Burla flagrante:
o homem inventou Deus
para ter um pai importante.
Jamais aceito encomendas
E abomino compromissos.
Rejeito pautas e agendas,
Sou do time dos omissos.
Se o mundo dá gargalhadas
E explode em satisfação,
Não é pelas minhas piadas
E nem é por minha ação.
E, se o mundo está à morte,
Não espere que o conforte,
Porque não me moverei.
Por ser figura apagada,
Na corte não mando nada.
Nem bobo sou e nem rei.
Os leitores estranham quando sabem que tenho quatrocentos sonetos escritos. Quero dizer, em minha defesa, que os recebi praticamente prontos. Uma voz misteriosa os ditou. Só tive o trabalho de piorá-los.
Há quem goste deles. Eu, não. Eu acho que é melhor andar só do que acompanhado por um provérbio.
Hoje ele sabe que era mesmo de Deus a voz que, num sonho, há sessenta anos, prometendo-lhe fortuna e glória, o incitou a ser poeta. Nesta madrugada, Deus lhe apareceu outra vez e lhe pediu perdão.
Tão doce é mister Parkinson comigo
E tão bem, sempre, insiste em me tratar.
Posso eu, sem ser ingrato, duvidar
Quando ele diz ser meu melhor amigo?
Enquanto o homem caminhava pelo bairro, a lembrança de alguns de seus pecados constrangeu-lhe tão fortemente o peito que ele começou a chorar. Pediu perdão e repentinamente se abriu na rua um magnífico arco-íris. Agradeceu ao Senhor e imediatamente precisou pedir-Lhe outra vez perdão. Observando o êxtase com que um menino fitava também o céu, teve vontade de sufocá-lo. Era mais uma das ocasiões, tantas, tantas, em que algo destinado a ele, exclusivamente a ele, lhe era assim insuportavelmente furtado.
Se a caravana passou
e nós estamos aqui,
a nossa parte façamos:
uivemos e latamos,
que o que nos resta
é uivar e latir.
Que por seus bloqueios, breves ou duradouros, não praguejem contra Deus os escritores. Ele às vezes atende às preces dos leitores.