terça-feira, 18 de junho de 2013

Soneto dos verões restantes

Mesmo sendo inepto na arte
De contar as estações,
Penso ter, para louvar-te,
Mais quatro ou cinco verões.

São poucos, sei, e também,
Para cantar-te a beleza,
Não tenho nem a arte e nem
A necessária destreza.

Mas enquanto um sol houver
Eu te cantarei, mulher,
Com fogo ou com leve chama.

E, muito ou pouco, verás
Que tudo receberás
Daquele que tanto te ama.

Pacaembu

O grito de gol
na arquibancada
sacudiu o edifício
derrubou um vaso raro
da sacada do apartamento

Caro desperdício

No mesmo momento
o juiz ergueu o braço
e apitou impedimento.

Os quatro gatinhos

Eram quatro gatinhos
um feiinho
outro um pouquinho
mais feio
o terceiro feio
demais

O quarto
bonitinho
morreu
de doença pertinaz.

Um trecho de Katherine Mansfield

"Sobre os velhos mestres. O que eu sinto sobre eles (todos eles - escritores também, naturalmente) é que, quanto mais se vive com eles, melhor para nosso trabalho. É quase um caso de vivermos dentro de um mundo ideal - o mundo que desejamos expressar. Você sabe o que quero dizer? Por essa razão, acho que, se me apoio em homens como Chaucer e Shakespeare e Marlowe e até Tolstói, mantenho-me muito mais próxima daquilo que quero fazer, do que se confundir as coisas, lendo uma porção de homens menores. Gostaria de fazer dos velhos mestres meu pão de cada dia - no sentido mesmo em que é usado no Pai-Nosso -, fazer deles uma espécie de alimento essencial. Todo o resto - bem - vem depois.

(Do livro Diário & cartas, tradução de Julieta Cupertino, publicado pela Editora Revan.)

Um poema de García Lorca

"ENCONTRO

Nem tu nem eu estamos
em condição
de nos encontrarmos.
Tu... pelo que já sabes.
Eu a quis tanto!
Segue essa veredinha.
Nas mãos,
tenho os furos dos cravos.
Não vês como estou
dessangrando?
Não olhes nunca para trás,
vai devagar
e reza como eu
a São Caetano,
que nem tu nem eu estamos
em condição
de nos encontrarmos."

(De Poemas de amor de Federico García Lorca, tradução de Floriano Martins, publicado pela Ediouro.)

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Priscylla

Se ela não se chamasse Priscylla, ele acha que talvez fosse menor seu encanto. Ser Priscylla é parte do feitiço de que ele é uma vítima agradecida. Não sabe o que mais lhe agrada no nome. Tentou desvendar o mistério investigando sentimentalmente cada letra, mas, não chegando a nenhum resultado, descobriu que é o conjunto que o fascina: a primeira sílaba, o pris, subindo delicadamente até o cyl, permanecendo um instante no alto e descendo com suavidade pelo lla, como se precisasse descansar depois de executar tamanha beleza. Andou comparando Priscylla com outros nomes e quase se deixou seduzir por Letícia. Desistiu a tempo.

Quando ela...

... pisca, parece que uma estrela palpita.

Dizer boa noite...

... é, como tantas outras, uma coisa que já fez bem melhor.

Esgar

Pendia da trave, enforcado, e sorria como se a corda lhe fizesse cócegas.

Se um dia...

lhe der na veneta (favor consultar o dicionário de expressões arcaicas), entrará numa maratona. Ficará pelo menos vinte e quatro horas, sem descanso, escrevendo textos sobre o amor no blog. Não quer ser descoberto pelas redes sociais. Uma pessoa lhe basta.