segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Covardia

Tão feia essa palavra: finados. Nós a usamos porque os destinatários não podem mais reagir.

Herói vilão

Vejo, com tristeza, o amor sendo destituído de todas as suas magias e poderes. Não há mais garotas suspirando nem garotos rabiscando poemas em bloquinhos. O amor é hoje um personagem estranho e é preciso preparar o ambiente para que, ao mencioná-lo, não estourem gargalhadas de zombaria. Pobre amor, merece ele isso, são justos todos esses sarcasmos? Dizem que ele não faz mais nascer flores. Mesmo que seja verdade, penso que estamos sendo impiedosos com ele. Poupemos nosso herói. Que ele, se já não faz nascer flores, possa ao menos fazê-las murchar romanticamente, melancolicamente, maravilhosamente, como devem morrer sempre as flores.

Fastio

Quem há de se importar
com o que pode hoje falar
um poeta com sua poesia?
Todas as metáforas
já foram usadas reusadas e catalogadas
e quando são chamadas mais uma vez
vêm bocejantes e amuadas
como a puta que
já pronta para descansar
tendo atendido 22
ouve tocar a campainha
vai abrir a porta do apartamento
para o gordo suarento e ofegante
e é claro que ele -
que tímido diante dela treme -
é o freguês número 23.

Um poema de Li Shangyin (813-858)

"Sempre difícil encontramo-nos, difícil, sempre, separarmo-nos
E murcha cada flor no vento que declina
Terminado que é o fio, morre na primavera o bicho-da-seda
A vela seca as lágrimas - quando já é só cinza
De madrugada, o espelho faz-me triste
Mudados nele os meus cabelos
A voz que canta na noite acorda o frio sentido do luar
Daqui não é longe... daqui à Ilha dos Imortais
Pássaro Azul, depressa, gostava de lhe dar uma espreitadela."

(De Uma antologia de poesia chinesa, tradução de Gil de Carvalho, edição da Assírio & Alvim, Lisboa.)

domingo, 30 de outubro de 2016

20h38

Trouxe meu domingo e vim mofar com ele aqui na loja. Estive com as portas fechadas desde que cheguei, de manhã. Escureceu agora e não posso acender a luz - vá o fiscal passar e me aplicar multa por trabalhar em dia proibido e hora inapropriada... Debruçado sobre a mesa, espero o momento em que o cochilo me levará ao sono. Dormir tem sido o único remédio para o meu coração. Coração!...  Há alguém mais que ainda use essa palavra? Deus, homens ingênuos e ridículos como eu deveriam morrer na adolescência, com um poema entalado na garganta e a limpidez ainda não maculada dos olhos azuis.

Contraste

Nos últimos tempos, aqueles em que começou a registrar suas memórias, o escritor sentia-se fatigado até ao mover uma vírgula do fim para o início de uma frase. E era um triste contraste esse, o cansaço - justamente quando ele, no primeiro capítulo, rememorava suas travessuras de menino.

Sentido

Se alguém diz que a literatura é o seu pão de cada dia, quase certamente está se referindo a pão no sentido espiritual.

A verdade

De todas as nossas perdas, nenhuma é tão irreparável quanto a da juventude. Não há bem nem sabedoria que possam compensá-la. Prazeres espirituais, êxtases místicos? Balelas, balelas. E, para que fique bem claro: balelas, balelas, balelas.

Credencial (para Diego Moraes e Marcelo Mirisola)

Você não precisa do atestado de louco para ingressar na literatura. Em pouco tempo ela lhe providenciará um, lavrado pela mesma esmerada letra em que qualquer grafólogo reconhecerá traços iguais aos encontrados nos manuscritos de Satanás.

Um haicai

Um haicai não é produto nem da meditação nem da imaginação. Um haicai é um desses frutos que a natureza oferece ao poeta. Vem pronto para ser colhido e, para que não se duvide da sua origem, traz sempre uma gota de orvalho ou um halo de sol.

Servidor

Um poeta precisa considerar sempre que, se existe algo de sagrado no que faz, ele o deve não a si mesmo, mas ao ofício que exerce.

Um poema de Lawrence Ferlinghetti

"O olhar do poeta olhando obsceno
vê a superfície do mundo
redondo com seus tetos de porre
e passarinhos de madeira em varais
seus machos de argila e fêmeas
de peitos em botão e pernas quentes
em camas de desmontar
e seu mistério carregado nas árvores
seus parques dominicais de estátuas mudas
sua América
rica de localidades fantasmas e ilhas de formalidades vazias
e a paisagem surrealista composta de
campinas sonhadoras
subúrbios - supermercados
cemitérios de aquecimento a vapor
cinerama feriados
e catedrais protestantes
um mundo à prova de beijo com assentos de privada de plástico tampax e táxis
caubóis drogstorizados e virgens las vegas
índios renegados madames cinemalucas
senadores irromanos conformistas conscienciosos
e todos os outros fragmentos fatais podados
do sonho do imigrante feito real demais
e extraviado
no meio dos banhistas ao sol."

(Tradução de Eduardo Bueno, poema do livro Um parque de diversões da cabeça, edição da L&PM.)


sábado, 29 de outubro de 2016

Vantagem

Se o amor nos faz babar, vejamos o que há de bom nisso: nossas gravatas nunca murcharão.

Tela

Um bom exercício poético é soprar as nuvens cor-de-rosa para além do horizonte, preparando a tarde para que a noite estenda seu tapete sobre ela e se deite com seu vestido estrelado.

Epifania

Um poeta, mesmo o mais velho deles, sempre pode, por uma dessas inesperadas florações do amor, estar andando por um parque, pegar o bloco para anotar um verso e com esse gesto provocar um alvoroço de borboletas amarelas.

Jurisdição (para Celina Portocarrero e Marisa Lajolo)

Ao poeta cabe manifestar-se
sobre o que é de sua alçada
a lua as flores o amor
talvez algo mais
talvez mais nada.

Acerto

Cansado de negociar, ele abre a porta do carro:
"Tá bom. Cinquenta. No capricho?"
Ela movimenta a língua em torno dos lábios:
"Com certeza."

Aviso na porta

"Se não vens me falar de amor (bem ou mal), melhor é nem entrares."

"Estâncias", de Emily Brontë

"Já me reprovaram e volto sempre
Aos primeiros sentimentos que nasceram comigo;
Deixo de correr atrás do ouro e do conhecimento,
Para sonhar apenas com maravilhas impossíveis.

Mas hoje
Não descerei mais ao império das sombras;
Tenho medo da sua frágil e decepcionante imensidão,
E meu sonho, povoado com legiões inumeráveis,
Torna este mundo sem forma estranhamente próximo.

Caminharei,
E ficarão para trás as antigas verdades do heroísmo,
E os caminhos já exaustos da moralidade,
E o imprevisto aglomerado de faces obscuras,
Ídolos em bruma de um passado já longínquo.

Caminharei,
Onde só agradar à minha alma caminhar,
(Não posso suportar a escolha de outro guia),
Onde os rebanhos se acinzentam no verde das campinas,
Onde o vento alucinado vergasta o flanco das montanhas.

Que pode revelar a montanha solitária?
Nada exprime sua glória e sua dor..
Minha alma dormia, quando a terra despertou,
E o círculo do Céu ao Círculo do Inferno

Confundindo-se, à terra deram nascimento."

(De O vento da noite, tradução de Lúcio Cardoso, Civilização Brasileira.)

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Opostos

Tudo bem, você se gaba de jamais ter se ajoelhado diante do Amor. Eu me orgulho da dor que sinto ainda hoje em meus joelhos, toda vez que os apalpo.

Dezembro, talvez 2009

Como eu gostaria de voltar a ser aquele idiota caminhando certa manhã pela Paulista, sorrindo para o sol e sendo retribuído.

Lógica

Toda mulher hábil no manejo de um chicote há de ter os lábios adequados para soprar feridas.

Reflexão no café da manhã

Diante do Amor, devemos curvar-nos. Sabemos já que ele não é o que imaginávamos, mas, se nos descartarmos também dessa ilusão, a maior, viveremos de quê e para quê?

Hoje, no portal do Estadão

Falo de como a linguagem amorosa, como todas as demais, há de ser adequada. Que não se trate Rosicleuza como se fosse a Marília de Dirceu.

Compaixão

O escritor não deve atormentar-se quando tenta, tenta, e não lhe sai sequer uma frase. Deve pensar na bênção que isso pode representar para os leitores.

Metros finais

Do jeito que vai
logo não aguentarei
nem o peso de um haicai.

Um trecho de Nietzsche

"Falando teologicamente - preste-se atenção, pois raramente falo como teólogo -, foi o próprio Deus que, ao fim da sua jornada de trabalho, estendeu-se em forma de serpente sob a Árvore do Conhecimento: assim descansou de ser Deus... Havia feito tudo demasiado bonito... O Diabo é apenas a ociosidade de Deus a cada sete dias..."

(De Ecce homo, tradução de Paulo César de Souza, Companhia das Letras.)

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Cabal (para Deonísio Da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

Precisei ler três vezes
sem entender o que lia
para compreender -
era uma algaravia.

Registro (para Renato Vieira Ostrowski)

Minha última falha
foi tentar - e não conseguir -
mover uma palha.

Autorretrato

Sou um homem comum
não me fascinam desafios
não piloto espaçonaves
não movo montanhas
não mudo o rumo dos rios.

2 de novembro (para Silvana Guimarães)

Nós hoje mortais felizes
pensemos no nosso futuro
nos miremos nos mortos
sempre trabalhando no escuro
entranhando suas raízes
para tomar posse do território
que lhes outorgamos
com nobres palavras finais

Pensemos neles
e ouçamos o ruído
que eles tentam ocultar
o esforço silencioso
que fazem para ocupar
o lugar que lhes destinamos

Ouçamos o empenho deles
para arraigar-se mais mais
antes que nos arrependamos
e alegando o que aleguemos
os deserdemos
e os exumemos
com nossas solenes palavras
e nossos rituais.

"Conheça Miss Metrô", de Lawrence Ferlinghetti

"Conheça Miss Metrô
1957
Veja Miss Metrô
1957
rodando no trem da Times Square
pra lá e pra cá
às quatro da manhã

Conheça Miss Metrô
1957
Ela usa buchas de algodão do tamanho de moedas
socadas no nariz moreno achatado
e transitando pra lá e pra cá
no trem da Times Square
às quatro da manhã
e circulando
entre os anéis de ferro do paraíso
com braços dourados retalhados
charuto negro em mão morena

Você pode encontrar Miss Metrô
Você pode ver Miss Metrô
1957
transando trastes transidos
circulando em transe pelo trânsito
com braços morenos fatigados
bituca negra em mão morena

E os carros de ferro
indo e vindo eternamente
rumo à morte e à escuridão

oh Ubangi perdido
cambaleando entre
as 'ogivas sucessivas' do Inferno
em direção à definitiva
escada de incêndio de Dante."

(Tradução de Eduardo Bueno, poema do livro Um parque de diversões da cabeça, editora L&PM.)

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Aparência (para Deonísio Da Silva)

Pode não ser
mas tem sempre certo ar obsceno
um substantivo epiceno.

Soneto de como lidar com o amor (para Celina Portocarrero)

Enquanto estivermos vivos
E do amor nós dependermos,
Aceitemos seus motivos
E vivamos sob seus termos.

Que tudo que ele disser
Recebamos como lei
E tudo que ele impuser
Nos imponha como rei.

Por dever ou por opção,
Façamos-lhe sempre festa
E lhe lambamos a mão.

Quem mais a porta abriria
De casa nobre como esta
A uma canzoada vadia?

Mais

Da poesia sempre se espera o extraordinário, assim como se imagina que, por aguda que seja a nota de um violino, jamais será a mais pungente que dele se possa extrair.

O de sempre

Sei o que é escrever. Só não sei como.

Lacuna

Dedicar-me por inteiro à literatura foi algo que eu deveria ter feito de modo mais completo.

Coprolalia

Nenhuma expressão de tanto mau gosto quanto "esgoto a céu aberto".

Um soneto (para Priscylla)

Outro dia, destaquei do bloco um soneto que me pareceu pior que os outros e o atirei, como insulto, ao vento que me cuspia chuva no rosto. Ele no primeiro momento flutuou com certo ar de passarinho e, no segundo, deitou-se na enxurrada, como um barco. Estive a ponto de correr  para resgatá-lo, mas logo ele encalhou vergonhosamente numa sacolinha de supermercado. Deixei-o lá. Era o lugar que merecia. Nem passarinho nem barco. Só mais um soneto malnascido.

Um trecho de Marcelo Mirisola

"(...) Isso tudo e as unhas brancas da professorinha cravadas na minha nuca e e me empurrando para baixo, o pau duro e a desnecessidade de aprender a falar, escrever e/ou 'acompanhar a classe'. Em 1977, portanto dois anos depois de eu ter endurecido o pau pela primeira vez, Clarice Lispector ia morrer incendiada em si mesma, esgotada e, desgraçadamente, olhando pro chão."

(De O azul do filho morto, Editora 34.)

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Memórias de um secretário do amor

Servi à causa do Amor e dele
fui tão empenhadamente sectário
que me tornei seu secretário

Não me invejem vocês jovens
que hoje mercadejam com o Diabo
para também ao Amor devotar-se

Não hesitem tenham coragem
É só apresentar-se a ele curvar-se
e jurar-lhe eterna vassalagem

Já daqueles que pretendam
um posto na secretaria
o Amor exige alguma poesia

Quantas cartas para ele eu fiz
ah quantos pingos nos is
para lia maria marília e beatriz

Foram mil vezes mil
ou mil vezes mil mais mil
no tempo em que eu o servi

Ele me chamava e me pedia
que exaltasse com todos os ês
berenice teresa helena irene e marinês

Eu mentia mentiras colossais
mas o Amor insatisfeito exigia
mente mais poeta mente mais

Com a barriga enfunando a camiseta
e o passarinho escapando pela cueca
ele insistia: mente mais mente tudo poeta.

Chamei domitilas de luas
e helenices de estrelas
sem vê-las nem conhecê-las

Jovens que querem apresentar-se
e ao Amor nesse jogo sujo aliar-se
apressem-se: já menti muito não mentirei jamais


Diagnóstico

Se não fosse a literatura
se não fosse a poesia
que nome teria
minha loucura?

Negócio

Trocar a vida por uma obra-prima é uma transação que alguns afortunados conseguiram realizar.

Características

Não temos muito a dizer. Que a vida é triste, mesquinha e sem sentido até ela está cansada de saber.

Aparências

Viver da prosa parece profissão; morrer pela poesia, missão.

Categorias

O poeta há de ser sempre ou divino ou pateta. Poetas que ficam no meio-termo são galinhas de domingo querendo gorjear como canários.

"Eis que estás de volta", de Emily Brontë

"Ah! Eis que estás de volta esta noite,
Para despertar ainda
O que eu julgava morto nos abismos do ser.
A luz aumenta;
De súbito, o coração ardente espalha sua luz vermelha.

Agora que vejo a palidez de tuas faces,
As grandes planícies de teus olhos,
E que uma palavra mal se desprende dos teus lábios,
Adivinhei o curso estranho do teu sonho,

E poderia jurar que este vento triunfante
Dispersou para bem longe as imagens do mundo,
E afastou do teu coração a memória inoportuna,
Semelhante às flores de espuma que recolhe a onda:

E agora és um sopro do espírito
E tua presença é um dilúvio penetrante,
O raio que brame no meio das tormentas
E o suspiro final da tempestade que morre.

És o vasto encanto em que se embala o universo,
Somente tu escapas à sua fascinação.
A vida rebenta sem descanso de tua fonte poderosa
E sobre ti agora a morte já não tem nenhum poder.

Assim, quando a morte tiver enrijecido o teu seio,
Tua alma subirá mais alto do que a sua prisão,
O cárcere misturará sua pedra à poeira,
A escrava confundida se perderá nos céus,
E a Natureza inteira acolherá o teu ser;
Tua alma se perderá nas dobras da sua Alma,
E seu hálito receberá então os teus suspiros.

Ó mortal!
A fábula da vida é narrada bem depressa,
Mas basta uma vida - para não se morrer jamais."

(De O vento da noite, tradução de Lúcio Cardoso, edição da Civilização Brasileira.)

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

19h58

Tenho medo de morrer aqui na loja e ficar fedendo como os sonetos engavetados.

Fanatismo (para Diego Moraes e Marcelo Mirisola)

A literatura há de ser considerada como uma causa - ainda que de antemão perdida.

Terapia (para Arlete Franco e Angela Brasil)

Aconselhado por um psiquiatra da ala dos otimistas, diz cem vezes, toda manhã, uma frase: "Posso ser tão grande quanto Shakespeare." Não melhorou a opinião que tem de si próprio, mas a cada dia Shakespeare cai um pouco no seu conceito.

Mario Quintana

Mario Quintana foi o único poeta mais leve que o ar.

À trois

O amor, quando se torna corriqueiro, pode ser tão enfadonho quanto um problema de palavras cruzadas decifrado por um casal na intimidade do quarto, na discreta companhia de um dicionário.

Retrato de corpo inteiro (para Liberato Vieira da Cunha)

O rei está nu
e pela primeira vez
despido da majestade
os súditos nele veem
seu cetro real
e traços de humanidade.

Plus

Entre o amor e a fé,
escolha a fé.
O amor não remove montanhas.

Posologia

Se o amor fosse um remédio
sua bula teria
meia folha de prescrições
e três e meia de contraindicações.

Resumo (para Líria Porto)

As esperanças morrem todas.
Tanto as primeiras
Quanto as derradeiras.

"As cartas dos mortos", de Wislawa Szymborska

"Lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes,
mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores.
Sabemos quais dívidas não foram pagas.
Com quem as viúvas rapidamente se casaram.
Pobres mortos, mortos cegos,
enganados, falíveis, canhestramente previdentes.
Vemos as caretas e os sinais feitos pelas costas.
Capturamos o som de testamentos sendo rasgados.
Sentados comicamente diante de nós como no pão com manteiga,
ou correndo atrás do chapéu que o vento lhes arrancou da cabeça.
Seu mau gosto, Napoleão, vapor e eletricidade,
seus remédios mortíferos para doenças curáveis,
seu tolo apocalipse segundo são João,
o falso paraíso na terra segundo Jean-Jacques...
Observamos em silêncio seus peões no tabuleiro,
só que movidos três casas à frente.
Tudo que previam aconteceu totalmente de modo diverso,
ou um pouco diverso, que é o mesmo que totalmente diverso.
Os mais fervorosos nos fitam nos olhos com confiança
porque, segundo suas contas, verão neles a perfeição."

(De Um amor feliz, tradução de Regina Przybycien, edição da Companhia das Letras.)

domingo, 23 de outubro de 2016

A maneira (para Aden Leonardo)

Morrer tomando um copo de veneno no qual estivessem afogadas as pérolas do colar da bem-amada.

Mario Quintana (para Silvia Galant François)

A quem pretenda
iniciar-se na poesia
recomendo Mario Quintana
vinte e quatro horas por dia
sete dias por semana.

Culpa

O que incomodava um pouco
alguns poetas parnasianos
era não conseguirem esconder
em certos versos o calor humano.

Licença

Suspiros deveriam ser permitidos para homens só quando alegassem estar sob o domínio de um amor obsessivo e julgassem insuficientes, para comover a amada, as palavras, as pulseiras, os colares, as flores e as insinuações de suicídio.

Dublê (para Adriane Garcia e Mariana Ianelli)

Ainda hoje se eu quisesse
poderia saltar de uma diligência
a dois palmos do abismo
num filme de faroeste
escapar apenas chamuscado
de um edifício incendiado
e galantemente sobreviver
depois de nadar algemado
por um quilômetro ou dois
entre ciclones e tubarões

Tenho nítidas como mapas
marcas que hoje estariam
no corpo dos antigos galãs
e são cicatrizes -
não estatuetas -
os prêmios que ganhei
nos filmes em que me matei
para que na cena final
aqueles guapos heróis
estivessem vivos
para beijar a protagonista
girando voluptuosamente pela pista
ao som da música triunfal.

Cantemos (para Andre Caramuru Aubert e Silvana Guimarães)

Não nos envergonhemos
de nosso lirismo

Os tempos são duros -
catástrofes tsunâmis devastações
e as guerras brotando
como flores do chão

Mas não foi sempre assim,
não é essa a tradição?
Deus nos dizima há milênios
e Átila e César e Napoleão

E em nenhum tempo
que nos lembremos
ou saibamos
os passarinhos
trocaram seus gorjeios usuais
por cantos fúnebres
ou apelos marciais

Brasão do miojo

Libertas quae sera lámen.

Revista Rubem

Hoje falo do "amor e outras coisas" - o que é um escancarado pleonasmo.

"Tropicalismo", de José Carlos Oliveira

"O tropicalismo é um movimento (mais um) que pretende reencontrar as raízes por assim dizer suburbanas da nossa nacionalidade. Tem por sacerdote Caetano Veloso, e por teórico Nelsinho Motta, o vago-simpático. Caetano e Nelsinho: não é para esnobar vocês, não, mas acabo de ganhar um permanente anual do Campo Grande Atlético Clube, com direito a participar, com minha ilustríssima família, do carnaval de 1968, o qual será realizado no novo ginásio esportivo. Desculpem,crianças. Vou passar o carnaval no Campo Grande A.C. - de terno tropical , camisa creme, lenço a gravata igual..."

(De Diário da petetocracia, Editora Graphia.)

sábado, 22 de outubro de 2016

78

A idade
não nos traz sabedoria -
só longevidade.

Ingrediente (para Deonísio Da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

Quando adolescente
ele quis ser um poeta
como álvares de azevedo
fagundes varela
castro alves
algum grande assim

Desistiu cedo:
tinha tudo mas
faltava-lhe o spleen.

Época

Houve um tempo em que as cartas de amor se chamavam missivas e quem as entregava não eram os carteiros, mas os beija-flores.

Prova

Às vezes são tão desanimadores meus textos que me sinto tentado a mandar fazer um cartãzozinho de visita que me identifique como escritor. Seria menos cansativo - e melhor para os leitores.

Amanhã

Não faremos falta a ninguém. Sabemos disso há muito tempo, mas ainda nos dói. É triste o futuro dos mortos.

De Rosa Montero sobre Auguste Rodin e Camille Claudel

"Não quero dizer com tudo isso que Rodin não foi um gênio: ele o era, não há dúvida. Mas Claudel também era genial, e quando os dois se conheceram ele era um homem já maduro e ela uma jovem transbordante de ideias. Rodin pôde tirar partido dessa criatividade e desse talento, inclusive depois de romper a relação amorosa, porque o resto de sua obra, até sua morte em 1917, consistiu sobretudo em variações sobre os temas surgidos durante seu período com Camille (frequentemente,talvez, a partir das ideias dela?)."

(De Histórias de mulheres, tradução de Joana Angélica d'Avila Melo, edição da Agir.)

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

No portal do Estadão

Falo hoje da beleza. Acho que fiz uma boa escolha - se bem que preferisse tratar mais uma vez do amor.

Semana de 22 (para Marisa Lajolo)

Como primeiro passo
para a modernidade
todos resolveram chamar-se andrade.

Estágio atual

Estamos vivos -
é pelo menos como nos definiríamos
embora às vezes
como se estivéssemos mortos
nos sintamos

Estamos vivos -
sorrimos conversamos
e se nos pedem prova
de que não morremos
respiramos

Morituros talvez
fosse a palavra certa para nós
se bem que seja
por se tratar de um poema
uma palavra antipática. 

A outra face

Talvez um dia salvemos o mundo
De tanto dizer que o salvaremos.
Depois de salvá-lo, o que faremos?
Quando o último som da festa se escoar
Precisaremos nos acertar e decidir
Como faremos para tão bem construir
O que tão bem soubemos arrasar.


Um pouco adiante

Um passarinho desses que aparecem para cantar tristemente em ruas onde alguém será visitado pela Morte passou hoje pela casa da menina pálida e foi piar três quarteirões além, no hospital em que os médicos vão tentar um último recurso para salvá-la.

De Rosa Montero sobre Sartre

"Soubemos assim que Sartre era um Don Juan compulsivo e patético, que precisava conquistar absolutamente todas as mulheres, as quais ele inundava de cartas amorosas de torpe ênfase, 'meu amor absoluto, minha pequena paixão, meu grande amor para todo o sempre', repetitivas frases escritas no mesmo dia, em missivas distintas, para as diversas amantes que ele tinha simultaneamente de forma clandestina. Porque a honestidade e a transparência, Simone e Sartre só as usaram entre eles mesmos, para comentar um com o outro, cinicamente, os mais escabrosos detalhes dos seus casos."

(De Histórias de mulheres, tradução de Joana Angélia d'Avila Melo, editora Agir.)

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Minha loja

Quem tem um blog e há sete anos nele publica uns dez textos por dia há de ter reconhecida pelo menos essa sua assiduidade. Nem sempre - quase nunca - o que rotulo aqui como literatura merece ser assim considerado. Dói-me dizer isso. Lembro-me de escritores, poetas principalmente, que escreveram vinte ou trinta poemas durante a vida toda e dedicaram-se infatigavelmente a suprimir-lhes ou acrescentar-lhes frases, a modificá-los, a alterá-los, a fazer aquilo que no jargão parnasiano se conhecia como burilar. Tive outrora esse impulso de perfeccionismo, mas - desde a abertura do blog, que hoje chamo de lojinha - eu venho tentando ter como principal norma a assiduidade. Sinto-me como um padeiro. Os fregueses são poucos, sempre foram, mas todos os dias eu me empenho em produzir os melhores pãezinhos. Faço-os da melhor maneira, mas não posso, depois de prontos, pedir tempo para aprimorá-los. Assim como estiverem, assim irão para o balcão. Nem na panificação nem na literatura a época permite morosidades. A obra-prima ou sai na primeira fornada ou paciência! Talvez saia amanhã, ou depois, ou provavelmente nunca. Devo oferecer o que tenho hoje, esteja como estiver. Aceitem meus pãezinhos. O que de melhor posso dizer deles é que são honestos, como é honesto quem os produz. Sou um ótimo exemplo de que nem sempre querer é poder.

Tempo (para Liberato Vieira da Cunha e Renata Fan)

O dia amanheceu colorado.

Como toda manhã (para Ana Martins Marques e Silvana Guimarães)

Como toda manhã
o homem lê o jornal
sentado no sofá

Como toda manhã
o cão espera
ao lado do sofá

O mundo de sempre está
no jornal esta manhã -
as mesmas lutas
entre as mesmas facções rivais
os mesmos estupros e assassinatos
alguns menos hediondos
outros mais

O cachorro sabe que logo
o homem fechará o jornal
e como toda manhã
irá providenciar sua ração

É sempre assim mas hoje não
O tempo corre e o cão
começa a se tornar impaciente
ameaça até gemer
e nada de o homem se mexer

O jornal continua aberto em suas mãos
desliza agora um pouco para o colo
e é como se o homem
lendo uma notícia boa afinal
tivesse se permitido
uma soneca longa
tão longa que talvez
nunca mais precise
sentar-se no sofá
e ler o jornal.

Antípodas

Enquanto o venturoso Fitz
bebia veneno nos lábios de Zelda
eu agonizava com uma colherada
de Emulsão de Scott.

A gota (para Aden Leonardo)

Um pouco de suor
não há de fazer mal à poesia
pode haver
uma gota que seja
uma minúscula
ode ao calor
para que a poesia tenha
algo mais de humano
do que essa aflição
de igualar os deuses em tudo -
em seu conteúdo
em sua forma
e em sua inalcançável perfeição
de estátuas sem pelos nas axilas
e sem transpiração.

De Rosa Montero sobre Juan Ramón Jiménez

"Há gente que chama qualquer coisa de amor. Por exemplo, a necessidade patológica do outro, o mais feroz e destrutivo parasitismo. Sem dúvida o escritor Juan Ramón Jiménez, Prêmio Nobel de 1956, precisava de sua esposa Zenobia Campubi de um modo opressivo e indescritível; mas isso não significa forçosamente que ele lhe quisesse bem (ou mesmo que a quisesse: um personagem tão monstruosamente egocêntrico seria capaz de gostar de alguém?)."

(De Histórias de mulheres, tradução de Joana Angélica d'Avila Melo, edição da Agir.)

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Ressalva (para Liberato Vieira da Cunha)

Tudo que exprimo sobre arte são impressões, jamais opiniões. Não chegaria a tanto minha presunção. A arte, quando merece o nome, é um milagre. O que posso eu, verme sobre a terra, entender de milagres?

Receio

Jamais voltarei a ler Cântico do calvário, que Fagundes Varela escreveu para o filho morto. Tenho receio de alterar, por pouco que seja, a crença de que é o mais emotivo dos poemas brasileiros.

Criação (para Patricia Mesquita)

Se ao passar para a tela um rochedo o pintor não tiver a presunção de que o está criando, deve largar o pincel. A ideia de estar melhorando o rochedo não deve tentá-lo. Ao artista não cabe arremedar as criações de Deus. Cabe fazê-las como se estivesse começando a fazer todas num momento em que todas elas estavam ainda por ser feitas.

Como fazer poesia

Diga a teoria o que disser
sobre a exata proporção
entre inspiração e transpiração
um poema pode muito bem
se fazer sozinho - se quiser.

A poesia é um vício tão antigo
uma cantilena tão reprisada
que qualquer aldeão
ou aldeã semialfabetizada
podem num instante
colher uma batelada.

Poesia sabe fazê-la o vento
sabe fazê-la o rio
sabe fazê-la o mar
pode fazê-la também o poeta
desde que aquilo que o poeta
faça seja poesia.

Caminho (para Silvana Guimarães)

No rumo da modernidade
depois de tantos anos penosos
ainda temos sonhos pecaminosos
com lírios românticos
com ícones parnasianos
e já chegamos à metade
sem encontrar nem mário
nem oswald e nem
carlos drummond de andrade.

Soneto que louva o amor morto (para Celina Portocarrero)

Não esperemos mais. A hora
Talvez tenha até passado.
Louvemos o amor agora
Como nunca foi louvado.

Bem mais do que antes, hoje a ele
Faz falta nosso conforto,
Pois nada mais resta dele
Que já não esteja morto.

Cantemos seus olhos ternos
Que julgávamos eternos
E não nos podem fitar.

E os lábios doces louvemos
Que nunca mais ouviremos
Por nosso nome chamar.

"Ausência", de Wislawa Szymborska

"Por pouco
a minha mãe não se casou
com o senhor Zbigniew B. de Zdunska Wola.
E se tivessem tido uma filha - não seria eu.
Seria talvez alguém com melhor memória para nomes e rostos
e para melodias ouvidas uma única vez.
Capaz de distinguir sem erro um pássaro de outro.
Com notas excelentes em física e química
e piores em polonês,
mas fazendo versos em segredo
de imediato muito melhores do que os meus.

Por pouco
o meu pai nesse mesmo tempo não se casou
com a senhorita Jadwiga R. de Zakopane.
E se tivessem tido uma filha - não seria eu.
Seria talvez mais obstinada em conseguir o que quer.
Saltaria sem medo em águas profundas.
Disposta a render-se às emoções coletivas.
Sempre vista em vários lugares de uma vez.,
mas menos com um livro, mais no quintal,
jogando bola com os meninos.

Talvez as duas até se encontrassem
na mesma escola e na mesma sala.
Mas sem afinidades,
sem nenhum parentesco
e longe uma da outra na foto da turma.

Aqui, meninas
- diria o fotógrafo -,
as mais baixas na frente, as mais altas atrás.
E um belo sorriso quando eu der o sinal.
Mas antes contem,
estão todas aí?

- Sim, senhor, todas."

(De Um amor feliz, tradução de Regina Przybycien, edição da Companhia das Letras.)



terça-feira, 18 de outubro de 2016

15h30

Há uns dois minutos, um ônibus matou um gato quase aqui na frente da loja. Pensei em não ir olhar aquela pelagem encharcada de sangue. Pode existir um deus e ser assim perverso e injusto? Cheguei perto. Não era Monsieur Pierre. Graças a Deus, murmurei.

Página 27 (para Deonísio Da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

De repente, o lacaio viu-se, sem saber como aquilo tinha acontecido, com a mão presa entre as mãos da condessa. Diante do micro, o romancista, como se não estivesse sozinho, comentou: "Já estava na hora. Página 27 e só agora  Mme. Gilberte resolve mostrar as garras. Eu era mais direto nos meus primeiros livros. Não é à toa que as vendas vêm caindo. O homem pode envelhecer. O escritor, não."

A tentação

Embriaga-se com palavras como néctar, seiva, mel. Quando uma delas aparece, seja em que texto for, ele remoça três décadas e sente-se inquieto. Alguma coisa se enrosca em seu corpo. Mesmo se estiver sozinho, pensa ouvir passos subindo a escada. Terá a mulher voltado antes? Ele se mexe, se remexe. O sangue pulsa forte, começa a ribombar nos ouvidos. A mão aperta o livro. Ele se entregará mais uma vez hoje, como se entregava quando era um menino?

O preço (para Diego Moraes e Marcelo Mirisola)

Nós demos a vida. Foi pouco, já se vê. O que terão dado Shakespeare, Flaubert  e Dostoiévski?

O que fizeste

No Céu ou no Inferno, para o bem ou para o mal, tudo começará quando à tua chegada lhe perguntarem o que fizeste na vida e responderes: "Escrevi."

Cantiguinha (para Ana Farrah Baunilha)

Como nos vira a cabeça o amor -
ontem a garota da caixa,
dez anos de casa,
furtou o supermercado para fugir
com o repositor de mercadorias,
seu namorado,.
Dormiram os dois num motel
a caminho do Paraguai
e hoje quando ela acordou
doía-lhe o corpo de tanto amor
e ela gemeu ai amor ai
onde você está
e ele não estava lá
nem depois de ela sair do chuveiro
e nem ai amor ai
depois de ela ver
que havia sumido
a sua bolsa com os documentos
e o dinheiro.

Três pios

Quando eu for falar de amor novamente, que eu consiga ser conciso, como uma passarinha muito doente que, aflita para chamar o filhote perdido, tenha forças para nada além de três pios.

"A cortesia dos cegos", de Wislawa Szymborska

"O poeta lê seus versos para os cegos.
Não imaginava que fosse tão difícil.
Treme-lhe a voz.
Tremem-lhe as mãos.

Sente que cada frase
é posta aqui à prova da escuridão.
Vai precisar se virar sozinha
sem luzes e cores.

Aventura perigosa
para as estrelas em seus versos,
a aurora, o arco-íris, as nuvens, os neons, a lua,
para os peixes até aqui tão prateados sob a água
e o falcão tão alto e silencioso no céu.

Lê - porque já é tarde demais ,para não ler -
sobre o rapaz de casaco amarelo num prado verde,
sobre os telhados vermelhos, que se podem contar, no vale,
sobre os números agitados nas camisas dos jogadores
e sobre a desconhecida nua na porta entreaberta.

Queria se calar - embora seja impossível -
sobre todos aqueles santos no teto da catedral,
aquele gesto de despedida na janela do trem,
a lente do microscópio e o raio de luz no anel
e a tela e o espelho e o álbum de retratos.

Mas é grande a cortesia dos cegos,
grandes sua compreensão e magnanimidade.
Ouvem, sorriem e aplaudem.

Um deles até se aproxima
com um livro aberto de cabeça para baixo
pedindo o autógrafo que não verá."

(De Um amor feliz, tradução de Regina Przybycien, edição da Companhia das Letras.)

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Os heróis (para Patricia Mesquita)

Guardemos distância de gênios
de fenômenos e celebridades
Não nos fascinemos nunca
por palavras como apogeu
fastígio completude e integridade

Deixemos que os heróis desfilem
que sejam deles a apoteose
a agitação dos lenços os aplausos

Eles estão preparados para isso
para os prêmios a glória a consagração
e conseguiriam tudo mesmo que
precisassem recorrer à mistificação

Nós - se nos colocassem
em um desses carros triunfais
e ouvíssemos a multidão
gritando para nós heróis heróis -
perguntaríamos: heróis? heróis? quais?




Parece loucura

Parece loucura um homem alhear-se de tudo, enfurnar-se em casa e ficar dezesseis horas por dia enfiado num quartinho. Parece loucura ele sair só para comprar  os seis pãezinhos que são sua alimentação diária. Parece loucura ele fazer isso por dez meses. Parece loucura ele aparecer certa manhã na padaria e, em vez dos pãezinhos, pedir uma cerveja e esvaziá-la em meia dúzia de goles, antes de pedir mais uma. Parece loucura ele, depois de beber rapidamente a segunda cerveja gritar, como se fosse para ninguém e ao mesmo tempo para o mundo: "Consegui." Ninguém sabia o que ele estava comemorando. Parece loucura ele, ao pagar a conta, respondendo à pergunta do dono da padaria, ter respondido: "Um romance. Acabei um romance." Quando ele foi embora, assobiando, o dono da padaria disse a um dos balconistas: "Ele acabou um romance." "Um romance?", perguntou o balconista. "É, um romance." Os dois se olharam por alguns segundos. Se um deles dissesse: "Parece loucura", o outro certamente repetiria: "Parece loucura."

Grife

Já no segundo livro o escritor
que nunca soube o que era aquilo
passou a chamar todos aqueles
seus arranjos de palavras de estilo.

Indícios

Um passarinho pousando silenciosamente num fio pode não significar nada, mas dá sempre a impressão de que a natureza conspira para mais um haicai.

Conhecimento

Ontem de manhã ouvi a conversa de duas mulheres sobre o horário de verão. Naturalmente, uma era a favor, a outra era contra. Assim está o Brasil, em tudo. Mas o que tem importância para mim, no caso, foi o filho de uma delas, um garoto de uns cinco anos, que perguntou: "Mãe, quem acorda o sol todo dia para ele aparecer?" A mãe sorriu, balançou a cabeça, como se dissesse "esse menino me vem com cada uma", e respondeu: "E eu é que sei?" O garoto olhou decepcionado para ela: "Eu vou perguntar para o papai." Vendo que eu acompanhava a conversa, ele fez um gesto com que desmerecia o conhecimento da mãe e me explicou: "Meu pai é professor."

"Pode ser sem título", de Wislawa Szymborska

"Aconteceu de eu estar sentada sob uma árvore
na beira do rio,
numa manhã ensolarada.
É um acontecimento insignificante
e não entrará para a história.
Não é caso de batalhas e pactos,
cujas causas se pesquisam,
nem de tiranicídios dignos de memória.

E entretanto estou à beira de um rio, é um fato.
E já que estou aqui
devo ter vindo de algum lugar,
e antes disso
devo ter aparecido em muitos outros,
exatamente como os conquistadores de terras
antes de subirem a bordo.

Mesmo o instante fugaz tem um passado fecundo,
sua sexta-feira antes do sábado,
seu maio antes de junho.
Tem seu horizonte não menos real
que no binóculo dos comandantes.

Esta árvore é um álamo enraizado há anos.
O rio é o Raba e não é de hoje que corre.
O caminho pelo mato
não é de anteontem que foi pisado.
O vento, para dissipar as nuvens,
precisou antes trazê-las aqui.

E embora ao redor nada de grandioso aconteça,
o mundo não fica mais pobre em detalhes por isso,
menos justificado ou definido
do que quando o conquistaram as migrações de povos.

O silêncio não acompanha só as conspirações secretas.
Nem o cortejo de causas, só as coroações.
Podem ser redondos não só os aniversários de insurreições,
mas também os seixos que rolam na margem.

É denso e intricado o bordado das circunstâncias.
O ponto da formiga na grama.
A grama costurada à terra.
O desenho da onda que um pauzinho transpassa.

Aconteceu de eu estar e observar.
Acima de mim uma borboleta branca tremula no ar
as asas que só pertencem a ela
e passa sobre minhas mãos uma sombra,
não outra, não de outra qualquer, mas dela  somente.

Diante de tal vista sempre me abandona a certeza
de que o importante
é mais importante do que o desimportante."

(De Um amor feliz, tradução de Regina Przybycien, edição da Companhia das Letras.)

domingo, 16 de outubro de 2016

Consciência

Da Sé ao Tucuruvi
no bolso do ladrão
o celular roubado
mesmo desligado acusava:
bem que eu vi, bem que eu vi,
bem que eu vi.

Contrato

Quando foi lhe cobrar a vida
a Morte disse que não havia
nenhuma cláusula de garantia estendida.

Matéria de poesia

Nenhuma coisa ou nada -
isso é tudo
nessa ordem precisa
ou na inversa
de que a poesia se utiliza

Sobre si mesma
a poesia sempre versa.

Poesias (para Silvana Guimarães)

Existe a poesia pictórica -
aquela que arregimenta
todas as consoantes e vogais
para narrar o caminho manso de um rio
ou o mar lambendo a lua
com suas ondas descomunais

Existe a poesia retórica -
que com suas tolas interrogações
e suas presunçosas exclamações
se empenha em importunar Deus
ainda que ele se refugie
na mais longínqua das constelações

E existe aquela poesia 
que sendo a verdadeira
dirá hoje e pela eternidade inteira -
mesmo se sob tortura e prisão
lhe perguntarem se é ela a poesia -
que nunca, que jamais, que não.

Sobre os mortos que escrevem (para Andre Caramuru Aubert)

Estamos mortos
há muito tempo escrevemos
que estamos mortos
estamos mortos repetimos
e nos replicam mortos?
mortos como? mortos nada
e elogiam o que escrevemos
e nos beliscam para sabermos
que mortos não gritam
se têm a pele beliscada

Só um ou dois gaiatos
aceitam nossa morte como fato
mas apenas para perguntar
por que não morremos mais vezes
se mortos é que nós sabemos
- e não vivos - o que é escrever?

"O motivo da falta de flores", de Lourença Lou

"Cherry profanava o Olimpo
mas se ajoelhava por um anjo
e gostava de mim

Jens sempre foi iconoclasta
vivia encastelando palavrões
e gostava de mim

Shi era dama do deslizar
mas rasgava mapas por amor
e gostava de mim

Zeca vestia capa e espada
pronto a decapitar injustiças
e gostava de mim

fabricávamos sapos e lagartas
mas perdemos a forma das borboletas
e aos poucos fomos nos deixando

de tudo deveria ter ficado um pouco
as escamas ou os casulos
ou quem sabe a partilha do adeus."

fiquei eu gostando dos quatro."

(Do livro Equilibrista, Editora Penalux.)

sábado, 15 de outubro de 2016

20h54

Mais do que hora de fechar a loja. Hoje ninguém se interessou sequer em entrar, muito menos olhar os artigos. Lá pelas cinco, um cachorro levantou elegantemente a pata e regou com vigor a porta. Creio que resumia assim a opinião geral. Cartas, fotos, lembranças de amor? O que é o amor, para merecer um culto? E, no entanto, houve um tempo em que, se me trouxessem uma taça de urina e dissessem ser do amor, eu a esvaziaria em pequenos e reverentes goles.

Balanço

Escrevi o mais que pude,
Sem jamais esmorecer.
Haveria mais virtude
Em abster-me de escrever.

Santo de casa

No bilhete do suicida, um daqueles críticos que existem em todas as famílias censurou a extensão do texto, o excesso de vírgulas e a falta de emoção. Outro parente, versado também na arte literária, concordou: o morto parecia estar comentando uma viagem a Itaquaquecetuba para resolver um problema contábil.

Fato e ficção

Um dos dramas dos poetas é o de não poderem escrever uma frase como "eu gostaria de estar morto", que logo todos pensam ser uma chantagenzinha deles para promover seus versos.

Impressão

Certos mortos mantêm durante o velório um sorriso tão bem desenhado que chegamos a pensar que, se ficássemos um instante a sós com eles, começariam um diálogo cujas palavras iniciais seriam: "Olhe, se você prometer ser discreto, eu conto uma coisa para você."

Tela

O pintor aproveita o cochilo do gato na mesa da cozinha, dentro do cesto de frutas, para dar um toque de vida à sua natureza-morta.

Não antes

Que o dia em que morrermos, se for de madrugada, não seja aquele no qual, três ou quatro horas depois, no parque a que diariamente vamos, aparecerá finalmente a mulher com quem marcamos um encontro para uma manhã da semana seguinte, centenas de semanas atrás.

A mulher andando no rio

Ainda hoje o sobrevivente, quando relata o que aconteceu, suspira quando fala da manhã em que ele e seus dois companheiros de pescaria viram aparecer, andando sobre o rio, a mulher que parecia feita de nuvem. Os dois foram ao encontro dela. Conseguiram dar quatro ou cinco passos, antes de afundar, seguidos por ela.  Hoje, passados já mais de dez anos, ele tenta ainda lembrar a única palavra que ela disse. Acha que foi Virginia, e sempre que pensa nela sente uma aflição quase doída por não ter seguido os companheiros.

"Onde pois estavas tu", de Emily Brontë

"Onde pois estavas tu? Em vão te procurei,
Um olhar brilhou, acreditei reconhecê-lo,
Mas em torno desta fronte brincavam cachos negros;
O olhar cintilava como se fosse estranho astro
À minha alma extasiada.

E eu sentia meu coração, angústia de meus olhos,
Abandonar-se de repente à doçura de um sonho.
Tremia à ideia de saber seu nome,
E no entanto eu me inclinava e esperava sua voz,
Esta voz que eu jamais tinha ouvido,
Que me falava docemente dos antigos anos,
E parecia despertar uma imagem longínqua.
Lágrimas subiam e queimavam os meus olhos.

................................................................................

Permaneci no limiar, imóvel, um instante.
Olhei a amplidão;
E vi os céus, o círculo das montanhas
Negras.
A lua em meio à sua viagem era um claro navio
Vogando de alto bordo no oceano do espaço.
O vento passava como um murmúrio,
Estranhamente povoado de ecos e fantasmas.

E foi então que franqueei os muros
Da sombria prisão que me serve de lar,
E que eleva seu mistério sobre a planície vazia.

...........................................................................

Oh! vem, segue-me, dizia a canção de passagem;
A lua esplende, bela, nos outonos do céu;
É tempo de vir.
Há muito esgotados por um trabalho inglório,
Os olhos e a cabeça pedem repouso.

Vem!"

(De O vento da noite, tradução de Lúcio Cardoso, edição da Civilização Brasileira.)



sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Quatro vezes amor

Hoje, no blog do Estadão (www.estadao.com.br), falo de minha mais consistente obsessão.

Equívoco

Os que nós fomos outrora
Julgavam que poderíamos
Mudar tudo a qualquer hora.
Julgavam, mas não podíamos.

Intimidade

Tinham uma relação estreita.
Quando procuraram estreitá-la mais
viram que ficara estreita demais.

Mario Quintana

Mario Quintana tinha certo jeito de escrever tão simples que às vezes nem parecia um jeito, mas era sempre o jeito certo.

Sótão

As últimas fotos que de mim tirei
mais parecem ser
retratos de Dorian Gray.

Nem você

E chega aquele momento
em que você se analisa honestamente
e não consegue mais ser condescendente
nem consigo mesmo.

O segredo

A poesia não transforma
uma pedra em pão -
se acreditarmos na razão.

Mario Quintana

Em Mario Quintana até os acessórios eram principais
como os balõezinhos coloridos nas festas
e as rosas nos roseirais.

Três linhas de Dalton Trevisan

"Lição de estilo: o último bilhete do suicida.
Lição de vida: um pedaço de papel em branco -
o último bilhete."

(De Pico na veia, Editora Record.)

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Haicai (para Celina Portocarrero, Mariana Ianelli e Marisa Lajolo)

A beleza nela
era tão clamorosa
como uma borboleta numa rosa.

Três vezes

Quando veio à tona
o assunto não estava morto ainda
mas já esgotado.

Cronos

Para Álvares de Azevedo
poeta imortal era aquele
que morria mais cedo.

Sombra

Escrevo sobre mim porque, embora não possa gabar-me disso, sou a pessoa que com maior frequência anda comigo.

Redenção

Penso, embora só hoje tenha consciência disso, que desde minhas primeiras leituras e meus rabiscos iniciais eu pressenti na arte minha religião e esperei ser redimido por ela. Acredito hoje que algumas das culpas que me atormentaram foram simuladas por mim com a finalidade única, ou principal, de poder ser digno de me candidatar à redenção.

Anotação

Que eu, se escrevendo não souber como me aproximar do melhor, possa ao menos me manter longe do vulgar e principalmente do desonesto. Que eu seja medíocre, não importa, desde que não precise trapacear.

O déspota do sofá (para Priscylla Mariuszka Moskevitch)

O amor é um gato
que chega como que por acaso um dia
e por acaso é o dia
de nossa maior solidão
ou o do nosso aniversário

Entra correndo pela sala
escolhe o sofá instala-se
e com as unhas marca sua possessão

Poderíamos dizer não ou dizer sim
mas nunca dizemos não
e logo terá de curvar-se
diante do sofá
quem quiser falar com o patrão

Livres do livre-arbítrio
passamos a confiar tudo ao tirano
e nos perguntamos
como não descobrimos antes
que esse era o jeito certo de viver

Por não termos nada melhor a oferecer
oferecemos-lhe a vida
e ele para nada nos dever
nos dá a dele também

Parece-nos justo viver por ele
e também por ele morrer
embora ocasionalmente ouçamos
que ele como todo gato
tenha depois de nossa morte
mais seis vidas para viver.

Questão poética (para Adriane Garcia, Líria Porto e Silvana Guimarães)

À meia-noite
sabe-se lá por qual estratagema
enfia-se num poema
um fantasma
do qual nada se pode dizer
a não ser pela rima
que é o de um primo
casado com uma prima
e que arrastando-se escada acima
deixa em toda a casa
um aflitivo assobio de asma.


"Medo do palco", de Wislawa Szymborska

"Poetas e escritores.
É assim que se diz.
Logo, poetas não são escritores, então o quê -

Os poetas são poesia, os escritores são prosa -

Na prosa pode caber tudo, inclusive a poesia,
mas na poesia deve haver só poesia -

De acordo com o cartaz que a anuncia
com o floreio art nouveau de um P maiúsculo,
inscrito nas cordas de uma lira alada,
eu deveria entrar voando, não andando -

E não estaria melhor descalça
do que com esse sapato comum
batendo o salto, rangendo,
desajeitado substituto de um anjo?

Se ao menos o vestido fosse mais longo, esvoaçante,
e os versos saíssem não da bolsa, mas da manga,
e versassem sobre a festa, o desfile, o sino solene,
dim dom
ab ab ba -

Mas lá no pódio já espreita uma mesinha,
meio de sessão espírita, com pés dourados,
e na mesinha esfumaça um castiçal -

De onde deduzo
que terei que ler à luz de velas
o que escrevi à luz de uma lâmpada comum
tac tac tac na máquina -

Sem me preocupar antes do tempo
se isto é poesia
e que poesia -

Se aquela na qual a prosa é malvista -
Ou aquela que é bem-vista na prosa -

E que diferença é essa,
perceptível apenas na penumbra,
sobre o fundo de uma cortina bordô
com franjas violeta?"

(De Um amor feliz, tradução de Regina Przybycien, edição da Companhia das Letras.)

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

PEC

Meus ouvidos e meu coração me traíram. Cheguei a comemorar, até descobrir que a campanha não é para conseguir um teto para os gatos.

Culpa

Embora não ache muito correto
o poeta se permite um momento de abstração
antes de iniciar um poema concreto.

Vocação (para Arlete Franco)

Só podia mesmo fazer medicina.
Desde menina já era defensora
dos frascos e dos comprimidos.

A moça do Natal

No asilo, uma das mulheres, todas mais que sexagenárias, suspira.
"O que tanto você suspira?", pergunta outra. "Está apaixonada?"
"Estava lembrando daquela moça que veio cantar aqui para nós no Natal, aquela toda linda."
"Ih, não estou falando?"
"Não é nada disso que você está pensando. Lembrei dela, só isso. Que voz! E aquele chocolatinho que ela deu."
"Chocolate?"
"É. Uma delícia. Tinha licor dentro, lembra? Ela me chamou de menina. Menina!"
A outra suspira, concentra-se, tenta refazer na memória o rosto da moça, o chocolate. Será que foi chamada também de menina? Essas histórias de Natal sempre a deixam triste..


CLT

No feriado
o passarinho cantor
devia ganhar cachê dobrado.

Igrejinhas

Com estrépito a catedral
de João Cabral de Melo Neto
desabou no cocuruto de um desafeto.

Valsa (para Ana Farrah Baunilha)

Sabias todo o tempo
enquanto ele te enlaçava
na valsa romântica
o que ele queria de ti

Sabias o que ele queria
e sabias também
que em algum momento
ele conseguiria

Tu querias também
mas como te aprazia valsar
foste dizendo devagar devagar
até dizer vem vem vem.

"Elogio à irmã", de Wislawa Szymboska

"Minha irmã não escreve poemas
e acho que nem vai de repente começar a escrever poemas.
Puxou isso da nossa mãe, que não escrevia poemas,
e do nosso pai, que também não escrevia poemas.
Sob o teto de minha irmã me sinto segura;
o marido de minha irmã por nada no mundo escreveria poemas.
E embora isso soe repetitivo como uma litania,
nenhum dos nossos parentes se ocupa em escrever poemas.

Nas gavetas de minha irmã não existem poemas antigos,
nem na sua bolsa, poemas recém-escritos.
E quando minha irmã me convida para almoçar,
sei que não tenciona ler poemas para mim.
Faz sopas deliciosas sem premeditação.
E não derrama café sobre manuscritos.

Em muitas famílias ninguém escreve poemas,
mas se isso acontece - é raro ficar numa só pessoa.
Às vezes a poesia desce em cascatas pelas gerações,
criando turbilhões perigosos nos sentimentos mútuos.

Minha irmã pratica uma razoável prosa falada,
e toda a sua obra se limita a cartões-postais escritos nas férias,
cujo texto promete o mesmo todo ano:
que ao voltar
tudo
tudo
tudinho ela vai contar."

(Do livro Um amor feliz, tradução de Regina Przybycien, edição da Companhia das Letras.)


terça-feira, 11 de outubro de 2016

Wispolska (para Danuta Drewniok-Curyl e todos os poloneses do mundo)

Wislawa Szymborska
beleza grandeza
Wislawa valsa
Wislawa mazurca
Wislawa polca
Wislawa Szymborska
Wislawa Polska
Wispolska.

(Não deveria, mas sinto que preciso fazer este comentário. Sempre me julguei em dívida com a Polônia, berço de minha família. Uma dívida tão grande que seria irrisório tentar pagá-la com este poema. Ele é simples, eu sei, mas ao escrevê-lo senti algo muito especial, único, na junção de palavras relacionadas com a beleza da Polônia, todas girando em torno de Wislawa Szymborska, poeta dos e das poetas do mundo. Faltou Chopin no poema. Ele e Wislawa são, para mim, a Polônia. Quem mais, além deles, poderia desejar um país para atestar sua grandeza?)

Fracos de espírito

Tolos, renovamos diariamente nossa esperança na vida. E naturalmente caímos no engodo de sempre: o sol, o matutino balé das borboletas e os passarinhos mexicanos que, para nos reconciliar com o amor, cantam boleros de 1950.

Dessintonia

Às vezes uma voz
que diz ser a voz da poesia
acorda o poeta.
Mas nunca é a voz certa.

Contraste

Às vezes o senso comum
se rebela e adota
um estilo próprio.

Soneto do apaixonado paciente (ou José Matias) *

Ele a amava, e que tormento
Foi ouvi-la dizer não
E na primeira ocasião
A outro dar-se em casamento.

Um mês depois, acabado,
Pela paixão consumido,
Por ela foi o marido
Sem muito choro enterrado.

Ele, que a amava, testou
Novamente sua sorte,
Mas com outro ela se casou.

O segundo marido era
Mais jovem e mais forte,
Mas por ela ele ainda espera.

(*) Personagem de um conto de Eça de Queirós.

Negócios

Ontem eu me queixava
E não devia.
Minha musa nada me negava,
minha loja prosperava
e a freguesia
ainda não se queixava
dos caroços da minha poesia.

O devedor

Eu sou um homem morto
Que, julgando que ainda deve,
Respira ainda e ainda escreve.

"Um amor feliz", de Wislawa Szymborska

"Um amor feliz. Isso é normal,
isso é sério, isso é útil?
O que o mundo ganha com dois seres
que não veem o mundo?

Enaltecidos um para o outro sem nenhum mérito,
os primeiros quaisquer de milhões, mas convencidos
que assim devia ser - como prêmio de quê? De nada;
a luz cai de lugar nenhum -
por que justo nesses e não noutros?
Isso ofende a justiça? Sim.
Isso infringe os princípios cuidadosamente acumulados?
Derruba do cume a moral? Infringe e derruba, sim.

Observem estes felizardos:
se ao menos disfarçassem um pouco,
fingissem depressão, confortando assim os amigos!
Escutem como riem - é um insulto.
Em que língua falam - só entendi na aparência.
E esses seus rituais, cerimônias,
elaborados deveres recíprocos -
parece um complô contra a humanidade!

É difícil até imaginar onde se iria parar,
se seu exemplo fosse imitado.
Com que poderiam contar a religião, a poesia,
o que seria lembrado, o que, abandonado,
quem quereria ficar dentro do círculo?

Um amor feliz. Isso é necessário?
O tato e a razão nos mandam silenciar sobre ele
como sobre um escândalo das altas esferas da Vida.
Crianças perfeitas nascem sem sua ajuda.
Nunca conseguiria povoar a terra,
pois raramente acontece.

Os que não conhecem o amor feliz que afirmem
não existir em lugar nenhum um amor feliz.

Com essa crença lhes será mais fácil viver e morrer."

(Do livro Um amor feliz, tradução de Regina Przybycien, edição da Companhia das Letras.)


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Princípio

O homem chamava-se João, talvez José, quem sabe Raul, e seria feliz se, quando jovem, não lhe tivesse passado pela cabeça ser poeta. A partir do dia em que tomou a decisão, mergulhou na mais espessa tristeza, imaginando ser essa a maneira de desempenhar com honestidade o seu ofício.

Coerência

Num dia estás melancólica,
no outro estás macambúzia.
Tua única mudança é retórica,
é trocar seis por meia dúzia.

Panfletários

Nunca leiam sonetos. A única e descarada missão deles é provar que o amor existe. Ou não.

Polos (para Marcelo Mirisola)

Considerar a literatura um hobby é um direito que pode caber ao leitor, mas jamais ao escritor.

Factótum

O poeta é quem faz sua sina,
É quem escreve sua história.
Dele depende sua glória
E dele também sua ruína.

Anexim

Alguém já disse:
amor correspondido
é uma chatice.

Zzzzz

O pior de dormir não é havermos nos entregado mais uma vez à preguiça. É acordar.

Ofício

Continuo acreditando ser escritor.
É uma crença de décadas. Falta
convencer os leitores.

"As mulheres de Rubens", de Wislawa Szymborska

"Herculinas, fauna feminina,
mas como um ribombo de barris.
Aninham-se em leitos pisados
dormem de boca aberta para cocoricar.
Suas pupilas fugiram para o fundo
e penetram no interior das glândulas,
donde os fermentos se infiltram no sangue.

Filhas do barroco. Incha a massa na gamela,
banhos soltam vapor, vinhos enrubescem,
galopam pelo céu leitões de nuvens,
trombetas estrondeiam o alarme físico.

Ó aboboradas, ó desmesuradas
e duplicadas pela renúncia das vestes
e triplicadas pela violência da pose,
pratos gordurosos do amor!

Suas irmãs magras levantaram mais cedo,
antes que clareasse no quadro.
E ninguém viu quando seguiram em fila
do lado não pintado da tela.

Banidas do estilo. Costelas à mostra,
pés e mãos de pássaros.
Tentam voar nas espáduas salientes.

O século treze lhes daria um fundo dourado.
O vinte - uma tela prateada.
O dezesseis não tem nada para as retilíneas.

Porque até mesmo o céu é bojudo
bojudos os anjos e bojudo o deus -
um Febo bigodudo que num corcel suado
cavalga para a alcova fervente."

(Do livro Um amor feliz, tradução de Regina Przybycien, edição da Companhia das Letras.)


domingo, 9 de outubro de 2016

20h11

Hora de fechar a loja. Abri-la num domingo foi uma temeridade. Os fiscais andam vigilantes. Dizem que o amor está com seu punhal mais aguçado que nunca. Tomara que esteja, mesmo, e eu tope com ele em meu caminho. Boa noite aos (e às) que compartilham essa esperança.

As estrelas e Mario Quintana (para Silvia Galant François e Lúcia Maia)

Ela se lembra bem de como começou a colecionar estrelas e de como a preocupou inicialmente o problema de encontrar um lugar especial, onde pudesse guardá-las. A primeira ela decidiu deixar provisoriamente dentro de um livro de Mario Quintana. Da segunda em diante,, não pensou mais naquilo. Foi colocando uma a uma onde estava a primeira. Já sabia que era o lugar ideal para todas, já batizadas então de estrelas quintanares.

O último

Está com medo de quê?
Só se ninguém mais restar
É que a Morte há de pensar
Em alguém como você.

Memória

No quarto onde morreu o poeta, há dias em que se sente um cheiro de flor. Não há jardim na casa, e a nova empregada perguntou à mulher do poeta como podia acontecer aquilo. A viúva abriu então uma gaveta. A empregada não entendeu. Não havia nada ali dentro. A mulher explicou que era lá que o poeta guardara por várias décadas seus escritos. "Quando ele morreu, dei tudo aquilo a um professor que me pediu. Isso faz já três anos, mas o cheiro não vai embora."

Transtorno

Nas duas pistas
o trânsito interditado.
Um poema concretista
havia desmoronado.

Manifesto

Ao sono as horas dedico
E entrego a Deus minha sorte.
Digam à amada que fico,
Enquanto deixar a Morte.

Mérito

Nunca me dedicaram loas.
Conheceram tudo de mim -
menos as coisas boas.

Oração

Que até a mais tênue brisa
conheça a diferença entre uma árvore
e a torre de Pisa.

Inércia

Envelhecer é perder a capacidade do extraordinário. O que há de um velho oferecer ainda, a não ser a resignação diante da insubornável vontade do tempo?

www.rubem.wordpress.com

Hoje falo, na revista, de três palavras: bela, magnífica, majestosa. Outrora as atribuí àquilo que se chamava então de musa e que hoje, nomeada, provoca engasgos de riso.

Soneto de como o amor se satisfaria

Podemos dar-lhe a lâmpada encantada,
As joias mais opíparas do oriente,
O ouro mais vivo, a prata mais luzente,
Ao amor nada encanta, nada agrada.

Podemos dar-nos a ele inteiramente,
Da maneira mais desavergonhada,
Mais comprometedora e inusitada,
Que ele jamais se dá por contente.

O amor somente se satisfaria
Se mais do que lhe damos nós lhe déssemos
E, ao morrer, de tal forma nós fizéssemos

Que em nós seu nome se desenharia,
Com suas duas sílabas formosas,
Se nos despedaçássemos em rosas.

(Mais um desses sonetos tolos que o amor me inspira, convencendo-me da sua fictícia beleza.)

"O resto", de Wislawa Szymborska

"Ofélia acabou de cantar cantigas loucas
e saiu de cena preocupada:
será que o vestido não amarrotou, o cabelo
caiu nos seus ombros do jeito que devia?

Para cúmulo da verdade, lava o cenho do negro
desespero e - como filha de Polônio que é -
para ter certeza conta as folhas tiradas do cabelo.
Ofélia, que a Dinamarca perdoe a mim e a ti:
morrerei com asas; sobreviverei com garras práticas.
Non omnis moriar de amor."

(De Um amor feliz, tradução de Regina Przybycien, edição da Companhia das Letras.)


sábado, 8 de outubro de 2016

20h13

Monsieur Pierre não voltou. Esta noite eu tive um pesadelo em que ele me pareceu morto. Só estranhei que estivesse mais belo do que nunca. Se gatos sorriem, era isso que ele fazia. Se ele está morto, presumo que tenha sido vítima do mesmo mal que me acometeu e vem me roendo como se ser roído no corpo e na alma fosse a maior ventura ao alcance de um homem: o amor.

Estoque (para Silvana Guimarães)

Alguns poetas têm visões
outros epifanias
para mim poeta
da tribo dos normais
sobraram só
as estrelas habituais
as flores e as questões
triviais do dia a dia.

Oportunismo

Dizer Deus apenas
na hora de morrer
não é fé, é só
um modo de dizer.

Soneto do soneto antigo

A neve obstruiu os caminhos,
Mais nenhum trem chegará.
Nada mais nos salvará,
Nós morreremos sozinhos.

O veneno foi tomado,
O enredo será cumprido.
Quando houver amanhecido,
Tudo estará acabado,

A não ser que por estarmos
Num soneto antigo, seja
Possível a nós contarmos

Com o bom coração do autor
E ele nos livre e proteja
Em nome do santo amor.

A menina e Quintana (p/ Silvia Galant François, Ernesto Ferreira, Liberato Vieira da Cunha e Angela Brasil)

Quando os estranhos sinais começaram a aparecer na mão da menina, a mãe a censurou: era o que acontecia com quem vivia apontando o dedo para a lua. Pareciam algarismos, letras. Traçavam-se sozinhos durante a noite. Toda manhã notava-se um novo sinal, às vezes dois. No primeiro dia da primavera, a menina, assim que acordou, correu para mostrar a mão à mãe: à noite o trabalho se completara. Havia três palavras bem nítidas ali. Era o início de um poema de Mario Quintana.

No centro da essência (para Patricia Mesquita)

São imprevisíveis as rosas. Quando parecem ter sido inteiramente decifrados os sutis segredos de sua perfeição, surge um passarinho, ou um poeta, com um detalhe, uma minúcia, uma novidade que são como se houvesse sido descoberta a complexa conjunção de prodígios necessária para a plena constituição da beleza.

História (para Ana Farrah Baunilha)

Das loucas antigas, que eram escondidas pelas famílias em sótãos, sabe-se que uivavam à meia-noite e escreviam, com o próprio sangue, sonetos dedicados ao Senhor Lúcifer.

As borboletas

Passou a sonhar todas as noites com borboletas imensas e belíssimas, que insinuavam poder levá-lo até o céu e além. De manhã, porém, quando ia ao jardim, as borboletas que via eram as de sempre, decepcionantemente pequenas. Quando caiu doente, de cama, já não era só à noite  que as enormes borboletas vinham seduzi-lo. Uma delas, a mais insistente, às vezes se transformava numa aeromoça loiramente escandinava, que num inglês surpreendentemente compreensível o incitava a apressar-se. No sonho ele se entregava e partia, mas acabava acordando, frustrado. Como se fosse dele a culpa pelas partidas malogradas, as borboletas bruscamente o abandonaram. Certa manhã, dois meses depois, a doença cedeu e ele pôde sair da cama. Deixaram-no sentado, tomando ar no jardim. Quando foram buscá-lo para o almoço, ele estava chorando como uma criança. Imaginaram que estivesse emocionado pelo restabelecimento. Estava arrasado por se ver diante daquelas borboletas miúdas, incapazes de levá-lo além daquela vida prosaica, daqueles dias que só sabiam esticar-se indolentemente como cobras sob o sol.

Simples assim

O amor é um velhaco
que nos esvazia o bolso
e nos enche o saco.

Quatro versos de T.S. Eliot

"Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases para além da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera."

(Do poema "O enterro dos mortos", do livro Poesia, tradução de Ivan Junqueira, Editora Nova Fronteira.)

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

21h17

Meu gato Pierre, que eu chamava de subgerente, não aparece há uma semana na loja. Não suportou este ambiente sombrio em que vivo meus últimos dias. Às vezes penso que terá se apaixonado e corrido atrás de uma aventura. Tomara que sim. Mas temo, também, que volte magoado pelo amor e comece a escrever sonetos, como eu, e a fazer perguntas sobre suicídio.

Só - e tanto (para Diego Moraes e Marcelo Mirisola)

Imagino que escreverei até meu último dia. Espero que sim, não propriamente por alguma habilidade especial que eu possa ter na arte da escrita, mas por não ter habilidade para nenhuma outra arte.

Garantia estendida

A literatura é, dos distúrbios mentais, um dos mais persistentes. Se fosse um produto comercial, um bom lema para ela, talvez um tanto exagerado, poderia apregoar sua eficiência dos oito aos oitenta anos.

Campanha (2)

Sonetos são seres tão afáveis quanto os gatos e, assim como certas estrelas, agrada-lhes dialogar com as pessoas, especialmente sobre seu assunto favorito: o amor.

Campanha

Um dia você ainda vai adotar um soneto.

Recurso

Se tirassem de sua lista o amor, o poeta não teria outro caminho senão reforçar sua aliança com as estrelas, as flores e os passarinhos.

A difícil vida dos sonetos

Perguntam-me o que deve ter um soneto moderno. Simples. Dois quartetos e dois tercetos ou, na forma shakespeariana, três quartetos e um dístico. Só? Basicamente isso, como sempre. E principalmente a extraordinária coragem de se mostrar e a resignação cristã de suportar vaias, deboches e até ameaças. Um soneto é o lirismo pendurado num poste e malhado numa véspera de domingo.

Passarinho

Quando chega a fase em que os gorjeios começam a parecer cacarejos, o passarinho deve pedir ao dono que o leve com a gaiola para dentro de casa e ali o deixe ficar até a morte. Que seja poupado dos impiedosos olhos do sol e da zombaria dos passarinhos jovens.

A causa

Se quiseres que ouçam com atenção o relato de tuas desgraças, convém atribuí-las ao amor. É um personagem que, digam o que disserem, não sai da moda. Até um furúnculo na nádega, se for lançado como obra dele, assume certo lirismo.

Sabedoria de mãe

Minha mãe, se soubesse o fim que tiveram, diria que, como na infância, ando em más companhias: Sylvia Plath, Antero de Quental, Florbela Espanca, Stefan Zweig e outros que, como precaução contra a vida, levam sempre no bolso um frasco estranho ou uma corda.

Ocaso

No fim da vida, carente de afetos, fixou toda a ternura no seu blog, como se fosse um passarinho seu. Acorda cedo e vai levar-lhe os textos. Sente-se como se espalhasse alpiste ou farelo de pão no micro.

Soneto dos olhos que não quiseram ver

Teus olhos hão de lembrar
O dia em que indiferentes,
Soberbos e prepotentes,
Fizeram os meus chorar.

Como iriam esquecer?
Podem esses olhos teus
(Jamais permita isso Deus)
Ser incapazes de ver?

Eu sei que eles viram bem,
Como tu sabes, também.
Por mais que queiras mentir.

Se houver algum culpado
Por me haverem ignorado,
É a ti que devo punir.

(Este soneto, insignificante como os outros que venho escrevendo há décadas, me venceu pelo cansaço. Acompanhou-me desde que saí de casa para vir à loja, onde abrigo seus irmãos. São tantos, já (duzentos, trezentos)! Que diabo fiz eu da vida para terminá-la assim, rodeado de seres tão infelizes quanto eu?)

www.estadao.com.br

Na crônica de hoje, falo de poesia (como se fosse novidade). Declaro-me amante desse sortilégio, dessa paixão, dessa obsessão antiga, dessa arte que me alenta e me dilacera. Ah, pudesse eu dar a ela o tributo que merece. Amor e poesia parecem andar tão esquecidos. Diabos, serei o único tolo no mundo?

"O lago morto", de Emily Brontë

"O lago morto, o céu cinzento ao luar;
Pálida, lutando, coberta pelas nuvens
A lua;
O murmúrio obstinado que cochicha e passa
(Dir-se-ia que tem medo de falar em alta voz).

Tão tristes agora,
Recaem sobre meu coração,
Onde a alegria morre como um rio deserto.
Minhas pobres alegrias...
Não as toqueis,
Floridas e sorridentes.

Lentamente, a raiz acaba de morrer."

(De O vento da noite, tradução de Lúcio Cardoso, publicado pela Civilização Brasileira.)

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

19h33

Tenho cochilado aqui na loja. A falta de fregueses faz isso. O último (único) que atendi hoje, às quatro, queria um soneto alegre. Obviamente eu não tinha nenhum no estoque. Depois que ele se foi, dormi debruçado na mesa e só agora baixo a porta. Ficam dentro, como sempre, as dolorosas reminiscências que ninguém quer comprar. Felizmente já se habituaram ao escuro. Começo a imaginar que tipo e tamanho de letra usarei para o inafastável "Passo o ponto".

Quadrinha

Por Júpiter e por Zeus,
Eu juro que não atino
Com o encanto greco-latino
Que brilha nos olhos teus.

Caperucita

Eu a chamei de Caperucita. Ela não entendeu e, por não entender, não notou também a insinuação de lobo que eu, com todo o meu improvável charme, tentava lhe impingir. À nossa frente, a floresta era toda convites.

Mario Quintana (para Silvia Galant François)

Se você encontrar o nome de Mario Quintana ao lado de palavras como pedantismo, exagero, gongorismo ou afetação, ele estará funcionando, na frase, simplesmente como antônimo.

A hora que não chega

Hoje, bateu-lhe a tentação de usar palavras solenes, doravantes, outrossins, porquantos, por conseguintes. Talvez a lição que aprendeu sobre a simplicidade não valha mais. Tudo muda. É bem possível que respeitem mais seus textos se eles assumirem um ar clássico. Quem sabe parágrafos mais longos, com orações mais meticulosamente ligadas. Ou a reabilitação do ponto e vírgula e, até, num estágio seguinte, das olvidadas reticências. Alguma coisa ele precisa fazer, isso é certo. Hoje, todas as décadas de resignação resolveram pesar-lhe nos ombros. Quem, além dele, aceitaria esperar tanto pelo reconhecimento? A última referência a um livro seu é de agosto de 2010. Ele já era o velho que é. Foram vinte linhas, num pé de página. Ele sorri (!) ao se lembrar da última frase da resenha: "Um talento jovem, uma promessa da poesia brasileira."

Soneto do substituto do amor (para Priscylla)

Se o amor nos abandonar,
Por mais que nos lastimemos
E a desgraça deploremos,
Havemos de nos salvar.

Saberemos encontrar,
Com a experiência que hoje temos,
Algo com que compensemos
O que vier a nos faltar.

Sendo o amor o que é,
Talvez lucremos, até,
Se a sorte nos for benigna.

Pois como o amor mais ninguém
Por nós terá tal desdém
E conduta mais indigna.

"Natureza-morta com um balãozinho", de Wislawa Szymborska

"Em vez da volta das lembranças
na hora de morrer
quero ter de volta
as coisas perdidas.

Pela porta, janela, malas,
sombrinhas, luvas, casaco,
para que eu possa dizer:
para que tudo isso.

Alfinetes, este e aquele pente,
rosa de papel, barbante, faca,
para que eu possa dizer:
Nada disto me faz falta.

Esteja onde estiver, chave,
tente chegar a tempo,
para que eu possa dizer:
Ferrugem, minha cara, ferrugem.

Caia uma nuvem de atestados,
licenças, enquetes,
para que eu possa dizer:
Que lindo o sol se pondo.

Relógio, aflore do rio
e permita que te segure na mão,
para que eu possa dizer:
Você finge ser a hora.

Vai aparecer também um balãozinho
levado pelo vento,
para que eu possa dizer:
Aqui não há crianças.

Voe pela janela aberta,
voe para o vasto mundo,
que alguém grite: Ó!
para que eu possa chorar."

(De Um amor feliz, tradução de Regina Przybycien, edição da Companhia das Letras.)

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

18h27

Hora de fechar a loja, antes que o faça a vigilância lírico-sanitária, sempre impiedosa com meus sonetos de data vencida. Boa noite. Se quiserem rezar por mim, aceito. Talvez eu mereça.

Pleno arbítrio

Suicida é aquele
que tem a convicção
de que todo fato
deve provir sempre de um ato
e nunca de uma omissão.

Patrimônio

O amor é feito de pequenas delicadezas, tão pequenas e delicadas que na hora da separação não costumam provocar litígios nem reivindicações de posse.

O jeito

Para ser poeta, não é preciso muito mais que aprender o jeito certo de olhar alguns acontecimentos da vida, como as flores, as nuvens e os pássaros.

Lógica

Nada mais sem sentido
que um gênio compreendido.

A resposta

Ao ancião perguntaram
se era duro seu fardo
e ele disse que sim,
pena que só o fardo.

Soneto em que se louva o amor infeliz

Sofre o amor tantos percalços,
Tantas agruras, tormentos,
Que, sem computar os falsos,
Ultrapassam os trezentos.

Já nos deviam bastar,
Porém sempre algo nos tenta
A esse número somar
Pelo menos mais cinquenta.

Melhor que um amor feliz
É um malogrado, infeliz,
Amor cheio de problemas.

Sabemos, por ser verdade,
Que nunca a felicidade
Nos inspirará bons poemas.

"Nada duas vezes", de Wislawa Szymborska

"Nada acontece duas vezes
nem acontecerá. Eis nossa sina.
Nascemos sem prática
e morreremos sem rotina.

Mesmo sendo os piores alunos
na escola deste mundão,
nunca vamos repetir
nenhum inverno nem verão.

Nem um dia se repete,
não há duas noites iguais,
dois beijos não são idênticos
nem dois olhares tais quais.

Ontem quando alguém falou
o teu nome junto a mim
foi como se pela janela aberta
caísse uma rosa do jardim.

Hoje que estamos juntos,
o nosso caso não medra.
Rosa? Como é uma rosa?
É uma flor ou é uma pedra?

Por que você tem, má hora,
que trazer consigo a incerteza?
Você vem - mas vai passar.
Você passa - eis a beleza.

Sorridentes, abraçados
tentaremos viver sem mágoa,
mesmo sendo diferentes
como duas gotas d'água."

(Do livro Um amor feliz, tradução de Regina Przybycien, edição da Companhia das Letras.)

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Metamorfose (para Patricia Mesquita)

Há um sortilégio que, em determinados dias de primavera, reabre na carne singulares feridas às quais é dada a escolha de se transformarem em aves ou em rosas.

A estrela (para Patricia Mesquita)

Chega um tempo em que não olhamos mais para o céu. Sabemos já que as estrelas continuam ali e que brilharem ou não brilharem não depende de nossa amorosa vigília. Uma, a que guiou outrora nossa rota, nós já a temos na memória e na alma, como jamais tivemos alguém ou alguma coisa. Como jamais teremos nada.

Truque

Por mais brilhantes que te pareçam às vezes uma frase tua, ou duas, nunca permitas que as palavras notem o teu deslumbramento. Deixa que pensem estares descontente com elas. Que elas, com o brio espicaçado, acreditem que trabalham para um grande escritor e se empenhem em ser dignas dele.

Isenção

Não chorem por aqueles
que o amor subjugou,
encarcerou e matou.

Chorem pelos que se endomingaram,
se perfumaram,
se enfeitaram,
diante do amor desfilaram
como putas de catálogo
e que o amor,
como se ignora uma idosa
de pernas varicosas,
guardando os óculos,
ignorou.

Heroína

Jamais tinhas tempo para mim.
Quando eu precisava de ti
estavas em todos os lugares
menos aqui.

Perguntava por ti
e as notícias que vinham
quando vinham
contavam tuas façanhas
pelos sete mares,
por todos os ares.

Salvavas velhinhos no Japão
criancinhas na Índia
e ainda achavas forças
para salvar espécimes
à beira da extinção.

Trabalhavas para várias
siglas humanitárias
mas ao voltares das viagens
quando voltavas
o que com mais gosto mostravas
eram as novas tatuagens
que não pareciam propriamente
homenagens a instituições:

hideo, hagi, kazim, massao
e até, uma vez, um -
geograficamente inesperado
e por mim imediatamente odiado -
pablo.





Soneto do credor impiedoso

Não há quem, tendo provado
Do amor um pingo que seja,
Com direito não se veja
De provar mais um bocado.

O amor se faz de rogado
E astucioso mercadeja
Tudo que a seu ver esteja
No âmbito do seu reinado.

Marcado na sua tabela,
Desta carícia ou daquela
Está o exato valor.

Cobrando-as sem remissão,
O amor, sem pena ou perdão,
Se torna nosso senhor.

"A noite se torna mais escura...", de Emily Brontë

"Diante de mim a noite se torna mais escura,
As rajadas do vento são mais frias e selvagens.
E eu, aprisionada a este sortilégio,
Não posso mais partir.

Gigantes, as árvores se arqueiam,
Galhos nus sob a pesada neve;
Já a tempestade inclina mais baixo a sua fronte,
Por isso não posso mais partir.

Sobre mim o espaço e as nuvens;
Os desertos deságuam aos meus pés.
As solidões não me comovem mais;
A vontade se acha extinta.

Não posso mais partir."

(Do livro O vento da noite, tradução de Lúcio Cardoso, Editora Civilização Brasileira.)

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Soneto da canção antiga (versão final)

Como as nuvens, erradias,
E o sopro das brisas mansas,
Vão-se assim as esperanças,
Assim escapam os dias.

O que agora tu dirias,
Depois de tantas andanças,
Se perguntassem das danças,
Dos risos, das alegrias?

Agora onde estão o ruído,
O brilho, a vida, o alarido?
Tudo se foi, só tu não.

Tu, meu tolo incorrigível,
Esperas ainda o impossível:
Reouvir a antiga canção.

Conluio (para Patricia Mesquita)

Uma camisa aos quadrados, uma blusa xadrez. De quantos ardis dispõe a melancolia, quando se une à memória para docemente aniquilar um homem.

Que (para Patricia Mesquita)

Que a ave tenha um coração por abrigo e que, estando ali, só sinta frio se o frio lhe ensinar uma canção.

Feitos um para o outro (p/ Aden Leonardo, Arlene Colucci e Tuca Kors)

Um sofá sem um gato não é como uma árvore sem passarinhos. É muito mais triste. Às árvores resta o consolo das flores e dos frutos. Que flores, que frutos brotarão de um sofá, ainda que o tenha elogiado o vendedor, chamando-o de pechincha?

Réu (para Silvana Guimarães)

Não fosse o amor,
de que nos lastimaríamos?
De que crime os deuses acusaríamos,
que maldição lhes lançaríamos,
que morte infame e ultrajante
lhes desejaríamos,
se acaso fossem mortais?

Não fosse o amor,
a quais assassinos
nossa morte infame e ultrajante
atribuiríamos?

Híbrido (para Deonísio Da Silva e Ernesto Ferreira)

Um short curtíssimo
é um pleonasmo anglo-português
ou uma incitação à nudez?

Soneto da hora de morrer

Chegou enfim a nossa hora.
Já uma vez nos avisaram,
Já duas nos confirmaram,
Precisamos ir embora.

Não se aceita mais demora.
Uma vez já desculparam
E já duas protelaram.
Basta! Tem de ser agora!

Não chegamos a aprender
O que aqui viemos fazer,
E a morte vem nos chamar

Para que entender tentemos
Seja o que for que faremos
Lá onde formos parar.


Em ferro frio

Como se já não houvesse
lugares-comuns
milhares de dezenas
ainda há quem
feche tudo com chave de ouro
quem durma sobre os louros
e quem se debruce sobre problemas.

Sete versos de T.S. Eliot

"É com franqueza o que te vou dizer.
Eu, que perto do teu coração estive, daí fui apartado,
Perdendo a beleza no terror, o terror na inquisição.
Perdi minha paixão: por que deveria preservá-la
Se tudo o que se guarda acaba adulterado?
Perdi visão, olfato, gosto, tato e audição:
Como agora utilizá-los para de ti me aproximar?"

(Do poema "Gerontion", do livro Poesia, tradução de Ivan Junqueira, Editora Nova Fronteira.)

domingo, 2 de outubro de 2016

Cortesias (para Mario Quintana)

Aos domingos, os poetas deveriam pagar só meia entrada no cinema, e nada lhes custariam as pipocas, que lhes seriam ofertadas por uma mulher que, se justiça houvesse, estaria na tela, não com seu uniforme de balconista, mas com um vestido longo, substituindo a protagonista.

Placa

Desculpem o transtorno.
Morri só há um minuto,
Por isso ainda estou
um pouquinho morno.

Façanha (para Mariana Guerra)

Isto sim é prodígio:
desconstruir o mito
antes de construí-lo.

Visões

O maravilhoso impulso que nos leva a escrever poesia aos dezoito anos é, aos setenta, não mais que um deplorável erro da juventude.

Questão de lana caprina

Não entendo por que tantos teóricos se empenham em definir a velhice. A velhice é só uma questão de tempo.

Ai tão

Ai amor querido
ai amor amado
tão ido
tão vivido
tão sofrido
como aquele do Machado
tão maltratado
tão morto já
tão sepultado

e nunca esquecido
e nunca revivido
e nunca ressuscitado.

"Para o meu próprio poema", de Wislawa Szymborska

"Na melhor das hipóteses,
meu poema, você será lido atentamente,
comentado e lembrado.

Na pior das hipóteses
somente lido.

Terceira possibilidade -
embora escrito,
logo jogado no lixo.

Você pode se valer ainda de uma quarta saída -
desaparecer não escrito
murmurando satisfeito algo para si mesmo."

(Do livro Um amor feliz, tradução de Regina Przybycien, edição da Companhia das Letras.)

sábado, 1 de outubro de 2016

Coerência

Que posso ser senão conservador, eu que há quase oito décadas, sempre falando mal dela, conservo a vida?

Seu charme

Eram belos seus olhos verdes. Garantiam-lhe sempre bons começos e eram depois uma agradável lembrança para as mulheres, quando elas percebiam que, além deles, ele não tinha mais nada a oferecer.

Sina

Um beija-flor é sempre uma presa fácil para poetas medíocres.

"O lago morto", de Emily Brontë

"O lago morto, o céu cinzento ao luar;
Pálida, lutando, coberta pelas nuvens,
A lua;
O murmúrio obstinado que cochicha e passa
(Dir-se-ia que tem medo de falar em alta voz).

Tão tristes agora,
Recaem sobre meu coração,
Onde a alegria morre como um rio deserto.
Minhas pobres alegrias...
Não as toqueis,
Floridas e sorridentes.

Lentamente, a raiz acaba de morrer."

(De O vento da noite, tradução de Lúcio Cardoso, Editora Civilização Brasileira.)