Com três meses de casa, o fantasma não impunha mais nem respeito nem temor. Farrista, passava as noites fora e voltava só de manhã, a tempo de tomar o café com a família. O gato sentava-se no seu colo, para pedinchar biscoitinhos, e o bebê o chamava de tio James.
quarta-feira, 18 de maio de 2022
terça-feira, 17 de maio de 2022
Da graça e das desgraças
Agora que findaram já os dias
De nossa antiga bem-aventurança
E morreram as nossas alegrias
E se esqueceu de nós toda a esperança,
O que talvez possamos estranhar
Não é Deus nos haver abandonado,
Mas ter, podendo tudo nos negar,
Nos dado tudo quanto nos foi dado.
domingo, 15 de maio de 2022
Hoje na revista Rubem
https://rubem.wordpress.com/2022/05/15/da-periculosidade-dos-sonetos-raul-drewnick/
quinta-feira, 12 de maio de 2022
Altivez
Verdade se diga: os chatos costumam ser modestos; se os chamamos de enfadonhos ou paulificantes, recusam a honraria.
quarta-feira, 11 de maio de 2022
Soneto de quem luta até o fim
Fomos guerreiros. Sempre que chamados,
E mesmo quando não, jamais fugimos,
Dos combates jamais nos eximimos
E sempre nos mostramos preparados.
Vivemos para ter e conquistar,
Para o brilho, a excelência, a majestade,
E tendo os olhos na posteridade
Demos os passos que pudemos dar.
Foi tudo parco, pouco, inútil, vão.
Alguns guerreiros vencem, outros não,
Desde o início devíamos saber.
Tardou, mas hoje cada um de nós sabe
Que nos coube o que aos tolos sempre cabe:
Lutar sem fraquejar, até perder.
terça-feira, 10 de maio de 2022
Gentileza
Mister Parkinson tem educação.
A tudo que lhe peço, cortesmente
Ele responde pronta e claramente
Que sente muito me dizer que não.
segunda-feira, 9 de maio de 2022
Em boca própria
Que ricas as autobiografias:
tantas façanhas
tantas patranhas
tantas fantasias
todas atestadas
todas comprovadas
todas garantidas
por quem as gozou
ou por quem as forjou.
Tarefa
Fechei-me um pouco
depois mais
depois mais um pouco
fui me fechando assim
de pouco em pouco
devagar
até me fechar todo
para todos e para mim.
sábado, 7 de maio de 2022
Hipótese
Não se sabe se foi um entusiasta do gongorismo ou um detrator quem sugeriu que Deus, se fosse escritor, seria o mais legítimo e retumbante dos gongóricos.
