sábado, 2 de abril de 2016

Doxomania

Glória a Deus, sim,
E que um pouquinho dela
sobre para mim.

Um trecho de Juan José Saer

"O instante, respeitado amigo, é morte, só morte. O sexo, o vinho e a filosofia, ao arrancar-nos do instante, preservam-nos, provisórios, da morte."

(De As nuvens, tradução de Heloisa Jahn, edição da Companhia das Letras.)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

21h54

O amor enterra seus dentes em nossa nuca, nos sacode, nos sangra, nos mata. Depois nos leva com cuidado para fora, passa a língua nas patas e retira de si qualquer vestígio nosso.

21h42

O amor é gentil. Quando passa pela calçada na qual estamos largados como um pombo agonizante, usa a habilidade com que lança seus perdigotos para, se algum nos atingir, que seja só de raspão, em nome dos bons tempos.

21h33

Confiávamos em que o amor nos mataria. Faz tempo, já. Alguns anos. Foi uma confiança vã. O amor nos estropiou e nos largou na calçada, naquele ponto em que nunca bate sol. Temos frio e fome. Mas, se dependermos dele, viveremos eternamente. Ele nos quer assim, estropiados.

Natureza-morta (para Patricia Mesquita)

Na mesa, o sol mastigando um pão amanhecido.

Ladainha

Abri a janela
e ouvi do sol
a mesma rima
e a antiga balela:
a vida é bela.

Tabuinha

O que não me dói
não me representa.
O que não me falta
não me acrescenta.

Soneto em que mais uma vez se amaldiçoa o amor

Abraçado ao meu rancor,
Deitei-me na cama fria
E, triste com o que dizia,
Maldisse o nome do amor.

Senti-me falso, farsante,
Eu, que do amor tinha sido
Parceiro tão decidido
E tão dedicado amante.

Mandei-o ao diabo, ao inferno,
Mas logo, em meu tom mais terno,
Chamei-o de amor amado.

Assim calei a razão,
Como se fosse eu, e não
Somente o amor o culpado.

Um poema de Giorgios Seferis

"Este corpo que aspirava a florir como um ramo,
Carregar-se de fruto, tornar-se flauta no gelo,
Imergiu-o num enxame rumoroso a imaginação
Para que passe, e o prove, o tempo músico."

(De Poemas, tradução de Darcy Damasceno, publicação da Editora Delta.)