quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Lírica 1.240 - Corcel (versão final)

Na alma ele tem um cavalo
Que, quando pressente uma égua,
Revoluteia sem trégua
E luta até derrubá-lo.

Cavalo farejador,
Derrubador de porteiras,
Corcel que ignora fronteiras
Quando o chicoteia o amor.

Raízes

De origem humilde, conservou-se fiel às raízes porque jamais conseguiu vencer a própria mediocridade.

"Dezembro", de Ferreira Gullar

"Fora da casa
o dia mantém solidário
seu corpo de chama e de verdura

Dia terrestre,
falam num mesmo nível de fogo
minha boca e a tua."

(De Poemas de Ferreira Gullar, publicação da Global Editora.)

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Todos

O gato da sua vida
foi thomas um siamês
lalá uma angorá
tuquinha aquela gatinha
de raça desconhecida
e mais trinta e três.

Um toque, uma soneca

Um gato tem o dom de sacralizar objetos como uma bolinha de pingue-pongue ou um sofá. Basta um toque, uma soneca, e tanto a bolinha quanto o sofá se tornam peças do acervo sentimental de uma família, assim como aqueles fiozinhos de bigode guardados num envelope, junto com os primeiros cachinhos de filhos e netos.

Astúcia

Tão ladina e capciosa é a vida que pode, pondo diante de nossos olhos um passarinho para voar no céu azul, reconciliar-nos com ela.

Hierarquia

"Vó, Quem manda nas estrelas é Deus ou é a Lua?"

Hipótese

De dentro da caçamba subiu um impossível cheiro de rosa. A suspeita logo recaiu sobre o bloco de rascunho do poeta da casa amarela.

Vilão

Meninos
eu vi

Quando a barriga
do gato
começou a cantar
descobriram que dentro dela
morava um bem-te-vi.

"A adolescente", de Mario Quintana

"Arvorezinha crescendo...
           crescendo...
                      crescendo...
Até brotarem dois pomos!"

(De Eu passarinho, publicação da Editora Ática.)