sexta-feira, 31 de agosto de 2012
O suspiro
Dois dos sete arqueólogos ainda duvidavam de que aquela fosse a ossada do Amor. Estavam apresentando seus contra-argumentos quando do feixe de ossos saiu um suspiro triste que eles, embora quisessem, não puderam considerar como um lamento da brisa nas árvores próximas da escavação.
Parcimônia
Não pensa nunca em orgia.
Poder o rosto pegar-lhe,
Poder a boca tocar-lhe,
Beijá-la, já bastaria.
Poder o rosto pegar-lhe,
Poder a boca tocar-lhe,
Beijá-la, já bastaria.
Bom dia
Se eu empilhasse todos os bons-dias que te dei, seria algo bonito de se apreciar. Mil folhas, três anos de bons-dias, um milhar de sóis, de rotações planetárias, de manhãs, de janelas abertas para a vida e para a efusão do afeto. Estão todas em pastas, datadas, catalogadas, guardadas com esmero, como joias que são. Todas são aparentemente iguais, mas só aparentemente. Cada uma tem algo que a diferencia de todas, assim como são distintas as folhas de uma árvore. Não sei quanto de uma árvore terá morrido para que elas chegassem à minha impressora. Mas elas, as folhas, sei que estão vivas e, se eu as pusesse diante de ti, elas se alegrariam em aparecer de novo ao sol e em dizer-te, cada uma, bom dia, bom dia, bom dia mil vezes, como se sobre elas não tivessem pesado nem o tempo nem os infortúnios da vida.
Tardiamente
Demorei demais para reconhecer. Quando eu me queixava de que estavas me matando, meu coração pulsava tanto e meus sentidos se aguçavam tão exaltadamente que eu deveria dizer que estavas me vivendo.
Aos tubarões
Sem esperança é melhor
Fechar a cortina
o micro
o celular
os ouvidos com tampões
e refugiar-se no sofá
com as pernas para cima
como se a sala alto-mar fosse
e estivesse sitiada por tubarões
Sem esperança é melhor
Sem esperança se pode ficar
assim levado pelas ondas
sem sonhos nem aspirações
Mas se uma gaivota vier
se uma brisa soprar
e houver no grito ou no sopro
uma insinuação de amor
ah com que bom ouvido a ouviremos
e como nos atiraremos
rapidamente aos tubarões.
Fechar a cortina
o micro
o celular
os ouvidos com tampões
e refugiar-se no sofá
com as pernas para cima
como se a sala alto-mar fosse
e estivesse sitiada por tubarões
Sem esperança é melhor
Sem esperança se pode ficar
assim levado pelas ondas
sem sonhos nem aspirações
Mas se uma gaivota vier
se uma brisa soprar
e houver no grito ou no sopro
uma insinuação de amor
ah com que bom ouvido a ouviremos
e como nos atiraremos
rapidamente aos tubarões.
Declaração
Não, eu não farei aquilo, ainda que todas as cordas prometam ser ternas ao meu pescoço, todas as lâminas gentis aos meus pulsos e todos os punhais doces ao meu coração. Se eu for morrer por ternura, por gentileza ou por doçura, que me mate uma mulher.
Aberração
Na literatura, não existe espécime mais disforme, aberratório e lastimável do que uma poesia prosaica.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Boa noite
Dizer boa noite parece simples, e é, quando se quer dizer só boa noite. Quando no dizer boa noite há, porém, uma aspiração de poesia, ainda que leve, uma sugestão de ternura, ainda que sussurrada, um desejo de dizer sedas, cetins, veludos, e uma ansiedade de proferir rosas, tulipas e girassóis - quando há tudo isso e tudo isso parece ainda pouco, dizer boa noite, só, é como nada dizer.
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Bom dia
Dizer-te bom dia como se eu fosse alguém que julgasses digno de dizer-te bom dia. Dizer-te bom dia como aqueles puros de coração que não precisam fazer um discurso quando dizem bom dia. Dizer-te bom dia como sempre se deve dizer bom dia - tão espontaneamente que às vezes nem é preciso dizer bom dia, basta um sorriso, e às vezes nem dele se precisa, embora seja sempre melhor dizer bom dia com um sorriso. Digo-te bom dia com um sorriso.
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