terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Soneto da almejada arte (versão final)

Que eu tenha em mim alguma arte
Com a qual, ou grande ou pequena,
Ou desmedida ou amena,
Eu possa sempre louvar-te.

E que eu consiga explicar-te
Que, sendo ventura ou pena,
Procela ou tarde serena,
És de mim a melhor parte.

E que eu possa noite e dia
Cantar a dor e a alegria
Que encontro apenas em ti.

E que, quando eu me calar,
Não precises perguntar
Pelo amor de quem morri.

Um haicai

Um haicai é leve, não como uma folha, mas como sua sombra.

Acerto

Com um pouco de boa vontade, até os irreparáveis prejuízos do amor podem lançados à conta dos pequenos danos.

Monocórdio

Não o levavam a sério, porque falava de um só assunto: o amor.

Compromisso

O amor é só uma bobagem à qual você, por havê-la criado, está disposto a dar a vida.

Porque

Se abrires furtivamente a bolsa do Amor e nela não encontrares o punhal, é porque ele ficou no amolador.

Heliponto

Como se acoplados
os dois pombos no telhado
pousam como se um.

Ranking

Alterou seu patamar:
mudou-se do oitavo
para o nono andar.

Instruções

Para te manteres vivo
deves dobrar a atenção,
redobrar a concentração
e baixar o aplicativo.

Pudor

Ilusões literárias, pretensões de glória. Quando negamos tê-las, como nossa alma cora.

"Anotação", de Wislawa Szymborska

"A vida - única possibilidade
para se cobrir de folhas,
tomar fôlego na areia,
voar com asas;

ser um cão
ou acariciar seu pelo quente;

diferenciar a dor
de tudo que não é ela;

imiscuir-se nos acontecimentos,
perder-se nas paisagens,
procurar o menor dentre os erros.

Ocasião excepcional
para lembrar por um momento
do que se falava;
junto à lâmpada apagada;

e uma vez pelo menos
tropeçar numa pedra,
molhar-se em alguma chuva,
perder chaves na grama
e seguir com a vista uma fagulha no vento;

e incessantemente não saber
algo de importante."

(De Um amor feliz, tradução de Regina Przybycien, Companhia das Letras.)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Quem não vai à Polônia chega a Bolonha

No início de abril meu livro O caminho das estrelas (Editora do Brasil) estará na Feira do Livro de Bolonha, visitada anualmente por editores de todo o mundo. Tomara que ele seduza algum deles, quem sabe um polonês. Talvez uma tradução me anime a fazer o que já devia ter feito há muito: aprender a língua dos meus pais.

Apatia

Há em certos gostares uma falta de vontade, uma apatia...

De prima

Para descrever uma rosa não é preciso ser poeta. Rosas não exigem prática nem habilidade.

Hipóteses

Quem lambe pés deve pedir sigilo total, a menos que esteja disposto a formar clientela.

Natureza-morta

Com o corpo já na tela pela metade
a lagartixa desafia
o conceito de perenidade.

Idade

Aposentado, o poeta começou a sentir dores justamente na costela da qual haviam nascido suas musas.

Crença

Sou um homem antigo, de convicções antiquadas. Não consigo acreditar que alguém, tendo tido alguma relação com a poesia, ainda que esse vínculo seja só um poema não mais que razoável escrito na adolescência, possa ser um homem completamente mau.

Rosa

Prefiro as belezas simples. Uma rosa nunca pede para ser interpretada.

"Poema em dez versos", de Pablo Neruda

"Era meu coração uma asa viva e turva
e pavorosa asa de sonho.

Era ainda Primavera sobre os campos verdes,
Azul se fazia a altura e esmeralda era o solo.

Ela - a que me amava - morreu na Primavera.
Ainda recordo seus olhos em desconsolo.

Ela - a que me amava - fechou os olhos. Tarde.
Tarde de campo, azul. Tarde de voos e véus.

Ela - a que me amava - morreu na Primavera.
A Primavera a levou direto ao céu."

(De Crepusculário, tradução de José Eduardo Degrazia, L&PM.)

domingo, 29 de janeiro de 2017

Conceito (para Celina Portocarrero)

Um haicai não se faz; recebe-se.

Norma (para Mariza C.C. Cezar)

Aos domingos a tristeza deveria ser proibida. Só os poetas devidamente identificados poderiam ter acesso a ela.

Escrever

Escrever é o nosso modo de dizer que estamos vivos. Deixemos nosso recado com parcimônia, para que não nos julguem presunçosos por um dom que não é exclusivamente nosso.

Mérito

Não me desgostaria causar uma dessas compaixões arrebatadas que fazem um homem ser equiparado ao mais miserável de todos os seres. Talvez eu me envergonhasse um pouco, no começo. Depois consideraria tudo apenas uma questão de reconhecimento de mérito.

Cota

Hoje não te importas mais com o amor. Já te resignaste. Sabes que não o mereces. Um pouco de afeto te bastaria, como aquele que os cães recebem por exercerem tão bem a arte de lamber mãos.

Hoje, na revista Rubem,

falo de uma porção de coisas, talvez com algum sentido (www.rubem.wordpress.com).

Um haicai de Sânzio de Azevedo

"Uma garça voa:
delírio banco de lírio
sobre uma lagoa."

(Do livro Lanternas cor de aurora, Imprensa Universitária.)

sábado, 28 de janeiro de 2017

Adolescência

Meio século já se passou
e tu te ocupas ainda contigo
só contigo
e com o que de ti restou

Nem Oscar Wilde
que se amou tanto
que no espelho se beijava
enquanto se manipulava
assim se amou.

Erro

Penso poder dizer agora que o meu erro foi presumir que na poesia estava não a realização do poeta, mas a redenção do homem.

Mapa

O caminho para a poesia passa pela recuperação da infância.

Poderosa

Deve ser mesmo poderosa a literatura, para manter um velho esperando que ela cumpra ainda o que há tanto tempo lhe prometeu.

Nota falsa

Não fica bem a um senhor interromper uma conversa de jovens e começar a falar de amor.

Lembrete

Ainda hoje, quando sente nele alguma indiferença, ela pergunta, como se nada perguntasse: lembra aquela vez que eu quase fiz a bobagem de me matar?

Um parágrafo de Jack Kerouac

"Vista do alto de um morro coberto de grama, lá da periferia, a Cidade do México é agreste, com reservatórios de água para elefantes, pastores engraçados, enquanto acaricio um enorme - aliás nem tanto assim, tamanho médio - naco de maconha como se fosse ouro, quando se trata apenas de erva daninha. O dia está muito claro, as nuvens deslizam, o Planalto Setentrional da grande América universal, magnífico e branco, parece a barba de um patriarca no céu de Popocatepetl - você, assim tão sedosa e rendada - Acontecimentos -"

(De O livro dos sonhos, tradução de Milton Persson, L&PM.)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Quintana e Barros (para Silvia Galant François)

Imagino Mario Quintana e Manoel de Barros como dois meninos que, maçados com a grandiloquência de sons da orquestra, puxam na plateia suas gaitinhas de boca e fazem o tico-tico bicar todo o fubá.

Ocaso (para Lea Ferencz Reid)

Nem as vírgulas lhe eram mais fiéis.

Ainda

Embora já nem saibamos
mais bem quais
mantenhamos nossos ideais.

Post-it

Ir ao google e ver como tirar manchas da alma.

Estilo

Chegou um momento em que nem minha leitora ela aceitou mais ser. Disse amar Paulo Coelho.

Soneto da nossa inutilidade

Nós somos todos inúteis.
Inteiros nos dedicamos,
Nos demos, nos entregamos
A causas tolas e fúteis.

Nos ocupamos de rosas
E foram nossas paixões
Os sonhos, as abstrações
E as concepções fantasiosas.

Enquanto assim nós vivíamos
E em ócios nos consumíamos,
Sem humana meta, ou fim,

Homens aos montes sofriam,
Homens aos centos morriam,
Em Cabul, Teerã, Bombaim.

Mais Amiel

"O número dos seres que querem a verdade é extraordinariamente pequeno. O que domina os homens é o medo da verdade, a menos que verdade lhes seja útil, o que equivale a dizer que o interesse é o princípio da filosofia vulgar, ou que a verdade está feita para nós, e não nós para a verdade."

"Na verdade, a parentela é o campo das nossas provações, e nos dá infinitamente mais sofrimentos que felicidade. É preciso admiti-la como Sócrates admitia Xantipa, como o exercício providencial de nossa paciência e como ocasião constante de heroísmo obscuro."

(De Diário íntimo, tradução de Mário Ferreira dos Santos, publicação da É Realizações.)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Autorretrato

Que sentido há
em fazer-se de morto
quem já morto está?

Febre

Agora, já tão perto do fim, posso dizer com toda a convicção e honestidade que fui sempre movido pela mais obstinada e cruel de todas as obsessões: a da literatura.

Bic

A sua mão direita eu não sei. A minha
há muitas décadas tem seis dedos:
os cinco de hábito e a canetinha.

A mesma

A pergunta é: será que escrever é mesmo tão importante assim? A primeira vez que a fiz foi há seis décadas.

Futuro

Como assim? Pó? Tudo? Até aquela parte de nós, aqui na nuca, que ainda se arrepia ao ouvir os Beatles?

O que pode ser

Morrer talvez seja só chegar
ao meio do sono e se distrair
e seguir e prosseguir e continuar.

Mais Amiel, sempre essencial

"Por que o amor - perguntava a mim mesmo - faz sempre pensar na morte? É que ele próprio é morte, a morte em nós mesmos, o aniquilamento do sombrio déspota em que fala o peta persa, a extinção do egoísmo, da vida pessoal e solitária. E essa morte é uma vida nova; mas essa vida é bem uma espécie de morte. Por que a mulher, ser nervoso, débil, tímido, não teme nenhum perigo quando está com aquele a quem ama? É que morrer sobre o coração amado é o seu sonho secreto. O paraíso para ela é estar junto; que seja no sofrimento, na alegria, nas delícias, no falecimento, é secundário."

"A paixão é uma das formas da prece. Tudo o que nos transporta além de nós tem alguma coisa de sublime. E o sublime consola das fealdades da vida comum, acima da qual devemos pairar."

(De Diário íntimo, tradução de Henri-Frédéric Amiel, edição da É Publicações.)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Marco

São Paulo começou a melhorar em 1910. Até esse ano era conhecida como a mais bisonha e fria de todas as cidades.

Quatrocentice

São Paulo rindo ao lembrar os espasmos cívicos do barão quando paranapiacabava.

Bolsinha

Encharcada de vermute, São Paulo conta no boteco do Glicério como chupou Borba Gato.

Bandeira 2

Nos feriados São Paulo, essa puta velha, cobra mais caro.

Sem registro

Talvez tenhamos sido melhores, um dia. Não é o que diz quem nos conheceu.

Ego

O mais comum e intransferível de todos os amores é o amor-próprio.

Primavera

A primavera é uma só, na vida. A tua, não te lembras?, foi aquela manhã única, que passou diante de tua janela como o coelho de Alice, enquanto alguém na vizinhança estropiava Chopin com exemplar amadorismo.

Um tantinho de Nabokov

"Há homens que são vogais abertas e outros que são consoantes mudas. Pnin pertencia a essa última variedade."

(De Pnin, tradução de Jorio Dauster, Companhia das Letras.)

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

... o que parece

Não se anime. Trepanação não é isso.

Justiça

O pronome reflexivo tem a fama de ser versado em filosofia.

Stop

As reticências mudaram de ideia no meio da frase e ficaram só num ponto, o final.

Minorias

Está na hora de a gramática registrar o ei e o oi como vocativos. Por que continuar aceitando somente a aristocrática prepotência do ó?

Desforra (para Deonísio da Silva)

Como é antipático um provérbio quando, depois de contrariado, nos olha com aquela cara de sábio e nos diz: eu não avisei?

Rito (para Liberato Vieira da Cunha)

Todo provérbio deveria ser convocado a pôr a mão sobre a Bíblia e jurar dizer a verdade, somente a verdade, toda a verdade.

"Aqui estou com meu pobre corpo", de Pablo Neruda"

"Aqui estou com meu pobre corpo no crepúsculo
que debuxa ouros roxos no céu desta tarde:
enquanto em meio à névoa as árvores escuras
libertam-se e saem para dançar pelas ruas.

Eu não sei por que estou aqui e por que vim,
não sei por que a luz roxa do sol preenche tudo;
e basta-me sentir frente ao meu corpo triste
a imensidão de um céu de luz tinto de ouro,

a cor roxa e imensa, um sol que não existe,
um imenso cadáver de uma terra morta,
e frente às luminárias dos astros do céu,
vastidão de minha alma nesta tarde imensa."

(De Crepusculário, tradução de José Eduardo Degrazia, L&PM Editora.)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Charada (para Ludenbergue Góes)

Fiz sempre minha escolha
pela folhagem
não pela folha
pelo total
não pelo parcial
pela amplidão
não pela fração

Fui certeiro
de alma e de coração
a vida inteira
preferi sempre
ao barão o engenheiro
ao jornal o jornalão
e o limão sempre
à limeira.


Lembrete

Ainda que pouco
mesmo que por cortesia
abra a porta à poesia.

Ascensão

Soprada por uma rima
a pluma ultrapassa o azul
e vai flutuar um pouco acima.

De García Márquez sobre Pablo Neruda

"Foi no dia em que Pablo Neruda pisou terra espanhola pela primeira vez desde a Guerra Civil, na escala de uma lenta viagem pelo mar até Valparaíso. Passou conosco uma manhã de caça nas livrarias de livros usados, e na Porter comprou um livro antigo, desencadernado, pelo qual pagou o que seria seu salário de dois meses no consulado de Rangum. Movia-se através das pessoas como um elefante inválido, com um interesse infantil pelo mecanismo interno de cada coisa, pois o mundo parecia, para ele, um imenso brinquedo de corda com o qual se inventava a vida."

(Do livro Doze contos peregrinos, tradução de Eric Nepomuceno, Editora Record.)

domingo, 22 de janeiro de 2017

Pose (para Deonísio da Silva e Djanira Pio)

O ruim, nos provérbios, é quererem parecer sérios.

Torre

Entre um soneto
e outro soneto
disfarçada entre os quartetos
clandestina entre os tercetos
a vida passa despercebida
aos olhos do poeta -
que em sua torre
entre as estrelas espetada
procura a rima correta
para fechar o último terceto
do seu quingentésimo soneto
com uma chave dourada.

Pompa

Os provérbios são tão empertigados que sempre os vejo como se fossem militares em dia de desfile. Quem há de exigir deles mais que o insuperável brilho dos uniformes?

Por que

Escrever todos os dias, não pela presunção de que sabemos, mas pela certeza de que devemos aprender.

"Canto de ofício", de Mariana Ianelli"

"A cada dia, por ser hoje,
Eu te agradeço.
Por esse quarto à meia-luz
E outros mundos,
Por esse gosto de amêndoa
E outros prazeres.

Pela incerteza essencial
Sobre mim mesma,.
E estas palavras
Desde há pouco sem proveito,
Entranha, mistério, vereda
- Eu te agradeço.

A cada noite inaugural
E derradeira,
Que sustém
Não menos que o suficiente,
Bendito o fruto, o sal, o chão
E este silêncio.

Fundo de ravina o meu lugar,
Se já não creio.
Alto de um monte, se resisto.
E descrendo, resistindo,
Eu agradeço.
(...)"

(Do livro Almádena, Editora Iluminuras.)

sábado, 21 de janeiro de 2017

Experiência

Ele se lembra de tudo
da ansiedade
do quarto
da obscuridade
da cumplicidade
do criado-mudo.

Questão de mérito

Espero sempre que os outros reconheçam em mim virtudes que nem eu mesmo sei quais possam ser. Talvez a ingenuidade seja uma delas, talvez seja a única.

Lição

Dedico-me desde há muito ao insano exercício de escrever. Nada mudou de lá para cá. A única lição que aprendi com esse exercício está resumida no adjetivo que usei: insano.

Voz

Existe em mim algo que me incita a escrever, escrever, sempre. É fácil, talvez até óbvio, ver nisso uma espécie de destino, de predestinação, uma justificativa, pelo menos. Mas o que dizer daqueles assassinos que alegam ter matado para atender ao comando de uma voz superior?

Versão oficial

Sou filho de poloneses pobres, mas não me custaria muito reconhecer que sempre escrevi mais por orgulho que por necessidade.

Reserva

Tenho sempre alguma tristeza em meu acervo, para consumo próprio.

Espelho

O escritor pode tentar evitar, e deve fazê-lo, mas acabará sempre falando sobre si mesmo.

Conduta

Uma gentileza que podemos fazer aos outros é passarmos por eles sem alarde - não por presunção, mas pela sabedoria de nossa inutilidade.

Consciência

Pensem vocês o que quiserem sobre a velhice. Eu confesso, sobre a minha: tenho vontade de pedir desculpas, até perdão, por ela.

Percepção

Sinto cada vez mais próximos os passos da Morte. Sou velho, mas não sou surdo.

Descoberta

O pior para um escritor não é sentir-se de repente vazio. É perceber que sempre esteve assim.

De Amiel, sobre as mulheres

"A mulher quer ser amada sem razão, sem porquê: não porque seja bela, ou boa, ou bem-educada, ou graciosa, ou espiritual, mas porque é. Qualquer análise parece-lhe uma diminuição e uma subordinação de sua personalidade a alguma coisa que a domina e a mede. Nega-se, pois, a isso, e o seu instinto é justo. Desde que podemos dizer um porque não estamos mais sob o prestígio, apreciamos, pesamos, somos livres, ao menos em princípio."

(De Diário íntimo, tradução de Mário Ferreira dos Santos, edição da É Realizações.)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Pensando bem

Se não acredito que venhamos a ter outra vida, não é por falta de fé, mas por uma  desavergonhada conveniência.

A verdade

Quando jovem, eu tinha aspirações dignas de um futuro rei. A vida me encaminhou aos poucos ao meu papel exato, o de serviçal, e eu me pus a serviço de uma rainha. Vocês podem notar nas fotos como eram vistosos meus aventais. Eu os chamava, na época, de meus uniformes de poeta.

Balanço

Eu gostaria de ser um homem decente, de deixar melhor imagem. Um poeta (ou, como no meu caso, alguém que ousa imaginar-se assim) tem o pior defeito que pode ter um homem: o da presunção.

Colheita

Desculpem-me se venho falando demais em morte. Cada estação da vida tem seus frutos.

No portal do Estadão, hoje,

declaro meu amor a São Paulo, com ressalvas.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Cláusulas

Morreremos de morte morrida,
Se não nos couber morte matada.
Se uma cláusula for descumprida,
A segunda será invocada.

O nome

Escrever é uma dessas manias que, quando bem-sucedidas, recebem o nome de vocação.

Soneto dos cativos bem ensaiados

O amor tem sempre um pretexto
Para nos ter e manter.
Muda a trama, muda o texto,
Mas não seu modo de ser.

Para que sempre saibamos
A melhor forma de atuar,
Quanto mais ensaiamos
Mais nos faz ele ensaiar.

Quando ele não nos instiga,
Quando ele não nos obriga,
Ensaiamos mesmo assim.

Enquanto estivermos vivos
Queremos ser seus cativos
Hoje, sempre, até o fim.

Modo

Morrer deveria ser um descuido, uma distração do corpo, uma concessão para que um cochilo se torne mais longo, mais morno, mais prazeroso, como se o sol se deitasse preguiçosamente sobre a tarde, sem saber que se deita pela última vez.

O último encontro

"Prepare-se para me encontrar", avisou a Morte. Comecei a escolher o melhor dos meus dois ternos. Num deles encontrei um soneto. Decidi: será esse o terno. E o soneto continuará no bolso. Nele, falo de uma loira majestosa e fatal. Não é um bom soneto, mas talvez a Morte não seja muito exigente. Ouso imaginar que meus últimos momentos sejam num salão, sob o entusiástico som de uma valsa.

Um trecho de Lautréamont

"Há os que escrevem em busca do aplauso humano, através das nobres qualidades do coração que a imaginação inventa ou que eles podem ter. Eu me utilizo do gênio para pintar as delícias da crueldade, delícias não passageiras, artificiais, mas que começaram com o homem e terminarão com ele."

(De  Cantos de Maldoror, tradução de Claudio Willer, Editora Max Limonad.)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Resumo

É um homem bronco que imaginou poder lidar com a poesia e, muitos anos depois, em vez da rosa imaginada, tem diante dos olhos nada além da terra que se negou a obedecer à sua vontade e ao esforço de suas mãos.

Etapas 1) e 2)

1) Todo escritor deve ter a convicção de que os leitores querem ouvi-lo; 2) Depois, deve ter a sabedoria de duvidar dessa convicção.

Um trecho de Katherine Mansfield

"E ele decidiu, de repente, fazer mais uma tentativa de tratá-la como amiga, contar-lhe tudo, conquistá-la. Sentou-se na beira da cama e tomou-lhe uma das mãos. Mas de todas as coisas esplêndidas que ele tinha para dizer, não conseguiu articular nenhuma. Por alguma razão perversa, as únicas palavras que pôde pronunciar foram: 'Cara senhora, só posso ficar encantado com isto.'"

(Do conto "Um dia de Reginald Peacock", do livro Felicidade, tradução de Julieta Cupertino.)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Para uma amiga fotógrafa

Se não mentimos para a memória, ela não nos mentirá.

Paradoxo

Se já nem tu mesmo crês,
Como podes ainda achar
Que o amor pode mesmo estar
Onde nem tu mais o vês?

Possibilidades

Quando um romancista põe a mão no bolso, sabe-se que vai puxar ou um lenço ou seu bloquinho. De um poeta pode-se esperar talvez uma fagulha de sol, talvez um estilhaço de estrela.

Modo de ver

Escrever é um vício que nos destrói o corpo e a alma e ao qual, cinicamente, damos o nome de literatura.

Oito

Ao todo, foram oito tentativas. Na última, ele sobreviveu a um vidro de bolinhas que, segundo o médico do pronto-socorro, seria capaz de matar um cavalo. Começa a imaginar que talvez não seja um incompetente, mas um homem pelo qual a vida tem um inexplicável afeto.

Preguiça

Escrever é uma justificativa e uma desculpa que eu mesmo venho me recusando a aceitar. Valiam para o adolescente de quinze anos. Depois de tanto tempo, eu não deveria ter pensado num pretexto melhor?

Memória

Depois que o cisne de porcelana se espatifou na sala, os bibelôs se arrepiam e até a rosa de plástico se encolhe no vaso nos dias em que vem a empregada.Literatura

Soneto da beleza e do tempo

Eras tênue, vaporosa,
Como uma gota de orvalho
Oscilando sobre um galho,
Como uma sombra de rosa.

Eras uma mulher bela,
Porém hoje quem te vê
Pergunta logo por que
Não te pareces mais com ela.

Assim age a natureza:
Oferta-nos a beleza,
Diz ser única, sem par.

Diz isso até a exaustão,
Depois muda de opinião
E nos obriga a mudar.

De Mariana Ianelli para Adriana Lisboa

"O sol de Kathleen McCracken para você, Adriana. Flor de todos os fogos. Porque é seu aniversário, mas não só por isso. Porque você, que tem alma de poeta, sabe que toda flor que ainda se abre é uma flor épica. Porque você, que já viu estrelas e planetas até dentro de uma pedra, você sabe que ainda uma flor se abrindo, hoje, é mais que lírica."

(Do livro Para aqueles a quem os dias são um sopro, edição da ardotempo.)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Sobre Pris

Me lembro às vezes de Pris
como quem se lembra
de um momento raro de alegria
dentro de um tempo muito infeliz

Comove-me ainda recordar
como era afetuosa
com suas gatinhas
seu jardim suas rosas
suas aristocráticas
e tão morituras cachorrinhas

E também ainda me comove
lembrar a papagaia
que tinha no nome
um oito e um nove
e que eu num dos meus ímpetos
chamei de graciosa ave
de dois dígitos.

Vestibular

Venho tentando:
fico deitado
de olhos fechados
sem respirar

tenho pedido
tenho rezado
tenho insistido
tenho esperado

tenho perdido por esperar.

Repertório

A chuva calou o pássaro na ameixeira. Depois, quando a brisa veio secar os galhos, as notas começaram a cair. como frutos de tilintante amarelo.

Entrevista

Digamos que vivemos pela beleza. Talvez acreditem.

O estranho

Quando me sento a sala
entra em alerta
a bailarina não fala
o chinês se cala
um bibelô não flerta
com outro bibelô.

A hora

É hora, já, da despedida.
São velhos nossos assuntos,
Tão sem sentido e sem vida
Quanto os melhores defuntos.

Soneto do egoísmo do amor

O amor atenção não dá
Ao que dele pretendemos
E, por mais que lhe imploremos,
Jamais nos satisfará.

Se alguém acredita haver
Um ser mais exclusivista,
Mais perverso, mais egoísta,
Deve essa opinião rever.

O amor nos mostra seu ouro,
Sua prata, seu tesouro,
Nos deixa tudo admirar.

Ele diz sempre que tudo
Que é dele é nosso, contudo
Nada nos deixa tocar.

"Terror", de Djanira Pio

"O terror
atingiu a legalidade.
Feriu pessoas
matou crianças.
O terror que destruiu
estava orquestrado.
O maestro
tinha poderes."

(De Olhares, RG Editores.)

domingo, 15 de janeiro de 2017

Na revista Rubem,

hoje, esparramo algumas miudezas no balcão, como um mascate (www.rubem.wordpress.com)

Sempre

És para mim sempre um bem,
És sempre com, nunca sem,
Meus olhos sempre te veem
Da forma que me convém.

Recíproca

Se você está decepcionado com a vida, imagine o que ela pensa de você.

A razão

Quem precisa dialogar com a consciência é porque não confia na qualidade dos seus monólogos.

Honestidade

Diante de cinco ou de cinquenta leitores, que seja você quem mais acredite quando você mesmo ou algum deles disser que você é escritor. Que seja você o único a não mentir.

Até

Antigamente eram os homens; hoje até as lentilhas fazem mal a ela.

"Combate", de Pedro Gonzaga

"esmago a traça sem ênfase
o crime já estará concluído
é possível agisse em bando
sinto um  mesmo e velho receio
ao descobrir o novo estrago -
a edição dos comentários
sobre a guerra da gália
esfarelada sob meus dedos

salva-se uma nota dispersa
escrita em folha pautada
no ano da graça de 1933 -
se um dia tiver um cão
chamá-lo vercingetórix."

( De Falso começo, publicação da ardotempo.)

sábado, 14 de janeiro de 2017

She

Ah, como é bom vê-la,
coisinha preciosa:
resumo de estrela,
sinopse de rosa.

Tratamento

Quando estiveres diante  da Morte, como irás chamá-la? De vós, de tu ou de você?

Definição

Perplexo é como fica quem fica um pouco mais do que atônito.

Destino

Da esquerda para a direita, ou vice-versa, a abelha gravita em torno do girassol.

Tempo

Até as palavras aparentemente mais imunes envelhecem. Quem hoje diz mocidade, podendo dizer juventude?

Pintura

Nosso derradeiro momento deveria ser como aquele no qual a luz da sala se apaga e o navio, na tela, pode escurecer enfim e desaparecer no horizonte.

Um poema de Emily Brontë

"Dize-me, quero saber, bela criança sorridente:
Que imagem desperta a teus olhos o passado?
- "Uma noite em que morre o outono, na sua mole doçura;
O vento arrasta o luto,
Suspira."

Mas, dize-me, que imagem evoca o presente?
- "Verde e florido, o tenro galho
Onde o pássaro pousa e reúne suas forças,
Para tomar  alento e voar ao longe."

E o futuro ainda, ó bendita criança?
- "O oceano, em que se mira um sol sem nuvens;
O oceano do poder onde cintila a glória;
A planície azul sem fim."

..............................................................................
A comovente harmonia das músicas divinas,
A glória a grandeza dos dias alegres,
As auroras brilhantes de esplendor em torno
Secaram lentamente, como a erva da Alegria,
Abandonadas pela Dama de loura beleza:
Ligeira e sem vê-las ela passa, estrangeira,
Velando a fronte para esconder uma lágrima,
Que se obstina e, trêmula, ameaça cair.

Depressa atravessou a sala da grande mansão
E sobe a passos apressados
Ou atravessa correndo as galerias obscuras,
Cujo eco, respondendo aos apelos da brisa,
Canta o hino deserto
E as vésperas do tufão que devasta a noite."

(De O vento da noite, tradução de Lúcio Cardoso, Civilização Brasileira.)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Hoje, no portal do Estadão

Falo de bem-te-vis, essas obras-primas da natureza.

In extremis

E se acontecer
de ficarmos tão fracos
que não tenhamos força
nem para morrer?

Conspiração

A pressão alta é ruim,
A pressão baixa também.
Depois que a velhice vem,
Todo meio leva ao fim.

Epifania

Chamei por Deus, e a resposta foi um rumor na ameixeira, como se num dos seus galhos estivesse nascendo um passarinho.

Passos

Morrer é só um processo.
Ainda que nós não notemos,
Todo dia nós fazemos
Algum tipo de progresso.

Pesquisa

Que testemunho daremos
Do mundo, que avaliação,
Se até hoje nem opinião
Sobre nós mesmos nós temos?

Início de "Crônica de uma morte anunciada", de García Márquez

"No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30 da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava um bosque de grandes figueiras onde caía uma chuva branda, e por um instante foi feliz no sonho, mas ao acordar sentiu-se completamente salpicado de cagada de pássaros."

(Tradução de Remy Gorga, filho, edição da Record.)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Um que seja

Se você tiver um leitor, um que seja, conserve-o como uma preciosidade. Mande-lhe chocolates na Páscoa e mensagem no aniversário. Se a literatura é um fenômeno social, esse leitor único basta para que você não se sinta um pária.

Épocas

Eu era um adolescente quando resolvi devotar a vida à poesia. Quem, se não eu, acreditaria na promessa de um jovem de quinze anos? Quem acreditaria se eu prometesse hoje devotar à poesia minha vida? Que vida?

Indícios

Se você estiver num jardim e notar que vem chegando um beija-flor, fique atento à rosa. Pode ser que a natureza esteja tramando um haicai.

A verdade

Olha-te no espelho e procura algum traço daquele homem que,ainda ontem, ou anteontem, julgava ter direito ao amor. Quem te rejeitou sabe por que o fez. Terias mudado tanto em tão pouco tempo? Olha-te bem e, se fores maldizer algo, que sejam os olhos com que te viste ontem, ou anteontem.

Na boa

Venha o que vier
A acontecer,
Ah, laissez faire,
Laissez passer.

Mais Amiel, sempre

"Pelo menos o abismo das coisas eternas me parece próximo, tão próximo que o amor das coisas temporais e passageiras me parece ridículo. Para que se ligar ao que vai acabar? Sinto já o sopro da eternidade que passa pelos meus cabelos e me parece que olho do além-túmulo o mundo dos vivos."

                                                                      ***
"Um pouco de crítica nos liberta; demasiada crítica nos desseca. Um ser puramente crítico é apenas um semi-homem, e não é ainda a melhor metade. Causa mais mal do que bem, pois sem exceção favorece as desagregações morais e sociais."

(De Diário íntimo, tradução de Mário Ferreira dos Santos, publicação da É Realizações.)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Espera

Passei o dia sob a impressão de um pensamento de Henri-Frédéric Amiel sobre a decepção -  quase frustração - de quem, sentindo-se desapegado já das coisas do mundo e apto a fazer a viagem a que estamos todos sujeitos, vê essa passagem adiar-se indefinidamente e precisa, dia a dia, continuar vivendo uma vida na qual não espera ter mais nenhuma experiência essencial.

Preferência

Gosto mais da vida quando ela é apresentada sob o ponto de vista da literatura.

Maturidade

Ir desistindo, cada dia mais um pouco, como se a literatura fosse - e não é? - uma tolice que não deveríamos ter trazido para a vida adulta.

Outono

Quando ele diz agora amor, não sente o coração agitar-se como outrora nem, nos lábios, aquela mornidão excitante que logo se comunicava a todo o corpo. Como tantas outras, o amor foi uma ocorrência exclusiva da juventude.

Parcimônia

Devemos ir aprendendo a nos exprimir com poucas e curtas palavras. É um exercício que nos valerá, no fim. O que teremos tempo de dizer? Talvez ai, talvez meu, talvez Deus.

Madrugada

Cochilar
fluir
para dentro do escuro
dormir
deslizar como rio
transpor a margem
seguir
não voltar.

Um quarteto de John Keats

"Ó Bardos da Paixão e da Alegria,
Vós deixastes na Terra as vossas almas!
Tendes almas também no paraíso,
Que vivem outra vez em regiões novas!"

(De Ode sobre a melancolia e outros poemas, tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, publicação da Hedra.)

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Se

Se amor é mesmo só uma palavra, por que, em torno dele, agora morto, se movem tantos passarinhos, tentando reanimá-lo com suas aflitas bicadinhas e seu canto?

Dupla (para o Gianluca e a Nicole)

O passarinho voar
e o gato o acompanhar
não seria uma história
e eu não a contaria
se o passarinho não tivesse voado
e o gato não tivesse tentado
no décimo segundo andar.

Eufemismo

Quem prefere dizer a meio-mastro
o que será que vê de mau
em dizer a meio-pau?

Ego

Como prezamos nossa pretensa sabedoria. Se for preciso, recorremos à terceirização. Nunca erramos; somos induzidos a erro.

Agudíssimo

Nada mais lírico que um violino desenganadamente apaixonado.

Um parágrafo de Janet Frame

"Ao conversar com as pessoas, ela costumava responder aos comentários com Sim, sim, entendo, sim, e às vezes com um murmúrio m-m-m-m. Nunca dizia Não, não, não. Quão preocupados teriam ficado ela e os outros, se dissesse Não, não, não. Não concordo, não entendo. Mas, sim, concordava, entendia, sim, sim claro, m-m-m-m."

(De Rumo a outro verão, tradução de Francisco José M. Couto e Éric R.R. Heneault.)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Aristarcos (para Deonísio da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

Bem-te-vis gramáticos, metidos a saber plurais, se veem mais de uma pessoa saúdam pomposamente: bem vos vi.

Venial

Escrever por vaidade poderia ser ainda mais constrangedor, se não fosse tão comum.

A esmo

No fundo, estamos sempre procurando uma frase de efeito - seja qual for a frase e seja qual for o efeito.

Carimbo

Escrever é uma dessas insanidades que, depois de descobertas, precisam ser comprovadas dia a dia.

Ela

Começamos a sentir a presença dela. No início, não imaginamos quem seja. Aos poucos, vamos descobrindo que é ela fazendo-se sentir delicadamente num rumor de cortina, num estalido de rosa no vaso, na brisa dedilhando a veneziana, à noite. Quando ela vier pela última vez, nós a reconheceremos  e a seguiremos como um menino seguindo uma pipa que se refugia numa nuvem clara, numa tarde de céu azul.

Comunicado

Não termos nada a dizer
é às vezes a melhor notícia
que nosso leitor pode receber..

"Largo da Matriz", de Sergio Lara

"No largo da Matriz
Ela de branco
crucifixo de marfim
Passeia, procura
verdades ocultas
mentiras sinceras
de caixeiros, taxistas,
fuzileiros navais...

No coração uma ponta de dor
Largo da Matriz
Árvores de concreto
Flores de crepom
pipocas de isopor..."

(De Não houvesse tabaco e outros poemas, Editora Scortecci.)

domingo, 8 de janeiro de 2017

Poetas (para Deonísio da Silva)

Ferreira Gullar?
Deixe pensar.
Ah, lembrei,
Era do Maranhão.
Gonçalves Dias?
Do Maranhão.
José Sarney?
Ah, deixe pra lá,
Eu não vou lembrar,
Eu não sei.

Promessa

Se um dia eu for governador do Estado, a primeira mudança vai ser na nomenclatura: Corinthians, capital Corinthians.

Consciência

O escritor deve pensar sempre que - para o pior e para o melhor - seu conceito de literatura não é igual ao do seu leitor.

Horizonte

Quando o sono passa a ser nosso refúgio mais querido e acordar assemelha-se a um suplício, morrer não parece tão deplorável.

Sapiência

Os provérbios me dão o impulso de compará-los àqueles velhinhos que nunca sabem onde estão os óculos, mas sempre sabem onde está a verdade.

Agenda

Quer seja de boa
quer seja de má vontade
morrer é uma responsabilidade.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Pleonasmo (para Chico Rezende)

Uma bela caligrafia é uma redundância, além de ser um desaforo para quem não a tem.

Ser ou não

Se você diz que é escritor, recebe aqueles olhares: quem esse sujeito pensa que é, o Shakespeare? Se você diz que escreve, perguntam se você quer dizer que é escritor. Se você modestamente concorda, vem aquela observação: por que você não disse logo?

Comunicação (para o Gianluca e a Nicole)

"Alô, gps?"
"Sim, eu."
"Onde você está?"
"Um momento, estou meio perdido."

Ai, que horror

Há poetas enjoadinhos que franzem o nariz diante da lua, como se sugerissem que um desodorante lhe faria bem.

Desvio de finalidade (para Deonísio da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

Dizermos que escrever é a nossa vida pode dar aos leitores a ideia de que estamos fazendo com eles a mais desavergonhada chantagem emocional.

Modo de tratar

Com um poeta se deve ter sempre indulgência e dar-lhe um desconto por sua incorrigível imaturidade.

Em ferro frio

Escrever todo dia
não tem melhorado meus textos
nem minha caligrafia.

Teimosia

Um poeta deve considerar-se assim sempre, mesmo que o desminta a própria poesia, mesmo que até ele precise esforçar-se continuamente para acreditar.

Extemporaneidade

Só quando chegamos ao fim do caminho nos dão as velas para iluminá-lo.

Um tantinho mais de Henri-Frédéric Amiel

"Surpreendi-me com frequência a desejar morrer e, contudo, a minha ambição de felicidade não ultrapassa quase a de um pássaro; asas! sol! um ninho! Vivo os meus dias e minhas noites na solidão, por gosto, parece: ó não, é por enfado, por obstinação, por vergonha de ter necessidade de outrem, por vergonha de confessá-lo e por medo de agravar a minha escravidão, ao reconhecê-la. Defendo-me um pouco da malignidade humana, e mais ainda, porém, das desilusões, melhor, das decepções."

"O amor sublime, único e invencível, leva direto à beira do grande abismo, porque fala imediatamente de infinito e de eternidade. É eminentemente religioso. Pode mesmo tornar-se religião. Quando tudo ao redor do homem oscila, treme, vacila, e se obscurece nas longínquas obscuridades do desconhecido, quando o mundo não é mais que ficção e magia, e o universo mais que uma quimera, quando todo o edifício das ideias se desvanece em fumo e todas as realidades em dúvida se convertem, que ponto fixo pode restar ainda ao homem? O coração fiel de uma mulher."

(De Diário íntimo, tradução de Mário Ferreira dos Santos, publicação da É Realizações.)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Dupla causa

Quando Ismália enlouqueceu, a lua do céu e a lua do mar desentenderam-se, uma dizendo ser, e a outra também, a causa da insanidade.

Disciplina

Há mortos tão compenetrados que chegamos a pensar se, disfarçadamente, não se prepararam a vida toda para a ocasião.

Reconhecimento

Reconhecer que fui melhor ontem, e ainda melhor anteontem, não é um sinal de nostalgia, é uma questão de honestidade.

Alvos

Pobres defuntos, sujeitos até no último dia a falsas declarações de amor, a moscas coceguentas e à impiedade dos perdigotos.

Aviso fúnebre

Pede-se não enviar nem flores, nem coroas, nem extemporâneos pedidos de perdão.

Educação

No final, precisamos mais do que nunca de recato. Um moribundo deve estrebuchar civilizadamente e a um morto cabe comportar-se com dignidade.

Reta final

A palavra que define nossos últimos dias é resignação - resignação em seu total significado, compacta, espessa, sem nenhuma abertura para a esperança. Esta já há muito foi reconhecida como aquilo que é: uma impostora, a maior de todas.

Hoje no portal do Estadão...

... tento homenagear, com os recursos que tenho, o grande Mario Quintana.

"A tarde sobre os telhados", de Pablo Neruda

"A tarde sobre os telhados

cai e cai...
Quem mandou que lhe viessem
asas de ave?

E este silêncio que preenche
tudo,
desde que país de astros
veio sozinho?
E por que a bruma
- trêmula pluma -
beijo de chuva
- sensitiva -

caiu em silêncio - e para sempre -
na minha vida?"

(De Crepusculário, tradução de José Eduardo Grazia, L&PM.)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Ângulo

O amor há de ser visto como foi no seu melhor momento, como a rosa no seu melhor dia.

Faces (versão final)

Viver é se perfazer
E morrer é se negar.
Viver é um modo de ser,
Morrer é um modo de estar.

Sinal

Deves ostentar, até o fim, esse rosto no qual ninguém reconhecerá outro vício senão o do amor.

Surpresa

Um amor sempre deixa algo que pode nos surpreender vinte anos depois, como uma rosa murcha na gaveta, ainda guardando nas pétalas um suspiro de sol.

Ah!

Que tempo aquele em o amor nos fazia dizer palavras que saíam dos lábios como se atendessem a convocação de sedosas borboletas.

Graus

O amor deverá avivar lembranças cada vez mais fortes, mais ternas, mais deliciosamente insuportáveis.

A mão

Tenho saudade do tempo em que fui vassalo do amor. Que alegria era ver uma vez por dia sua mão, quando ele enfiava dentro da cela o pratinho de comida e a tigelinha de água.

As diferenças

Não espero mais nada. Esperar é ter esperança. Já a tive, já a perdi. Foi uma época em que eu costumava sentir-me vivo. Faz muito tempo mas, se me lembro bem, eu era feliz, talvez até bastante, antes de querer ser mais, antes de começar a ser atormentado pela infrutífera e descabida esperança. Hoje não espero, aguardo apenas, e o que aguardo é aquilo que cabe a todos os homens, no fim.

Quase como ontem

Às vezes, por astúcia, a memória dele falha, para que a imaginação, como se fosse um daqueles antigos escritores românticos, espalhe jardins floridos, onde havia só calçadas, e passarinhos cujo canto substitui o burburinho da avenida, se bem que este, cinco anos atrás, soasse tão paulistanamente agradável.

Edital

Que eu tenha tempo, ainda, de salvar o homem que há em mim, já que o poeta está irreparavelmente perdido. Penso em publicar no Estadão um edital em que pedirei perdão aos que, deliberada ou involuntariamente, ofendi.

Último dia

A alma se desprenderá do meu corpo, seguirá o carro funerário até a primeira esquina, ou a segunda, e, quando estiver certa do rumo que ele tomará, pegará o rumo contrário.

Mario Quintana visto por Mariana Ianelli

"Luzes, Quintana pintava luzes: corredores enluarados, lampiões de esquina, vaga-lumes e o brilho do olhar da primeira namorada. E vultos, pintava vultos nos antigos retratos pendurados nas paredes, nas assombrações de si mesmo em cada casa habitada, em sótãos e porões."

(Do livro Para aqueles a quem os dias são um sopro, edição da ardotempo.)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Item básico

Enquanto somos jovens, não nos importa saber se temos alma. O corpo nos basta, nos preenche. Quando ele começa a mostrar  sinais de que a morte é inevitável até para nós, nos inquietamos, nos afligimos, e a alma passa a ser uma aspiração. Tornamo-nos exigentes. Se não existir alma, que diabo fez Deus, que não nos providenciou uma?

Uma

Que esforço fazem os velhos para se dizerem felizes. Convencem os outros, quase se convencem. Eu odeio minha velhice, abomino minhas rugas, execro este rosto que não merece os olhos que tem. Gostaria de ser jovem ou, em último caso, um pouco menos velho. Como me agradaria pronunciar a palavra amor com lábios menos murchos, menos secos, menos deploráveis. Como me aliviaria isso, como me consolaria, ainda que fosse só mais uma vez, uma, uma, uma.

Cotação do dia

Hoje ainda as mulheres me fitam, fixam-se nos meus olhos e acende-se nelas algo que se acendia em algumas ao me verem, antigamente. Mas isso dura um instante só. Logo elas veem que o brilho dos meus olhos é apenas o que é: o brilho dos meus olhos. E acham que há nesse brilho um intolerável anacronismo, como a requentada publicidade de um produto dos anos 1950.

Da idade

Não gosto da idade que tenho. Deveria resignar-me, ou ao menos conformar-me com ela. Quando jovem, ouvia falar da maturidade e imaginava se um dia seria digno de alcançá-la. Sei hoje que não a atingirei. Mais ainda: sei que não a quero. Se há algo que poderia querer seria voltar ao estouvamento dos dezoito anos e estar novamente sujeito a todas as tolices que cometi - e a tantas outras.

Uma

Que esforço fazem os velhos para se dizerem felizes. Convencem os outros, quase se convencem. Eu odeio minha velhice, abomino minhas rugas, execro este rosto que não merece os olhos que tem. Gostaria de ser jovem ou, em último caso, um pouco menos velho. Como me agradaria pronunciar a palavra amor com lábios menos murchos, menos secos, menos deploráveis. Como me aliviaria isso, como me consolaria, ainda que fosse só mais uma vez, uma, uma, uma.

Ao menos um (para Celina Portocarrero)

Que Deus me dê a bênção de colher ainda, de vez em quando, um haicai. Um haicai é a colheita ideal para minhas mãos cansadas. Posso retê-lo como se retivesse uma borboleta, por um momento apenas, antes de deixá-lo escapar novamente para a brisa que o levará até o banco de jardim onde uma menina de cinco anos dirá o que se deve dizer sempre de um haicai: que coisa mais linda.

Mais Amiel

"Para que sou bom agora? A única coisa que me interessa são as afeições, são as mulheres. Não trabalho mais, não estudo mais, não ambiciono senão uma mulher de acordo com meu coração, e todas as moças que passam parecem-me um convite ou um escárnio da felicidade. Amo um pouco todas as mulheres, como se todas tivessem como prenda uma parcela do meu ideal, ou o meu próprio ideal."

"A excessiva timidez foi o flagelo, a maldição de minha existência. Ela não me tornou falso, mas tornou-me eunuco. Sempre tive medo de deixar ver o que desejava e até de confessá-lo a mim mesmo; tive pavor de procurar a minha utilidade; horror de empregar a astúcia ou os rodeios para atingir o meu fim."

(De Diário íntimo, tradução de Mário Ferreira dos Santos, publicação da É Realizações.)

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Prestação de contas

Nunca me preocupei em escrever coisas importantes. Sempre pensei na beleza. Como se diz, se for para sonhar, que sonhemos alto. Para quem imaginamos que as estrelas brilham?

Pesos

Que os pecados da paixão
E que as transgressões do sexo
Se punam não pelo excesso
Mas pela sua omissão.

Frações

Homem nenhum há
que chegando à meia-idade
saiba se completará
a segunda metade.

Impasse

Por que este drama perdura,
Sem atar nem desatar?
Se a vida não nos procura,
Por que há de a morte tardar?

Este blog

Este blog é como um gato. Que prazer foi alimentá-lo quando pequenino, vê-lo crescer, ser apreciado por sua graça, ouvir elogiarem meu zelo com ele. Depois, quanta alegria houve em notar como ele se perfez como ser. Mas, quando ele começou a se prostrar diante da ação do tempo e a me suplicar socorro com seus olhos já sem o brilho inicial, como agora, tem sido tão triste não poder ajudá-lo, tão lastimável não poder fazê-lo entender que eu mesmo sou agora vítima do tempo. Como dizer-lhe que a tigelinha de comida diária talvez não seja colocada hoje ou amanhã? Como explicar-lhe que ele e nós estamos nos vendo como se veem dois vaga-lumes numa noite para a qual está anunciado um vendaval? Quantas fôlegos, quantas vidas tem um blog?

Final

Depois de ao céu aspirar
Teu afeto hoje se encerra
Num recipiente vulgar,
Sob sete palmos de terra.

Medida

Que não se atreva a sonetos
quem manquitolando caminha
os parcos passos de uma quadrinha.

Índole

Um soneto romântico só não chega são, salvo e belo ao décimo quarto verso se tiver um ímpeto suicida.

Forma

Digam o que disserem, um soneto parnasiano pode não exprimir nada, mas como exprime tudo sempre bem.

Mutação

O rabo do gato
se enfuna como uma escuna
ou um cisne empertigado.

Natureza-morta

A mosca pousa, desta vez sobre uma uva. Assim como o açúcar esparramado na toalha, ela está com um gosto muito estranho.

Mais Amiel

"Ouço distintamente o ruído das gotas de minha vida no abismo devorador da eternidade. Sinto que fogem os meus dias ao encontro da morte."

(De Diário íntimo, tradução de Mário Ferreira dos Santos, publicado pela É Realizações.)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Cotação do dia

Talvez eu merecesse ter sido um poeta, ao menos pela persistência.

Irrevogabilidade

Mais que o temor da morte, o que vem me afligindo é saber que, com ela, não poderei continuar tentando convencer ninguém da honestidade que tive em atos pelos quais fui condenado como mentiroso. E, principalmente, não poderei mais continuar tentando ser perdoado por tantos atos mesquinhos que cometi.

Conceito

Há homens que jamais declarariam ser puros, receando que a confissão pudesse de alguma forma diminuí-los. Eu gosto de presumir, e até de proclamar, minha pureza - mesmo sob o risco de ser desmentido pelos fatos.

Soneto do sentimento comum (para Deonísio da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

Num poeta, um erro comum
É julgar que o que ele sente
É um sentir dele, somente,
E de mais homem nenhum.

Ele pensa que ninguém
Como ele pode sentir
Ou como ele pode intuir
O dom do belo tão bem.

Quando poeta fui assim,
Dessa história há muito sei
E posso dizer por mim

Que tudo aquilo que sinto
Sente João Osório Nei
Ou Paulo Lucena Pinto.

Volta

O melhor acontecimento para mim, nos últimos anos, foi eu ter me reconciliado com o meu amor adolescente: a poesia. Literariamente, isso não tem nenhuma importância. Mas foi como se eu houvesse dado o passo inicial no rumo de minha antiga pureza. A poesia é uma água que nenhuma boca ou mão conseguem contaminar. Ela provém de uma fonte que nasce no centro mais profundo de nossa alma.

Pontos de vista

As opiniões sobre Paulo Coelho costumam divergir tanto que, para evitar problemas, a melhor forma de defini-lo é: Paulo Coelho é um escritor brasileiro. Se bem que a palavra escritor cause às vezes também polêmica.

O que sou

Não, eu não sou
aquele rapaz
que muito tempo atrás
na poesia se iniciou.
Eu sou um home
consumido pela idade
que se teve pela poesia
alguma veleidade
há muto tempo
a abandonou.


Esperança

A literatura há de ser um sonho de toda a vida. Que nossas últimas palavras, mesmo aquelas que costumam ser ditas diante de um padre, nos pareçam as primeiras do mais promissor de nossos livros.

Confirmação

Vamos dizendo que a vida é um sopro, repetindo que a vida é um sopro, até aquela fase em que nos damos conta de que a vida foi um sopro.

Não mais

O último tempo é aquele no qual o que não foi escrito não aflige mais. O que foi escrito basta para desestimular qualquer nova tentativa. Escrever parece ter sido importante, em algum tempo.

Licença de herói

Quando eu avisei, com cinco anos, que pretendia ser escritor, as duas pessoas que imediatamente me apoiaram foram minha tia e minha mãe. Não chegou a ser uma grande conquista. Elas me estimulariam mesmo se eu dissesse querer ser o primeiro homem a explorar a Lua - embora nesse tempo ainda nem se falasse de astronautas e os heróis fossem os caubóis do cinema.

Soneto do amor assumido

O amor é belo, é o que dizem,
E é mesmo, ao menos no início,
Como qualquer outro vício.
Depois os fatos desdizem

Inteiramente essa fama
E o amor volta a ser o amor:
Aquele reles traidor
Que suplicia quem ama.

Quando ele se assume inteiro
Com seu perfil verdadeiro,
Resta-nos pedir perdão.

Porém se ele o conceder
Será conveniente ver
Se ele é mesmo o amor, ou não.

Sentido obrigatório (para Silvana Guimarães)

Acabou-se para nós
o notável
tudo é possível
óbvio factível viável
tudo tão normal
tudo tão atingível
tudo tão palpável
que até nosso ato vital
mais importante -
o derradeiro e mortal -
se alcança
sem anseio
e sem esperança.

Cotação do dia

Gostaria de conhecer-me melhor,
conhecer-me por inteiro.
Talvez pudesse assim
ter afinal sobre mim
juízo mais lisonjeiro.

Mais algumas gotas de Henri-Frédéric Amiel

"O número dos seres que querem a verdade é extraordinariamente pequeno. O que domina os homens é o medo da verdade, a menos que a verdade lhes seja útil, o que equivale a dizer que o interesse é o princípio da filosofia vulgar, ou que a verdade está feita para nós, e não nós para a verdade."

(De Diário íntimo, tradução de Mário Ferreira dos Santos, publicação da É Realizações.)

domingo, 1 de janeiro de 2017

Distração

Aquilo que ontem fui eu
É algo que ainda não vi,
Não notei, não percebi,
Mas que, pressinto, morreu.

Memória

Uns se lembram do primeiro milhão que ganharam. Eu me lembro do primeiro soneto que fiz, com sua chave de ouro que me parecia tão preciosa.

Jurados

Sermos tidos como poetas não melhora nosso conceito entre os passarinhos. Eles sabem que somos impostores, não se iludem com nosso ar presunçoso e nosso pincenê.

Alma

Senhor, que haja algo de arte, um pouco ao menos, onde eu a quis e tentei grandiosa. Sinto que minha absolvição, se houver a possibilidade de alguma para mim, será essa. Não a negueis, não a negueis, Senhor. Sei que estais presente em toda arte, Senhor. Deixai que eu Vos sinta, Senhor, mais forte em mim, que sou Vosso parco instrumento.

... e o vento levou

A loja ficou uns dias fechada. Não creio que alguém tenha percebido. Tudo que guardo aqui é inútil, nada diz nada a ninguém. Eu  mesmo vou me desapegando. Hoje (domingo e feriado!) nem sei por que vim. Olhei as prateleiras e a única emoção que senti foi notar que na foto de Clark Gable e Vivien Leigh, no porta-retratos, o amarelo adquiriu um tom que aparenta ser o definitivo.

Assim

Os dias passam depressa.
Que segunda-feira foi anteontem,
Que terça-feira foi ontem,
Que quarta-feira é essa?

Soneto do agradecimento

Devemos agradecer,
Com plena sinceridade
E total honestidade,
O que pudemos viver.

Convém-nos reconhecer
Que nem sequer a metade
De nossa felicidade
Nós merecíamos ter.

Agradeçamos a Quem
Nos concedeu tanto bem,
Seja Seu nome qual for.

Como nós O chamaremos?
Creio que não erraremos
Se O chamarmos de Senhor.

Para uma amiga pintora

O azul de Patricia é tenso,
azul não de céu ou mar,
azul grave, duro, denso,
impossível de domar.

Salta-pocinhas (para Deonísio da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

Um tipo sujo, fraco, pobre, consumido,
Entrou às seis num afamado bricabraque
E meia hora depois saiu de lá vestido
De Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac.

Requinte

No fim da feira, os sonetos eram oferecidos por preços bem menores. Os que não eram vendidos tinham como destino um tacho fundo e largo onde as famílias pobres recolhiam seus restos para fazer uma sopa. Tinham assim a oportunidade de provar, embora quebrados, um pouco da carne dos famosos pés parnasianos e chupar-lhes os ossos.

Verso e anverso (para Deonísio da Silva e Liberato Vieira da Cunha)

Escrever é um exercício
Que bem exercido é são
E mal exercido é vício,
Suplício, febre, obsessão

Soneto do talião

Talvez tenhamos fingido
O amor que ao amor juramos,
E talvez também mentido
Depois, quando o rejuramos.

Devemos algo ter feito
Muito desleal, muito errado,
Para que o amor, contrafeito,
Nos haja assim repudiado.

Com a experiência que tivemos,
Depois do que lhe fizemos,
Depois do que ele nos fez,

De novo iremos jurar?
E ele irá acreditar
E ser tão tolo outra vez?

www.rubem.wordpress.com

Hoje, na revista Rubem, falo de trivialidades metidas a besta, como a literatura.

Soneto da sociedade ideal

Antônio Parvo de Sousa
Era um tipo falastrão,
Cheio de pose, mas não
Dizia coisa com cousa.

Dizia escrever poesia
(Era esse o nome que dava
Àquilo que não passava
Da mais pura algaravia).

Quando firmou sociedade
Com Paulo Pífio de Andrade,
Foi para os dois um encanto.

Os poemas Paulo reuniu
E, um a um, todos traduziu
Para o melhor esperanto.

Questão de tempo

Muito mais depois da morte
Que durante sua vida
Se o poeta contar com a sorte
Terá a obra conhecida.

Porcentagem

É uma triste realidade:
ele se entregou todo à poesia,
ela aceitou só metade.

Ceifa

Vivemos agora a fase
Da grande calamidade:
Todos os da nossa idade
Estão já mortos, ou quase.

Mario Quintana

Tranquilamente, naturalmente,
sempre à vol d'oiseau,
Mario Quintana seus voos ousou.

Uma frase de Henri-Frédéric Amiel

"Até o amor-próprio está obrigado a concorrer à ação coletiva, sob pena de prejudicar-se fazendo-se notar."

(De Diário íntimo, tradução de Mário Ferreira dos Santos, publicação da É Realizações.)