"Por volta das onze horas, como todas as noites, Camargo abre as cortinas da sala na rua Reconquista, coloca a poltrona a um metro da janela para que a penumbra o proteja e espera que a mulher entre em seu campo de visão. Às vezes ele a vê passar como uma rajada pela janela em frente e desaparecer no banheiro ou na cozinha. Do que ela mais gosta, porém, é de postar-se diante do espelho do quarto e despir-se com suprema lentidão. Camargo pode então contemplá-la à vontade. Muitos anos atrás, num teatro de variedades de Osaka, ele viu uma dançarina japonesa despojar-se do quimono cerimonial até ficar completamente nua. A mulher da frente tem a mesma altiva elegância da japonesa e repete as mesmas poses de fingido assombro, mas seus movimentos são ainda mais sensuais. Inclina a cabeça, passa as pontas dos dedos sob os seios e depois as lambe com delicadeza. para não perder nenhum detalhe, Camargo a observa através de um telescópio Bushnell de 67 cm que está montado sobre um tripé."
(Do livro O voo da rainha, traduzido por Sérgio Molina e publicado pela Objetiva.)
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