terça-feira, 18 de junho de 2013
O meu país
Vejo e ouço os brados das multidões, pela tevê. O Brasil parece ter se redescoberto repentinamente e cada pedaço do país vibra. Falta só sair da gaveta a expressão "do Oiapoque ao Chuí". Talvez alguém tenha requerido patente e ela não possa ser usada sem o pagamento de direitos. Meu coração se entusiasma, na pequena parte de civismo que ainda conserva. Descobrir isso, esse pequeno território do amor ocupado pela noção de cidadania, me fez certo mal. Eu imaginava ter dado o coração inteiro ao amor. No jargão político antigo, eu sou um entreguista. Antes que me confundam, deixo claro, com uma frase que imagino ser de Taiguara: o amor é o meu país.
Assim como...
... qualquer outra riqueza, o amor, a maior de todas, é sempre deplorado quando acaba. Também o sol de uma tarde de verão, quando se vai, vai-se com lágrimas. Não deveria ser assim. Quem poderia garantir que o amor, se perdurasse, manteria seu brilho? E poderia por acaso o sol, um dia, impedir que a noite chegasse? Cantemos a riqueza enquanto ela durar - a do amor e a da natureza - e depois a conservemos em nossa memória agradecida.
Cartografia
Naquele dia
enquanto alguém com a mão
buscando o mútuo prazer
teu corpo percorria
eu tentava percorrer
com a imaginação
a mesma geografia
Naquele dia
talvez tenhas sentido
além do contato
da mão quente
o tato da mão fria
da minha frustração
e da minha agonia.
enquanto alguém com a mão
buscando o mútuo prazer
teu corpo percorria
eu tentava percorrer
com a imaginação
a mesma geografia
Naquele dia
talvez tenhas sentido
além do contato
da mão quente
o tato da mão fria
da minha frustração
e da minha agonia.
Soneto da única alegria
Se tu pudesses perdoar
As mágoas que te causei
E as que talvez haverei
Ainda de te provocar
Eu poderia explicar
Que sempre que te magoei
Foi apenas porque errei,
Não por querer-te magoar.
Querer magoar-te seria
Ferir a única alegria
Que até agora conheci
(Aquela que me mostraste,
Aquela que me ensinaste
E eu ainda não aprendi).
As mágoas que te causei
E as que talvez haverei
Ainda de te provocar
Eu poderia explicar
Que sempre que te magoei
Foi apenas porque errei,
Não por querer-te magoar.
Querer magoar-te seria
Ferir a única alegria
Que até agora conheci
(Aquela que me mostraste,
Aquela que me ensinaste
E eu ainda não aprendi).
Um trecho de Franz Kafka
"Ora, essa mulherzinha está muito insatisfeita comigo, sempre tem algo a censurar em mim, diante dela estou sempre errado e irrito-a a cada passo; se fosse possível dividir a vida em partes mínimas e cada partícula pudesse ser julgada em separado, certamente qualquer pedacinho da minha vida seria um aborrecimento para ela. Já me perguntei várias vezes por que a exaspero tanto; pode ser que tudo em mim contrarie o seu sentido de beleza, o seu sentimento de justiça, os seus hábitos, as suas tradições, as suas esperanças; existem naturezas que se contradizem desse modo, mas por que ela sofre tanto com isso? Não há nenhuma relação entre nós que pudesse forçá-la a sofrer por minha causa. Ela só teria que se decidir a me ver como alguém completamente estranho, o que aliás sou: não me oporia a essa decisão, mas a receberia muito bem; ela teria apenas que se decidir a esquecer da minha existência, que eu por sinal nunca impus ou imporia a ela - e todo o sofrimento sem dúvida acabaria."
(Do conto "Uma mulherzinha", do livro Um artista da fome, tradução de Modesto Carone, publicado pela Editora Brasiliense.)
(Do conto "Uma mulherzinha", do livro Um artista da fome, tradução de Modesto Carone, publicado pela Editora Brasiliense.)
Gostaria de...
embebedar-se de amor, chafurdar nele como se fosse o pior dos pecados, empapuçar-se, empanzinar-se dele, encharcar-se, degradar-se, desmerecer-se, ter gravada no peito a letra escarlate da desonra, ser apontado como usuário do amor, ser preso, encarcerado, levado a júri, condenado, degradado, degredado, posto num poste, apedrejado. Gostaria de, pelo amor, ser exorcizado, excomungado, amaldiçoado. E, morrendo de fome e sede num cárcere de segurança máxima, recusar pão, água e - por mais uma depravação inspirada pelo amor - alimentar-se só de rosas e beber só o leite dos lírios. Gostaria de babar e que, da baba da sua insanidade amorosa, nascessem borboletas brancas que aderissem às nuvens claras das manhãs.
Olhou-se hoje...
... no espelho e viu, com orgulho, que estão se acentuando os olhos encovados, as rugas, os lábios murchos, à prova de sorrisos, e todos os outros sinais que distinguem os viciados em amor.
O vento...
... me traz ainda uns restos de brados, de palavras de ordem, de gritos jovens acordando a velha democracia. Imagino sentir um pouco do cheiro daquilo que os jornais e as tevês chamam de bombas de efeito moral. Sinto que há um alvoroço novo no ar, uma expectativa. Não se sabe muito bem o que é, mas alguma coisa está enfim acontecendo. Gostaria de participar disso, seja lá o que for, mas há muito só tenho vida, alma e coração para um sentimento que tem também suas batalhas, seus clamores e seu burburinho, mas que eu, egoísta, não divido com ninguém. As poucas forças que ainda tenho estão todas à disposição desse sentimento. Que os outros fiquem com a liberdade, a justiça, a honra, a verdade. A mim me bastaria o amor e, se ainda ergo o mutilado estandarte, é por ele, e só por ele.
O sobrevivente
Das lutas pelo amor
ele sempre volta feliz
Cansado
ferido
estropiado
vencido
Mas olhando
para ele
para o rosto ensolarado
ninguém diz.
ele sempre volta feliz
Cansado
ferido
estropiado
vencido
Mas olhando
para ele
para o rosto ensolarado
ninguém diz.
Revolucionário
No tumulto da passeata, com vinte mil manifestantes, ele é o único original. Vai gritando vivas ao amor, enquanto pensa nas primeiras estrofes da ode revolucionária que escreverá: Tributo a Priscylla.
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