domingo, 14 de abril de 2013

Um trecho de Knut Hamsun

"Se pelo menos eu tivesse um pouco de comida, em dia tão lindo! Subjugava-me a sensação dessa alegre manhã. Incapaz de refrear a alegria, comecei a cantar de felicidade, sem motivo preciso. Parada à porta do açougue, uma pobre mulher, de cesto no braço, matutava sobre as salsichas para o almoço; olhou-me, quando passei perto. Só tinha um dente na boca. Com os nervos à flor da pele, como ficara nos últimos dias, o rosto daquela mulher, de repente, me despertou uma sensação desagradável. O dente amarelo, comprido, parecia um dedinho que lhe saísse do maxilar, e seu olhar ainda estava repleto de salsichas quando se voltou para mim. Num instante, engulhado, perdi o apetite. Chegando ao Mercado de Carne, fui ao chafariz beber água. Levantei os olhos: eram dez horas na torre da Igreja de São Salvador."

(Do livro Fome, tradução de Carlos Drummond de Andrade, publicado pela Abril Cultural.)

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