sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Lírica (579) - Erro

Dirás talvez que eu errei
E que te louvei demais.
Te digo que me enganei
Por não louvar-te ainda mais.

Lírica (578) - Mãe

Sua mãe lhe dizia que, quando crescesse, as mulheres não resistiriam aos seus cabelos loiros e aos seus olhos verdes. Resistiram, porém, e tantas vezes, que ele precisou reconhecer que a mãe mentira, uma decepção agravada porque a mentira se exercera sobre uma criança. Hoje, lamenta não poder lançar-lhe ao rosto essa decepção, já que ela está morta faz muito tempo, e mostrar-lhe que os cabelos loiros sumiram quase todos e o faiscante verde dos olhos se transformou num azul opaco.

Lírica (577) - Rival

A brisa jogou em seus cabelos uma flor que ela, pelo susto ou por ciúme, atirou longe, continuando a andar pela avenida, com sua agora incontestada beleza.

Lírica (576) - Agrado

Sabia que aquela era uma das últimas vezes, talvez mesmo a derradeira, que desfrutaria o sol na praça. Isso não o entristeceria muito (já vinha se preparando havia algum tempo), se a garota de uniforme colegial, que ele via passar sempre, às cinco horas, não lhe desse um sorriso pelo qual ele ansiara durante dois anos e que, mais por lógica que por superstição, ele avaliou como um agrado da morte antes de vir buscá-lo.

Lírica (575) - Futuro

Terei partido, terás
Ficado. O que foi vivido
E o que não foi, o sofrido
E o gozado, lembrarás.

Lírica (574) - Queixa

Aquilo que digo a ti,
Até as coisas mais sérias,
Te parecem ti-ti-ti,
Besteiras, piadas, lérias.

Lírica (573) - Estações

Embora o queiras eterno,
O teu amor vai morrer,
Assim como as estações:
Depois do outono o inverno
Depois do ser o não ser,
Após a paz os tufões.

Lírica (572) - Nascente

Não olho o sol. Não preciso.
Meu sol não nasce no leste,
No sul, no norte e nem no oeste,
Nasce onde está teu sorriso.

Lírica (571) - Tempo

O tempo vem e consome
O amor que não se viveu,
A flor que não se colheu,
O fruto que não se come.

Lírica (570) - Sol

Naquela manhã, o homem deu-se conta de que não olhava para o sol fazia muito tempo. Quando olhou, o achou muito mudado, e só podia mesmo estar: na última vez em que o havia visto devia ter dez anos e seguia o incerto voo de uma pipa.