Que não venha ninguém a se enganar.
Se me perguntam, digo quem eu sou
E ajo como se fosse, mas estou
Tão morto quanto um vivo pode estar.
Que não venha ninguém a se enganar.
Se me perguntam, digo quem eu sou
E ajo como se fosse, mas estou
Tão morto quanto um vivo pode estar.
É mais penoso do que comovente ver um oitentão tropeçando, cambaleando e caindo, em suas tentativas cada vez mais canhestras de honrar um compromisso que um garoto, não mais do que isso, assumiu seis décadas antes com a literatura.
Há muito não sabe dos amigos. É um alívio. Não precisa ficar pensando no que diria se lhe perguntassem como anda aquele antigo projeto literário.
Com oito décadas de vida, seis delas dedicadas aos sonetos, passou a ser chamado de Sua Magnífica Obsolescência.
https://rubem.wordpress.com/2022/12/25/os-sonetos-e-as-mulheres-raul-drewnick/
Cheguei a ter alguma relação com a literatura. Foi há muito tempo. Eu era pouco mais que um menino. Não me lembro muito bem dessa época. Mas posso lhes dizer que ela jamais me tratou como deve ter tratado o menino William Shakespeare.
Lutou, sofreu, empenhou-se,
Gastou-se todo em buscar
O que a vida não lhe trouxe
Nem a morte vai lhe dar.
Não brinque com a Morte
melhor nem tentar
Você lhe dá o dedo
ela exige a mão
você lhe dá a mão
ela agarra o braço
e o outro braço
e tudo mais
que você queira
ou não lhe queira dar
A Morte é uma molecona
que não sabe brincar.
Alguém nos pedirá que não nos preocupemos, que logo estará tudo bem, e nossos lábios talvez não consigam dizer uma palavra. Caberá então aos olhos, também cansados, exprimir nosso último gesto de gratidão.
Toda manhã o velho etimologista abre a janela e cumprimenta o sol. Nos dias normais, diz olá, Hélio; naqueles em que se sente mais bem-disposto, diz salve, salve, Helinho.