terça-feira, 19 de junho de 2018

A voz (para Alfredo Aquino e Mariana Ianelli)

Não queiram mal ao poeta por ele sempre erguer a mão antes mesmo que  alguém pense em falar em tristeza. Ele acha que tem o dever de representá-la, para que nunca a subestimem.

Hospitalidade

Nada mais daqueles tapetinhos. Arranje um gato, instale-o no sofá e deixe que ele dê as boas-vindas aos visitantes.

Modos de dizer

Tenha pudor: nunca diga as palavras pundonor e pudicícia. Mas, se disser, não suplique perdão nem clemência. Peça desculpas, já está bom.

Questão de tempo

Se não tivesse morrido no fim da tarde, ouviria, no início da noite, quando começaram a chegar os detestáveis parentes, que era o melhor de todos os homens.

Identidade (para Inês Pedrosa)

Se eu fosse quem gostaria, Ofélia provavelmente estivesse me dizendo: hoje, sim, estás Fernando; ontem me parecias mais o Ricardo.

Verões

Os mortos devem ter desfrutado verões melhores. O de 1942, por exemplo. Os sobreviventes nostálgicos talvez mencionem o de 1949.

Ah, a condessa (para Ana Farrah Baunilha)

Se a condessa acordasse de manhã com o Diabo na cama e ele dissesse que a havia possuído, ela, antes de ordenar que ele trouxesse o café, gargalharia: eu não senti nada.