segunda-feira, 31 de outubro de 2016
Covardia
Tão feia essa palavra: finados. Nós a usamos porque os destinatários não podem mais reagir.
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Literatura
Herói vilão
Vejo, com tristeza, o amor sendo destituído de todas as suas magias e poderes. Não há mais garotas suspirando nem garotos rabiscando poemas em bloquinhos. O amor é hoje um personagem estranho e é preciso preparar o ambiente para que, ao mencioná-lo, não estourem gargalhadas de zombaria. Pobre amor, merece ele isso, são justos todos esses sarcasmos? Dizem que ele não faz mais nascer flores. Mesmo que seja verdade, penso que estamos sendo impiedosos com ele. Poupemos nosso herói. Que ele, se já não faz nascer flores, possa ao menos fazê-las murchar romanticamente, melancolicamente, maravilhosamente, como devem morrer sempre as flores.
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Literatura
Fastio
Quem há de se importar
com o que pode hoje falar
um poeta com sua poesia?
Todas as metáforas
já foram usadas reusadas e catalogadas
e quando são chamadas mais uma vez
vêm bocejantes e amuadas
como a puta que
já pronta para descansar
tendo atendido 22
ouve tocar a campainha
vai abrir a porta do apartamento
para o gordo suarento e ofegante
e é claro que ele -
que tímido diante dela treme -
é o freguês número 23.
com o que pode hoje falar
um poeta com sua poesia?
Todas as metáforas
já foram usadas reusadas e catalogadas
e quando são chamadas mais uma vez
vêm bocejantes e amuadas
como a puta que
já pronta para descansar
tendo atendido 22
ouve tocar a campainha
vai abrir a porta do apartamento
para o gordo suarento e ofegante
e é claro que ele -
que tímido diante dela treme -
é o freguês número 23.
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Literatura
Um poema de Li Shangyin (813-858)
"Sempre difícil encontramo-nos, difícil, sempre, separarmo-nos
E murcha cada flor no vento que declina
Terminado que é o fio, morre na primavera o bicho-da-seda
A vela seca as lágrimas - quando já é só cinza
De madrugada, o espelho faz-me triste
Mudados nele os meus cabelos
A voz que canta na noite acorda o frio sentido do luar
Daqui não é longe... daqui à Ilha dos Imortais
Pássaro Azul, depressa, gostava de lhe dar uma espreitadela."
(De Uma antologia de poesia chinesa, tradução de Gil de Carvalho, edição da Assírio & Alvim, Lisboa.)
E murcha cada flor no vento que declina
Terminado que é o fio, morre na primavera o bicho-da-seda
A vela seca as lágrimas - quando já é só cinza
De madrugada, o espelho faz-me triste
Mudados nele os meus cabelos
A voz que canta na noite acorda o frio sentido do luar
Daqui não é longe... daqui à Ilha dos Imortais
Pássaro Azul, depressa, gostava de lhe dar uma espreitadela."
(De Uma antologia de poesia chinesa, tradução de Gil de Carvalho, edição da Assírio & Alvim, Lisboa.)
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Literatura
domingo, 30 de outubro de 2016
20h38
Trouxe meu domingo e vim mofar com ele aqui na loja. Estive com as portas fechadas desde que cheguei, de manhã. Escureceu agora e não posso acender a luz - vá o fiscal passar e me aplicar multa por trabalhar em dia proibido e hora inapropriada... Debruçado sobre a mesa, espero o momento em que o cochilo me levará ao sono. Dormir tem sido o único remédio para o meu coração. Coração!... Há alguém mais que ainda use essa palavra? Deus, homens ingênuos e ridículos como eu deveriam morrer na adolescência, com um poema entalado na garganta e a limpidez ainda não maculada dos olhos azuis.
Contraste
Nos últimos tempos, aqueles em que começou a registrar suas memórias, o escritor sentia-se fatigado até ao mover uma vírgula do fim para o início de uma frase. E era um triste contraste esse, o cansaço - justamente quando ele, no primeiro capítulo, rememorava suas travessuras de menino.
Sentido
Se alguém diz que a literatura é o seu pão de cada dia, quase certamente está se referindo a pão no sentido espiritual.
A verdade
De todas as nossas perdas, nenhuma é tão irreparável quanto a da juventude. Não há bem nem sabedoria que possam compensá-la. Prazeres espirituais, êxtases místicos? Balelas, balelas. E, para que fique bem claro: balelas, balelas, balelas.
Credencial (para Diego Moraes e Marcelo Mirisola)
Você não precisa do atestado de louco para ingressar na literatura. Em pouco tempo ela lhe providenciará um, lavrado pela mesma esmerada letra em que qualquer grafólogo reconhecerá traços iguais aos encontrados nos manuscritos de Satanás.
Um haicai
Um haicai não é produto nem da meditação nem da imaginação. Um haicai é um desses frutos que a natureza oferece ao poeta. Vem pronto para ser colhido e, para que não se duvide da sua origem, traz sempre uma gota de orvalho ou um halo de sol.
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