segunda-feira, 4 de julho de 2011
Dois versos de Olavo Bilac
Há versos tão maravilhosamente escritos, com tamanho fulgor, que os outros versos do poema em que estão parecem pedir desculpas a eles e como que se encolhem, sentindo-se ouropéis. Os parnasianos, que perseguiram a perfeição formal, fizeram alguns desses versos ímpares. Olavo Bilac, o mais bem-sucedido deles, em muitos dos seus sonetos conseguiu o milagre de juntar catorze desses versos dourados. O soneto Vila Rica é um exemplo disso. É ouro puro, do início ao fim, mas dois de seus versos, tomados isoladamente, são ainda mais ouro que todos os outros. "O ângelus plange ao longe em doloroso dobre" é um. O outro é: "Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove."
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Literatura
domingo, 3 de julho de 2011
Abstêmio
Como um bêbedo em recuperação, ele, desde o rompimento, conta os dias, as horas e os minutos em que não vê a amada e nem com ela se comunica. Sonha com ela às vezes e, quando acorda, recrimina-se pela alegria que o sonho lhe dá e imediatamente se recompõe em sua obstinação. Durante o dia, quando anda pelo centro da cidade, muda de calçada ora aqui, ora ali, para se esquivar de certas lembranças, e, em casa, não passa nunca a menos de um metro de determinada gaveta. O plano vai dando certo já há dois dias, três horas e catorze minutos.
Novamente
Num longo dia de inverno,
Sentindo-te muito triste,
Saudoso de um amor terno,
O teu coração abriste.
E nesse instante pensaste
Que novamente podias
Desfrutar qual desfrutaste
O doce fruto dos dias.
E, alheio às velhas lembranças
E às finadas esperanças,
Tu te abriste para as novas.
Mas também estas murcharam
E tuas mãos as levaram,
Como as outras, para as covas.
Sentindo-te muito triste,
Saudoso de um amor terno,
O teu coração abriste.
E nesse instante pensaste
Que novamente podias
Desfrutar qual desfrutaste
O doce fruto dos dias.
E, alheio às velhas lembranças
E às finadas esperanças,
Tu te abriste para as novas.
Mas também estas murcharam
E tuas mãos as levaram,
Como as outras, para as covas.
Olhando para o céu
Deitada de costas na grama, ela olha para as estrelas e a lua, tentando esquecer-se do homem que arfa sobre ela e que em cada estocada lhe repete, boca sobre boca, uma palavra com a qual imagina excitá-la e que ela procura não ouvir: puta, puta, puta, puta. Ela continua olhando para o céu e, como em outras recentes noites no parque, nota que nem a lua nem as estrelas parecem as mesmas de sua infância.
Maternidade
Com a brisa chegou uma canção morna, macia, maliciosa, que faz a velha árvore suspirar, lembrando seus primeiros dias no parque, e seus frutos, como tetas, se põem a doer prazerosamente.
Paisagem sem nu
Buscando aquela que ontem ali se banhou, o vento sopra uma carícia impaciente, que arrepia a pele do lago.
sábado, 2 de julho de 2011
O enforcado
Dizem que no último inverno, num galho daquela árvore, um rapaz pelo amor rejeitado se enforcou. Às vezes alguém ainda pergunta ao zelador do parque se é verdade e visitantes mais minuciosos desejam saber qual foi o galho no qual o jovem se matou. Para esses, o zelador diz sempre: "É aquele ali, aquele onde o sol nunca brilha e onde nenhum passarinho pousa."
Teu tempo
Que sobre o tempo vivido,
E os sonhos e as esperanças,
E as más e as boas lembranças
Se teça a sombra do olvido.
E que ao teu cansado ouvido
Não cheguem jamais as danças,
Os cantos, as contradanças
Daquele tempo perdido.
Viveste, mas teu momento
Agora é o do esquecimento,
Do nunca mais, do jamais.
Rolaram já tuas águas,
Trouxeram-te risos, mágoas,
Que morram todas no cais.
E os sonhos e as esperanças,
E as más e as boas lembranças
Se teça a sombra do olvido.
E que ao teu cansado ouvido
Não cheguem jamais as danças,
Os cantos, as contradanças
Daquele tempo perdido.
Viveste, mas teu momento
Agora é o do esquecimento,
Do nunca mais, do jamais.
Rolaram já tuas águas,
Trouxeram-te risos, mágoas,
Que morram todas no cais.
Paleta
Só para vos entreterdes
Dar-vos eu vou os mais belos
Matizes, os amarelos,
Azuis, vermelhos e verdes.
Dar-vos eu vou os mais belos
Matizes, os amarelos,
Azuis, vermelhos e verdes.
O casarão
As duas garotas de uniforme escolar piscaram para ele na saída do metrô, uma delas disse hoje eu estou muito doida, até velho vai, a outra riu, ondulando as nádegas perversas, e com provocações fizeram com que as acompanhasse até um casarão que destoava da paisagem, onde, ao passar pelo portão, ele imaginou que tivesse se transformado num personagem de Nelson Rodrigues, enquanto de dentro vinham as lamúrias agudas de um tango e a gargalhada rouca da cafetina.
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