Seguir pelo mar adentro,
Deixar-se dócil levar
Até chegar bem ao centro
E lentamente afundar.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Registro
Amor frustrado, amor vão,
Nalgum lugar ainda escritas,
Fanadas, mortas, prescritas,
Tuas promessas estão.
Nalgum lugar ainda escritas,
Fanadas, mortas, prescritas,
Tuas promessas estão.
Orvalho
Cabelos úmidos, em vós, em vosso orvalho, o sol ainda desorientado e sonolento foi visto procurando a primeira rosa da manhã.
domingo, 8 de maio de 2011
Parcela
Olhar-te, ouvir-te, falar-te
Talvez não seja, querida,
Tudo o que tenho na vida.
Porém é a melhor parte.
Talvez não seja, querida,
Tudo o que tenho na vida.
Porém é a melhor parte.
Tarde
Tão curta é a vida e, no entanto,
Tardaste e, quando vieste,
Já estava o sol no oeste.
Por que demoraste tanto?
Tardaste e, quando vieste,
Já estava o sol no oeste.
Por que demoraste tanto?
O que é
Me diga, me conte, amiga,
Que dom é o seu, que me prende,
E que força é a que me rende,
Me conte, amiga, me diga.
Que dom é o seu, que me prende,
E que força é a que me rende,
Me conte, amiga, me diga.
Miragem
Nos teus cabelos o sol garimpou subitamente fios de ouro tão intenso que um homem te seguiu, enfeitiçado pelo brilho. Quando tu dobraste a esquina e, por uma dessas artimanhas de que os ângulos são tão capazes, o encanto se dissipou, o homem, triste, soube que a manhã não tinha mais nada para lhe oferecer.
sábado, 7 de maio de 2011
Sempre
Estiveste lá - ontem, hoje, quando? Para a memória é sempre hoje, e ela jamais se esquece de nenhum detalhe daquela manhã, nem dos aparentemente mais banais. A mesinha do café é miraculosamente a mesma, os frequentadores também, com as mesmas roupas, e alguém às minhas costas diz uma palavra que soa como russa e que mantém seu mistério em cada nova evocação. Meu saquinho de açúcar sempre esparrama alguns grãozinhos no pires antes de acertar o centro cálido da xícara e este é um instante que eu sempre aproveito, como agora, para me esquivar do feitiço dos teus olhos e transferi-lo para os teus dedos, sob o pretexto de censurar minhas desastradas mãos.
Quando
Quando de mim te aproximas
E com teus braços me enleias,
Meu coração se abre em rimas
E mel me corre nas veias.
E com teus braços me enleias,
Meu coração se abre em rimas
E mel me corre nas veias.
Segredo
Doente de amor, ele se queixa sempre deste ou daquele sintoma da doença. Porém, toda vez que o faz, abre um sorriso maroto, como se fosse um menino que, numa casa só de adultos, conseguisse manter sem suspeita, por dois anos, um gato espalhafatosamente amarelo e gorducho, de miado abençoadamente fraco.
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