Amar a vida, exaltá-la,
Mentir a torto e a direito,
Não lhe encontrar um defeito,
Louvá-la sempre, cantá-la.
terça-feira, 1 de abril de 2014
Aquele momento
Chega um momento em que não
Se espera nada de nada,
Em que a vida é uma maçada,
E a morte, uma aspiração.
Se espera nada de nada,
Em que a vida é uma maçada,
E a morte, uma aspiração.
Soneto do beijo único
Um beijo, minha guria,
Um beijo que tu me desses,
Valeria minhas preces
E toda a minha agonia.
Um beijo, um só, pagaria
Todas as tuas promessas,
Aquelas tantas, mais essas,
Que ainda fazes, dia a dia.
Um beijo teu, carinhoso,
Me faria tão ditoso,
Um beijo, não mais, um só,
E eu poderia esquecer
Que meu destino é morrer
Antes de tornar-me pó.
Um beijo que tu me desses,
Valeria minhas preces
E toda a minha agonia.
Um beijo, um só, pagaria
Todas as tuas promessas,
Aquelas tantas, mais essas,
Que ainda fazes, dia a dia.
Um beijo teu, carinhoso,
Me faria tão ditoso,
Um beijo, não mais, um só,
E eu poderia esquecer
Que meu destino é morrer
Antes de tornar-me pó.
Soneto do que dizer à Morte
Que eu possa à Morte dizer,
No dia em que ela chegar,
Que, ansioso para morrer,
Eu me cansei de esperar.
E que cheguei a temer,
A ponto de me alarmar,
Que, por um erro ocorrer,
Não me viesse ela buscar.
E irei pedir-lhe perdão
Por não ter me antecipado
E não ter, sendo um poltrão
E um refém da covardia,
A ela inteiro me entregado,
Mais cedo, quando podia.
No dia em que ela chegar,
Que, ansioso para morrer,
Eu me cansei de esperar.
E que cheguei a temer,
A ponto de me alarmar,
Que, por um erro ocorrer,
Não me viesse ela buscar.
E irei pedir-lhe perdão
Por não ter me antecipado
E não ter, sendo um poltrão
E um refém da covardia,
A ela inteiro me entregado,
Mais cedo, quando podia.
Soneto do encontro
Havia de ser proibido,
Como um segredo arrancado,
Um mausoléu arrombado
Ou um patriarca ofendido.
Havia de ser pecado,
Como um resgate exigido,
Um depoimento extorquido
Ou um arcanjo violado.
Se fosse, nos disporíamos
A pecar e pecaríamos.
Mas tu, tola, e eu, bobalhão,
Nada de nada fizemos:
Todo o prazer que nos demos
Foi um beijo de ocasião.
Como um segredo arrancado,
Um mausoléu arrombado
Ou um patriarca ofendido.
Havia de ser pecado,
Como um resgate exigido,
Um depoimento extorquido
Ou um arcanjo violado.
Se fosse, nos disporíamos
A pecar e pecaríamos.
Mas tu, tola, e eu, bobalhão,
Nada de nada fizemos:
Todo o prazer que nos demos
Foi um beijo de ocasião.
Condiscípulos
O amor e a vida são da mesma escola.
Quando vier a penúria mais doída,
O amor não te dará nem uma esmola,
Nem um abraço te dará a vida.
Quando vier a penúria mais doída,
O amor não te dará nem uma esmola,
Nem um abraço te dará a vida.
Ele passarinho
Às vezes o passarinho Mario Quintana se transformava em homem, mas demorava um pouco para perceber e continuava a gorjear.
Quem conta um conto
Na cama, em dia inspirado,
Consegue às vezes um coito -
Um coito que recontado
Vira quatro, cinco ou oito.
Consegue às vezes um coito -
Um coito que recontado
Vira quatro, cinco ou oito.
Balança
A um homem nunca se negue
O irrefutável direito
De que Deus o traga ao peito
E de que o Diabo o carregue.
O irrefutável direito
De que Deus o traga ao peito
E de que o Diabo o carregue.
"A branca de neve", de Guillaume Apollinaire
"Os anjos lá no céu
Um vestido de oficial
Um vestido de avental
E os outros cantam
Da cor do céu belo oficial
Doces primaveras bem depois do Natal
Te medalhará de um belo sol
De um belo sol
Depena o cozinheiro gansos
Ah! caia neve
Caia e não tenho
A bem-amada entre os meus braços."
(Do livro Álcoois, tradução de Mario Laranjeira, publicado pela Hedra.)
Um vestido de oficial
Um vestido de avental
E os outros cantam
Da cor do céu belo oficial
Doces primaveras bem depois do Natal
Te medalhará de um belo sol
De um belo sol
Depena o cozinheiro gansos
Ah! caia neve
Caia e não tenho
A bem-amada entre os meus braços."
(Do livro Álcoois, tradução de Mario Laranjeira, publicado pela Hedra.)
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