sábado, 12 de outubro de 2013
De vez em quando
De vez em quando é preciso fazer exames, tirar chapas. Quem vive numa cidade como esta, cheia de gatunos e meliantes, bem pode descobrir um dia que lhe falta um rim ou um pulmão, subtraídos sabe-se lá como, no ônibus ou no metrô. O coração também. Quem nos garante que esse que bate no peito não é um impostor? De repente, lemos um poema desses que sempre nos fizeram chorar, e nenhuma lágrima aparece. Será defeito do coração ou dos olhos? Devemos fazer também exames regulares das mãos. Quem diz que nessas afabilidades sociais, num desses cumprimentos diários e aparentemente inofensivos não ficaram com as nossas, dando-nos em troca mãos que se envergonham de afagar e acariciar? Quanto à alma, convém mantê-la encarcerada, num lugar que até nós mesmos ignoremos. Um lugar que esteja descrito num mapa de cujo paradeiro não nos lembremos. Se em algo devemos acreditar, há de ser na alma. Quando fecharmos os olhos para este mundo, ela nos encontrará no lugar para onde formos. É verdade que um dia chegamos a acreditar assim no amor, também, e ele fez o que fez. Mas a alma não nos decepcionará.
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