quarta-feira, 19 de junho de 2013
A melancolia...
... me veio morna hoje, aliciadora, com sussurros estranhos e insinuações. Sei bem o que lhe aconteceu. Ela envelheceu também e, assim como eu, às vezes extrai ainda das mais caras lembranças um langor, uma frouxidão, uma entrega de sentidos, uma deliciosa sensação de mel gotejando nas veias, como outrora fazia o amor.
Parece ter...
... chegado o tempo não de desfrutar o amor, porque já estão inalcançáveis os frutos e inaptas as mãos, mas de cantá-lo, como um velho marinheiro contando passagens de mares raivosos e tempestades coléricas, de tufões que ele domava com sua invencível juventude.
De repente...
... os bem-te-vis resolveram, também eles, apresentar uma pauta de reivindicações. Reuniram-se na minha ameixeira, confabularam, discutiram educadamente, como convém a tão nobre espécie, e voaram na direção de uma janela muito verde e fechada. Puseram-se a entoar palavras de ordem, lemas, e um instante depois a janela se abriu. Vi um sorriso que me passara despercebido durante todo o tempo em que já estou aportado com a minha tristeza aqui, na Antônio Cantarella. Ou talvez seja um sorriso recente na paisagem do bairro. Míope e - mais do que isso - fantasioso, pareceu-me ver no rosto uns traços de Rapunzel. Se amanhã os bem-te-vis repetirem a manifestação, já decidi: aderirei.
Talvez um dia...
... eu possa evocar certas passagens e vê-las com a ternura que merecem, mas sem que o monitor embace e o teclado se umedeça como se tocado pelo orvalho da manhã. Nesse dia, estarei com o coração pacificado, mas o olharei como se olha para um traidor.
Abri a janela...
... e fiquei atento aos bem-te-vis. Seu canto me pareceu o mesmo. Cantaram como sempre o amor, com o mesmo ímpeto. Se eu tivesse ainda alguma dúvida, estaria dissipada. Imaginei que talvez hoje eles pudessem fazer soar alguma nota cívica, mas parece ocorrer com eles o que ocorre comigo: uma total inaptidão a tudo que não se refira ao lirismo e ao amor. Se dependesse de mim e dos bem-te-vis, o mundo ainda não teria começado a se mover. A ideologia dos bem-te-vis, e a minha, é serena, com tendências a súbitos impulsos e arroubos apaixonados, seguidos de longas apatias.
Contabilidade
Afinal
para quem
estando em coma
um dia também
a outro se soma
ponto a ponto
na conta final
ou se faz
algum desconto?
para quem
estando em coma
um dia também
a outro se soma
ponto a ponto
na conta final
ou se faz
algum desconto?
Viaduto
Se um dia for mesmo fazer aquilo, para dar um toque literário há de ser no Alcântara Machado.
Descrédito
Que coisa ridícula, essa.
Promete os pulsos cortar,
Na corda se pendurar,
E fica só na promessa.
Promete os pulsos cortar,
Na corda se pendurar,
E fica só na promessa.
"Se minhas mãos pudessem desfolhar", de García Lorca
"Pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
a beber na lua
e dormem as ramagens
dos arvoredos ocultos.
E sinto-me vazio
de paixão e música.
Louco relógio que canta
antigas horas mortas.
Pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante do que nunca,
mais distante do que todas as estrelas
e mais dolente do que a mansa chuva.
Tornarei a te querer como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa dissipa-se,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!"
(Do livro Poemas de amor de Federico García Lorca, tradução de Floriano Martins, publicado pela Ediouro.)
nas noites escuras,
quando vêm os astros
a beber na lua
e dormem as ramagens
dos arvoredos ocultos.
E sinto-me vazio
de paixão e música.
Louco relógio que canta
antigas horas mortas.
Pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante do que nunca,
mais distante do que todas as estrelas
e mais dolente do que a mansa chuva.
Tornarei a te querer como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa dissipa-se,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!"
(Do livro Poemas de amor de Federico García Lorca, tradução de Floriano Martins, publicado pela Ediouro.)
terça-feira, 18 de junho de 2013
Pensa no que...
... aconteceria se os manifestantes descobrissem que ele é um entusiasmado defensor da servidão: no dia em que o amor poupa suas costas das chibatadas, ele imagina o que terá feito de errado para ser tratado assim pelo seu amado senhor.
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