Me acolhe, mar, me acalenta,
Me traz um sono profundo,
Me embala, e me leva lenta,
Lentamente para o fundo.
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Beckett
Em Beckett, quem toca a (in)ação não são protagonistas, nem personagens. Talvez pudéssemos chamá-los de pessoas, se em algum momento eles fizessem algum esforço para agradar-nos. Beckett é antiépico, anti-heroico, sufoca a esperança em cada frase e nos faz um convite que relutamos em aceitar: o de nos reconhecermos naqueles vagabundos, naqueles maltrapilhos que, com o peso incontornável da regra, nos mostram como são inúteis e grotescos todos os sonhos de grandeza e glorificação. O homem é isso, embora quiséssemos que não. Godot jamais virá e, se vier, só confirmará essa regra. Virá comendo um pão sujo, rodeado de moscas.
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Esquina
Por alguns trocados
ela te dá
o que quiseres
o que outras mulheres
nem sempre te dão
Ela é boa
te toca a braguilha
a desabotoa
te afaga a virilha
e geme em mis e fás
conforme te apraz
Não lhe conheces o nome
nem o apelido sequer
saber o dela tu não queres
saber o teu ela não quer
És homem só
e ela só mulher
ali na cama
onde nenhum dos dois ama
nem essa é a pretensão
dos corpos enlaçados
atados pelo suor
pelo tédio da noite
pela tristeza
por alguns trocados
e pela solidão
ela te dá
o que quiseres
o que outras mulheres
nem sempre te dão
Ela é boa
te toca a braguilha
a desabotoa
te afaga a virilha
e geme em mis e fás
conforme te apraz
Não lhe conheces o nome
nem o apelido sequer
saber o dela tu não queres
saber o teu ela não quer
És homem só
e ela só mulher
ali na cama
onde nenhum dos dois ama
nem essa é a pretensão
dos corpos enlaçados
atados pelo suor
pelo tédio da noite
pela tristeza
por alguns trocados
e pela solidão
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No Centro
Em dias de sol, é bom estar subindo a rampa que leva do metrô Vergueiro ao Centro Cultural. Os edifícios, ouro de São Paulo, refulgem e gosto de vê-los soltando suas faíscas. Às vezes me lembro de que em um deles, certa manhã, me deram um diagnóstico que transtornou minha vida. E recordo a tarde em que fiquei esperando em vão alguém que poderia ter mudado tudo em meu caminho, naquele dia e em todos os outros. O sol purga tudo, faz de tudo um presente luminoso. Lá dentro, na biblioteca circulante, esperam-me o desolador Beckett, o sombrio Dostoiévski, a desesperançada Sylvia. Pego-os e saio de novo para o sol, como se as tristezas e os dramas existissem só nos livros.
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Vagão
Sento-me no banco azul dos idosos e não ouso olhar para os jovens. Alguns deles, três ou quatro, sorriem para mim. São os que sentem comiseração ou foram instruídos a fingi-la. Os outros me ignoram, como mereço.
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Já então
Desde o começo sabias
Que eu era tolo e que não
Havia mais que ficção
Naquilo que prometias.
Que eu era tolo e que não
Havia mais que ficção
Naquilo que prometias.
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terça-feira, 30 de agosto de 2011
Cançoneta
Já tantas coisas passei,
Já tantas coisas vivi,
Já tanto amei, desamei,
Já tantas vezes morri.
Já tantas coisas vivi,
Já tanto amei, desamei,
Já tantas vezes morri.
A estrela
Restou ao amor
recolher seus ossos
seus destroços
e enquanto os recolhia
perguntar ao coração
aquele velho estúpido
onde estava afinal
naquele lixo que fedia
a estrela que desde o início
ele jurava
que existia
recolher seus ossos
seus destroços
e enquanto os recolhia
perguntar ao coração
aquele velho estúpido
onde estava afinal
naquele lixo que fedia
a estrela que desde o início
ele jurava
que existia
Em extinção
Eu sou um daqueles tolos, um daqueles raríssimos homens que ainda definham e morrem de amor e se orgulham disso.
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