domingo, 30 de abril de 2017
Sobre a verdade
Esperar que a verdade seja revelada por um poeta é depreciá-lo. A verdade é presumivelmente autossuficiente e maçante, e nem os filósofos se importam mais em descobri-la, embora mantenham seu ar empertigado e seus livros em quintas e sextas edições. Depois que surgiu o conceito de utilidade, qualquer parafuso ou arruela precisam responder para que servem. O que a verdade, se quisesse nos convencer, alegaria em sua defesa?
O grande erro
Repugna-me recordar ocasiões em que vi o amor com olhos que não eram estritamente os do espírito. Se lhe damos nomes, o amor começa a morrer quando passamos a gritá-los em noites de febre. O amor, se por algum nome for chamado, que seja por um que a brisa possa dizer numa manhã de sol, num parque.
Simples assim
Que delícia foi ouvir hoje, na feira, o vendedor responder que os caquis estavam docíssimos. Um pedante como eu teria dito dulcíssimos.
Rancor
Ela não me perdoou por eu lhe ter dito que jamais alguém a veria tão bela quanto a vi naquela manhã.
De novo
Deixou a chuva molhar seus lábios antes de dizer a palavra amor novamente com esperança, não mais toda a inicial, mas alguma - ainda que tão ineficaz como todas as outras.
Um trecho de Nabokov
"Era comum aconselhar-se a todos os jovens escritores que evitassem a aliteração, e o conselho era válido para evitar seu uso exagerado. Não obstante, era em essência um disparate abominável, mero delírio do mais cego dos cegos. A beleza do conteúdo de uma frase depende implicitamente da aliteração e da assonância. A vogal exige ser repetida; a consoante exige ser repetida; e ambas clamam para serem eternamente variadas."
(De Lições de literatura, tradução de Jorio Dauster, Editora Três Estrelas.)
(De Lições de literatura, tradução de Jorio Dauster, Editora Três Estrelas.)
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