terça-feira, 2 de outubro de 2012
Vizinhança
Era a terceira vez, naquela semana, que o funcionário do cemitério via o senhor de terno escuro caminhando por ali. Naquela manhã ele estava parado diante de um túmulo. "Bom dia", disseram-se. O homem apontou um retrato no túmulo: "Esta é a minha mulher." O funcionário elogiou a beleza da mulher e perguntou se ela havia morrido fazia muito tempo. "Ah, dez anos", respondeu o homem, com o dedo na data de falecimento registrada no mármore. "O senhor vem sempre aqui?", interessou-se o funcionário. "Não, eu comecei a vir faz um mês, mais ou menos. Agora venho todo dia. Mas não é por ela." Enquanto o funcionário imaginava qual poderia ser a razão das visitas, o homem olhou para os lados e sorriu: "Eu ando sentindo umas dores aqui no peito, sabe? E é bom já ir conhecendo a vizinhança." Solidário com o bom humor, o funcionário disse: "Pode ficar sossegado. O pessoal aqui costuma ser bem tranquilo."
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Heroicos vilões
No início, eram os heróis. Em torno deles se desenvolvia a trama. Os vilões eram coadjuvantes, figurantes. Por mérito, porém, os vilões passaram a ter maior destaque e já ninguém se importava se eles ocupavam cinquenta ou oitenta por cento da história. O bem acentuava-se pelo contraste com o mal. Os leitores gostaram tanto que vilões passaram a ser os protagonistas e, quando morriam na história, seus criadores eram instados a, assim como acontecia com os heróis, ressuscitá-los. Hoje, até porque é um retrato do mundo atual, os vilões se tornaram tão soberanos que, não raramente, eles são convocados a enfrentar outros vilões, para que os leitores não bocejem com os heróis. Os heróis antigos - como os de Dickens, por exemplo -, examinados sob os olhos de hoje, parecem monótonos e artificiais. Abençoados vampiros, monstros descomunais, alienígenas, extraterrestres. Que continueis vos combatendo, mas que não vos aniquileis nunca, nossos queridos heróis. E que haja para cada morte vossa uma possiblidade de ressurreição.
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Tua tristeza
Não te preocupes, não estão interessados em ti. Estão ocupados em cantar, em dançar, em aprimorar o riso e a gargalhada. Podes passar, não precisas ocultar a tristeza que tanto amas. Ninguém a cobiça, ninguém a quer, ninguém se apossará dela, mesmo que lhe dês um banho de ouro.
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segunda-feira, 1 de outubro de 2012
A poesia, nua como deve ser
Descobri, com muito atraso e vergonha, que desde os doze anos venho procurando não a poesia, mas a melhor forma de vesti-la, de empetecá-la, de emperiquitá-la como se ela fosse uma boneca russa. Aprendi a adorná-la, a enfeitá-la. Tratei-a como se fosse uma menina preparada para ser a mulher de um príncipe. Matriculei-a em aulas de piano, de balé, de boas maneiras. Que orgulho me deu vê-la sofisticada, reconhecida e, melhor que isso, sabendo retribuir tudo com a majestade de uma rainha. E com que prazer eu ia lhe acrescentando vestes e enfeites. Tudo com que a ornei, e com que eu imaginava poder destacar-lhe a beleza, a sufocou durante todo esse tempo. Tudo não passava de miçangas, berloques, ouropéis. Como pude ser assim estúpido? As vitórias dela me encantavam e, como vampiro, eu ia bebendo seu sangue. Só recentemente notei a palidez do seu rosto, por baixo do ruge e do batom que eu a obrigava a usar. E, observando como fracas pareciam suas pernas e seus pés, livrei-a das meias e das sapatilhas. Suspeitei que deveria despojá-la de tudo. E finalmente a vi, simples, frágil, autêntica como ela era antes, quando eu ainda não tinha começado a afogá-la com os penduricalho de minha falsa arte.
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Uma folha
Ser uma folha tão anônima como aquela única que o vento, ao fazer cantar todas as outras folhas de todas as árvores do parque, evita sempre tocar - à noite por alegar não enxergá-la, de dia por ser cegado pela excessiva luz.
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Dezembro, 2009
Ousei olhar-te no rosto.
Sei hoje que não devia.
Que triste foi meu sol-posto
Diante do teu, que nascia.
Sei hoje que não devia.
Que triste foi meu sol-posto
Diante do teu, que nascia.
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Ali perto
O homem tocou o ombro do motorista de táxi parado no ponto e perguntou se o banco estava longe e se passava por ali algum ônibus que levasse até ele. Distraído, o motorista apontou uma direção: "Ônibus? Não precisa. É logo ali, está vendo? No fim daquela subidona. Dá uns vinte minutos, a pé." Ouviu o agradecimento e só então percebeu que o homem tinha uma perna só.
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A poesia
O poeta quase pisou no menino que dormia na calçada, em cima de uma cama de jornais. Não olhou para ele. Seus olhos, que buscavam a poesia, fixavam-se no céu e, no meio das nuvens, tentavam enxergar a lua.
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As três mortas
O rosto das mortas sorri nas fotos do celular. O homem que as tirou há meia hora no aeroporto, antes de o grupo embarcar, está de novo em sua agência e olha para as fotos das três garotas que vieram fazer testes para modelo e voltam agora para a Bahia. Prometeu mandar a resposta daqui a uma semana. É o tempo que tem para arranjar as desculpas. Rejeitará todas. Nenhuma tem o perfil que tornou famosas as modelos da agência. A maior dificuldade ele terá com Leni, a morena de olhos verdes e coxas mais grossas que as das outras. Num dos três dias em que se submeteram aos testes, ele a levara a um motel e agora ela, no avião, deve estar lembrando que ele prometeu fazer dela não só uma modelo, mas também sua mulher. Enquanto ela lembra, um ruído estranho põe os passageiros em alerta e, logo em seguida, em pânico.
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O que nós queríamos
Queríamos ser advogados
médicos engenheiros jornalistas
Ainda não se falava
de astronautas nem de lobistas
e os mais extravagantes de nós
queriam ser artistas
Queríamos ser advogados
médicos engenheiros jornalistas
e no nosso sorriso aos onze anos
na desbotada fotografia
da quinta série
estavam nossa esperança
e a esperança
que em nós se podia ter
Fomos advogados
médicos engenheiros jornalistas
mas nosso sorriso naquele dia
em que foi tirada a fotografia
revela que nenhum de nós
precisava ter mais
do que tínhamos naquele dia
Não sabíamos o que jovem nenhum
em nenhum tempo desconfia
Que os adultos querem sempre
que os jovens logo sejam adultos também
e se desiludam como eles
porque aos adultos incomoda
a intolerável alegria juvenil
que eles já tiveram
e que começaram a perder
quando os adultos do seu tempo
lhes disseram como felizes haveriam de ser
quando fossem advogados
médicos engenheiros jornalistas.
médicos engenheiros jornalistas
Ainda não se falava
de astronautas nem de lobistas
e os mais extravagantes de nós
queriam ser artistas
Queríamos ser advogados
médicos engenheiros jornalistas
e no nosso sorriso aos onze anos
na desbotada fotografia
da quinta série
estavam nossa esperança
e a esperança
que em nós se podia ter
Fomos advogados
médicos engenheiros jornalistas
mas nosso sorriso naquele dia
em que foi tirada a fotografia
revela que nenhum de nós
precisava ter mais
do que tínhamos naquele dia
Não sabíamos o que jovem nenhum
em nenhum tempo desconfia
Que os adultos querem sempre
que os jovens logo sejam adultos também
e se desiludam como eles
porque aos adultos incomoda
a intolerável alegria juvenil
que eles já tiveram
e que começaram a perder
quando os adultos do seu tempo
lhes disseram como felizes haveriam de ser
quando fossem advogados
médicos engenheiros jornalistas.
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