quarta-feira, 29 de junho de 2016

Soneto do que merecemos

De tudo que nos couber,
Nos caiba sempre o menor,
O menos vistoso, o pior,
O que de mais tosco houver.

Que aquilo que recebermos
Sempre muito menos seja
E muito aquém sempre esteja
Daquilo que merecermos.

Seja em qual assunto for,
Principalmente no amor,
Não haja nisso exceção.

Não nos inveje ninguém
Por nosso suposto bem
Ou falsa satisfação.

Avant la lettre

Madame de Chantilly
praticava o bovarismo
antes de madame Bovary.

Opção

Pó é pó
isso é acaciano
tudo é igual no fim

Mas eu por mim
se pudesse escolher
escolheria ser um pó shakespeariano.

Circunstância

Para ver como são as coisas. Se eu conhecesse Beckett naquele tempo, talvez ainda estivesse esperando por Godot.

Um terceto de Georg Trakl

"À noite na varanda nos embriagamos de vinho escuro.
O pêssego arde avermelhado na folhagem;
Doce  sonata, riso alegre."

(De De profundis, tradução de Claudia Cavalcanti, edição da Iluminuras.)

terça-feira, 28 de junho de 2016

Nem pensar

Há textos meus que uma porção de escritores famosos não assinaria nem que o Diabo mandasse. Se Shakespeare está na lista? Claro. Ele principalmente. Shakespeare pode ter sido meio doido, mas não era nada burro.

Poeminha onomástico

Anda bem
quem anda ao sol
e também quem
sem nenhum sol
com Heloisa Buarque
de Hollanda.
     

Pequena ode a Mário Cesariny (versão final)

A amiga Priscylla me falou de ti
Mário Cesariny
e simpatizei com teu nome
igual ao de Sá-Carneiro
e o sobrenome com esse "y" final
tão chique tão francês tão inusual
sugerindo esta rima em "i"

No centro cultural vergueiro
(casa do teu xará Chamie)
buscando o milagre de um livro teu
não encontrei um mas três

Lá estavam fazia trinta
fazia quarenta anos
virgens intocados
e a mim Mário Cesariny
cabia essa mais que alegria
de fazer dar seus primeiros passos
no metrô na sua escadaria
esses já três velhinhos
esses três queridos Mariozinhos teus.

Mario Quintana

Em Mario Quintana o exercício da poesia era tão natural quanto a satisfação de sorrir e a arte de voar.

Soneto de quem és

Em ti cai bem a beleza
Como uma chuva num rio,
Como uma sombra no estio,
Como num rei a realeza.

És toda íntegra, total,
No teu ser, na tua essência,
No teu aspecto e aparência,
Em ti se unem real e ideal.

Para um homem que nasceu
Com a pretensão de cantar
O esplendor, assim como eu,

Que glória é glorificar-te
Como a um prodígio sem par,
Como a uma pura obra de arte.