sábado, 2 de junho de 2012

Martha sabe das coisas

E aqui estou eu, de novo, para falar de Martha Medeiros e seus textos, um conhecimento tardio que leva já um jeito de amor. É notável a simplicidade aguda com que ela fala de coisas do nosso cotidiano, como neste texto (de "Doidas e santas") em que ela trata do silêncio e do poder que ele dá a quem o usa nas relações amorosas. Vítima desse poder, eu senti em cada palavra, outra vez, a carne ferida e a alma pisada. Citaria o texto inteiro, mas acredito que o bom-tom e até normas legais me impedem. De qualquer forma, aqui vai a essência dele, em três momentos:

"Já fui de esconder o que sentia, e sofri com isso. Hoje não escondo nada do que sinto e penso, e às vezes também sofro com isso, mas ao menos não compactuo mais com um tipo de silêncio nocivo: o silêncio que tortura o outro, que confunde, o silêncio a fim de poder manter o poder num relacionamento."

(...) "Falar o que sente é considerado uma fraqueza. Ao sermos absolutamente sinceros, a vulnerabilidade se instala. Perde-se o mistério que nos veste tão bem, ficamos nus. E não é esse tipo de nudez que nos atrai."

(...) "Libertar uma pessoa pode levar menos de um minuto. Oprimi-la é trabalho para uma vida. Mais que as mentiras, o silêncio é que é a verdadeira arma letal das relações humanas."

Ler Fernando Pessoa

Ler Fernando Pessoa é descobrir que todos esses filosofares e inquirires, todos os pensares e logo existires são tão relevantes para a nossa vida quanto a resolução de um problema de palavras cruzadas. É saber que a metafísica inteira não vale um chocolate e que, dos deuses, a única afronta que não devemos tolerar é eles deixarem que nos sirvam fria uma dobradinha à moda do Porto.

Qual um gato velho

O amor, como um gato velho, fica sentado comigo na poltrona agora, todos os dias, e dorme. Perdeu o gosto e a disposição para as peripécias de outrora, e noite e dia são para ele só um tempo para o sono. De vez em quando estremece e sei que recorda alguma aventura. Nesses momentos, acorda e exibe as garras há tanto tempo guardadas. Dura dez segundos isso e não chega a me perturbar. Logo volto a rabiscar no bloco estas sensações que são também, como as dele, uma sonolência longa atravessada algumas vezes, felizmente poucas, pela lembrança de um muro saltado à noite, em busca de um cheiro morno.

Se houvéssemos

Tão tolos fomos. Quisemos levar a vida a sério, como se ela fosse algo que pudéssemos aprender, e, enquanto gastávamos nossas horas com filosofias, lá fora os outros colhiam nossos frutos. Ainda ressoam em nossos ouvidos agora velhos as gargalhadas deles naquele tempo que poderia ter sido também o nosso, se houvéssemos deixado os livros fechados e saído para o sol.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Martha Medeiros, Inês Pedrosa

Confesso, e com que agrado, que tinha sobre Martha Medeiros uma impressão vinda de tudo, menos de conhecê-la. Dela, havia lido alguns textos, pouquíssimos, na internet e, mesmo achando-os muito bons, não quis dar o braço a torcer até ontem, quando em minha querida Biblioteca Amadeu Amaral peguei uma coletânea de suas crônicas, "Doidas e santas", para ver se afinal não tinha em relação a ela aquele velho preconceito de que com Rubem Braga morreu a crônica. Posso dizer já, hoje, que, se morreu, ressuscitou, e em Martha está mais viva do que nunca ou ao menos tão viva quanto sempre. Textos que dá gosto ler, como os melhores que os melhores escreveram. Salve, menina. Com esta saudação, saúdo também os seus leitores que, por saber serem tantos, eu imaginava não poderem corrresponder em qualidade à quantidade (outro desses preconceitos tão fáceis de ter, principalmente quando quem os nutre é um homem dado a ser amargo). Como você lida bem com essas coisas supostamente simples que no entanto nos enredam a vida e são as mais importantes: o diálogo, ou a falta dele, a amizade, o amor. Como é bom ouvi-la dizer, por exemplo, que "pessoas aparentemente especiais se apaixonam por outras aparentemente banais e isso não é um trote, não é uma pegadinha, não é nada além do que é: um inesperado presente da vida, que todos nós merecemos". E como me encantou a citação que você faz de Inês Pedrosa, tirada do livro "Nas tuas mãos", tão sábia, delicada e alentadora: "A separação pode ser o ato de absoluta e radical união, a ligação para a eternidade de dois seres que um dia se amaram demasiado para poderem amar-se de outra maneira, pequena e mansa, quase vegetal." Tardes frias e melancólicas como esta, paulistana até a medula, podem ser salvas por Inês, podem ser perdoadas por Martha.

... & perdas

Quando me lembro de ti,
Não lembro do que busquei,
Nem lembro do que alcancei.
Me lembro do que perdi.

Bablá

No colo do pai, o menino de dois anos passa por uma árvore e diz bablá, por um canteiro de flores e diz bablé, por um pombo e diz babló. Os dois vão até o extremo do parque e começam a voltar. O menino, atento, diz o mesmo bablá, o mesmo bablé e o mesmo babló para a árvore, as flores e o pombo. Ocorre-me, vendo a cena, que quanto mais numerosos são os sinônimos menos precisas são as definições para tudo. Incapazes de nos nomear, ou ciosos de nos ocultar e de nos dissimular, fazemos o mesmo com todas as coisas, de tal modo que, quando dizemos que uma pedra é uma pedra, quase pedimos desculpas por nossa pobreza de expressão, por dizermos só uma das tantas falsas palavras com que confundimos a noção de pedra. Pudéssemos dizer sempre, dela, pedra, e só.

Afinidade

Sua fama e sua ligação com a literatura não vieram dos livros, que não escreveu. Vieram de ter sido atropelado e morto pelo poeta Rogério Flores, que voltava para casa depois de uma noite triunfal de lançamento, com a venda de oitocentos exemplares de "Epifanias da primavera".

Crepúsculo

Tão terna é a melancolia,
Tão doce quando na rua
Bem devagar se insinua
E fecha os olhos do dia.

40 graus

Lembro-me de uns meses em que, na infância, passei de cama com uma febre que era quase uma excitação sexual, uma entrega a uma doença que me possuía com uma doçura maligna e de que, quando me livrei, não foi com gosto. De tudo ficaram uns pesadelos, uns delírios que para minha desventura só esporadicamente voltam a me visitar. Meu amor ao masoquismo deve ter nascido nesses meses de compressas, injeções, murmúrios de crença e descrença dos que me rodeavam, orações e aqueles dias que eram sempre noites nas quais, pela memória que guardo, meu desejo era deixar-me levar ou ficar perenemente envolto naquela morna letargia.