quarta-feira, 31 de agosto de 2011

De ninar

Me acolhe, mar, me acalenta,
Me traz um sono profundo,
Me embala, e me leva lenta,
Lentamente para o fundo.

Beckett

Em Beckett, quem toca a (in)ação não são protagonistas, nem personagens. Talvez pudéssemos chamá-los de pessoas, se em algum momento eles fizessem algum esforço para agradar-nos. Beckett é antiépico, anti-heroico, sufoca a esperança em cada frase e nos faz um convite que relutamos em aceitar: o de nos reconhecermos naqueles vagabundos, naqueles maltrapilhos que, com o peso incontornável da regra, nos mostram como são inúteis e grotescos todos os sonhos de grandeza e glorificação. O homem é isso, embora quiséssemos que não. Godot jamais virá e, se vier, só confirmará essa regra. Virá comendo um pão sujo, rodeado de moscas.

Esquina

Por alguns trocados
ela te dá
o que quiseres
o que outras mulheres
nem sempre te dão

Ela é boa
te toca a braguilha
a desabotoa
te afaga a virilha
e geme em mis e fás
conforme te apraz

Não lhe conheces o nome
nem o apelido sequer
saber o dela tu não queres
saber o teu ela não quer

És homem só
e ela só mulher
ali na cama
onde nenhum dos dois ama
nem essa é a pretensão
dos corpos enlaçados
atados pelo suor
pelo tédio da noite
pela tristeza
por alguns trocados
e pela solidão

No Centro

Em dias de sol, é bom estar subindo a rampa que leva do metrô Vergueiro ao Centro Cultural. Os edifícios, ouro de São Paulo, refulgem e gosto de vê-los soltando suas faíscas. Às vezes me lembro de que em um deles, certa manhã, me deram um diagnóstico que transtornou minha vida. E recordo a tarde em que fiquei esperando em vão alguém que poderia ter mudado tudo em meu caminho, naquele dia e em todos os outros. O sol purga tudo, faz de tudo um presente luminoso. Lá dentro, na biblioteca circulante, esperam-me o desolador Beckett, o sombrio Dostoiévski, a desesperançada Sylvia. Pego-os e saio de novo para o sol, como se as tristezas e os dramas existissem só nos livros.

Vagão

Sento-me no banco azul dos idosos e não ouso olhar para os jovens. Alguns deles, três ou quatro, sorriem para mim. São os que sentem comiseração ou foram instruídos a fingi-la. Os outros me ignoram, como mereço.

Já então

Desde o começo sabias
Que eu era tolo e que não
Havia mais que ficção
Naquilo que prometias.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Cançoneta

Já tantas coisas passei,
Já tantas coisas vivi,
Já tanto amei, desamei,
Já tantas vezes morri.

A estrela

Restou ao amor
recolher seus ossos
seus destroços
e enquanto os recolhia
perguntar ao coração
aquele velho estúpido
onde estava afinal
naquele lixo que fedia
a estrela que desde o início
ele jurava
que existia

Em extinção

Eu sou um daqueles tolos, um daqueles raríssimos homens que ainda definham e morrem de amor e se orgulham disso.

CEP

Teu endereço perdi,
E o telefone. Que importa?
Minha esperança está morta
E também eu já morri.

Música

Sim, sou um homem sujeito a chorar ouvindo uma música, mesmo que ela não seja de Chopin.

Pômulos

A tristeza desenhou em teu rosto sulcos tão fundos e tão áridos que tuas lágrimas não conseguem regar, e as duas maçãs que ele exibia morreram pálidas e secas.

O pior

O pior que pode ocorrer a um artista não é estar descontente com tudo que fez e faz. O mais triste é ele continuar fazendo, mesmo com a convicção de que jamais conseguirá fazer melhor.

A marca

Gostaria que você, com seu polegar, deixasse em meu nariz a marca do melhor azul de tuas telas. Eu a conservaria longe da chuva e do chuveiro e, a quem perguntasse, diria ser um sinal impresso em mim pela lua numa noite em que, sem a cautela do protetor lunar, fui até a praia para escrever um poema de louvor à minha amada.

Mentirosas

Tanto insinuaram, tanto disseram que eram mentirosas tuas palavras de amor, que tu mesmo acabaste acreditando que eram, e nunca mais as usaste, embora elas todo dia te implorem perdão e jurem ser inocentes.

Teu trigo

Manhã, por que desperdiças comigo teu sol majestoso? Por que cantam para mim teus pássaros? Por que me ofusca os olhos teu trigo maduro? Manhã, bate à porta de outra casa, qualquer uma. Encontrarás decerto alguém que te louve os encantos, mesmo sabendo, como eu desgraçadamente sei, que duras tão pouco, manhã, e que logo atrás de ti vem a tarde sonsa e, depois dela, com seus passos silenciosos e traiçoeiros, a noite, que devora teu sol, teus pássaros e teu trigo.

2666, de Bolaño

Em seu romance 2666, Roberto Bolaño matou, até a página 400 (são 852, no total), tantas mulheres (duas, três, seis por parágrafo), que ao abandonar o livro, porque me sentia mais mosca e urubu do que leitor, fiquei pensando se, além de se referir ao ano de 2666 a trama não se referiria ao número de mulheres estupradas e mortas (nem sempre nessa ordem). Neste, como em outros livros, Bolaño me deixou com a sensação de ficar devendo (quase sempre muito) ao leitor. De Putas Assassinas, Os Detetives Selvagens, Noturno do Chile, saí com a impressão de que fui enganado pelo malabarismo verbal de Bolaño. Dele, o único texto que me pareceu formal e satisfatoriamente concluído foi Pista de Gelo, talvez pela modéstia de suas intenções. Receio que Bolaño possa ter sido uma descoberta mais auspiciosa para os críticos que para os leitores. Pode permanecer um mito e pode desfazer-se como uma bolha de sabão. A mim, perca eu o que perder, Bolaño não pega mais.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Reflexões de Rilke

+ Sobre a relação entre artista e público:
"Saibam, pois, que o artista cria para si mesmo."

+ Sobre os ciclos da arte:
"Artistas como Rafael representam sempre um apogeu, um ponto culminante, mas, como o caminho não está no fim, há sempre um declínio em seguida, um longo vagar e um profundo desalento."

+ Sobre a formação do artista:
"O caminho que conduz ao verdadeiro valor de todas as obras passa pela solidão."

(O Diário de Florença, tradução de Marion Fleisher, editora Nova Fronteira.)

Em vão

Meu coração está doente. Mandam-lhe flores, lembranças, votos de breve recuperação. Ele recebe as flores, as lembranças e os votos, um a um, agradece, mas não melhora. Não quer melhorar. Precisa de uma flor só, de uma lembrança apenas, de nada mais que um voto, vindos de alguém que jamais os enviará.

Aquela manhã

Hoje, quando subo a escadaria do metrô Consolação, preciso pôr a mão no peito para sentir se o coração bate. Tão diferente, ah, tão diferente daquela manhã. Naquela manhã me esperavas, em cima, sob um sol esplêndido, mas certamente não era por ele que o sangue retumbava em meu corpo como um tambor.

Tão bom

Tão bom não ser, tão bom não
Se debater, não querer
Da vida nada senão
A paz que existe em morrer.

Nós

Tivemos tudo. Fruíamos
O mel, a luz, o calor,
Tudo que nos deu o amor.
Porém nós não merecíamos.

Fórmula

Não crer em nada, não ter
Nem sonhos nem ambição,
Deixar o tempo correr,
Viver para a solidão.

domingo, 28 de agosto de 2011

Como

Como pode um amor, se morto está, doer ainda por tanto tempo e manter o coração em permanente chaga e a alma assim em carne viva?

A outra

Devo amar outra mulher, uma que criei em meu coração nas noites de insônia e de frio. Uma que, vivendo só no meu pensamento e em minha imaginação, jamais pude encontrar. Se fosses tu essa mulher, poderias ficar insensível à minha voz, que há tanto tempo te chama com o que nela resta de força e com minha cada vez mais desesperada esperança?

Madrugada

Enquanto dormes, enquanto
Te esqueces de que eu existo,
Escrevo e, escrevendo, insisto
Que te amo, ah, que te amo tanto.

O dia

Não vi, mas nos olhos teus,
Se eu os olhasse, teria
Descoberto que era o dia
De me dizeres adeus.

Jamais dizê-las

Tantas palavras aprendi, tantas disse, e nenhuma te agradou, amor, nenhuma, e todas agora me são inúteis, e não me importaria se Deus privasse minha garganta do infortúnio de voltar a dizê-las.

Teu nome

É triste, mas inevitável: daqui a alguns anos, não enxergarei nem mais esta superfície de papel em que, todos os dias, pouso os lábios ali onde está escrito teu nome.

As sílabas

Tão obsessivamente ele a ama e no seu coração ecoam tão intensamente as sílabas do nome dela, que ele teme que um dia qualquer, na Paulista, no meio do rugido do trânsito, o nome querido saia escandalosamente do seu peito e espante esta cidade que não se espanta com mais nada. Por isso, quando anda por ali, ele mantém a boca fechada, fechadíssima, embora sempre tenha vontade de escancará-la e gritar.

Mas não

O amor chamava por nós,
Noite a noite, dia a dia,
Chamava sempre, insistia,
Mas não lhe ouvimos a voz.

sábado, 27 de agosto de 2011

A toalha

Ele se lembra da mão dela perto da sua. Chegaram quase a se tocar, naquela tarde, e toda a história poderia ter sido diferente. Dois centímetros mais, três, uma ousadia mútua que vencesse aquela distância, tão pequena e, no entanto, intransponível. A oportunidade se ofereceu a eles por meio minuto, não mais. Depois, a mão dela se afastou, e também a dele, e ficou entre os dois a toalha do restaurante, branca, imensa, fria, triste como uma planície nevada.

Velho

Falava ainda de amor,
Mas falava num tom frio
Que soava como um rumor,
Um sopro ou um balbucio.

Louvor

Do teu afeto cativo,
Louvo e abençoo os grilhões,
O calabouço, os porões
Que me mantêm preso e vivo.

Nenhum sinal

Não olha para a calçada. Sabe que não haverá nenhum sinal dos passos dela. Já se passou um ano e meio, tanta gente andou por lá, saindo da escadaria do metrô, tantas águas de caminhões-pipa lavaram tudo aquilo em tantas madrugadas, tantas chuvas ali se derramaram. A presença dela durou o que durou: dois minutos, os da despedida. Inútil também é procurar sinal daquelas lágrimas que naquele fim de tarde o fizeram ver embaçada a figura dela, andando para onde começavam a noite e a desesperança.

O pai

Olhando para o pai no caixão, lembrou-se com remorso dos desentendimentos que tivera com ele - nenhum muito sério, a não ser aquele que uma ocasião os mantivera brigados por mais de um ano. Ele tinha se apaixonado por uma mulher e, apesar das advertências do pai, fora viver com ela. "Ela não presta, filho, ouve bem o que eu estou te falando", tinha dito o pai, várias vezes, mas ele arrastou o caso por quase dois anos, até que um dia a mulher foi embora com um balconista de padaria, para um lugar que ele nunca soube se era Mato Grosso ou Goiás. "Eu avisei a você, eu sabia", disse o pai, quando se reconciliou com ele. E na véspera, chamado às pressas porque o pai estava morrendo, ele pegou numa gaveta documentos para uma internação que não chegaria a ser feita. Numa pasta, no meio de certidões, ele encontrou duas dezenas de cartas apaixonadas da ex-mulher. Uma delas dizia: "Ernesto, não conta nada pra ele, tá bom? Onde você me conheceu, de onde eu vim, com quem eu já andei, essas coisas. Quem sabe dá certo com ele. Eu tenho tara por ele, Ernesto. Sabe o que ele é? É você trinta anos mais moço."

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

2010

Um minuto antes de morrer, lembro que eu estava na Augusta, caminhando para o metrô, na Consolação, e que pensava como era triste uma tarde tão bela ser engolida tão repentinamente pela noite.

Como aquelas gatinhas

Minha tristeza me dói tanto, que hoje me ocorreu uma ideia bizarra. Talvez eu pudesse fazer com ela o que minha mãe fez com aquelas duas gatinhas que ninguém quis, e afogá-las na bacia. Mas a tristeza não continuaria a doer, como me dói ainda a lembrança das gatinhas remelentas?

A foto

Amor, faz tanto tempo, já, que para recordar-me de ti eu preciso olhar tua foto. Era melhor quando eu guardava tua lembrança no coração. Mas meu coração se enfraqueceu, de tanto bater por ti, assim como vão enfraquecendo meus olhos, e tua foto me parece cada dia menos nítida.

O laptop

"Eu censurei o meu filho", disse o homem ao delegado, "porque na semana passada ele levou um livro raro meu, para mostrar a um amigo, e no caminho encostaram uma faca no pescoço dele e roubaram a mochila, com o meu livro dentro. Eu disse que ele era um frouxo, um covarde. Ah, meu Deus, como eu me arrependo de ter dito isso. Se eu não falasse, acho que hoje ele não ia reagir. Por causa de um laptop velho, meu Jesus! O que eu vou fazer sem o meu filho, seu delegado? O quê?!"

Promessa

Não ter mais sonhos, não mais
Sofrer por crenças perdidas,
Não mais lamber as feridas,
Não se apaixonar jamais.

A árvore

O machado abate a árvore, mas as raízes, entranhadas na terra, buscam no escuro a nova vida. Daqui a trinta anos, o homem que empunhou o machado estará morto, mas a árvore terá renascido, com toda a glória dos seus ramos e flores e o canto dos seus pássaros.

No parque

Em cima do par que se ama,
O ipê, querendo brindá-lo,
Ou talvez para ocultá-lo,
Suas flores, terno, esparrama.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Garota

A cem metros do portão do colégio, o homem se aproximou e lhe disse que os olhos dela pareciam duas estrelas. O homem era feio, mas parecia sincero, e pensando no que ele tinha dito ela viajou com a imaginação e foi advertida na aula de geografia.

No lado esquerdo

Deixa o celular no bolso esquerdo da camisa. Assim, é o coração que primeiro recebe o aviso de que estão chegando mensagens dela. É lógico, e justo, porque a ele, ao coração, é que as mensagens se destinam.

Tristeza

A tristeza então o atingiu tão dolorosamente no peito, que ele rogou a Deus que fosse um enfarte, fulminante como o que havia matado em um minuto seu pai.

Tarde demais

Querida menina, chegaste muito tarde. És um sol matutino e seria justo que eu te recebesse como os pássaros acolhem a aurora. Mas eu, encolhido de frio, já estava fechando as janelas da tarde, e o canto com que te saudei foi o de uma ave rouca e agourenta.

Manifesto

Menina que passeias com teu cãozinho pelo parque, permite que eu te diga duas palavrinhas. Não sei o que pensas da poesia que anda aí pelos livros e pela internet, mas ouso imaginar que, como a mim, ela não te emocione muito. Os críticos dizem que ela deve ser assim, em nome dos novos tempos, mas eu, que tentei fazê-la como eles querem, te confesso que não consegui. Todas as vezes que tentei, tentei pensando em alguém exatamente como tu, uma menina bonita andando com o cachorrinho num parque. E todas as vezes, no fim, me pareceu que havia escrito para alguém que não tinha nada de ti. Quero te dizer hoje, agora, aqui, como se fosse um manifesto, que, ensinem o que ensinarem os críticos, voltarei a seguir somente o coração, a sua métrica e as suas rimas, por mais pobres que sejam. E escreverei, como quando tinha dezoito anos, poemas que possam fazer brilhar os olhos de meninas como tu, ainda que seja um brilho fugaz, provocado por palavras frágeis que o vento não terá trabalho nenhum para dispersar. Não pensarei mais em antologias, em prêmios, me fixarei em ti e na graça com que acompanhas teu cachorrinho esta tarde. Escreverei para ti e para ele, embora já me falte o vigor de décadas passadas. Não te peço nada em troca, nem sequer um beijo rápido em meu rosto cansado. Posso, como recompensa, se me concederes, beijar teu cachorro, posso beijá-lo com a emoção que ainda tenho. Não temo mais o ridículo, agora que redescobri a verdadeira poesia, e, se houver por aí, no parque, algum crítico desses que falam em estrutura, em forma e em conteúdo, que ele seja chamado para ver como tu e teu cachorro me ouvem com simpatia e como os teus olhos, e os dele, me dizem que sim, que sou um poeta.

Nenhuma

Promessas de amor, promessas
De vida, tantas ouvi,
Nenhuma, porém, como essas
Que foram feitas por ti.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Matemática

Ela espera por uma mensagem dele. Faz três anos, mas ela finge para si mesma que são dois. A matemática do amor é distorcida pela esperança e pela resignação.

Neurolinguística

Se escoarão estas horas
E com elas se escoarão
Teus dramas, tua aflição
E as dores pelas quais choras.

Flagelação

Ele sabe que daqui a dois anos, ou cinco, ou dez, o amor morto não doerá mais, ou doerá menos, em sua alma. Sabe que baixarão, contínua e piedosamente, as sombras do esquecimento. E isso, em vez de confortá-lo, rasga no seu peito um desespero que o sufoca e o faz reunir todas as ternas lembranças: um riso despropositado, um roçar de mãos, ainda que ocasional, uma palavra comum que, dita por ele e por ela ao mesmo tempo, soou como se fosse mágica, um objeto bobo que se tornou um amuleto para os dois. Ele reúne cada uma dessas pequenas coisas e se flagela com elas, e se açoita, e grita de dor e de esperança, como se pudesse assim despertar o amor, que jaz com os olhos fechados e o coração frio.

À porta

Sou tolo. Te bato à porta
Com uma frase medrosa,
Uma flor (nem sequer rosa)
E uma esperança já morta.

Killing me softly

Amor querido, ideal,
Tão bem, amor, me maltratas,
Tão ternamente me matas,
Tão doce me é teu punhal.

Mesa de café

A mosca voejou em cima da faca, depois zumbiu em volta do bule de café e finalmente pousou na alça do cesto de frutas. À direita, bem perto, questão de dois ou três centímetros, estava um pãozinho com geleia, mas ela, pouco habituada a apreciar quadros, saiu do cesto e voou da sala para a cozinha, de onde vinha um cheiro de ovo frito.

A estrela

Fazia um dia e meio que não comia. Não ousava pedir nada aos outros três homens, que estavam compartilhando um saquinho de batatas fritas e um baseado. Era a primeira noite que passaria ali, no viaduto, e eles o haviam aceitado com relutância. Para iludir a fome, pensou em dormir, mas um vento gelado atravessava os jornais com que ele se cobrira. O estômago lhe doía, como se nele houvesse uma chaga. Um dos homens tinha lhe oferecido uma tragada, e ele dera três, bem fundas, no cigarrinho. Já quase dormindo, viu o leite pingando, e depois jorrando, na avenida. Correu para o meio dos carros, com a ansiosa boca aberta. Quando a moto o atirou para o alto e o ônibus o prensou sobre o asfalto, um dos homens deitados na encosta do viaduto disse aos outros dois: "Vocês viram aquela estrela derramando leite?" Os dois olharam para cima: "Onde?" "Ah, sei lá. Estava bem ali, agora mesmo."

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O veleiro (para Frida)

Quem pintou a tela ainda não notou, mas toda noite, quando as luzes da sala se apagam, o veleiro, no horizonte, procura mover-se. A pintura tem dois anos e, nesse tempo, as velas brancas conseguiram avançar três milímetros - na verdade dois, porque numa madrugada de tormenta o vento as fez recuar um. O veleiro insiste, porém. Faltam-lhe dezenove milímetros para chegar ao canto da moldura e escapar por ele, como viu uma das dez gaivotas fazer certa noite.

Pássaro

Amor, se fosses piedoso, terias salvado aquele homem que se atirou lá do alto gritando pela mulher cujo nome estava no verso da foto que escapou de sua mão no voo e, como um pássaro preguiçoso, chegou à calçada cinco segundos depois do corpo.

Não

Grito não à solidão,
Porém o meu grito bate
No muro, e volta, e rebate,
E ecoa, e escarnece: não.

Não tão leve assim

Sabemos bem que, apesar do
Seu proclamado dulçor,
Para nós nem sempre o amor
Significa mais que um fardo.

Pleonasmo

Sempre fazia a ressalva: falava como amante, e não como filólogo, quando dizia que amor louco era uma expressão pleonástica.

Tantos joões

Os homens se tornaram tão insignificantes que a talvez mais famosa poeta brasileira dedica seus textos a Deus. Ah, que mulher consolará tantos joões, tantos josés, qual delas lhes dirá ternamente que sim, que pode ser belo e puro o amor humano, o amor carnal?

O que ele é

Seu micro está cheio de poemas, seu coração está cheio de amor, seus olhos estão cheios de lágrimas. Em 1890 ou em 1920, talvez alguém o olhasse com reverência e tivesse para ele um gesto de simpatia. Hoje ele é o que parece ser: um tolo.

Certamente ele

Esplêndida messe, quem haveria de notar a falta de um fruto, entre tantos, e de procurá-lo febrilmente, e de proclamá-lo o único? O poeta, certamente, aquele mesmo tolo que, de todos os sentimentos, reconhece um só, e vive por ele, e definha por ele, e por ele morrerá, com o sorriso com que morrem os que se julgam conhecedores de uma irretocável verdade.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A ti, que não

A ti, que não me compreendes,
Eu digo outra vez que te amo,
Digo, repito e proclamo,
A ti, que nunca me entendes.

Ontem era novembro

Novembro foi ontem. Foste visitar teu amigo no hospital e ele estava surpreendentemente vivo. Tu foste gentil, lhe levaste presentes e lhe disseste que voltarias. Novembro foi ontem e por isso, decerto, ainda não voltaste. Hoje é agosto. Curioso como, em um dia, tantos meses se passaram. Teu amigo gastou com o olhar amoroso teus presentes, decorou os poemas do livro que lhe deste e, no entanto, não mais que um dia se passou, embora a ele tenham parecido duzentos, quase trezentos, e em cada um deles ele tenha esperado a porta do quarto se abrir, como naquela tarde, ontem, no hospital.

Vozes

A minha e a sua voz
Não se ouvem mais. Calaram-se,
Na garganta entalaram-se.
Amor, falai por nós.

De quê?

Permitam-me que, apesar de minha voz já senil, eu fale ainda de amor. Talvez, afinal, minha memória não esteja tão fraca quanto meu corpo e - digam-me - se eu não falar de amor, de que poderei falar? De que pode falar alguém que, seja ela certa ou errada, tem a pretensão de se julgar poeta?

Zelda

Ah, Zelda, louca sublime, aquele teu Scott armazenou tua loucura, rotulou-a como se fosse dele e vendeu-a aos poucos, aos magazines.

Vício de linguagem

Nas tuas mãos
e nas minhas
cacófatos crescem
como doenças do pulmão
e como ervas daninhas.

Haicai

Tão líquida e certa,
Tão boa, fina garoa,
Encorpa-se, aperta.

Maçã

Maçã madura, metá-
fora vívida do se-
xo, do fugaz ample-
xo, dá-me a polpa, dá.

domingo, 21 de agosto de 2011

Se meio

Semeio trigo, centeio,
Com alma pura e mão casta,
Semeio um alqueire e meio,
Se meio vingar, me basta.

Soneto do amor meu

Amor, que força tu tens, Amor, quem forte te faz? Te sinto quando tu vens, Te choro se não estás. Nas horas boas, nas más, Amor, só tu me manténs, E no tormento e na paz, Amor, só tu me convéns. És minha noite, meu dia, És minha cor, meu contraste, Meu gozo, minha agonia. Me deste tudo que é meu, Amor meu, e me ensinaste Que sem ti eu não sou eu.

Dedos

Vi nos teus dedos paisagens, pores de sol, auroras, lagos languidamente lambidos pela lua, mares maravilhosamente incendiados por crepúsculos rancorosos. Eles encheram de rebuliço e beleza minha alma e a alegraram, antes de se fecharem sobre ela e lhe dizerem basta.

Prêmio

Escrever todos os dias, com entusiasmo e entrega, e ter como consolo e prêmio a certeza de que Shakespeare jamais escreveria ou escreverá algo igual.

Desenho

Ela desenhou um homem e me mostrou. "Bonito", eu disse. Ela perguntou: "Viu que é você?" Eu sorri, concordando. Se não nos obsequia o amor, sejamos gratos ao menos às demonstrações de simpatia.

Como sempre

Há tantas coisas que eu poderia estar fazendo neste domingo: procurando uma corda, testando o laço, observando um viaduto, projetando o salto, afiando uma lâmina, imaginando o corte. No entanto, continuo aqui, escrevendo, fingindo que vivo, como há tanto tempo faço.

Então

Asseguraram-me que eu poderia me tornar um escritor. Eu era menino, então, e acreditava em tudo, principalmente no que me diziam os professores.

sábado, 20 de agosto de 2011

Amor bissexto

Toda vez que ele a reencontrava, ela estava pelo menos seis meses mais velha, não pela sua aparência, invariavelmente juvenil, mas porque pelo menos seis meses haviam se passado.

Até

Entrar no mar, ir entrando,
Entrando, avançando, a pé,
Ir caminhando, afundando,
Afundando, até, até...

Por quê?

Estivemos tanto tempo iludidos, e eram belos os dias, e doces as tardes, e cheias de sonhos as noites. Estivemos tanto tempo iludidos - por que não continuamos assim, por quê?

Exortação

É nessas tardes de estio
Que a voz de tua prudência
Te diz com plena coerência:
Prepara-te para o frio.

Ladainhas

Ninguém te ouve, mas insistes
Em declamar ladainhas,
Em nos dizer que definhas
E és mais triste que os mais tristes.

Dignidade

Nos últimos meses, sentindo a iminência de se tornar um defunto, começou a cuidar da linguagem, da roupa, dos modos. Às vezes, quando passava por ele uma mulher apetecível aos olhos e que lhe atiçava algo parecido com a febre das antigas primaveras, pensava em como aquilo era incompatível com a dignidade que um morto deveria ter, olhava para o outro lado e, como suprema compensação, se imaginava com o seu melhor terno e gravata, empertigado e coberto de flores.

Ela

Ela nos ama sempre
desde o nosso nascimento
até o nosso último dia

Ela nos acompanha
todos os momentos
na alegria
e no sofrimento
como uma esposa dedicada
na época sombria
e também na dourada

Todo o tempo ela nos quer
todo todo o tempo
sem exceção
e não há ninguém que nos olhe
com tanto desvelo
com tanto zelo
e atenção
como uma mãe com fervor
como um lavrador
cuidando de sua plantação

Ela nos quer sempre
dia após dia após dia
e um dia ela vem
e nos colhe
e nos leva pela mão
tenhamos ainda viço ou não
seja boa ou má nossa feição

Para a vida não
ou nem sempre
mas para ela
estamos sempre prontos
no ponto sempre
para o eterno esquecimento
ou para a ressurreição

Alegações finais

Não te arrastei para o escuro.
Tu, loba, é que me arrastaste.
Não te encostei contra o muro,
Tu, loba, é que me encostaste.

Longe

Melhor não ver-te, pensar
Que foste embora para um
Lugar bem longe, incomum,
Aonde não chega o mar.

Lógica

Tivemos tudo. Comemos
O pão dos dourados anos,
Bebemos seu mel. Perdemos
Tudo. Nós somos humanos.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Opções

Nós temos muitas escolhas.
Comemos pão - as migalhas.
Tocamos veludo - as folhas.
Sentimos seda - as mortalhas.

Trincheira

Estávamos todos juntos.
Era bom. Não discutíamos,
Jamais nos desentendíamos,
Éramos todos defuntos.

Descuido

Devíamos ter olhado.
Não vimos, porém já tinha
Furtivamente brotado
A praga, a erva daninha.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O vento

Nada teria ruído
Se nós naquele momento
Tivéssemos dado ouvido
Às ameaças do vento.

Mas nós sorrimos. E quem,
Num dia de primavera,
Não sorriria também?
Tolice era aquilo, ah, era.

Olhamos o jardim, belo,
E a imponência do castelo,
Compacto, sólido, eterno,

Mas veio o vento, açoitou
Tudo e tudo derrubou,
Assim que chegou o inverno.

As pedras

No último trecho do teu caminho derradeiro, Virginia, à beira do rio, não colheste flores, embora elas talvez tenham te pedido. Tu te despediste delas e seguiste. Tinhas já um compromisso com as pedras e o mantiveste.

O pesadelo

O sonho sempre começa comigo entrando no mar e avançando, avançando. O pesadelo começa no momento em que, já com as ondas se apoderando de mim, alguém me puxa, me puxa, me puxa até me levar salvo de volta à praia.

Itinerário

Nas noites sem lua, como os rios fazem para não errar o caminho?

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Paisagem

O vento travesso começou a atirar flores para quem estava no parque. O cachorro sacudiu-se todo para se livrar de uma, pousada em suas costas, o garoto atropelou eficientemente outra, com a bicicleta, e o namorado entregou uma à babá que, encantada, não viu o bebê pegar uma bem vermelhinha, que caíra no carrinho, e mastigá-la, satisfeito.

A mãe

Lembra-se dele. De como ele dizia mãi, com "i", o que tornava tão mais doce a palavra. Lembra-se da última vez em que o viu (foi há dois anos e ele tinha sete): "Mãi, deixa eu ir passear com o pai, deixa." Imagina a quem ele estará dizendo agora mãi.

Fiat lux

A lagartixa estava quase no topo do poste quando a luz se acendeu. Se lagartixas sorrissem, ah, que belo seria o seu sorriso. Era a primeira vez que ela conseguia aquilo.

Maldição

Seremos todos punidos,
Pelas sementes plantadas,
Pelas colheitas pesadas
E pelos frutos comidos.

Seremos todos banidos
De nossas terras lavradas,
De nossas casas amadas,
De nossos parques floridos.

Nunca nos explicarão
Por quê, nenhuma razão
Jamais alguém nos dará.

É justo: faça o que faça,
Tudo o homem torna trapaça
E culpa sempre terá.

De Rilke, sobre a crítica

"As obras de arte são de uma infinita solidão; nada as pode alcançar tão pouco quanto a crítica. Só o amor as pode compreender e manter e mostrar-se justo com elas."
(Trecho de Cartas a um Jovem Poeta, tradução de Cecília Meireles, Editora Globo.)

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Paz

Que eu possa ser esquecido,
Que eu possa ser perdoado,
Que venham a treva, o olvido,
O sono longo e abençoado.

Equívoco

Tantas vezes ele tentou convencê-la, e tantas vezes ela o rejeitou, que no terceiro ano ele se sentia não no meio de uma história de amor, mas como se fosse o protagonista de um longo caso de extorsão.

Nadine, Nadine

O menino ainda chamou aflitamente a irmã - Nadine, Nadine -, enquanto o pai e a mãe a enxotavam - puta, puta - e só voltou a saber dela anos depois, por uma notícia de jornal: "Prostituta morta em motel." Para alívio dele, o pai e a mãe já estavam mortos e não gozaram a satisfação de dizer que ela nunca havia prestado, mesmo.

Velório

Estarmos todos aqui - contando piadas obscenas e fitando lupinamente a viúva rechonchuda, enquanto a mosca zomba dele, que sempre se disse superior a nós, e lhe anda pelos olhos, pelo nariz e pela boca - não será desforra suficiente? Bebamos por ele, que tanto nos censurava por bebermos, e matemos a mosca, quando ela estiver sobre sua testa fria, para que não memorize nosso rosto e não nos siga.

Hora certa

Quando tudo te vai mal
E quando sofres cruelmente,
Quando não tens mais ideal,
Morrer é tão conveniente...

Felicidade

Seríamos felizes e não estaríamos importunando com lamúrias nossos amigos, que trocam de calçada quando nos veem, e não pararíamos na banca para ler notícias de desgraças e calamidades, e não teríamos tempo para ver os meninos pedindo moedas para o pãozinho, porque a felicidade nos manteria sempre deliciosamente ocupados.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O certo

Morrer talvez seja o certo.
Dormir não é mau, porém
Um grave problema tem:
No fim, eu sempre desperto.

Futuro

Tudo será esquecido.
Estarão mortas as vozes
Dos amigos, dos algozes.
Tu, também, terás morrido.

Ah, bobinha

Houve um tempo em que tentaste
Ter no amor tua bandeira.
Ah, tola, como falhaste,
Ah, bobinha, que besteira.

As duas

Num domingo qualquer, de um ano esquecido, te enfiaste na tua melhor roupa de menino, puseste uma gravata e ficaste na entrada do cinema. Talvez, se ela viesse... Ela veio, com a amiga, e as duas, perversas como só as garotas ruivas sabem ser, e mais os dois garotos que as acompanhavam, puseram-se a rir de tua pseudocircunspecção. Hoje, passadas tantas décadas, viste duas mulheres ruivas, muito velhas, e, imaginando que talvez pudessem ser elas, as olhaste com escárnio. Elas devolveram o olhar e soubeste que eram elas, sim, porque uma, tua antiga amada, disse o teu nome, e as duas seguiram gargalhando caqueticamente, como bruxas triunfais.

De volta ao marco zero

Ter a coragem de recuar e, em cada passo dado de volta ao início do caminho, recolher os pedaços de alma que chegaram a parecer troféus de glória e hoje são o que são: provas de que era errada a trilha e de que não há nenhum caminho certo - e, se houvesse, já não disporíamos de tempo para procurá-lo.

domingo, 14 de agosto de 2011

Preferências da traça

A traça prefere os pontos, pela facilidade que tem de engoli-los. As vírgulas, pelo formato, às vezes ficam meio atravessadas na garganta e os pontos e vírgulas, por não serem nem pontos nem vírgulas, lhe causam receio: dissimulados como parecem ser, sabe-se lá o que podem aprontar quando chegarem ao estômago... Quando está com muita fome - e cansada, como quase sempre ocorre -, agradam-lhe as reticências, aqueles três pontinhos tão próximos e apetecíveis.

Ornitovalia

Na bolsa literária, o corvo de Poe vale quantos papagaios de Flaubert, e vice-versa?

Trânsito

Ninguém te disse mas, quando começaste a atravessar as duas faixas da avenida, o sol abandonou desavergonhadamente a calçada de cá e, como zeloso guarda de trânsito, te acompanhou até a outra, sob os protestos de duas senhoras friorentas.

Para que

Teus pés gostam de estar descalços, para te seguirem sem que os notes e para que, se cantares, nenhum queixume de couro ou lamentação de madeira possa enfear teu canto.

Um carinho

Soprarei teus cabelos, mas bem leve, bem levemente, para eles saberem que é um carinho, e não uma incitação para que suas fulvas ondas se assanhem e se encapelem.

Maciez

Se fores me estrangular, põe tuas luvas, eu te imploro. Que tuas mãos, feitas para a maciez das sedas e das pétalas, não sintam nunca a aspereza de minha carne.

Não mais

Não há mais trilhas floridas,
Não há mais frutas douradas,
As flores foram colhidas
E as árvores despojadas.

sábado, 13 de agosto de 2011

Aqui, ali, acolá

Na Lapa, no Cambuci,
Na Penha, no Jaçanã,
Assim que surge a manhã,
Amor, espero por ti.

Na Bresser, na Senador,
Na Glette, na Cantareira,
Ou na Barão de Limeira,
Espero por ti, amor.


Que venhas logo, menina,
Que chegues hoje, senão
Talvez só na Vila Alpina

Tu me encontres, ou então,
Se for esta minha sina,
Ali na Consolação.

Amanhã

Deste amor que me consome,
Desta paixão desvairada,
Talvez eu não lembre nada,
Talvez nem mesmo teu nome.

A pilha

Eu te mostrarei um dia os poemas que fiz para ti em todos esses anos. Quando eu acabar de ler o primeiro, me darás um beijo. Eu pegarei então o segundo e, olhando para a pilha, me lastimarei por ter, em tantas noites de insone ternura, escrito não mais do que aquelas duas dezenas.

Pureza

Tão boa sorte tivemos
Que a carne, se nos tentou,
No seu intento falhou
E em alma, apenas, nos demos.

E dá

Rosa vermelha, de sangue,
Dorme um pouco, por favor,
Em meu peito e dá calor
Ao meu coração exangue.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Receita

Deves andar todas as madrugadas pela praia, naquelas horas em que ninguém mais anda por ela e as estrelas, cansadas de brilhar, começam a fechar os olhos e já não podem ser testemunhas de nada. Numa dessas madrugadas, a certa, o mar te chamará. Ele sabe que não consegues nadar nem dez metros, mas não precisarás. Ele te levará para longe, bem longe, mais longe do que supõe tua parca geografia.

Noite

Dançaríamos um bolero (eu não ousaria mais que isso) e no final, para me deixar menos constrangido por meus passos inábeis, você me daria um beijo, que eu naturalmente interpretaria mal.

Crepúsculo

As folhas, pálidas, caem.
Arrepiado de frio,
Cala sua canção o rio
E os raios de sol se esvaem.

Solidão

Que tristes os dias em
Que na madrugada morta
O vento me bate à porta
E me anuncia ninguém.

Assobio

Ele gostaria de, como antigamente, ficar na frente de um bar, assobiando para as belas mulheres. Sente-se atraído por elas, ainda, às vezes acha que até mais, mas alguns dentes se foram, a boca murchou, e o assobio...

Árvore

Um dia, num temporal, daqui a um ano ou algumas décadas, esta árvore tombará sobre um carro estacionado e, ferindo alguém, será citada no noticiário. Não falarão de suas flores. Falo delas agora, vermelhas e exuberantes, oferecidas ao sol da tarde.

O sonho

Mesmo enquanto dormes, na praia as ondas não cessam de ir e voltar. Podes dormir tranquilo, podes sonhar. No dia em que quiseres, heverá uma que te envolva e te leve e te diga que, entre milhões de tantas, está feliz por ter sido a escolhida para te envolver e te levar para um fundo tão profundo e bonançoso que nem o sonho de um recém-nascido seria capaz de sonhar.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Patife

O vento pôs-se a sacudir a árvore furiosamente. Os passarinhos, apavorados, começaram a voar dali, mas nenhum deles parecia ser o que interessava ao vento, porque este não parava de gritar: "Sai daí, sai! É, você aí, você mesmo, seu patife, que anda espalhando que eu sou fresco e não sei cantar." O menino perguntou ao homem: "Pai, patife é palavrão?"

O canto

O passarinho novo empertigou-se, exatamente como o pai fazia, olhou para ele, ergueu o bico e cantou. Nesse momento, os sinos da igreja badalaram as quatro horas. Imponente, o passarinho atribuiu-se o mérito pelo som magistral e encarou o pai com desdém. Mais um capítulo do conflito de gerações.

A caixa

A borboleta, tentando livrar-se, fazia cócegas na mão do menino. "Calma aí, a gente logo chega em casa e eu arranjo uma caixa bem legal pra você", ele ia dizendo. A uns cinquenta passos de casa, apareceu um moleque vizinho: "Ei, o que você tá levando aí? Eu quero ver." O menino fechou bem a mão, enquanto o moleque procurava abri-la. As cócegas passaram e ele soube que não precisava mais providenciar caixa nenhuma.

Tudo bem?

Tentarei, sim, novamente.
Bem pode ser que algo ocorra
E o sonho agora não morra.
Tentemos, tudo bem? Tente.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Piquenique

Foi lindo, lembra? Brilhava
O sol, a tarde crescia,
A chuva não ameaçava,
A morte não existia.

Tango

Estava flertando ainda com a Vida - andava com uma garota que podia ser sua neta e, embora lhe dissessem que era ridículo, havia comprado um carro esportivo - quando a Morte, uma noite, depois de ele deixar a garota em casa, o convenceu a passar um sinal vermelho. O carro, recuperado, ficou para o filho, e também a garota, cuja única tristeza é não haver o finado tido tempo para lhe ensinar como se dança o tango.

Certo dia

Deram-se as mãos, certo dia,
E os corpos em comunhão,
Corpos que não mais se dão
E jazem na terra fria.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Agosto, 9

Tão tristes são estas tardes
Que imagino, com aflição,
Quão tristes, se não voltardes,
Vão ser as que ainda virão.

O nome do autor

Na última vez em que o tinha visto, ele lhe pareceu estranho. Estava com um livro, disse que era de poesia, e ela se lembra de que o nome do autor era Brath, Blath, Plath ou Prath. E agora vinha aquela notícia: ele estava morto. Suicídio.

Vacina

Ela olhou tristemente para mim e disse: "Olha, sabe o que acontece comigo? Sou alérgica à vida, ou pelo menos a alguns dos seus componentes."

Preciosa

O menino pegou a estrela e a enfiou no bolso. Era a coisa mais extraordinária que havia lhe acontecido em oito anos de vida, e seu coração batia enlouquecidamente, mas ele já tomara uma decisão: não a mostraria a ninguém e, se mostrasse, não diria que ela era legítima, que tinha caído bem lá de cima diante dos seus pés. O pai e a mãe iriam querer que ele a devolvesse ao céu.

Frescor

Frescor de orvalho, frescor
De rosa em chuva embebida,
De neve não derretida,
Frescor imune ao calor,

Frescor de clara cachoeira,
Frescor de pura nascente,
De bica e de água corrente,
De fonte e de corredeira,

Frescor bendito, que venhas
Quando eu precisar e tenhas
Para meu consolo e sorte

O dom de a dor mitigar
E por piedade aliviar
A febre cruel da morte.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Ciranda

Em pó
tudo que há
e tudo que ainda não
mas ainda haverá
em pó em pó
se transformará
e também o anseio vão
e a ilusão
e todo o mal
e todo o bem
em pó em pó em pó
se transformarão.

A imensa

São frios os dias, não
Há mais sol nem haverá.
A imensa noite virá
E matará o verão.

Só nisso

Levaram anos para descobrir que só compartilhavam uma coisa: a incompatibilidade.

Jamais igual

Eu te chamei de amor. Não
Ouviste, e acabou o dia,
E nunca mais haveria
Tarde igual, igual verão.

Teus olhos

Já que a morte ainda não veio,
Que eu possa ainda fitar
Teus olhos de pleno mar
E de constelações cheio.

domingo, 7 de agosto de 2011

O dia certo

Morrer num domingo à noite, para que a segunda, com a aporrinhação dos pêsames e do sepultamento, mereça a fama que todas as segundas têm.

Lema

Tentei a fama, falhei,
Quis ter a glória, não pude,
Lutei, perdi, me cansei,
Dormir é minha atitude.

Ainda que só

Nem esperança, nem fé.
Quisera ter alegria
Ainda que só por um dia,
Para ver como ela é.

A resposta

Quando viste, o sol já estava fraco e, quando perguntaste ao dia o que fizeste, a noite desceu piedosamente, poupando-te da resposta.

Vida

Seria simples, se fosse,
E terna, se lhe agradasse,
E, se lhe aprouvesse, doce,
E boa, se não matasse.

O melhor

Beijar a Morte e dizer:
"És tu, ó, minha querida,
O que de melhor a vida
Tem para me oferecer."

sábado, 6 de agosto de 2011

A noite

A vida não nos concede nada. Desde que nascemos, estamos por conta da morte e de sua benevolência e, se sábios formos e gratos, nos prepararemos para o momento em que ela, mãe zelosa, depois de nos deixar correr um pouco pelo parque, rindo para o sol e rolando na grama, vier nos buscar, no fim da tarde, para a noite que desde o princípio dos séculos nos está destinada.

Castigo

Tocar de leve uma estrela,
Sentir seu brilho prateado
E ser - que importa? - cegado
Como castigo por vê-la.

Bem-vinda

Que possas tu ser bem-vinda
Enquanto nosso amor dure,
E mesmo que não perdure,
Agora, e depois, e ainda.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Possibilidades

Talvez, se tiveres sorte
Ou a sapiência exigida,
Consigas lograr a vida,
Mas não lograrás a morte.

Virarão

Virarão pó e torpor
Nossas perenes memórias,
Nossas façanhas e glórias
E nossos cantos de amor.

Até o final

Que eu sinta sempre, ao lembrar-te,
Até o final dos meus dias,
O sopro divino da arte
E o som das epifanias.

Tudo certo

Te vejo agora melhor.
Não mais te firo, não mais
Me ferem os teus punhais.
Já te conheço de cor.

A hora

Possamos, chegando a hora,
Cumprir o nosso dever
E, sem lamúria ou demora,
Deixar o corpo morrer.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Tesouro

O menino decepcionou-se quando, depois de ter seguido um raio de sol até o parque, de repente não o viu mais. Estava assim, triste, quando o raio reapareceu num galho da ameixeira, apontando o mais maduro dos frutos.

Fatalismo

Sou triste. Não sei viver.
Não faço nada e, se faço,
É sempre certo o fracasso.
Sou triste. Posso não ser?

Paulista

Quando apontares na esquina
Eu tímido chegarei
E sem te olhar te direi
Baixo, bem baixo: oi, menina

A suicida

Na praia ecoa ainda o grito
Da moça que muito amou
E por amor se lançou
Do navio ao mar: "Maldiiito!"

Historieta

O vinho que antes corria
E um homem feliz bebeu
Não corre mais, não sacia,
Porque o homem feliz morreu.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O pai do limerique

Perguntei quem criou o limerique.
Disseram uns que a Tatiana Belinky,
Alguns que foi Shakespeare,
Outros que foi Edward Lear
E uns que foi um tal de João Lima Henrique.

Limerick to Pat

Eu quis saber se tinha algo de certo
E a Esfinge fui consultar no deserto.
Ela me disse, serena,
Sem nenhum sinal de pena:
"De certo, mesmo, nada tens, decerto."

Presente

Sei que bem mais tu mereces,
Mas este sol te daria
E minha rara alegria
Se tu aqui estivesses.

Ânsia

Porque a ânsia de viver
A cada dia decresce,
E também a ânsia de ser,
A de morrer prevalece.

Engano

Às vezes penso que sou
Alguém que, tendo morrido,
Por algum mal-entendido
Ninguém ainda enterrou.

Louvor

Que tu, enquanto viveres,
Recordes que esta criatura,
O mais humilde dos seres,
Te ama com toda a ternura

E canta, por mereceres,
Tua esplêndida formosura
E louva-te por tu teres,
No tempo bom e na agrura,

Somente o belo inspirado
E por lhe haveres mostrado
A trilha da poesia

E porque, alegre como és,
Ele, seguindo teus pés,
Chegou enfim à alegria.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Inania verba

Mas pode tão grande amor
Estar num poema contido,
Num texto reproduzido
Ou seja lá no que for?

Leitmotiv

Quanto me apraz exaltar
A graça que não mereço,
E pela qual agradeço,
De em tuas mãos expirar.

Bom dia

Acordo cedo
abro a janela
para escutar as mentiras
que diariamente
o sol impudente
vem me contar

Ouço também os passarinhos
esses tolinhos
que vivem inventando
motivos para cantar

Preparo depois o café
reprimo uma careta
e exclamo
ai que delícia
antes mesmo de tomar

Cumpridos os rituais
de exaltação ao dia
que presumivelmente
me recolocam
entre os homens normais
há aquele momento
em que digo agora chega
por hoje já me prostituí demais

E com alegria
ou quase isso
entrego-me enfim
à minha verdade
ao asco que tenho do mundo
à pena que tenho de mim
e peço que me acolha
a minha doce
a minha amada
melancolia.

Egoísmo

Darás amor ainda a alguém,
O afeto em ti sobrevive,
Porém igual ao que eu tive
Que nunca o sinta ninguém.

Inúteis

Os dias ainda fazem
Seu dever de todo dia,
Mas meus olhos mortos jazem
Para o esplendor e a alegria.

Coisa de filólogo

Em certa época, de caça aos galicismos, a palavra nuance - tão cara aos artistas, especialmente aos pintores - esteve ameaçada, por iniciativa do mais feroz dos caçadores, Castro Lopes, de ser substituída pelo gracioso sinônimo "ancenúbio". Acredito que poucas vezes um verbo no passado - aqui, no caso, "esteve" - tenha trazido tanto alívio aos leitores. Ancenúbio? Ora, ancenúbio é a...

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Na gaveta

Na gaveta
esteve o teu sangue
poemas escritos outrora
por teu não saber viver
pela tua angústia
por teu desespero
por tua vontade de morrer

Houve tempo em que
tu não abrias
a gaveta
com medo
de que o sangue
correndo e escorrendo
saísse pela porta
fugisse pelo portão
e ao mundo escancarasse
tua abjeta subserviência à ternura
e tua humilhação

Ontem tu a abriste
e a gaveta
estava seca
seca seca
e teu sangue
transformado num pó
que sopraste para ver
se ainda lá estavam
teus cadernos
teus poemas
teu tributo ao amor
teu anseio de morrer
tua autocrucificação

Lá estavam
e folheando-os
viste que eram
tão ruins os poemas
tão cheios
de tão enjoativa doçura
que felicitaste
a formiga
que por eles andava
por ela não ter
nem olhos de ler
nem o vício da ternura.

O nome

Ele tem a esperança de morrer engasgado com a mais doce das sílabas do nome dela e, com o pretexto de saber qual é essa sílaba, passa o dia inteiro pronunciando o nome, como se fosse - e é - uma invocação.

Birra

Serias capaz, bem sabes que é verdade, de aparecer diante de mim como um recruta, para me negar a caudalosa visão dos teus cabelos, e de cortar tua própria garganta, para me privar do som de tua voz.

Mentira

Digo ao coração que tenha confiança, que voltarás, e me sinto mal, como se estivesse enganando um menino doente.

Reprise

Amiga, digo a você
Que nada mudou aqui,
Num dia eu estou deprê
E no outro eu estou depri.

Revisor

O revisor perde o pelo, mas não perde as vírgulas.

Uma frase de Hermann Broch

"Ai da impudica vaidade de uma memória, para a qual jamais existiu realidade alguma e que se renova apenas por mero prazer da reminiscência."

(A Morte de Virgílio, tradução de Herbert Caro, Editora Nova Fronteira)

Adiando

O que faço, dia a dia?
Embora a vida odiando,
A morte vou adiando,
Louvando a apotanasia.