sexta-feira, 31 de julho de 2015

Pris

Tudo, em meu convívio com Priscylla Mariuszka Moskevitch, esteve sempre na esfera de dois sentimentos: o afeto e a beleza. Tudo brilhou, não importa definir agora se como uma estrela ou
um pirilampo. Tudo brilhou e, vivendo na memória, hoje a enriquece como seu maior tesouro.

Pris

Das lembranças que me deixou Priscylla Mariuszka Moskevitch, a tristeza tem sido a mais preciosa, tão intensa que ouso compará-la à dos êxtases místicos.

Pris

Levei algum tempo para relacionar Priscylla Mariuszka Moskevitch com meu súbito retorno à poesia, depois de décadas de uma indiferença que se assemelhava já a um rompimento definitivo. Quando dei conta de mim, estava, como na adolescência, lendo compulsivamente poemas, só poemas, e tentando recuperar antigos ritmos, rimas e cadências. Priscylla me fez olhar novamente para dentro de mim e para o alto.

Pris

Desde o início, relacionei Priscylla Mariuszka Moskevitch à ideia de beleza. Foi algo intuitivo, sem nenhum traço de premeditação, uma obra dos sentidos associada a um pouco de imaginação. A razão não estava presente. Jamais achei adequado julgar a beleza pelo prisma da razão. A beleza é ou não é. Priscylla é.

Dica

Esta aqui, que eu estou dando,
É uma dica mais que boa:
Não nos custa ser Fernando,
Difícil é ser Pessoa.

Ventura

Tu me mataste, querida,
Pena que só uma vez.
Ah, por que o deus que me fez
Me deu somente uma vida?

Mario Quintana

Quintana é uma palavra que os amantes da poesia costumam dizer baixinho, tão reverentemente quanto dizem beleza, esperança e amor.

Mario Quintana

Quando Mario Quintana e a poesia andavam lado a lado, era difícil saber quem acertava o passo com quem. O certo é que nunca se desacertavam.

Carimbo

Chamar de louco um homem apaixonado é a mais tola das obviedades.

Pris

Pode alguém chamar-se Priscylla Mariuszka Moskevitch? Um amigo me perguntou hoje se ela não seria produto de um estado mental que, para não definir como insanidade, ele chamou de distúrbio. Eu lhe respondi que esse "distúrbio" tem outro nome para mim, bem mais curto e agradável, e que Priscylla seria sua abençoada causa, não seu indesejável efeito.

Pris

A voz de Priscylla Mariuszka Moskevitch poderia ser intransitiva, de tão bela. Ela é mais importante que as palavras, e poderia não dizer nenhuma, nunca. Poderia percorrer simplesmente a escala musical, de dó a dó. Isso bastaria para assegurar-lhe a majestade. Mas a voz de Priscylla Mariuszka Moskevitch é transitiva. Ela instiga, ela chama, ela atrai. A voz de Priscylla Mariuszka Moskevitch convoca a beleza.

Pris

A melhor criação de minha alma atormentada é Priscylla Mariuszka Moskevitch. Eu a fiz bela, eu a fiz única. Mais bela e incomparável seria se outro fosse seu criador. Priscylla mereceria ser criada por Vinicius de Moraes no seu mais inspirado dia.

Pris

Tudo, em meu convívio com Priscylla Mariuszka Moskevitch, esteve sempre na esfera de dois sentimentos: o afeto e a beleza. Tudo brilhou, não importa definir agora se como uma estrela ou um pirilampo. Tudo brilhou e, vivendo na memória, hoje a enriquece como seu mais raro tesouro.

Varal

Ela se esqueceu de recolher a roupa. O vento noturno, caprichoso, só secou a calcinha.

Mario Quintana

Se fosse uma história na qual houvesse uma estrela bem pequena e menosprezada pelas irmãs maiores, e ela resolvesse contar a alguém seus infortúnios, creio que seria a Mario Quintana que ela o faria.

Milagre

Estarmos já mortos e ainda implorarmos por ele é uma dessas bizarrias que só o amor consegue nos impor.

"Queixa das Escadas de Jade", de Li Bai

"Nas Escadas de Jade cresce
Ainda o branco orvalho,
O frio que toda a noite
Encharcou umas meias de seda.

Ela desce
A persiana de cristal
E contempla a Lua
Envidraçada - do Outono."

(De Uma antologia de poesia chinesa, tradução de Gil de Carvalho, publicação da Assírio & Alvim, Lisboa.)

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Pris

Viciado pelas leituras românticas, não consigo ver em Priscylla Mariuszka Moskevitch uma mulher. Ela é uma fonte no alto da montanha, uma estrela na noite nublada, um sentimento. Isso: Priscylla Mariuszka Moskevitch é um sentimento que guardo no coração indigno de tê-lo.

Pris

Priscylla Mariuszka Moskevitch era um desses acontecimentos que apenas raríssimas tardes propiciavam, como a inesperada floração de um arco-íris.

Pris

Às vezes me vem a ideia de que Priscylla Mariuszka Moskevitch pode ter sido uma artimanha da poesia para se reaproximar de mim e reatar meus elos com a adolescência.

Pris

Priscylla Mariuszka Moskevitch é uma ideia carregada de afeto.

Ode à bunda de Simone de Beauvoir (versão final)

Empinada sobre dois
saltos altos
bunda de primeiro andar
bunda de mezanino
mescla do carnal e do divino
bunda celeste
bunda de trottoir
bunda essencial
bunda existencial
bunda jean-pauliana
bunda nelsoniana
bunda sartriana
bunda algreniana
bunda de pour quoi
bunda de je ne sais pas
bunda simoniana
bunda beauvoiriana
bunda de simone de beauvoir.

Na medida

O amor há de ter a sabedoria e a benevolência de morrer na hora certa, antes de ela começar a bocejar ao ouvir poemas e antes de ele começar a bocejar ao dizê-los.

Tal qual um haicai

Como um haicai - assim deve ser o amor. Algumas palavras, não mais. Amores de quinhentas páginas só servem para mostrar, quando se folheiam álbuns de família, como jovens que pareciam pássaros se transformam em balofas figuras diante de repetidos bolos de aniversário.

Cotação do dia (para Priscylla Mariuszka Moskevitch)

Sejamos tão cruéis quanto possamos. Que, quando se lembrarem de nós, façamos jus a essa memória.

Cotação do dia - 4/12/2014 (versão final)

Aos olhos teus jamais fui
Senão um tolo de quem
Tu já não te lembras nem
Se eu era Raul, Ivo ou Rui.

Soneto do afeto que o amor tem por nós

O amor nos traz entretidos
No fervor de suas juras,
Todas falsas e perjuras,
E seus enredos fingidos.

O amor nos traz algemados
Aos seus filtros amorosos,
Aos seus apelos culposos,
Aos seus encantos dourados.

Para mais nos iludir,
Nos diz que podemos ir
Quando cada um de nós queira.

Mas, se nos leva a passear,
Jamais se esquece de atar
Nosso pescoço à coleira.

Soneto de quem se vê de repente num palco

Nós não sabemos de nada,
E uma noite, de repente,
Nós nos achamos na frente
De uma plateia lotada.

Já com a peça começada,
Descobrimos lentamente
O que tem o autor em mente
Com essa pobre patacoada.

Somos Maria ou Joãozinho
E só temos que engordar
Todo dia um pouquinho.

Na ação final do último ato,
O amor virá nos assar
E colocar no seu prato.

Ser outro

Quando escrevo sobre mim, eu não sou eu. O homem que eu sou não tem nada importante a dizer. O homem de quem falo é um personagem, alguém que eu tento transformar de tal modo que o leitor possa interessar-se, ainda que minimamente, por ele. Pelo leitor e para seu benefício, posso ser mulherengo, traidor, inconsequente, cruel e proxeneta. Literatura não é depoimento, e eu não escrevo para revistas da família cristã. Por que a ficção há de ser utilizada só em proveito do leitor? Por que o escritor não pode ser mulherengo, traidor, inconsequente, cruel e proxeneta?

Único

Amor, quem mais poderia
Ferir-nos tão suavemente,
Matar-nos tão docemente?
Amor, quem mais ousaria?

Um poema de Du Qiuniang

"Digo-te - preza menos o casaco de dourados fios
Aviso-te - antes prezes os anos da fresca idade
Quando os ramos da floração se abrem, pronto a agarrar, fá-lo
Não esperes que tombe a flor segurando tu então um galho nu."

(De Uma antologia de poesia chinesa, tradução de Gil de Carvalho, edição da Assírio & Alvim, Lisboa.)

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Anfiguri

Eu sou Dom Bosco
Eu sou Ionesco
Conosco ninguém podesco
Conesco ninguém podosco.

Priscyllas

Tenho uma gata chamada Priscylla Myrella Mockingbord. O nome dela me veio assim que a vi pela primeira vez, trazida como presente por minha amiga Priscylla Mariuszka Moskevitch. Não conseguiria hoje imaginar nenhum outro nome para ela. É evidente que se trata de uma homenagem a Priscylla Mariuszka. Essas reflexões me vêm a propósito de um artigo que li agora sobre a influência que pode ter o nome na vida de pessoas e também na de animais. Resumindo a essência do texto, um Nero será, em 99% dos casos, um tipo canino ou um incendiário. Tomando por exemplo as duas Priscyllas, discordo e, já que estou com a Bic na mão, acrescento um advérbio: discordo raivosamente. Priscylla Mariuszka foi a amiga mais meiga que tive - sem exagero, a amiga de minha vida. Deixou sinais de sua gentileza que a todo momento redescubro: um marcador de livro, uma coletânea de poesia, uma gravura, um postal. Já Priscylla Myrella, ah, Priscylla Myrella! Escrevo isto sentado no sofá ao qual ela vem impondo as marcas de suas garras, desde o seu primeiro dia comigo. Às vezes, como agora, paro para afagá-la. Ela se deixa afagar, até o instante em que, como sempre, junta aos arranhões que tenho nos braços mais um, de sinuosa crueldade.

Sonho

Quando sonha com ela, ele acorda chorando. Não porque ela lhe fuja, como fez sempre na realidade, mas porque no sonho ela é uma putinha que lhe exige um dinheiro que ele tem no bolso, mas que lhe escapa por entre os dedos quando vai apanhá-lo. Quando desperta, está invariavelmente curvado na cama, de joelhos, tentando recolher as moedas que já desapareceram, embora gargalhem ainda com o tilintar de seu sarcástico ouro, tão fulgurante quanto os dentes da boca da puta, pelos quais ainda há um instante passava, mil vezes repetida, a palavra tolo.

Pragmatismo

Na palma da mão direita ele mandou tatuar o rosto da amada. Desde o primeiro dia ele a beija reverentemente, com uma castidade que vem mantendo com um esforço cada vez maior.

Amor

Não sei por que tanta ruína,
Tanta aflição, tanta dor,
Por algo tão simples, por
Algo à venda em cada esquina.

Currículo

Antes de se apaixonar já era um idiota. Depois só se aperfeiçoou.

Desconforto

O ruim
de estar enterrado
não é não ter
como respirar

É não poder
se espreguiçar
se levantar
nem virar de lado.

Bula

O amor, em dose pequena,
Nos fere, nos envenena.
O amor, em sua dose exata,
Nos fere, envenena e mata.

Um trecho de Robert Musil

"Na verdade, se teimarmos em chamar prostituição alguém entregar-se por dinheiro, não, como é comum, com toda a sua pessoa, mas apenas o seu corpo, então de vez em quando Leona se prostituía. Mas quem durante nove anos, como ela fazia desde os dezesseis, conhece a mesquinharia dos ordenados que se pagam por dia nos cabarés vagabundos, e leva em consideração o preço das roupas, os descontos, a avareza e a arbitrariedade dos proprietários, a porcentagem sobre a comida e bebida de clientes animados e sobre as contas dos quartos do hotel vizinho, quem tem de lidar com tudo isso diariamente, brigar e calcular tudo comercialmente, sabe que aquilo a que os leigos chamam devassidão é uma profissão plena de lógica, objetividade e regulamentos. Exatamente a prostituição é um fenômeno no qual faz grande diferença se o encaramos de cima ou de baixo."

(De Um homem sem qualidades, tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth, publicação da Editora Nova Fronteira.)

terça-feira, 28 de julho de 2015

Anfiguri

Sem medo de errar vos digo
Que até pode haver poesia
Mas nunca onfalomancia
Se não houver um umbigo.

Filhote

Ela gostaria de trazer o amor sempre no colo, como se fosse um gato recém-nascido ou seu segundo coração, e falar baixinho com ele, e contar-lhe histórias lindas, e perguntar-lhe se gostou, e saber interpretar suas respostas, ainda que se resumissem a um rom-rom.

Mario Quintana (para Silvia Galant François)

Segundo a lenda
tudo quanto
Quintana dizia
não era senão
uma expressão
de pura poesia

Nem tudo
nem tanto

No entanto
tudo - até
o que não tinha
o rótulo de poesia -
assim soava
e assim parecia.

Mario Quintana (para Liberato Vieira da Cunha)

Mario Quintana e a poesia tinham um desses pactos sem artigos e sem cláusulas que dois seres que se amam firmam para o resto da vida já na primeira troca de olhares.

Um trecho de Robert Musil

"A atenção e admiração que Arnheim recebia talvez tivessem deixado qualquer outro homem inseguro e desconfiado, se tivesse podido imaginar que se deviam ao seu dinheiro. Mas Arnheim considerava a desconfiança um sinal de natureza vulgar, que um homem de sua posição só poderia se permitir por razões puramente comerciais. Além disso, estava convencido de que a riqueza é uma qualidade de caráter. Todo homem rico considera a riqueza uma qualidade de caráter. Todo homem pobre também. Todo mundo está silenciosamente convicto disso. Só a lógica cria aqui algumas dificuldades, afirmando que a posse de dinheiro talvez conduza a certas qualidades, mas jamais pode ser, ela mesma, uma qualidade humana."

(De Um homem sem qualidades, tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth, publicação da Editora Nova Fronteira.)

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Cotação do dia

Um cachorro morto que subitamente ouve a voz do dono.

Valor

Se formos sinceros
cada um dos outros é um
e nós somos nenhum
ou nada mais que um
punhado de zeros.

Ciclo

De morrer ninguém escapa,
É coisa mais que sabida.
Várias fases tem a vida,
Morrer é só uma etapa.

Só mais uma coisinha

Uma hora antes de morrer, ele disse ao filho mais velho, tristemente, que antes de se ir gostaria de fazer ainda alguma coisa. Então, tossiu durante sessenta minutos, com extremo empenho.

Soneto dos passos do amor

Para a dor e o desalento,
Para a mortificação,
Para o conselho malsão
E o desencaminhamento.

Para o suplício e o tormento,
Para o infortúnio, a aflição,
Para o sofrimento vão
E para o aniquilamento.

Para a moléstia sem cura,
Para a agonia, a loucura,
As desgraças e os fracassos,

Para a cama de hospital,
Para o desfecho fatal,
O amor conduz nossos passos.

É a mãe

Ver a cara que faz o pudor quando o chamam de pundonor.

Gregoriana

Para tornar-se escritor
Requerem-se duas prendas:
Esquecer o pundonor,
Mostrar as partes pudendas.

Cotação do dia

O que esperas tu ainda dos dias? Teus dias já se foram. Todos.

Mario Quintana

Se por milagre ou merecimento os poetas se transformassem em passarinhos, Mario Quintana seria uma revoada.

Um trecho de Robert Musil

"- Não. Pense bem: se Deus predetermina tudo, e sabe tudo antecipadamente, como é que alguém pode pecar? Era assim, que antigamente, se indagava; e, veja, ainda é uma questão bem moderna. Deus era concebido como um incrível intrigante. Um homem o ofende concordando com ele, ele incita os homens ao erro pelo qual mais tarde os castigará; ele não apenas sabe disso de antemão - para um amor tão resignado sempre teríamos exemplos - mas até o provoca!"

(De Um homem sem qualidades, tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth, publicação da Editora Nova Fronteira.)

domingo, 26 de julho de 2015

Atemporal

Que ainda se morra por amor é uma animadora prova de que à morte pouco importam as modernidades.

Primos

Da obra de Gogol, agrada-me sobretudo O capote.

Loveless

Nos resta agora o que resta
Quando se tira de tudo
A essência, a alma, o conteúdo,
E só fica o que não presta.

Má sorte

Quando eu, rapazola, revelei a intenção de ser escritor, ninguém, na minha família, teve o bom-senso de me dissuadir.

Persistência

Escrever é uma dessas decisões tolas que podemos tomar aos dezesseis anos e manter pelo resto da vida.

Melhor não

A melhor fatia da literatura cabe sempre ao leitor. Ele pode, com a apatia dos deuses, pegar Dickens, recolocá-lo na estante, apanhar Dostoiévski, descartá-lo, folhear por alguns instantes Flaubert e resolver que nenhum deles é digno de lhe tirar o prazer de uma caminhada ao sol, pelo parque.

Bom menino

Há poemas que parecem menininhos mimados, daqueles que só atravessam a rua pela mão de papai ou mamãe e sabem o que quer dizer o lábaro que ostentas estrelado.

Um trecho de João Paulo Cuenca

"Na semana passada jantei com o escritor espanhol Enrique Vila-Matas, que me contou a história de um colega que, ao chegar para dar uma palestra, deparou-se com um auditório vazio. Ou quase, porque havia uma senhorinha no fundo. O escritor, muito apropriadamente, deu sua conferência por uma hora, como se o salão estivesse lotado. Ao final, a velha senhora atravessou todas as cadeiras vazias, se aproximou do palestrante e perguntou: 'O senhor poderia resumir tudo o que disse aqui perto da minha orelha? É que sou meio surda.'"

(Do livro A última madrugada, publicado pela LeYa.)

sábado, 25 de julho de 2015

Soneto dos tormentos do amor

Quando o amor se vai, nos fica
A memória que nos rói,
O despeito que nos dói,
A mágoa que mortifica.

Nossos melhores momentos,
Os que mais nos encantaram,
Em causa se transformaram
De nossos piores tormentos.

E temos até saudade
Da insuportável maldade
Que ele às vezes nos impunha.

E nos agrada lembrar
Como vinham nos rasgar
Cada dente seu, cada unha.

Soneto das duas faces do amor

Primeiro o amor nos fascina,
E, como se nos amasse,
Nos mostra sua melhor face.
Depois, ele nos domina.

E, tendo-nos dominado,
Mostra o rosto verdadeiro,
Nos arrasta ao cativeiro,
Ri seu riso debochado.

Por mais que nós imploremos,
Por mais que lhe supliquemos,
Não nos permite ir embora.

Nos agasalha e acalenta,
Nos nutre, nos alimenta,
Depois nos mata e devora.

Um trecho de Roberto Bolaño

"B está apaixonado por X. Claro, trata-se de um amor desventurado. B, numa época da vida, esteve disposto a fazer tudo por X, mais ou menos o mesmo que pensam e dizem todos os apaixonados. X rompe com ele. X rompe com ele por telefone. A princípio, claro, B sofre, mas com o tempo, como é comum, se recupera. A vida, como dizem nas telenovelas, continua. Os anos passam."

(Do livro Chamadas telefônicas, tradução de Eduardo Brandão, publicado pela Companhia das Letras.)

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Amabilidades

Uma ou duas vezes por mês, ele parece lembrar-se de que ela é sua mulher. Trata-a bem, pergunta-lhe se precisa de alguma coisa e até lhe diz frases carinhosas. Depois, como se fosse um gerente de loja dirigindo-se à subgerente, avisa: "Vou precisar de você hoje à noite."

Cuidado final

Quando a mulher do defunto pôs no bolsinho do seu paletó um lenço, naturalmente estranharam. Um dos filhos perguntou: "O que é isso, mãe?" Ela o olhou com severidade: "Você sabe muito bem como o seu pai se resfria fácil."

Soneto da prima-donice do amor

O amor é uma prima-dona
Sujeita sempre a chiliques,
A surtos e tremeliques,
Gorda, estúpida, turrona.

Diz que hoje não vai cantar
Nem mesmo que a vaca tussa
Se sua gatinha russa
Da gripe não se curar.

E ordena que tragam já
Seus biscoitinhos, seu chá
E, antes que termine o dia,

Aquele moço bonito
E o outro, meio esquisito,
Que servem na portaria.

Íntimos

De mim, o que ela gosta mesmo é do meu dedo médio da mão esquerda.

Gloríolas

Venderia a mãe
ao brechó
por um prêmio
mesmo que fosse
um premiozinho só
de consolação
um daqueles papeizinhos caligrafados
que podem parecer pouco
mas que melhoram tanto
quando emoldurados.

Um trecho de "Um homem sem qualidades", de Robert Musil

"Provavelmente é um fenômeno bem fundamentado que tempos, cujo espírito parece uma feira livre, tenham como antítese poetas que nada têm a ver com seu tempo. Eles não se sujam com pensamentos contemporâneos, produzem por assim dizer poesia pura, falam a seus seguidores com o dialeto morto da grandeza, como se estivessem por pouco tempo, de passagem, na Terra, acabando de voltar da eternidade, como um homem que há três anos foi para a América, e ao voltar para casa já fala alemão com sotaque."

(Tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth, publicação da Editora Nova Fronteira.)

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Do ramo

Há escritores que acham a literatura uma atividade chique. São os que nunca faltam aos coquetéis e conhecem os garçons pelos nomes e pelos apelidos. Sabem segurar uma taça de vinho e comentam, com risinhos compartilhados, que a literatura dos jovens, ah, a literatura dos jovens...

Código

A literatura pode ser uma rotina, e até um hábito nefasto. Só não deve ser um hobby.

Complexo

Se me perguntam qual foi o maior contista de todos os tempos, respondo Maupassant, ou Katherine Mansfield, ou Machado de Assis, ou qualquer outro. Porque nunca soube - e temo que nunca chegarei a saber - se a pronúncia é Tchékhov ou Tchekhóv.

Um trecho de "Um homem sem qualidades", de Robert Musil

"Não é difícil descrever esse homem chamado Ulrich, de trinta e dois anos, em seus traços fundamentais, embora ele próprio saiba apenas que está a um tempo longe e perto de todas as qualidades, e que todas, suas ou não, lhe são estranhamente indiferentes. Com a agilidade intelectual que pressupõe uma inclinação muito variada, liga-se nele ainda uma certa agressividade. Ele é uma mente viril. Não tem sensibilidade para outras pessoas, e raramente se colocou no lugar delas, a não ser quando seus propósitos o exigiam."

(Tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth, publicação da Editora Nova Fronteira.)

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Hipnóticos

Os asteriscos,  sem dizer nada, têm o poder de obrigar o leitor a olhar para baixo.

Argh

Ósculo é um beijo envergonhado.

Embuste

A literatura tem as costas largas. Quanta vagabundagem ela carrega: anos, às vezes décadas, sob a promessa, sempre adiada, de uma obra-prima.

Balança

Dez amplexos jamais chegarão a valer um abraço.

Soneto do fim que demos ao amor

Como um boneco quebrado,
Como um cinzeiro partido,
Como um tapete roído,
Como um vestido rasgado,

Como um espelho rachado,
Como um perfume vencido,
Como um caroço cuspido
Ou um gato atropelado,

Nós o nosso amor juntamos
E com carinho o embalamos,
Com a nossa mais fina luva.

E só lá fora o deixamos
Depois que verificamos
Se havia ameaça de chuva.

Manobras

Como putinhas
bajulamos
lambiscamos
catacavacamos

Como vadias da zona
a saia erguemos
o peito empinamos
negociamos carona
na pista
no colo sentamos
do motorista

Estocolmo é longe
mas quem sabe
com uma mexida aqui
um dedinho ali
uma subflip
consigamos
ou um vice-jabuti.

A voz

A voz dela
era de rum
de tabaco

Ela mandava em mim
me escravizava
me montava me chicoteava
como se eu fosse
sua eguinha

Quando eu me queixava
ela ria de mim
zombava de mim
me chamava de fraco
de seu bosta
de merdinha
com aquela sua boca suja
de maruja
que depois
da surra
me obrigava a beijar.

"O marmeleiro em flor", de Ouyang Xiu

"Ano passado na Primeira Lua cheia
As lanternas do mercado das flores eram brilhantes como o dia.
A lua subiu ao cimo do salgueiro
E eu e o meu amor, pelo crepúsculo, nos encontramos.

Este ano, na Primeira Lua Cheia,
São as mesmas, a lua e as lanternas.
Mas o homem do ano passado - onde está ele?
Cobertas de choro
As mangas do meu vestido primaveril."

(De Uma antologia de poesia chinesa, tradução Gil de Carvalho, publicada pela Assírio & Alvim, Lisboa.)

terça-feira, 21 de julho de 2015

Soneto de uma história comum

Hoje, de tudo lembrando
Que em sua vida aconteceu
Desde aquele dia quando
Ao amor se submeteu,

Ele se vê perguntando
"Mas era eu mesmo, fui eu?",
Quase não acreditando
Naquilo que lhe ocorreu.

No início ele não entende,
Porém aos poucos compreende
Que tudo foi adequado.

Foi uma história comum
E sem mistério nenhum:
Amou, mas não foi amado.

Um trecho de Alejo Carpentier

"Dez vezes mais tornou a passar defronte a ela sem se atrever, enquanto a mulher, certa de tê-lo hoje ou amanhã - sabendo-se escolhida - , aguardava-o sem constrangimento. Uma tarde, enfim, a porta azul da casa se fechou atrás dele. Nada do que lhe aconteceu num quarto calorento e estreito, sem outro enfeite senão anáguas penduradas num prego, lhe pareceu muito importante ou muito extraordinário. Certos romances modernos de crueza jamais conhecida haviam lhe revelado que a verdadeira voluptuosidade obedecia a impulsos mais sutis e partilhados. No entanto, durante várias semanas voltou, todo dia, ao mesmo lugar; precisava mostrar a si mesmo que era capaz de fazer, sem remorsos nem deficiências físicas - com crescente curiosidade em passar sua experiência a outros corpos -, o que faziam, muito naturalmente, os rapazes da idade dele."

(De O século das luzes, tradução de Stella Leonardos, publicação da Global Editora.)

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Soneto do amor, nosso juiz

Se nos quer no tribunal,
O amor nos manda buscar
Sem sequer apresentar
Alguma base legal.

O diligente oficial,
Se ousamos nos rebelar,
Nos diz que vai nos levar,
Seja por bem ou por mal.

No julgamento, sem pena
O amor logo nos condena
E o castigo estabelece:

Nos manda atar ao pelouro
E tirar-nos todo o couro,
Como se já não tivesse.

Índole

O problema das proparoxítonas é que algumas são intoleravelmente esdrúxulas.

Soneto da mão que nos escrevia

Que belo o tempo em que a mão,
Zelosa do que fazia,
Regida pela paixão,
A nossa história escrevia.

Com que compenetração
As palavras escolhia:
Tudo era sim, nada não,
Nem porém, nem todavia.

Seguimos o seu roteiro,
Na redação ajudamos,
Desde o início, por inteiro.

Depois (Por que foi assim?
Ela errou ou nós erramos?)
Nós e ela escrevemos fim.

Um trecho de Milan Kundera

"Quanto mais se observa uma realidade com atenção e obstinação, mais se compreende que ela não corresponde à ideia que todo mundo faz a seu respeito; sob o demorado olhar de Kafka, ela se revela cada vez mais desarrazoada, portanto irracional, inverossímil. E foi esse olhar ávido pousado demoradamente sobre o mundo real que conduziu Kafka, e outros grandes romancistas depois dele, para além da fronteira do verossímil."

(De A cortina, tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca, publicação da Companhia das Letras.)

domingo, 19 de julho de 2015

www.rubem.wordpress.com

Na revista Rubem, falo hoje da gramática, do amor e de outras patifarias.

Cotação do dia

A vida é uma ilusão - mas como dói em certos domingos.

Um trecho de Jack Kerouac

"Estou em minha mesa de trabalho na manhã chuvosa de uma Manhattan envolta em neblina; olho lá embaixo para o lado do cais do porto e vejo navios da Marinha ancorados no trapiche e multidões de marinheiros caminhando por cima da água em direção à terra firme. Digo: 'Todo mundo já aprendeu como se faz - parece fácil - até demais - deve ser um truque bem simples'" -

(De O livro dos sonhos, tradução de Milton Persson, publicação da L&PM.)

sábado, 18 de julho de 2015

Exceção

A arte é o argumento definitivo para refutar aqueles que julgam o homem um ser desprezível.

Mario Quintana

Até quando adormecia
Mario Quintana poetava.
Quando dormia sonhava
E respirava poesia.

Soneto de como o amor nos ama

Não é verdade que o amor,
Desmentindo sua essência,
Nos encara com insolência,
Nos trata com desamor.

O amor nos ama, e tão forte,
Que exibe esse sentimento
Até o último momento,
Aquele da nossa morte.

Não falta ao nosso velório.
Chega e, com seu ar finório,
De velhaco refinado,

Ensaia seu chame, pisca,
Sem vergonha namorisca,
Fingindo estar desolado.

Status

As rimas ricas, fazendo luzir seus dentes de ouro, riem das bijuterias das rimas pobres.

Um trecho de Alejo Carpentier

"Sofia sentia-se estranha, fora de si mesma, como que situada no umbral de uma época de transformações. Certas tardes tinha impressão de que a luz, ora mais aqui ora mais ali, dava nova personalidade às coisas. Um Cristo saía das sombras para fitá-la com olhos tristes. Um objeto, até então despercebido, apregoava a delicada qualidade do artesanato. Desenhava-se um veleiro na madeira veiada de uma cômoda."

(Do livro O século das luzes, tradução de Stella Leonardos, publicação da Global Editora.)

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Limites

A vida há de ser tratada com cautela pelo escritor. Ela é prolixa e tagarela e a ele cabe conter-lhe os excessos e encará-la com certo ceticismo quando ela, como sempre, chega e diz ter uma história para contar.

Soneto do que pelo amor se jurou

Hoje é quase com rancor
Que ele se lembra das juras
Tão sinceras e tão puras
Que fez em nome do amor.

Como pode um homem ter
Tão baixa estima, ser tão
Indigno, frouxo, poltrão,
Tão fácil de submeter?

Ah, se um dia conseguisse
Esquecer tudo que disse,
Dar o dito por não dito.

Ah, como pôde louvar,
Ah, como pôde exaltar
O amor, aquele maldito?

Descarte

Assim que anoiteceu, a mulher ordenou à filha: "Agora." A menina pediu: "Deixa ela ficar só mais um pouquinho, mãe." A mulher se irritou: "Já. Não vê como ela já está fedendo? Virgem!" A menina pegou a sacolinha de supermercado, abriu a porta e saiu. No caminho até a esquina, onde estava a caçamba, ela foi acariciando a cabeça da gata: "Tchau, Chiquinha." Ao voltar, ela subiu até o quarto e desceu com um cobertor. Quando já estava com a mão no trinco, para sair de novo, a mãe veio da cozinha: "Você enlouqueceu?" A menina choramingou: "Está gelado lá fora. Ela vai morrer de frio." A mãe sacudiu-se de tanto gargalhar: "Ela vai o quê?" A filha jogou-se no sofá, com o cobertor, e, com os olhos cheios de lágrimas e ódio, encarou a mãe, que, enquanto soltava os últimos jorros da gargalhada, ainda repetiu: "Ela vai o quê?"

"Esta mão viva", de John Keats

"Esta mão viva, agora quente e pronta
Para um sincero aperto, se estivesse fria
E no silêncio gélido da tumba,
Viria de tal forma te obsedar os dias
E esfriar-te as noites sonhadoras
Que quererias esgotar o sangue de teu coração
Para que em minhas veias -
Pudesse inda uma vez correr a vida rubra
E tranquila tivesses a consciência:
- Vê-a, aqui está, estendo-a para ti."

(De Ode sobre a melancolia e outros poemas, tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, publicação da Hedra.)

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Cotação da noite

Se tivéssemos morrido na ocasião certa, o amor talvez se lembrasse de nós. E talvez dissesse hoje, numa daquelas conversinhas de bar: "Ah, vocês deviam ter conhecido aquele sujeito. Sonso, sonso. Era disso que eu gostava nele. Nunca me tocou. Parecia estar segurando sempre um objeto de porcelana."

Estante

O amor terá sido
um episódio
um capítulo só
entre tantos
dez páginas
entre mil e tantas
de um livro
que no entanto
posto na estante
mesmo sem marcador
o vento abrirá
na passagem certa
e a manterá
aberta como uma flor.

Soneto da vida e da morte do amor

Viver de amor é um tormento.
Quem sofre essa doença rara
Jamais terá tempo para
Nenhum outro sentimento.

Ele, já desde o momento
Em que seu jugo declara,
De escravizar-nos não para
E mata-nos, terno e lento.

Viver de amor é loucura,
Viver de amor é tortura,
Ou assim os tolos pensam.

Viver de amor, na verdade,
É a maior felicidade,
Morrer de amor é uma bênção.

Um trecho de Felisberto Hernández

"Naquela noite, eu ouvia a chuva numa poltrona fofa e pensava em Úrsula. Na primeira vez que a vi, ela estava sentada à mesa no mesmo restaurante onde eu comia. O corpo dela parecia ter se desenvolvido como os arredores de um povoado pelos quais ela não se interessava. Ela estava unicamente em seus olhos azuis."

(Do conto "Úrsula", do livro As hortênsias, tradução de Pablo Cardelino Sotto e Walter Carlos Costa, publicação da editora Grua.)

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Quando

Não foi quando o amor me sorria. Foi só depois, bem depois, que descobri aprisionado em meu peito este pássaro que sabe cantar apenas perdas, e canta-as como se a cada manhã lhe nascessem filhotes que vivem só até o anoitecer.

Causa

Se não fosse a literatura, a que causa você atribuiria sua loucura, tão precocemente manifestada e tão persistentemente mantida?

Conceito

Aquele que sobrevive à morte do amor não merecia tê-lo vivido.

Régua

Se admitirmos que Shakespeare foi um escritor, como nos definiremos?

terça-feira, 14 de julho de 2015

Soneto da essência do amor

Quem crê no amor é insensato
Como um inglês alemão,
Um germânico bretão
Ou uma causa sem ato.

O amor é aquela loucura
De que falava Camões,
Desrazão das desrazões,
Doença que é sua própria cura.

De sua forma de ser
Não há mais o que dizer
Que ainda não se disse já.

Mas, mesmo desmascarado,
Acaba sempre perdoado
E amado sempre será.

Ainda que

Deve-se, para manter certo orgulho, estar fazendo sempre alguma coisa, ainda que essa coisa seja simplesmente se omitir.

Soneto do narrador sem narrativa

Não termos o que dizer
Não é de se lamentar.
O leitor há de aceitar
E até nos agradecer.

De que lhe adianta esperar
Se nada além irá ter
Do que lhe demos a ler?
Que mais podemos lhe dar?

Tanto já nós o enfadamos
E tantas vezes contamos
A mesma história de amor

Que, de tanto nos ouvir,
Ele pode nos excluir
E ser ele o narrador.


Um trecho de Milan Kundera

"Durante séculos, a pintura e a música estiveram a serviço da Igreja, o que não as privou absolutamente de sua beleza. Mas colocar o romance a serviço de uma autoridade, por mais nobre que ela seja, seria impossível para um verdadeiro romancista. Que tolice querer glorificar com um romance um Estado, ou seu exército!"

(De A cortina, tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca, publicação da Companhia das Letras.)

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Soneto do deve e do haver

Querida, por que motivo
Me encaras com má vontade,
Com tanta contrariedade
E com esse rancor tão vivo?

Sempre te disse a verdade,
Jamais fui falso ou esquivo
E, desde que por ti vivo,
Jamais agi com maldade.

Tu nunca pediste nada,
Eu bem sei, minha adorada,
Mas eu a vida te dei.

E eu, do pouco que pedi,
De ti o que recebi
Que num bordel não gozei?

Tecla

Continuo insistindo com a literatura. É o que me resta. Não sei escrever, mas também não sei fazer nenhuma outra coisa mais.

Cotejo

A vida quase nunca atinge a intensidade do romance. Falta-lhe um pouco mais de talento.

Soneto do que teu nome significa

Guardo teu nome como um
Sagaz colecionador
Que protege com rigor
Um espécime incomum.

Porque jurei discrição,
Não faço mais que dizer
Que ele poderia ser
Sinônimo de paixão.

Era ele que eu pronunciava
Quando o amor me tresloucava,
E foi ele que eu gemi

Quando, por ti rejeitado,
Envilecido e humilhado,
Agonizei e morri.

Um trecho de Zuenir Ventura

"No famoso 'verão da abertura', de 79/80, Fernando Gabeira escandalizou a esquerda ao aparecer no Posto 9, em Ipanema, vestindo uma minúscula tanga de crochê lilás,sobre a qual, aliás, há divergências. Uns dizem que não era tanga e nem era lilás, e sim o biquíni azul e amarelo de sua prima, a jornalista Leda Nagle, em casa de quem se hospedou logo após chegar de um exílio de nove anos. Outros garantem que era de fato uma tanga comprada por ele na loja Fiorucci. As duas versões procedem."

(De Minhas histórias dos outros, publicação da Planeta.)

domingo, 12 de julho de 2015

Utilidade

Ao invés de dedicar-te sonetos, deveria ter te mandado calcinhas. Ficariam bonitas ao sol, penduradas em teu varal e tocadas pela mesma brisa que sopra as folhas do teu abacateiro e arrepia as penas do bem-te-vi.

Primeira

Quem diz que a literatura é sua segunda natureza, ainda não aprendeu a lhe dar o valor que ela merece.

Soneto do fantasma do amor

Mesmo bem depois de dar
Seu suspiro derradeiro,
O amor volta e, zombeteiro,
Se põe a nos assombrar.

Não se contenta em andar
Nos seguindo o dia inteiro.
Atrevido, palpiteiro,
Nosso rumo quer traçar.

E à noite, quando tentamos
Nos livrar e nos deitamos,
Não conseguimos dormir.

Ele nos rodeia a cama,
Nos jura que ainda nos ama
E começa a se despir.

Um trecho de Milan Kundera

"A música e a poesia têm uma vantagem sobre a pintura: o lirismo (das Lyrische), diz Hegel. E no lirismo, continua ele, a  música pode ir ainda mais longe que a poesia, pois é capaz de apreender os movimentos mais secretos do mundo interior, inacessíveis à palavra. Existe, portanto, uma arte, no caso da música, que é mais lírica que a própria poesia lírica. Podemos deduzir que a noção de lirismo não se limita a um ramo da literatura (a poesia lírica), mas designa certa maneira de ser, e desse ponto de vista o poeta lírico não é senão a encarnação mais exemplar do homem encantado pela própria alma e pelo desejo de fazer que ela seja ouvida."

(De A cortina, tradução Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca, publicação da Companhia das Letras.)

sábado, 11 de julho de 2015

Crítica

Que diabo pensam estar fazendo os que criticam os críticos?

Fantasia

A Índia não seria lá,
Mas bem perto, logo aqui,
Se eu fosse teu marajá,
E tu, minha marani.

Se

Por que chorar
o que foi tão bom
se o que foi
só foi tão bom
porque já foi?

As razões

Qualquer homem ou mulher criados sob as normas da autoajuda dirá prontamente quais os dez motivos que levam alguém, qualquer um, a atingir a felicidade. E explicará, modestamente: é meu decálogo

Tudo bem

É desses que dizem
que belo dia
que noite maravilhosa

Receberá a Morte
afetuosamente
e lhe dirá sorridente
por que você demorou tanto
minha formosa?

Exagero

Fernando Pessoa era mesmo um tanto estranho. Mas daí a chamá-lo de ortônimo...

Um trecho de Milan Kundera

"A glória dos artistas é a mais monstruosa de todas, pois implica a ideia de imortalidade. E é uma armadilha diabólica, porque a pretensão megalômana de sobreviver à própria morte está inseparavelmente ligada à probidade do artista."

(De A cortina, tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca, publicação da Companhia das Letras.)

sexta-feira, 10 de julho de 2015

À bunda (versão final)

À bunda, o que dá prestígio
Não são as convexidades
Das suas duas metades.
É o seu pendor calipígio.

Fácil

Se levar a sério os livros de autoajuda, o escritor pode incorrer no pecado da presunção e julgar-se capaz de, dizendo cem vezes por dia "eu consigo", superar Shakespeare.

Para e de

A maioria dos que vivem para escrever não vive de escrever.

Um trecho de Milan Kundera

"Fielding foi um dos primeiros romancistas capazes de pensar uma poética para o romance; cada uma das dezoito partes de Tom Jones abre com um capítulo dedicado a uma espécie de teoria do romance  (teoria leve a agradável; porque é assim que um romancista teoriza: conservando com ciúme sua própria linguagem, e fugindo como da peste do jargão dos eruditos)."

(De A cortina, tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca, publicação da Companhia das Letras.)

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Crônica no Estadão

Na crônica de hoje no blog do portal do "Estadão" (www.estadao.com.br), dou uma dica, quem sabe útil, para jovens escritores. De quebra, uma história de paixão que une o conde Remo a uma cantora lírica chamada Petra ou talvez Mariuszka.

Modinha

Aonde vou não sei, mas a
Pasárgada não irei.
Lá sou amigo do rei,
Mas você não mora lá.

23h29

Fecho a loja com o sentimento de que logo precisarei, em atenção ao menos às moscas que a frequentam, colocar na frente uma faixa: "Passa-se o ponto." Triste? Nem tanto. As lojas ainda oferecem essa possibilidade, essa retirada quase honrosa. Para a vida não há esse recurso.

Chatos

Alguns não se satisfazem em saber o significado das coisas. Querem saber o verdadeiro significado.

Por quê

Às vezes ela se transforma em vampira. Ele precisa então concentrar-se para não lhe perguntar por que ela não é sempre como nessas noites, por que não marca seu corpo sempre assim, por quê.

Bravatas urbanas

Na manhã de feriado, ele andou até o meio da faixa de ônibus, abriu os braços e desafiou: "Vem, cambada!" Três  minutos depois, apareceu na curva um daqueles monstros articulados, bufando. Ele esperou até o último instante, deu quatro rapidíssimos passos para trás e cuspiu. Esperou os aplausos. Vieram, do cobrador: "Viadooo!" Ele gritou de volta um viadoooooo!!" com três ós e uma exclamação a mais, mas o monstro, covarde, já estava longe.

Ressalva

Se você estivesse falando de amor, não diria que o mais importante é sempre a vida.

Hipocorísticos

Gostaria de chamá-la
só na língua
do inho e da inha
de meu amorzinho
minha coisinha
meu benzinho
minha fofinha
e fazer exceção apenas
naqueles momentos solenes
de extrema devoção
em que a chamará
só de rainha.

Ocasião

Haveremos de saber
qual é o sentido da vida
quando já estivermos
em outra.

Pudibundo

Pudibundo é uma palavra que parece ter motivo para viver enrubescida.

Finesse

Estamos nos transformando num país pudico. Com que delicadeza as operadoras de caixa nos pedem não para pôr ou enfiar o cartão, mas para inseri-lo.

Dalton

Você tem certeza de que, se for pegar um sabonete no chuveiro de uma das heroínas de Dalton Trevisan, ele terá a aparência de um bicho peludo e escorregadio.









Um trecho de Milan Kundera

"Não há nada a fazer: a consciência histórica é a tal ponto inerente a nossa percepção de arte que esse anacronismo (uma obra de Beethoven datada de hoje) seria espontaneamente (isto é, sem a menor hipocrisia) sentido como ridículo, falso, incongruente, até monstruoso. Nossa consciência da continuidade é tão forte que interfere na percepção de cada obra de arte."

(De A cortina, tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca, publicação da Companhia das Letras.)

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Soneto de quantos podem ocupar uma cama (versão final)

A ti eu não mentirei.
Ao saber que até o Loxas
Te andou metido nas coxas,
Confesso que me queimei.

E quando me confirmaram
Que os dedos de Ígor Catunda
Te dedilharam a bunda,
Meus nervos se esfrangalharam.

Ah, como isso me doeu.
Por que todos menos eu?
Mas, depois da frustração,

Aceito já o fracasso
E a pergunta que me faço
É outra agora: e por que não?

Guerras (versão final)

No início há sempre uma bunda. Depois é que surgem os soldados. No final, se o número de mortos comportar uma epopeia, encomenda-se sua narração a um poeta. E, como talvez os pósteros venham a ser pudicos, recomenda-se a ele que substitua a bunda por um belo par de olhos e um sorriso celestial.

Provas

Trazer a lua e colocá-la no colo da amada não consta mais entre as provas exigidas para completar o currículo dos poetas. Já nem se pedem mais aquelas verborrágicas odes, aqueles alentados sonetos e aquelas mirradas quadrinhas. A poesia, como tudo mais, hoje, é só uma disposição de espírito.

Postiço

Tão bisonho poeta ele era que até seus ouropéis eram falsos.

Preferências

Não gosto das fadas
elas me enfadam
me aborrecem

Gosto das bruxas
das rameiras
das putas
da maneira como
arregaçam os pelos
e derramam mel sobre eles
instigando-me a lambê-los.

Mãos

"Está com a mão limpa?", ela perguntou.
Ele disse que sim, mas pelos olhos dela passou uma desconfiança:
"Lambe então. As duas."
Ele lambeu meticulosamente, encheu as duas de saliva. Ainda assim, ela as examinou, antes de se deitar.
Entregaram-se aos jogos amorosos, entraram-se. Depois, vencidos pela febre, naufragaram, cada um no seu canto da cama.
Ele soube que jogara bem quando ela encostou os lábios no seu ouvido e implorou:
"Me deixa beijar seus dedos?"

Um trecho de Djanira Pio

"Uma senhora muito idosa pega o telefone e lembra que não há mais ninguém para quem ligar. Desiste e volta ao seu mundo imaginário. Viver é só viver."

(Do livro O ciclo da vida, publicado pelo Grupo Editorial Scortecci.)

terça-feira, 7 de julho de 2015

Cotação da noite

Ter morrido há tanto tempo - e em vão.

Proporção

É insano dedicar-se integralmente à literatura. Um espaço, ainda que mínimo, deve ser reservado à vida.

Vocação

Cuidava-se. Tomava os remédios, fazia caminhadas matinais, ia mensalmente ao médico. Cada dia adicional de vida podia acrescentar ao menos uma quadrinha à sua obra. E insistia, e continuava, e persistia, rimando cerne com concerne e elegia com ambrosia.

Catalogação

A poesia é, de todas as insanidades, aquela que costuma ser vista com maior simpatia. Há mesmo quem a descaracterize como loucura e a catalogue como mera tolice.

Múiltiplos

Quantos heterônimos Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos não terão mantido em segredo, para não irritar Pessoa?

Soneto de como o amor nos ama

Desde quando acorda até
O momento em que se deita,
O amor nos fica no pé
E nos mantém sob suspeita.

Se vai conosco passear
Numa tarde domingueira,
Não se esquece de fechar
Bem apertada a coleira.

Venturosos somos nós.
No jeito com que nos ralha,
No modo com que reclama,

Pelo tom de sua voz,
Sentimos que não há falha:
O amor, de fato, nos ama.

Similitude

Há bundas altivas e sentenciosas como primeiros-ministros.

Alvura

Veleiro
cisne marinho
arminho
reflexo solar
espelho lunar
algodão moroso
cioso do seu velejar.

Pedra

Tinha uma pedra
no meio do caminho

Era fabulosa
diferente
preciosa
mas o gramático
nela viu
uma face vil
e uma índole perniciosa.

Questão de classe

Os cachorros do meu bairro não se parecem com aqueles do provérbio. São cachorros só, não cães, e, mesmo que por aqui viesse a passar uma caravana, não acredito que chegassem a ladrar. No máximo latiriam.

Companhia

Para um substantivo, é sempre melhor andar só do que mal adjetivado.

Modos

Há quem, com cinquenta ou sessenta anos, não se considere escritor. E há quem, com dezoito ou vinte, se declare com todas as oito letras, maiúsculas e em relevo, no cartão.

Marcos

Os lugares-comuns são os monumentos adequados à preguiça dos escritores.

"O ar é a primeira violência", de Adán Méndez Rozas

"Por sua causa se dá o primeiro grito.
Por ele é que começa todo o drama.

Nossa alma como que vai para outro,
nos mostra o corpo como algo alheio.

Um desastre, enfim,
que não tem nome.

Fazem bem em chamá-lo de amor."

(De Poetas da América de canto castelhano, tradução de Thiago de Mello, publicação da Global Editora.)

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Clandestino

O dia de morrer
foi ontem
anteontem
no entanto
tu te carregas ainda
e te arrastas por aí

Que trapaça armaste
com os deuses
e as bruxas
para com teus passos furtivos
andares ainda pelas ruas
onde caminham os vivos?

Seu Jairo

As irmãs de caridade prepararam uma festinha para comemorar os setenta e seis anos de seu Jairo. Porque ele não tem parente nenhum, participaram só os seus companheiros de asilo. Na hora de soprar as velinhas, ele se emocionou. Seu rosto, molhado pelas lágrimas, ficou parecendo o de um menino. O olhar percorreu duas vezes a sala. Uma das irmãs de caridade perguntou: "Procurando alguém?" Seu Jairo a abraçou: "Minha mãe."

Vida

A literatura pode não ser uma boa desculpa, mas é a mais antiga que tenho.

Soneto de como o poeta se transforma em rei

O poeta, esse ser bisonho,
Não faz mais do que sonhar,
E tudo tenta adaptar
Ao roteiro do seu sonho.

Eu, que poeta me suponho,
Também sei só divagar
E só ganho meu lugar
Se eu mesmo nele me ponho.

Sou hoje e sempre serei
Dentro de meus sonhos rei
Com coroa, cetro e rainha.

Mas na verdadeira história
Se alguém consegue uma glória
Essa história não é a minha.

Aprendizado

Ensinar ao corpo, aos poucos, a gostosura de morrer.

"Teoria de conjuntos", de Mario Benedetti

"Cada corpo tem
sua harmonia e
sua desarmonia

em alguns casos
a soma de harmonias
pode ser quase enjoada

em outros o conjunto
de desarmonias
produz algo melhor
do que a beleza."

(De Poetas da América de canto castelhano, tradução de Thiago de Mello, publicação da Global Editora.)

domingo, 5 de julho de 2015

Deficiência

Quando um homem de mais de cinquenta anos se põe a fazer declarações de amor - ainda que à própria mulher -, a família deve declará-lo civilmente incapaz e encomendar uma camisa de força.

Na revista Rubem

Hoje falo de coisas relacionadas com a gramática, sempre incômoda como um furúnculo alojado em parte pudenda ou a visita de um parente pedinchão (www.rubem.wordpress.com).

Humildade

Diante de um poema que lhe saia extraordinariamente melhor que de costume, o poeta humilde deve perguntar-se se o escreveu ou se o transcreveu.

Pechincha

Tão tolos são os escritores que dariam a alma ao Diabo não em troca da glória suprema, mas de um texto, um só, que merecesse aplausos de meia dúzia de amigos e artigo de dez linhas num jornal municipal.

Contabilidade amorosa

Ela nunca me deu nada, mas sempre me acusou de lhe pedir mais.

"Absolvição", de Cesar Calvo

"Não se pense que tudo foi amargura
na minha vida.
Quando ainda nem olhava, já sorria.

Fui um moço distante
como o vento
E passeei minha palidez cantando.

Amei, fui amado.

Se foram espelhismos
os dias e os mares
que me perdoem os culpáveis."

(De Poetas da América de canto castelhano, tradução de Thiago de Mello, publicação da Global Editora.)


sábado, 4 de julho de 2015

Espelho

A única imagem que um iconoclasta costuma respeitar é a própria.

Armagedon

Se não existir Deus, quem será por nós acusado de injustiça no Dia do Juízo Final?

Soneto da difícil tarefa de viver

Se tivéssemos morrido
No tempo que nos cabia,
Teríamos nos abstido
De nossa atual agonia.

Teríamos já cumprido
Aquilo que nos cumpria,
E o que nos é exigido
Ninguém mais exigiria.

Querem que nos entreguemos,
Querem que participemos,
Exigem-nos que vivamos.

Agora como fazer?
Jamais soubemos viver,
Por que mortos não estamos?

Última palavra

Gramático é aquele perito que decide se fogãozinho é diminutivo do aumentativo ou aumentativo do diminutivo.

Soneto da insuportável reminiscência

Ele se lembra de quando,
Naquele longínquo dia,
Pintada como vadia,
A viu pela rua andando.

Ele se lembra, chorando,
De como o sol parecia
Que em cada passo a seguia,
Conforme ela os ia dando.

Ele se lembra de tê-la,
Como o sol, acompanhado
Até o instante de vê-la

Entrar num carro e lamber
Um tipo mal-encarado
Como se o fosse comer.

O problema

O azar do nosso semelhante é que quase sempre ele é igualzinho a nós.

Soneto do rei do universo

Eu sou aquele pateta
Que logo ao primeiro verso
Se achou o rei do universo
E se condecorou poeta.

E, tendo assim me coroado,
Para maior glória minha
Fui procurar uma rainha
Para adornar meu reinado.

Fui feliz, fui muito, mas
Vieram logo as horas más,
E foi-se o poder, e o amor.

Minha rainha, aborrecida,
Decidiu mudar de vida
E fugiu com o trovador.

"Caderno de Bella", de Eliseo Diego

"Fico te olhando vir, lépida e leve,
voando pelas escadas do teatro,
boina de lado, a cabeleira solta,
fulgurante e feliz, feita de aromas.
Me sorris dando um livro a meu amigo,
depois te voltas, tua esbelta espádua
descendo escadarias, é uma música,
porta que dá para a felicidade."

(De Poetas da América de canto castelhano, tradução de Thiago de Mello, publicação da Global Editora.)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Replay

Se eu soubesse que aquele
era o último dia
minha adorada
daquela chanchada
que por tanto tempo
me obrigaste a coadjuvar
eu te juro que não diria
só adeus como te disse

Eu te execraria
eu te maldiria
como sempre mereceste ser
execrada e amaldiçoada
minha adorada.

Logradouro

Gostaria de morto
merecer com minha poesia
não o nome de uma rua comprida
de uma avenida
mas o de uma rua de periferia
uma ruazinha ignorada
hoje chamada não de rua A
ou de rua B
ou de rua C
mas uma rua denominada
simploriamente de rua Y
ou de rua Z.

Soneto do amor superestimado

Amor, que culpa tu tens,
Se quando tu estás ausente
Eu te chamo aflitamente,
Mas não estou quando vens?

Amor, eu posso execrar-te
Se tu nem existirias
Se eu, com minhas fantasias
Não me dispusesse a criar-te?

Amor, eu que te esbocei
E desse esboço te criei
Da cabeça aos pés,

Posso, amor, te censurar
Se te moldei, ao te criar,
Muito mais belo do que és?

Glória

Sim, eu parei.
Não contemplo mais
as estrelas
não louvo mais o mar
não me ocupo mais
em elucubrar
em sonhar

Parei a tempo
de não me tornar
mais um desses velhotes
que gastam a vida a versejar
e a cada livro lançado
dizem cuspindo olhem aqui
quero ser um invertebrado
se desta vez não me derem o nobel ou o jabuti.

"Numa estação de Metrô", de Óscar Hahn

"Desventurados os que divisaram
uma jovem no Metrô

e se enamoraram de golpe
e a seguiram enlouquecidos

e a perderam para sempre entre a multidão

Porque eles serão condenados
a vagar sem rumo pelas estações

e a chorar com as canções de amor
que os músicos ambulantes tocam nos túneis

E quem sabe o amor não é mais do que isso:

uma mulher ou um homem que desce de um carro
em qualquer estação de Metrô

E resplandece para sempre
e se perde dentro da noite sem nome."

(De Poetas da América de canto castelhano, tradução de Thiago de Mello, publicação da Global Editora.)

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Liliane Machado

Diante de Liliane Machado, as palavras se alegram, se alvoroçam, se dão as mãos em ciranda e convidam: "Vem, menina, vem brincar, Lili!"

Cátedra

Falo do amor
com conhecimento
como um visionário
do seu destino
como um violinista
do seu instrumento
como um assassinado
do seu assassino.

"Os anos", de Margarito Cuéllar

"Quando passavam uns quantos
era como carregar no ombro
a rosa dos ventos.
Voava-se e na verdade
acreditava na existência dos anjos.
Agora que são tantos
me doem, já não cabem
não sei como suportam o gemido do vento.
Gostaria de convidá-los para um rum
e esquecê-los no meio da noite.
Vou seguir um longo tempo com a carga
e os levarei ao asilo quando já não os queira.
Quem sabe
talvez os enterre no jardim
para ver se regressam ao meu princípio."

(De Poetas da América de canto castelhano, tradução de Thiago de Mello, publicação da Global Editora.)

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Soneto do amor corriqueiro

Se não for destrambelhado,
Se não for ensandecido,
Se não for louco fichado,
Irracional e incontido,

Se for certinho e decente,
Gentil e respeitador,
Como costumeiramente
Se espera que seja o amor,

Ele será esse tédio
Sem alívio nem remédio,
Essa morna encenação,

Esse passatempo diário,
Esse cirquinho precário,
Essa chocha diversão.

"Gotán", poema de Juan Gelman

"Esta mulher se parecia à palavra nunca,
da nuca lhe subia um encanto particular,
uma espécie de esquecimento onde guardar os olhos,
esta mulher se instala no meu costado esquerdo.

Atenção, atenção, eu gritava atenção,
mas ela invadia como o amor, como a noite,
os últimos sinais que fiz para o outono
deitaram-se tranquilos com as ondas de suas mãos.

Dentro de mim estalaram ruídos secos,
caíam em pedaços a fúria, a tristeza,
a senhora chovia docemente
sobre meus ossos de pé na solidão.

Quando se foi eu tiritava como um condenado
com um punhal brusco me matei,
vou passar toda a morte deitado com seu nome
ele moverá minha boca pela última vez."

(De Poetas da América de canto castelhano, tradução de Thiago de Mello, publicação da Global Editora.)