sábado, 2 de outubro de 2010

Lírica (808) - Logro

Ah, como tu me enganaste.
Disseste-me que eras triste
E, quando me conquistaste,
A máscara desvestiste.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Lírica (807) - Crença

Tu dizes que, quando me conheceste, eu não era tão triste. E eu te digo que, então, conheceste outro. Nunca fui triste por pose ou circunstância. A tristeza é a minha fé, a minha crença, a minha única convicção. A tristeza é a minha amarga e almejada superioridade. Não tenho desdém pelo riso. Desdém é pouco. Tenho escárnio, tenho ódio, tenho rancor. Uma gargalhada me convulsiona o estômago e me apunhala a alma. Se gostei de ti, não foi por alguma alegria que terei visto em teu rosto, mas por alguma tristeza profunda que adivinhei em algum gesto teu, ou palavra, e que, porque sempre quis te ver melhor do que pudesses ser, almejei que fosse uma tristeza maior e mais insuportável do que a minha. Jamais desejei dividir risos contigo, jamais colher flores, jamais compartilhar os infames passos de um bolero. Desde o início eu te quis triste, eu te quis desesperada, eu te quis discípula e sacerdotisa do único credo capaz de tirar de nosso rosto aquele sorriso estupidamente aberto que, em retratos de família, exibe a saudável mediocridade que nos disseram ser a marca de nosso destino. Penso que em todo sorriso se há de ver uma sombra, ainda que leve: a consciência que temos da morte. Não há como ignorá-la. Que ridículos são aqueles mortos que riem escancaradamente nas orelhas dos livros que escreveram. Por isso, por essas coisas todas, creio na tristeza, na loucura a que ela nos leva e na redenção que ela nos traz. Abomino o riso, a chacota, a piada e a ironia, e exalto o cilício, e o silêncio, e o martírio, e os tormentos da alma, amém.

Lírica (806) - Maturidade

Há um momento, no ocaso da vida, em que tudo que nos sucedeu, o bom e o mau, o alegre e o triste, o aflitivo e o consolador, nos parece sem importância. É o que dizemos, mas nem nós acreditamos nisso. Como gostaríamos de viver tudo de novo, e mais intensamente, como nos agradaria sentir outra vez a carne e a alma dilaceradas pelo amor, pela sua febre, pela sua doçura e pelo seu veneno, pela sua entrega e pelo seu desdém. Que maravilhoso seria sentirmos isso - e não esta apatia, esta morte em vida que, mentirosos, chamamos de maturidade.

Lírica (805) - Escritor

Ele, que havia proclamado sempre o poder das palavras, levava debaixo do braço, naquela manhã, uma prova do que sempre afirmara. No laudo do laboratório, havia uma palavra que a partir daquele momento decidiria sobre a sua vida ou a sua morte.

Lírica (804) - Pés

Ninguém lhes dá atenção, mas eles é que a fazem girar em torno do sol e caminhar sob a lua e as estrelas, como mais um legítimo e talvez até mais raro fenômeno da natureza. Por isso é que, antes de se deitar, ela, sentada na cama, passa entre eles as mãos agradecidas e deixa entre os dedos um sopro, quase um beijo, um acalanto para que descansem e de manhã estejam outra vez prontos para a doce fadiga de lhe conduzir a beleza.

Lírica (803) - A lição

Aqueles caminhos que me indicaste, Virginia, não pude segui-los. Eram inacessíveis para mim. Eram seus, seus apenas. Mas aquele outro caminho, o derradeiro, aquele que seguiste e exige não propriamente coragem mas certo desapego à vida, e nenhum talento, talvez seja uma lição que até alguém como eu possa assimilar.

Lírica (802) - Praia

O pequeno peixe estava morto, mas o menino não sabia e o lançou de novo às ondas. Depois, sentou-se e começou a encher seu balde com areia e água. Não viu, mas no meio dessa areia e dessa água estava o peixe, que o mar havia novamente rejeitado. Ele imaginava o peixinho já perto de um navio que, apesar do nevoeiro, era possível ver no horizonte.

Lírica (801) - Extremos

Enquanto a insana paixão
Sem tréguas o consumia,
Ela, invocando a razão,
Levava em banho-maria.

Lírica (800) - Pra quê?

Gastar palavras, falar
De orvalho, rosa, arrebol,
De mar, crepúsculo, sol,
Proclamar anseios loucos,
Cantar para ouvidos moucos,
Amar quem detesta amar?

Lírica (799) - Engano

Tolo, eu pensava que as doces
Palavras que te dizia
Seriam as que tu fosses
Dizer-me também, um dia.