domingo, 3 de junho de 2012

Rotação

Viajo em torno de mim.
Me basto, sou-me propício,
Bem ou mal sou meu início
E mal ou bem o meu fim.

Sábados

Quantos sábados haverá ainda como o de ontem, nascidos já mortos, véspera funesta de domingos também mortos como este?

Rodriguiano

Disseram-lhe que, para não enlouquecer, deveria não chorar, mas rir do amor que estava consumindo sua carne, sua pele, seus ossos e sua alma. Ele, apaixonado admirador de Nelson Rodrigues, respondeu que isso seria como urinar sobre o cadáver de um anjo.

Vida real

Saí do teatro inconformado com a morte do protagonista do drama. Peguei o carro no estacionamento e fui a um restaurante. Estava lendo o menu quando entrou ele, o protagonista, conversando alegremente com os dois vilões que tinham acabado de tirar-lhe a vida. Se eu fosse o cozinheiro, adicionaria veneno à comida dos três.

Com ou sem

Mesmo quando é a a falta dele o que nos afeta, é sempre o amor que acaba por nos matar.

Avisos

Estamos mais perto agora.
A brisa vem nos contar
E a noite nos confirmar
Que a morte já não demora.

sábado, 2 de junho de 2012

Quem fala assim?

"Amanhã eu vou na escola", dizia o personagem de um romance. Foi por essa frase que ele, leitor de todas as gramáticas, todas elas postas à disposição no seu trabalho de revisor, perdeu o emprego na editora. "Amanhã eu irei à escola? Amanhã eu irei à escola? Quem fala assim? Onde?", foram as últimas palavras que ele ouviu do chefe, que sacudia a prova do crime e com sua indignação fazia espirrar perdigotos até o teto.

Os heterônimos

Em Fernando Pessoa, a vida era algo a ser vivido com os olhos da arte. Não é verdade que a vida não lhe interessasse. Interessava-lhe tanto que ele abriu mais de duzentos olhos para vê-la.

Indiferença

Não ando mais por aí.
Receio um dia chegar,
Sem emoção nem pesar,
À rua em que te perdi.

A dor

A vida passa depressa.
A dor que te suplicia
Um dia é grande e outro dia
Nem dói mais, nem é mais essa.