quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Frugalidade

Humilde como tantas
minha alma
pediu pão só
e água

Negaram-lhe água
e por um princípio
de equidade
e de proporção
recusaram-lhe
também o pão.

Soneto das cores

Já fomos verdes. Nossa verdidão
Com tamanho verdor reverdecia
Que às vezes já nem real nos parecia,
Mas mero fruto da imaginação.

Já fomos de ouro. E nossa cor então
Tão forte e tão esplêndida luzia
Que eu exagero não cometeria
Se a equiparasse às chamas de um vulcão.

Já fomos vivos, já tivemos flores,
Fomos casa de ariscos beija-flores,
Coisas de que a memória já se esquece.

É cinza-escuro a cor que agora temos,
Já não brilhamos mais, anoitecemos,
Enquanto a podridão amadurece.

Kama Sutra - CDXVIII

Como um passarinho bem filhote, obediente às advertências da mãe e cauteloso nas primeiras bicadas, seu dedo não pesa sobre os finos pelos. Fica ali. Se tivesse pulmões, não respiraria. Ele espera. Mais um pouco. Começa a pesar agora sobre os fios sedosos, como se fosse outro fio sedoso. Pousa de leve, bem de leve, sobre o ponto que a penugem protege. Apenas quando sente na ponta a umidade morna ele entra devagar, quase não entrando, como se fosse um pássaro experiente. Mas, se tivesse pulmões, cantaria agora, e esvoaçaria temerariamente, como se fosse um filhote.

"Soneto da buquinagem", de Carlos Drummond de Andrade

"Buquinemos, amiga, neste sebo.
A vela, ao se apagar, é sebo apenas,
e quero a meia-luz. Amo as serenas
angras do mar dos livros, onde bebo

- álcool mais absoluto - alheias penas
consoladas na estrofe, e calmo, e gebo,
tiro da baixa estante sete avenas
em sete obras que pago e que recebo.

Amiga, buquinemos, pois é morta
Inês de antigos sonhos, e conforta
no tempo de papel tramar de novo

nosso papel, velino, e nosso povo
é Lucrécio, e Villon, velhos autores,
aos novos poetas muito superiores."

(De Obra completa, publicado pela Companhia Aguilar Editora.)

Dúvida (para o Xico Sá)

Matemático
não sabe como
fazer um ménage à trois
em quatro.

Circunspecto

Para quem lhe tem afeto
e para quem
lhe é desafeto
vale o mesmo veredicto

No Brasil
é um fato
em Portugal é um facto
que o poeta
João Cabral de Melo Neto
é um cacto.

O pássaro

Não conseguindo mais cantar, o pássaro definhou. Na derradeira manhã, tentou novamente. Nada. Tentou outra vez, com mais ímpeto. Nada. Na terceira tentativa, o coração não suportou. Caído na terra, o pássaro surdo não ouviu a mulher dizer ao menino: "Ele estava cantando tão bem."

Lacuna

É preciso ouvir a opinião de Tiririca sobre as biografias.

Soneto do que menosprezamos

Tudo nos deram. Tivemos
Acesso à senha do amor
Mas dela nos desfizemos
Como se fosse um tumor.

Provar os frutos pudemos
De sumo suco e frescor
Porém ao luxo nos demos
De lhes recusar valor.

Pelo amor fomos eleitos
Mas lhe impusemos defeitos
E desdenhamos a escolha.

A nós gentil se ofertou
Mas o desdém o matou
Fruto a fruto, folha a folha.

O poetastro

O poetastro
é uma figurinha

Se escreve navio
logo lhe vem
uma rima facinha
que lhe convém

E ele escreve rio
e o rumo do norte pega
e em redondilhas navega
contornando ilhas
e retraçando tordesilhas.

"Por volta do sétimo mês", de Sei Shônagon

"Por volta do sétimo mês, em dias em que o vento sopra impetuoso e a chuva se torna ruidosa, o ar em geral fica mais frio a ponto de esquecermos também o leque, e é deleitoso tirar uma sesta, bem agasalhada numa veste levemente acolchoada, que ainda conserva um suave odor de suor."

(De O livro do travesseiro, tradução de Geny Wakisaka, Junko Ota, Lica Hashimoto, Luiza Nana Yoshida e Madalena Hashimoto Cordaro, publicado pela Editora 34.)

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Soneto do homem romântico

Tu me chamas de romântico,
Aceito a definição.
Eu tudo transformo em cântico,
Ou em poema, ou em canção.

De sonhador tu me chamas,
De poeta, de condoreiro,
E quando assim me proclamas
Tu me defines inteiro.

Bom, leste o que eu escrevi
Sobre alguém que conheci,
De face e coxas formosas.

Dos seios leite fluía,
Dos lábios pura poesia,
Da bunda saíam rosas.

Soneto da imolação

Talvez me imole por ti,
Talvez por ti me extermine
Com as notas de Clair de lune
Do sem igual Debussy.

Talvez hoje, ou amanhã,
Eu possa as veias cortar
Deliciando-me a escutar
Um noturno de Chopin.

Mas como tudo na vida
Se dá de forma indevida
E nada nunca dá certo

Perigo morrer ao som
Nada belo, nada bom,
Do enfadonho rei Roberto.

Agendas

Para tudo ela tem agendas
para o inverno
para o verão
para as aulas
de corte e costura
para o curso
de pintura
de catalão
e agendas também
para a utilização
das suas partes pudendas

Quando o amor
varado de solidão e agonia
pede a marcação
de uma hora
para o dia seguinte
ela sugere
que ele ligue outra vez

Talvez logo se desembarace
e tenha um encaixe
para o próximo mês
lá pelo dia 20
ou 25 talvez.

Um trecho de João Antônio

"A cidade que o velho me ensinou a ver não era esta em que me mexo. A dele tinha gentes e ruas, árvores, conduções coletivas, idas ao mercado municipal à beirada do Tamanduateí. A minha, agora, fechada entre quatro paredes. Sempre. Passo do hotel para um carro e daí toco para um coquetel num salão; depois, as paredes de uma secretaria ou redação. Nessas quatro, grupelhos proliferam. Bebericam, conspiram, politicam, fechados em si, armando campanhas, cinismos e mordomias. Golpes, rasteirices.
   Minha cidade de meu pai não chegava pelos brilharecos publicitários de um folheto que leio profissionalmente, com nojo. Nunca o pai gabou a Praça da República, falando de uma arte que ela não tem."

(Do conto "Abraçado ao meu rancor", do livro homônimo, publicado pela Editora Guanabara.)

Alma gêmea

Ah, só mesmo nós

Nos apaixonamos
por uma voz
por umas pernas
por uma fêmea
por uma boca bem delineada
por uma bunda empinada e zás

De repente
ela já é alma gêmea
e não temos mais à nossa frente
uma criatura de carne e de osso
mas um ser um ente
soberbo e magnificente

Nós a colocamos
bem acima de nós
e ficamos embaixo
bem embaixo

E bem lá de cima
ela mira em nós
e se alivia na gente
demoradamente
como uma cadela
mijando gostosamente
do alto de seu racho
um riacho de água amarela
em cima de um capacho.

Ser esperto

Ter a noção
em cada momento
de que tudo
que a memória guarda
guarda para o esquecimento

Achar bela a manhã
não mais
só bela

Não fazer
o que fizeste com aquela
que guardaste especial
formada com o que
teus olhos viram
e com o que não viram
em proporção igual

Que não te doa jamais
ver devorada outra
como essa
que adornaste tanto
com a imaginação
que já não sabes mais
o que real foi
e o que ilusão.

Os coelhos

Levaram-me para a prisão. Era uma acusação consistente, como se diz. Todos os coelhos do mundo tinham vindo se abrigar dentro do meu chapéu e só saíam dele quando eu fazia minhas apresentações. Cada uma delas durava dezessete horas e meia, até que o último deles fosse aclamado pelo público. No início, pensei que os espectadores se maçariam, mas havia filas todas as noites. Eu teria ficado rico, se as crianças de todos os países não se pusessem doentes pela falta de coelhos. Encarcerado, fiz um acordo: convenceria os coelhos a voltar todos para os seus países. Eles, que tinham adquirido gosto pelo circo, aceitaram, depois de negociações das quais participaram psicólogos e diplomatas. Proibiram-me de lidar com coelhos novos, venham de onde vierem. Quando os quatro que tenho morrerem, só me restará aposentar-me. Se eu morrer antes, receio pela sorte deles. Quem aturará coelhos velhos, já sem esperanças de cio, cheios de empáfia e de presunções artísticas? Um deles assobia Tico-tico no fubá inteiro e uma parte da Marselhesa, que aprendeu com Pierre, um coelho naturalmente francês.

Soneto das façanhas do amor

As façanhas do amor são corriqueiras.
Começam sempre tímidas, com abraços,
Mas vão ousando mais, assim que os passos
Caminham para as fases derradeiras.

E logo as bocas em chupões vezeiras
Vão ocupando todos os espaços
E vão disseminando os seus beijaços
No ventre, umbigo e nas regiões lindeiras.

Isso parece muito, dito assim,
Porém no fundo é sempre igual, no fim:
Um combate no qual o vencedor

E o vencido têm um só nome e são
Dois corpos que lutaram com paixão
Mas foram subjugados pelo amor.

Um poema de Josely Vianna

"me
guarda
contigo
como
teu
umbigo
,
raso
e
narciso
,
te
abraça
comigo
como
se
a
perigo
,
paraíso"

(Da coletânea Esses poetas - Uma antologia dos anos 90, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda., publicada pela Aeroplano.)

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Kama Sutra - CDXVII

Deixaste a janela aberta e te deitaste nua. A lua veio e deitou-se sobre ti. Ficou um tempo assim, uma hora, um pouco mais. Gemeu. Gemeste. Ela prometeu voltar. Mas, como costumas fazer com quem te ama, nunca mais deixaste a janela aberta. Nua na cama, toda noite imaginas a aflição dela do lado de fora, ansiosa para provar outra vez a saliva e o sal de tuas fontes.

A nova poesia

Noto nos poetas brasileiros das safras mais recentes uma contenção talvez ainda mais severa que a do tempo em que a mais importante das bandeiras era empunhada contra a poesia piegas e edulcorada. Sinto em muitos poetas de hoje uma tendência à geometrização, à valorização do visual, uma afinidade com a pintura e a escultura. Parece que vivemos o mesmo momento que precedeu o concretismo. Há um pudor de sentir, de exprimir o sentido. O poema não se escreve, distribui-se na página em blocos exatos, científicos quase. Os poetas novos temem ser acusados de ingenuidade e protegem-se dela com areia, tijolo, cimento e cal. Alguém emocionar-se com algum poema de qualquer um deles é fazê-los passar pela vergonha suprema. João Cabral de Melo Neto contribuiu um bocado para isso. Vista sob a perspectiva da época em que ele construiu sua obra (e construir me parece o verbo adequado), ela tem uma justificativa que agora talvez não se sustente mais tão bem. Dirigida cada vez mais à razão que à sensibilidade, a poesia anda fazendo feio nas livrarias e, se alguém perguntar a um atendente qual seria o poeta moderno mais indicado, a resposta provavelmente será Carlos Drummond de Andrade.

Mais um poema de Claudia Roquette-Pinto

"PINGENTE (FLOR DA BANANA)
       (GEORGIA O'KEEFE)

o bico impudico ri
a nesga da língua ali
desperta outra anatomia
em rolos as
folhas raras
arvoram em pelo
mulher aberta vista dos joelhos
pendes displicente
como no éden."

(Da coletânea Esses poetas - Uma antologia dos anos 90, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda.)

Hora de, como um propagandista,

fazer o roteiro dos médicos. Não tenho pasta, não divulgo produtos. Levo meu corpo. Ele é uma boa propaganda daquilo que no fim cabe a todos nós.

Por quê?

Por que
em nome de Jesus
ninguém me esfola
ninguém me degola
ninguém me imola
ninguém me mata
ninguém me abduz?

Ritos

Quem acorda, faz a barba, toma banho, passa desodorante e veste-se antes de se sentar diante do micro, se for um escritor daqueles antigos, chamará isso de atos propiciatórios. Ah, e dará ao banho o nome de ablução.

Literatura

Ofício
vício
ou exercício
eu continuo a ler
e a respirar também

Mas respirar é uma atividade
que não me insuflará nos pulmões
oswald e mário de andrade
luís de sousa e de camões.

Fulano de Tal

Quando, lá pelos sete anos, perguntaram por Fulano de Tal e alguém disse que ele tinha morrido, tive a primeira suspeita de que a morte talvez fosse um direito ao qual nenhum de nós poderia renunciar. Somos todos fulanos de tal.

A pior de todas

A pior de todas as tristezas, a mais aguda e devastadora, é querer ligar para a pessoa amada - para dizer que a saudade nos devora como devoraria um câncer - e desistir. Já dissemos isso tantas vezes. A verdade mil vezes repetida é mentira. Quem acreditará em nós? Abusamos das palavras em nome do amor, e ele tantas vezes nos absolveu. Na última delas, porém, ele nos advertiu: nunca mais.

Vênus calipígia

Se eu fosse construir um monumento
Ou me coubesse pelo tema optar,
Seria aquele esplêndido portento:
A bunda de Simone de Beauvoir.

Cotação do dia

Sou um porão infestado de ratos. É primavera e todos estão no cio. Talvez haja espaço para os filhotes. E os filhotes dos filhotes dos filhotes.

Um poema de Vivien Kogut

"SAL

No calor eu mordo conchas
tão finas, tão importadas
assim percorro cada coisa tua
corro gemendo nessa curva brava.

Faz calor:
a flor úmida arreganha
e assanha a perna clara.

Eu suplico, te abraço em água rara
mordiscando a concha que a boca apanha
e arrepiada
no calor estala."

(Da coletânea Esses poetas - Uma antologia dos anos 90, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda, publicada pela Aeroplano.)

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Contabilidade amorosa

Hora de fechar as contas de mais um dia. Quando se tem só um tema em estoque (o amor), é muito fácil: oito ou oitenta. O amor é assim: vive só nos extremos. No meio fica a mediocridade, que é amor só com muita condescendência. O morno não combina com o amor. O morno é um embusteiro, cheio de rapapés e reverências. O morno é a caixa de bombons, a entrada para o teatro, o ingresso para o show de Paul McCartney. O morno é decidir se não será melhor mudar de sexta para quarta o jantar semanal e a rapidinha no motel. Às sextas, nos restaurantes e nos hotéis, todo mundo quer comer tudo, todo mundo quer traçar todos. O morno é dizer eu gosto, eu também, temos tantas afinidades, Leão e Libra sempre se deram bem. O morno é pegajoso, o morno é desagradável como apertar a mão de um homem que acaba de sair do banheiro, ainda mexendo na braguilha. O morno é dizer obrigado, obrigada, depois do ravióli e da bimbada. O amor não deve ser assim, não pode. O amor há de ser oito com gosto de seis, de zero, de nada, de porra nenhuma. Ou há de ser oitenta, e oitenta não quer dizer açúcar nem mel. Amor oitenta é morrer de ansiedade, ficar esperando no lugar combinado e, cinco minutos antes da hora, pegar o celular e dizer onde você está, puta merda, você não me respeita, você não me ama, você não vê que eu estou morrendo por você? Você é uma vaca, você é um viado, você é um filho da puta, e você o que é? Amor é isso, embora jamais se vá ler uma coisa dessas num livro da Glorinha Kalil. Amor oitenta é um sofrimento gostoso, único, uma danação de todos os infernos. Amor oitenta é antropofágico, é vontade de engolir todo o ar em volta de quem se ama, é engolir quem se ama, é incorporar quem se ama ao nosso sangue. Amor oitenta é privação, provação, amor oitenta é sofrer pra cacete. Então, qual foi o amor de vocês hoje? Não, não, assim não vale. Eu perguntei primeiro.

Desforra

Uma cachorra grávida me espiou, na esquina. Quando vi que ela me seguia, eu a afugentei. Sai, passa. Puro rancor. Lembrei-me do dia em que perguntei ao amor se queria ser meu dono.

Kama Sutra - CDXVII

Ela enfia a calcinha. Põe o sutiã. Cantarola. Dá três rodopios pelo quarto, valsando, bolerando. Coloca-se agora dentro da saia. Mais três rodopios antes de cobrir o sutiã com a blusa. Por uma fresta da janela, o sol acompanha tudo, com a respiração presa. Solta-a devagar, num suspiro. Ela ouviu um rumor e vai até a janela, para fechá-la. Desconfia que a venham espionando de um apartamento no prédio da frente, com um binóculo. Toda manhã vê uma luminosidade furtiva querendo entrar no quarto. Já com a janela fechada, tira os seios do sutiã e os reacomoda. Está ficando gorda outra vez. Ou mais gostosa, como diz o amante. O sol vai esperar um pouco por ali, até que ela entre no carro do homem que vai buscá-la toda manhã. Bom era o tempo em que não havia insufilm. Ele imagina o que acontece lá dentro. Já conhece um bocado da vida. Lembra-se dos dias em que ficava olhando para dentro do quarto de Greta Garbo, Marilyn Monroe, Brigitte Bardot. Um astro gosta de estrelas. Mesmo um astro já meio decadente, como ele. Precisa se cuidar. Anda muito sentimental ultimamente. Nota isso mais uma vez, enquanto vê o carro se afastar.

Um poema de Claudia Roquette-Pinto

"OS FRUTOS DA TERRA
(FRIEDA KAHLO)

- as espigas estão fechadas
pendem do céu suas barbas
íntimas, como em mulheres

- a berinjela emborca negra
brilha o dorso o rabo negro
(brilho o rego)

- a goiaba foi aberta
mora um fogo dentro dela
"que me fere. envelheço."

- fruta branca sem vergonha
parte os lábios feito uma dona
feito uma cona
instruída

- abóbora haste em riste
a raiz da mandioca
espeta tudo que assiste

- a pele a tela não importa
o que excita
nesta natureza morta"

(Da coletânea Esses poetas - Uma antologia dos anos 90, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda, publicada pela Aeroplano.)

Cotação da tarde

Sinto-me triste como um violino velho, largado num canto, imprestável, em cujas cordas tenham soado árias de Paganini.

João Antônio e Guimarães Rosa

Alguém já deve ter feito um estudo sobre a similaridade que há entre João Antônio e Guimarães Rosa. Ambos, cada um de seu jeito, fizeram um levantamento notável de linguagens e expressões - João na área urbana, Guimarães na, digamos assim, sertaneja. Palavras e modos de dizer que talvez já estivessem mortos foram registrados por eles. E também no criar palavras eles se empenharam com muito brilho. Guimarães Rosa, nisso, foi, pode-se dizer, o nosso Cabrera Infante, o nosso Joyce. E João Antônio também "malandrizou" vocábulos, deu-lhes ginga e os impregnou do suor das Lapas (a paulistana e a carioca). Dalton Trevisan é do mesmo time. Nessa área, a da linguagem, Rubem Fonseca mais recolheu e reproduziu do que criou.

Doxomania

A glória subiu-lhe à cabeça. Estando ali, não lhe custou dar um salto e agarrar-se a uma estrela. Orgulhoso, ele contempla o mundo dali, sonhando com Pulitzers e Nobéis. Metidos nas pantufas, os pés já imaginam como se comportarão quando pisarem na Calçada da Fama.

A janela

Pensar no suicídio é quase uma alegria. Saber que ele é possível a qualquer tempo. Que há uma janela, uma abertura, uma fresta por onde podemos escapar daquilo que nos aflige: não o mundo, nós.

Um poema de Valdo Motta

"Nos dias de Hades e seu reino podre
hás de doar odes e até o odre.
Hás de ir ao Id, de todos os modos.
Hás de ir ao Id, enquanto se pode.
Isento de ódio, imune ao medo,
hás de ir ao Id, já não é mais cedo.
Hás de ir ao Id, hás de ir ao Id,
para depor Hades, que a tudo preside,
e, depondo Hades, todos os poderes
que impedem a mútua doação dos seres."

(Da coletânea Esses poetas - Uma antologia dos anos 90, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda.)

Cotação do dia

O marasmo
em mim
é assim
como um pleonasmo.

Kama Sutra - CDXVI

Tinha uns olhos dúbios, castanhos, de especialista em práticas de alcova. Às quatro da manhã, nos ambientes enfumaçados, quando cessava o som da derradeira música e ele saía para a madrugada, seus olhos eram já de um vermelho amarelado e crepitante como o das fogueiras. As mulheres todas o seguiam, deixando no ar um cheiro viscoso e úmido de desejo. Ao chegarem à sua casa, notando seus cascos, elas gemiam de prazer adivinhado e apalpavam seu rabo pontudo e pulsante, enquanto ele, para espicaçar-lhes o desejo, adiava o instante de mostrar-se inteiro.

Logo em casa

Vi no pronto-socorro um homem de uns oitenta anos sendo conduzido numa cadeira de rodas à área de radiografias. Quem empurrava a cadeira era a mulher, também oitentona. Ele parecia assustado, ela o consolava: "Logo acaba e nós vamos para casa." Eu devia achar bonita a cena. Não achei.

Se

Se ao amor tivesse dado
O que é de hábito se dar
E não tivesse poupado
O que cumpria gastar.

Se eu lhe tivesse ofertado
O que acabei por negar,
Outro seria meu fado,
Mais leve de suportar.

Ao amor me dei bastante,
De modo firme e constante,
Mas não dei tudo que pude.

Se desse, não estaria
Sofrendo agora a agonia
De ver o amor no ataúde.

A opinião através dos tempos

O ébrio, de Gilda de Abreu e protagonizado por Vicente Celestino, é um dos cinquenta piores filmes da história. Sei porque o vi pelo menos dez vezes.

A loja

Se o amor se encontrasse em lojas, eu o encontraria apenas num bairro ao qual só se pudesse chegar com três ônibus e o metrô. E estaria sempre sem estoque.

Vocês

Vocês que a tiveram
nos braços
vocês que a tiveram nos sonhos
vocês que a tiveram na mão
eu os invejo
não digo que não

Que belos serão seus dias
quando vocês
nada mais tendo
a tiverem na recordação.

A rosa em teu rosto

Tomara que só eu tenha visto a rosa que o sol põe em teu rosto quando sorris. Não a cantarei em versos. Ela não ficaria bem neles. Ela fica tão bem em teu rosto. Aparece, corada, e logo se recolhe. Tem medo de que eu a colha.

A síndrome

Há muito já percebi que flagelar-me, martirizar-me, supliciar-me e mortificar-me são, para mim, motivos de orgulho. Estou doente, eu sei. Tenho a síndrome do calvário.

Desejos

Desejo de ver fulminado quem enche os pulmões e estufa a barriga para dizer que Mozart e Beethoven foram seres humanos. Desejo de ver morrer em convulsões quem proclama que a primeira obrigação do artista é com a sociedade.

Um trecho de João Antônio

"O momento é dos fregueses-família, gente casada bem e considerável. Rápidos como galos, pagam direitinhamente, até antes. E se mandam, educados. Aqueles mesmos, se beberem, viram mandões, depravam, dão cinema, fazem e acontecem, uma trabalheira. Ficam machinhos. Encapetados, querem. Porque querem. Fazem questão. Insistem e batem o pé. Exigem mulher que batalhe nas três armas. Não bebidos, fazem nenhuma exigência, na cama contentam-se logo num papai-e-mamãe. Inda mais que precisam evitar vexames. De caras limpas, são, de longe, os homens melhores para um faturamento bom. E, logo-logo, desguiam da Lapa, feito umas formiguinhas ladronas."

(Do conto "Maria de Jesus de Souza (Perfume de gardênia)", do livro Abraçado ao meu rancor, publicado pela Editora Guanabara.)

domingo, 27 de outubro de 2013

O menino domingo

Os outros dias eu não sei. O domingo, para mim, é um menino. Com chuva ou sol, acorda saltitante e sai para a rua, às vezes sem tomar café. E reina aqui, e atira uma pedra ali adiante, e persegue um cachorro acolá, e é perseguido por outro na esquina seguinte. Que energia tem esse menino! Os domingos de antes não eram assim. Os de hoje, Deus me perdoe, já nascem encapetados. Olhe ele ali em cima do muro. Ai, se ele cai! É ele ali embaixo? Já? E onde ele arranjou aquela bicicleta? Ah, deixe estar. Quando ele voltar, vai ver o que é bom. (Quando o menino domingo volta, já é noite. A noite, diga-se, não é nunca uma noite de domingo. O domingo é dia, só. Hora de fazê-lo dormir. Contar-lhe uma história, apesar de ele não merecer. Era uma vez... Epa, o menino já dormiu.)

Soneto do caminho que leva à derrota

Dirijo agora os meus passos
A um rumo firme e certeiro
Como um sagaz timoneiro,
Conhecedor dos espaços.

Depois de tantos cansaços,
De errar pelo mundo inteiro,
Sei que hoje o meu paradeiro
É no país dos fracassos.

Para ele eu sigo consciente,
Não recuo, sigo em frente,
Cumpro meu papel na história.

Não tenho mais ambição,
Perder é a minha missão,
Malograr é a minha glória.

Autógrafo retroativo

Como passam a ser interessantes aquelas pessoas que certo dia se matam ou são presas porque se descobre serem donas de uma rede internacional de bordéis de luxo. Estiveram tanto tempo ao nosso alcance, não lhes demos atenção e de repente se ergue entre elas e nós o intransponível muro da celebridade. Por que nunca nos deram uma pista, por que nunca nos avisaram de nada?

Um poema de Claudia Roquette-Pinto

"BLEFE

Pois este é o mês bastardo, azinhavre
engole o que há de doce nos metais
silêncio embaça a pele dos diários
lençóis têm cor de áridos lençóis

existe azul, mas é um azul de asma
que a nitidez da tarde faz em cápsula
espelhos só devolvem olheira e pragas
um gesto que de fácil despedaça

catódica essa luminosidade
estranha o sol repele o sol. intacto
o tique que quedou meus dias gagos

a rima fica lívida nos lábios
e dor sem voz passeia o seu contágio
um gato eletrifica. arrisco maio."

(Da coletânea Esses poetas - Uma antologia dos anos 90, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda.)

Hora de

Hora de deixar que a tarde se infiltre devagar em nós. Hora talvez de um cochilo no sofá. Por que não? O mundo parece estar salvo e, no que nos diz respeito, a tristeza não nos fará a desfeita de escapar enquanto dormimos um bocadinho. Pena não haver aqui um gato que se solidarize com o nosso cochilo. Seria uma boa companhia. Um homem que não fala, um gato que não mia, ele sonhando com escapadas noturnas, eu com antigas cenas que me rejuvenescem enquanto a tarde, de mansinho, entra na sala com pantufas.

A doença

Convém usar luvas. A velhice é transmissível. E, mesmo assim, evitar tocar pessoas e coisas. Principalmente mulheres e flores.

www.rubem.wordpress.com

O site publica hoje nova crônica minha (o cacófato é proposital e talvez até mal-intencionado).

Birras adicionais

Birra de quem diz você foi muito bobo, eu não deixava, você devia ter reclamado na hora. De quem diz você precisa ver o CQC. De quem me pergunta por que não gosto do rei Roberto e começa a cantar Detalhes. Birra de mim quando digo no meu tempo ou quando não digo meu amor ao meu amor.

Estorvos

Vamos nos tornando incômodos. Quando se referem a nós, murmuram: ai, é meu carma - ou, então, ninguém merece. Na escada do metrô, suspiram, reclamam de nós. No banco, também provocamos impaciência. Saem de nosso bolso todos os papéis, menos o certo. O certo sempre ficou em casa, embora depois também lá não o achemos. Os filhos nos olham com desprazer. Na rua, fingem que não nos conhecem. Vontade de nos largar, de se desvencilhar de nós. Velhos são pegajosos, gosmentos. Velhos fedem. Por que não somem todos, por que não se tocam, por que não se matam, por que não são abduzidos? Jesus!

Nossos direitos

Temos o direito de sofrer. Temos o direito de permanecer calados. Temos o direito de nos queixar. Temos o direito de rezar para que Deus nos livre de nossas aflições. Não temos o direito de nós mesmos nos livrarmos delas.

Restaurante Viena

Te despediste. Hesitaste sobre o rumo a tomar. À esquerda, repentinamente, abriu-se um arco-íris. Foste então para a direita, e estabeleceu-se a exata distribuição da beleza na Augusta.

Um trecho de João Antônio

"Nem pode haver ocupação mais provinciana. Os redatores gostariam de ser intelectuais de letras, fortes pensadores, como julgam ser os lá de fora: um Malraux, um Camus, um Sartre. Os repórteres, alguém aí parecido com Jack London ou Hemingway, que julgam terem vivido grandezas aventureiras. Os diagramadores adorariam chegar a artistas plásticos, famosos e ricos, além de disputados. Já os fotógrafos sonham com Buñuel e Bergman. Todos. Ou quase, que nem todos poderiam fazer a profissão com nojo igual."

(Do conto "Abraçado ao meu rancor", do livro homônimo, publicado pela Editora Guanabara.)

Quedas

O amor
cai da escada
cai do andaime
cai das nuvens
cai do cavalo
cai de quatro
mas não cai
de moda.

Definição

É um amor que parece um vento preguiçoso. Se não precisar, se não for instigado, não move uma palha.

Riqueza

Devo conservar-me triste. É só o que posso fazer para te mostrar quanto foste preciosa para mim e como me mortificou perder-te.

Soneto da beleza inexpressável (para Priscylla)

Beleza plena, suprema,
Que nada avilta ou embaça,
Beleza etérea, sem jaça,
Beleza exemplar, extrema.

Beleza de ouro, de gema,
Beleza rica de graça,
Beleza que imune passa
Pelos versos de um mau poema.

Beleza eterna, imortal,
Incansável manancial,
Que eu possa aqui proclamá-la

E quem sabe conseguir
Um pouco dela exprimir,
Se não inteira cantá-la.

Soneto da expedição frustrada

Amante de desafios,
Com esperança e com fervor,
Não tendo no estoque amor,
Ao mar lançou três navios.

Depois de muitos desvios,
De fome, peste e de horror,
Voltaram ao lançador
Completamente vazios.

Sobrou só, da expedição,
Não mais do que um capitão
Que comunicou, perplexo,

Que por onde navegaram
E aonde os navios chegaram
Não havia amor, só sexo.

Cotação do dia

Sinto-me como um cafajeste que tenta cantar uma menina no ponto de ônibus. Ela não me toma a sério. Nem me olha. Não me teme. Sabe já, pelo script da vida, que só farei o que faço. Informo-lhe que ela não sabe o que está perdendo, estufo o peito, digo que ela é magra demais para o meu gosto, cuspo com autoridade e saio gingando.

sábado, 26 de outubro de 2013

E surge inevitavelmente

E surge inevitavelmente a hora em que, apesar de todos os nossos possíveis bons propósitos, precisamos reconhecer, se quisermos dizer a verdade, que nosso dia foi ruim, funesto, desgraçadamente triste. Nem nos consola o fato de saber que ele veio na medida certa de nosso merecimento. Nos mantivemos fechados em casa, diante do micro, para conservar nossa aura de escritor. Não olhamos para a rua, não vimos se fez sol ou se choveu. Ouvimos um menino gritar não me bate, tio, mas não nos debruçamos na janela. O que extrairíamos disso? Elevados são nossos desígnios, e a vida é uma preocupação secundária. Tudo está nos livros e os livros estão bem perto de nós. Escrevemos hoje, como fazemos todos os dias, é verdade, e chegamos à concessão de falar do amor. Usamos, como sempre, nossos melhores adjetivos e as metáforas que aprendemos com os maiores poetas. Nosso estilo fluiu, parece-nos que escrevemos cada vez com mais segurança. Mas agora, na hora de baixar a tampa do notebook, nos vem aquela pontada aguda, aquele remorso. Por que não fomos olhar o menino que gritava não me bate, tio? Hora de nos entregarmos àquilo que por eufemismo chamamos de sono, aquelas horas que começarão a se estender morosamente até o primeiro misericordioso raio de sol. Talvez amanhã aprendamos um modo melhor de falar da vida e do amor. É possível que enfim nos convençamos de que para falar melhor dela, e dele, será interessante ir à janela se um menino gritar na rua não me bate, tio, eu não fiz nada.

O declínio de Vargas Llosa

Andam criticando sem dó nem piedade as últimas visitas de Mario Vargas Llosa à ficção. Não li nenhum dos seus livros mais recentes, mas, como o blog às vezes é tão irresponsável quanto quem o escreve, atrevo-me a endossar as críticas. Llosa tem ultimamente interpretado o papel de salvador do mundo e da humanidade. Seus chatíssimos artigos sobre política me fazem imaginar se ele não estará querendo ganhar um segundo Nobel: o da Paz. Llosa é um perturbador caso de falta de bom-senso. Não me entra na cabeça alguém ser Mario Vargas Llosa e querer ser Alberto Fujimori.

Alô, Ucrânia

Alô, queridos ucranianos e ucranianas. Se Clarice Lispector estiver por aí, devolvam-na, por favor. Estamos sofrendo a mais cruel crise de falta de poesia dos últimos vinte anos.

Em Sartre...

... eu encontro paradoxo em algumas frases, o que é animador. Aos poucos o existencialismo vai perdendo para mim, que tão pouco li sobre ele, o pomposo ar de doutrina ou sistema e se transforma no conjunto de pensamentos de um homem que viveu com intensidade. O melhor de Sartre é a sua biografia - toda ocupada de casos amorosos com mulheres que lhe acrescentavam sempre algo e às quais ele acrescentava muito. Sartre ora diz que o inferno são os outros, ora coloca nos ombros de cada um de nós a responsabilidade pela própria vida. Dizermos que o inferno são os outros é uma forma muito cômoda de nos santificarmos. O inferno somos nós e cada ser que nos conhece sabe muito bem disso. No caso de Sartre, é impossível que ele não soubesse que para Simone de Beauvoir o inferno era ele. Ela gostava de se queimar nas chamas dele, que eram muito mais espirituais do que carnais. E Simone também não era nada tola. Defendia-se, e muito bem. Os dois não precisavam de nenhuma teoria para viver como viveram. Mas, sendo filósofos, é óbvio que uma justificação textual lhes pareceu apropriada. Foi sorte nossa terem pensado nisso. Do contrário, seriam só um casal dado a estripulias sexuais.

Viaduto Santa Ifigênia

Ninguém saberá
como estiveste alto
como estiveste pronto
como estiveste perto
do impulso do
pulo do salto
do voo

Ninguém saberá
verdadeiramente
como a treva acolhedora
te chamou para o seu ventre
e como o espaço
abriu para ti os braços
descaradamente

Ninguém compreenderá
ninguém entenderá
(porque só tu viste)
por que o impulso perdeste
por que te arrependeste
por que desististe
quando era tão fácil voar

Só tu sabes e saberás
enquanto viveres
como te arrependes
de te arrependeres
quando tudo estava tão perto
quando tudo estava tão certo
quando te bastava saltar.

Mais algumas birras

Birra de quem diz no meu entender, haja vista, com certeza, a médio prazo, sem sombra de dúvida. Vontade de estrangular, de matar. Birra de mim.

Um poema de Augusto Massi

"NOTURNO DA FOLHA DE SÃO PAULO

Na rua Barão de Limeira,
bairro de Campos Elíseos,
caminhões descarregam
imensas bobinas de papel.

Assombrado por sombras
pisoteio jornais da véspera:
párias, travestis, mendigos.
Tutankaton mija na sarjeta.

Livre da carcaça da simpatia
(Ó doces píncaros de classe!)
a chuva reúne a ralé da raça:
Godot desplugado do século.

Soterrados na própria chacina
no excremento da experiência,
áspera mão de obra reciclada:
sobra, apara, margem de erro.

Capturado pelos acontecimentos
vi a máquina do mundo triturar
todas as vértebras da madrugada.
Não houve tempo de pular fora."

(Da coletânea Esses poetas - Uma antologia dos anos 70, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda, publicada pela Aeroplano.)

Todos mortos

Alguns rondaram sua casa e, como cachorros na urgência do cio, latiram seu amor escandalosamente. Enxotados, uns se mataram no mar, outros se mataram no rio. Não houve um que fizesse o que ela queria: um que vivesse por ela.

Injustiça

Matar-nos por amor e dali a alguns anos alguém, talvez até um parente, um desses que vivem saindo de barrigas, perguntar se nós não fomos aquele que morreu de pneumonia na Santa Casa.

Soneto do que para o amor sobra

Do que respingou nas toalhas,
Do que ficou sob as mesas,
Das carnes, das sobremesas,
O amor recolhe as migalhas.

Do ouro cuspido nas palhas,
Das maçãs e das framboesas
Mordidas sem sutilezas,
O amor recolhe as rapalhas.

Amor, que praga rogaram,
Que maldição te lançaram,
Que te fizeram, amigo?

Para a fartura nasceste
E na opulência cresceste,
Mas morres como um mendigo.

Um poema de Antonio Cícero

"DE TRÁS PRA FRENTE

           O amante,
Cabeça tronco membro
  Eretos para o amado,
Não o decifra um só instante.
Eu mesmo ainda me lembro:
   O amante é devorado.
            Já o amado,
Por mais ignorante e indiferente,
         Decifra o seu amante
           De trás pra frente."

(Da coletânea Esses poetas - Uma antologia dos anos 90, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda.)

Sei hoje tantas coisas

Sei hoje tantas coisas. Provei o fruto do amor, certa manhã, e ele me abriu os olhos para a amplidão do mundo. Tive medo de que jamais houvesse tempo para conhecê-lo. Por isso, naquela manhã eu já me pus a caminhar. Tudo era belo, ensolarado. O vento chamava-se brisa e à minha passagem as flores se acotovelavam, cada uma querendo me oferecer seu aroma. A cada quinze minutos de caminhada surgia, cantando, uma fonte de água. Passarinhos vinham trazer-me mensagens do amor e eu os mandava de volta com poemas ditados pelas folhas das árvores. No meio do caminho, de repente me perguntei o que eu buscava, afinal, para deixar o amor assim para trás. Ele não me dera nenhuma missão, só me sugerira andar. Veio-me um pressentimento que me recusei a aceitar. Não, não era possível. E no entanto era. O amor me mandara caminhar sempre em frente, até que eu descobrisse onde começava o horizonte. Não sei quantos anos eu já havia caminhado, então. Mas devia estar muito longe, porque já não chegavam a mim os passarinhos com as mensagens. Eu estava de costas para o amor, caminhava para longe dele, e pude imaginar seu rosto zombeteiro. Assim trata o amor os que a ele se submetem. Nesse dia, o da revelação, olhei para a margem do caminho e já não havia flores. Nem sequer uma árvore com um galho suficientemente forte para suportar o peso de meu pescoço e de minha dor.

Dizer o quê?

Dizer que é sábado, que há um pouco de sol na rua, que cachorros tentam mostrar-nos o horizonte com seus latidos, como no poema de Lorca. Apesar da boa vontade deles, não há horizonte, como bem sabemos há tanto tempo. Sabemos também que não há Deus, nem mesmo para os homens de boa vontade. Sabemos que a esperança é uma tolice e que deveríamos ter morrido num dia distante, talvez naquele em que, ganhando enfim a bicicleta, soubemos que jamais teríamos felicidade igual. Dizer o quê? Aquilo de sempre, o óbvio. Sofremos, o que é uma forma de dizer que cumprimos nossa tarefa. Para isso foi que viemos. Não existe mais nada. O quê? O amor? Ah, por favor, conte outra.

A palavra amor está doente

Jamais soubemos lidar bem com nossas palavras. Tratamos delas desde quando, ainda filhotes, tontas como gatinhos cegos, não eram capazes sequer de encontrar a tigela de leite. Nós as levamos no colo, nós as beijamos, nós lhes dissemos o que eram. Algumas cresceram fortes, sadias: tristeza, dor, saudade. Outras minguaram, seu pelo é ralo e é débil seu miado. Uma delas, a que mais desgosto nos traz, é a palavra amor. Arrasta-se pelo chão, esconde-se embaixo de móveis, arrepia-se se a procura um raio de sol, e já muitas pessoas nos disseram que são indícios certos de loucura. Numa destas manhãs, precisaremos levá-la até onde um homem de avental branco lhe dará uma injeção letal. A palavra amor não deve sofrer mais. Neste momento ela geme, sem conseguir dizer-se, atrás do fogão. Hora de pegar o telefone. Talvez o homem de avental branco trabalhe aos sábados.

Memória

Se nada mais me socorre,
Me lembro do amor que tive
E morro como quem vive,
E vivo como quem morre.

Alívio

Viver não passa de um vício.
É assim como uma loucura
Sem pausa, sem trégua ou cura.
Morrer é o fim do suplício.

Concessão

Continuarmos respirando é uma das concessões que o amor nos faz. Não lhe servimos mais para nada, agora. Há quem, melhor do que nós, saiba como mover os pés num bolero, desafivelar um sutiã e conduzir os lábios pelas sutis geografias do corpo. Mas depois, quem sabe? Talvez ninguém se revele mais hábil do que nós na arte de, após um baile, limpar o assoalho com a língua que procura, entre tantas marcas deixadas no salão, as deixadas por aquele par de pés antes que eles sorrateiramente se encaminhassem para a varanda enluarada, em busca de beijos e volúpias.

Beijo

Num momento em que não tivesses nenhuma palavra a dizer, dessas que te saem douradas, e nenhuma boca para beijar, dessas que te buscam ávidas, talvez pudesses não digo dar-me um beijo, mas permitir que eu o desse. Dois segundos só, no máximo três, e eu talvez caminhasse depois como caminham os homens que ao menos uma vez conheceram a ventura.

Soneto do que eu poderia fazer

Eu poderia ajoelhar-me,
Eu poderia chorar,
Eu poderia implorar
Que ela simulasse amar-me.

Eu poderia agarrar-me
Às suas pernas, jurar
Me envenenar, me afogar,
Eu poderia matar-me.

Eu poderia dizer
Que longe dela viver
Era morrer infeliz.

Tantas coisas poderia,
Tantas coisas deveria,
Por que foi que não as fiz?

Kama Sutra - CDXV

Ela o enfeitiçou de tal forma, lançou-lhe tão inescapável sortilégio que, para livrar-se, ele recorreu a todos os estratagemas. Tudo em vão. Sua lembrança o segue todos os instantes, como um cão-guia. O mais recente ardil foi a tentativa de se convencer de que ela é uma virago. Foi ontem à tarde. Tudo correu bem por algumas horas. À noite, num sonho, ele a beijou, como em todos os sonhos, e sentiu eriçar-se o desejo quando o bigodinho dela lhe espetou os lábios. Acordou úmido como um adolescente.

Pernas curtas

Geralmente a imaginação fértil não dá nem para o primeiro plantio.

Um poema de Mario Benedetti

"BALADA DEL MAL GENIO

Hay días en que siento una desgana
de mí, de todo lo que insiste en creerse
y me hallo solidariamente cretino
apto para que en mí vacilen los rencores
y nada me parezca un aceptable augurio.

Días en que abro el diario con el corazón en la boca
como si aguardara de veras que mi nombre
fuera a aparecer en los avisos fúnebres
seguido de la nómina de parientes y amigos
y de todo el indócil personal a mis órdenes.

Hay días que ni siquiera son oscuros
días en que pierdo el rastro de mi pena
y resuelvo las palabras cruzadas
con uma rabia hecha para otra ocasión
digamos, por ejemplo, para noches de insomnio.

Días en que uno sabe que hace mucho era bueno
bah tal vez no hace tanto que salía la luna
limpia como después de un jabón perfumado
y aquello sí era auténtica melancolia
y no este malsano, dulce aburrimiento.

Bueno, esta balada sólo es para avisarte
que en esos pocos días no me tomes em cuenta."

(De El amor, las mujeres y la vida, Editorial Sudamericana.)

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Mais birras

De quem diz infausto, passamento, condolências, congratulações, parabenizar.

Birras

De quem diz vagaba, esposa, falecimento, matrimônio, relação. De mim, quando digo afeto querendo dizer amor.

De Georges Beauvoir à filha Simone sobre o convívio dela com Sartre

"Você nunca será mais que a prostituta de um verme."

(Do livro Tête-à-tête, de Hazel Rowley, traduzido por Adalgisa Campos da Silva, publicado pela Objetiva.)

É bem provável

É bem provável que ainda não tenha te desejado uma boa noite. Ando assim, meio siderado, meio zureta, meio panaca, meio pancada, como diria alguém muito menos velho do que eu. Não tenho mais cabeça para nada. Sou só coração. É este que acaba de me dizer que talvez eu não tenha te desejado ainda uma boa noite. De certa forma é ele, meu coração, que te diz boa noite. Não repares na voz, ela também anda meio débil, soando como a voz do coração de um homem muito antigo, que talvez só viva nas páginas de romances que leu há tantos anos, há tantos séculos. Talvez eu tenha saído de um desses romances e não estranharei muito - e peço que não estranhes também - se daqui a pouco estiver gritando boa noite para ti, diante de tua casa, de dentro de um tílburi. Se eu tirar meu chapéu e te saudar, não me aches esquisito. Nem me consideres cruel com as rosas se eu jogar um punhado delas no teu jardim. Fiquemos assim, então. Boa noite, com acenos de chapéu e chuva de rosas.

Se um dia

Se um dia sonhares comigo, tu, que tens o dom da beleza, retoca-me. Faz-me parecer um jovem cheio de sonhos, um poeta de verdade, um homem que merecesse estar na vida e no sonho de uma mulher que fosse exatamente como tu és. Sê generosa, abranda os traços do meu rosto. Que minhas rugas pareçam uma sucessão de graciosos tis furtados a uma dezena de palavras "coração". Ou que elas se assemelhem a ondas no desenho de uma criança que ainda não sabe se será azul ou vermelho o barquinho que fará deslizar sobre elas com seu lápis. Se sonhares comigo, que possas fazer de conta que sou um pouco mais velho do que esse menino, um rapazinho capaz de fazer um texto ingênuo como este. E, se no sonho eu te importunar, não ralhes muito comigo.

Três batidas seguidas de mais três

Talvez hoje à noite ouças três batidas na porta do teu quarto. Depois de um silêncio de dez segundos ou onze segundos e meio, mais três batidas. Se forem batidas fortes, não abras. Deve ser um pirata daqueles que atravessam sabres na boca e têm o Diabo tatuado na perna esquerda. Se forem batidas suaves, quase desesperançadas, podes abrir. Serei eu. Talvez eu tenha energia para te abraçar e dizer que te amo. Talvez eu não consiga dizer nada e desfaleça como um poltrão. Olha, pensando bem, é melhor abrires a porta para o pirata. Quem há de querer ter nos braços um herói anêmico e moribundo? Dou-te boa-noite. Isso ainda posso. E, como não sei como estarei amanhã, desejo-te já um bom dia.

Furacão Pris

Desarrumaste minha vida. Já não conheço minha casa, minha casa já não me conhece. Teu amor derrubou minhas portas e escancarou minhas janelas com um furor de cinco graus e meio na escala Moskevitch. As fotos da sala - da primeira comunhão, da classe no primário, do terninho de marinheiro, do casamento, da turma da revisão no jornal - saíram voando. Instintivamente apalpei o peito. Lembrei-me então de que tinha dado já o coração a ti em certo dezembro. Encontrei a alma, bem escondida ali na estante, entre os livros de Rilke e de Roth. Antes a tivesses levado, também. Ela dia e noite deplora talvez a última oportunidade que teve de se juntar ao coração, que guardas entre teus pechisbeques e escalpos.

Presente

Mexeste comigo
o que esperavas
que eu fizesse?

Me desafiaste
o que imaginavas
que eu trouxesse?

Até um mau poeta
tem uma certa cota
(discreta) de estrelas

Trouxe-te algumas
e espero que
te agrade vê-las

Se te desagradarem
minha rainha
corta-lhes a cabeça.

O que é o amor

O amor é um processo, não é uma meta. O amor não se perfaz, o amor é só um caminho. Não existe amor feito, perfeito. Fotos de pai, mãe e filhos são fotos de família, não são fotos de amor. O amor não é o passeio pelo campo num domingo. O amor é inquietação, tormento. O amor não é a bonança. O amor é a tempestade, a fúria das ondas, os gritos no convés.

Bibelôs

Agora, toda vez que ela passa perto da estante onde ficam os bibelôs, alvoroçam-se de esperança o marinheiro com seu cachimbo, o camponês com sua ovelha, o escocês com seu saiote. Talvez também hoje ela resvale sem querer num deles, como resvalou num remoto dia no menino sanfoneiro. Depois, talvez ela o recolha do chão e o beije: ai, coitadinho, machucou? Contra todas as probabilidades da lógica e da matemática, o menino sanfoneiro espera também.

O desenho

Por muito tempo esperei que minha amiga pintora desenhasse para mim um navio branco, escrevesse Polônia no casco e me mandasse, como um possível estímulo para os meus sonhos. Hoje, finalmente, chegou um desenho dela. É bonito. Mostra um trecho de floresta. Belíssimas árvores. Dançando ao redor de uma, de mãos dadas, cinco gnomos. Um deles é a minha cara.

Simone nua

Descobri, hoje, que nenhuma foto de mulher nua irá mexer mais comigo que a de Simone de Beauvoir, aos quarenta e dois anos. Ela foi tirada em Chicago por Art Shay, amigo do amante americano de Simone, Nelson Algren (autor do romance O homem do braço de ouro). Ela acabara de sair de uma banheira. Shay não lhe pediu licença, e ela não o censurou. Disse apenas: "Homem travesso." Não acredito que vá ver jamais tanta "sensualidade simples" e ao mesmo tempo sofisticada (talvez pelo detalhe dos saltos altos, que lhe empinam as nádegas, talvez por ela estar prendendo algo nos cabelos enquanto se olha no espelho, talvez por uma de suas coxas estar encostada na pia). Não sei. Já havia visto a foto, mas só hoje ela me tocou definitivamente com toda a sua beleza. Que homem feliz foi Sartre!

(A foto pode ser vista no livro Tête-à-tête, de Hazel Rowley, traduzido por Adalgisa Campos da Silva, publicado pela Objetiva.)

Como é melhor

Como é melhor aquele amor que dói na carne, que flagela a alma, aquele amor que queima o rosto com suas lágrimas de fogo. Como é melhor aquele amor que traz em cada instante a morte da esperança. Como é melhor aquele amor que toca as campainhas como um mendigo, aquele amor a quem negam pão e oferecem sarcasmo. Aquele amor que os outros acham ridículo. Aquele amor que faz com que nos chamem de senil. Como é melhor aquele amor. Como é único. Como é bom tê-lo assim nos lábios, abrir a janela e soprá-lo. Talvez ele conheça essas complicações de lestes e oestes, de paralelas e coordenadas e encontre aquele lugar único, na cidade, onde lhe negarem pão representará a ventura de ver aqueles lábios se movendo mais uma vez, ainda que não lhe digam a palavra almejada.

O amor

O amor há de ser proclamado pelo vento, pela chuva, pelos passarinhos alvoroçados. Há de ser gritado pelo caminhãozinho da Cândida, do gás, do milho de Piracicaba, da uva de Jundiaí. Há de invadir a cidade, há de se esparramar pelas vilas medeiros, pelos parques novo mundo, pelos jardins ângelas. O amor há de ser ouvido na paulista, na brigadeiro, na angélica e na augusta. Há de impregnar o gosto e o aroma do café e de se insinuar no pãozinho de queijo do bar mais rastaquera. Há de se intrometer nas salas de aula e mudar todas as geografias e trocar todos os nortes e confundir todos os algarismos e ocultar todos os sujeitos de todas as frases de todos os livros. Há de entrar na boca do professor de alemão e fazê-lo dizer te quiero mucho à aluna mais bela e aplicada. Há de inspirar um gato a dar sete saltos mortais sem morrer uma vez sequer e há de fazer um vira-lata alimentado com ração americana latir I love you. O amor há de fazer isso e outras coisas que se espera que ele faça. O amor há de fazer um estardalhaço tão desmedido que pelo menos um som esmaecido dessa balbúrdia chegará a mim. Quando chegar, não sei se sorrirei ou chorarei. Será um bom dia este, com o amor gritando em todas as esquinas.

Minha garganta

Minha garganta já não diz uma palavra. Gastou-se toda com uma. Tenho saudade do tempo em que ela, da aurora ao crepúsculo, dizia amoramoramoramoramoramoramor. Ah, minha garganta hoje tão seca. Como foste feliz.

A coleção de minha amiga

Há algum tempo dei pela falta de minha tíbia. Procurei-a em toda parte, como vocês podem imaginar. Já a dava por irrecuperavelmente perdida quando minha amiga me convidou a visitá-la. Recebeu-me com a delicadeza de sempre. Absorto em contemplá-la, porque assim exige sua beleza, quase não olhei para os objetos daquilo que ela chamou de pequena exposição sentimental. Havia ali o olho de um cornaca indiano, a orelha de um marujo neerlandês, uma graciosa ponta de nariz de um dançarino cubano, um par de sobrancelhas de um curador de arte internacional e os miolos de um filósofo que, morto precocemente de amor, não pôde concluir sua monumental obra em dezessete tomos. Havia uma infinidade dessas reminiscências românticas. Ela pediu que olhasse para um dos objetos em especial. Chorei de emoção. Era uma homenagem inesperada. Como sobressaía, como ficava bem, no meio de tantas preciosidades, minha humilde tíbia de fracassado poeta polonês.

Kama Sutra - CDXIV

Ele gostaria de ter a mão presa entre as suas coxas numa noite em que ela, no meio de um prazeroso sono, não se mexesse por três ou quatro horas. Ou duas, pelo menos. Ou uma. Seria o bastante para que em seus dedos se imprimisse o aroma da relva outonal.

Kama Sutra - CDXIII

Conheço o corpo dela como a palma de minha mão.

Da arte de pinçar

Especialista em erros alheios
ela os pinça
com sua
meticulosa pinça
e os põe na lâmina
e os expõe

Modesta
e filantrópica
enquanto pinça
os erros alheios
para os próprios erros
de tempo não dispõe.

O palavrão

Em Ibitinga, no Colégio Flávio Pinheiro, um menino de uns sete anos aproximou-se e falando baixo, porque o assunto era grave e ele queria me preservar, alertou-me que eu tinha escrito um palavrão em uma de minhas histórias. Mantendo a discrição, pedi que a mostrasse. Protegendo o livro dos olhares dos outros meninos, ele apontou a palavra: capeta.

Polônia

Nunca vi a Polônia, nunca a verei. Uma amiga uma vez me convidou para carregar suas malas numa viagem à Índia, e outra vez numa viagem ao Japão. À Polônia não lhe ocorreu convidar-me. E, de uns tempos para cá, venho sentindo o impulso de ir à Polônia antes de morrer. Não obedecerei ao impulso. Teria vergonha de dizer lá que, para mim, a Polônia foi sempre só a terra dos meus pais. Eu devia ter descoberto antes que a Polônia é a terra de Wislawa e Chopin. A Polônia me dói no peito como uma mãe abandonada pelo filho.

Lá de cima

Logo poderei mandar-te um presente digno de ti. Se não falharem as previsões de parentes e amigos, aqueles que de verdade torcem por mim, amanhã ou depois estarei no céu. Antes de ir, se me encomendares, juro que arranjo um jeito e te mando de lá uma estrela. Bem, talvez tu não a queiras. Andas tão birrenta comigo. Queres saber? Eu mando mesmo assim.

O direito

Eu trago a morte no peito
como um passaporte
como uma licença
como um direito

Não saio de minha residência
sem ela no paletó
nem que a vaca lance raios
nem que Deus tussa
nem que se anexe à Polônia
toda a terra russa
e nem que um pervertido lamba
dos pés à cabeça
a estátua de sal
da mulher de Ló

Não sei se a morte
é um direito constitucional
ou divino
mas sei que
quando chegar a minha ocasião
não admitirei exceção
nem que um causídico
encontre um preceito jurídico
em alguma antiga ordenação.

Sartre e Simone

Sartre e Simone de Beauvoir
estão no mesmo jazigo
e como filósofos
que foram e são
envolvem-se
em diária discussão:

- estar aqui contigo
estares aqui comigo
é fato ou ilusão?

Simone nas entrelinhas

Creio que um dos motivos do interesse ainda suscitado por Jean-Paul Sartre seja o fato de Simone de Beauvoir estar nas entrelinhas dos seus livros e de sua vida.

Uma frase de Sartre

"O homem é condenado a ser livre."

(Extraída do livro Tête-à-tête, de Hazel Rowley, tradução de Adalgisa Campos da Silva, publicado pela Objetiva.)

Um poema de Lu Menezes

             "UTENSÍLIOS

             Para extrair
     do alumínio seu lúmen
                 usaria

     o desusado, exaurido
            verbo "haurir"

                 Arearia

                 panelas
à beira de um rio, mergulhada

           no alumínio luzidio

              - "haurindo-o" -
                polindo-lhe

             a índole de água

           e o ímpeto de prata
                  com grãos
             de ouro de areia
                    arearia

                   "ourada"

         submersa em seu domínio."

(Do livro Esses poetas - Uma antologia dos anos 90, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda, publicada pela Aeroplano.)



   

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Ufa!

Logo eu te darei paz. Não te importunarei mais com mensagens, com apelos, com choramingações. Te livrarás de minhas monótonas rimas consoantes, e também das toantes, dos meus quartetos e tercetos, do brilho baço de minhas chaves de ouro. Mortos talvez até escrevam versos, mas como enviá-los? E que diferença faria se os lesses? Tantos que te amaram já morreram clamando no deserto, que diferença fará mais um?

A lógica da vida

Morrerás velha, seca, feia e arreganhada. Não é uma praga, não te preocupes. É a lógica da vida. Não te verei assim. Estou na última curva do caminho. Olho para trás e te vejo, bela molecona, toda sapeca e alegre porque acabaste de passar um trote num velho.

Desmentido

Não, incunábulo não é uma prática sexual dos antigos romanos.

Outras birras

Birra de quem diz moçada, galera, mulherada, pessoal. E de quem diz meu ex, minha patroa, minha janta.

Kama Sutra - CDXII

Instigado pelo oloroso xampu, lamber-lhe a nuca, entrecerrar os olhos, deixar-se tomar pela embriaguez crescente dos sentidos e, aproximando-se sorrateiramente da empinada encosta, ceder à ameaça da braguilha de fazer explodir todos os botões no vale, como se espalhasse sementes.

Kama Sutra - CDXI

Gostaria de ser um passarinho viciado em leite pela dona e de ir buscá-lo em seus róseos mamilos. Saberia bicá-los com delicadeza, como um beija-flor.

Do envelhecimento das palavras

Uma das intuições que o escritor deve ter, em qualquer época, é a de pressentir quais palavras e expressões estão mais sujeitas ao envelhecimento. Apostar em modismos é quase sempre correr um risco. O cronista pode adotar essas palavras e expressões que surgem de repente e parecem ter uma força que geralmente não corresponde a essa aparência. As gírias são sempre perigosas. Algumas acabam adquirindo ares de nobreza. A maioria, porém, deve ser posta sob suspeição pelos contistas, novelistas e romancistas, que costumam aspirar a ter uma obra duradoura.

Um poema de Paulo Lins

                                  "Sou
                                    Seu
                                    Cio
                                    Sou
                                    Seu
                                   Ócio
                              Sou Seu
                                  Sócio
                                       no
                                 Prazer."

(Do livro Esses poetas - Uma antologia dos anos 80, organizado por Heloisa Buarque de Hollanda e publicado pela Aeroplano.)

 

Michê

Como uma puta eu me dei,
Me ajoelhei diante de ti.
Te diverti, recreei,
Nem um vintém recebi.

Inter faeces et urinam nascimur

Nascemos entre fezes e urina. Depois melhoramos, mas não muito.

Havia uma bola no meio do caminho

O pato vinha cantando alegremente.

Birras

Birra de quem na sua coluna se diz "este colunista" e de quem, em sua crônica, se proclama "este cronista". E também de quem usa a frase "como eu costumo dizer".

Soneto do malogro integral

Eu sou um fruto malsão
De um desastroso plantio
Lançado em solo tardio
Por erro do coração.

Sou uma falha, um senão,
Um desacerto, um desvio,
Um frêmito, um calafrio
Num filme de pastelão.

Sou um gorado projeto,
Sou um desastre completo,
Mas não me julgam assim.

Se sou folha e me veem fruto
E se essa fraude desfruto,
De quem é a culpa? De mim?

Inspiradora

Tornaste menos canhestras minhas estrofes e deste certo jeito às rimas. Já posso ler meus sonetos com menos desgosto. Se um dia eu me tornar conhecido, deverei isso a ti. Em conluio com o amor, ensinaste-me algumas manhas, determinadas maneiras, formas menos desgraciosas. Me inspiraste. Imagino como devem estar agora aqueles dois marinheiros teus amigos, o batavo e o malaio, que só sabiam dar nós e laços. Um deles deve estar tocando cítara e o outro bem pode ter aprendido a fazer objetos de porcelana.

O mês

Que mês fatal é dezembro.
Recordações boas traz,
E reminiscências más,
Que rindo e chorando lembro.

Palco

Sei que, seja como for,
Irei fazer muita falta.
Que outro palerma vão pôr
Em meu lugar, na ribalta?

O nome

O nome mais simpático que os cachorros têm é aquele que os bebês lhes dão: au-au.

Soneto da convocação

Preciso de ti agora,
Não amanhã ou depois,
Já no dia um, não no dois,
E logo na primeira hora.

Sabes bem que estou no fim,
Que irei numa destas tardes,
E espero que tu não tardes
Como tardas, tanto assim.

Esquece os agravos meus
E vem me dizer adeus.
Te custa tanto dizer?

Se continuares tardando,
Quando acabares chegando
Não poderei mais te ver.

Kama Sutra - CDX

Se pensa nela, uma febre começa a latejar em seu corpo e ele luta para não pecar novamente. Sai para caminhar, toma um banho de água fria, mas acaba vencido, sempre, e enquanto se manipula e arqueja, ouve as vozes da sua infância advertindo-o das danações em que incorre quem ensina à mão o desenho do corpo de uma mulher.

O presente

Escolherei uma estrela pequena, que possas levar na bolsa, com o celular. Nas noites em que a prenderes nos cabelos, perguntarão onde conseguiste comprar tão graciosa joia. Responderás que um amigo meio esquisito a pescou no céu, com um binóculo armado de anzol. No início te invejarão e pegarás um tardio sarampo. Depois se acostumarão e a pequena estrela não lhes parecerá mais tão brilhante. Também tu, aos poucos, não a acharás tão bela. Não a levarás mais contigo, nem na bolsa nem enredada nos cabelos. Ela ficará numa gaveta, dessas que só se abrem quando morremos e cabe aos filhos livrar-se do que fomos.

Triagem

Querem fazer-nos de tolos.
Proclamam-se artistas, poetas,
Cineastas, gênios, estetas.
Sabemos bem onde pô-los.

Desencanto

Umas negam o canal,
Enquanto outras logo o cedem.
Não se iludam. No final
Todos cheiram, todos fedem.

Heterônimos

Quando Fernando Pessoa morreu, abriram-se no cemitério cento e tantas covas e foram chamados todos os pássaros e todas as flores da cidade.

Um poema de Lu Menezes

"A gordura dela piscou para mim
  
O elevador foi descendo dilatando
      o tempo e as papoulas
            do seu vestido

      cresceram, brilharam,
        plantaram-se no ar

     - Pedi-lhe desculpa; ouvi
que 'braço de flor não bate em ninguém'

            A tal altura, claro,
  de sua fala saltou uma borboleta
         e saímos logo voando
do mais opiáceo edifício da Rua Buenos Aires."

(Do livro Esses poetas - Uma antologia dos anos 90, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda e publicada pela Aeroplano.)

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Sei hoje

Sei hoje que me bastaria haver amado. Ter proclamado meu amor foi um erro. Era tão grande. Quem acreditaria nele?

Kama Sutra - CDIX

Sonha que é um reprodutor, um soberbo cavalo posto diante de uma égua que com seus relinchos antegozosos derruba os frutos das árvores quando ele a espeta com seu ferro. Aprofunda-se, enfia-se todo, derrama-se inteiro dentro dela e quando, com os olhos turvados pelo prazer, se desenterra dolorosamente e finca os cascos dianteiros na terra, não vê mais á égua. Uma mulher belissimamente nua lhe sorri e em suas coxas espuma o leite que ele acabou de verter. Nesse instante, ele sabe que já teve esse sonho e passa a esperar que ela lhe diga palavras carinhosas, lhe afague o focinho, lhe dê tapinhas na garupa e lhe traga a forragem que mereceu.

Kama Sutra - CDVIII

Toda madrugada, enquanto ele se dobra e se redobra para servi-la sexualmente, ela fica com os dentes enterrados no seu pescoço. De manhã, quando ela o tira de cima do seu corpo satisfeito, ele está leve como um tapete. Ela o estende no chão e vai para o chuveiro. Ao voltar para o quarto, vê sempre a mesma cena: o gato sobre o tapete, lambiscando as últimas gotas de suor e sangue.

Gosto estranho

Ne pensão das rameiras, deram-me leite. Estranhei o gosto. As aristocráticas damas da Paulista davam-me para beber sua urina, dourada como os seus brasões e os seus cabelos. Custei a aceitar a mudança.

Ansiedade

Há momentos no dia, principalmente quando vem chegando o crepúsculo, em que anseio pela morte como um rapazola anseia pelo primeiro beijo.

Um poema de Augusto Massi

"NOTURNO DA FOLHA DE SÃO PAULO

Começamos a descida,
os quatro andares,
os quatro elementos,
o torvelinho da saída.

último rito que sobrevive
ao fechamento do jornal:
dividir o maço de cigarro
e a conversa no elevador.

Cada um de nós filtra
fatos em fuga lenta.
As notícias noturnas
reverberam no rosto.

Ouço, ao rés do chão,
aquela música negativa,
tosca litania mecânica
escapando das rotativas.

Nosso roteiro final é a rua,
pensamento empastelado,
fotolito de homens comuns
impressos a céu aberto."

(Do livro Esses poetas - Uma antologia dos anos 90, organizado por Heloísa Buarque de Hollanda, publicado pela Aeroplano.)

Uma parte de São Paulo

Sou uma parte desta cidade. Sou uma lasca de cimento, um farelo de tijolo, o entulho de um palacete antigo. Sou uma saliva de mendigo, o pingo da urina de um bêbado, um papel de bala, um maço de cigarros com uma daquelas fotos de pulmões cancerosos. Deus! E eu quis ser poeta. Nada aprendi com Álvares de Azevedo e Fagundes Varela. Meus ares de grandeza ficaram na adolescência. Felizmente minha mãe há muito tempo morreu. Ela me previa tão grande futuro. Se me visse hoje... Foi para isso que meus irmãos trabalharam? Eu me embriaguei de literatura e a maior honra que consegui com ela foi a de lamber a barra da saia de damas emproadas. Lembro-me ainda de seus leques, de como elas os agitavam para renovar o ar do ambiente em que eu tivesse estado. Lembro-me do desdém de seus gestos quando eu me aproximava. Não há mulheres mais cruéis que as mulheres paulistanas.

Depois do grande baile

Tenho hoje o sentimento de quem, havendo cochilado num grande baile, acorda e já não sabe onde está. As luzes, os sons da orquestra, tudo se apagou. Os pares se foram, a lua se foi, foram-se as estrelas que se aproximavam das grandes janelas e espiavam para dentro do salão. Nenhum sinal sobrou dos músicos, eles se foram, com os instrumentos. Persiste no ar um aroma de champanhe e de suaves perfumes femininos. A mulher para quem sorri toda a noite deve estar nos braços do homem de bigodinho. Eu bebi demais e estou onde caí. Ao lado do palco. Os homens vão carregando para fora as mesas e as cadeiras. A água dos grandes baldes logo se esparramará pelo soalho. Todas as pegadas dos dançarinos se dissiparão. Também as dela. O sol entra no salão, como se fosse o chefe dos limpadores. Olha para mim. Há censura nele. Devo levantar-me, se conseguir, e ir embora, ou me arrastarão para fora. Sou uma mesa, uma cadeira, um traste. Quero morrer.

Minigâncias

Estarei morto
estarás morta
e não importará mais
o que hoje importa

Daqui a quatro mil anos
teres negado
ou teres dado
o sorriso
o abraço
de que tanto preciso
será tão desimportante
e sem significação
quanto saber
se existiu Dante
ou quem foi Napoleão.

Meu brasão

A efígie de um animal,
Um burro, ou um mais idiota,
Um dístico bem banal
E um grande D, de derrota.

O jogo

Eu também entrei no jogo do amor. Disseram-me que era simples, eu acreditei. Eu era triste e pensei que o jogo talvez pudesse me ensinar coisas básicas como abrir um sorriso. No início, aplaudiram tudo que fiz. Eu estava indo muito bem. Um dia, ouvi uma conversa e caí das nuvens. Assim como jamais ninguém me pegou no pega-pega quando menino, descobri que estava sendo poupado, como naquele tempo. Eu servia apenas para completar o número de participantes. Eu era sempre o terceiro ou o quarto, às vezes o quinto. A organizadora do jogo me usava para ser seu pateta. Eu fazia poemas, eu arregimentava sóis e luas, eu subia ao ponto mais alto do navio e  ninguém me alcançava. A dona do navio e seus marinheiros tentavam, tentavam, mas ninguém me tocava. Ao ouvir por acaso uma conversa deles, descobri que o objetivo do jogo era todos se apanharem. Perguntei a eles, perguntei a ela por que faziam aquilo comigo, por que não me apanhavam também. Explicaram-me que eu era muito fácil, que eu não valia a pena. Quando chorei, disseram-me que, se eu quisesse participar de alguma forma, poderia ser como espectador. Não deveria ter aceitado. Aceitei. Vejo como se abraçam, como se dão, ela e seus marinheiros, como durante o jogo o navio se empina e salta melhor as ondas, como um cavalo selvagem. Não são maus, no fundo, nem ela nem eles. Às vezes, perguntam se eu posso ir pegar algum acessório que esqueceram. Eu vou. Eu pego.

"Pé na cova"

Às terças a tevê dá sinal de vida. E é num programa de caixões e defuntos. Pé na cova. Os novos humoristas talvez consigam fazer algo parecido, se seguirem o conselho de Nelson Rodrigues: envelhecerem. Quarenta anos talvez sejam suficientes. Miguel Falabella e Marília Pêra estão irretocáveis.

Conluio

Às vezes um fonema
se junta a outros fonemas
em silenciosa reunião

Dela não surge
uma rebelião
uma conspiração

Nasce um poema.

Soneto da identidade

Sou hoje aquele que sou.
O que eu podia ter sido,
O que eu podia ter tido,
Já no passado ficou.

Aquilo que me tentou
E me deixou seduzido,
Foi tudo a pó reduzido,
Sou hoje o que me restou.

Nada mais quero ou espero,
Sou zero, almejo ser zero,
Estou muito bem assim.

Já não tenho mais anseios,
Não me preocupam os meios,
Há muito cheguei ao fim.

Frustração

Cada quadrinha na qual se põe um ponto final é um soneto fracassado.

Peculiaridade

Lambi o chão que ela pisou. Uma das peculiaridades de minha loucura é achar tudo doce.

Acalanto

Quem há de ninar os meninos mortos? Quem há de, quando chega a noite, falar com eles, livrá-los do horror das trevas? Quem há de contar-lhes histórias, quem há de dizer-lhes que estão num reino encantado ao qual só têm acesso os que são bons demais para viver? Quem lhes garantirá que os tatupebas não existem?

Sazão

Já não temos mais escolhas.
Quisemos flores e frutos,
Goraram os usufrutos,
Colhemos agora as folhas.

Sonetos

Faço sonetos cada dia com maior facilidade, assim como quem respira. Como quem respira mal.

"Coisas que são desdenhadas", de Sei Shônagon

"Coisas que são desdenhadas: muros danificados, pessoas conhecidas por seu coração bom demais."

(De O livro do travesseiro, tradução de Geni Wakisaka, Junko Ota, Lica Hashimoto, Luiza Nana Yoshida e Madalena Hashimoto Cordaro, publicado pela Editora 34.)

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Mais um trecho de João Antônio

"Vou catar um café, turco e forte e caro, no bar dos marroquinos, que engulo aos poucos e é uma refeição, pão, queijo, salpicão ou algum arenque admirável, cru e fresco, que a época é de safra nova. Saboreio, olhos espetados na rua de mulheres. Aqui, rua das dominicanas, as mais desbocadas do bairro, já na manhã se expondo à batalha da vida, sentadas, provocando, em tangas. Negras mestiças, mulatas na maioria, no chamamento rente e direto. Aos homens:
   - Venha, que vou te tirar o leite com a boca.
   Mercadejando, completas, a preço módico. Uma tabela que sobe, se muito, aos trinta e cinco florins. Fora desta ruela, o michê quase dobra. Lá nas vitrines melhores, de ceilandesas, alemãs, holandesas; grinfas da França, da Bélgica, das Filipinas, um mulherio chegado de muitos lados mais a mulataria bonita de ver, sestrosa, ingênua só na aparência do olhar lá de Tobago, Aruba, Tortuga, Trinidad, Curaçao... a marca menor é nos cinquenta florins. E quando a cortina se fecha, o freguês dentro, é aí.
   Elas jogam a manha, seduzem e rapam grana maior. São minas de traquejo, das que navegaram mares. Habilidade tanta e vida se escondem detrás das vitrinas, tanto, que um artista de cabaré, classudo, que tempera com humor e é popular, vive de e para a crônica da marafonaria. E é querido. Que corpos estrategicamente nus ou semi, insinuação fina, colocando-se à poltrona em frente à rua, alguns em apenas sutiãs e sem calcinha. Homens perambulam, farejam, disfarçam, escolhem, tímidos, perplexos, atrevidos, carecas, gordos, basbaques, guapos. E há, então, um clima mudo. Um quê coletivo e convencionado no bairro das lanternas vermelhas. Vamos à sacanagem.
   Afinal, toma meus suspiros e minha falta de ar, toma os frios do meu corpo, me agasalha no vórtice de tuas pernas e satisfaze meu tesão, és Amsterdam. E me ama, muito, qu'eu preciso."

(Do conto "Amsterdam ai", do livro Abraçado ao meu rancor, publicado pela Editora Guanabara.)

Cartilha

A Morte folheia sua cartilha (ela ainda não entrou na era digital) e vai arrancando folhas. E lá se vão aves, evas e ivos, enquanto raul, reinaldo e romeu, sem esconder o cinismo, comendo ovos e uvas, cantarolam: antes eles do que eu.

Kama Sutra - CDVII

Pousar a mão no ventre dela, sentir-lhe a palpitação, prepará-la para o plantio e deitar sobre ela como os rios bíblicos rasgando pela primeira vez a terra e derramando ali a espumante seiva da qual nascem todos os homens, todas as venturas e todas as desventuras do mundo.

Definição

Hebdomadário é um dromedário com sete corcovas.

Lobo velho

Atraí-la para a floresta, contar-lhe lorotas, elogiar seus cabelos, seu chapéu, seduzi-la. Para quê? Para comer-lhe a merenda?

Kama Sutra - CDVI

Beijá-la muito, deixá-la furtar todas as palavras de nossa boca e devorá-las. Ficar só com os monossílabos, murmurá-los com os lábios colados aos dela e permitir que, aos poucos, ela também os molhe com sua saliva ternamente venenosa e os saboreie, e os faça descer até seu estômago, onde jazem já tantas queixas poéticas.

Kama Sutra - CDV

Como um vento meridional, dizer-lhe mornas obscenidades ao ouvido, soprar-lhe os cabelos, suspender-lhe a saia, fazer cócegas no seu ventre e no umbigo e, aproximando-se da relva, rogar aos fios ruivos que escapam da calcinha branca que a incitem a mover-se para baixo devagar, como um veleiro deslizando num sonho.

Priscylla

Como um espécime, um só, pode nos fazer desacreditar de toda uma espécie?

Acalanto

Fechar os olhos, morrer.
Ficar assim, sem sonhar,
No esquecimento flutuar.
Que mais se pode querer?

Um poema de Gottfried Benn (1886-1956)

"O homem:
Nesta fila aqui estão ventres apodrecidos
e nesta está o peito apodrecido.
Lado a lado camas malcheirosas. As enfermeiras revezam-se a cada hora.

Vem, levanta sem medo esta coberta.
Vê, esse monte de gordura e sumos putrefatos
para um homem um dia já foi tudo,
também foi êxtase, lar.

Vem, olha esta cicatriz no peito.
Sentes o rosário de pontos moles?
Toca, sem medo. A carne é mole e não dói.

Esta aqui sangra como se de trinta corpos.
Ninguém tem tanto sangue.
Desta aqui ainda tiraram
um filho do ventre canceroso.

Deixa-se que durmam. Dia e noite. - Aos novos
diz-se: aqui o sono cura. - Só aos domingos
para as visitas podem estar mais despertos.

Já se come pouco. As costas
são feridas. Vês as moscas. Às vezes
a enfermeira lava. Como se lavam bancos.

Aqui o solo já incha em torno de cada leito.
Carne nivela-se à terra. Brasa vai-se embora.
Sumo começa a correr. Terra chama."

(Da coletânea Poesia expressionista alemã, organizada e traduzida por Claudia Cavalcanti, publicada pela Estação Liberdade.)

O amor nos pesa

O amor nos pesa cada dia mais. Não nos queixamos, porém. Não somos tolos. De repente Deus nos ouve e nos alivia o fardo, ou nos livra dele. Ergueremos então os olhos para o céu, para a lua, para as estrelas. E de que nos servirá olhá-los? Jamais conseguiremos entendê-los. O céu, a lua e as estrelas são palavras que só existem no dicionário do amor. Por isso, o amor há de doer em nossos ombros. Nossos ombros foram feitos para carregá-lo. E que bem-aventurados somos nós, nos dias em que ele pesa mais e nos crava as esporas e podemos dizer ai amor.

Canastrão

Gastei o melhor de mim
Tentando te impressionar.
A peça chegou ao fim,
Hoje já podes vaiar.

Lacuna

Hão de sentir minha perda.
Onde é que irão encontrar
Pateta tão exemplar,
Tão invulgar zero à esquerda?

Solução

Já que tudo em nossa vida
Não entusiasma nem presta,
Morrer é a nossa saída,
Morrer é só o que resta.

Gênio da lâmpada

Se algum pedido eu tivesse,
Eu gostaria de ser
Um escritor que soubesse
O que é de fato escrever.

Soneto das inutilidades

Serão inúteis as flores
Quando tu morto estiveres
E já fruir não puderes
Nem aromas e nem cores.

E o que farás com as mulheres
Quando tu morto já fores
E nem amores nem dores
Receber delas puderes?

Colhe tudo agora, já,
Enquanto colheita há,
E caules e seios morde.

Logo os dias chegarão
Em que nenhuma paixão
Haverá mais que te acorde.

Kama Sutra - CDIV

Quando entrei na taverna e perguntei por ti, marinheiros de catorze países disseram que não te viam fazia muito tempo e lamentaram também a tua ausência, olhando para as mãos com tristeza. Em todas elas a nostalgia havia traçado a geografia do teu corpo.

Obstinação

Sou forte. Se uma mulher montar em mim, ela pode estar certa de que a conduzirei, ainda que me doa o lombo e por mais que pesem seu orgulho e seu desdém.

Simples

Sofrer é uma atividade humana tão comum quanto respirar.

Um trecho de João Antônio

"Enlevada, assim cidade-mulher e acarinhada neste maio, já cedo com seus barcos e seus marrecos entre as águas dos canais, linda. Além dos carrilhões das igrejas, as carrocinhas de música, mantidas pelas moedas do povo passante pelos cuidados de anônimos voluntários comem o ar, realejos enormes, coloridos e valsosos. É onomatopaico, teu nome. Amsterdam, Amsterdam, ô inesquecível, já começas nome soando como batida de sino. Sua bonita.
   Toda entulipada, colorida de azul, de vermelho, de amarelo como em teus campos incomparáveis, únicos, a explicar, se há sol e se há vento, a arrebentação de um talento em cor como Van Gogh. Sua loiraça, ficas engalanada, casa de bonecas. Nem te chamarei de lindinha, és feito a pele de suas mulheres, louraça de coxas brancas. Sua bonita."

(Do conto "Amsterdam ai", do livro Abraçado ao meu rancor, publicado pela Editora Guanabara.)

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Penitenciária agrícola

O rubicundo sol
carcereiro pontual
me acorda
para outro dia igual

Me dá o pão seco
o café ralo
e cordial me instiga
a acompanhá-lo

Eu o sigo
porque ele é gente fina
e tem na mão
uma carabina

Cavarei plantarei
e por mais
que cave e que plante
ele exigirá mais mais

Voltarei à cela humilhado
morto despedaçado
mas louvarei
deus nosso pai.

Figura gramatical

Porque velho burro eu sou,
Busquei o amor com entusiasmo.
O amor, é claro, gorou,
E velho burro é um pleonasmo.

O aventureiro desventurado

Os seus três filhos o olharam
Com ar de comiseração.
As duas viagens falharam:
Para a Índia e para o Japão.

Um trecho de Marguerite Duras

"Ele arranca o vestido, joga-o, arranca a calcinha de algodão branco e a leva nua assim até a cama. E então se vira para o outro lado e chora. Ela, lenta, paciente, torna a trazê-lo para perto de si e começa a despi-lo. De olhos fechados, ela o despe. Lentamente. Ele quer fazer gestos para ajudá-la. Ela lhe pede que não se mexa. Deixe. Ela diz que quer fazer ela mesma. Ela faz. Ela o despe. Quando ela pede, ele muda o corpo de lugar na cama, mas pouco, levemente, como para não a despertar.
   A pele é de uma suavidade suntuosa. O corpo. O corpo é magro, sem força, sem músculos, podia ser de um doente, de um convalescente, ele é imberbe, sem virilidade a não ser a do sexo, é muito frágil, parece estar à mercê de um insulto, sofrendo. Ela não o olha no rosto. Não o olha. Ela o toca. Toca a suavidade do sexo, da pele, acaricia a cor dourada, a desconhecida novidade. Ele geme, chora. Sente um amor abominável.
   E chorando ele faz. Primeiro vem a dor. E então, depois que essa dor é acolhida, ela é transformada, lentamente arrancada, arrastada para o gozo, abraçada a esse gozo.
   O mar, sem forma, simplesmente incomparável."

(De O amante, tradução de Denise Bottmann, publicado pela Cosacnaify.)

Alfabeto

É coisa mais que sabida,
Ninguém pergunte o porquê:
Nosso alfabeto de vida
Vai de ABC a AVC.

Um trecho de João Antônio

"Trem é escuro, sujo, fede. Não posso, aqui apertado entre fartum, suores, bodum, passar sem irritação e uma coisa me faz olhar esses homens, mulheres, meninos, meninas de cabeça baixa. Fora daqui, por mais que me besuntem de importâncias, fique conhecido ou tenha ares coloridos, um quê me bate e rebate. Foi desta fuligem que saí. E é minha gente."

(Do conto "Abraçado ao meu rancor", do livro homônimo, publicado pela Editora Guanabara.)

Segunda-feira

Acordei com a algazarra dos pássaros e dos meninos do colégio em frente. A alegria bem que poderia ser um pouquinho menos estridente. A quem não a tem, custa aturá-la, com suas gargalhadas. Cada uma delas é uma crítica, um achincalhe à minha tristeza, que passará o dia encolhida no sofá, como um filhote de gato com febre. Eu me achegarei mais à almofada e talvez possa, dormindo, esquecer que não cheguei a conhecer minha mãe. Talvez a almofada ronrone em meu sono e me console. Já não saio, não vou mais nem ao quintal. Passarei este, como todos os outros dias, esperando que a almofada finalmente me chame de meu gatinho, de meu filhote querido.

Arte e artifício

Os leitores mais jovens geralmente se encantam menos com a arte do que com os artifícios. Jogos vocabulares, trocadilhos, cambalhotas estilísticas são o que os empolga. Largam o pacote de pipocas para aplaudir. Talvez a eles agrade o livro Hotel Mundo, de Ali Smith. Eu já não tenho olhos suficientemente espertos para acompanhar acrobacias. Deixei-o no início. Textos longos que pretendem se sustentar tendo como protagonistas só as palavras são um desafio imenso. Não sei se Ali Smith o venceu. Eu desisti de saber. Se for o caso, volto ao Ulisses, de Joyce.

As duas

Que vida a minha, que sina.
A mão esquerda do amor
Me afaga com todo o ardor
E a direita me assassina.

Kama Sutra - CDIII

Que bela és quando te evoco,
Quando me beijas fremente
E a mim te dás ternamente.
Que bela és quando me toco.

Kama Sutra - CDII

Ele a beijaria até que todo o sal do corpo dela se transferisse para os lábios dele e ele morresse da mais abençoada das sedes, delirando como se estivesse no centro do deserto. Desdenharia um oásis, se lhe fosse oferecido.

Aquela do papagaio

Eu vivi para a humilhação e para a derrota. Tudo que eu quis, minhas aspirações, meus ideais foram todos apenas introduções para as gargalhadas que recebi no final. Minha vida foi uma piada. Queiram rir, por favor. Isto, assim.

Quites

Se você lesse
a minha mente
como eu
leio a sua mente
você leria
que a minha
descarada mente
como a sua
mente descarada
mente.

Kama Sutra - CDI

Assim que a abraça, seu corpo começa a ser percorrido por convulsões que logo se transformam numa leitosa e frenética epilepsia.

Kama Sutra - CD

Em meus sonhos eu te bebo, eu te devoro, eu me sacio com o banquete de tua carne e de tuas fontes salgadas.

Amigo das miudezas

Tenho espírito de cronista. Gosto de miudezas, insignificâncias, singelezas. Minha simpatia é dos vices, dos penúltimos, dos que exultam com menções honrosas, dos derrotados que exibem sorridentes não medalhas, mas as marcas que lhes foram impostas pelos que tiveram o braço erguido pelo juiz. Encantam-me os heróis cujo nome é preciso perguntar e soletrar, confirmando sílaba por sílaba. Gosto daqueles que, como eu, têm na gaveta um recorte já quase esfarelado, uma notícia de um jornal estudantil de cinquenta anos atrás, em que aparecem ostentando uma medalha de bronze de um torneio de pingue-pongue.

"Os poderes infernais", de Carlos Drummond de Andrade

"O meu amor faísca na medula,
pois que na superfície ele anoitece.
Abre na escuridão sua quermesse.
É todo fome, e eis que repele a gula.

Sua escama de fel nunca se anula
e seu rangido nada tem de prece.
Uma aranha invisível é o que o tece.
O meu amor, paralisado, pula.

Pulula, ulula. Salve, lobo triste!
Quando eu secar, ele estará vivendo,
já não vive de mim, nele é que existe

o que sou, o que sobro, esmigalhado.
O meu amor é tudo que, morrendo,
não morre todo, e fica no ar, parado."

(De Obra completa, publicado pela Companhia Aguilar Editora.)

domingo, 20 de outubro de 2013

Kama Sutra - CCCXCIX

Minha mão conquistaria o centro de ti, descansaria um pouco ali, na relva, para se recompor da aventura, e quando voltasse para mim eu a beijaria, dedo por dedo, para reconhecer o teu gosto.

Encruzilhada

Sim, eu chegarei ao porto.
Sim, eu chegarei ao fim
Dos meus quatro rumos, sim.
Morto, morto, morto, morto.

Kama Sutra - CCCXCVIII

Eu gostaria de ser o teu gato favorito, aquele que, quando o trazes ao colo, sente o capitoso cheiro do teu leite e põe-se a lambiscar tua blusa.

Um poema de Emily Dickinson

"A separação por longos anos não cava
Brecha que em instantes não se preencha;
A ausência da feiticeira
Não invalida o encantamento.

As milenares cinzas
Remexidas pela mão,
Que as atiçou quando eram chama,
Haverão de acordar e compreenderão."

(De Poemas escolhidos, tradução de Ivo Bender, publicado pela L&PM Pocket.)

Será um dia comum

Será um dia comum, este. Para quem certa manhã viu brilhar repentinamente na rua uma estrela mais brilhante do que o sol, jamais haverá dia igual. Pretender que haja um é um sacrilégio. A luz do amor brilha uma vez, uma só, e pelo resto da vida a memória tentará se lembrar desse brilho, do seu fulgor fazendo arder a calçada, como se por meio segundo ali se houvesse esparramado o ouro de mil quatrocentas e quarenta e quatro rosas.

Ao amor...

... oferecemos nosso pescoço, e ele nos deu um colar, como se fôssemos uma rameira. Ao amor ofertamos nosso olhar, e ele se escondeu sob mil disfarces. Ao amor oferecemos nossa alma, e ele nos provou que experimentos recentes confirmaram a inexistência da alma. Ao amor oferecemos a vida, e ele tapou o nariz, como se lhe ofertássemos um cachorro leproso.

Que desgraçados...

... são aqueles que, tendo desenvolvido desde a infância seu talento para o Amor e aspirando a ser seus súditos, são rejeitados em todas as provas. Quando passam pelo palácio onde o Amor reina e ouvem o prazenteiro sibilar do chicote e os gemidos dos felizes chicoteados, lançam maldições contra todos os deuses, que lhes deram os ombros errados. Têm certeza de que, se suas costas fossem vergastadas, ali nasceriam as mais belas flores do mundo.

Ah, devíamos

Ah, devíamos ter saltado lá de cima sobre a multidão num desses Sete de Setembros. Talvez conseguíssemos bater coordenadamente as asas antes de descobrirem, lá embaixo, que éramos um pássaro falso. Seria um momento único de civismo. A mídia daria destaque ao nosso voo e lamentaria que não houvesse na olimpíada uma prova para saltos ornamentais de suicidas. Que orgulho. O melhor suicida do mundo era um brasileiro. Nosso baque se confundiria com o repique dos tambores, e nosso sangue, espirrando na calçada, escreveria uma palavra. Só haveria uma decepção. A palavra não seria Brasil nem Pátria. Seria, em caprichadas maiúsculas, Amor.

Projeto gorado

Escolhemos a corda, treinamos o laço, o nó perfeito. Encontramos o lugar certo para fixá-la. Ah, seríamos talvez quase belos, como um candelabro pendente no centro da sala. Sob a desculpa do aprimoramento, deixamos passar os dias. E hoje, se pendermos no meio da sala, seremos como uma lâmpada amarelada, baça, um espantalho urbano destinado a afugentar moscas e mosquitos.

Domingos

No nosso dia final, todos os domingos que entristecemos com nossa inapetência para a vida virão cobrar-nos. Chegarão de mãos dadas, como meninas que quiseram brincar e receberam de nós aquela seca e inalterável palavra não. Terão no rosto, enfim, o sorriso que lhes negamos quando quiseram dar-nos seu sorriso. E seu sorriso será velho e enrugado, como o nosso. Morrerão conosco, amargos, ressentidos, esses pobres domingos, essa meninas às quais não quisemos dar nem infância nem alegria.

Soneto da beleza ensolarada

O sol sabe utilizar-te.
Dá gosto ver como ele usa
As casas da tua blusa
Para jogar xadrez. Que arte

Ele mostra ao se dispor
A percorrer teus cabelos
E a luminosos mantê-los,
Plenos de vida e de cor.

O sol bem sabe que o dia
Sem ti não tem alegria
E vem sempre te buscar,

Como se fosse possível,
Imaginável e crível
Tua beleza aumentar.

Promessa

Há muito tempo eu me dispus a dedicar toda a minha vida à literatura. Continuo com essa disposição. Mas o que significa, hoje, toda a minha vida?

Da honestidade

Ser honesto na vida me preocupa menos do que ser honesto na literatura. Não me sinto falso por isso. Magoar um personagem custa-me mais que magoar uma pessoa.

O mínimo

Que eu tenha deficiências de estilo e forma. Que também o conteúdo claudique. Mas que a emoção esteja presente em cada frase, em qualquer palavra, em todas as sílabas.

Reconhecimento tardio

Depois de tantas décadas, começo a me resignar à ideia de não ter sido, nunca, o que sempre imaginei ser. Em nosso benefício, quantos vermes que se arrastam no solo são cantados como passarinhos.

Horário de verão

Essa hora a menos veio mesmo a calhar. Por que só uma? Quantas lágrimas poupadas.

Simples

Sofrer é uma atividade humana tão comum quanto respirar.

Um poema de Iwan Goll

"A longa caravana de nosso desejo
Nunca encontra o oásis das sombras e ninfas!
Amor nos chamusca, pássaros da dor
Devoram mais e mais nosso coração.
Ah, conhecemos águas e ventos frios:
Elísio poderia estar em toda parte!
Mas caminhamos, caminhamos sempre no desejo!
Em algum lugar salta um homem da janela
Atrás de uma estrela, e morre,
Alguém procura na galeria
Seu sonho de cera e o ama -
Mas um fogo queima em nós no sequioso coração,
Ah, corressem Nilo e Niágara
Através de nós, então gritaríamos ainda mais sedentos!"

(Da antologia Poesia expressionista alemã, tradução de Claudia Cavalcanti, publicada pela Estação Liberdade.)

sábado, 19 de outubro de 2013

Sábado

Que o sábado me dê uma lição e retribua com um sorriso amplo minha careta de ceticismo. Que ele me seja leve, como a vocês, e, se puder, deixe uma lembrança profunda, ainda que seja daquelas que virão a doer, um dia. Que o amor tenha destinado este sábado para desenhar na pele de vocês, e na alma, a única marca que vale todas as dores: a do amor.

Garoto abraçado ao mundo

No colégio em Ibitinga, enquanto eu falava com os alunos, um deles, um garotinho entre seis e oito anos, se manteve abraçado à professora. Era filho dela e, se bem que ainda não tivesse aprendido tudo que virá a conhecer, sabia já uma noção básica de geografia e afeto: ela é o seu mundo.

Soneto dos dois mentirosos

Nós sempre nos demos bem.
Quando você me mentia,
Eu logo retribuía
E lhe mentia também.

Quando você me dizia
Amar-me mais que a ninguém,
Eu duvidava que alguém
Maior amor lhe daria.

Você soube bem mentir,
Sabe que mentiu demais,
Mas eu menti muito mais.

Soubemos nos iludir:
Você disse amar-me um pouco,
E eu, que a amava como um louco.

Kama Sutra - CCCXCVII

Ele já a conhecia, embora vagamente, e tudo no encontro se deu como ele havia imaginado. Disseram-lhe que ela, nua, era ainda mais deliciosa, e a fogosidade que haviam lhe atribuído era exatamente como a tinham descrito. O que o surpreendeu e o fez redobrar o ímpeto das estocadas, na cama, foi ela ter, no início do gozo, começado a chamá-lo de Douglas, Douglas, Douglas. Douglas era o nome do homem que ela mais amara, e que a havia abandonado ao se descobrir traído, dez anos antes. Assumindo o nome e o rancor de Douglas, cravou-se nela como se a estivesse supliciando. E ela lhe agradecia: Douglas, Douglas, Douglas, Douglas, ah, Douglas.

A virtude

A maior virtude que nos cabe alcançar é a resignação. Devemos lutar para atingi-la. Se não conseguirmos, cumpre resignar-nos.

Queima de arquivo

Quando começamos a entender alguma coisa do mundo e da vida, Deus nos fecha os olhos. Sabe que não pode confiar em nós.

Algoz

Sou a minha vítima preferida. Tenho quase uma relação de amor comigo mesmo.

Legítima defesa

Quando começamos a pensar em renunciar à vida, ela há muito já renunciou a nós.

Queridinho

Fui muito mimado por Deus, desde menino. Tive o que pedi e o que não pedi. Vários castelos, rainhas diversas. Nem lhe pedirei uma boa morte. Sei que Ele me dará.

Cem por cento fora o resto

E pensar que houve um tempo no qual o biografado, além de autorizar, pagava pela biografia.

Quatro versos de Yeats

"Fazer o que com esse disparate
Ai de mim, alma perplexa - essa caricatura,
Idade decrépita que me foi atada
Como se ao rabo de um cão?"

(De The tower.)

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Um cronista

Toda cidade, por menor que seja, há de ter um cronista. Alguém há de olhar com olhos especiais uma árvore, um gato, aquele indefectível cachorro que aparece na rodoviária meia hora antes da chegada de um ônibus de fora e fica observando os passageiros com curiosidade. Alguém há de falar do aniversário do município todo ano, mesmo que diga sempre a mesma coisa. Alguém precisa saber, como o historiador, em que ano circulou o primeiro guarda-chuva pelas ruas do centrinho, e, mais do que saber, deve falar dele como merece ser falado um guarda-chuva que é visto pela primeira vez em algum lugar. Se inventar que nesse longínquo dia se abriu, junto com o guarda-chuva, um arco-íris, ninguém há de censurá-lo. Se o município não tiver cronista, que ele seja importado em regime de plena urgência. Os cronistas, como os poetas, contentam-se em receber pouco e, se houver um estoque mínimo de estrelas e de rosas, sua alimentação estará garantida.

Um poema de Emily Dickinson

"Como as águas o engolfaram,
Jamais saberemos;
Como espalmou-nos sua angústia,
Também ficou submerso.

Absorto, o lago estendeu seu lençol de nenúfares
Por sobre o menino;
E seu casaco e chapéu, não reclamados,
Resumem a história."

(De Poemas escolhidos, tradução de Ivo Bender, publicado pela L&PM Pocket.)

A bênção

Foi uma bênção termos mentido tanto um ao outro. Trocamos frases de amor que ainda soam em nossa lembrança. Quando, hoje, a realidade se mostra aos nossos olhos, nós não a aceitamos. Somos ainda aqueles que se diziam ternuras. Nossos lábios eram escorregadios, pela passagem de tantas palavras carregadas de mel. Hoje, é só fecharmos os olhos e acreditarmos naquilo tudo. Ah, e suspirar. Como nos amávamos, como nos amamos ainda quando a memória nos leva de volta àquelas ruas pelas quais passeamos como dois adolescentes, tropeçando na felicidade. Eu te amo, tu me amas. O tempo é uma ficção. A mentira é uma bênção.

Soneto da desejável vampira

Febre era o que ele sentia
Assim que o sol vacilava
E a treva se esparramava
Fechando os olhos do dia.

Na cama então se deitava,
Nem uma luz acendia
E enquanto seu corpo ardia
Ele esperava, esperava.

Assim ficava até quando,
Com a meia-noite chegando,
O vento soprava com ira

E com ele vinha deitar-se
E no seu corpo esfregar-se
O corpo de uma vampira.

Um tempo e outro tempo

Há um tempo em que olhar para os outros corpos é o que nos move. E há o tempo final, em que olhar para os outros corpos é condenar o nosso à melancolia. Não há sabedoria capaz de nos convencer de que a velhice é bela. Eu, pelo menos, não engulo essa. Beleza interior? Balela.

Definição

Se eu fosse me definir com um termo tecnológico, diria que sou um produto de última degeneração.

Machado para jovens leitores

Aos leitores jovens aconselho que comecem a ler Machado de Assis pelos contos. Só depois se aventurem pelos romances da fase de ouro: Dom Casmurro, Brás Cubas, Quincas Borba. Aí já terão assimilado, nas narrativas mais curtas, os tons sutis de sua ironia e mordacidade. Se eu tivesse seguido esse roteiro, não execraria Machado como execrei, quando o li aos quinze anos. Não o teria considerado inferior a José de Alencar. Cristo, quantas tolices somos capazes de cometer.

Carpe diem

Aproveita estes momentos em que, quando passas, é como se o ar em torno fosse deleitosamente aspirado e incorporado, com o perfume que deixas nele, pelos corpos juvenis. Aproveita, deixa-te aspirar. Ainda é o tempo em que as braguilhas se excitam à tua passagem, como as folhas das árvores quando o vento morno as toca com intenções esquivas. Momentos haverá em que os olhos não se voltarão para olhar-te. Serás uma folha morta, que o vento jovem da tarde não se curvará para soprar. Deixará a tarefa para o catarroso vento da noite.

Soneto do engano inconcebível

Que tu tenhas me esquecido
É fácil de compreender.
Difícil seria crer
Se não tivesse ocorrido.

No início estive iludido,
Vendo só o que quis ver,
E pude a ilusão manter
De ser amado e entendido.

Que tolice foi supor
Que me darias amor,
Que me darias ternura.

No espelho, quando me olhava,
Era já, quem me fitava,
A minha triste figura.

Um trecho de Gertrude Stein

"Beber é uma coisa estranha.
   Em primeiro lugar não é verdade que quem bebe vinho não fica bêbado. O vinho o vinho natural tem cerca de doze por cento de álcool e se você bebe seis ou sete litros disso por dia e isso é o que comumente fazem quando trabalham o dia todo bem no fim do dia não há nada a dizer a não ser que estão encharcados de bebida.
   As pessoas quando estão bêbadas não são interessantes a não ser que sejam pessoas que quando estão sóbrias sejam um pouco estranhas, e mesmo assim bem mesmo assim apenas no começo é que elas são divertidas. Quem bebe acha o outro que bebe divertido mas isto é só porque estão ambos bêbados. É engraçado as duas coisas de que a maioria dos homens sentem mais orgulho é a coisa que qualquer homem pode fazer e ao fazer faz da mesma maneira, isto é ficar bêbado e ser o pai de seus filhos."

(De Autobiografia de todo mundo, tradução de Júlio Castañon Guimarães, publicado pela Cosacnaify.)