Queres amor, velho? Como?
Com tua tola virtude,
Com tua cara de gnomo,
Com tua decrepitude?
sexta-feira, 13 de maio de 2011
quinta-feira, 12 de maio de 2011
Ali, ó
Depois que tomou o tônico
E seu efeito sentiu,
Falar de um amor platônico
Ninguém nunca mais o ouviu.
E seu efeito sentiu,
Falar de um amor platônico
Ninguém nunca mais o ouviu.
Intensidade
Ah, quanto nós nos amamos!
Tu foste louca, eu fui louco,
Nos demos, nos entregamos,
E mesmo assim foi tão pouco...
Tu foste louca, eu fui louco,
Nos demos, nos entregamos,
E mesmo assim foi tão pouco...
Tolice
A voz do silêncio... Que tolice é essa que, no entanto, nos mantém atentos na solitária madrugada, como se a qualquer instante pudéssemos ouvir o murmúrio dos lábios amados?
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Dois a um
"A senhora teve um?", perguntou o homem à mulher, um pouco mais velha, que caminhava ao seu lado. "É, neste joelho. Por isso que eu uso a bengala." "Ah, isso não é nada", comentou o homem. "Eu tive dois. Um aqui, neste braço, e outro na garganta. Eu tinha uma bela voz. Agora..." "Eu tive sorte", disse a mulher. "O médico descobriu cedo. Mesmo assim eu sofri muito. O senhor nem imagina." O homem parou. Parecia irritado: "Eu nem imagino? A senhora ouviu o que eu falei? Eu tive dois. Dois. O do braço eu vou deixar barato. Mas o da garganta... Deus que livre a senhora de ter um de garganta." Ele disse isso e, andando rápido, deixou para trás a mulher com a bengala. Ia resmungando e proclamando sua superioridade: "Eu tive dois. Dois!"
Quais são
Ele era um tolo, desde o começo ela viu. Em trinta dias de namoro, ofereceu-lhe tantas estrelas, apontando-as - "aquela é sua, olhe, e aquela ali também" - que ela perdeu a conta. Era um tolo, mas ela ficou triste quando soube que tinham ido à casa dele para levá-lo ao hospício. Agora ela olha para o céu e não sabe mais quais são suas estrelas.
A chave
Entrou e trancou a porta.
Jamais a chave usará,
Jamais a porta abrirá.
Para ele, a vida está morta.
Jamais a chave usará,
Jamais a porta abrirá.
Para ele, a vida está morta.
terça-feira, 10 de maio de 2011
Mapa
Amar-te é esta aflição
De não saber onde estás,
Se em Roma, Havana, La Paz,
Na Índia, Nigéria ou Japão.
Amar-te é esta tortura
De abrir o mapa e execrar
Macau, Mumbai, Gibraltar,
Paris, Teerã, Cingapura.
De não saber onde estás,
Se em Roma, Havana, La Paz,
Na Índia, Nigéria ou Japão.
Amar-te é esta tortura
De abrir o mapa e execrar
Macau, Mumbai, Gibraltar,
Paris, Teerã, Cingapura.
Nos bolsos
Nos bolsos do rapaz que morreu atropelado na avenida estavam a identidade, uma carteira com razoável quantia, um cartão de banco, uma foto do defunto com uma mulher e duas gêmeas de uns quatro anos e um recorte de jornal em que certa Walderez, gaúcha, coroa e fogosa, prometia fazer tudo em um ambiente discreto. Um dos homens da equipe de resgate leu o recorte e comentou: "Coitado. Será que pelo menos ele... (aí fez um gesto) essa Walderez?"
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