terça-feira, 31 de julho de 2018
Justiça literária
Não foram os críticos que exterminaram os sonetos do velho poeta, por décadas apontados por ele como superiores aos de Shakespeare. Gerações de traças se encarregaram da tarefa de acabar com a dúvida. Julgando com uma inquestionável sabedoria, devoraram tudo que na estante fosse soneto ou parecesse, e nunca relataram qualquer dano à eupepsia.
Essência (para Jiro Takahashi)
Os milagres em poesia são discretos. Não se deixam ver; são só uma inquietação no ar, um rumor, uma insinuação de haicai.
Ainda que pouco
Apesar de tudo, a poesia ainda torna o nosso rosto um pouco mais humano diante do espelho.
Nem Mario
Era um gatinho tão doente, fraco e desgracioso que até Mario Quintana teria dificuldades para lhe conseguir lugar num poema.
Ofício
Existem hoje tantos especialistas em beleza que não estranharei se houver um que tenha como tarefa e ganha-pão avaliar arcos-íris.
Sobre o dever de optar
O sim e o não nos acompanham desde sempre. Até os últimos dias somos intimados a fazer escolhas. Lembro-me de como, na adolescência, me incomodava, como se fosse uma falha moral, eu não conseguir resolver se minha estação preferida era a primavera ou o verão. Ah, tempo feliz! Hoje, bem diversa é minha dúvida existencial: sou um macróbio ou aceito o eufemismo atroz e me considero um homem de terceira idade?
Obra magna
Nos seus últimos dias, o concretista encerrou-se no sótão do seu mais famoso poema e lançou-se à tarefa de verter para o esperanto o texto da pedra de Roseta.
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