sábado, 1 de novembro de 2014
Cúmplices
Os poetas garantem ter um pacto com as rosas e os passarinhos. As rosas não desmentem e os passarinhos não negam.
Mãos
Também a nós
certas noites
nos vem o desejo de morrer
Nossas mãos parecem aptas
a nos dar o repouso
e chegamos a imaginá-las
atando a corda
desembrulhando a gilete
empalmando os comprimidos
Mas é novembro
o Natal vem chegando
depois o novo ano
e em fevereiro
quem sabe passemos afinal
o carnaval na Bahia
Reenfiamos a mão
debaixo do cobertor
e adiamos outra vez
a homenagem que faríamos
ao amor
e à sua crueldade.
certas noites
nos vem o desejo de morrer
Nossas mãos parecem aptas
a nos dar o repouso
e chegamos a imaginá-las
atando a corda
desembrulhando a gilete
empalmando os comprimidos
Mas é novembro
o Natal vem chegando
depois o novo ano
e em fevereiro
quem sabe passemos afinal
o carnaval na Bahia
Reenfiamos a mão
debaixo do cobertor
e adiamos outra vez
a homenagem que faríamos
ao amor
e à sua crueldade.
Como ele a vê
Ainda hoje, toda vez que
Os olhos nela ele põe
E sua magia vê,
Ele encantado supõe
Que ela deve pertencer
A uma facção misteriosa,
À dinastia do ser,
À confraria da rosa.
Faz tempo que a conheceu
E sempre lhe pareceu,
Já desde o primeiro dia,
Que ela é a voz do coração,
As sílabas da canção
E o espírito da poesia.
Os olhos nela ele põe
E sua magia vê,
Ele encantado supõe
Que ela deve pertencer
A uma facção misteriosa,
À dinastia do ser,
À confraria da rosa.
Faz tempo que a conheceu
E sempre lhe pareceu,
Já desde o primeiro dia,
Que ela é a voz do coração,
As sílabas da canção
E o espírito da poesia.
Preservação
Um poeta, com sua sonsice, nos dá sempre o ímpeto de sacudi-lo. Só não o fazemos para não assustar os bem-te-vis que costumam fazer ninho no seu chapéu.
Dia D
O dia de nossa desgraça é aquele no qual descobrimos que não servimos mais nem para morrer de amor.
Pátina
A poesia anda hoje tão fora de moda quanto uma menina de doze anos tocando piano numa festa de família, com um gato no colo.
"A alegria da escrita", de Wislawa Szymborska
"Para onde corre essa corça escrita pelo bosque escrito?
Vai beber da água escrita
que lhe copia o focinho como papel-carbono?
Por que ergue a cabeça, será que ouve algo?
Apoiada sobre as quatro patas emprestadas da verdade
sob meus dedos apura o ouvido.
Silêncio - também essa palavra ressoa pelo papel
e afasta
os ramos que a palavra 'bosque' originou.
Na folha branca se aprontam para o salto
as letras que podem se alojar mal
as frases acossantes,
perante as quais não haverá saída.
Numa gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho semicerrado
prontos a correr pena abaixo,
rodear a corça, preparar o tiro.
Esquecem-se de que isso não é a vida.
Outras leis, preto no branco aqui vigoram.
Um pestanejar vai durar quanto eu quiser,
e se deixar dividir em pequenas eternidades
cheias de balas suspensas no voo.
Para sempre se eu assim dispuser nada aqui acontece.
Sem meu querer nem uma folha cai
nem um caniço se curva sob o ponto final de um casco.
Existe então um mundo assim
sobre o qual exerço um destino independente?
Um tempo que enlaço com correntes de signos?
Uma existência perene por meu comando?
A alegria da escrita.
O poder de preservar.
A vingança da mão mortal."
(Do livro Poemas de Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien, publicado pela Companhia das Letras.)
Vai beber da água escrita
que lhe copia o focinho como papel-carbono?
Por que ergue a cabeça, será que ouve algo?
Apoiada sobre as quatro patas emprestadas da verdade
sob meus dedos apura o ouvido.
Silêncio - também essa palavra ressoa pelo papel
e afasta
os ramos que a palavra 'bosque' originou.
Na folha branca se aprontam para o salto
as letras que podem se alojar mal
as frases acossantes,
perante as quais não haverá saída.
Numa gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho semicerrado
prontos a correr pena abaixo,
rodear a corça, preparar o tiro.
Esquecem-se de que isso não é a vida.
Outras leis, preto no branco aqui vigoram.
Um pestanejar vai durar quanto eu quiser,
e se deixar dividir em pequenas eternidades
cheias de balas suspensas no voo.
Para sempre se eu assim dispuser nada aqui acontece.
Sem meu querer nem uma folha cai
nem um caniço se curva sob o ponto final de um casco.
Existe então um mundo assim
sobre o qual exerço um destino independente?
Um tempo que enlaço com correntes de signos?
Uma existência perene por meu comando?
A alegria da escrita.
O poder de preservar.
A vingança da mão mortal."
(Do livro Poemas de Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien, publicado pela Companhia das Letras.)
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