sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Pieguice

Há na pieguice um encanto que relaciono à liberdade. O piegas pode ser rudimentarmente dramático, sem precisar ser artístico.

Ingerência

Há escritores tão presunçosos que, se o próprio Deus lhes oferecesse ajuda, aceitariam uma fatia de pão, talvez, mas jamais um parágrafo ou sequer uma frase.

Precaução

Quando estiveres morto, conserva bem fechada tua boca, para que não te escape por ela o coração. Sabes como ele é volúvel e traiçoeiro.

Petição

O plural de bem-te-vi deveria ser bens-vos-vis.

Paz

Chegará um momento em que, assim como o sexo, a beleza não nos atormentará mais, e poderemos assistir à morte de um cisne sem a pretensão de fazer o lago transbordar com nossas lágrimas. E as palavras, essas falsas intérpretes dos sentidos, não nos farão mais falta.

Opção

Se voltar a comichão de escrever por escrever, tire a mão do teclado e afague um gato. Pode não ser agradável para ele, mas será um alívio para os leitores.

Soneto que aspira a ser madrigal

Senhora, quantos louvores
Teus meigos olhos merecem
Que o verde assim me oferecem,
E os lábios, esses primores?

À tua passagem flores
Alegres por ti florescem
E para ti enternecem
Seus cantos os beija-flores.

Quem dera, minha senhora,
Que eu, como os poetas de outrora,
Pudesse também, amiga,

Louvar todos teus encantos,
Se não com extensos cantos
Ao menos com uma cantiga.

Uma frase de Alan Pauls

"Uma sensibilidade que só tem olhos para a dor e é absoluta, irremediavelmente cega a tudo o que não seja dor."

(De História do pranto, tradução de Josely Vianna Baptista, Cosac Naify.)

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Sobre fingimento

Se o poeta é um fingidor completo, o que é quem, como eu, finge ser poeta?

Estatística

Tenho aqui no blog mais de 25 mil textos. Alguns não falam de amor. Essa é a maior falha dele.

... et in pulverem reverteris

O que esperarmos de nós?
Eu sei que sou pó, e só,
E que tu também és pó.
Que podem valer dois pós?

Soneto dos que o amor matou

Os que por amor sofreram
As dores mais lancinantes
Hoje não sofrem como antes,
Há muito já que morreram.

Deles nenhuma lembrança
Ficou, nem dos seus gemidos,
Nem dos apelos sentidos,
Nem da sua morta esperança.

De todos os que matou
O amor os traços limpou
E eliminou os sinais.

E, porque isso lhe apetece,
Novamente a teia tece
Com os mesmos fios fatais.

Talvez como então

Um dia talvez
nos reencontremos
nos reconheçamos
e tomemos um café
como tantos que tomamos
naquela época
em que tomarmos café era
mais que tomarmos café
embora não soubéssemos
como não sabemos ainda agora
o que era aquilo
que nos tocava
como se nos tocasse
a patinha amorosa de um gato
ou o primeiro sopro da primavera.

Daltoniano (para Ernesto Ferreira e Liberato Vieira da Cunha)

Se alguém estiver gemendo - ai, meu coração, ai, minha alma - e for um personagem de Dalton Trevisan, você pode imaginá-lo com a mão esquerda na tetinha direita (ai, meu coração) e a mão direita na tetinha esquerda (ai, minha alma) de uma voluptuosa mulher que ele chama ora de gostosa, ora de gostosinha.

Quatro versos de John Keats

"Oh, não anseies por saber - eu nada sei,
Porém a noite escuta-me. Quem se entristece
Pensando no ócio não se encontra na indolência,
E está desperto quem se julga adormecido."

(Do poema "O que disse o tordo", do livro Ode sobre a melancolia  e outros poemas, tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, Editora Hedra.)

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Ufa (para Deonísio Da Silva, Gianluca Sapuppo Drewnick e Nicole Drewnick)

A sorte do cágado é ser proparoxítono.

O erro

Constrangidos por só falarem de amor, os poetas às vezes se aventuram por outros temas. É então que os leitores menos gostam deles.

Ou já ou não mais

Morrer pela literatura é um projeto que, se eu não o apressar, será precedido pelo prosaico processo de morte natural, com as causas costumeiras: pneumonia, diabetes, pancreatite, cardiopatia.

:

Sem apelar para a rima
qual dos dois-pontos
ocupa o melhor ponto:
o de baixo
ou o de cima?

Sessão de autógrafos

Na feira do livro de um colégio longínquo, onde a cidade perdeu a vontade de continuar, o velho escritor explica para alunos de oito anos como lutou para ser o que é. Fala dos estudos, das leituras, dos cursos, do esforço. "Não foi fácil chegar até aqui", ele diz, e um dos meninos, já com a ironia que lhe trará problemas no Dia do Juízo Final, pensa: para mim não foi nada difícil; eu nasci aqui. E, quando o escritor autografa o livro, ele compara: letra feia, pior que a minha. Que escritor é esse, que não sabe escrever?

"Origem do pecado", de Lourença Lou

"entre provar teus frutos freudianos
e navegar as demandas dos teus mistérios
prefiro meus cinco sentidos
em alerta
e abertos
a todas as possibilidades

corpo a corpo
serei sempre
instrumento
da tua falta de limites."

(De Equilibrista, Editora Penalux.)


terça-feira, 27 de setembro de 2016

Tratamento

As mulheres deveriam tratar os poetas como se eles fossem meninos. É o que eles são. Meninos a quem convém perdoar tudo, pelo dom que têm de conversar com  as estrelas. Meninos que, dotados desse privilégio de conhecer as estrelas, certamente sabem do que falam quando as comparam a algumas mulheres.

Repercussão

Deus criou o mundo em uma semana e reservou toda a eternidade para ficar ouvindo a opinião dos críticos.

Primazia

Deus, quando criou o mundo, era um artista de vanguarda.

... e um tantinho mais de Dalton Trevisan

"Chuvinha de Curitiba, ai, goteja na tua alma perdida, desfaz a trouxa na cabeça da formiguinha, embaça o óculo do míope, derruba do galho o pardal encharcado, molha a meia dos vivos, lava o rosto dos mortos."

                                                                     ***

"- Essas tuas sandálias de Sulamita para me espezinhar. Esse teu chicotinho de Jezabel para me flagelar. Esse teu ventre de Salomé para me abrasar. Essas tuas unhas de Dalila que me arrancam docemente os olhos - e a vida."

                                                                    ***

"Bilhete deixado na mesa da cozinha pela menina de treze anos:
'Diga pra mãe que que eu estou grávida do seu João.'"

(Do livro Pico na veia, Editora Record.)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Coerência

Numa unanimidade burra
é regra até a exceção.
Se são quatrocentos,
há trezentos e noventa e nove que ornejam
e um que zurra.

Recorde

O papagaio dopado
cantou o hino nacional inteiro
em um minuto cravado.

À Sua semelhança (para Marcelo Mirisola)

Alguns escritores se empolgam tanto ao descrever seu trabalho que é como se fossem Deus explicando o processo da Criação.

Nulla dies sine linea

Escrever, escrever todos os dias, ainda que pouco, ainda que mal. Mesmo que seja só para manter as aparências. E mesmo que mantenhamos as aparências não para os outros, mas para nós mesmos.

Soneto do que o amor te concederá

Quanto mais lhe és dedicado,
Quanto maior teu fervor,
Mais de ti se esquiva o amor
E mais se faz de rogado.

Tendo-te já subjugado
E sendo já teu senhor,
Mais nada fará que for
Por ti pedido ou clamado.

Por que haverá de ser terno,
Se tu nunca passarás
De um criado, de um subalterno?

Por seres nada, como és,
Tudo que dele obterás
Será beijar os seus pés.

Um trecho de Liberato Vieira da Cunha

"Quem já não sou? O poeta que jamais fui; o caçador de passarinhos que soltava suas presas de puro remorso; o cantor, o pianista, o escafandrista que povoavam minha imaginação.
Quem já não sou?
O escravo de teus olhares que se não me engano eram azuis e hoje passam por mim esquecidos de me ver."

(Da crônica "Quem já não sou", do livro de crônicas O silêncio do mundo, AGE Editora.)

domingo, 25 de setembro de 2016

Revista Rubem

Hoje falo de poetas e outros tipos estranhos (www.rubem.wordpress.com).

Nomenclatura

Se esta rua fosse minha, você acha que ela ia se chamar General João Pinto Salgado?

Persona

O psicanalista nota uma pequena diferença em seu mais curioso paciente, obcecado com a cena capital de Crime e castigo, de Dostoiévski. No começo do tratamento, ele era ora Raskolnikov, ora a velha agiota assassinada por ele. Nas duas últimas sessões, ele assumiu o papel da machadinha.

Fonte

Uma alma atormentada pelos infortúnios do amor sempre tem, depois da última, pelo menos mais uma lágrima.

Acompanhamento

Que alegre som faz teu berloque
quando castigas meus ombros nus
com o teu ciumento chicote.

Privilégio

O amor deveria ser um assunto só de pássaros e borboletas.

Mérito

Tão maravilhosamente choras
tão lindamente padeces
que merecias gemmer com dois emes
e ssofrer com dois esses.

... e mais Dalton, para desaburguesar o domingo

"A mocinha:
- Já reparou que a mãe serve só pra você passar vergonha?"

                                                       ***

"- Ai, docinho. Como você é linda. Me lembra a cadelinha Fifi que eu gostava tanto. Um beijinho, deixa.
- Não comece, você.
- Essas duas tetinhas. Ou são três? Ai, eu não mereço.
- Ih, cara, eu já me visto.
-E essa barriguinha... Ai, mais um beijo, só unzinho. Eu morro, olha, nem uma pulguinha."

                                                       ***

"- Para você, grande putinha, amor é tudo te perdoar? Sofrer as tuas mil perfídias e traições? Por outro vê-la ganir de paixão? E rastejando agradecido te beijar o pezinho? Bem sei: você corta o rabo da lagartixa, cresce outro mais bonito. Isso que é,sua maldita? Isso que é amor?"

(De Pico na veia, Editora Record.)

               

sábado, 24 de setembro de 2016

Mais vale um gosto

Carregar o mundo nas costas não é nossa obrigação. Mas nós o carregamos, por ostentação.

Rimas

Nos frequentes pesadelos, o poeta vanguardista é atormentado pelas mais bizarras rimas. No desta noite, o pior de todos, a mulher o sacudiu. O poeta, mesmo depois de acordado por ela, continuou berrando: arrebol, crisol taful paul cisne tisne lesma abantesma. A mulher, também já infectada pela rimite, o intimou: - Se isso continuar assim, eu vou te arrastar até um especialista, um psicanalista, um alienista, sei lá, um exorcista.

Tanto amor

Que olhos, os dela. Duas jabuticabonas. Os cabelos? Seda. Parece que sinto ainda o formigamento dos fios de ouro aqui, entre os dedos. Cinco anos depois... E a boca? Vou lhe dizer. Parecia uma fruta. Doce, doce. E os dentes... Ah, os dentes! Tão lindos. Olhe aqui a minha mão. No dia da separação, ela ficou com raiva de mim e me mordeu bem aqui. Está vendo? Não, a mordida não foi muito forte. Eu é que nesses cinco anos não paro de me beijar aqui, de me morder aqui, onde os lábios dela estiveram. Ah, você não imagina como eu amei aquela mulher.

Um poema de Dalton Trevisan

"À passagem da tua bem-querida
um a um os carros estacionados disparam o alarme
nas esquinas todos os semáforos acendem o verde
os pipoqueiros distribuem pipoca com mel e algodão-doce
em cada vidraça pronto florescem os vasinhos de violeta
os muros apagam as pichações e escrevem o nome dela
à sua volta revoam sete pombas brancas de galochas vermelhas
alumbrados míopes e coxos atiram para o ar muletas e óculos
nos pedestais os heróis esquecem que são bronze e batem palmas
em todo jardim rosas lírios orquídeas alegremente cantam
à  passagem da tua bem-querida."

(Do livro Veneno na veia, Editora Record.)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O ponto

O mais importante
para um escritor bissexto
é o pretexto.

Oração do travado

Senhor, me ajuda,
Me dá inspiração.
Não precisa ser um romanção.
Do jeito que a coisa vai
Aceito um poeminha
uma trovinha
um haicai.

Se lhes parece

Como os poetas hodiernos
os de mil oitocentos e nada
também se diziam modernos
com a cara mais deslavada.

Logística

Em assuntos de luxúria
a melhor posição
é sempre a espúria.

Plantio

Ela tem sempre um copo à mão, para colher as lágrimas de amor. As vizinhas lastimam seus olhos, sempre tristes, e invejam suas roseiras.

Hem?

Politicamente correto é uma expressão que cada dia parece mais uma contradição em termos.

E Dalton ainda, porque os leitores gostam

"- Quem podia com esse aí? Aos 11 anos, um caso passional com certa galinha carijó. O bolso esquerdo sempre furado pela mão viageira. Furtava as moedas no cofrinho da irmã. Bebia, jogava, seduzia criadinha. Do Colégio Marista fugiu travestido de padre. Tinha três noivas na mesma cidade. Reinou mais que Dom Pedro I. E tudo pagou ao casar com a Gracinha."

                                                                       ***

"Todinha nua, orgulhosa:
- Na cama em que me deito não cabe outra mulher."

                                                                       ***

"- Está bem, amor. Me beija. Faz tudo o que quiser. Só não me peça que abra os olhos. Sagrado é o meu sono de beleza."

                                                                       ***

"E assinou a cartinha de amor: a cauda em riste do dragão fogoso."

                                                                       ***

(Do livro Pico na veia, Editora Record.)


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

"A criança morta a tiros por soldados em Nyanga", de Ingrid Jonker (*)

"A criança não está morta!
Ela levanta os punhos junto à sua mãe.
Quem grita África! brada o anseio da liberdade e da estepe,
dos coração entre cordões de isolamento.
A criança levanta os punhos junto ao seu pai.
Na marcha das gerações,
Quem grita África! brada o anseio da justiça e do sangue,
nas ruas, com o orgulho em prontidão para luta
A criança não está morta!
Não em Langa, nem em Nyanga
Não em Orlando, nem em Sharpeville
Nem na delegacia de polícia em Filipos,
Onde jazz com uma bala no cérebro.
A criança é a sombra escura dos soldados
em prontidão fuzis sarracenos e cassetetes
A criança está presente em todas as assembleias e tribunais
Surge aos pares, nas janelas das casas e nos corações das mães
Aquela criança, que só queria brincar sob o sol de Nyanga, está em toda parte!
Tornou-se um homem que marcha por toda a África
O filho crescido, um gigante que atravessa o mundo
Sem dar um só passo."

(*) Tradução de Maria Helena D'Eugênio, extraída do blog "Coisas da Ada".

Procurei este poema hoje à tarde, depois de assistir, maravilhado, ao filme Borboletas negras, dirigido por Paula von der Oest, que retrata a vida de Ingrid Jonker.

Frase do dia

Não há nenhuma quinta-feira que o Corinthians não possa melhorar na quarta.

Alter ego

Há cinco décadas o homem espera ser redimido pelo poeta que pensa haver nele. Houve épocas em que a esperança do homem foi maior e também mais intenso o empenho do poeta.

Distinção

Há os poetas e há os poetas de carteirinha. Os primeiros fazem poesia. Os outros fazem reuniões.

Prova (para Liberato Vieira da Cunha)

Ele se declarou inocente, mas, ao puxar o lenço para enxugar o suor, escaparam do seu bolso catorze pássaros que, embora de porcelana, se puseram a esvoaçar pela sala do tribunal tão inequivocamente que ele nem tentou continuar negando: era um sonetista.

Realidade

Num homem velho
tudo é meio
tudo metade

Até seus anos
conquistados com tenacidade
não são inteiros
são só meia-idade.

Um pouco mais de Dalton Trevisan

"Cartão-postal de Curitiba:
Pare na primeira esquina e conte os minutos de ser abordado por um pedinte, assediado por um vigarista e trombado por um pivete - se antes não tiver a nuca partida pela machadinha do teu Raskolnikov."

***

"Melhora muito o convívio de Sócrates e Xantipa assim que um deles bebe cicuta."


***

"Gorda grotesca de coxa grossa
mestra no embuste doutora na fraude
famosa cafetina do talento alheio
galinha pesteada que come os olhos dos pintinhos
falsa loira cavadora de louros
bicha cabeluda onde toca espirram verrugas negras
toupeira cevada nas larvas da traição
entre a vassoura e o chinelo corre maldita corre
ó barata leprosa de botinha e liga roxa."

(Do livro Pico na veia, Editora Record.)


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Estes que eu amo

DALTON TREVISAN – Em Dalton Trevisan, o fetiche sexual pode estar num dente de ouro, num olho vesgo ou na marca deixada no rosto por um cravo mal espremido.

TCHEKHOV (1) – O jovem que pretende escrever contos deve ler os melhores do gênero e Tchekhov. Ou então ler só Tchekhov.

TCHEKHOV (2) – Em Tchekhov tudo é tão natural que, se um cachorro se puser a discutir filosofia não soará estranho, mesmo que esteja debatendo com um cavalo.

CASIMIRO DE ABREU (1) – Pode parecer tolo, mas eu, se amasse alguém, lhe daria o livro de Casimiro de Abreu.

CASIMIRO DE ABREU (2) – Queriam que Casimiro de Abreu fosse caixa de loja – ele que não dava conta nem do amor que tinha no peito.

LOURENÇO DIAFÉRIA – Não sei se já há em São Paulo uma rua que homenageie o cronista Lourenço Diaféria. Se há, é pouco. Uma avenida? Pouco também. E também pouco um viaduto. O Brás deveria chamar-se Lourenço Diaféria. Até o Brás sabe disso. É só ir lá e perguntar a ele.

MARCOS REY e EÇA DE QUEIRÓS – Num dos romances de Marcos Rey, Entre sem bater, há um homem que, depois de muito ansiar, conquista a mulher que deseja. O primeiro pedido que faz a ela é uma xícara de café. José Matias, outro personagem, este de Eça de Queirós, torna-se uma sombra da mulher amada, mas nunca se declara. Ela se casa, se descasa, vai se casando e descasando, e ele, nos intervalos, reaparece. Só nos intervalos. Mas continua não se declarando. Há homens assim, audazes só na imaginação e no pensamento. São capazes de consumir anos em torno de uma mulher, como satélites, e receiam pedir-lhe uma coisa simples, uma bobagem qualquer, como a companhia em um almoço ou um café.

WISLAWA SZYMBORSKA – As epopeias de Wislawa Szymborska não precisavam de campos extensos, de imensos territórios, e seus participantes poderiam ser um tapete, um filete de sol, um gato espreguiçando-se no sofá. Sua poesia nunca exigiu nada mais grandioso que isso. Coisas como um bocejo do gato ou a audácia do voo de uma mosca da persiana para a mesa da sala, sobre uma perigosa jarra de água, davam à cena o tom épico.

MARIANA IANELLI – Escrever é um dom que Mariana Ianelli e mais alguns poucos têm.

UM DOS TRÊS – Convidaram-no a ser um escritor-fantasma, e ele, pondo-se à disposição, disse que três eram suas especialidades: Dante, Cervantes e Shakespeare.

Cotação do dia

10h40 - Uma sensação de plenitude, como se já tivesse sofrido tudo que me cabe, e certa decepção, porque a tristeza não foi tão bela quanto prometia.

Pose

Toda máxima é no mínimo presunçosa.

Geografia (para Silvia Galant François)

Voltaire e Rousseau lá
não filosofavam como
o Marquês de Maricá.

Aritmética

Em hipótese nenhuma
duas meias-medidas
completarão uma.

Técnica

Se amor é a morte que escolhemos, morramos devagar. Não lhe neguemos o direito de rasgar em nossa carne essas feridas com que ele goza e nos incita a gozar.

Um trecho de Lautréamont

"Ao sairmos desta vida transitória, quero que continuemos entrelaçados pela eternidade; formaremos um único ser, minha boca colada à tua. E, mesmo assim, minha punição não terá sido completa. Então, tu me dilacerarás, sem parar um instante, com unhas e dentes. Adornarei meu corpo com grinaldas embalsamadas para esse holocausto expiatório; e sofreremos juntos, eu por ser dilacerado, tu por me dilacerares, minha boca colada à tua."

(De Maldoror, tradução de Claudio Willer, publicação da Editora Max Limonad.)

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Cotação da noite

22h31 - Há corações tão desavergonhados que insistem em continuar batendo dentro do peito de homens atirados à rua como cachorros sarnentos depois de lhes ser dada a sopinha da caridade.

Cotação do dia

Perdi meu gosto de viver
minha mão de escrever
e meu jeito de chorar pesares.

2010

Ficaram-me daqueles dias
este câncer na alma
e cartas cheias de frases vazias.

Rápido (para Deonísio Da Silva)

Corre-corre é um substantivo duplamente apressado.

Defesa

Tão fundo lhe dói a vida
Que aceita qualquer cartada:
Morrer de morte morrida,
Morrer de morte matada.

Cartilha poética (para Silvana Guimarães)

Um poeta pode ser
isento ao falar
do céu do mar
e de outros temas
do ofício poético
mas há de ser
passionalmente parcial
e até antiético
se quiser aprimorar
a essência primorosa
de uma rosa
ou se ousar magnificar
a clamorosa magnificência
de uma mulher.

De Mariana Ianelli, sobre Adriana Lisboa

"O sol da Kathleen Mc Cracken para você, Adriana. Flor de todos os fogos. Porque é seu aniversário, mas não só por isso. Porque você, que tem alma de poeta, sabe que toda flor que ainda se abre é uma flor épica. Porque você, que já viu estrelas até dentro de uma pedra, você sabe que ainda uma flor se abrindo, hoje, é mais que lírica."

(Extraído da crônica "Um sol para Adriana Lisboa", do livro Para aqueles a quem os dias são um sopro, Edições Ardotempo.)

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

17h17

Fechar a loja, enquanto estes mofados objetos, resquícios de um amor que se quis eterno, recebem ainda como misericordioso prêmio estes últimos toques de sol. Boa noite a todos.

Soberba (para Ana Farrah Baunilha)

Toda nudez
será castigada
se podendo se mostrar
se fizer de rogada.

Ocaso (para Herena Barcelos)

No fim da jornada
uma borboleta no lombo
ao burro velho parece
uma carga pesada.

Otimismo (para Celina Portocarrero)

Atirou um pedregulho no lago e ficou esperando um haicai.

Concorrência

No morro dos ventos uivantes
os lobos sentiam-se diletantes.

Aposentadoria

No fim da vida, Dom Quixote, já extinta sua chama aventureira, passou a tratar os moinhos com fidalguia. Cumprimentava-os até e, nos dias de excepcional bom humor, dava-lhes tapinhas nos braços.

De Lautréamont, sobre a escrita

"Oh! como sou fraco! Não importa. Terei, no entanto, a força de levantar o porta-caneta e a coragem de cavar meu pensamento."

domingo, 18 de setembro de 2016

Lucro

Não posso queixar-me
dos meus defeitos.
Com exceção de um ou dois,
são todos perfeitos.

Presságio

O cachorro começou a uivar de madrugada. A mulher acordou o marido:
- É aviso de morte.
O marido disse que  era bobagem, mas ela foi ao quarto dos dois filhos. Estavam bem. Voltou para a cama. Quando abriu a porta do quintal, de manhã, o cachorro estava morto.

Três

Dentro da caçamba, havia tês gatinhos. Um ainda miou três vezes antes de fechar também os olhos.

Diretor

Para montar uma farsa
o amor precisa só de um tolo
e uma comparsa.

Soneto dos falsos réus

Um dia talvez saibamos,
Por mais que possa tardar,
Com precisão avaliar
Onde foi que nós erramos.

Ou talvez nós descubramos,
Depois de tudo pesar,
Que nem chegamos a errar,
Apenas nos enganamos.

Desde quando o amor morreu,
Nos acusamos, tu e eu,
De tê-lo feito morrer.

E se ele tiver morrido
Porque o amor só faz sentido
Com prazo certo de ser?

Um poema de Dalton Trevisan

"O meu amor
é um barquinho bêbado
errando ao longo de Ítaca
jamais alcançada
Nas curvas do teu corpo
vagueio pelos sete mares
e mais um
Na tua boca aprendo a beijar
em todas as línguas
vivas e mortas
Visito Calipso Nausica e Circe
na unha azul do teu mindinho do pé
No teu umbigo me assombra
um unicórnio branco de pintas pretas
Assisto no teu ventre
ao galope de hipocampos fosforescentes
Na tua orelha direita
ouço o cantiquinho das sereias
e cravado no mastro dos teus braços
já me afogo
no remoinho de suspiros e delícias."

(Do livro Pico na veia, Editora Record.)

sábado, 17 de setembro de 2016

A hora certa (para Isabel Monteiro)

O amor morre dramaticamente, para não morrer depois, pifiamente.

Retidão

Se não o corrompe a vaidade
todo escritor acaba tomando
o caminho da simplicidade.

Poesia (para Aden Leonardo)

Sou como um homem
que abriu um bar
já nem se lembra como
e agora não o sabe fechar.

Tempus fugit

Passa um mês
passa outro
e quando você vê
é janeiro outra vez.

História (para Gianluca, Nicole, Duda, Bianca e a Bia)

Um dia os dias
antes dispersos
se reuniram
num congresso extraordinário
e criaram o calendário.

Memória

Na major quedinho
o sol madrugador ia
buscar o estadão nosso de cada dia.

Mais Dalton

"Bilhete deixado sobre a tevê:
'Com esta faca que você me deu, hoje eu faço o que você queria. Vou de terno azul, assim você pediu, e gravata preta. Ao encontro do teu primeiro marido, que você matou igual a mim. Não fique sossegada, Eu volto, querida. Para deixar você louca e te levar comigo. Você me odeia. Eu te amo. João."

                                                                 ***

"Ao chegar em casa, do programa no motel, o marido é saudado com um grito pela mulher:
- Eu soube de uma coisa terrível!
Pronto, ele pensa, estou perdido. Ela descobriu tudo.
- Pô, o quê. Mas o quê... O que aconteceu?
- Mataram o filho do seu João!
- Urr... Orra. É mesmo? Pobre do seu João.
Te devo essa, Deus."

                                                                ***

"A mulher do velho poeta:
- Em vez de ganhar dinheiro, você fica aí sentado cantando o mesmo versinho!"

(De Pico na veia, Editora Record.)

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Gatos (para Arlene Colucci)

Quando lembro que sobrevivi a tantos gatos queridos, sinto como é injusto o mundo e duvido do senso de beleza de Deus.

O patrão

Num dia, alegra-se porque oito ou dez leem o que escreveu. No outro, exaspera-se por serem tão poucos. É o homem dentro dele, patrão atento, cobrando resultados do poeta. Veleiros de sonho não compram iates.

Distorção

Um poema jamais exprimirá o breve voo de uma borboleta, de uma árvore a outra. Quando a primeira palavra se atreve, os olhos já advertem que não é bem aquilo, que nunca virá a ser aquilo.

Um trecho de Mallarmé

"Este jogo insensato de escrever é se apropriar, em virtude de uma dúvida - a gota de tinta aparentada à noite sublime -, de alguma obrigação de tudo recriar, com reminiscências, para se certificar de que se está onde se deve estar (porque, permita-me exprimir esta apreensão, ainda permanece uma incerteza)."

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

00h40

A tristeza é sempre mais aguda à noite. Se eu tivesse um gato, choraria tanto sobre ele que talvez começassem a brotar flores no seu pelo.

Delícia

Depois de pirar,
Ismália vive nua.
Toma banho de mar,
Toma banho de lua.

O prazo

Não sei quantos sonetos terei tempo ainda de fazer. Talvez um, talvez dez, talvez cinquenta. Serão todos como os trezentos que tenho arquivados: formalmente certos, talvez impecáveis até, belos se vistos por olhos benevolentes, belíssimos se lidos por leitores generosos, comuns e inócuos na opinião de especialistas. Resumindo: tanto faz ou fará serem escritos ou não. Nada irão acrescentar. O que significa - se me permitem esta prosaica previsão - que eu morrer hoje é a mesma coisa que eu morrer em 20 de dezembro de 2016 ou 12 de março de 2024.

Retrato

De alguns anos para cá
não tenho sido mais que um gato velho
deitado no meu sofá.

Glória

Então, certa manhã, você se verá diante de uma entusiasmada plateia de garotos e garotas que começarão a lhe perguntar como é ser escritor. Nesse dia você precisará conter-se para não dizer mentiras que, se você for honesto, terá de continuar repetindo até o fim da vida.

"Terra prometida", de Roland Barthes

"Ele tinha o pesar de não poder abraçar ao mesmo tempo todas as vanguardas, atingir todas as margens, de ser limitado, retraído, comportado demais, etc.; e seu pesar não podia esclarecer-se por nenhuma análise segura: a que, precisamente, ele resistia? Que é que ele recusava (ou mais superficialmente ainda: contra que ele emburrava) aqui ou ali? Um estilo? Uma arrogância? Uma violência? Uma imbecilidade?"

(De Roland Barthes por Roland Barthes, tradutor não mencionado. Editora Cultrix.)

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

00h21

Não consigo dormir. Venho para o micro. Inquieta-me uma aflição, um prenúncio de morte, e penso que talvez possa escrever enfim algo que seja belo. Nada. Nada. Como sempre. Nada.

História

Daqui - repetem os cicerones em cada excursão - partiu o grande Quem I para a sua batalha final contra Quem II, em 1820. A montanha ouve a arenga e sorri. Perdeu a conta da idade que tem, e sempre foram mais importantes, para ela, as florações da primavera do que os homens - esses Quem I e Quem II buscando infatigavelmente motivos para guerrear e deixando sempre os bisonhos sinais que a primeira brisa apaga.

Paradoxo

Alguma estranheza sempre há
em chamar de grande artista
um minimalista.

Credencial

Tenho algumas noções
sobre algumas coisas.
Não entendo
nada de nada.
Se me julgam poeta
talvez seja
por minha alma dilacerada.

Cotação do dia

Passou o tempo de tudo. Da grande obra, e das pequenas. Tanto cansaço por nada: nem você se considera escritor. Até se Deus, Ele mesmo, dissesse que sim, você O contestaria. Reconhecimentos tardios não costumam levar ninguém a Estocolmo, e Deus, que se saiba, não faz parte da comissão do Nobel.

Um fragmento de Roland Barthes

"Um tom de aforismo ronda este livro (nós, a gente, sempre). Ora, a máxima está comprometida com uma ideia essencialista da natureza humana, está ligada à ideologia clássica: é a mais arrogante (frequentemente a mais tola) das formas de linguagem."

(De Roland Barthes por Roland Barthes, tradutor não mencionado, Editora Cultrix.)

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Soneto da mulher enigmática

Olhando-a de perto, assim,
Vejo mais de uma razão
Para responder-lhe não,
Para não dizer-lhe sim.

Seus olhos, esses primores
Que ora verdes me parecem,
Ora negros anoitecem
E ora assumem outras cores,

Seus lábios, esses algozes
Capazes de me falar
Palavras doces e atrozes,

Tudo é tão incerto que
Eu não devia arriscar,
Mas me abro todo a você.

Time

Palmeiras? Não. Verdes, só amo os olhos.

Norma de segurança

Passando sob um poema concreto
o correto e o prudente
é usar um capacete.

Antiego

Continuo intolerante comigo. Às vezes finjo um mosquito andarilho no rosto, para estapear-me.

Cartilha (para Ana Farrah Baunilha)

Os orifícios
são as mães
de todos os vícios.

Mario Quintana (para Silvia Galant François)

Contra a tristeza doentia
E o mau humor, preparemo-nos.
Respondamos com a alegria,
Resistamos, quintanemo-nos.

Ego

Acho estranho
qualquer grande momento histórico
do qual eu não seja contemporâneo.

"Tolo?", de Roland Barthes

"Visão clássica (baseada na unidade da pessoa humana):  a tolice seria uma histeria: bastaria a gente se achar tolo, para o ser menos. Visão dialética: aceito pluralizar-me, deixar viver em mim cantões livres de tolice.
Frequentemente, ele se achava tolo: é que ele só tinha uma inteligência moral (isto é: nem científica, nem política, nem prática, nem filosófica, etc.)"

(De Roland Barthes por Roland Barthes, tradutor não mencionado, Editora Cultrix.)

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Viver para ver (para Angela Brasil e Liberato Vieira da Cunha)

Agradeço por estar vivo e ter visto, agorinha mesmo, "A pele de Vênus", do Polanski (um desses caras que me fazem querer ser polonês). O filme, obríssima de artíssima genuíníssima, reforçou em mim a ideia de que Sade e Masoch resumem o princípio da vida. Sadismo e masoquismo, com uma leve alteração de sentido aqui e ali, carregam o mundo nas costas. E é uma pungente declaração de como o episódio com a garota nos EUA, cinquenta anos atrás, afetou o Polanski e de como ele, como tantos, recorreu à arte para sublimá-lo. Não sei se conseguiu, mas a tentativa é maravilhosamente honesta.

Sonho (para Ernesto Ferreira e Liberato Vieira da Cunha)

Corri para atender
O telefone. Era o Trump,
Não era a Sharon Stone.

Ermitão (para Paula Plank)

Até no face
a única amizade que eu tinha
desfez-se.

Trovinha

Quem está certo
e quem está errado?
Quem no sexo vê um bem
ou quem vê nele um pecado?

Mario Quintana

Ninguém estranhava quando Mario Quintana, incomodado com algum comentário, pedia: nem mais um pio.

Inocuidade

À inquietação da carne
o amor não traz cura ou sossego
- é só placebo.

Garoto

Uma tarde, pensei em deixar que minha pipa ficasse no céu até a chegada da noite. Talvez na volta ela pudesse me contar como é uma estrela vista de perto.

"Fourier ou Flaubert?", de Roland Barthes

"Quem é mais importante, historicamente: Fourier ou Flaubert? Na obra de Fourier não há, por assim dizer, nenhuma marca direta da História, entretanto agitada, de que ele foi contemporâneo. Flaubert, por sua vez, contou ao longo de todo um romance os acontecimentos de 1848. Isso não impede que Fourier seja mais importante do que Flaubert: ele enunciou indiretamente o desejo da História, e é por isso que ele é ao mesmo tempo historiador e moderno: historiador de um desejo."

(Do livro Roland Barthes por Roland Barthes, tradutor não mencionado, Editora Cultrix.)

domingo, 11 de setembro de 2016

O parceiro (para Celina Portocarrero e Marisa Lajolo)

Um homem empenhado em uma obra verdadeiramente grande, como Joyce no Ulisses, deve ao menos suspeitar, em algum momento, que tem como sócio ou Deus ou o Diabo.

Traço biográfico (para o Deonísio Da Silva)

Eu era muito melhor antes,
É fato mais que consumado.
Hoje os meus significantes
Não têm mais nenhum significado.

A diferença

Morrer é uma das aporrinhações da vida, como ir ao dentista. A diferença é que não tem dia nem hora marcados.

Como seremos vistos

Quando começarmos a morrer
de amor e de poesia
talvez se arrependam
de nos terem olhado
como nos olham agora
- de longe, de lado -

ou talvez venham a dizer
como têm falado
que estão do lado certo
e certamente o nosso lado
sempre foi o lado errado
de viver.

Soneto do mútuo desconhecimento

O que tu sabes de mim,
Mulher que eu chamo de amada
E hei de chamar até o fim,
É o que de ti eu sei: nada.

Enquanto entre nós o amor
Assim continuar a ser.
De nada, seja o que for,
Precisaremos saber.

Que em pensar não nos cansemos
Se esta sorte merecemos
De tudo tanto gozar.

Enquanto formos amantes,
Continuemos ignorantes,
Nada queiramos mudar.

Alma toda picadinha e esparsa

Hoje, na Revista Rubem (www.rubem.wordpress.com), ofereço mais uma versão de minha balbúrdia interior. Estou condenado a jamais exibir, de mim, algo inteiro: sempre só esses fiapos, essas pontas de estoque, esses farrapos.

"O escritor como fantasma", de Roland Barthes

"Com certeza não há mais nenhum adolescente que tenha este fantasma: ser escritor! De que contemporâneo querer copiar, não a obra, mas as práticas, as posturas, aquele modo de passear pelo mundo, com uma caderneta no bolso e uma frase na cabeça (assim eu via Gide, circulando da Rússia ao Congo, lendo seus clássicos e escrevendo seus apontamentos no vagão-restaurante enquanto esperava os pratos; assim eu o vi realmente, num dia de 1939, no fundo da cervejaria Lutétia, comendo uma pera e lendo um livro)? Pois aquilo que o fantasma impõe é o escritor tal como podemos vê-lo em seu diário íntimo, é o escritor menos sua obra: forma suprema do sagrado: a marca e o vazio."

(Extraído de Roland Barthes por Roland Barthes, tradutor não mencionado, Editora Cultrix.)

sábado, 10 de setembro de 2016

Autocrítica (para Raul Drewnick)

Por fora um portento
por  dentro
nenhum talento.

Bergerac (para Andre Caramuru Aubert e Silvia Galant François)

Quem o nariz dele vê
em vez de Cyrano
o chama de Cyranez.

Oito ou oitenta (para Liberato Vieira da Cunha)

Um trocadilho ora é
uma forma de arte
ora é um disparate.

Rito

Certos meninos abandonam a mania de ficar perguntando por quê, por quê, por quê aos oito anos. Outros, aos nove, outros aos dez. Mas há alguns que, já adultos, continuam a perguntar por quê, por quê, por quê. Esses são os que se transformam de meninos chatos em filósofos.

Nunca

Ninguém jamais poderá dizer
que tem o hábito
de banhar-se no rio de Heráclito.

A sós

"Pronto, meu amor". ela avisou, tirando a gata da cama e levando-a para a sala. "Pode vir. Não tem ninguém xeretando."

Desaparecido

A mulher parou diante do poste e apontou a foto pendurada.
"Olha aí. É o teu nome."
O marido leu.
"É mesmo. Igual."
"Diz aí que você sumiu dia 12."
"Ainda bem que não sou eu."
"É. Só o nome. Esse aí é mais feio", sorriu a mulher. "É só um autônomo."

Minha ONG (para Celina Portocarrero)

Venho pensando em criar uma ONG. Não seria, em si, uma novidade. Talvez haja ONGs até demais. A inovação estaria naquilo que a minha ONG, se eu levasse a ideia adiante, protegeria. Nada de órfãos, anciãos, cachorros, gatos. Sonetos. Sim, sonetos. Sonetos, esses pobres seres de catorze versos, tão amados outrora e hoje tão execrados. Não importa quem seja o autor - pode ser até Shakespeare ou Camões -, ninguém quer ler nem ouvir um soneto. Sonetos, qualquer um começam provocando bocejos. Logo depois, protestos, e, seguindo a moda, manifestações. Com a minha ONG espero reunir aquela meia dúzia de almas generosas sempre dispostas a defender os fracos e os oprimidos. Quem sabe.

Dois quartetos de Heinrich Heine

"No norte, um pinho solitário
Ergue-se sobre uma árida colina.
Cochila; a neve e o gelo
Cobrem-no com seu branco manto.

Ele sonha com uma bela palmeira,
Lá longe, no país do sol,
Que se desola, triste e solitária
Sobre a falésia de fogo."

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O mestre

Toda vez que passo pela estante, imagino o que está comentando com suas vírgulas o velho Machado ali em cima, na letra A. Não deve ter opinião muito boa sobre mim. Nunca lhe pergunto. O mestre anda sempre casmurro. Deve ser alguma querela literária com o vizinho José de Alencar.

Lapso

Morrer é só um desfalecimento da memória.

Decibéis

Um gênio incompreendido
mais barulho faz
que um gato fervido vivo
e o caminhão do gás.

"A curva louca da imago", de Roland Barthes

"R.P., professor da Sorbona, considerava-me, em seu tempo, um impostor. T.D., por sua vez, me toma por um professor da Sorbona.
(Não é a diversidade das opiniões que espanta e excita; é sua exata contrariedade; é o caso de exclamar: é o cúmulo! - Isto seria um gozo propriamente estrutural - ou trágico.)"

De Roland Barthes por Roland Barthes, tradutor não mencionado, Editora Cultrix.)

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Reação

Com sua insistência em nos obrigar a falar bem, suas zangas e birras por nossa incompetência, o que a gramática consegue, no fim, é que falemos mal dela.

O truque

Seria perfeito
descobrir a causa
das frases de efeito.

Toque

Shakespeare era capaz de transformar em protagonista o mais inexpressivo dos personagens.

Reflexivo (para o Deonísio Da Silva)

Para a gramática aprovar-me
devo ensimesmar-me
ou em mim mesmar-me?

Onda

Preciso me viciar urgentemente em alguma série de tevê, qualquer uma, enquanto ainda estou só trinta anos atrasado.

Um trecho de Sergio Faraco

"Jane me tomava da mão e me puxava. Vendo-a assim, desenvolta, eu sentia que algo vicejava forte em mim, uma nova energia, uma vontade de viver, de conviver, compartilhar, e tinha certeza, uma certeza doce, cálida e total, de que agora ela pensava como eu, que valia a pena tentar ainda uma vez, que valia a pena dançar um tango em Porto Alegre. Que importava se era ou não era amor? Sempre, mas sempre mesmo, seria uma vitória."

(Do conto "Dançar tango em Porto Alegre", do livro A dama do Bar Nevada, edição da L&PM.)

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O que me resta (para a PMM e o Mottinha)

Resta-me agora este blog. Não é pouco. Ele me basta. Está bem na medida do que hoje posso. Não tenho mais fôlego para a prosa longa. Já me cansam também os catorze versos dos sonetos. Aqui, posso apresentar-me com a desfaçatez de uma quadrinha e esperar a benevolência dos leitores. São todos meus amigos. Ou posso escrever qualquer coisa como esta, nem poesia nem prosa. Algo que se tolere em alguém de quem seria quase injusto querer mais. Algo que seja isto que é: uma conversa diária que se iniciou há seis anos e me faria falta se vocês resolvessem interrompê-la, embora eu, chiliquento como uma noviça, viva ameaçando sair para me recolher definitivamente à minha condição de eremita ou de morto. Bom dia.

O pecado (para Marisa Lajolo)

No meio do discurso com que recebe o Nobel, o poeta empaca numa palavra. Sorri, tenta de novo, reempaca, resolve fingir que ela não é essencial, passa para a palavra seguinte, tropeça nela também. Era hora de se lembrar daquele infame acróstico publicado no jornalzinho do colégio, quarenta anos atrás? Os versos talvez não fossem tão ruins, mas podia alguém agora famoso como ele ter amado uma garota chamada Publiciana?

Megafone (para Liberato Vieira da Cunha)

Faz mais alarido
um gênio incompreendido
que um talento consagrado.

Trajetória (para Celina Portocarrero)

Desde os treze ou catorze anos, eu quis ser isto que não sou: um escritor.

Machadiano doente, não tolera nenhum outro escritor. Ontem, num debate sobre literatura brasileira, alguém mencionou José de Alencar. "Aquele dos índios?", ele escarneceu.

Síndrome do Nobel

Por trinta anos manteve a convicção. No dia de sua morte, quando o padre veio, ele o cumprimentou, esperançoso:
- Mão gelada. É inverno em Estocolmo?

Conta de chegar

Para os que não são nem Shakespeare nem Cervantes, deve-se aceitar outro padrão, menos rigoroso, de imortalidade. Trinta anos - ou vinte, quem sabe.

Vocação

Já aos dez anos
sua insanidade
dava sinais de precocidade.

Safra

Difícil, hoje, é encontrar quem não seja escritor ou assim não se declare.

Um trecho de Luís Martins

"Desempregado, indisposto com meu pai, sem poder, portanto, recorrer a ele, eu cortei um duro, nesse período. Possuía, já, uma pequena biblioteca, adquirida no tempo em que tinha dinheiro; passei a vendê-la, aos poucos, nos sebos. Lembro-me de ter dito uma tarde, de brincadeira, a Paschoal Carlos Magno:
- Acho que sou o único escritor, no Brasil, que vive da literatura..."

(De Noturno da Lapa, Editora Vertente.)

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Floricultura PMM

Manter um blog é como ser dono de uma floricultura. Você, por não ter um funcionário, chega diariamente às oito, para abrir a loja. Ontem foram compradas oito rosas e você supõe que hoje talvez os fregueses queiram doze. Mas, por um súbito otimismo, põe vinte rosas em exposição. Há seis anos você está nisso e nunca houve sequer um dia em que houvessem comprado uma dúzia. Mas você é teimoso e continua acreditando, como em 2010, que a beleza, de alguma forma, dependa de você para expressar-se, ainda que em mísera proporção. São três e meia, você vendeu sete rosas e parece que será tudo por hoje. Seis anos assim, e você ainda hesita em mandar Patricia Maria Mesquita a todos os diabos e infernos, por ela ter dito naquele dia que você levava jeito para a coisa. Pode-se tratar mal quem nos achou, mesmo que por um momento, digno de lidar com flores?

O exterminador (para Herena Barcelos)

O amor não deixará pétala sobre pétala.

Fase áurea

Hoje sabe gozar as delícias da vida de um velho. Corta a barba e toma banho só de três em três dias. Quando acorda num desses dias de isenção, sua preguiça reverenciada se mostra inteira num sorriso.

Quase igual

Ainda, como se tivesse vinte anos a menos, acorda toda manhã e incita-se: bom, vamos tratar da vida. Toma o banho, o café, vai para a sala e senta-se na poltrona. Levanta-se ao meio-dia, para ferver um miojo, e volta a aninhar-se nos braços da amiga. Já lhe recomendaram um gato. Nunca! Dividir o conforto com um bicho?

O narrador

É um desses cafajestes capazes de passar uma noite contando aos amigos como, lambida a lambida, frui sua mulher inteirinha. Depois de cada frase, revira os olhos de gozo: "Delícia." E, no final da narração, suspira fundo antes de resumir, com a obviedade costumeira: "Melhor do que sorvete."

Post mortem

Um homem deve morrer sem alarido, como um animal na selva, para preservar seus despojos da voracidade dos inimigos.

Razão de ser

Todo êxtase deveria provir da beleza ou buscá-la.

Injustiça

Parece-me injusto que a um ser como eu, desprezível, se permita o desfrute da beleza. Ponho a mão na água límpida e nela parece boiar um monstro.

O de sempre

O que nos aconteceu é simples de explicar. Nós nos demos muita importância; os outros, nenhuma. Os dramas, na vida ou no teatro, dependem mais da colaboração e da boa vontade do espectador que do empenho dos personagens.

Ainda um Daltonzinho

"Toda mulher é uma assassina em série de corações - sempre te oferecendo, grandes ou pequenos, duros ou fofinhos, esses dois peitos com todos os frutos da terra prestes a serem teus.
Ai, que são teus, só teus - e te matam, ai e sim, docemente de gozo."

                                                                                  ***

"O paciente com leucemia:
- Sabe, doutor, o que dói mais? Não é a doença. Não é o sofrimento. Não é a morte em dois meses.
- ...
- É a saudade que desde já sinto da minha putinha."

                                                                                  ***

"O namorado:
- Você tem o coração ingrato e a alminha pérfida...
- ?
- ...mas, ai de mim, é muito boa de cama."

                                                                                  ***

"- Se os cegos são tristes, que tanto vivem cantando baixinho?"

                                                                                  ***

"O marido para o melhor amigo e amante da mulher:
- Nunca se case, meu velho. Olha pra mim. Já viu alguém mais infeliz?
E o amante, ressabiado: Epa, será que ele sabe?"

(De Pico na veia, Editora Record.)

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Dica

Por mais talento que você tenha para a autodestruição, seja moderno: terceirize. Deixe tudo por conta do amor.

123

Gagá, nos estertores da morte, lembrou-se de Wilson, aquele rapaz que a amou mais que os 123 outros, e a quem ela enganou mais que a todos, e, querendo partir com alguma pureza e um doce nome nos lábios, disse: Geílson.

Zelo

Por anos a fio
dia a dia
como se regasse uma rosa
costura sua amargura
com agulha meticulosa.

Vício (para Deonísio Da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

Enquanto o poeta
se prepara para
começar um poema
o gramático
se prepara para
denunciar um parequema.

O certo

Não me censurem por eu não saber escrever. Pelo meu bem, e pelo bem de vocês, deem meu endereço ao Diabo e digam como sou mau negociante, pelo amor de Deus.

Soberano

Se estiver prevista a entrada de um gato numa frase, o escritor deve proceder como se fosse um arquiteto e lhe houvessem encomendado um caminho por onde passará uma jovem rainha no dia de sua coroação.

Sine qua non

Que Deus conserve perfeita minha audição, pelo menos até o dia em que a Morte vier me chamar.

Mais umas colheradas de Dalton Trevisan

"Meio da noite, no silêncio do quarto, de repente o velho:
- Invade o meu lado da cama, ó grande gorducha...
-  Ai, João. Que susto.
- ...e come no meu sonho o meu pedaço de torta."

                                                        ***

"- Não gosta mais de mim, João?
- Que bobagem. Os meus sentimentos são os mesmos. Por que diz isso?
- Não me procura mais... fazer amor.
- E como posso? Olha pra você. Assim gorda. Tão feia. Toda velha!"

                                                         ***

"- Não fale, amor. Ouça: o teu coração aqui batendo aqui na minha xotinha."

                                                          ***

"- Eu tinha 12 anos, fui pular uma fogueira, caí. O meu corpo incendiou. Um ano inteiro na ala dos queimados. Minha pele é toda repuxada. Homem que eu gosto, aviso. Algum, não digo nada. Com outro, não apago a luz. Mais de um já broxou."

                                                           ***

"- Ai, meu Deus. De tanto me beijar, seu puto, você marcou em brasa a tua boca na minha. Veja o que fez: não é meu este lábio todo mordido, não é a minha boca esta papoula viva de sangue. Você fez de propósito. Estou perdida, cara. Assim que eu entrar em casa, ele olha para mim - e aí vai saber de tudo."

(Do livro Pico na veia, Editora Record.)



         


                                     

domingo, 4 de setembro de 2016

Soneto do gozo e da chama (versão final)

Falarmos de nosso sonho,
Daqui a um ano talvez,
Ou um semestre, ou um mês,
Será um tema enfadonho.

Pois assim são os amores
Quando arrefece quem ama
E se torna fria a chama
E baços os esplendores.

Enquanto flama ainda temos,
Deste momento gozemos
Tudo que ele possa dar.

Depois o tempo há de vir
Que a chama irá extinguir
E o gozo todo negar.

Receita de autobiografia

Peguemos quatro ou cinco verdadeiramente famosos com quem em uma ou duas ocasiões tomamos três ou quatro cafezinhos e, para nossa glória e proveito, passemos a falar em "nossa geração".

O motivo

Há tanto tempo falo mal da vida que nem recordo mais por quê.

Amanhã

Quem falta dos meus braços sentirá
além do meu gato e do meu sofá?

O preço

Até para não fazer nada é preciso ter alguma persistência.

Marketing

A sabedoria de alguns, se resumida, consiste na pose que fazem quando são vistos na companhia de um livro.

Pauta

Se queres ter paz, não queiras ter nada.

Dalton ainda, para que haja aqui algo digno de se ler

"- Essa mesma dor-de-corno infinita que você deseja, sim, ao seu pior inimigo."

                                                             ***

"A mulher para a mocinha:
- Mas ele te bate?
- Não. Isso, não.
- Então? Está reclamando de quê?"

                                                             ***

"- Esses mortos, ingratos, que te esquecem tão depressa."

                                                             ***

"De volta da fisioterapia, a mocinha inválida:
- Quando ele me massageia a perna por que tanto geme e suspira?"

                                                             ***

"Do alto dos jardins suspensos de teus seios, montes e coxas, ó rainha, governas o meu mundinho."

(Do livro Pico na veia, Editora Record.)

sábado, 3 de setembro de 2016

Sinônimo

Ela não se lembra mais do nome dele. Quando precisa mencioná-lo, diz: aquele bocó.

Oratória

Quem nunca diz nada sempre termina dizendo: "Tenho dito."

Meritocracia

Que o amor seja tua última palavra, se conseguires dizer uma.

Talião

Quando alguém diz ser mártir da literatura, deve-se, por amor à justiça, pensar no princípio da reciprocidade.

Caráter

Poemas não têm a obrigação de ser sublimes, mas deveriam ser sempre honestos.

Um pouco mais de Dalton, por que não?

""Dia das Mães: Quantos crimes literários, ai, mãe, são cometidos em teu nome!"

                                                                      ***

"- Ai, feliz era eu quando tinha ali na cama três bombons recheados de licor: a tua boquinha vermelha em coração, o teu peitinho branco em flor, esse teu púbis de asinhas douradas de colibri"

                                                                      ***

"- Foi o primeiro amor, um amor tão desesperado, quando ela me deixou, ai de mim, só não morri porque, aos 20 anos, você não morre."

                                                                      ***

"- A glória de uma loira nua nos teus braços de que vale se não é o triste corpinho da bem-querida?"

                                                                      ***

"Para ele o rico pastelzinho. Para ela o cheiro de fritura no cabelo."

(Do livro Pico na veia, Editora Record.)

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Cotação do dia

E, toda manhã, este sol trapaceiro que, abrindo sua maleta de mascate, nos pede que apalpemos o amor. E, toda manhã, concordamos: sim, o amor é seda.

Última curva

Em nosso caminho final
as flores se exibem murchas e desmazeladas
como putonas de estrada
e o sol brilha por obrigação
como um funcionário temporário
sem chance de contratação.

Um pouco mais de Dalton Trevisan

"O velho para a mocinha:
- O que mais você quer? Não te dei um relógio que brilha no escuro? Uma calcinha vermelha de renda preta? Quem te lavou o corpo quando era uma ferida só?"

                                                                       ***

"Ela só dorme com a mão bulindo no teu punhal de mel: Assim ele sabe de quem é."

                                                                       ***

"- Para. Ai, para. Ai, ai. Para.
- Pronto. Já parei.
- Quietinho.
- ...
-Não, não. O punhal deixa ficar."

                                                                       ***

"- Tua doce lembrança , ai maldita, essa brasa dormida nas cinzas frias do meu coração."

                                                                       ***

"O exibicionista, abrindo a capa:
- Aqui, suas diabinhas. Olhem todas. Vinte e um centímetros de puro prazer. Só pra vocês. Ai, safadinhas. Vinte e um... de... Ai, não fujam. Esperem. Não é justo, Senhor. Assim... eu não..."

(Do livro Pico na veia, Editora Record.)

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Conceitos

Quem pela primeira vez disse que todo homem está sujeito a errar pode ter sido também quem criou a máxima segundo a qual não há regra sem exceção.

Na dela

A poesia pode perguntar por quê. Mas só de vez em quando. Que a filosofia, esta sim, assuma o risco de parecer empertigada. A poesia há de dar a impressão, sempre, de ser uma garota estouvada e talvez até irresponsável.

Corinthians - Música por Antônio Ianovali Neto e Raul Drewnick

Mario Quintana (para Silvia Galant François)

Sempre que Mario Quintana aparecia num parque, folhas, grãozinhos de terra e fiapos de nuvem pousavam em sua mão, para que ele, ao soprá-los, os transformasse em borboletas.

Identidade

Tenho cada dia menos pontos em comum comigo mesmo. Para reconhecer-me, preciso às vezes buscar no espelho meu sorriso amargo.

Curtíssimos ais de Dalton Trevisan

" Curitiba, essa grande favela do primeiro mundo."

                                         ***
"No Passeio Público, ao longo do viveiro de aves, o menino para a mãe:
'Olha só, mãe. Aqui não tem nada. Legal, né? A gaiola tá vazia.'"

                                         ***

"O casal brigado, de costas. Longo silêncio. De repente, o velho:
- Sua diaba. Para de ficar ouvindo o meu pensamento."

                                         ***

"Ao ler a traição de Capitolina, geme a santíssima Carolina:
- Ai, Machadinho. Que dirão as minhas amigas no chá das cinco?"

"Curitiba toda catita do primeiro mundo - com essa população de quarto mundinho?"