Músicas não mais do que três, sendo uma de Chopin. Poema apenas um, de Wislawa Szymborska. Que isso pague parte da dívida que tenho com a Polônia.
e
Músicas não mais do que três, sendo uma de Chopin. Poema apenas um, de Wislawa Szymborska. Que isso pague parte da dívida que tenho com a Polônia.
e
Sou poeta de curto alcance. Cheguei até onde conseguiram levar-me o meu talento escasso e a conivência dos amigos.
Eu não mudaria nada nas lembranças que você me deixou. Só pediria, talvez, que fossem menos intensas e me permitissem cada noite dormir sem a antipática presunção de que fui o mais feliz de todos os homens..
Não, a literatura não me salvou.Mas atribuir-lhe minhas desgraças seria desmerecer os olhos fatais de Priscylla Mariuszka Moskevitch..
O jovem artista espanhol gaba-se de pintar sóis idênticos ao de Deus, embora muito melhores.
Hoje no almoço, depois de vários meses, pensei em desafiar mister Parkinson e dispensar o babador .Fiquei no impulso.
Agradam-me as metáforas com navios e as alusões ao mar. Capitão autonomeado, condecoro-me com falsas façanhas e com batalhas não ganhas. Engrandeço-me comigo e aplaudo-me com tantas vozes quantas possam me vangloriar.
Quando ela me fitava com seus olhos tempestuosos,eu pressentia batalhas,naufrágios fragorosos,o rancor de gerações de capitães derrotados e fugia com minhas gaivotas aterrorizadas em busca de um ponto no horizonte em que ela não pudesse me atingir com sua fúria ancestral.
Se não fosse a literatura,a vida estaria ainda construindo moinhos de vento que jamais seriam nada além disso:Moinhos de vento.
Num livro antigo consta que Deus teria desafiado Shakespeare para um duelo verbal.É difícil de acreditar.Deus nunca foi tão tolo.
Cheguei aos oitenta e sete sem saber se devo a longevidade a uma afeição especial de Deus ou a alguma trapaça que honestamente não me lembro de haver cometido.
Foi assim,chamaram o primeiro Andrade.Depois,o segundo e o terceiro.Oswald,Mário e Carlos disseram presente.Pronto.Estava fundada a modernidade.
O poeta romântico e o concretista fazem propaganda na televisão:O romântico para um óleo de lavanda,o concretista para o cimento votoran.
O dia amanheceu tão majestoso que o menino disse ao pai:Deus deve estar participando de algum concurso.
Em sonhos ainda o nome que repetia como um triságio procura seus lábios(Maria,Maria,Maria) mas o que ele consegue dizer agora,é só uma vez,enfermeira.
Na ambulância em que o transportava para o hospital derradeiro,foi ensaiado seu melhor sorriso de veterano.
Quando notou que não eram lágrimas,tentou conter-se,mas a lembrança do primo morto já havia descido com todo o seu suor amargo.
Tão humilde é o que tem feito que,em nome da coerência,espera não morrer num sete de setembro ou num primeiro de maio.
A esperança foi vista pela última vez à meia noite,tentando falar com o paciente do quarto 145.
Anda zangado com Borges.Quem diz que a velhice pode ser a época de nossa felicidade,certamente não teve infância.Ou teve uma infância atormentada por nunca receber em dezembro a visita de Papai Nobel.
Estive a vida toda errado.
Se eu tivesse algo de Shakespeare,
Meus inimigos jj[a teriam negado.
O mais famoso, eu sei, é o senegalesco, mas eu prefiro o calor monegasco.
Há quem aspire à imortalidade. Eu me dou por feliz se, num texto de vinte parágrafos, me mantenho vivo no décimo nono e posso iniciar o seguinte.
Calma amigo calma
a vida é como ela é
e não pretende mudar
Você lê os clássicos
cultiva o espírito
investe na alma
e na sua hora final
o que chega a você
no quarto de hospital
sem falta nem dó
não é bach nem ravel -
são as pamonhas de piracicaba
as cartelas de ovos
chitãozinho e xororó.
Nós persistentes autores
haveremos de brilhar
quando for nossa vez
ou pelos nossos valores
ou pelos erros de português.
O velho poeta anda cada dia mais ranheta. Esta noite a casa foi acordada como se tivesse sido invadida por um bando de carroceiros. Era ele, discutindo com sua tristeza.
Esta manhã estive recordando aquelas em que o mar vinha buscar-te na areia como se fosse um cachorrinho teu e te convidava a imitá-lo em seus pulinhos domingueiros.
O melhor que podemos oferecer como escritores é a rua e o número da casa de William, o Bardo.
Quando o dia chegar, nós iremos nos desprendendo do corpo devagar e flutuaremos leves, leves, leves, muito leves, pelos milagres da fé e da aliteração.
Era um homem de bons princípios, cujos projetos raramente chegavam ao meio e nunca atingiam os fins.
Posso dizer com honestidade
(porque eu mesmo me elegi)
que sou o sujeito mais triste
do oiapoque ao chuí.
Nós nossos heróis
chegamos enfim
ao fim de nossa história
e o diretor vem nos dizer
que não estraguemos tudo agora
e perfeitos saibamos
estrebuchar
agonizar
e morrer.
Então chega um tempo em que a tristeza já se cravou tão agudamente em seu coração que você se sentirá um crápula se seus olhos estiverem fazendo qualquer coisa que não seja chorar.
Você notou bem. Minhas palavras já não vêm acompanhadas por sorrisos. Sou uma loja falida cujo dono não acredita mais nem na existência de Deus nem no programa de bônus.
Fernando querer ser cem não me detém nem me move. É questão que ele resolve lá com seus outros noventa e nove.
Tão grandes nós nos quisemos,
Tão alto alçamos a voz.
Chegamos aonde pudemos,
Os deuses riem de nós.
Olhei-me no espelho e custou-me imaginar que pelos meus lábios murchos tenha passado um dia, sem engulhos, a palavra primavera.
Sou um desses homens que inflados de presunção, julgam ainda, já deitados no caixão, que estão sendo embarcados para um jantar em Estocolmo.