domingo, 2 de outubro de 2011
Pausa
A brisa, cansada, aninhou-se também na árvore com os pássaros e, como eles, dorme. Logo virá o sol e a manhã explodirá em canções.
Nem tempo
Aconteceu que, depois de tanto suplicar, ele foi abençoado pela morte, e tão fulminante e satisfatório foi o enfarte que ele nem teve tempo de agradecer.
Nesse dia
Um dia terei esquecido
as noites atormentadas
as madrugadas
em que minha alma
com obstinação te buscou
e minha imaginação
te encontrou
num bar sentada
com um barbudo
contador de lorotas
que escutavas encantada
ou com um tipo narigudo
idiota entre os idiotas
que se proclamava tesudo
e com expressões vis
dizia ter
um instrumento mágico
um portento
dez vezes maior que o nariz
Um dia terei esquecido
cada segundo
cada momento sofrido
em que te supunha
na cama arfando
raspando com a unha
o peito imundo
o corpo sujo
de um marujo
de âncora no braço
ferro no abraço
e hálito nauseabundo
Um dia terei esquecido
isso tudo
não mais clamarei
não mais chamarei por ti
meu único porto
Nesse dia
eu estarei mudo
nesse dia
eu estarei morto.
as noites atormentadas
as madrugadas
em que minha alma
com obstinação te buscou
e minha imaginação
te encontrou
num bar sentada
com um barbudo
contador de lorotas
que escutavas encantada
ou com um tipo narigudo
idiota entre os idiotas
que se proclamava tesudo
e com expressões vis
dizia ter
um instrumento mágico
um portento
dez vezes maior que o nariz
Um dia terei esquecido
cada segundo
cada momento sofrido
em que te supunha
na cama arfando
raspando com a unha
o peito imundo
o corpo sujo
de um marujo
de âncora no braço
ferro no abraço
e hálito nauseabundo
Um dia terei esquecido
isso tudo
não mais clamarei
não mais chamarei por ti
meu único porto
Nesse dia
eu estarei mudo
nesse dia
eu estarei morto.
Escravo
Tornou-se escravo do amor
E exibe as costas lanhadas,
As cicatrizes rasgadas,
Os ternos traços da dor.
E exibe as costas lanhadas,
As cicatrizes rasgadas,
Os ternos traços da dor.
sábado, 1 de outubro de 2011
Transgressão
Não a vê há dois anos, mas hoje a tocou. Relutou um pouco, mas a imaginação, a saudade e os dedos prestimosos prevaleceram. Sentiu-se triste depois de tocá-la e, se tivesse ainda o telefone dela, lhe pediria perdão, principalmente por se haver aventurado em uma parte do corpo que ela sempre, com obstinação, lhe recusara.
Árvore
Está numa idade em que lhe repugna exagerar no estilo. O arrebatamento vocabular, assim como tantas outras coisas, se dissipou com a juventude. A convenção diz que ele está na maturidade e deve proceder de acordo com ela. Ocorreu-lhe uma ideia que é uma espécie de resumo disso tudo: imaginando uma paisagem, um rio no qual uma jovem suicida se atirasse, ele não poderia ser a água engolindo dramaticamente o corpo. Poderia, no máximo, ser uma das margens, a menos expressiva das duas, ou nem isso: talvez apenas uma árvore não tocada pelo vento, assistindo calada ao ritual do corpo oferecido à morte, afundando e voltando, afundando e voltando, sob o olhar impassível do sol e dos pássaros emudecidos ainda pelo susto que o fragor do corpo, ao tocar na água, provocou.
Vendaval
A passagem dela na vida dele foi como um vendaval. Toda a paisagem sentimental dele foi destruída ou alterada. No início ele ficou estupefato, sem referências. Depois, aceitou a calamidade e, com o tempo, foi banindo as instigações da memória e já sente algo semelhante à satisfação. Em alguns momentos ainda é tentado a comparar os frutos que colhe agora com os antigos. Mas não é nada que o impeça de enterrar os dentes na polpa com gosto, como antes.
Sexo
Há de ser leve, como um sopro de brisa sobre as folhas, como uma sombra de nuvem sobre a relva ou como uma gota de chuva que por engano ou pudor cai sobre outra rosa, em outro jardim.
Febre
Pensar em você me dá uma doença morna, uma febre doce, um amolecimento, uma embriaguez tépida dos sentidos, uma entrega, uma rendição incondicional de vencido que, na entrega e na rendição, obtém o delicioso, o lânguido, o intoleravelmente deleitoso suplício dos que por amor se deixam derrotar.
Heterônimos
Pirandello narrou o tormento de um autor assediado por seis personagens que pensavam ter, cada um deles, uma história como jamais alguém havia tido para contar. Imaginem então Fernando Pessoa, acossado dia e noite por cento e tantos autores, quase todos tão bons quanto ele, que lhe pediam, suplicavam, exigiam: me escreve, me exprime, me mostra.
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