impostos pelo tempo e pelas traças. Estava numa loja bizarra, que exibia toda sorte de velharias. O dono (ou encarregado) tinha uma barba vasta, que bem poderia varrer o chão, imundo. Ele estranhou o interesse do pesquisador e disse que o último interessado em ver o livro estivera ali cem anos antes. O pesquisador não quis contestar a informação, porque o velho tinha traços de insanidade mais do que visíveis. Pediu para ver o livro. O ancião lhe disse que lhe permitiria fazer só uma consulta. O livro não estava à venda. Era, por sinal, o único objeto na loja nessas condições. Criara afeição a ele porque à noite (disse isso como se contasse um fato trivial) do livro saía uma canção muito triste e muito terna que devia, segundo ele, ser a mais linda do mundo. Pegou o livro com dificuldade e foi à última página, mostrando-a ao pesquisador. Contou que o outro pesquisador quisera vê-la antes das demais. "É o último registro que consta, naturalmente." O pesquisador olhou os nomes, que de repente receberam um brilho de sol infiltrado misteriosamente: Dante e Beatriz.

O amor é uma imagem

O amor é uma imagem. Diante do amor, e geralmente só diante dele, cabe-nos o privilégio de ter olhos de pintor, do melhor de todos, seja lá quem tiver sido ou quem vier a ser. Vemos o amor com os olhos de dentro, talvez os do coração, e por isso o amor é, de todas, sempre a mais bela imagem. Se ela se turva, se ela se borra, se nela entram traços raivosos, se nuvens começam a rondá-la, já estaremos entrando no território daquele amor das revistas. Mais um passo e estaremos respondendo a questionários sobre ciúme e maneiras de despertá-lo, sobre como devolver sofrimentos recebidos e por aí afora. O amor é uma imagem, um lago. E, se não é assim, assim deveria ser.

Acordamos

Acordamos já com espírito de competidores. Cada dia é uma batalha e, se algum vencedor sair dela, seremos nós. Por acaso viemos ao mundo para sermos passados para trás? Ah, a nossa autoimagem! Ninguém fará pouco dela. Antes que nos metam um pé nos fundilhos, que sejamos nós a fazer isso. Somos espadachins, esgrimimos todos os dias com ferocidade. Ai de quem mexer conosco. Com que satisfação dizemos que ela (ou ele) está comendo em nossa mão. Conosco é assim. Se algum ritmo tiver a dança, será imposto por nós. O amor é uma entrega? Aqui, ó! Conosco, não. O amor é um jogo que inventamos, norma por norma, lance por lance. E o pulo do gato será sempre nosso. O mundo há de saber que ninguém brinca com João Pereira da Silva nem com Alda Justina das Neves.

Um exercício

Um bom exercício diário é olharmos para as nossas mãos para ver se ainda há nelas indícios do ouro que elas quiseram possuir. Se houver, livremo-nos deles, todos. O instinto da posse nos desgraçou e o que era imagem nós tentamos transformar em matéria. E aumentamos o tamanho de nossos bolsos, e nosso estômago se alvoroçou, e nossas entranhas se prepararam para um festim. Olhemos para nossas mãos e digamos: vocês erraram, eu errei. No banquete do amor, se algo for servido, hão de ser estrelas, nuvens brancas e uma pequena fatia da lua.

Um defeito

Um defeito que temos (eu pelo menos) é o de querermos emprestar tons épicos a tudo que nos ocorre. Sendo autores e personagens de nossa história, damos um jeito de encontrar, a todo instante, moinhos de vento em nosso caminho. O amor, por exemplo, nós o fazemos rugir como um leão faminto ou um rio caudaloso. E, quando ele termina, nós o choramos como se chorássemos uma princesinha morta. O amor é um riozinho, um arroio e, se escapou de nossas vistas, é melhor imaginá-lo fluindo agora em uma paisagem amena, cercado de árvores nas duas margens, tocado pelo sol e por uma brisa reverente.

As certezas cotidianas

Deveriam bastar-nos as certezas cotidianas. Como esta, de hoje ser sexta-feira, o que nos leva à suposição de que amanhã será sábado, e assim por diante. Querermos saber tudo sobre o passado e nos anteciparmos ao futuro é a nossa doença. Colocamos sobre nós uma responsabilidade e um fardo que, se tivessem sido postos nos ombros de Deus, nada disso que conhecemos teria sido criado. Cantar um pássaro aqui e responder outro ali adiante deveria ser o suficiente para nós. Tudo mais é irrelevante, se dois pássaros se comunicam numa manhã que, como todo o resto, nos é dada de graça.

Metáforas

Se metáforas tivessem uma tabela de preços, os cisnes, as flores e as estrelas estariam ricos.

Soneto dos dedos dóceis

Hão de ser dóceis meus dedos
No dia em que finalmente,
Tendo vencido seus medos,
Tocarem tua carne ardente.

Te tocarão suavemente,
Respeitando teus segredos,
Tão doce e amorosamente
Como um menino os brinquedos.

Depois de tanto aguardar,
Eles saberão gozar
A ocasião enfim propícia.

Pois, quanto mais aguardada
E com mais febre esperada,
Mais doce é qualquer carícia.

Falha

Continuar a respirar é uma dessas coisas que põem em dúvida a autenticidade do nosso niilismo.

A noite do Amor no cassino

Os dados foram lançados
E as cartas foram já postas.
Quem fará novas apostas?
Quem há de se opor aos fados?

Os dados estão viciados
E as cartas já predispostas
A ditar sortes opostas
Às dos anseios rogados.

Por mais que insista e que jogue,
Por mais que se empenhe e rogue,
O Amor jamais vencerá.

Tudo está já decidido
E no fim, triste e falido,
O Amor se envenenará.

Últimas palavras

Alguns, poucos, morreram sem um ai. Os outros, porém, gritavam vivas ao Amor e apaixonadamente o louvavam antes de ser trespassados pela espada. Quem manejava a espada era o Amor.

Pretexto

Por que não escrever? Bolas!
Escrever é uma loucura
Tão saudável e tão pura
Quanto outras caraminholas.

O recado do sol

O sol entrou no quarto. Ela dormia, ainda, e ele deixou nos seus cabelos ruivos um fiozinho dourado, um aviso de que viera vê-la. Depois, foi para o parque, onde as crianças o esperavam.

Um parágrafo de Alice Munro

"Ela estava aprendendo, bastante tarde, o que muitas pessoas ao seu redor sabiam desde a infância - que a vida podia ser perfeitamente satisfatória sem grandes realizações. Podia ser transbordante de ocupações que não a exauriam até os ossos. Adquirindo o que precisava para uma vida confortavelmente plena, e então engajando-se numa vida social e pública cheia de entretenimento, evitaria que se entediasse ou ficasse ociosa, e ao final do dia se sentiria como se tivesse feito exatamente tudo o que agradava a todos. A agonia era desnecessária."

(De Felicidade demais, tradução de Alexandre Barbosa de Souza, publicado pela Companhia das Letras.)

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Cotação do dia

Viver é uma dessas coisas enfadonhas que precisamos suportar para sermos menininhos bem-comportados e merecermos uma morte bonita no final. Tudo é uma peça. Pena que certas peças tenham cinco atos.

Soneto do amor algoz

Nunca esquecerei a voz
Com que tu me censuravas
Sempre que me castigavas,
Meu amor, meu terno algoz.

Antes, e durante, e após,
Quando tu me chicoteavas
E o corpo tu me lanhavas,
Ela foi o elo entre nós.

Os ombros não me doíam,
As costas não me afligiam,
Nem o pescoço também.

Dores eram alegrias
Quando raivosa dizias
Que era só para o meu bem.

Cautela

Não faças nada por mim.
Eu não mereço, estás certa.
Depois de uma porta aberta,
Abrem-se todas, no fim.

Xadrez

O nosso amor malogrado
Foi para nós um xadrez.
Após cada lance dado
Um sorriso: é sua vez.

Seis versos de John Donne

"Tuas graças e boas palavras são criaturas minhas;
Do conhecimento e da vida, as árvores plantei em ti.
E delas, oh, irão estranhos provar? Deverei, então,
Cinzelar e esmaltar prata para em vidro beber?
Amolecer a cera para os selos alheios? Domar um potro
E abandoná-lo depois, tornado um cavalo rodado?"

(De Elegias amorosas, tradução de Helena Barbas, publicado pela Assírio & Alvim, Lisboa.)

A chuva

A chuva derrubou esta noite, num quintal vizinho, um passarinho que pia seus últimos pios. Não será ouvido em nenhuma sessão, nem ordinária nem extraordinária. Quem o ouve, em vão, são as ameixeiras, as pitangueiras, os ipês, e os cachorros - que latem seus fortes latidos produzidos pelas rações transgênicas. Infelizmente, não há por aqui ninguém que possa me traduzir a linguagem dos cães, e não sei o que eles deliberaram sobre o passarinho. De qualquer forma, ele morrerá logo e poderemos voltar a pensar sobre os graves problemas da cidadania. O homem é um ser político.

Agora que a República...

... está perdida, segundo alguns, e está salva, segundo outros, talvez se possa prestar atenção a quem sofre nos hospitais, nas escolas, em casa. Depois do alarido, talvez se possa ouvir o choro do bebê que a mãe atirou ao lixo como se fosse um modess. Talvez se possa parar para dar uns reais ao aposentado, para completar o preço do remédio, ou para que ele beba um conhaque e se esqueça da vida por meia hora. Talvez em alguma gravadora resolvam ouvir afinal a fita do rapaz pálido. Agora que a República está perdida, ou salva, talvez descubramos, depois de tanto esbravejar e cuspir lemas, que em uma República, qualquer que seja, existem pessoas que estão mais afeitas a palavras simples e que jamais entenderão, nesse palavrório todo, se estão perdidas ou salvas. Elas já tomaram o trem agora, com sua marmita, e estarão trabalhando quando tomarmos nosso primeiro gole de café.

Manifesto em prol da tristeza

Nós somos tristes. Que bom.
Não temos a hipocrisia
De simular alegria
Porque rir é de bom-tom.

Digamos, com alto e bom som,
Que a nossa melancolia
É o pão nosso, dia a dia,
E sem jactância, mas com

Orgulho nos proclamemos
Tristes e nos comportemos
Como os tristes devem ser.

Churrascos? Não aceitar.
Teatro? Nem perto passar.
Festas? Não comparecer.

O lado espiritual

Teu misticismo não resiste à passagem de uma bunda.

Para o pó

Para o pó que dizem sermos, até que somos bem metidos e saidinhos. Pó de nariz empinado.

Cadeira elétrica

Quando vierem me consultar sobre minha última refeição, não pedirei nada além de uma boa sopa de joio.

Destarte

Talvez tu não tenhas arte.
Talvez tu tenhas, porém.
Das duas, escolhe a parte
Que mais te apraz e convém.

Consulta

Isto já ficou tão chato...
Amiga, que tal parar?
Se alguém iremos culpar,
Ora, que o Amor pague o pato.

Poema de Fernando Pessoa

"Sol nulo dos dias vãos,
Cheios de lida e de calma,
Aquece ao menos as mãos
A quem não entras na alma?

Que ao menos a mão roçando
A mão que por ela passe,
Com extremo calor brando
O frio da alma disfarce!

Senhor, já que a dor é nossa
E a fraqueza que ela tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguém!"

(De Antologia poética, organizada por Cleonice Berardinelli, publicada pela Casa da Palavra.)

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Sobre a grandeza

Alguns de nós morrem cedo, sem tempo de encenar sua grandeza. Mas, pelo apreço que sempre cabe aos mortos, são declarados grandes pelos vivos, que de grandeza entendem muito, a julgar pelo modo como se consideram a si mesmos.

Soneto da folha

Será este o novo alento
Pelo qual tanto rogávamos,
Chegando já num momento
Em que não mais o esperávamos?

Que grande e tardio evento.
Nós mortos já nos julgávamos
E vem agora este vento
Dizer que nos enganávamos.

É possível mesmo ser de
Nós este viçoso verde?
Somos nós, mesmo, esta folha

Que o sol escolhe e ilumina
Com sua luz cristalina?
Somos nós a sua escolha?

Um poema de Emily Dickinson

"Eis os dias em que voltam os pássaros -
Muito poucos - um pássaro ou dois,
Para um último olhar.

Eis os dias em que os céus refazem
Os velhos sofismas de junho -
Um equívoco azul-dourado.

Ó fraude que não engana a abelha -
Tua plausibilidade por pouco
Não me convence.

A semeadura, porém, dá seu testemunho -
E suave, pelo ar alterado,
Apressa-se uma folha xucra.

Ó sacramento dos dias estivais,
Ó última ceia entre névoas -
Deixai que uma criança comungue

E partilhe vossos signos sacros -
Que tome do vosso consagrado pão
E do vosso vinho imortal!"

(De Poemas escolhidos, tradução de Ivo Bender, publicado pela L&PM.)

Frase do dia

Summum jus, summa injuria.

Cotação do dia

Uma folha movida pela brisa ora para lá, ora para cá. Nenhuma chance de vento forte. O apanhador de lixo também sempre me ignora.

Quarta-feira, 18

Dia melodramático, sujeito a charges e caricaturas. Personagens densos, intensos, dignos da palavra História? Talvez em Shakespeare. A coisa cheira mais a Molière. Se formos nacionalistas, Mazarópi.

As melhores pessoas da terra

Conheci pessoas desvairadas, possuídas pelos mais diversos tipos de insanidade. Foram elas, e os atormentados personagens da literatura, especialmente os de Dostoiévski, que me ensinaram a intensidade da vida. Sem esses atormentados, nossa passagem pela terra pareceria uma estação de férias, um piquenique com toalhas estendidas na grama e as cestas de vime forradas de sanduíches.

Tua única chance

Não te importes com as queixas da alma. Por mais que ela gema, sempre poderá gemer mais. Não lhe permitas descanso. Se pretendes ser artista, tua única chance de fazer algo decente é essa: fustigando tua alma.

Da sabedoria dos velhos

Que podem os jovens esperar dos velhos, que sabedoria, se com os dentes podres que lhes restam eles só pensam continuar provando a tenra carne do Amor?

Kama Sutra - CCCXLII

Beijou-lhe os cabelos, provou-os disfarçadamente e, não encontrando neles gosto de ouro, logo imaginou que este devia estar todo guardado mais abaixo, naquela área úmida à qual ela, zelosa do seu tesouro, ainda não havia permitido a visita nem dos seus dedos nem de sua boca.

Uma frase de Rilke

"Quem fala em vitórias? Suportar é tudo."

Alter ego

A imagem que tenho de mim é a de um menino órfão numa estaçãozinha da qual sai um trem de manhã e à qual chega outro, à noite. Ele acena para os passageiros que partem e sorri para os que chegam. Seu apelido é Bocó.

Deus e o Diabo na Terra do Sol

Se numa das dez vezes em que comecei a ver Deus e o Diabo na Terra do Sol eu tivesse passado dos vinte minutos, é possível que me entusiasmasse com o filme. A designação Cinema Arte sempre deixa desconfiados os espectadores. Geralmente a desconfiança tem fundamento: significa que o público deve estar munido de especial paciência. Os vanguardistas pagam o preço de sua ousadia. Serão entendidos pelos artistas, que aproveitarão suas contribuições. O público é dado sempre a não apreciar o novo, quando lhe parece abusivo. Somos preguiçosos. Gostamos de ter tudo assentado, na vida, e mudar qualquer coisa nos aborrece.

Soneto dos erros não castigados

Depois dos erros tão crassos
Que ontem nós dois cometemos,
Mesmo assim hoje nos temos
Outra vez em nossos braços.

Se erramos todos os passos
E os rumos todos perdemos,
Não sei como merecemos
A bênção destes abraços.

Depois de tanto descaso,
Este milagre ou acaso
Seja por nós entendido

Para que erro nenhum mais,
Dos grandes ou dos banais,
Seja por nós repetido.