terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Herói

 Sou um desses homens cuja única façanha é viverem cem anos e não terem nenhuma para contar.

Testemunha

 Se você quer saber se vivo bem, se vivo mal, se vivo realmente, pergunte aos meus advérbios.

De mar e de gaivotas

 Esta madrugada, um sonho alheio perdeu o rumo e apresentou-se como se fosse um dos meus. Dez ou doze gaivotas, loucas de alegria, vieram chamar-me. Pude apenas sorrir para elas. Logo se deram conta do engano e foram procurar um menino que na praia as esperava, ansioso para brincar.

Companheiros

 Vai se identificando tanto com o sofá em que passa seu tempo derradeiro que também já não responde quando lhe desejam um bom dia.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Prévertiana

 Por uma exigência de rima

o príncipe de taranto 

morava no castelo de otranto

mas não era seu dono

só da metade

se tanto

porque o outro tanto

a outra metade

 pertencia aos fantasmas

que  desde prisca idade

fugidos  da Inglaterra

assombravam a herdade.

Decisão

O jovem poeta,  que às dez e meia decidiu tornar-se um clássico, às dez e quarenta estava tratando o cachorro por vós.

 Chamem-me, por favor, só quando eu estiver tão longe que chamar-me seja nada mais que uma gentileza devida à boa educação.

Glória

Era um poeta cuja melhor metáfora era uma cópia quase perfeita de uma frase de um primo alfaiate. 

Disfarce

 Tenho alma de esmoler. Se alguém se aproxima, escanteio meu sorriso e coloco meu chapéu e meu coração ensanguentado de mercurocromo na calçada.

Namoro

 No dia em que se declarou à poesia, sentiu medo de não lhe agradar. Era pouco mais que um menino, conhecia dois ou três adjetivos além de feio e bonito e sua única forma de expressar o mundo eram o ranho e as lágrimas.