segunda-feira, 4 de junho de 2012

Compensação

Que dos sofrimentos meus
E de toda esta tristeza
Eu possa ao menos, meu Deus,
Tirar alguma beleza.

Fila

Podes pedir, implorar,
Porém a Morte é mulher,
Virá quando bem achar,
Virá só quando quiser.

A condessa

Hoje ele vai começar a busca na internet, em bibliotecas, perguntar a amigos e antigos professores. Tantas décadas depois, descobriu-se novamente apaixonado pela condessa russa de um romance cujo título esqueceu e, assim como quando tinha quinze anos, quer lançar-se aos seus pés, beijar-lhe as pantufas, bater-se em duelo por ela, morrer com seu nome nos lábios ou viver para dizê-lo até o último dos dias.

Viaduto Santa Ifigênia

Eu me atiraria do alto,
Não fosse tão desprezível,
Tão asqueroso, risível,
E tão indigno do asfalto.

Que pudesse ser tanto

Jamais te darei esse crédito de me haveres tornado triste. Sempre fui. Só não sabia que pudesse ser tanto.

Love affaire

Se eu pudesse transformar esta sandice em algo minimamente literário, talvez interessante ou ao menos não tão bisonhamente juvenil.

O canteiro

Murcharam todas, morreram. Ficou esta foto, do tempo em que cuidávamos delas. Como estão belas, ao sol daquela tarde. Como estamos bem também nós dois, pena não estares aqui para ver. Nos nossos olhos há o brilho que sempre denuncia o amor, mesmo quando ele tenta se esconder. Foi ontem, foi anteontem. Hoje, se me olho no espelho, hoje, se te olhas, algum de nós poderá, sem mentir, ver nos nossos olhos algo além desta fria opacidade?

domingo, 3 de junho de 2012

O sorriso

Talvez, em nosso derradeiro sono, possa insinuar-se um sonho no qual voltemos a ser crianças e nos vejamos de novo dentro de uma roda-gigante ou diante de nossa primeira árvore de Natal. Que isso provoque em nós um sorriso, ainda que breve, e que seja esse o sorriso que a morte encontre ao chegar, como se não estivéssemos cansados e dela esperássemos uma viagem prazerosa, como eram tantas quando a vida ainda estava toda por se descobrir.

Fases

Havia em mim um menino
Que não queria crescer.
Hoje há um homem mofino
Que se recusa a viver.

Domingo

Que belo dia. Um domingo inteiro para deixar o sol lá fora e ler Sylvia Plath, Florbela Espanca, Ana Cristina César. E devanear com Werther, divagar com Anna Karênina, tresvariar com Madame Bovary.